domingo, 2 de fevereiro de 2014

So faltou o Rodrigo

Nunca tivemos problemas quanto à uma falta de convidados nas nossas festas. Somos nove moradores na teoria, mas doze na pratica. Entao, uma festinha com os amigos proximos, beira facilmente a centena. Por isso, com o passar dos anos e a popularidade de algumas festas, nos vimos obrigados a desenvolver certas praticas que pudessem proporcionar a loucura geral dos convidados e a tranquilidade dos vizinhos. Falhamos miseravelmente. Pelo menos quanto à segunda parte.

As primeiras festinhas tinham todo um cheiro de inocência. Cada criança trazia sua garrafa de alcool, um tira-gosto (96,5% das escolhas giram em torno de amendoins borrachudos, mas 100% dos amendoins sao devorados antes das 2h da manha) e dois ou três coleguinhas. Eles chegavam, bebiam, vomitavam e iam embora. Tranquilo. Mas as festas foram ficando mais conhecidas e começamos a nos adaptar à nova demanda: de umas três festas pra cah, começamos a disponibilizar barris de cerveja, muros de som, um dormitorio pros guerreiros (esvaziamos um grande quarto da casa e cobrimos o chao de colchoes), uma recepçao, um fumodromo com musica e alguns metros de pizza feitas num forno à lenha. Resultado: na festa do sabado, eramos quase 300. 


Aqui qué a festa?

Em festas assim, as pessoas nunca chegam em pequenos grupos, elas chegam em caravanas. De carro, metrô, jegue, bicicleta. Vi um grupo saindo de um bueiro. Eu, particularmente, sempre peço pros meus convidados trazerem amigos pra que eles nao se sintam deslocados caso eu saia de mim va dançar. Mas tem gente que nao sabe ponderar. Uma convidada, que trouxe metade da festa, foi logo se justificando na entrada: "Me disseram que era pra trazer os amigos". Quando eu vi a quantidade de pessoas que ela trouxe, quis explicar que era pra trazer os amigos mais proximos e nao todas as pessoas que ela ja conheceu na vida. A avoh dela ficou la no sofa, com um Malibu na mao. O professor de fisica do ensino médio foi dançar com a vizinha dela. O evento foi compartilhado no Feici. As pessoas ligavam chamando os amigos. "Traz todo mundo", ouvi um dizer ao telefone. Entao, a cada dez minutos, viamos uma horda ensandecida chegar e se enraizar na nossa sala. Para a ocasiao, veio gente de Marselha, veio gente de Paris. A meia-noite, eramos bastante numerosos e meus colocs ainda nao tinham se decidido se aquilo era algo a se comemorar. Encontrei um antigo coloc, mas no momento em que começamos a conversar, um grupo que pedia passagem o levou para longe e nunca mais tivemos noticias dele.

A festa se concentrava em quatro pontos: o fumodromo, a frente da casa, a sala e o subsolo. Este ultimo era o local mais procurado, ja que sediava o bar e os djs. Desci com dois amigos pra ouvir um pouco de musica, mas logo fomos engolidos pela fumaça que saia da maquina de gelo seco e, em três segundos, eu ja tava pegando na mao de pessoas que eu nao conhecia. Eu nao sabia onde meus amigos estavam. Eu nao sabia onde eu estava. Fiquei vagando sem rumo e trombando nas pessoas que brotavam na minha frente. Elas tinham uma cara tao perdida quanto a minha. Uma menina se jogou em cima de mim, me pegou pela gola e me pediu pra tira-la dali. O problema é que algum coloc de inteligência muito desenvolvida ligou a maquina e a escondeu atras de um sofa pra ninguém tropeçar nela, mas ninguém sabia exatamente em qual tomada ela estava ligada e atras de qual sofa. Taticas de guerra foram prontamente colocadas em pratica e vi um coloc se rastejar em direçao ao ponto mais denso de fumaça e desaparecer nas brumas. Mais uma grande perda. A maquina soh parou de fazer fumaça quando o conteudo se esgotou. Foi nesse momento que nos demos conta de que eramos bem mais numerosos do que pensavamos. Metade da festa foi descoberta e os reencontros foram felizes.

No fumodromo, uma menina fez uma entrada fenomenal usando um casaco de pele, herança da avoh. No instante em que bati os olhos no casaco dela, imaginei todas as cenas catastróficas possíveis e, antecipando o pior, fui preveni-la: "você é muito corajosa de vir a uma festa assim. Você nao tem medo que alguém derrube bebida em cima do seu casaco?" e ela, com ar superior, respondeu que "nao. Eu nao me importo. Eu nao gosto de me vestir de acordo com a ocasião, gosto de ser original... pra fazer esporte, ir às compras ou ir pras festas...". Meu lado cruzeta aflorou e eu tive vontade de jogar minha cerveja naquela merda de casaco e avisar que ser original é chegar nu.

Os problemas de superlotação logo apareceram. A casa tem dois banheiros, um no andar de baixo, outro no andar de cima, mas bloqueamos o acesso às escadas que levam ao primeiro andar (porque também dao acesso aos quartos) com um colchao de espuma. Puro luxo. O resultado é que a fila do banheiro saia da casa, seguia pela calçada e dava três voltas no quarteirao. Monique chegou em mim, carinha desolada: "eu segurei tanto meu xixi na fila que, mesmo agora depois de ter ido ao banheiro, minha bexiga ainda ta doendo". Tive doh. Aquela quantidade de gente tava insuportavel, entao, nao era nem 1h da manha quando decidi ir embora. Mas fui em grande estilo: subi em cima do sofa, dei um mosh na multidao e fui conduzida até a saida.

Voltei no dia seguinte, no final da tarde, rezando pra que a faxina ja tivesse sido feita. Nao tinha. Mas a casa estava inteira. A festa durou até as 9h. A cerveja acabou à 1h da manha (900 copos de cerveja consumidos), entao, os colocs empurraram pros convidados as velhas garrafas de alcool que sobram a cada festa que fazemos, aquelas que os convidados compram à 5 euros e que ninguém quer beber. Pois bem. Beberam. E ainda pagaram por isso.



Um coloc explicou porque odiou tanto a festa. Disse que, enquanto ele dormia, um casal entrou de fininho no quarto, se apoderou da cama do colega de quarto ausente e "copulou". Sim, ele usou essa palavra. Nao, ele nao tem 126 anos. A avoh da menina, que ainda se encontrava no sofa, riu do termo. "Eh trepar, meu filho. Trepar".

Uma convidada tropeçou no colchao enquanto descia as escadas e saiu bolando ladeira abaixo. Abriu o queixo, foi pro hospital às 4h da manha. O bar produziu 600 euros, mas acho que, depois de terem pago dj, caixas de som e cerveja, nao deve ter sobrado muita coisa. Também soube que um vizinho chegou às 8h da manha pedindo clemência. Disse que os vizinhos estavam cansados do barulho, mas que eles tem medo da gente entao, ninguém disse nada, nem quiseram chamar a policia. Olha, tudo bem que meu bairro parece o Bronx (gente fuzilada, carro queimado), mas é tudo exagero. Somos legais. O problema é que minha rua é uma rua de velhos de mente velha, entao preconceito rola solto. Outro dia, uma senhora chegou no emprego de um coloc (que fica no final da rua) e perguntou se as vans que ficam na frente da nossa casa, sao vans de prostitutas. Realizem. Nao sei se ela estava interessada em se candidatar à uma vaga, mas dispersamos os rumores.

Mas a proxima festinha taih: dia 15 de fevereiro, cumbia e cerveja. Vocês estao todos convidados, toda a internet. Tragam os amigos, caso eu saia da festa. Ou de mim.


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A questão do gênero na Guillotière

efeito dos ventos lioneses


Quanto eu escuto todas as portas da casa batendo por causa do vento, até as fechadas - o vento abre a porta usando o trinco e a fecha novamente -, eu sei que nao é um bom momento pra sair de casa, ainda mais de bicicleta. Mas eu tive aula e fui obrigada a sair de casa (faz uns 24 anos que eu lamento essa frase). Normalmente, o trajeto se da numa grande avenida que segue ladeira abaixo. Entao, soh tenho que ter cuidado pra nao ser atropelada pelo tramway e tudo certo, mal preciso pedalar. Soh que semana passada tava tenso. Foi a primeira vez que eu andei de ré numa bicicleta. O vento parecia um coice e, quanto mais eu fazia esforço, mais eu sentia a resistência dele. Mas enfrentei o vento, enfrentei a aula e fui contente pra Guillotière encontrar um amigo praquela cerveja de fim de tarde.

Guillotiere é um famoso bairro de Lyon, famoso sobretudo pelas cantadas dos punheteiros sedutores de plantao que te cantam com tanta convicçao que sao capazes de te engravidar soh te dando bom dia - por isso, eu fecho as pernas e os ouvidos quando ando por essas bandas. Infelizmente, nao da pra evitar o bairro porque é onde se encontra um dos lugares mais visitados na cidade: o rio Rhone. Fui enfrentando ventos e homens pra encontrar o tal amigo na beira do rio.

Comprei umas cervejas, escolhi um lugar tranquilo e sentei tensa com todas as aproximaçoes suspeitas. Um cara veio, perguntou se eu tinha um isqueiro e saiu de boa com a negativa. Mas nao tive tanta sorte com o segundo, que sentou bem do meu ladinho. 

- E aih, tudo bem?
- Ah, nao, cara. Por favor. Você nao vem pra isso, né?
- Nao, nao vou incomodar.
- Tarde demais.
- Soh quero... sei la... A vida é bonita, né?

Eu achava que conversa mais vazia que a de elevador nao existia. Mas encontramos um novo adversario, senhoras e senhores: a conversa de beira de rio. Ela começou assim, mas se dirigiu pra isso:

- Que marca roxa é essa aih no seu braço?
- Nao sei, acho que bati na porta ontem...
- Nao foi o seu namorado, né?
- Errr... nao. Mas ja essa marca aqui, oh, foi da agulha do exame de sangue que fiz ontem.
- Você tem AIDS?

Juro. O cara simplesmente perguntou se eu tinha AIDS. Tudo muito tranquilo. Oi, tudo bem, a vida é bela, você tem AIDS? Enquanto isso, ja tinha enviado mensagens de socorro ao meu amigo pra que ele viesse logo me tirar daquela situaçao. Quando o inquisidor me viu com o celular, disse que iria embora "porque seu namorado pode nao gostar que eu esteja aqui". Ou seja. Foda-se se você nao curte minha presença, o negocio é nao estar aqui quando o macho chegar. Depois apareceu dois caras vendendo dorgas. O legal é que em nenhum momento eles ofereceram pra mim, soh pro meu amigo. Alias, eles nem sequer me olharam. Eu nao ia aceitar de todo jeito, mas acho um absurdo esse machismo. Até dos traficantes! Aff.


Pelo direito de ser tomada por uma drogada!



Quando o amigo chegou, pedi pra que fossemos pra minha area preferida do Rio: entre o banheiro publico e o lugar onde vende cerveja. Estratégia, amigos. Os banheiros publicos de Lyon foram reformados e agora as cabines, que ficam espalhadas pela cidade, tem uma porta automática que se abre apos o uso para ser completamente lavadas automaticamente. O tempo de lavagem é sempre o mesmo, pouco importa a sujeira do banheiro, mas ele pode ser mais ou menos longo de acordo com o peso da sua bexiga ja que a porta se fecha por um bom minuto. Daih que eu fui pela primeira vez, naquela noite. Aguardei pacientemente o usuario sair. A porta calmamente fechou ao mesmo tempo que uma voz automatica começou a narrar as etapas da lavagem onde o banheiro tem que estar vazio. Uma vez que ele estava limpo, entrei, fiz meu pipi transparente e voltei a beber. 

Mas uma vez que fomos uma primeira vez ao banheiro, morreu, amigo, as idas serao cada vez mais frequentes. Entao, 30 min depois, la estava eu de novo, soh que dessa vez, tinha duas pessoas na minha frente. Dois caras. Fiquei branca, porque acho que eles tavam la para fazer cocô - porque, né, o cara que ta realmente se mijando nao vai ficar esperando o Galvao Bueno dos toilettes narrar como é que o banheiro sera lavado, ele vai logo é no cantinho da rua e pronto (como um animal, alias. Mas bom, diante de uma grande necessidade, somos todos animais) mas isso ainda nao da motivo de violar alguém, amiguinhos. boa noite! Entao, era cocô. E, a cada etapa, a vozinha que narrava. E abre e fecha e lava e abre e fecha e caga e abre e fecha e lava e abre. Uma eternidade. E eu la, mudando de cor. Perninha cruzada. Olhos marejados. Arrepios. Abre caceta. Para de cagar. Limpa logo essa bunda. Meu deus, nao me deixa fazer xixi aqui, por favor. Eu sou tao jovem.

E dai, a porta abre. Tudo bem que ela leva 50 seg para abrir, mas ela abre. E dai eu entro no banheiro tentando andar o mais rapido possivel abrindo minimamente as pernas. Percebam. E a voz recomeça. 

- Porta automatica, fechando em cinco segundos para lavagem.
- Vai, vai, fecha.
- Porta fechada.
- Creioemdeuspaitodopoderosocriadordoceuvailogo 
- Iniciando a lavagem.
- *suspiro
- Chuuaaaaa! Chuuuuaaaa!
- Mami.
- Você vai mijar nas calças.
- ✝
- Lavagem finalizada. Abertura de porta.

Olha. Eu nao lembro de ter passado por situaçao semelhante antes (mentira, ja mijei nas calças varias vezes depois dos meus 15 anos). Entao, quando a porta abriu, eu entrei e ja fui mijando, mesmo vendo que a porta ainda nao estava totalmente fechada. Nao sei finalmente o que poderia contribuir de maneira mais decisiva para o fim da minha dignidade: mijar nas calças à vista de todos ou mijar no banheiro à vista de todos. Mas fiz minha escolha e posso dizer que a vida ficou menos sombria de repente. A unica ma noticia é que eu tinha razao sobre o uso do banheiro pelos caras. O banheiro é lavado, mas o ar nao é purificado.

Quais as liçoes de hoje, amiguinhas? Evitem andar sozinhas na Guillotière (sobretudo se vocês tiverem um roxo no braço), nunca aceitem dorgas de estranhos (de toda forma, eles nao vao te oferecer se você tiver um pipiu) e sobretudo, jamais, em nenhum caso, entrem num banheiro publico que tenha sido utilizado por um homem. Eh cilada, Bino.



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Perigo alado mora ao lado

Um perigo


Descobri recentemente que França e Brasil tem diferenças bem mais flagrantes nos seus costumes do que eu ousava imaginar. E eu nao me refiro ao fato de que a cor do McDonalds aqui seja verde. Tou falando de algo bem mais desconfortante. De assalto. Enquanto algumas das capitais brasileiras galopam rumo às primeiras posiçoes no raking de violência mundial, os assaltos na França seriam o sonho de qualquer paraibano. 

Pra quem nao sabe, eu moro numa casa com outras oito pessoas e, no final de semana passado, viajamos todos juntos, como uma grande familia, para a fazenda de um amigo. O final de semana tinha tudo para ser perfeito, mas duas coisas atrapalharam. A primeira foram as vespas. As pobrecitas foram desalojadas à força (e la nem vai ter Copa), alguém derrubou a casa delas por medida de segurança, entao, elas ficaram vagando doidonas por aih, sem saber o que fazer da vida - como eu, inclusive, nesse exato momento pos-hospital. Daih que elas infestaram o ambiente e, sempre que deixavamos à vista alguma comida ou bebida doce, elas se aproximavam. Algumas, incapazes de suportar o fato de serem sem-teto, se jogavam dentro de copos de suco de laranja e se afogavam. Familias inteiras pereceram dessa forma. Mas as bravas continuavam a vespar entre nohs humanos, sobretudo em torno de mim, certamente a mais doce. Mas eu nao fui uma das duas pessoas picadas porque ja tive uma experiência com vespas ha alguns meses que me serviu de liçao e me ensinou a respeita-las. Tinha um ninho de vespas perto da porta da casa e era comum vê-las voando pertinho da gente. Um dia, enquanto aguava o jardim, tive a brilhante ideia de molhar as vespas. Nao preciso contar que fui picada, eu espero. Que liçao aprendemos, amiguinhos? Vespas nao gostam de chuva.

Mas as vespas nao foram a pior parte do final de semana. Na noite do sabado, recebemos uma mensagem da unica pessoa que ficou na casa dizendo que haviamos sido assaltados. Apesar da nossa casa ser grande, ela esconde um fato bastante contraditorio no tocante ao nosso nivel de vida: somos pobres. Na verdade, nossa pobreza é mais uma questao ideologica do que propriamente econômica (pra que vocês vejam, eu sou tao privilegiada que até quando eu sou pobre, é por escolha): recuperamos tudo, nao compramos quase nada (e, quando compramos, é na loja de usados) e o preço que pagamos é outro: o principal sofa da sala tem um rasgao enorme. Cabe mais pessoas no rasgao que no sofah. E, pra avacalhar ainda mais, desenhei no estofado um pênis gigante (porque tenho 12 anos) que foi mascarado por um desenho subsequente de um Bart Simpson (de olhos bem bem grandes). As cadeiras sao completamente diferentes em tamanho e conforto e... nao se trata de estilo. Ou seja, o ladrao deve ter ficado bem decepcionado ao ver o estado da casa.

No entanto, temos nossa vaidade tecnologica e, quando soube que tinhamos sido assaltados, pensei logo nos computadores, maquinas fotograficas etc. Na verdade, foi tao duro saber que meu computador nao estava mais no meu quarto, que a unica coisa que pensei foi "tudo bem, você ja entregou sua monografia". Desapego de emergência. Mas pouco a pouco as informaçoes foram chegando: "nao roubaram nenhum computador". Imediatamente, lembrei de um casal conhecido que teve a casa assaltada em Paris. Levaram correntes de ouro, mas deixaram o notebook. E deram uma cagadinha no meio da sala deles. Acho que deve ser uma marca da gangue. Apos um breve momento de reflexao, comecei a avaliar se seria preferivel encontrar meu computador e um pedaço de cocô no meio do meu quarto ou minha mesa vazia e um chao limpo. Encontraram um cocô na cama de um coloc, mas tinha sido obra de um dos gatos da casa. E alias, ainda resta duvidas se se trata mesmo de um cocô ou de um vômito...

No final das contas, eles soh levaram o cartao de credito da conta bancaria da coloc, mas deixaram computadores, tabletes, mp3, maquinas fotograficas, bicicletas e minha corrente de ouro. Entrando no meu quarto, encontrei metade das minhas roupas no chao. O que podemos concluir? A especialidade dos ladroes franceses é fazer bagunça. Eles entram nas casas alheias na calada da noite e bagunçam a casa toda. Mas nossa casa ja é tao bagunçada que o ladrao deve ter pensado "nossa, essa casa ja foi assaltada. Vou dar uma arrumadinha". Até torcemos para que o ladrao tivesse roubado o sofa, mas ao voltarmos, o sofa ainda estava la, com pênis e tudo. Os policiais vieram pra tirar as impressoes digitais, mas tinham tantas que eles desistiram - conhecendo o fluxo de pessoas na casa, da pra entender porque. Inclusive, minha memoria nao permite saber se ja contei isso aqui, mas uma vez, um dos colocs tava no terraço fumando quando escutou o carteiro, da calçada, falando baixinho pro colega em treinamento: "olha, quando você tiver uma carta destinada a essa rua e nao souber em qual casa entregar, pode entregar nessa aqui". 

Pensando bem, eu até que tenho sorte com assaltos. Ano passado, quando eu tava no Brasil, mais especificamente no hospital, minha irma foi assaltada enquanto trazia dois computadores na mao, o meu e o dela. O ladrao chegou, puxou o computador dela e deixou o meu - como vocês podem ver, minha sorte soh perde pra minha solidariedade. Minha outra experiência com (quase) assaltos, data do começo da minha adolescência. La estava eu em Joao Pessoa, indo pro shopping com uma amiga. 19h, aparelho nos dentes, parada de ônibus vazia, chegam dois meliantes de alta periculosidade, um deles, com uma arma na mao. Eu poderia ter chorado, desmaiado, corrido, dado cambalhota, mas nao. Eu comecei a falar. Falar, falar... Puxei altos papos com o ladrao até ele reclamar que eu tava olhando demais pra cara dele. Lembro que tive medinho, mas lembro mais ainda de como o cara era desajeitado. Em um momento, ele colocou a arma debaixo do braço e ficou filosofando sobre o bem e o mal. Realizem. Balanço do assalto: um ticket de ônibus.

Finalmente, o nosso "assalto" teve seu lado positivo: a seguradora vai repor a porta arrombada - que ja estava meio defeituosa. Tou vendo que a maior ameaça na França sao as vespas.

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.caso.me.esqueçam ta no Facebook!



domingo, 15 de setembro de 2013

Pequenas crônicas de um coraçao partido - parte II


Ah, se tivesse sido tao romântico assim...


Depois de um post mela-cueca, alias, mela-calcinha (alguém me explica porque 95% das pessoas que leem meu blog é formada por mulheres? Nada contra as mulheres, eu até sou uma, mas...), vou mostrar a dura realidade de uma cirurgia no coraçao. Atençao! Os relatos a seguir serao fortes. Pessoas com problemas no coraçao (sobretudo vocês, hahaha), crianças e amigos sensiveis, evitem a leitura das linhas que se seguem. 

(Pros que acabaram de desembarcar no blog...) Ano passado, descobriu-se que eu tinha um tumor de 3 cm na supra-renal direita. Foi descoberto assim, por acaso, apesar dos efeitos provocados serem ja bem evidentes. Enquanto os médicos faziam os exames necessarios para a operaçao de retirada do tumor, descobriu-se ainda que eu tinha uma abertura de 3 cm no lado direito do coraçao. Percebe-se que meu corpo tem alguma implicância com "3" e lado direito. Mas poderia ser pior. Eu poderia ter três maos direitas. Ou um pênis de três centimetros na coxa direita. Ou três olhos direitos. Ou, pior ainda, eu poderia ser de direita até a terceira idade.

O tumor foi pro lixo numa operaçao bem sucedida e, 417 dias depois, chegara a vez do coraçao. O meu problema, nao era assim tao grave. Um pequeno sopro. Pra quem ignora o que seja, uma foto pra ilustrar o problema.


Uma pequena abertura que provocava um desvio no curso normal do sangue que, por sua vez, provoca um monte de coisa ruim que eu nunca procurei saber o que era porque o importante eu ja sabia: eu nao tinha escolha. A cirurgia foi marcada para o dia, adivinhem, 03, mas eu tinha que entrar no hospital no dia anterior. Como a vida costuma conspirar quando você ja ta toda lascada, minha orientadora deu como prazo o dia 02 para a entrega do trabalho de conclusao da primeira parte do mestrado: eu tinha 15 dias para redigir 40 paginas em francês. Na verdade, eu tive alguns meses para fazer isso, mas soh tomei tino duas semanas antes, de modo que, horas antes de entrar no hospital, eu ainda estava preparando a conclusao. Porque a vida precisa de emoçao.

No hospital, dividi o quarto com uma senhorinha de 83 que tinha acabado de fazer uma cirurgia no coraçao. Ela perguntou: 

- Você vai fazer uma cirurgia de quê?
- Do coraçao.
- Sim. Claro. Mas de quê?

Aih eu lembrei envergonhada de que a gente tava no... Hopital Cardiologique. Apos corar levemente, tentei disfarçar, expliquei meu problema sem muito entusiasmo e ela se danou a falar da sopa que tava tomando. "Porque quando a gente vive uma guerra e passa fome, qualquer refeiçao é deliciosa". Eu tava de costas pra ela e, quando ouvi aquilo, meu olhos brilharam, minha cabeça fez uma volta de 180° e eu perguntei "gue-guerra? Que guerra?". A Segunda, meu povo. 

E daih ela começou a contar como foi, dos amigos que perdeu, do tanque de guerra estacionado na calçada dela que bombardeava o bairro e eu la, achando tudo lindo. Foi dificil imaginar o sofrimento vivido e os barulhos até ela começar a peidar. Sim, peidar. O primeiro peido durou tempo suficiente para que lagartas se transformassem em borboletas. Ela tava sentada num tipo de troninho instalado numa poltrona e sua missao do dia era fazer cocô. OU SEJA, eu estava confinada num quarto com uma mulher desconhecida que deveria cagar. E, à isso, eu preciso adicionar o fato de que... ela tentou. Ela peidou o mundo naquele quarto de hora. O cheiro subiu e eu, pobre coitada, com os olhos marejados de nausea, continuei impassivel para nao constrange-la.

- Um casal de amigos, que tinha pouco mais de 18 anos, foi levado pra um campo de concentraçao.
- Eles eram judeus?
- Eram nada. Mas foram levados assim VRRRRAAAAA mesmo. Eles estavam conversando na calçada.
- Eles foram levados pra onde?
- Primeiro, VRRRRAAA pra Alemanha, mas depois, VRA VRAAAA, eu perdi o paradeiro deles.

Gente. Eu me perguntava o que ainda restava dentro dessa mulher para que ela ainda continuasse cagando, mas quando a enfermeira entrou no quarto e perguntou se ela ja tinha terminado, ela disse que nao tinha conseguido fazer nada! Quis dizer que ela estava errada e que ela tinha conseguido me fazer perder o apetite, mas me limitei a comemorar internamente o fato de que a porta estava aberta.

No dia seguinte, às 13h, o maqueiro veio me buscar pra me levar pro bloco cirurgico. O cara era tao bonito quanto Brad Pitt e tao gay quanto Elton John. Sem problema, eu nao estava em condiçoes de exibir meu chalme naquele momento: depois dos remedios que me deram pra que eu chapasse relaxasse e aquela camisolinha de hospital, eu nao ia conseguir chamar a atençao dele nem se eu fosse o mais divino dos gays. A velha também elogiou a beleza do homem.

Cheguei na sala de cirurgia meio drogada e ja nessa hora, eu nao lembro de quase nada. E eh a partir desse momento que o drama se acentua. Abro os olhos, apos ter passado um longo momento passeando no limbo, e começo a sentir todos os invasores do meu corpo: um tubo na goela, outro entre as pernas, no nariz e, os mais incômodos, no peito. O médico, ao ver meus olhinhos abertos, vem e retira o tubo da garganta. Fez cocegas, mas nao as do tipo que te fazem rir. Meus olhos se encheram de lagrimas (reaçao normal apos compressao de algum nervinho local) e eu fiquei la, estatica. Vi as horas passarem com rapidez. Nao porque eu estava distraida, mas porque eu voltava a dormir por longos periodos.

No dia seguinte, fui levada a um quarto com duas camas. Ocupei a primeira e dormi. Meus amigos foram chegando, dei um oi drogado e dormi. Recebi presentinhos e dormi. A gente conversou e eu dormi. Eu tava bem louca. Eu nao queria falar, nem abrir os olhos. Na verdade, eu nao queria nem respirar, mas meus pulmoes eram teimosos. Mas o melhor momento foi sem duvida aquele em que ha a troca da roupa de cama. A troca se faz com o paciente na cama. Realizem. Eles levantam meus pés ao mesmo tempo em que vao retirando o lençol, me suspendem os quadris enquanto uma outra figura vai projetando o lençol limpo no colchao, até que todo o meu corpo tenha sido levantado, por partes, e um novo lençol tenha tomado o lugar do sujo. Falar sobre essa experiência nao me perturbou e me tomou somente alguns segundos do meu tempo. Viver a experiência me fez querer chutar aquelas mulheres e sentir dores em lugares cuja existência eu ignorava.

Quando nao eram visitas de trocas de lençol, eu recebia no quarto as responsaveis por me dar banho. "Banho". Elas tinham que passar uma esponja com sabao e depois agua no corpo todo. Esse momento era até relaxante. O problema é quando elas queriam lavar as costas e dai eu tinha que sentar. Soh que, quando você tem que sentar tenho uma abertura de um palmo recem-fechada no peito, sentar significa sentir dor. Muita dor. Tentei explicar que no Brasil as pessoas nao lavam as costas, um costume ancestral, praticado pelo povo local antes mesmo da vinda dos portugueses, mas elas me ignoraram e, quando dei por mim, tava sentada, choramingando e sendo lavada.

Quando nao eram as visitas de troca de lençol ou as de banho... o pessoal da radiologia chegava pra bater foto dos meus pulmoes. E dai eu tinha que levantar as costas da cama pra posicionar a placa na altura dos pulmoes. Dor. Muita dor. Minha vida, Brasil.


Mas nada era comparado à dor provocada pelas duas mangueiras enfiadas na lateral do meu peito. Eu nao tinha ideia de como exatamente elas estavam instaladas e fazia menos ideia ainda de como elas seriam retiradas. Por causa delas, era dificil mexer o braço direito. Eu não poderia fazer uma saudação nazista nem se eu quisesse. Mas isso me fez perceber algo obvio e pavoroso: o corte da cirurgia foi realizado no peito direito. “Misericordia... O que foi que eles operaram ?” Ja estava me preparando psicologicamente com a ideia de portar somente um pulmão, mas eu realmente estava na ala de cardiologia. Tudo certo. Ou quase.

Novo quarto apos a cirurgia, nova companheira de quarto. Esta compartilhava duas coincidências em relaçao à anterior: foi criança durante as Cruzadas a Segunda Guerra e peidava com vigor. Anna e Paula estao de prova ! Mas ela tinha um plus... Ela roncava.

Leitores queridos. Eu ignorava que um ser humano, tao pequeno e, aparentemente, tao frágil, pudesse emitir um som tao potente. Não deveria haver um soh musculo naquela garganta que prestasse pra alguma coisa. Dormi duas noites com meus fones de ouvido – sem musica. Numa delas, dormi três horas. Privada de sono, passei pelo menos uma hora ouvindo a melodia do ronco dela antes de decidir me entregar à televisão (em silêncio, usando os fones de ouvido). No dia seguinte, madame acorda e pergunta com um fio de indignação: “você assistiu televisão tarde da noite, não foi?” Fiquei calada porque sou lesa não queria contraria-la, mas admito que ja tava cansada dos pitacos e reclamações da véia.

Mais cansada ainda eu tava do cheiro que emanava do meu couro cabeludo. O banho de esponja que as enfermeiras me davam não se estendia à cabeça e, como em Lyon estava fazendo 78 graus, na sombra, e a véia tinha decidido fechar as persianas pra evitar a entrada de sol e oxigênio no quarto, eu transpirava por cada poro e mangueira do meu corpo. “Não morri com a cirurgia, vou morrer de calor. Que lindo”. A partir do segundo dia, comecei a sentir um cheiro de macaco velho. Era eu. Minhas lindas madeixas encaracoladas, ao termo de três dias roçando no travesseiro, tinham virado um ninho de rato. Uma enfermeira se apiedou da minha situação e com grande bravura se apresentou para pentear meu cabelo. Eu ri. Expliquei que ela poderia ainda encontrar na minha cabeça as mãos das pessoas que tentaram tocar no meu cabelo. E eu continuei la, na cama, parecendo a doida dos gatos. 

Gostaria de ter mais registros desses momentos. Eu deveria estar realmente um primor. Cabelo em pane, entubada, suada, cansada e fedida. Beth disse que eu dormia no meio das conversas e acordava respondendo à perguntas feitas dez minutos antes. Mas eu não dormia. Eu piscava o olho lentamente. Os primeiros dias foram bem dificeis. Eu tinha uma bombinha de morfina que eu podia acionar quando eu sentisse dor, mas ela soh liberava morfina a cada dez minutos e, na boa, eu nao via diferença nenhuma entre antes e depois. Eu nao, mas a velhinha do meu lado sim. Ela disse que a ultima vez que deram morfina a ela, depois de uma cirurgia no fêmur, ela teve visoes e caiu da cama! "Tinham coisas andando no meu quarto! Eu vi. E nao quero tomar morfina dessa vez". Pensei "nem eu quero que a senhora tome". Credo.

 Com o passar dos dias, foram me desentubando. Assim, ganhei uma mobilidade importante e a permissao de tomar banho! Eu sentia como se tivesse ganho na loteria. Eu podia me levantar, andar (andei cinco metros no quarto dia e senti que esses passos foram tao importantes quanto os de Armstrong em 69). Eu poderia ir sozinha no banheiro. E eu até deveria, senao a enfermeira teria que recolar a sonda na uretra. Horas depois, a enfermeira me perguntou com a mao na cintura:

- Você ja fez xixi?
- Nao... :D
- Mas voce nao esta bebendo agua suficiente?!
- Na-nao... :/
- Ah é? Você quer que eu coloque a sonda de volta?
- Nao :(

Aih eu sai correndo pra mijar. As enfermeiras pareciam minha mae, aff. Como vocês podem ver, fui bem cuidada. Voltei pra casa e tou sendo assistida por minha coloc que, olha que sorte, é enfermeira! Pra finalizar as boas noticias, minha orientadora disse que tinha gostado do meu trabalho. Agora, hora de descansar: muita informaçao pro meu coraçao.




domingo, 8 de setembro de 2013

E a mae, joana.


broder, e essa força?

por aqui, tudo bem. posso começar a falar do tempo, ja que a senhora sempre pergunta se aqui ta frio ou quente. é verdade que o clima pode influenciar bastante nosso humor, mas ultimamente tenho me sentindo tao bem, que deixei de ir à janela checar o rumo dos ventos pra decidir se ponho um sorriso ou se o guardo no bolso. gostaria de explicar porque me sinto bem, mas pra sua decepçao, é sem motivo aparente, mais ligado às minhas drasticas mudanças de humor do que propriamente à um emprego novo. ou esse bem-estar seja talvez porque eu tenha me dado conta de que um emprego, ainda que novo, nao vai contar em nada à minha felicidade. talvez conte à minha conta. mas nao conto com isso. mas te conto que (parei) estou bem simplesmente porque, aqui, ja sofri demais. mas nao era um sofrimento sabido. eu soh soube que fui triste porque agora eu sorrio. ainda que sem motivo. desculpa. na verdade, tem um motivo. ou varios. mas nao sao aqueles motivos-clichês: estabilidade, labrador no jardim ou carro na garagem. e ja me adianto que nao ando feliz porque descobri que o grande segredo da felicidade é mudar de carreira do nada, trabalhar menos, se ocupar mais dos filhos, seguir seus sonhos ou começar a procurar beleza nas pequenas coisas da vida, como o caminhar de uma joaninha no nosso joelho. eu sempre soube que joaninhas eram indicadoras supremas de gente feliz. ou sensivel. joaninhas ja me fizeram muito feliz. a ultima, inclusive, me fez feliz ha umas três semanas, quando eu tava colhendo damasco la em larnage. o sentimento provocado nesta mulher de 28 anos, foi provavelmente o mesmo produzido em qualquer outra criança que vê uma joaninha pela primeira vez na vida. o mundo todo para de mexer. e aquela joaninha se torna imensa. e vai dançando desajeitada na nossa pele. e vai deixando, em cada passo, um carinho. e, de repente, o nosso coraçao começa a queimar e o sorriso começa a sorrir e, sei la porque, a desgraçada da joaninha voa no apice do momento. e a realidade volta, os carros buzinam, você levanta o rosto e o mundo ta ali de novo, como era antes da joaninha decidir dançar. decidi parar de procurar felicidade em coisas tao efêmeras, mas nao pretendo afastar a possibilidade. 

mas mainha, nao tou escrevendo pra falar de joaninhas, ainda que eu saiba que a senhora poderia me escutar falar durante horas sobre um assunto tao banal. (...) desculpa, joaninha. tao "banal". eu tou te escrevendo pra dizer que eu ja fiz a cirurgia do coraçao e, por favor, maezinha, nao se sinta traida. eu nao vi nenhum interesse em amargurar esse seu coraçao falando da data ainda que ele seja bem saudavel (apesar dele estar batendo ao dobro do tempo que o meu). nao disse nada porque eu sabia que, enquanto meu coraçao estivesse sendo consertado, o seu estaria paralisado. mas pra te acalmar: tou bem. de novo. os detalhes eu conto em casa, ao telefone, porque ainda tou no hospital. mas tou aqui de boa, sem absolutamente nenhum cateter ou soro ou sonda ou dor, onde as recomendaçoes se limitam basicamente a "nao dar bunda canastica" ou "nao dançar a macarena bêbada". mas de qualquer jeito, eu nao faço mais isso – nao danço a macarena. sigo à risca as recomendaçoes do médico e as enfermeiras estao derretidas por mim. acho que ainda nao sou a queridinha de todas elas, mas pretendo me transformar deixando (comida e) um bilhetinho agradecido em cima da cama antes de ir embora. sou absolutamente a favor de bilhetinhos. dentro do bolso do amigo, na carteira do amado, na cama - ainda que seja na de um hospital e pra uma mulher. mas quando falei de traiçao, nao me referi propriamente ao fato de nao ter revelado a data. falo na verdade, da escolha de ter feito a cirurgia aqui, tao longe da senhora. mas segui meu coraçaozinho fudido e apostei que teria aqui o suporte necessario (nao o melhor) pra realizar a cirurgia. 

quando acordei sozinha na sala de reanimaçao, me senti infinitamente sozinha. eu tive um sonho quando era criança, provavelmente o sonho mais bizarro que ja tive na vida (eu sei, sonho bizarro = pleonasmo, mas). eu, numa piscina profunda, me deparo com uma vaca amarrada em cima de uma cama, as quatro patas atadas em cada ponta dela. e nesse momento do sonho, nao havia barulho. eu sentia uma angustia enorme de ver aquele bicho que, ainda que vivo, nao se debatia debaixo da agua. eu queria procurar a superficie, mas nao me mexia. ficava ali, vendo a porra da vaca turva e aquele silêncio ensurdecedor, aquela solidão azul. quando acordei sozinha na sala de reanimaçao, eu tava presa à cama, anestesiada. tinha pelo menos um tubo saindo de cada buraco do meu corpo, dois que saiam grotescamente da lateral do meu peito direito diretamente pra uma caixa de plastico e outras tantas agulhas presas às maos e aos braços. e naquele silêncio, soh me limitei a seguir o medico com os olhos. e toda vez que eu me sinto sozinha, eu lembro desse sonho, desse vazio. e nessa hora, eu me senti realmente sozinha, solidoes que soh uma doença é capaz de proporcionar. mas dessa vez, eu decidi me mexer. e fui la pra superficie tomar fôlego, deixei o silêncio, a agua e a vaca pra la. enfrentei quatro dias de claustrofobia em cima de uma cama porque nao podia me mexer e o que me enclausurava era meu proprio corpo. mas olha. tou aqui escrevendo esse email. tirei os tubos. guardei os buracos.

e sabe, no primeiro dia no quarto, recebi tanta gente, que fiquei de saco cheio (nada pessoal, pessoal): nao podia falar direito. e eles trouxeram porcos de pelucia, chocolates, paes, cookies, livros, bombons e até vieram, num dia de tempestade, me ajudar na correçao final da minha monografia (inclusive, a entreguei hoje). eles se revezaram pra corrigir os erros de ortografia e fizeram uma tabela com os dias de visita, pra que eu nao passasse nenhum dia sozinha no hospital. nico me abraçou tao forte quando voltou de viagem que eu senti o coraçao dele bater contra meu peito. e priscilla, quando se despediu hoje, pegou meu rosto com as duas maos, deu um beijo bem longo e, quando pensou em largar meu rosto, voltou a beijar a bochecha e rimos juntas como um belo casal de lesbica que nao somos. e eu soh pude ter vivido essas coisas, porque eu apostei que aqui daria tudo certo. era garantido que com a senhora eu nao passaria nenhuma privaçao, mas eu decidi arriscar. e ganhei. é por isso que eu tenho me preocupado menos com o tempo. essas pessoas sao minhas joaninhas de felicidades não-efêmeras. pode sorrir.


com amor, da filha querida


luciana

(é bom especificar, ela tem duas).

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Qual o problema de ser uma puta?

Li um artigo em francês que entra na série "mais atual, impossivel" e que, por sua utilidade publica, me fez querer traduzi-lo e publica-lo neste meu amado espaço. Por favor, nao analisar muito o nivel da traduçao, eu fiz o que pude. Foca no que interessa.

A verdade sobre as verdadeiras putas


Eu sou uma puta. Uma puta de puta, puta. Eles dizem isso direto. Os que leem meu blog e nao estao de acordo com o conteudo. Os que nao me amam. As mulheres que pensam que o sexo é repugnante. Os caras que querem boas meninas pra apresentar às suas maes e que pensam que, porque eu falo abertamente de sexo, eu nao gosto dos jantares de familia ou das maes.

Eles tem muitas razoes pra pensar o que eles pensam. Eu ja dormi com um monte de homem. Mais de dez. Mais de vinte. A gente continua ? Eu ja escrevi muito sobre minha vida sexual. Eu dividi historias pessoais porque eu pensei, e penso ainda, que nao somente eu escrevo bem, mas que eu escrevo uma boa histoira. Uma historia que, eu ainda estou convencida, tera um "happy ending" em alguma parte nessa porra, entre os emails injuriados e o papel que alguem colocou no carro da minha mae, estacionado numa estacao, no qual estava escrito "eu espero que voce esteja orgulhosa da puta que voce educou". 

Eu comecei a assistir a série The newsroom, de Aaron Sorkin. No começo, eu odiei o personagem de Sloan Sabbith. Essa cronista de economia, excepcionalmente atraente, loucamente inteligente e jamais desprovida de uma reposta espirituosa.

Atençao, spoiler, se você assiste à série.

Eu assisti o episodio que saiu no domingo passado. Dois momentos que prenderam mais do que tudo. Maggie pergunta à Sandra Fluke : "qual é o problema de ser uma puta ?". O segundo momento, é uma situaçao complicada na qual se encontra Sloan Sabbith. Ela sai com um cara. Ele tira fotos dela, ela ta de acordo, depois ela termina a relaçao. Ele publica as fotos na internet. O mundo inteiro vê o corpo da jovem menina. Sua carreira esta em perigo. Todo mundo fica sabendo. O rumor corre solto. Ela se senta no chao de um quarto escuro, chorando, e diz baixinho : "eu quero morrer".

Eu nunca me imaginei um dia me sentir grata à Aaron Sorkin. Por tudo. Mas eu agradeci baixinho à Aaron Sorkin.

Mais ao longo do episodio, Sloan Sabbith da de cara com seu ex, que publicou as fotos, no momento em que ele esta no meio de uma reuniao. Ela da um chute no saco dele, acerta uma direita e tira uma foto do seu nariz sangrando.

A puta ganhou. E isso, meus amigos, é magico. Porque, vejam vocês, a puta nao ganha nunca. As meninas que tiveram suas fotos publicadas na internet, nao ganham nunca. Elas perdem o emprego delas e a reputaçao. Elas sao humilhadas e forçadas a levar sua vergonha. Vergonha de seus corpos. Elas devem se desculpar por serem sexualmente ativas no meio privado. Por essas coisas que nohs fazemos na intimidade de nossos quartos que nohs nao deveriamos fazer, mas que nohs fazemos mesmo assim, porque existem nove bilhoes de habitantes nesse planeta e eles chegaram aqui de uma maneira ou de outra. Sloane Sabbith se senta no seu quarto escuro e diz : "eu quero morrer". Porque ela deixou seu namorado tirar fotos e ele as publicou. Nao foram fotos dela matando cachorrinhos, batendo em criancinhas ou estuprando pessoas idosas. Sao fotos dela. Do seu corpo. Essa coisa que vive sob suas roupas. As partes do seu corpo que sao, de certa maneira, mais ofensivas que os dedos dos seus pés. 

Depois chega Maggie com essa frase que resume o que eu me esforço dizendo ha muitos anos. "Qual é o problema de ser uma puta ?"

Fim do spoiler

Nohs temos todas medo de receber essa etiqueta. E a ironia dessa historia, é que a maior parte de nohs (e talvez eu esteja errada sobre esse ponto, mas eu estou quase certa de ter razao) fazemos essas coisas como as verdadeiras putas fazem. Nos tiramos fotos. Nos enviamos mensagens de texto safadas. Nos dormimos com nossos namorados. Nossos maridos. Nos chupamos. Nohs nos despimos. Nohs temos uma vagina. Nohs a utilisamos. Algumas entre nohs, as vezes, sentem mesmo prazer em utilisa-las. Nohs temos seios e mamilos e nadegas. Entao, com certeza, nohs deveriamos todas ter vergonha. Porque somos as unicas a fazer esse tipo de coisa. Você me entende, você, mulher do mundo inteiro ? Você é a unica a fazer o que você faz com esse cara (ou essa menina, ou pior, COM OS DOIS). E isso é tao terrivelmente ofensivo, ruim e vergonhoso. Como? Você quer saber por que ? Oh. Porque… puta ?

Me chamaram de puta outro dia, na internet, no que deve ter sido a milésima vez. Por causa de um artigo que eu escrevi sobre o emprego de barman. Como se fosse também uma injuria. Eu nunca ganhei o prêmio Pulitzer. Mas vocês sabem quem eu sou ? Uma boa pessoa. Eu sou perfeita ? Nao. Eu cometo erros ? Absolutamente. Grandes erros ? As vezes. Eu fiz coisas das quais eu me arrependo ? Sim. Eu faço coisas que eu nao me arrependo mas que, segundo alguns, eu deveria me arrepender ? Sim. Eu sou um ser humano. Eu tenho seio. E uma vagina. E a maneira com a qual eu os utiliso nao faz de mim alguém bom ou mal. Eu escrevi uma vez que se uma mulher descobrisse uma vacina contra a aids, mas no dia seguinte fotos dela nua com um vibrador viessem à tona, essa ultima parte seria a manchete dos jornais. Porque, evidentemente, os vibradores fazem mal às pessoas (piadas à parte). Evidentemente, uma mulher tendo uma relaçao sexual ofende as pessoas. Uma mulher tirando fotos dessa coisa assustadora sob suas roupas ? Falemos sério, eu nao diria que seria tao horrivel quanto uma criança com cancer, mas… na verdade, sim.

Eu agradeci silenciosamente Aaron Sorkin, nao porque ele soube sair do pensamento quadrado e abrir um debate sobre o sexismo, as mulheres e "dois pesos, duas medidas". Esse duplo padrao incrivelmente frustrante, existirah até o fim da minha vida e ainda muito tempo depois disso. Desculpa cortar seus coraçoes, senhoras. Mas eu agradeci Aaron Sorkin de ter dado à puta "aberta" o "happy ending". De ter lembrado ao mundo que a puta que se deixa flagrar fazendo coisas (que todo mundo faz) e que ninguém ousa fazer, é ainda sim, alguem bom. Que mesmo com internet, os blogs de fofoca e de "dupla moral", as putas podem ganhar sempre. E ter esses momentos onde elas atingem o saco de um cara e o faz se arrepender de ter um pênis nesse momento, da mesma forma que as mulheres se arrependem de ter uma vagina quando uma foto da dita vagina é publicada na internet. 

Eu me recuso a me desculpar de ser uma verdadeira puta e de escrever sobre esse assunto se isso puder evitar que uma menina, nesse pais, se sente num quarto escuro dizendo que ela quer morrer porque a chamaram de puta. Por lembrar ao mundo que as putas podem fazer boas açoes. Elas praticam esporte, ganham trofeus e ajudam doentes. Elas ganham causas e eleicoes. Elas amam suas familias. Elas podem ser boas amigas que trabalham voluntariamente num abrigo de animais e que enviam correios aos soldados no exterior. Elas podem dar 10$ a um sem-teto que ninguém da atençao. E elas nao fazem isso por se desculparem por serem putas. Elas o fazem porque ela sao boas pessoas. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Round II

Meu coração tá batendo
Como quem diz:
"Não tem jeito!"
Zabumba bumba esquisito
Batendo dentro do peito...

Falei aqui, mas aparentemente nao expus suficientemente minha vida. Hohoho. Post rapido pra acalmar os coraçoes - porque sei o que é um coraçao preocupado.

Teu coração tá batendo
Como quem diz:
"Não tem jeito!"
O coração dos aflitos
Pipoca dentro do peito
O coração dos aflitos
Pipoca dentro do peito...

Crianças, vou fazer um breve post relatando com mais detalhes o que ha. O que haverah: preciso fazer uma cirurgia pra corrigir o que conhecemos como "sopro no coraçao". Ponto. Nasci com isso, nao quero morrer com isso. 

Como eu gosto muito do meu coraçao, apesar das coisas que ele me faz sentir... (ou justamente por isso?) eu gostaria de remenda-lo. Isso me darah algo como uma melhor qualidade de vida. Qualidade de vida pra mim é tomar cerveja na beira da praia com meus amigos. Ou tomar cerveja, somente. Mas ao que me aparece, os medicos nao estao de acordo com minha simploria filosofia de vida e logo vou fazer outra temporada num hospital lionês. 

Vou mandar consertar o bichinho aqui mesmo. Fiquei apavorada com a historia do tumor, por isso fui pro Brasil. Acho que a tal depressao nao ajudou muito, mas, uma vez esta ultima vencida, estou de peito aberto para receber uma nova cirurgia por aqui mesmo. Mais estrupiado do que ele estah, ele nao pode ficar. Eh o que esperamos. 

Coração-bôbo
Coração-bola
Coração-balão
Coração-São-João
A gente
Se ilude, dizendo:
"Já não há mais coração!"...


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Je dis aime!

Ontem tive uma noite linda com um homem. Eu, ele e mais dez mil pessoas. Foi uma orgia à céu aberto, num dos meus lugares preferidos em Lyon. O nome do sujeito é Mathieu Chedid e ele é dono dessa cara:



 Ele também é dono dessa aih embaixo. Mas eu o aceito como ele é. 


Sou lindo.

Gosto. Gosto dele. Tem voz fina e, sei la como, consegue ser sexy - falou a pessoa que gosta de homem-macho, sabe. Brucutu. Que coça o saco, cospe no chao e da tiro pra cima. Mas nao acreditem em tudo o que eu digo. Dai, desembolsei uma grana - que daria pra me deixar bêbada durante uns dois dias - num ingresso e, NOVE MESES depois, la estava eu, euforica e palpitante pra ver o homem cantar. E dai, ele cantou, eu cantei, ele dançou, eu dancei, ele gritou, eu gritei. Ele rico graças a mim e eu pobre por causa dele. Os dois felizes. Isso que importa. Foi bom pra você? Foi. Quando a gente se vê de novo? Em novembro: cabei de comprar outro ingresso pra vê-lo. Prazer, meu nome é Luciana e eu sou impulsiva. Sou pobre. Passo fome, mas nao passo vontade.

J' veux pas finir ma vie à Honolulu
Chanter comme un oiseau çà n'se fait plus
Je veux ma voix brisée, triplement brisée !





Ps. Oui, cops Elisabeth, vamos juntas! :D

::

Vou viajar, volto em julho com novas aventuras. Essas, prometem. E, se eu morrer, quero que vocês saibam: amo minha mae. E Fabio. E minha irma. Véi, eu amo minha irma. 

terça-feira, 4 de junho de 2013

Tom sobre tom

Um dia, enquanto eu mostrava aos meus amigos a nova cor da parede da sala da minha casa, pintada por mim mesma, a campanhia tocou. Nos entreolhamos. Estamos esperando alguém? As sobrancelhas saltaram aos pares. Gritei um "vai entrando" curioso e decidido: permitir as pessoas entrar na minha casa me possibilitou conhecê-las melhor. Foi assim com os amigos citados, por exemplo. Com varios passos feitos por duas unicas pernas, vi surgir um figura completamente desconhecida que, sem que eu soubesse, tinha por habito me espionar. Deixar cortinas e portas abertas pros vizinhos pode nao ser sempre uma boa ideia, afinal. Meu "convidado" me cumprimentou de maneira tao rude... que foi como se aquele oi em lingua estranha fosse uma maneira de insultar. E, sem que eu perguntasse, ele disse a que veio: "eu vou parar de espionar você". Nos entreolhamos. Ele esperou uma reaçao. Eu esperei entender. Ele continuou, ainda sem incentivo de minha parte: "do meu quarto, eu vi a parede da sua sala descascando. Eu vi sua tristeza, como você andava perdido. Mas também vi você tentar dar a volta por cima. Foi comprar tintas novas. Foi dificil escolher a textura. O peso das tintas comprometeu a saude da sua coluna. Você foi forte, admito, mas... Que porra de cor é essa?! Que verde é esse? Eu nao gostei desse tom. Olha, você é daltônico e nao vê problema nisso. A partir de hoje, eu nao pretendo mais espionar você". Vimos seus calcanhares se distanciarem. Meus amigos ficaram confusos. Tentei minimizar o ocorrido: "vivo bem com meu daltonismo, a nao ser que eu dirija. E eu nao dirijo nunca". E viram em mim o vermelho que nao vejo neles e sorriram. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

E que dia é hoje, amiguinhos?

Poderia ter sido apenas mais uma sexta-feira, como qualquer outra, onde saio com meus amigos e encho a cara. Mas essa, era uma sexta-feira especial. A sua "especialidade" começou pelo fato de que eu tive que trabalhar - nao trabalho nas sextas, tenho mais tempo para diversao e nenhum dinheiro para isso. Sai do trabalho e, antes de pegar o caminho que leva ao meu quarto, telefonei para um amigo (M.) que me chamou pra sair. 

"AAEE, LULUU! BORA SAIIRR! AAAEdeHHHhhhWOOW!"

Apos a sequencia de barulhos extravagantes - que mais diziam sobre o seu estado alcoolico* que propriamente sobre sua felicidade em falar comigo - subi na minha bicicleta envenenada e me juntei a M. e seu amiguinho na casa de terceiros. Eram 22h e minha barriga nao via comida desde às 13h. Pretendia voltar pra casa cedo, entao, quis ser rapida e eficaz na bebedeira: tomei meio litro de cerveja a quase 9% e ja cheguei no barco (era uma boate-barco) vendo estrela. Segundo o quadro que se encontra abaixo, eu estava "euforica" e minha diminuiçao de julgamento iria se manifestar numa aposta com M. Eu:

- Aposto que teu xixi nao chega até a rua.
- Ele chega sim.
- Que nada, ele tem ainda a metade da calçada pra percorrer e ta perdendo força.
- Chega!
- Se ele chegar até a rua, te pago uma caipirinha.

E foi assim que eu perdi 8 €.

Etanol no sangue (gramas/litro)EstágioSintomas
0,1 a 0,5SobriedadeNenhuma influência aparente.
0,3 a 1,2EuforiaPerda de eficiência, diminuição da atenção, julgamento e controle
0,9 a 2,5ExcitaçãoInstabilidade das emoções, incoordenação muscular. Menor inibição. Perda do julgamento crítico
1,8 a 3,0ConfusãoVertigens, desequilíbrio, dificuldade na fala e distúrbios da sensação.
2,7 a 4,0EstuporApatia e inércia geral. Vômitos, incontinência urinária e fezes.
3,5 a 5,0ComaInconsciência, anestesia. Morte
Acima de 5MorteParada respiratória

Entramos na boate, fomos até o bar e no final do copo, eu ja tinha passado pra terceira etapa do nosso quadro: excitaçao. Puxei papo com duas mulheres que estavam ao lado como se tivessemos feito  faculdade juntas. Mas elas eram tao legais! Acho que eu devo ter dito isso pra elas. Quis outra caipirinha, mas os meninos ainda nao tinham terminado a deles. Comecei a saltitar, a achar a vida linda. A vida era linda. A musica acariciava meus ouvidos e eu soh pensava em dançar. Fui beber.


No segundo copo, fomos pra o terraço do barco (exatamente este que estah ao lado) e continuamos a conversar divertidamente. Eu ja nao queria mais dançar. Eu queria voar. Eu queria voar, mas meus pés estavam estranhamente pesados. A partir desse momento, eu nao lembro de muita coisa, so de ver um novo copo na minha mao. No final dele, nao tive duvidas: foi o dito que me levou a dizer, segundo testemunhas, "vou ali vomitar". Estupor. 

Eu sai chutando os pés e me locomovendo como um polvo, por propulsao. Me jogava pra frente, dava dois passos e ia pra direita. Me jogava pra frente, dava três passos e ia pra esquerda. Foi assim que cheguei no exterior do barco, sentei sei la onde, abri as pernas e, sem fazer nenhum esforço, vomitei. Nao sei direito o que vomitei, nao averiguei, mas vomitei tanto que desceram lagrimas. Quando pensei que ja tinha acabado, vomitei mais. 

Celular toca. Eh M. Olho, ignoro, vomito. Tentei escrever uma mensagem mas os dedos nao correspondiam ao comando do cérebro. Foi uma luta de Titas. Meu cerebro aos frangalhos e meus dedos aflitos. Consegui escrever "Es dtour". Deve ser algum pedido de socorro em alguma lingua alienigena, mas seja como for, desisti de me comunicar com M. Tentar aprender a escrever levou menos tempo e foi mais facil que aquilo. 

Luzes... sons ao longe... e um "Lulu" familiar. M. e seu amigo me encontram e  avaliam a situaçao:

- O que é que a gente faz?
- Nao sei, acho que ela nao pode pegar a bicicleta.
(vomito soh de me imaginar fazendo algum esforço que seja)
- Eh. 
- Bora chamar um taxi.

Eu soh queria morrer. Sentia que minha alma tinha ido embora passear. Fiquei la, dobrada em dois, olhando pros meus pés. Um taxi brotou do chao, mas eu nao tinha forças pra me levantar. Entao, eles me levaram, me jogaram no carro e tudo o que eu fazia era grunhir. Entrei no carro e dormi. Abri os olhos e, com uma emoçao nunca antes vivida, me deparei com minha casa. Fechei os olhos, abri e estava na sala. Fechei os olhos, abri e tava no banheiro vomitando. Fechei os olhos, abri e  tava na minha cama. Era 1h da manha.

No dia seguinte, acordei como uma flor. Desconfiada, vi uma garrafa de agua intocada ao lado do colchao. Me sentia bem. Minha alma tinha voltado. Sentei. Tentei lembrar da minha noite e senti uma coisa estranha. Vergonha. Cinco anos sem vomitar para acabar sendo derrotada por meio litro de cerva e três caipirinhas. Fui humilhada! Logo eu que raramente tenho ressaca. Logo eu. Mas vômitos sao uma liçao de vida. Um ensinamento. Uma das ultimas vezes que vomitei (senao a ultima), foi quando morava no Brasil. Depois de uma festa na casa de Camilo, acordo e, ao lado dele, vejo uma bacia cheia de vômito. Olho pro coitadinho e pergunto:

- Amor, você vomitou?
- Eu nao. Foi tu.

Mas agora, vendo essa tabela, acho que tive sorte com essa coisa de incontinência urinaria e fezes. 

Quatro dias depois, fui buscar minha bicicleta. Meu maior medo era de encontra-la sem a sela. Mas a sela estava la, assim como o guidao e os pneus. A unica coisa que faltava era o conteudo esperado da câmera de ar: alguém excitado, confuso ou euforico, secou meus pneus. Entao, tive que levar minha bicicleta pra passear, debaixo de chuva até a casa dos meus patroes e depois pegar dois metrôs lotados (com a bicicleta) até a minha casa. "Valeu a pena, Luciana?", indaguei-me. Valeu, pois vocês tem um poste no blog e eu tenho uma liçao: nunca mais vou beber caipirinha. De barriga vazia. 




* minha dislexia bêbada me fez escrever "alcoolitro".  Gente.


Talvez

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