quinta-feira, 19 de maio de 2016

Cara de 30, corpinho de 87

Check!

Quem me conhece sabe que minha saude é algo mais instavel que a lealdade do Temer. Tenho longos relatos nesse blog sobre minhas passagens por hospitais lioneses. Reconheço cada um pelo cheirinho do banheiro. Fiz uma cesareana pra retirada de um tumor em 2012. Em 2013, fui operada do coraçao. Recentemente, descobri que meus joelhos tem uma pequena ma-formaçao, o que faz com que as rotulas escolham qual caminho seguir quando dobro os joelhos. Por isso, semanalmente, faço uma sessao de fisioterapia. Em sete anos de Lyon, dei entrada no Hôpital Femme Mère Enfant (ala endocronologica e ala cardiaca), no Edouard Herriot, no Hospital Militar e, recentemente, no Saint Joseph Saint Luc. Esse recentemente guarda a historia de hoje. 

Ha duas semanas, eu estava de bouas no meu quarto tentando me lembrar no Netflix do ultimo episodio de HIMYM assistido. Faz uns dois anos que eu tento terminar essa série. Eu tou na segunda temporada. Tem muita coisa na vida pra se ver, minha gente. E o Netflix nao veio ao mundo pra trazer paz de espirito à gente indecisa e sem foco. Eu sou de gêmeos. Gê-me-os. A gente sai de casa pra comprar pao e volta inscrita na faculdade de musica. Com um sorvete na mao. Mas a questao é que eu comecei a sentir uma dor no peito. Assim, tao de repente. E a dor foi aumentando, aquele aperto no coraçao. Nao era uma dor de pressentimento porque lembrei que meus filhos nao estavam viajando de carro e que meu marido nao estava na guerra. Lembrei ainda que eu nao tenho filhos. "Meu deus, por que essa dor? Seria amor?" 

Nao era.

Entao, me apoiei na mesa e comecei a chamar pelo nome da minha esposa Gertrudes, porque essa se parecia, em muito, com uma dor que somente uma pessoa com uma esposa de nome Gertrudes tem. Mas ninguém respondeu ao meu chamado. Ainda bem, diga-se de passagem. 

A dor foi tao abrupta, que pensei que poderiam estar fazendo vudu comigo. Mas, como sabiamente disse o Pica-Pau, "vudu é pra jacu". Qualquer que fosse a origem, o importante é que, quando eu me debruçava, doia. Quando eu respirava, doia. Foi aih que descobri que meu recorde em apneia, num momento de desespero, é de quinze segundos. Imaginando que praticar apneia nao iria necessariamente ajudar, tomei um paracetamol. Acho que se eu tivesse comido um amendoim, eu teria tido o mesmo alivio. Foi entao que decidi fazer minha visita anual ao hospital. 

Minha coloc foi comigo. Enquanto eu era atendida por um enfermeiro, ela fazia minha ficha na recepçao. Perguntaram a ela o que eu fazia na França, porque eu me mudei, se eu estava legal no paihs. Vocês sabem, essas informaçoes super uteis pra quem esta dando entrada num hospital. Eles alegaram que as perguntas eram necessarias para saber se ela me conhecia bem. Sério? "Nao, querida, ela me achou na rua, me deu um golpe de clava e me arrastou pro hospital".

E aih começou aquele procedimento de praxe: questoes sobre o historico de saude familiar. Meus pais tem problemas cardiacos? Na familia temos problemas de pressao alta? Eu sei que o intuito é de guiar um pouco os medicos, mas eu tenho trauma de diagnosticos equivocados. Como por exemplo, da medica que me receitou vitaminas quando eu disse que estava perdendo os cabelos devido ao tumor. Entao, pra que eles nao se baseiem em uma pista falsa, respondo 

- Adotados. Todos. 
- Seus pais sao adotados?
- Todo mundo. Meu pais e os pais dos meus pais antes deles. E os pais dos pais dos meus pais antes deles também. Ninguém sabe de historico familiar, é uma coisa louco, doutor. Qualquer um pode ter uma doença hereditaria. Ou nao. Acho que até eu sou adotada. E quem sabe eu sou sua filha. Pai, me cura.

Assim, ele teve que fazer radiografias dos meus pulmoes de baixa capacidade apineica e um exame de sangue completo. Enquanto isso, eu tava tao branca que estava desaparecendo aos poucos na maca. Quando a enfermeira voltou, soh tinha a pulseirinha com meu nome em cima do lençol. Mas ela me encontrou e começou com outra sessão de perguntas:

- De zero a dez, qual a intensidade da sua dor?
- Sei la, oito. 
- Oito?! Mas entao é uma dor quase insuportavel!
- Ah nao, pera, moça! Seis entao.
- Seis?! Mas entao nao é tao forte assim.
- Nao, ah meu deus! Seis e meio? Seis ponto oito? Sete?

Eu morrendo aos poucos e a mulher querendo que eu desse conta de dar nota pra dor.  

- Olha, eu nao sei. Quando eu nao respiro, a dor é seis. Mas quando eu respiro é oito e, quando eu respiro profundamente, é nove. Entao, como eu nao posso parar de respirar...
- Claro, né!
- Mingula! Claro o que? Fale direito que eu tenho o coraçao que poderia ser o da sua avoh!

Eu passei a noite dando nota pra essa dor. So que eu estagnei no sete. A dor ja estava mais suportavel e eu podia até bocejar, vejam soh que sorte a minha, mas eu tive medo que eles me mandassem pra casa ainda com dor, entao fiquei la por mais algum tempo, até eles descobrirem o que eu tinha. 


um figo com pericardite
La pras 3h da manha, o médico do hospital trouxe o veredicto: pericardite. Isto nada mais é que uma inflamaçao na membrana que envolve o coraçao. Três meses de tratamento, um mês longe do trabalho e repouso absoluto sob risco da coisa voltar. 

Uma semana depois, fui consultar um cardiologista pra fazer um electrocardiograma. 

- Por que você estah aqui?
- Eu tive uma pericardite.
- Sua familia tem historico de problemas cardiacos?
- A sua tem?
- A minha? Tem.
- Papai?


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E pra quem é de feici:

.caso.me.esqueçam.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Morcegos à abejas

Voltandos às origens

Quem segue o blog desde 2009 merece um biscoito sabe que eu morava com dez pessoas numa casa em Lyon. Bom, esse numero variou muito com o passar dos anos: as vezes eramos oito, mas ja chegamos a ser treze. Eh de se imaginar que as coisas nem sempre eram faceis. Tinha sempre algum mala que raramente ajudava nas tarefas domesticas, mas pelo fato de sermos numerosos, a faxina acabava sendo feita por algum guerreiro ou guerreira. Se duas pessoas estavam com preguiça de cozinhar, o jantar acabava na mesa do mesmo jeito pelas maos de duas ou três mais dispostas. Confesso que, no começo, eu achava que seria dificil morar com dez pessoas, mas dificuldade mesmo eu senti na hora de mudar de casa e... morar com somente duas.

Meus leitores queridos, volta e meia vocês me perguntam "Luci, transar no chuveiro engravida?" ou ainda, "Luci, o que é um-a coloc?" Nesse post, vou responder à segunda pergunta, que ta dentro do  tema, ta? Entao, quando você vira adulto, ou rico, o que vier primeiro, e sai da casa dos seus pais, você pode dividir seu teto com alguém, certo? Pois "coloc" nada mais é do que a versao francesa do roommate, ou ainda a forma de moradia. Exemplo: "eu moro numa coloc. Eu tenho dois colocs". A pessoa do coloc, claro, pode vir em varias versões. Versão segunda-mae, versão gota-serena (que de serena soh tem a gota), versao velha-louca-dos-gatos, versao apendicite-inflamada etc. Atualmente, eu moro com esta ultima.

"Luci, o jantar ta pronto"
Eu me mudei dessa casa supra-citada em 2014 e fui parar no centro da cidade, num apartamento, no bairro da Guillotière. Vocês lembram desse bairro, né. nao lembram O meu apartamento atual é bem escuro, parece uma caverna. Quando fui visita-lo, com uma lanterna na mao, me deparei com lindas pinturas rupestres e centenas de milhares de morcegos. Eu tenho medo de morcego (eu ia fazer uma piada com o Batman, mas nao achei nenhuma, podem ficar tranquilos) mas eu prefiro olhar pelo lado positivo: graças à troca cultural, minha audiçao ficou mais apurada desde que me mudei e passei a me deslocar usando ecolocalizaçao. Eh maravilhoso.

No comeco de 2015, eu fui pro Brasil. Nessa mesma época, eu morava na caverna com um cara que ja tinha morado comigo na outra casa. Mas precisavamos escolher uma terceira pessoa para baratear o aluguel (percebe-se que eu nao sai da casa dos meus pais porque fiquei rica). Eu estava super empolgada com a viagem porque ja fazia dois anos e meio que eu nao pisava no Brasil, entao releguei a segundo plano a escolha do nosso futuro coloc. Ledo engano. Meu coloc e eu acabamos escolhendo, sem muita reflexao, um carinha que parece, e muito, com o personagem abaixo: 




Sim, o principe do Shrek. A unica diferença é que meu novo coloc tem queixo duplo. Da pra colocar uma folha A4 no meio do queixo dele. Eh uma pena que manter uma folha de papel no queixo de alguém nao seja bem algo de grande proveito. A principio, Principe era legal. Mas nao demorei muito pra sacar que eu estava morando com uma pessoa perturbada. Ja nos primeiros dias de convívio, ele me mandou um sms super grosseiro. Eu fiquei tao indignada com a afronta que contratei um franco-atirador pra dar cabo dele naquele dia. Mas ao chegar em casa, ele me recebeu com uma cerveja e perguntou como tinha sido meu dia, como se nada tivesse acontecido. Com os olhos semi-cerrados, estudei a situacao em silêncio, acariciando a barbicha inexistente. "Hmm… Este principe é perigoso. Conhece meus pontos fracos. Preciso usar de muita perspicacia e cautela para derrota-lo" e sai pelo apartamento gritando de braços abertos enquanto emitia meu sonar.

Mas ele tinha manias que eu odiava!

1 - O cara usava todo o espaço do congelador com garrafas pet vazias. Sim, a pessoa abria o congelador pra procurar um gelin e se deparava com um monte de garrafas de plastico!

- Cara, tu sabe que tu colocou garrafas vazias no congelador?
- Sei.
- ...
- ...
- Tu... pode explicar por que?
- Pra que nenhum fungo se desenvolva na boca delas quando eu for usa-las.

Eu sempre tive vontade de enfiar aquelas garrafas congeladas no reto dele. Ao invés disso, mergulhei o gargalo das garrafas no sanitário e coloquei de volta no congelador. Mentira, meu eu-nove-anos-de-idade quis fazê-lo, mas para o bem da (minha) humanidade, eu reprimo alguns seres que habitam em mim. Alguns.

2 - Antes mesmo da gente se conhecer, ele namorou por um tempo uma argentina que morava na França. Eles foram passar as férias na cidade natal dela e ele voltou mais argentino que o pai da menina e, durante todo o ano em que moramos juntos, tive que aguentar:

- Luci, como se diz "abelha" em português?
- Abelha.
- Nossa, como em espanhol! "Abeja"!
- Nossa.

- Luci, como se diz "passaro" em português...?
- Pass...
- …porque em espanhol se diz "pajaro". :D
- ...

Outro dia, segurando uma cuia com chimarrao: "os argentinos tomam chimarrao. No sul do Brasil também se toma chimarrão. Você sabia disso?" E você sabia que la na Paraíba a gente passa a pexêra em francês metido?

3 - Ele praticamente nao fazia faxina. Tenho que dizer que, em um ano, eu nunca o vi lavar o banheiro, nem o chuveiro, nem passar pano na casa, nem espanar! "Nossa, Luci, o que ele fazia entao?" Raiva! Muita raiva! Ele deixava tanta comida no ralo da pia que eu ficava imaginando se ele tinha conseguido comer alguma coisa. O fogão meu deus tinha uma amostra de cada coisa que ele havia cozinhado durante o dia. Eu ainda tou pensando numa piada com o Batman. Amavelmente, com os olhos flamejando e labaredas de fogo saindo pelos ouvidos, fui explica-lo que a faxina deveria ser feita igualmente pelos três colocs e que eu nao pedia que ele fizesse nada mais ~complexo~, como limpar o sugador do fogao, mas soh o basico mesmo.

- Mas até o sugador do fogao eu ja limpei!
- Quando?!
- Em janeiro.
- Cara... a gente ta em dezembro.

4 - A maioria das pessoas aqui me chama de Lucie. Meus amigos íntimos me chamam de Lulu. Meus amigos e ele. Um dia, enquanto discutíamos, ele decidiu me atingir e me chamou de... Luciana. "Lu-ci-a-na, quando é que você vai embora, Lu-ci-a-na?" Quando a briga acabou, ele voltou a me chamar de Lulu. Mas foi bastante estranho ver alguém tentando me atacar me chamando pelo meu próprio nome. Sua… sua espécie de LUCIANA!

5 - Principe gosta de ser aquele cara meio resolve-tudo, que TEM de ser reconhecido pelo trabalho que fez. Mais do que gostar de ajudar, ele gosta que as pessoas precisem dele. Quando eu comentei com um morcego que o pneu da bike nao funcionava, Principe, do alto do seu cavalo branco, disse "calma, eu vou te ajudar". Broder, eu nao preciso da sua ajuda, mas no dia em que eu tiver uma folha de papel precisando ser colocada num queixo, eu te solicito.

Mas as nossas tensões vinham principalmente do fato dele achar que os objetos que pertenciam a ele  fossem uma extensão dele próprio, como fazem certos caras com seus carros. Entao, criticas negativas deveriam ser evitadas para o bem da caverna.

Um dia, Principe trouxe um aspirador de po la pra casa. Mas nao qualquer aspirador de po. Ele trouxe o primeiro aspirador de po fabricado na Europa. Na verdade o trambolho era tao esquisito que eu fiquei em duvida se ele vinha do passado ou do futuro. Ele tem o meu peso e funciona muito mal. Sinceramente, se eu ficasse de quatro e aspirasse o chao com a boca (nao imaginem essa cena), eu teria tido um resultado melhor que aquele oferecido por esse aspirador de po. Um dia, um rapaz que ja tinha sido coloc de Principe num passado distante, deu de cara com o aspirador na nossa sala, sendo puxado por quatro cavalos, e disse "nossa, esse aspirador ainda existe?" Existe. Existe e ao invés de aspirar ele tosse.

Pronto, sentiram a vibe do aspirador, ne? Eu tive que fazer essa introdução para que voces entendessem a suscetibilidade do meu coloc. A proprietaria do apartamento, sensibilizada pela minha dificuldade em fazer a faxina com o trambolho, me disse que ela tinha um aspirador em desuso e queria saber se nohs estariamos interessados.

- O fio tem mais de um metro de comprimento?
- Claro.
- Quero.

E assim foi. Entao, eu comentei com ele a proposta da proprietaria, mas parecia que eu tinha dito que ela queria um dos testiculos dele no lugar do aluguel.

- O que?! Por que?!
- Nao sei, porque o aspirador dela deve ser mais moderno.
- Se é assim, eu vou guardar o meu aspirador.
- Ta bom.
- Vou guardar ele no meu quarto!
- Bom, nao precisa, mas se você quiser, tudo bem.
- Nao! Eu vou guardar sim!
- ...
- Ninguém quer o meu aspirador...
- ...
- Mas quando nao tinha nenhum aspirador, vocês bem que usavam ele, nao é?

Eu nao ouvi o resto, porque eu dei um tiro na minha cabeça. Um mês depois, Principe se mudou. Ouvi dizer que ele foi pra outra cidade.


Agora somos três meninas. Sera emocionante quando estivermos todas menstruando ao mesmo tempo. Mas sinceramente, eu nao sou a unica a morar com gente esquisita. Gaspar morava com um garotinho cheio de acido meio bipolar. Ou o cara tava feliz e fazendo o bem sem olhar a quem, ou tava xingando e quebrando a casa (geminianos!). Na véspera do dia em que ele deixou a coloc, ele gritou com todos, disse que o mundo tava contra ele, queimou uma cédula de 100 euros (sim), chorou nos bracos de Gaspar e depois foi pro quarto. No outro dia, ele foi embora sem avisar e ninguém nunca mais o viu. Que saudade dos meus dez!


Para incentivos, pitacos e atualizacoes:
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Tempestade numa panela d'agua

No começo do ano passado, eu tava me recuperando de uma desilusao amorosa, de um idiota que fez cocô no meu coraçao. Num fim de semana de amargura, decidi ir pra festa de um amiguinho. La, encontrei um cara que tinha um rolo de papel higiênico. Ele limpou todo o cocô do meu coraçao e, desde entao, tamo junto. 

Essa eh minha introducao.

Ele eh bem bonitinho, o bichinho, bem loiro. Muito loiro. Na verdade, ele é tao loiro, que quando a gente ta meio longe, a gente pensa que ele nao tem sobrancelha, mas ele tem logo duas. E os cilios dele sao transparentes. Quando eu chamo ele de Gasparzinho, ele aprecia médio. Mas ele nao sabe falar português, entao ta tudo serto (meu amor, se um dia você aprender português e ler isso, "serto" nao se escreve assim, ta? Eh com dois "S". Oin, também te amo). 

"Luci de namorado novo... Manda nude". Mando nao, pessoas. Mas eu vou contar uma historia, ta, que é melhor que nudes*. Eu tenho uma maldiçao coisa com namorados desastrados. Quem acampanhou o blog na época, sabe que meu ex ja tentou me esganar enquanto dormia, quebrou minha bicicleta e metade do mobiliario da casa em que a gente morava e tudo isso sem querer. Camilo, se você ainda falar português… bom, desculpaê, mano! Entao, Camilo quebrava tudo, mas a façanha de provocar uma enchente no quarto foi obra de Gaspar (agora que eu tou pensando que esganar a namorada enquanto ela dorme nao é a perfeita descriçao de uma pessoa desastrada, mas deixa pra la).

*nem eh

Eu comecei a desconfiar que Gaspar era desastrado quando ele chegou um dia em casa falando do trabalho: "hoje eu me dei um murro na cara". Eh, a historia começou assim. "Eu fui tentar tirar um saco de areia do carro, mas ele tava muito pesado! Dai, enquanto eu fazia força pra puxa-lo, minha mao escorregou e eu me dei um murro na cara". O cara por pouco nao se neutralizou sozinho. High level  de mao-esquerdice: lutar MMA com um saco de areia. E perder.

Mas desastre mesmo, eu vi no final do ano passado. Quando o inverno chega por aqui, a gente tem que retirar o ar que ficou acumulado nos aquecedores. Isso otimiza o funcionamento do aparelho. A tarefa consiste em girar levemente uma peça do aquecedor, fazendo com que o ar saia, geralmente com um pouco de agua junto. Assim que o ar sai, fecha-se a valvula outra vez. A açao dura cinco segundos. Mas para o sucesso da operaçao, é preciso ter à mao uma bacia pequena e uma chave francesa. Pode ser uma chave inglesa tambem, mas desde a Guerra dos Cem anos, as chaves inglesas nao funcionam muito bem na Franca. O senhorzinho da foto, por exemplo, muito discreto no seu modus operandi, executou o serviço com um copinho de café e uma chave de fenda. Eu, por via das duvidas, menos por temor que por exagero, realizo a açao com um tonel que cabe a familia dentro (vale salientar que minha voh pariu bastante nos anos 50). O recipiente se faz necessario porque a pressao dentro do aquecedor é muito forte e as vezes o ar liberado sai, como eu disse, com um pouco de agua.

No comeco do inverno, Gaspar chegou do trabalho meio derrubado e resmungando. Pensei que ele tivesse pego uma briga com outro saco de areia, entao nao fiz comentarios. Ele falou que tinha tido um dia ruim, mas nao entrou em detalhes. Ele disse somente que iria tirar o ar do aquecedor e que logo me daria antençao. Entao, la estava eu lendo um livro na cama sobre o Coliseu, deitada de barriga, as perninha balançando. Inclusive, voces sabiam que o nivel da arquibancada mais distante da arena do Coliseu era reservado aos pobres, aos escravos e as mulheres? Pois eh, esse blog eh um oceano de cultura. Falando nisso...

Enquanto apreciava minha leitura, eu ouvi, de repente, gritos de pessoas no quarto e buzinas de carros. Levantei o rosto e vi familias inteiras correndo na mesma direcao, fugindo de uma onda gigante que chegava à toda velocidade. Eu so tive tempo de salvar o Coliseu. Tinha um geiser descontrolado saindo do aquecedor: Gaspar tinha aberto tanto a valvula do aquecedor, que a pressao a jogou dentro da panela que ele inocentemente segurava e a agua da cidade foi sendo jorrada aos litros dentro daquele quarto. Eu presenciei um fenomeno raro, uma especie de chuva indoor, a primeira observada na França. Felizmente, eu reagi rapidamente para ajuda-lo:



Apos passar 20 segundos dando voltas em torno de mim mesma, corri pra fechar o registro da agua. Sai do quarto correndo, desci dez lances de escada num pulo, entao lembrei que eu nao sabia onde era o registro geral e voltei pro quarto. Vi o dedinho loiro da criatura enfiado no aquecedor, tentando conter a agua, em vao. Tive pena, mas quis rir. Ou foi o contrario. Perguntei a Gaspar onde era o danado do registro, mas fazia somente um mes que ele morava la e ele sabia tanto quanto eu. Ele pediu pra eu acordar o coloc dele que dormia no andar de baixo.

Desci de novo as escadas e bati descontroladamente a porta. Quando o cara abriu, ele tinha um olho fechado e o outro meio aberto, mas a situacao exigia uma açao rapida, entao fui sucinta na explicaçao.

- Gasparaquecedorcoliseuenchenteregistro! Onde eh que eh o registro?
- O registro de que?
- O de agua! Tem uma enchente!
(ele abriu um olho)
- Nao sei. Por que?
- Gaspar quebrou o aquecedor!
- An? Como assim?
- Ai, meu deus!

Olhe, eu ja estava esbaforida, imaginando encontrar meu namorado azul, boiando afogado no quarto, entao pedi pra ele subir, mas ele foi na velocidade turista-visitando-igreja e eu la, incentivando ele com os olhos arregalados. Chegando la, juro, tinha agua na parede, no teto, debaixo da cama, meias molhadjinhas e o tapete encharcado. Mas felizmente, Gaspar tinha conseguido lutar contra a pressao da agua e recolocado a valvula no lugar. E o melhor de tudo, ele continuava transparente e nao azul. Depois de secar o quarto (e o computador e os livros e as roupas), encontramos a panela. E uma chave inglesa.





sexta-feira, 22 de maio de 2015

Para sua saude, quatro frutas diarias


oi

Seria cu doce mentira dizer que eu passei um ano sem postar porque estava sem tempo. Gente, eu trabalho 12h por semana! (Beijos, capitalismo). O que me falta é vergonha na cara mesmo. Mas eis uma boa razao pra voltar à ativa: um post comemorativo pros meus seis anos na França. Com certeza, esses foram os anos mais intensos da minha vida, algumas das melhores e piores coisas que vivi aconteceram no decorrer deles. E que bom! Mas o que fica no coraçao (e que vai pro blog) é a cachorrada do quotidiano. Salve!

Final de semana passado, tava rolando o Nuits Sonores, um famoso festival de musica eletrônica de Lyon. Pra comprar o ingresso, você precisa vender seu irmao caçula. E se sua mae reclamar, venda a mae também, porque o festival dura quatro dias. Claro que eu nao fui nos shows mais caros (lembram que eu trabalho 12h por semana?). Mas os pobres também foram agraciados com noites mais baratas. Eu, por exemplo, comprei um passe de três reau e outro de dez. Pra mesma noite.

O objetivo era começar a noite bebendo uma cerveja de leve na casa dos amigos, ir pro primeiro show e, antes da meia-noite, chegar no segundo show, porque depois desse horario, cê nao entra mais, colega. Eu tinha a noite inteira pela frente e claro que eu iria chegar à tempo. O problema é que a noite começou errada e, ao inves de cerveja, comecei bebendo um tipo de alcool que o pai de uma amiga produz utilizando pêras. "Olha, Luci, bebe. Tem gostinho de pêra". Gostinho de mooorte, minha filha! O negocio era tao forte que era eu bebendo e a lagrima escorrendo. Mas a gente ficou la de bouas, falando da vida alheia, comendo amendoim, pêra, eu chorando… Quando, de repente, 21h!

Debaixo de chuva, pegamos um ônibus com um monte de gente estranha. Eu tava super comunicativa e, quando eu estou super comunicativa com gente que eu nao conheço, pode acreditar, o nome disso é alcool. Nunca na minha vida que eu vou falar com pessoas desconhecidas de forma expontânea. Credo. Mas la estava eu falando do meu guarda-chuva pra moça do lado. Dai que a gente chegou e a unica coisa que eu vi foi a fila do bar. A musica tava uma bosta e eu nao sei onde foram parar as dez da noite, mas ja eram 23h!

Eu iria pro segundo show, no Sucre, com um amigo, Adri, que ja estava comigo. O Sucre era do outro lado do planeta, ele iria de bicicleta e eu teria que pegar um ônibus + tramway. Eu nao sabia exatamente onde ir uma vez que descesse do tramway, mas encontrei mais gente esquisita la e pensei em segui-los ja que, com certeza, eles iriam pro mesmo lugar que eu.

Nao foram.

Eu desci do tramway, toda errada, seguindo a galera que ia pra uma festa num barco. "Meu deus, o Sucre virou um barco". Entendi que nao era la, dei meia-volta e nao vi mais nada. As pessoas tinham sumido. Todas. Tinha um posto de gasolina aberto, mas os postos daqui nao tem frentista, entao foi bem solitario ver tudo iluminado, sem ninguém, parecia uma cidade abandonada. Cruzei algumas pessoas que iam pro barco… maldito… que nao tinha a menor ideia de onde eu deveria ir. Entao, finalemente liguei pra Adri pra que ele viesse me buscar. Teria sido genial se ele tivesse atendido o telefone.

E eu andei, liguei, andei, religuei, a chuva aumentou, diminuiu e eu andando. Eu ligava par Adri, nada acontecia. Comecei a ter saudade dos meus amigos, da minha casa. Vento friiio… Silêncio. Vazio. Uma musica de Djavan na cabeça. Entao, bastante resignada, como soh esses momentos te ensinam a ser, escolhi um cantinho, tirei um vira-lata do bolso, um copinho vazio da starbucks do outro e comecei a pedir esmola. Pronto. Minha mae me educou tao direitinho pra eu terminar assim, meu deus. Anos de faculdade jogados no lixo. Meu tratamento odontologico, super caro, que viria me poupar anos de terapia. Uma carreira internacional no balé. Tudo jogado fora. Eu nunca fiz balé, mas eu poderia ter feito. Aquele momento é que nao iria permitir.

Aih um cara passa, me joga uma moedinha e eu vejo que é Adri! Iupiii! Ele parou a bicicleta, a gente se abraçou, pinotou no meio da rua e eu subi na bike dele. Posicionei minha querida bunda no guidao, ja que os franceses nao tem costume de levar as visitas no quadro. La estava eu, sao e salva, com meu grande amigo (literalmente). So que, enquanto eu estava mendigando, Adri estava enchendo a cara no primeiro show. Entao, ele estava bastante empolgado com a vida, por assim dizer. No curto caminho que nos levaria ao show, tinha uns bancos, umas arvores e o cérebro de Adri viu tudo isso como obstaculos legais à transpor. Ele ficava dando voltas e desviando dos bancos no ultimos segundo. E eu la, o copo de starbucks numa mao e o cu na outra.

Ele viu uma arvore cuja as folhas iam quase até o chao e disse "a gente vai atravessar essa, Lulu, se segura". Olha, eu nem tive tempo de dizer nao. Ele acelerou e se abaixou. Mas eu, que nao tinha muita opçao, levei uma lapada de galho na cara. Eu comi folha, joaninha, casulo, macaco e toda a fauna/flora existente naquele micro mundo ecologico. A bebedeira passou num segundo. Mas o pior estava por vir. Logo depois da arvore, tinha um banco. Tinha um banco no meio do caminho, no meio do caminho tinha um banco de pedra, redondo e grande como uma nave espacial. Eu soh tive tempo de gemer. A bicicleta bateu no banco e ficou onde estava. Eu fui embora. Enquanto eu voava, pensei nos momentos felizes em que era mendiga e desejei voltar no tempo, mas era tarde demais. Felizmente, eu aterrissei como uma flor no banco. Soh machuquei o pé. E a mao. E a consciência. Sangrou um pouco, mas eu ri mais do que outra coisa.

Cheguei feliz na noite, dançando e mancando, um pouco depois da meia-noite. A noite foi linda. Eu falei com todo mundo, eu apertei o mamilo de um cara, eu subi nos ombros de outro, eu tirei os sapatos, eu fiz amigos, eu dancei e, às 7h da manha, decidimos voltar pra casa. A gente queria ser responsavel entao decidimos colocar a bicicleta dentro do tramway e voltar assim. Mas o tramway estava meio longe, entao, subi na bicicleta dele (a gente nao aprende nunca) e traçamos nosso caminho. Quando viramos a esquina, vimos o tramway de longe chegando na estaçao. Adri bateu no peito e disse "a gente vai pegar aquele ali. Se segura, Lulu". Eu segurei no guidao com minhas nadegas, entreguei nas maos de deus e fomos.

Ele pedalou como um condenado e chegamos triunfalmente à tempo de pegar o bonde. As pessoas riam da palhaçada. Mas quando colocamos a bicicleta no tramway, o motorista abriu a portinha dele e mandou a bike descer. Voltei com outros amigos e, chegando em casa, encontrei Adri todo ensanguentado. Ele me contou que a roda da frente se soltou enquanto ele pedalava. Tive uma doh! Somente no dia seguinte foi que a gente se deu conta, juntos, que, no momento em que o motorista pediu pra ele descer, Adri tentou tirar a roda da bicicleta pra mostrar que… que a gente nao ia andar de bicicleta dentro bonde? Nao sei. Soh sei que ele esqueceu de fixar a roda depois e deu no que deu. Demos boas gargalhadas. Ele, nem tanto.

E o que fica como aprendizado, crianças? Pêras sao perigosas.

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Para aventuras menos complexas,

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

So faltou o Rodrigo

Nunca tivemos problemas quanto à uma falta de convidados nas nossas festas. Somos nove moradores na teoria, mas doze na pratica. Entao, uma festinha com os amigos proximos, beira facilmente a centena. Por isso, com o passar dos anos e a popularidade de algumas festas, nos vimos obrigados a desenvolver certas praticas que pudessem proporcionar a loucura geral dos convidados e a tranquilidade dos vizinhos. Falhamos miseravelmente. Pelo menos quanto à segunda parte.

As primeiras festinhas tinham todo um cheiro de inocência. Cada criança trazia sua garrafa de alcool, um tira-gosto (96,5% das escolhas giram em torno de amendoins borrachudos, mas 100% dos amendoins sao devorados antes das 2h da manha) e dois ou três coleguinhas. Eles chegavam, bebiam, vomitavam e iam embora. Tranquilo. Mas as festas foram ficando mais conhecidas e começamos a nos adaptar à nova demanda: de umas três festas pra cah, começamos a disponibilizar barris de cerveja, muros de som, um dormitorio pros guerreiros (esvaziamos um grande quarto da casa e cobrimos o chao de colchoes), uma recepçao, um fumodromo com musica e alguns metros de pizza feitas num forno à lenha. Resultado: na festa do sabado, eramos quase 300. 


Aqui qué a festa?

Em festas assim, as pessoas nunca chegam em pequenos grupos, elas chegam em caravanas. De carro, metrô, jegue, bicicleta. Vi um grupo saindo de um bueiro. Eu, particularmente, sempre peço pros meus convidados trazerem amigos pra que eles nao se sintam deslocados caso eu saia de mim va dançar. Mas tem gente que nao sabe ponderar. Uma convidada, que trouxe metade da festa, foi logo se justificando na entrada: "Me disseram que era pra trazer os amigos". Quando eu vi a quantidade de pessoas que ela trouxe, quis explicar que era pra trazer os amigos mais proximos e nao todas as pessoas que ela ja conheceu na vida. A avoh dela ficou la no sofa, com um Malibu na mao. O professor de fisica do ensino médio foi dançar com a vizinha dela. O evento foi compartilhado no Feici. As pessoas ligavam chamando os amigos. "Traz todo mundo", ouvi um dizer ao telefone. Entao, a cada dez minutos, viamos uma horda ensandecida chegar e se enraizar na nossa sala. Para a ocasiao, veio gente de Marselha, veio gente de Paris. A meia-noite, eramos bastante numerosos e meus colocs ainda nao tinham se decidido se aquilo era algo a se comemorar. Encontrei um antigo coloc, mas no momento em que começamos a conversar, um grupo que pedia passagem o levou para longe e nunca mais tivemos noticias dele.

A festa se concentrava em quatro pontos: o fumodromo, a frente da casa, a sala e o subsolo. Este ultimo era o local mais procurado, ja que sediava o bar e os djs. Desci com dois amigos pra ouvir um pouco de musica, mas logo fomos engolidos pela fumaça que saia da maquina de gelo seco e, em três segundos, eu ja tava pegando na mao de pessoas que eu nao conhecia. Eu nao sabia onde meus amigos estavam. Eu nao sabia onde eu estava. Fiquei vagando sem rumo e trombando nas pessoas que brotavam na minha frente. Elas tinham uma cara tao perdida quanto a minha. Uma menina se jogou em cima de mim, me pegou pela gola e me pediu pra tira-la dali. O problema é que algum coloc de inteligência muito desenvolvida ligou a maquina e a escondeu atras de um sofa pra ninguém tropeçar nela, mas ninguém sabia exatamente em qual tomada ela estava ligada e atras de qual sofa. Taticas de guerra foram prontamente colocadas em pratica e vi um coloc se rastejar em direçao ao ponto mais denso de fumaça e desaparecer nas brumas. Mais uma grande perda. A maquina soh parou de fazer fumaça quando o conteudo se esgotou. Foi nesse momento que nos demos conta de que eramos bem mais numerosos do que pensavamos. Metade da festa foi descoberta e os reencontros foram felizes.

No fumodromo, uma menina fez uma entrada fenomenal usando um casaco de pele, herança da avoh. No instante em que bati os olhos no casaco dela, imaginei todas as cenas catastróficas possíveis e, antecipando o pior, fui preveni-la: "você é muito corajosa de vir a uma festa assim. Você nao tem medo que alguém derrube bebida em cima do seu casaco?" e ela, com ar superior, respondeu que "nao. Eu nao me importo. Eu nao gosto de me vestir de acordo com a ocasião, gosto de ser original... pra fazer esporte, ir às compras ou ir pras festas...". Meu lado cruzeta aflorou e eu tive vontade de jogar minha cerveja naquela merda de casaco e avisar que ser original é chegar nu.

Os problemas de superlotação logo apareceram. A casa tem dois banheiros, um no andar de baixo, outro no andar de cima, mas bloqueamos o acesso às escadas que levam ao primeiro andar (porque também dao acesso aos quartos) com um colchao de espuma. Puro luxo. O resultado é que a fila do banheiro saia da casa, seguia pela calçada e dava três voltas no quarteirao. Monique chegou em mim, carinha desolada: "eu segurei tanto meu xixi na fila que, mesmo agora depois de ter ido ao banheiro, minha bexiga ainda ta doendo". Tive doh. Aquela quantidade de gente tava insuportavel, entao, nao era nem 1h da manha quando decidi ir embora. Mas fui em grande estilo: subi em cima do sofa, dei um mosh na multidao e fui conduzida até a saida.

Voltei no dia seguinte, no final da tarde, rezando pra que a faxina ja tivesse sido feita. Nao tinha. Mas a casa estava inteira. A festa durou até as 9h. A cerveja acabou à 1h da manha (900 copos de cerveja consumidos), entao, os colocs empurraram pros convidados as velhas garrafas de alcool que sobram a cada festa que fazemos, aquelas que os convidados compram à 5 euros e que ninguém quer beber. Pois bem. Beberam. E ainda pagaram por isso.



Um coloc explicou porque odiou tanto a festa. Disse que, enquanto ele dormia, um casal entrou de fininho no quarto, se apoderou da cama do colega de quarto ausente e "copulou". Sim, ele usou essa palavra. Nao, ele nao tem 126 anos. A avoh da menina, que ainda se encontrava no sofa, riu do termo. "Eh trepar, meu filho. Trepar".

Uma convidada tropeçou no colchao enquanto descia as escadas e saiu bolando ladeira abaixo. Abriu o queixo, foi pro hospital às 4h da manha. O bar produziu 600 euros, mas acho que, depois de terem pago dj, caixas de som e cerveja, nao deve ter sobrado muita coisa. Também soube que um vizinho chegou às 8h da manha pedindo clemência. Disse que os vizinhos estavam cansados do barulho, mas que eles tem medo da gente entao, ninguém disse nada, nem quiseram chamar a policia. Olha, tudo bem que meu bairro parece o Bronx (gente fuzilada, carro queimado), mas é tudo exagero. Somos legais. O problema é que minha rua é uma rua de velhos de mente velha, entao preconceito rola solto. Outro dia, uma senhora chegou no emprego de um coloc (que fica no final da rua) e perguntou se as vans que ficam na frente da nossa casa, sao vans de prostitutas. Realizem. Nao sei se ela estava interessada em se candidatar à uma vaga, mas dispersamos os rumores.

Mas a proxima festinha taih: dia 15 de fevereiro, cumbia e cerveja. Vocês estao todos convidados, toda a internet. Tragam os amigos, caso eu saia da festa. Ou de mim.


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A questão do gênero na Guillotière

efeito dos ventos lioneses


Quanto eu escuto todas as portas da casa batendo por causa do vento, até as fechadas - o vento abre a porta usando o trinco e a fecha novamente -, eu sei que nao é um bom momento pra sair de casa, ainda mais de bicicleta. Mas eu tive aula e fui obrigada a sair de casa (faz uns 24 anos que eu lamento essa frase). Normalmente, o trajeto se da numa grande avenida que segue ladeira abaixo. Entao, soh tenho que ter cuidado pra nao ser atropelada pelo tramway e tudo certo, mal preciso pedalar. Soh que semana passada tava tenso. Foi a primeira vez que eu andei de ré numa bicicleta. O vento parecia um coice e, quanto mais eu fazia esforço, mais eu sentia a resistência dele. Mas enfrentei o vento, enfrentei a aula e fui contente pra Guillotière encontrar um amigo praquela cerveja de fim de tarde.

Guillotiere é um famoso bairro de Lyon, famoso sobretudo pelas cantadas dos punheteiros sedutores de plantao que te cantam com tanta convicçao que sao capazes de te engravidar soh te dando bom dia - por isso, eu fecho as pernas e os ouvidos quando ando por essas bandas. Infelizmente, nao da pra evitar o bairro porque é onde se encontra um dos lugares mais visitados na cidade: o rio Rhone. Fui enfrentando ventos e homens pra encontrar o tal amigo na beira do rio.

Comprei umas cervejas, escolhi um lugar tranquilo e sentei tensa com todas as aproximaçoes suspeitas. Um cara veio, perguntou se eu tinha um isqueiro e saiu de boa com a negativa. Mas nao tive tanta sorte com o segundo, que sentou bem do meu ladinho. 

- E aih, tudo bem?
- Ah, nao, cara. Por favor. Você nao vem pra isso, né?
- Nao, nao vou incomodar.
- Tarde demais.
- Soh quero... sei la... A vida é bonita, né?

Eu achava que conversa mais vazia que a de elevador nao existia. Mas encontramos um novo adversario, senhoras e senhores: a conversa de beira de rio. Ela começou assim, mas se dirigiu pra isso:

- Que marca roxa é essa aih no seu braço?
- Nao sei, acho que bati na porta ontem...
- Nao foi o seu namorado, né?
- Errr... nao. Mas ja essa marca aqui, oh, foi da agulha do exame de sangue que fiz ontem.
- Você tem AIDS?

Juro. O cara simplesmente perguntou se eu tinha AIDS. Tudo muito tranquilo. Oi, tudo bem, a vida é bela, você tem AIDS? Enquanto isso, ja tinha enviado mensagens de socorro ao meu amigo pra que ele viesse logo me tirar daquela situaçao. Quando o inquisidor me viu com o celular, disse que iria embora "porque seu namorado pode nao gostar que eu esteja aqui". Ou seja. Foda-se se você nao curte minha presença, o negocio é nao estar aqui quando o macho chegar. Depois apareceu dois caras vendendo dorgas. O legal é que em nenhum momento eles ofereceram pra mim, soh pro meu amigo. Alias, eles nem sequer me olharam. Eu nao ia aceitar de todo jeito, mas acho um absurdo esse machismo. Até dos traficantes! Aff.


Pelo direito de ser tomada por uma drogada!



Quando o amigo chegou, pedi pra que fossemos pra minha area preferida do Rio: entre o banheiro publico e o lugar onde vende cerveja. Estratégia, amigos. Os banheiros publicos de Lyon foram reformados e agora as cabines, que ficam espalhadas pela cidade, tem uma porta automática que se abre apos o uso para ser completamente lavadas automaticamente. O tempo de lavagem é sempre o mesmo, pouco importa a sujeira do banheiro, mas ele pode ser mais ou menos longo de acordo com o peso da sua bexiga ja que a porta se fecha por um bom minuto. Daih que eu fui pela primeira vez, naquela noite. Aguardei pacientemente o usuario sair. A porta calmamente fechou ao mesmo tempo que uma voz automatica começou a narrar as etapas da lavagem onde o banheiro tem que estar vazio. Uma vez que ele estava limpo, entrei, fiz meu pipi transparente e voltei a beber. 

Mas uma vez que fomos uma primeira vez ao banheiro, morreu, amigo, as idas serao cada vez mais frequentes. Entao, 30 min depois, la estava eu de novo, soh que dessa vez, tinha duas pessoas na minha frente. Dois caras. Fiquei branca, porque acho que eles tavam la para fazer cocô - porque, né, o cara que ta realmente se mijando nao vai ficar esperando o Galvao Bueno dos toilettes narrar como é que o banheiro sera lavado, ele vai logo é no cantinho da rua e pronto (como um animal, alias. Mas bom, diante de uma grande necessidade, somos todos animais) mas isso ainda nao da motivo de violar alguém, amiguinhos. boa noite! Entao, era cocô. E, a cada etapa, a vozinha que narrava. E abre e fecha e lava e abre e fecha e caga e abre e fecha e lava e abre. Uma eternidade. E eu la, mudando de cor. Perninha cruzada. Olhos marejados. Arrepios. Abre caceta. Para de cagar. Limpa logo essa bunda. Meu deus, nao me deixa fazer xixi aqui, por favor. Eu sou tao jovem.

E dai, a porta abre. Tudo bem que ela leva 50 seg para abrir, mas ela abre. E dai eu entro no banheiro tentando andar o mais rapido possivel abrindo minimamente as pernas. Percebam. E a voz recomeça. 

- Porta automatica, fechando em cinco segundos para lavagem.
- Vai, vai, fecha.
- Porta fechada.
- Creioemdeuspaitodopoderosocriadordoceuvailogo 
- Iniciando a lavagem.
- *suspiro
- Chuuaaaaa! Chuuuuaaaa!
- Mami.
- Você vai mijar nas calças.
- ✝
- Lavagem finalizada. Abertura de porta.

Olha. Eu nao lembro de ter passado por situaçao semelhante antes (mentira, ja mijei nas calças varias vezes depois dos meus 15 anos). Entao, quando a porta abriu, eu entrei e ja fui mijando, mesmo vendo que a porta ainda nao estava totalmente fechada. Nao sei finalmente o que poderia contribuir de maneira mais decisiva para o fim da minha dignidade: mijar nas calças à vista de todos ou mijar no banheiro à vista de todos. Mas fiz minha escolha e posso dizer que a vida ficou menos sombria de repente. A unica ma noticia é que eu tinha razao sobre o uso do banheiro pelos caras. O banheiro é lavado, mas o ar nao é purificado.

Quais as liçoes de hoje, amiguinhas? Evitem andar sozinhas na Guillotière (sobretudo se vocês tiverem um roxo no braço), nunca aceitem dorgas de estranhos (de toda forma, eles nao vao te oferecer se você tiver um pipiu) e sobretudo, jamais, em nenhum caso, entrem num banheiro publico que tenha sido utilizado por um homem. Eh cilada, Bino.



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Perigo alado mora ao lado

Um perigo


Descobri recentemente que França e Brasil tem diferenças bem mais flagrantes nos seus costumes do que eu ousava imaginar. E eu nao me refiro ao fato de que a cor do McDonalds aqui seja verde. Tou falando de algo bem mais desconfortante. De assalto. Enquanto algumas das capitais brasileiras galopam rumo às primeiras posiçoes no raking de violência mundial, os assaltos na França seriam o sonho de qualquer paraibano. 

Pra quem nao sabe, eu moro numa casa com outras oito pessoas e, no final de semana passado, viajamos todos juntos, como uma grande familia, para a fazenda de um amigo. O final de semana tinha tudo para ser perfeito, mas duas coisas atrapalharam. A primeira foram as vespas. As pobrecitas foram desalojadas à força (e la nem vai ter Copa), alguém derrubou a casa delas por medida de segurança, entao, elas ficaram vagando doidonas por aih, sem saber o que fazer da vida - como eu, inclusive, nesse exato momento pos-hospital. Daih que elas infestaram o ambiente e, sempre que deixavamos à vista alguma comida ou bebida doce, elas se aproximavam. Algumas, incapazes de suportar o fato de serem sem-teto, se jogavam dentro de copos de suco de laranja e se afogavam. Familias inteiras pereceram dessa forma. Mas as bravas continuavam a vespar entre nohs humanos, sobretudo em torno de mim, certamente a mais doce. Mas eu nao fui uma das duas pessoas picadas porque ja tive uma experiência com vespas ha alguns meses que me serviu de liçao e me ensinou a respeita-las. Tinha um ninho de vespas perto da porta da casa e era comum vê-las voando pertinho da gente. Um dia, enquanto aguava o jardim, tive a brilhante ideia de molhar as vespas. Nao preciso contar que fui picada, eu espero. Que liçao aprendemos, amiguinhos? Vespas nao gostam de chuva.

Mas as vespas nao foram a pior parte do final de semana. Na noite do sabado, recebemos uma mensagem da unica pessoa que ficou na casa dizendo que haviamos sido assaltados. Apesar da nossa casa ser grande, ela esconde um fato bastante contraditorio no tocante ao nosso nivel de vida: somos pobres. Na verdade, nossa pobreza é mais uma questao ideologica do que propriamente econômica (pra que vocês vejam, eu sou tao privilegiada que até quando eu sou pobre, é por escolha): recuperamos tudo, nao compramos quase nada (e, quando compramos, é na loja de usados) e o preço que pagamos é outro: o principal sofa da sala tem um rasgao enorme. Cabe mais pessoas no rasgao que no sofah. E, pra avacalhar ainda mais, desenhei no estofado um pênis gigante (porque tenho 12 anos) que foi mascarado por um desenho subsequente de um Bart Simpson (de olhos bem bem grandes). As cadeiras sao completamente diferentes em tamanho e conforto e... nao se trata de estilo. Ou seja, o ladrao deve ter ficado bem decepcionado ao ver o estado da casa.

No entanto, temos nossa vaidade tecnologica e, quando soube que tinhamos sido assaltados, pensei logo nos computadores, maquinas fotograficas etc. Na verdade, foi tao duro saber que meu computador nao estava mais no meu quarto, que a unica coisa que pensei foi "tudo bem, você ja entregou sua monografia". Desapego de emergência. Mas pouco a pouco as informaçoes foram chegando: "nao roubaram nenhum computador". Imediatamente, lembrei de um casal conhecido que teve a casa assaltada em Paris. Levaram correntes de ouro, mas deixaram o notebook. E deram uma cagadinha no meio da sala deles. Acho que deve ser uma marca da gangue. Apos um breve momento de reflexao, comecei a avaliar se seria preferivel encontrar meu computador e um pedaço de cocô no meio do meu quarto ou minha mesa vazia e um chao limpo. Encontraram um cocô na cama de um coloc, mas tinha sido obra de um dos gatos da casa. E alias, ainda resta duvidas se se trata mesmo de um cocô ou de um vômito...

No final das contas, eles soh levaram o cartao de credito da conta bancaria da coloc, mas deixaram computadores, tabletes, mp3, maquinas fotograficas, bicicletas e minha corrente de ouro. Entrando no meu quarto, encontrei metade das minhas roupas no chao. O que podemos concluir? A especialidade dos ladroes franceses é fazer bagunça. Eles entram nas casas alheias na calada da noite e bagunçam a casa toda. Mas nossa casa ja é tao bagunçada que o ladrao deve ter pensado "nossa, essa casa ja foi assaltada. Vou dar uma arrumadinha". Até torcemos para que o ladrao tivesse roubado o sofa, mas ao voltarmos, o sofa ainda estava la, com pênis e tudo. Os policiais vieram pra tirar as impressoes digitais, mas tinham tantas que eles desistiram - conhecendo o fluxo de pessoas na casa, da pra entender porque. Inclusive, minha memoria nao permite saber se ja contei isso aqui, mas uma vez, um dos colocs tava no terraço fumando quando escutou o carteiro, da calçada, falando baixinho pro colega em treinamento: "olha, quando você tiver uma carta destinada a essa rua e nao souber em qual casa entregar, pode entregar nessa aqui". 

Pensando bem, eu até que tenho sorte com assaltos. Ano passado, quando eu tava no Brasil, mais especificamente no hospital, minha irma foi assaltada enquanto trazia dois computadores na mao, o meu e o dela. O ladrao chegou, puxou o computador dela e deixou o meu - como vocês podem ver, minha sorte soh perde pra minha solidariedade. Minha outra experiência com (quase) assaltos, data do começo da minha adolescência. La estava eu em Joao Pessoa, indo pro shopping com uma amiga. 19h, aparelho nos dentes, parada de ônibus vazia, chegam dois meliantes de alta periculosidade, um deles, com uma arma na mao. Eu poderia ter chorado, desmaiado, corrido, dado cambalhota, mas nao. Eu comecei a falar. Falar, falar... Puxei altos papos com o ladrao até ele reclamar que eu tava olhando demais pra cara dele. Lembro que tive medinho, mas lembro mais ainda de como o cara era desajeitado. Em um momento, ele colocou a arma debaixo do braço e ficou filosofando sobre o bem e o mal. Realizem. Balanço do assalto: um ticket de ônibus.

Finalmente, o nosso "assalto" teve seu lado positivo: a seguradora vai repor a porta arrombada - que ja estava meio defeituosa. Tou vendo que a maior ameaça na França sao as vespas.

::

.caso.me.esqueçam ta no Facebook!



domingo, 15 de setembro de 2013

Pequenas crônicas de um coraçao partido - parte II


Ah, se tivesse sido tao romântico assim...


Depois de um post mela-cueca, alias, mela-calcinha (alguém me explica porque 95% das pessoas que leem meu blog é formada por mulheres? Nada contra as mulheres, eu até sou uma, mas...), vou mostrar a dura realidade de uma cirurgia no coraçao. Atençao! Os relatos a seguir serao fortes. Pessoas com problemas no coraçao (sobretudo vocês, hahaha), crianças e amigos sensiveis, evitem a leitura das linhas que se seguem. 

(Pros que acabaram de desembarcar no blog...) Ano passado, descobriu-se que eu tinha um tumor de 3 cm na supra-renal direita. Foi descoberto assim, por acaso, apesar dos efeitos provocados serem ja bem evidentes. Enquanto os médicos faziam os exames necessarios para a operaçao de retirada do tumor, descobriu-se ainda que eu tinha uma abertura de 3 cm no lado direito do coraçao. Percebe-se que meu corpo tem alguma implicância com "3" e lado direito. Mas poderia ser pior. Eu poderia ter três maos direitas. Ou um pênis de três centimetros na coxa direita. Ou três olhos direitos. Ou, pior ainda, eu poderia ser de direita até a terceira idade.

O tumor foi pro lixo numa operaçao bem sucedida e, 417 dias depois, chegara a vez do coraçao. O meu problema, nao era assim tao grave. Um pequeno sopro. Pra quem ignora o que seja, uma foto pra ilustrar o problema.


Uma pequena abertura que provocava um desvio no curso normal do sangue que, por sua vez, provoca um monte de coisa ruim que eu nunca procurei saber o que era porque o importante eu ja sabia: eu nao tinha escolha. A cirurgia foi marcada para o dia, adivinhem, 03, mas eu tinha que entrar no hospital no dia anterior. Como a vida costuma conspirar quando você ja ta toda lascada, minha orientadora deu como prazo o dia 02 para a entrega do trabalho de conclusao da primeira parte do mestrado: eu tinha 15 dias para redigir 40 paginas em francês. Na verdade, eu tive alguns meses para fazer isso, mas soh tomei tino duas semanas antes, de modo que, horas antes de entrar no hospital, eu ainda estava preparando a conclusao. Porque a vida precisa de emoçao.

No hospital, dividi o quarto com uma senhorinha de 83 que tinha acabado de fazer uma cirurgia no coraçao. Ela perguntou: 

- Você vai fazer uma cirurgia de quê?
- Do coraçao.
- Sim. Claro. Mas de quê?

Aih eu lembrei envergonhada de que a gente tava no... Hopital Cardiologique. Apos corar levemente, tentei disfarçar, expliquei meu problema sem muito entusiasmo e ela se danou a falar da sopa que tava tomando. "Porque quando a gente vive uma guerra e passa fome, qualquer refeiçao é deliciosa". Eu tava de costas pra ela e, quando ouvi aquilo, meu olhos brilharam, minha cabeça fez uma volta de 180° e eu perguntei "gue-guerra? Que guerra?". A Segunda, meu povo. 

E daih ela começou a contar como foi, dos amigos que perdeu, do tanque de guerra estacionado na calçada dela que bombardeava o bairro e eu la, achando tudo lindo. Foi dificil imaginar o sofrimento vivido e os barulhos até ela começar a peidar. Sim, peidar. O primeiro peido durou tempo suficiente para que lagartas se transformassem em borboletas. Ela tava sentada num tipo de troninho instalado numa poltrona e sua missao do dia era fazer cocô. OU SEJA, eu estava confinada num quarto com uma mulher desconhecida que deveria cagar. E, à isso, eu preciso adicionar o fato de que... ela tentou. Ela peidou o mundo naquele quarto de hora. O cheiro subiu e eu, pobre coitada, com os olhos marejados de nausea, continuei impassivel para nao constrange-la.

- Um casal de amigos, que tinha pouco mais de 18 anos, foi levado pra um campo de concentraçao.
- Eles eram judeus?
- Eram nada. Mas foram levados assim VRRRRAAAAA mesmo. Eles estavam conversando na calçada.
- Eles foram levados pra onde?
- Primeiro, VRRRRAAA pra Alemanha, mas depois, VRA VRAAAA, eu perdi o paradeiro deles.

Gente. Eu me perguntava o que ainda restava dentro dessa mulher para que ela ainda continuasse cagando, mas quando a enfermeira entrou no quarto e perguntou se ela ja tinha terminado, ela disse que nao tinha conseguido fazer nada! Quis dizer que ela estava errada e que ela tinha conseguido me fazer perder o apetite, mas me limitei a comemorar internamente o fato de que a porta estava aberta.

No dia seguinte, às 13h, o maqueiro veio me buscar pra me levar pro bloco cirurgico. O cara era tao bonito quanto Brad Pitt e tao gay quanto Elton John. Sem problema, eu nao estava em condiçoes de exibir meu chalme naquele momento: depois dos remedios que me deram pra que eu chapasse relaxasse e aquela camisolinha de hospital, eu nao ia conseguir chamar a atençao dele nem se eu fosse o mais divino dos gays. A velha também elogiou a beleza do homem.

Cheguei na sala de cirurgia meio drogada e ja nessa hora, eu nao lembro de quase nada. E eh a partir desse momento que o drama se acentua. Abro os olhos, apos ter passado um longo momento passeando no limbo, e começo a sentir todos os invasores do meu corpo: um tubo na goela, outro entre as pernas, no nariz e, os mais incômodos, no peito. O médico, ao ver meus olhinhos abertos, vem e retira o tubo da garganta. Fez cocegas, mas nao as do tipo que te fazem rir. Meus olhos se encheram de lagrimas (reaçao normal apos compressao de algum nervinho local) e eu fiquei la, estatica. Vi as horas passarem com rapidez. Nao porque eu estava distraida, mas porque eu voltava a dormir por longos periodos.

No dia seguinte, fui levada a um quarto com duas camas. Ocupei a primeira e dormi. Meus amigos foram chegando, dei um oi drogado e dormi. Recebi presentinhos e dormi. A gente conversou e eu dormi. Eu tava bem louca. Eu nao queria falar, nem abrir os olhos. Na verdade, eu nao queria nem respirar, mas meus pulmoes eram teimosos. Mas o melhor momento foi sem duvida aquele em que ha a troca da roupa de cama. A troca se faz com o paciente na cama. Realizem. Eles levantam meus pés ao mesmo tempo em que vao retirando o lençol, me suspendem os quadris enquanto uma outra figura vai projetando o lençol limpo no colchao, até que todo o meu corpo tenha sido levantado, por partes, e um novo lençol tenha tomado o lugar do sujo. Falar sobre essa experiência nao me perturbou e me tomou somente alguns segundos do meu tempo. Viver a experiência me fez querer chutar aquelas mulheres e sentir dores em lugares cuja existência eu ignorava.

Quando nao eram visitas de trocas de lençol, eu recebia no quarto as responsaveis por me dar banho. "Banho". Elas tinham que passar uma esponja com sabao e depois agua no corpo todo. Esse momento era até relaxante. O problema é quando elas queriam lavar as costas e dai eu tinha que sentar. Soh que, quando você tem que sentar tenho uma abertura de um palmo recem-fechada no peito, sentar significa sentir dor. Muita dor. Tentei explicar que no Brasil as pessoas nao lavam as costas, um costume ancestral, praticado pelo povo local antes mesmo da vinda dos portugueses, mas elas me ignoraram e, quando dei por mim, tava sentada, choramingando e sendo lavada.

Quando nao eram as visitas de troca de lençol ou as de banho... o pessoal da radiologia chegava pra bater foto dos meus pulmoes. E dai eu tinha que levantar as costas da cama pra posicionar a placa na altura dos pulmoes. Dor. Muita dor. Minha vida, Brasil.


Mas nada era comparado à dor provocada pelas duas mangueiras enfiadas na lateral do meu peito. Eu nao tinha ideia de como exatamente elas estavam instaladas e fazia menos ideia ainda de como elas seriam retiradas. Por causa delas, era dificil mexer o braço direito. Eu não poderia fazer uma saudação nazista nem se eu quisesse. Mas isso me fez perceber algo obvio e pavoroso: o corte da cirurgia foi realizado no peito direito. “Misericordia... O que foi que eles operaram ?” Ja estava me preparando psicologicamente com a ideia de portar somente um pulmão, mas eu realmente estava na ala de cardiologia. Tudo certo. Ou quase.

Novo quarto apos a cirurgia, nova companheira de quarto. Esta compartilhava duas coincidências em relaçao à anterior: foi criança durante as Cruzadas a Segunda Guerra e peidava com vigor. Anna e Paula estao de prova ! Mas ela tinha um plus... Ela roncava.

Leitores queridos. Eu ignorava que um ser humano, tao pequeno e, aparentemente, tao frágil, pudesse emitir um som tao potente. Não deveria haver um soh musculo naquela garganta que prestasse pra alguma coisa. Dormi duas noites com meus fones de ouvido – sem musica. Numa delas, dormi três horas. Privada de sono, passei pelo menos uma hora ouvindo a melodia do ronco dela antes de decidir me entregar à televisão (em silêncio, usando os fones de ouvido). No dia seguinte, madame acorda e pergunta com um fio de indignação: “você assistiu televisão tarde da noite, não foi?” Fiquei calada porque sou lesa não queria contraria-la, mas admito que ja tava cansada dos pitacos e reclamações da véia.

Mais cansada ainda eu tava do cheiro que emanava do meu couro cabeludo. O banho de esponja que as enfermeiras me davam não se estendia à cabeça e, como em Lyon estava fazendo 78 graus, na sombra, e a véia tinha decidido fechar as persianas pra evitar a entrada de sol e oxigênio no quarto, eu transpirava por cada poro e mangueira do meu corpo. “Não morri com a cirurgia, vou morrer de calor. Que lindo”. A partir do segundo dia, comecei a sentir um cheiro de macaco velho. Era eu. Minhas lindas madeixas encaracoladas, ao termo de três dias roçando no travesseiro, tinham virado um ninho de rato. Uma enfermeira se apiedou da minha situação e com grande bravura se apresentou para pentear meu cabelo. Eu ri. Expliquei que ela poderia ainda encontrar na minha cabeça as mãos das pessoas que tentaram tocar no meu cabelo. E eu continuei la, na cama, parecendo a doida dos gatos. 

Gostaria de ter mais registros desses momentos. Eu deveria estar realmente um primor. Cabelo em pane, entubada, suada, cansada e fedida. Beth disse que eu dormia no meio das conversas e acordava respondendo à perguntas feitas dez minutos antes. Mas eu não dormia. Eu piscava o olho lentamente. Os primeiros dias foram bem dificeis. Eu tinha uma bombinha de morfina que eu podia acionar quando eu sentisse dor, mas ela soh liberava morfina a cada dez minutos e, na boa, eu nao via diferença nenhuma entre antes e depois. Eu nao, mas a velhinha do meu lado sim. Ela disse que a ultima vez que deram morfina a ela, depois de uma cirurgia no fêmur, ela teve visoes e caiu da cama! "Tinham coisas andando no meu quarto! Eu vi. E nao quero tomar morfina dessa vez". Pensei "nem eu quero que a senhora tome". Credo.

 Com o passar dos dias, foram me desentubando. Assim, ganhei uma mobilidade importante e a permissao de tomar banho! Eu sentia como se tivesse ganho na loteria. Eu podia me levantar, andar (andei cinco metros no quarto dia e senti que esses passos foram tao importantes quanto os de Armstrong em 69). Eu poderia ir sozinha no banheiro. E eu até deveria, senao a enfermeira teria que recolar a sonda na uretra. Horas depois, a enfermeira me perguntou com a mao na cintura:

- Você ja fez xixi?
- Nao... :D
- Mas voce nao esta bebendo agua suficiente?!
- Na-nao... :/
- Ah é? Você quer que eu coloque a sonda de volta?
- Nao :(

Aih eu sai correndo pra mijar. As enfermeiras pareciam minha mae, aff. Como vocês podem ver, fui bem cuidada. Voltei pra casa e tou sendo assistida por minha coloc que, olha que sorte, é enfermeira! Pra finalizar as boas noticias, minha orientadora disse que tinha gostado do meu trabalho. Agora, hora de descansar: muita informaçao pro meu coraçao.




Talvez

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