sexta-feira, 27 de julho de 2018

A peleja do Petit Dragon

As aulas do Krav Maga ja começaram e também ja terminaram - é nessas horas em que eu me dou conta de como eu demoro a escrever. "A Era Cenozoica começou. E também ja terminou". As aulas do Krav Maga ja começaram e também ja terminaram. Agora, podem me chamar de Arma Branca. A gente aprendeu a desarmar gente que te ameaça com faca ou com revolver, aprendemos a fugir de uma agressao se estivermos sentadas ou mesmo deitadas (é soh se fingir de morta, igual com urso). Aprendemos até a sair de uma situaçao onde você ta de joelho e ha uma pessoa apontando uma arma pra sua cabeça, atras de você. Nessa, o professor perguntou "qual melhor maneira de sair dessa situaçao?"

- Rapaz... O cara ta armado?
- Eh.
- Atras de mim?
- Sim.
- Eu tou de joelho.
- Eh...
- A merda ja ta na calcinha.
- Eh. O que?

Eu sei la como se sai dessa! Eu faria o que sempre faço quando tenho um problema, chamo a minha maezinha. Uma das primeiras coisas que ele explicou foi que, durante uma agressao, nunca devemos  gritar "socorro" pra dissuadir o agressor. Alguém sabido disse "temos que gritar 'fogo'". O professor corrigiu: "nao, temos que gritar 'terrorista!'". 

DICIONARIO PORTUGUES - FRANCES

Bom dia: Bonjour !
Por favor: S'il vous plaît!
Socorro: Terroriste !
Boa noite: Bonsoir !
Obrigada: Merci !

O material obrigatorio pras aulas: caneleira, protetor genital feminino, luvas de luta livre e proteçao pros dentes. Caso você quebre algum dente, o seguro soh te cobre se você tiver portado o protetor de dente no momento do acidente. Também comprei uma blusa com o nome do clube, mas depois contaram que uma menina tava vestida com a blusa e um cara ficou provocando ela no metrô, chamando pra briga. Acho isso uma idiotice sem tamanho. Pra mim, a unica razao valida pra começar uma briga é diante da injuria "Beatles ou Rolling Stones?". Ja matei três. 

Eu nunca usei o protetor genital. Eu posso até ficar com essa cara da foto com o protetor de dentes, mas usar protetor genital é demais pra minha imagem. E olha que eu conheço os estragos de uma vulva destroçada. *musica triste no violino* Quando eu era pequena, eu tava andando de bicicleta (sempre ela), andando muito rapido, muito muito rapido. Eu estava montada no vento. Aih eu tive que frear e nessa freada, meu corpo foi se projetando pra frente e a bicicleta ficou exatamente onde ela estava. Mas algo me impediu de voar da bicicleta: o meu pubis. Ele se chocou contra o noh central do guidao. Doeu tanto que eu achei que meu umbigo e minha vagina tinham formado um soh. Décadas depois, me encontro recusando um protetor xenital. Sei la, aquele negocio voluminoso entre as pernas te dah uma sensaçao de poder muito grande, sabe. Você olha la pra baixo, você vê aquele pacote e ja começa a coça-lo, a mostra-lo pras meninas na rua. Você soh fala nele pros seus amigos e começa a achar que você tem mais direitos que os nao-pacotudos. E como eu sou ligada nessas baboseiras de feminismo e direitos iguais, deixei o protetor genital pra la. Vai que eu começo a achar que eu sou o centro da terra.

No intuito de colocar a gente em situacoes verossimeis, o professor trancava a gente no vestiario ou no banheiro e designava uma vitima e varios agressores. Você sabe que tudo é encenado. Você conhece as pessoas que estao encenando. Mas quando você ta trancada num banheiro e três pessoas tentam te bater, você da play no instinto de sobrevivência. E nao é bonito. A primeira te bate, você revida, a segunda chega, você da murro, a primeira volta, você lembra que tem pernas, da chute, mas a terceira ja ta te socando, você empurra todo mundo, a baba escorre, você fecha a boca mas o protetor ta ali impedindo. Pela gritaria, você pensa que realmente tem um estuprador ali. Em dois minutos de luta, você ta tremendo de cansaço. E acho que esse é, pra mim, um dos grandes aprendizados do Krav: eu nao duraria nada numa luta. Mas o professor disse que isso era o esperado de qualquer pessoa de porte fisico de uma galinha desnutrida médio. Por isso, o objetivo dele nao era ensinar a gente a lutar, mas ensinar tecnicas que permitiriam a gente de fugir em segurança. Aceitei. Mas aceitar nao é pra todo mundo.

Sophie, nunca te esquecerei. Sophie era uma jovem garota que nao sabia brincar. Quando ela vinha pra aula, a gente fazia um eye roll coletivo e tentava nunca fazer dupla com ela. Vou explicar o porquê. Claro. Numa das aulas, o professor deu a cada uma 1/4 de um macarrao (o de fazer boiar, nao o de comer, pelo amor de deus) pra que a gente tentasse tocar os pontos fracos da nossa adversaria (pescoço, barriga...) ao mesmo tempo em que evitavamos ser tocadas. Era soh tocar, no melhor estilo D'Artagnan, touché. Mas a cavala da Sophie pegava o macarrao e descia o cacete na parceira, puxava o macarrao da ôta e tome porrada nela! Ave maria! Eu parava com minha adversaria pra olhar a cena, a mao na boca. O professor ficava louco. Se o professor mandasse bater no pao, ela batia com a força das tripas. Foda-se a técnica, o importante é fazer a colega do outro lado cair dura no chao.

Pessoa segurando um pao

Pessoa segurando um pão

As aulas seguiam quase sempre a mesma dinâmica: o professor nos ensinava uma técnica e, la pro fim da aula, ele cansava a gente em algum exercicio aleatorio. Logo em seguida, nohs deviamos aplicar a técnica ensinada no começo do curso. Ele explicava que esse "cansaço" seria o equivalente a um ataque surpresa no meio da rua, quando você nao consegue raciocinar direito. Entao, ele fazia, por exemplo, a gente girar em torno de nohs mesmas, de olhos fechados e, ao abrir os olhos, alguém atacava a gente. Ou ele colocava duas meninas no tatame de 3x3m e a ideia era colocar pra fora a adversaria. Aih volta Sophie e uma pequena descriçao dela: um ser muito competitivo de 17 anos, maior e mais pesada que todas nohs, com uma pontinha de psicopatia brilhando atras daqueles  olhinhos negros. Quando ela entrava no tatame, ela ja olhava pra gente assim


"Meu deus, entrei aqui pra aprender tecnicas de defesa e vou sair dentro de um saco fechado com ziper". O professor se aproxima, escolhe Sophie e eu pra subir no tatame. Sophie começa a dançar Haka. Eu enxugo discretamente o suor do buço. A gente sobe no tatame, o professor dita as regras: "vocês começam de joelho e nao podem se levantar. A primeira que tocar o chao, com qualquer parte do corpo, perde. Vocês tem três chances. E as que perderem, tem uma puniçao. FIGHT!". O professor mal fechou a boca, a menina foi voando em cima de mim. Soh que Sophie nao sabia um detalhe: eu sou competitiva pra caralho. Alias, troquem "competitiva" por "apaixonada pela vida". Quando ela voou em cima de mim eu apliquei a técnica dos manifestantes que precisam ser evacuados pela policia de algum lugar ocupado: fiz peso morto. Ela se cagava pra me empurrar pra fora mas enquanto eu tava prostrada no chao, aproveitei pra agarra-la e joga-la sobre mim pra fora do tatame. Ela colocou a maozinha dela no chao, mas mesmo assim continuou a lutar.

- Opa, nao! Perdeu, balao! Ieewww!
- NAO, MAS EU COLOQUEI SOH A MAO PRA FORA, TEM QUE SER O CORPO TODO!
- Tiaaaaa! Olha Sophie robaaanu!

O professor veio e me deu razao. Luci 1 x 0 Sophie. Senti o olhar maligno dela pairar sobre minha alma, mas pensei "se eu ganhar essa, broder, tou tranquila". Até porque a puniçao pras perdedoras eram três murros de cada vencedora na barriga. Not today. Tentei a técnica do peso morto de novo, mas ela se concentrou em empurrar meu centro de gravidade e aquela merda tava dando certo. Pensei com serenidade "vou perder, caralho" e o chao cada vez mais perto. Foi quando eu ouvi a voz de Mestre Chung e seus grandes bigodes brancos.

- Procure a força que ha em você, Pequeno Dragao!
- Mas ela é mais forte do que eu, Mestre!
- Observe uma flor: a cada dia, ela se abre para alcançar a luz e a cada fim de tarde, ela se fecha novamente.
- Mas como isso pode me ajudar nesse momento?
- Nao pode.
 
Nao me perguntem como, mas eu consegui jogar essa menina pra fora do tatame e soh nao fiz dancinha porque ainda tinha a terceira parte e eu nao sabia se ela conhecia o significado do termo fair play. Fiquei na minha. Nao demorou muito, ela me jogou pra fora do tatame e disse sorrindo "PELO MENOS EU SALVEI MINHA HONRA".
"Minha honra".

Salvou nao, minha filha. Agora soh no harakiri. Fiquei passada imaginando essa menina perdendo a virgindade e estendendo o lençol sujo de sangue na varanda de casa. Depois de uns meses, ela abandonou o curso. Nao vou me inscrever de novo no proximo ano porque temos novas aventuras em vista, cenas do proximo capitulo. 




sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

De como nascem os traumas

Atualmente, eu moro com duas outras criaturinhas e posso dizer que achava mais facil morar com  dez pessoas que com somente duas. Porque se você nao gostar de uma das dez pessoas, você tem um problema com apenas 10% da casa. A três, se você nao gostar de uma das pessoas, você nao gosta de metade da casa. A nao ser que você também tenha um problema consigo mesmo. Nesse caso, é melhor você livrar a pessoa legal da presença de vocês dois. 

Mas nao era disso que eu queria falar. Queria dizer que, como eu fui a primeira a entrar no apartamento, eu tive que encontrar os fiadores e colocar meu nome em todas as faturas e no contrato do apartamento. Se a vida me decidiu adulta, comecei a agir com adultice e acabei me tornando descascadora de pepino profissional em relaçao aos problemas da casa. Eu arranjo tudo aqui! Pode-se dizer que eu sou o homem da casa.

(queria ter visto a cara dazamiga feminista lendo essa frase)

E, como vocês verao, os problemas daqui sao muitos. Vem comigo, gentchi!

Ha um mês, a internet parou de funcionar e... Alias, esqueçam o que eu disse no paragrafo anterior sobre autonomia na resoluçao de problemas. Eu resolvo tudo, mas eu tenho meus limites: fazer ligacoes telefônicas pra desconhecidos. Pra conhecidos também, mas nesse caso, sao eles que ligam e eu nao tenho muita escolha. Entao, quando a internet parou de funcionar, eu terceirizei a ligaçao para Namorado. Ele é otimo. Ele liga, expoe o problema e a atendente:

- Você ja tentou reiniciar a box?
- Nossa, tou falando com o funcionario do mês?

Nao estava. Claro que reiniciamos a box! Reiniciamos a box e apertamos tanto botao que devemos ter reiniciado a internet de outras casas. Mas num procedimento padrao, a moça fez a gente trocar os cabos, desligar aparelhos e liga-los numa sequencia tao especifica que eu achei que ela tivesse tirando onda da nossa cara. Pensando bem, talvez estivesse mesmo. (...) Nossa, ela nos enganou direitinho. Enfim, pra compensar minha covardia de nao ter falado ao telefone, fui seguindo namorado pela casa como uma sombra e antecipando as necessidades dele, ligando as luzes, tirando movel de lugar, dando os codigos e numero cliente exigidos pela telefonista. Acho que todo esse auxilio silencioso me lembrou muito minha avoh e de quando eu era criança e ia passar as férias na casa dela, em Campina Grande. Na época, ela tinha uma historia de ir no Centro "resolver as coisas". Veja bem, resolver as coisas nao era assinar um tratado de paz mundial, mas comprar um carretel de linha ou amolar um alicate de unha. E eu adorava resolver as coisas com ela. Ela costurava e, de vez em quando, ia atras de uma revista de costura ou de um apetrecho.

- Olha, vovoh, esse carretel é preto e...
- Num é esse preto que eu quero nao, menina.

Aih ela pegava um carretel preto mais preto que o preto absoluto e eu ficava ooohhh vovozinha! Como eu disse, eu gostava de sair com ela, MENOS... menos, meu amigos, quando chovia. Quando chovia era foda. Quando chovia todos os cidadaos campinenses se apinhavam nas calçadas à procura de um abrigo que, vez ou outra, ostentavam as lonas dos camelôs. Mas o pior era quando vovoh abria o guarda-chuva. Minha avoh é muito pequenininha, soh ela e Polegarzinho tem essa altura. Entao, quando ela abria o guarda-chuva, ele ficava exatamente na altura da cara das pessoas, funcionando como uma hélice mortifera, mas ela nem se dava conta. Ela ia andando pela calçada feito um foguete, prestando atençao nas bancas de revista, procurando a "Manequim" do mês e enfiando o guarda-chuva no olho das pessoas. Se virava e VRAAA na cara de um. Mudava de direçao e VRAAAA na cara de outro. Era passando e deixando um rastro de caretas e sangue atras dela. E eu ia atras, morta de vergonha, trabalhando a diplomacia "ai, desculpa, moço! Eita, vov... ai, minha senhora, taquih seu olho. Desculpa, ta? Ah, quê? Ele nao é verde? Meu deus, de quem é esse olho verde? Vovoh, espera, para de se mexer!" e assim ia, até a chuva dar clemência. Bons tempos!

Voltando pra 2017: a atendente nao conseguiu resolver nosso problema com a internet e tivemos que ir até a loja pegar uma chave 4G enquanto a box seria magicamente reparada à distância. "Quando a luz voltar a ficar branca, é porque tah bom". Como isso me pareceu muito razoavel, aceitei. Passado um tempo, tudo estava indo muito bem na minha vida até que o inferno astral começou. Pra quem nao sabe, o inferno astral é um periodo de merda de 30 dias que precede o dia do aniversario da pessoa. Como meu aniversario é em maio e o periodo de merda taih, imagino que estou vivenciando o inferno astral de Jesus Cristo porque ta complicado. Pra falar a verdade, tudo começou a dar ruim ha mais ou menos uma semana, entao, podemos dizer que se trata apenas de um inferninho astral.

Na quarta:
Notei que as nossas caçarolas estavam flutuando num liquido pastoso, fedorento e amarelado que escorria de algum lugar desconhecido da pia. Pesquei as panela e fui consultar o encanador que fica, comodamente, no térreo do nosso prédio. A secretaria disse que ele iria passar somente "amanha", à 10h.

Quinta:
 A 11h30, o encanador da sinal de vida. Foi la em casa e quando eu abri a porta, senti um cheiro tao forte de birita vindo dele que eu tava na duvida se eu dava um high five ou um conselho. Era um velhinho de poucas palavras. E de poucas atitudes também.

- Eh. Ta entupido.
- ...
- Nao vou poder consertar agora.
- Euh... Entao quando?
- Hoje de noite você ta em casa? 
- Tou, mas muito tarde, vocês ja vao estar fechados.
- Nao, a gente nao tem hora pra fechar nao.

Na verdade, tinham. Nao somente tinham hora pra fechar como fecharam.

Sexta:
O senhorzinho também nao passou na sexta.

Sabado:
A mangueira da maquina de lavar roupa também ta com um vazamento.
 
Segunda:
Vou no encanador, falo do primeiro vazamento, falo do segundo vazamento, temo por alguma alcunha, falo que é urgente, o encanador chega horas depois, conserta os dois vazamentos e diz que vai voltar no dia seguinte pra verificar se tudo esta bem.
 
Dia seguinte:
O encanador volta, se certifica que o primeiro vazamento esta estancado (jucah feelings) e vai embora.
 
Dia seguinte do dia seguinte:
Descubro outro vazamento na maquina de lavar. Como sou uma adulta, exclamo em adultês: mas sera o benedito? (Minha alma é velha) Desço pra ver a secretaria e encontro uma foto minha na porta do encanador com duas faixas vermelhas se cruzando em cima dela. Respiro fundo, entro e tento:
 
- Moça. Olha...
- ...
- Eu sei, eu sei. Eh que...
- Nao. 
- Sim. Aconteceu...
- Mas assim?
- Sim. Mas eu nao tenho culp...
- Querida, posso te fazer uma pergunta?
- Nessa altura, er, pode...
- Você ta apaixonada pelo...?
- Eu? Nao!
- Nao?
- Nao!
- Ta bom, ta bom...
- Eu soh queria que ele...
- Sim?
- Viesse e...
- Sim...
- Olha, tenho que ir.

Sai de la correndo, dobrei a esquina, cabelos embaraçados, lagrimas no rosto. Encostei na parede e, arfando com meu caderno apertado contra o peito, fui deslizando devagarzinho e fiquei la, agachada, naquela tarde umida, sem saber exatamente o que eu estava sentindo. Tudo aquilo fazia sentido? Estava eu apaixonada pelo encanador pé de cana? Talvez mrs. Dawson estivesse certa e eu estivesse sabotando o trabalho dele para... para...

Para ver este miseravel aparecer aqui em casa e consertar, pela 4a vez, a porra da maquina de lavar que soh podia ta possuida! O vazamento vinha da outra ponta da mangueira! O pior é que o chao do apartamento é de madeira e ele absorveu toda a agua. O piso ficou preto e todo fofo. Oing! Fechei a torneira e, enquanto esperava o enganador, resolvi diminuir o estrago secando um pouco o chao com o secador de cabelo. Procuro meu secador no banheiro e nao acho. BUFANDO mando uma mensagem pras minhas roomates, QUEM FOI A CARA DE FUINHA QUE PEGOU O CARALHO DO MEU SECADOR?, pensei. "Galera, quem pegou meu secador de cabelo, por favor?".

Enquanto a demoiselle nao se entregava, peguei um secador aleatorio que estava à disposiçao e me mandei pra cozinha. Empurrei a maquina, liguei o secador, direcionei o vapor e, 30 segundos depois, ele estourou na minha mao, POW! Eu dei um grito e um pulo pra cima da geladeira. Eu morro de medo de levar choque! Sabe aquelas brincadeiras que a gente fazia quando era criança, "você prefere morrer eletrocutado ou queim..." Queimado. Prefiro morrer queimado e esturricado. Cara, eu levei um choque dos infernos quando era pequena. Mereci. Desobedeci à minha mae e fui traquinar. Peguei um fio que tava desencapado e enfiei na tomada. Minha mae tinha avisado: "nao é pra pegar nesse fio, ele pode dar choque". Aih ela colocou o fio em cima do guarda-roupa. O que eu fiz? Subi na cômoda, peguei o fio, coloquei na tomada e depois peguei na ponta desencapada. Levei um choque dos bigode queimar. Sai correndo desesperada pra sala. Quando ela entendeu o que tinha acontecido, minha mae, banhada na agua da pedagogia, me disse "VOCÊ MORRE DURA, MENINA!" e foi isso. Nem um abracinho, minha gente. De como nascem os traumas. E dai que o secador inventa de pipocar. Desliguei aquele troço da tomada, fiz o sinal da cruz e ouvi minha roommate saindo do quarto, meu secador na mao.

Desisti daquilo tudo e fui comer. Liguei o forninho e... E ele nao estava funcionando. "Pronto, queimei a casa". Liguei pra namorado soh pra desabafar, mas ele aproveitou pra me aconselhar a nao tocar em nada, explicando que os cabos deviam estar molhados por causa do vazamento. Ta bom.

Fui ler as treta na internet. Uma hora depois, o feed nao atualizava mais. A internet-nao-esta-funcionando-caraleo-de-asa. Nessa altura eu comecei a rir. Rir de nervoso. Peguei o numero-cliente, liguei pra operadora e um cara me atendeu. Ele tinha uma batata quente na boca. Eu soh entendia o começo das frases.

- Bom dia, senhora Aquino.
- Sou eu mesma, mais adulta do que nunca, pode falar. Eu sou o homem da casa.
- Bom dia, senhora, a senhora estah com um xoxxoxoxo chahahduehfuhfufh...
- Eh, acho que sim... A internet parou de funcionar.
- Estaremos mandando um chavezzzzxox oxxoxoxoxhchah ahacjidjfi
- Mas eu ja tenho a chave, é ela que nao ta funcionando mais.
- Eu convido a senhora, madame Aquino para religar a bxxoxoxox xochhchhicichic
- Ta bom, entao. Obrigada.
- Xo.

Desliguei a chave, acionei a rede antiga e voilà! A internet voltou ao normal. Confesso que gostava mais de resolver as coisas com minha avoh.

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E pra quem é de feici:

.caso.me.esqueçam.



sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Disque L para lesar

Vocês devem nao andar se perguntando onde foram parar as historias da casa em que eu morava com mais dez pessoas. Pois bem, ha mais de três anos, eu mudei de casa e de bairro. Agora, eu moro no bairro mais popular de Lyon: a Guillotière. Esse bairro tem tanto macho assediador de beira de calçada, que eu ja dediquei um post sobre o assunto ha quatro anos, antes mesmo de morar no bairro. "Luci, se o bairro é tao foda assim, por que você escolheu morar la?" Gente, deixa eu escolher pelo menos o bairro onde eu vou morar! "Ah, entao nao reclama". Olha, o blog é meu, eu reclamo se eu quiser. Alias, eu nem sei com quem eu tou discutindo... Entao, continuando. 

Tem um bando de desocupado pelas calçadas. Eles passam o dia todo la, vendendo haxixe e marlboro falsificado. Alias, esses sao os menos desocupados. Os desocupados profissionais, te cantam quando você passa. Mas atençao, nao é aquela "cantada" de brasileiro quero-te-colocar-de-quatro-e-ripa-na-chulipa. A cantada é mais estilo "você é muito charmosa", "bom dia, hmm", o que leva muito macho a achar que estamos exagerando quando nos indignamos com esses tratamentos. Mas creiam-me: quando você escuta isso com frequência, você ja sai de casa botando sangue pelos olhos! Ou soh sou eu que reajo assim? Siiiim, soh você, Virgem Maria dos anos 90.

Diferentona

Alias, quando eu era criança, eu morria de medo dessas historias de Virgem que chora, de colchao que pega fogo sozinho. Um dia minha mae saiu de casa e eu fiquei vendo Gugu com meu irmao mais velho. O programa falava sobre uma estatua da Virgem que chorava sangue. Olha, eu tava tao tensa, que se meu irmao tivesse espirrado na hora, eu nao estaria aqui agora escrevendo besteira pra vocês, teria passado dessa pra melhor, morta de susto. Enfim, divago. O caso é que eu passei a reagir com certa frequencia às cantadas, à medida em que os anos foram passando. 

Entao, ha duas semanas, la estava eu tranquilamente andando na calçada com a criança tranquila que tomo conta, numa tarde muito tranquila. Estavamos voltando pra casa quando, de repente, um homem que estava dentro de um carro estacionado me chamou pra pedir uma informaçao. Eu fui com certa cautela, sem me aproximar muito. Por que? Porque quando eu era pequena, eu lembro de estar brincando na rua com meus irmaos/amigos e de um cara ter parado num carro pedindo informaçao. Ele queria saber onde tinha uma farmacia no bairro, porque ele tinha levado uma picada de abelha. Eu deixo vocês imaginarem onde ele tinha levado a picada. Pois é. Os anos 90 foram recheados de Caverna do Dragao e trauma. Inclusive, la vai mais um sobre o tema. 

(Aquele momento em que você usa seu blog como terapia) 

Eu tava andando pelo bairro com uma amiga e a prima dela. A gente devia ter uns 9/10 anos, no maximo. De repente, numa tarde muito intranquila, um bigodudo de boné passa de bicicleta pela gente mostrando as vergonhas dele. A vista daquele bigode pendurado me chocou bastante. Os bigodes eram muito comuns nos anos 90. Tinha até na televisao, assim, no domingo à tarde, pra qualquer criança ver. 

Mas voltando pra semana passada, eu fui andando com cautela até o carro do cara que queria a tal informaçao. Peguei a criança pela mao e fiquei ha uma distância de pelo menos dois metros dele. O cara pediu a informaçao aos cochichos achando que eu iria me aproximar. 

- Shhhffftiijjjj?
- EH O QUE, OMI?
- Eh... Onde fica o Sixième?
- Fica praquele lado la, oh.
- Ah ok. (...) Você é muito charmosa!



Coroi. Ele disse essa, acelerou e foi embora. Eu queria ter tido alguma coisa pra arremessar naquele carro, mas eu soh tinha a criança comigo, achei melhor nao. Eu voltei pra casa bufando, passei um péssimo dia. Dois dias depois, às 8h30 da manha, fui trabalhar e, quando tava entrando pela porta do prédio da guria, um cara passa por mim dizendo algo e fazendo cara de quem nunca viu mulher na vida. Claro que eu mandei ele calar a boca e claro que ele veio atras de mim. 

(Insira meu pânico aqui)

Entrei no prédio rapidamente, fechei a porta de madeira maciça, passei pela segunda porta, de vidro. Ele abriu a porta de madeira com um chute, eu abri a porta do elevador e paramos ali. Ele abriu a boca, mostrou os dentes e, com os olhos, gritou: "Sua promiscua! Putéfia!" (Optei pela traduçao que iria choca-los menos). "Zoupeira, croia!" Sem esperar que ele descobrisse que a porta de vidro nao tranca, eu peguei o elevador, toda cagadinha.

No dia seguinte, eu começaria o trabalho no mesmo horario. Fiquei com medo do insano estar me esperando no mesmo lugar, mas o Céu foi clemente e era dia de chuva. Chuva = guarda-chuva = Luci-dissimulando-o-rosto-com-guarda-chuva. Dai la estava eu na minha cautela tao caracteristica, andando e escondendo a cara, andando e colocando o guarda-chuva entre mim e os passantes, qualquer um, pra evitar antigas e novas confusoes. Dois caras vinham se aproximando no sentido oposto. Eu fui avançando em direçao a eles e, quando iamos nos cruzando, eu coloquei discretamente a umbrela entre a gente pra evitar qualquer contato. Foi quando um deles se jogou na minha frente, se agachou, avaliou meu rosto, sorriu e disse "ah sim ! Ela é linda!" e foi embora com o amigo sorrindo. Aih meus olhos foram chuvendo até o trabalho.

A verdade é que no dia em que o doido entrou no prédio, eu decidi me inscrever nas aulas de Krav Maga PORQUE VIOLENCIA A GENTE RESOLVE COM VIOLENCIA porque eu queria ter um pouco mais de auto-controle. Pra isso, eu tinha que ter um certificado médico provando que eu era apta pra atividades fisicas. Fui no médico, aquele mesmo que diagnosticou minha tosse de louco, e tivemos o seguinte dialogo:

- Dotô, eu queria um certificado médico.
- (escrevendo de cabeça baixa) Pra quê?
- Pra praticar uma atividade fisica...
- (escrevendo de cabeça baixa) Qual?
- Krav Maga.
- (cabeça baixa) Por que?
- Porque eu fui agredida na rua por um cara e...
- (para de escrever e levanta a cabeça com um sorriso) Aaah! Entao você quer bater nos homens?!

Pra falar a verdade, eu gostaria muito de estripar uns dois ou três, mas poder me defender em caso de ataque ja ta bem bom! Aih ele perguntou o que os caras me diziam. E é foda contar, né, porque, primeiro, isso nao vem ao caso, segundo, isso nao vem ao caso mesmo. Mas como eu falo pra caralho, eu disse que os caras soltam uns clichês e/ou fazem uns barulhos com a boca.

- Que tipo de barulhos?
- Ah, sei la!
- (assoviando) Fiu-fiu? 

Haha Meu filho, nin-guém faz fiu-fiu hoje em dia! A gente soh vê isso em propaganda de creme solar ou de cerveja. Na vida real os caras trincam os dentes e chupam a saliva. Arfam com a lingua do lado de fora.

- Nhé... eles dizem fiu-fiu... é... isso mesmo.
- Ta bom. Entao, vamos pra sala de exame. Tire somente a blusa e o sutia.
- Certo.
- Fiu-fiu! he-he-he

Juro. A pessoa tem que jurar no caralho desse blog, mas é verdade. O cara simplesmente assoviou. Bom, ele fez isso assim que eu levantei, antes que eu me despisse, mas ainda assim: achando que essa seria uma PIADA MUTCHO LOKA! Selo Gentili de aprovaçao. E depois ele ainda disse que era loucura se "inflamar" porque "homem é assim mesmo, sempre foi". Magina, broder! A mulher vai no seu consultorio traumatizada pelo pedofilo que tem ataque anafilatico peniano, pelo homem de bigode na bicicleta, pelos insanos da Guillotière e dezenas de outros ainda. Ela ta traumatizada a ponto de resolver fazer um esporte de combate pra se defender no caminho da propria casa e você, seu médico pessoal, depois de ouvir tudo, decide o quê? O quê? Fazer uma piada com assédio e ainda justifica-lo. Claro. Pensando bem, era bem inofensivo essa Virgem que menstrua pelos olhos. Sdds. 


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E pra quem é de feici:

.caso.me.esqueçam.




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A mulher nao vitruviana

Acalento 


As lembranças do feici me mostraram esse post de 2011 sobre uma das minhas milhares de idas ao médico. Esse post me divertiu bastante porque, se minhas acnes nadegueiras desapareceram, minha peleja por um médico continua firme e forte. 

Da médica maluca que dava o diagnostico com um mega-fone, eu migrei pra uma que atendia la perto de casa. Além de medica generalista, ela também atuava na ginecologia, o que era bem pratico, ja que isso me poupava de ver dois médicos caso eu também precisasse de um especialista nesta area. Além do mais, eu preferia me consultar com alguém que soubesse realmente o quao violenta pode ser uma colica menstrual. Entao, eu ia sempre no consultorio dela até que um dia ela me receitou vitaminas pra tratar de queda de cabelo. Teria sido maravilhoso se ela tivesse pedido exames e descoberto que, na verdade, eu tinha um tumor. Mas eu nao guardo rancor dessa maldita incompetente. A prova disso é que fui consulta-la uma ultima vez.

- Doutora, eu tou com uma micose vaginal.
- (olhos condescendentes) E como você tem tanta certeza?
- Porque nas crises de coceira eu tenho vontade de extirpar minha vulva com um ralador de legumes. Pura intuição.
- Vamos dar uma olhada então.

(uma olhada depois...)

- Nao, nao é micose nao. 
- Como assim nao é micose?
- Na verdade, sua anatomia faz com que você sinta esse desconforto, mas na verdade, você soh precisa mudar de posiçao nas suas relaçoes sexuais.

Juro pela minha mae mortinha. 
(Oi, mae! Nao se preocupa que essa historia é verdade!)

Eu fiquei assim, olhando pra cara dela, olhando praquele diploma emoldurado na parede, olhando pra cara dela, olhando praquele diploma... E fui embora. Desiludida com o fato de que uma especialista em vaginas & cia nao reconheça um problema simples relacionado à vaginas & cia, decidi avacalhar e dar uma oportunidade pros homens. Foi então que encontrei um novo médico que, em cinco consultas, não me tocou nenhuma vezinha, não tirou pressão, nem fez perguntas sobre meu historico de saúde. Muito pratico!

A primeira vez que precisei desse homem, foi no ano passado por causa de uma tosse. Essa tosse começou de mansinho, como quem nao queria me matar. Era um arranhado delicado que fazia a voz emperrar. Fui ao médico uma vez. "Antialérgico". E mel e xarope. As semanas foram passando. Fui no médico pela segunda vez: "antibiótico". E Mel, xarope, alho. Antibiotico na terceira vez também... E mel, xarope, alho, oleo essencial, exorcismo... E a tosse la, ha quase seis meses! Comemoramos juntas o Natal daquele ano.

Eu ja tinha me acostumado a ela e essa é uma mentira tao grande que fui ver uma naturopata. Se com medicamentos alopaticos o encosto nao saia, resolvi dar uma chance à homeopatia. Mas consultas com médicos homeopatas não são reembolsadas pela seguridade social francesa, então desembolsei 60 eurinhos. Finalmente, com esse novo tratamento, eu pude constatar que eu havia jogado 60 euros no lixo: a tosse persistia. 

No oitavo mês, decidi ver outro médico. Eu tava fazendo uma formação na época e pedi sugestões de médicos pros colegas de classe.

- Conheço um otimo!
- Quero o numero dele então, por favor.
- Ah, mas deixa soh eu te avisar uma coisa...

Na sua opinião, do que Luciana precisava ser avisada acerca desse médico? A pergunta soh admite uma resposta correta:

a) O médico não era discreto
b) O médico não sabia diagnosticar micoses
c) O médico não investigava as doenças
d) O médico dava falsos diagnósticos
e) O médico não curava nem tosse
f) O médico não era reembolsável
g) O médico era negro

- Olha, ele é negro.
- O_o
- Eu digo isso porque tem gente que não gosta, né?

Anos 90
Sem entrar no mérito da questão kakolega, fui no médico-que-tem-gente-que-nao-gosta. Cheguei la, me apresentei e fui desenrolando o pergaminho de cerca de sete metros onde eu tinha registrado meus ultimos percalços de (nao) saúde e li, durante sete horas, 36 minutos e 43 segundos, todas as minhas doenças importantes dos ultimos cinco anos. O caba nem piscava. Dava pra ver que aquele médico estava interessado no meu problema. Ele até me fez perguntas! Doi? Febre? Catarro? Dor de cabeça? Pediu exame de sangue e fez até aqueles exames que eu achei que tivessem ficado nos anos 90: tirou pressão com ajuda do estetoscopio, verificou minha goela com um abaixador de lingua, me fez tossir enquanto me auscultava etc. Eu fiquei assim, uau, um médico!

Então, saímos da sala de exame, voltamos para a sala de consulta e ele tinha um ar grave. Ele juntou as maos, suspirou fundo e me deu o veredicto assim, sem nem ao menos me preparar: "Luciana, você não tem nada". Como assim eu não tenho nada? Eu nunca nunca tive nada, doutor! Não me deixa assim sem doença, tao de repente! "Na verdade, esse é um problema de ordem psicológica". Devolve minha doenç... Ah, problema psicológico! Vejo que estamos chegando a um acordo. "Essa tosse é o que chamamos de 'tosse dos loucos'".

Eh o quê, broder?

La toux des fous que em francês é mais simpático, mas não menos revoltante! E essa revolta não vinha da minha desconfiança em relação a esse diagnostico, ela vinha contra mim mesma que não tinha pensado nisso antes! Quer dizer, eu cheguei a pensar, mas essa garganta coçava tanto que eu cheguei a pensar novamente no ralador de legumes. "Nada", ele disse. Mas não foi com essa analise que ele ganhou meu coração. Foi quando ele disse "você é muito mais ansiosa do que você imagina". Querido, é porque eu sou ansiosa de cagar liquido que eu vou aceitar o que você ta falando. E uma outra coisa que me leva a acreditar nessa teoria é que essa tosse começou logo depois da pericardite. Tudo se explica. Eu não tou doente, somente louca.

Três semanas depois, eu parei de tossir. Eu estava procurando médicos homens, mulheres, sem me dar conta que nada disso importava sem o auxilio dele:


Quero avisar que essa imagem é meramente ilustrativa ja que o médico era negro. 


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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Cara de 30, corpinho de 87

Check!

Quem me conhece sabe que minha saude é algo mais instavel que a lealdade do Temer. Tenho longos relatos nesse blog sobre minhas passagens por hospitais lioneses. Reconheço cada um pelo cheirinho do banheiro. Fiz uma cesareana pra retirada de um tumor em 2012. Em 2013, fui operada do coraçao. Recentemente, descobri que meus joelhos tem uma pequena ma-formaçao, o que faz com que as rotulas escolham qual caminho seguir quando dobro os joelhos. Por isso, semanalmente, faço uma sessao de fisioterapia. Em sete anos de Lyon, dei entrada no Hôpital Femme Mère Enfant (ala endocronologica e ala cardiaca), no Edouard Herriot, no Hospital Militar e, recentemente, no Saint Joseph Saint Luc. Esse recentemente guarda a historia de hoje. 

Ha duas semanas, eu estava de bouas no meu quarto tentando me lembrar no Netflix do ultimo episodio de HIMYM assistido. Faz uns dois anos que eu tento terminar essa série. Eu tou na segunda temporada. Tem muita coisa na vida pra se ver, minha gente. E o Netflix nao veio ao mundo pra trazer paz de espirito à gente indecisa e sem foco. Eu sou de gêmeos. Gê-me-os. A gente sai de casa pra comprar pao e volta inscrita na faculdade de musica. Com um sorvete na mao. Mas a questao é que eu comecei a sentir uma dor no peito. Assim, tao de repente. E a dor foi aumentando, aquele aperto no coraçao. Nao era uma dor de pressentimento porque lembrei que meus filhos nao estavam viajando de carro e que meu marido nao estava na guerra. Lembrei ainda que eu nao tenho filhos. "Meu deus, por que essa dor? Seria amor?" 

Nao era.

Entao, me apoiei na mesa e comecei a chamar pelo nome da minha esposa Gertrudes, porque essa se parecia, em muito, com uma dor que somente uma pessoa com uma esposa de nome Gertrudes tem. Mas ninguém respondeu ao meu chamado. Ainda bem, diga-se de passagem. 

A dor foi tao abrupta, que pensei que poderiam estar fazendo vudu comigo. Mas, como sabiamente disse o Pica-Pau, "vudu é pra jacu". Qualquer que fosse a origem, o importante é que, quando eu me debruçava, doia. Quando eu respirava, doia. Foi aih que descobri que meu recorde em apneia, num momento de desespero, é de quinze segundos. Imaginando que praticar apneia nao iria necessariamente ajudar, tomei um paracetamol. Acho que se eu tivesse comido um amendoim, eu teria tido o mesmo alivio. Foi entao que decidi fazer minha visita anual ao hospital. 

Minha coloc foi comigo. Enquanto eu era atendida por um enfermeiro, ela fazia minha ficha na recepçao. Perguntaram a ela o que eu fazia na França, porque eu me mudei, se eu estava legal no paihs. Vocês sabem, essas informaçoes super uteis pra quem esta dando entrada num hospital. Eles alegaram que as perguntas eram necessarias para saber se ela me conhecia bem. Sério? "Nao, querida, ela me achou na rua, me deu um golpe de clava e me arrastou pro hospital".

E aih começou aquele procedimento de praxe: questoes sobre o historico de saude familiar. Meus pais tem problemas cardiacos? Na familia temos problemas de pressao alta? Eu sei que o intuito é de guiar um pouco os medicos, mas eu tenho trauma de diagnosticos equivocados. Como por exemplo, da medica que me receitou vitaminas quando eu disse que estava perdendo os cabelos devido ao tumor. Entao, pra que eles nao se baseiem em uma pista falsa, respondo 

- Adotados. Todos. 
- Seus pais sao adotados?
- Todo mundo. Meu pais e os pais dos meus pais antes deles. E os pais dos pais dos meus pais antes deles também. Ninguém sabe de historico familiar, é uma coisa louco, doutor. Qualquer um pode ter uma doença hereditaria. Ou nao. Acho que até eu sou adotada. E quem sabe eu sou sua filha. Pai, me cura.

Assim, ele teve que fazer radiografias dos meus pulmoes de baixa capacidade apineica e um exame de sangue completo. Enquanto isso, eu tava tao branca que estava desaparecendo aos poucos na maca. Quando a enfermeira voltou, soh tinha a pulseirinha com meu nome em cima do lençol. Mas ela me encontrou e começou com outra sessão de perguntas:

- De zero a dez, qual a intensidade da sua dor?
- Sei la, oito. 
- Oito?! Mas entao é uma dor quase insuportavel!
- Ah nao, pera, moça! Seis entao.
- Seis?! Mas entao nao é tao forte assim.
- Nao, ah meu deus! Seis e meio? Seis ponto oito? Sete?

Eu morrendo aos poucos e a mulher querendo que eu desse conta de dar nota pra dor.  

- Olha, eu nao sei. Quando eu nao respiro, a dor é seis. Mas quando eu respiro é oito e, quando eu respiro profundamente, é nove. Entao, como eu nao posso parar de respirar...
- Claro, né!
- Mingula! Claro o que? Fale direito que eu tenho o coraçao que poderia ser o da sua avoh!

Eu passei a noite dando nota pra essa dor. So que eu estagnei no sete. A dor ja estava mais suportavel e eu podia até bocejar, vejam soh que sorte a minha, mas eu tive medo que eles me mandassem pra casa ainda com dor, entao fiquei la por mais algum tempo, até eles descobrirem o que eu tinha. 


um figo com pericardite
La pras 3h da manha, o médico do hospital trouxe o veredicto: pericardite. Isto nada mais é que uma inflamaçao na membrana que envolve o coraçao. Três meses de tratamento, um mês longe do trabalho e repouso absoluto sob risco da coisa voltar. 

Uma semana depois, fui consultar um cardiologista pra fazer um electrocardiograma. 

- Por que você estah aqui?
- Eu tive uma pericardite.
- Sua familia tem historico de problemas cardiacos?
- A sua tem?
- A minha? Tem.
- Papai?


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quarta-feira, 23 de março de 2016

Morcegos à abejas

Voltandos às origens

Quem segue o blog desde 2009 merece um biscoito sabe que eu morava com dez pessoas numa casa em Lyon. Bom, esse numero variou muito com o passar dos anos: as vezes eramos oito, mas ja chegamos a ser treze. Eh de se imaginar que as coisas nem sempre eram faceis. Tinha sempre algum mala que raramente ajudava nas tarefas domesticas, mas pelo fato de sermos numerosos, a faxina acabava sendo feita por algum guerreiro ou guerreira. Se duas pessoas estavam com preguiça de cozinhar, o jantar acabava na mesa do mesmo jeito pelas maos de duas ou três mais dispostas. Confesso que, no começo, eu achava que seria dificil morar com dez pessoas, mas dificuldade mesmo eu senti na hora de mudar de casa e... morar com somente duas.

Meus leitores queridos, volta e meia vocês me perguntam "Luci, transar no chuveiro engravida?" ou ainda, "Luci, o que é um-a coloc?" Nesse post, vou responder à segunda pergunta, que ta dentro do  tema, ta? Entao, quando você vira adulto, ou rico, o que vier primeiro, e sai da casa dos seus pais, você pode dividir seu teto com alguém, certo? Pois "coloc" nada mais é do que a versao francesa do roommate, ou ainda a forma de moradia. Exemplo: "eu moro numa coloc. Eu tenho dois colocs". A pessoa do coloc, claro, pode vir em varias versões. Versão segunda-mae, versão gota-serena (que de serena soh tem a gota), versao velha-louca-dos-gatos, versao apendicite-inflamada etc. Atualmente, eu moro com esta ultima.

"Luci, o jantar ta pronto"
Eu me mudei dessa casa supra-citada em 2014 e fui parar no centro da cidade, num apartamento, no bairro da Guillotière. Vocês lembram desse bairro, né. nao lembram O meu apartamento atual é bem escuro, parece uma caverna. Quando fui visita-lo, com uma lanterna na mao, me deparei com lindas pinturas rupestres e centenas de milhares de morcegos. Eu tenho medo de morcego (eu ia fazer uma piada com o Batman, mas nao achei nenhuma, podem ficar tranquilos) mas eu prefiro olhar pelo lado positivo: graças à troca cultural, minha audiçao ficou mais apurada desde que me mudei e passei a me deslocar usando ecolocalizaçao. Eh maravilhoso.

No comeco de 2015, eu fui pro Brasil. Nessa mesma época, eu morava na caverna com um cara que ja tinha morado comigo na outra casa. Mas precisavamos escolher uma terceira pessoa para baratear o aluguel (percebe-se que eu nao sai da casa dos meus pais porque fiquei rica). Eu estava super empolgada com a viagem porque ja fazia dois anos e meio que eu nao pisava no Brasil, entao releguei a segundo plano a escolha do nosso futuro coloc. Ledo engano. Meu coloc e eu acabamos escolhendo, sem muita reflexao, um carinha que parece, e muito, com o personagem abaixo: 




Sim, o principe do Shrek. A unica diferença é que meu novo coloc tem queixo duplo. Da pra colocar uma folha A4 no meio do queixo dele. Eh uma pena que manter uma folha de papel no queixo de alguém nao seja bem algo de grande proveito. A principio, Principe era legal. Mas nao demorei muito pra sacar que eu estava morando com uma pessoa perturbada. Ja nos primeiros dias de convívio, ele me mandou um sms super grosseiro. Eu fiquei tao indignada com a afronta que contratei um franco-atirador pra dar cabo dele naquele dia. Mas ao chegar em casa, ele me recebeu com uma cerveja e perguntou como tinha sido meu dia, como se nada tivesse acontecido. Com os olhos semi-cerrados, estudei a situacao em silêncio, acariciando a barbicha inexistente. "Hmm… Este principe é perigoso. Conhece meus pontos fracos. Preciso usar de muita perspicacia e cautela para derrota-lo" e sai pelo apartamento gritando de braços abertos enquanto emitia meu sonar.

Mas ele tinha manias que eu odiava!

1 - O cara usava todo o espaço do congelador com garrafas pet vazias. Sim, a pessoa abria o congelador pra procurar um gelin e se deparava com um monte de garrafas de plastico!

- Cara, tu sabe que tu colocou garrafas vazias no congelador?
- Sei.
- ...
- ...
- Tu... pode explicar por que?
- Pra que nenhum fungo se desenvolva na boca delas quando eu for usa-las.

Eu sempre tive vontade de enfiar aquelas garrafas congeladas no reto dele. Ao invés disso, mergulhei o gargalo das garrafas no sanitário e coloquei de volta no congelador. Mentira, meu eu-nove-anos-de-idade quis fazê-lo, mas para o bem da (minha) humanidade, eu reprimo alguns seres que habitam em mim. Alguns.

2 - Antes mesmo da gente se conhecer, ele namorou por um tempo uma argentina que morava na França. Eles foram passar as férias na cidade natal dela e ele voltou mais argentino que o pai da menina e, durante todo o ano em que moramos juntos, tive que aguentar:

- Luci, como se diz "abelha" em português?
- Abelha.
- Nossa, como em espanhol! "Abeja"!
- Nossa.

- Luci, como se diz "passaro" em português...?
- Pass...
- …porque em espanhol se diz "pajaro". :D
- ...

Outro dia, segurando uma cuia com chimarrao: "os argentinos tomam chimarrao. No sul do Brasil também se toma chimarrão. Você sabia disso?" E você sabia que la na Paraíba a gente passa a pexêra em francês metido?

3 - Ele praticamente nao fazia faxina. Tenho que dizer que, em um ano, eu nunca o vi lavar o banheiro, nem o chuveiro, nem passar pano na casa, nem espanar! "Nossa, Luci, o que ele fazia entao?" Raiva! Muita raiva! Ele deixava tanta comida no ralo da pia que eu ficava imaginando se ele tinha conseguido comer alguma coisa. O fogão meu deus tinha uma amostra de cada coisa que ele havia cozinhado durante o dia. Eu ainda tou pensando numa piada com o Batman. Amavelmente, com os olhos flamejando e labaredas de fogo saindo pelos ouvidos, fui explica-lo que a faxina deveria ser feita igualmente pelos três colocs e que eu nao pedia que ele fizesse nada mais ~complexo~, como limpar o sugador do fogao, mas soh o basico mesmo.

- Mas até o sugador do fogao eu ja limpei!
- Quando?!
- Em janeiro.
- Cara... a gente ta em dezembro.

4 - A maioria das pessoas aqui me chama de Lucie. Meus amigos íntimos me chamam de Lulu. Meus amigos e ele. Um dia, enquanto discutíamos, ele decidiu me atingir e me chamou de... Luciana. "Lu-ci-a-na, quando é que você vai embora, Lu-ci-a-na?" Quando a briga acabou, ele voltou a me chamar de Lulu. Mas foi bastante estranho ver alguém tentando me atacar me chamando pelo meu próprio nome. Sua… sua espécie de LUCIANA!

5 - Principe gosta de ser aquele cara meio resolve-tudo, que TEM de ser reconhecido pelo trabalho que fez. Mais do que gostar de ajudar, ele gosta que as pessoas precisem dele. Quando eu comentei com um morcego que o pneu da bike nao funcionava, Principe, do alto do seu cavalo branco, disse "calma, eu vou te ajudar". Broder, eu nao preciso da sua ajuda, mas no dia em que eu tiver uma folha de papel precisando ser colocada num queixo, eu te solicito.

Mas as nossas tensões vinham principalmente do fato dele achar que os objetos que pertenciam a ele  fossem uma extensão dele próprio, como fazem certos caras com seus carros. Entao, criticas negativas deveriam ser evitadas para o bem da caverna.

Um dia, Principe trouxe um aspirador de po la pra casa. Mas nao qualquer aspirador de po. Ele trouxe o primeiro aspirador de po fabricado na Europa. Na verdade o trambolho era tao esquisito que eu fiquei em duvida se ele vinha do passado ou do futuro. Ele tem o meu peso e funciona muito mal. Sinceramente, se eu ficasse de quatro e aspirasse o chao com a boca (nao imaginem essa cena), eu teria tido um resultado melhor que aquele oferecido por esse aspirador de po. Um dia, um rapaz que ja tinha sido coloc de Principe num passado distante, deu de cara com o aspirador na nossa sala, sendo puxado por quatro cavalos, e disse "nossa, esse aspirador ainda existe?" Existe. Existe e ao invés de aspirar ele tosse.

Pronto, sentiram a vibe do aspirador, ne? Eu tive que fazer essa introdução para que voces entendessem a suscetibilidade do meu coloc. A proprietaria do apartamento, sensibilizada pela minha dificuldade em fazer a faxina com o trambolho, me disse que ela tinha um aspirador em desuso e queria saber se nohs estariamos interessados.

- O fio tem mais de um metro de comprimento?
- Claro.
- Quero.

E assim foi. Entao, eu comentei com ele a proposta da proprietaria, mas parecia que eu tinha dito que ela queria um dos testiculos dele no lugar do aluguel.

- O que?! Por que?!
- Nao sei, porque o aspirador dela deve ser mais moderno.
- Se é assim, eu vou guardar o meu aspirador.
- Ta bom.
- Vou guardar ele no meu quarto!
- Bom, nao precisa, mas se você quiser, tudo bem.
- Nao! Eu vou guardar sim!
- ...
- Ninguém quer o meu aspirador...
- ...
- Mas quando nao tinha nenhum aspirador, vocês bem que usavam ele, nao é?

Eu nao ouvi o resto, porque eu dei um tiro na minha cabeça. Um mês depois, Principe se mudou. Ouvi dizer que ele foi pra outra cidade.


Agora somos três meninas. Sera emocionante quando estivermos todas menstruando ao mesmo tempo. Mas sinceramente, eu nao sou a unica a morar com gente esquisita. Gaspar morava com um garotinho cheio de acido meio bipolar. Ou o cara tava feliz e fazendo o bem sem olhar a quem, ou tava xingando e quebrando a casa (geminianos!). Na véspera do dia em que ele deixou a coloc, ele gritou com todos, disse que o mundo tava contra ele, queimou uma cédula de 100 euros (sim), chorou nos bracos de Gaspar e depois foi pro quarto. No outro dia, ele foi embora sem avisar e ninguém nunca mais o viu. Que saudade dos meus dez!


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Tempestade numa panela d'agua

No começo do ano passado, eu tava me recuperando de uma desilusao amorosa, de um idiota que fez cocô no meu coraçao. Num fim de semana de amargura, decidi ir pra festa de um amiguinho. La, encontrei um cara que tinha um rolo de papel higiênico. Ele limpou todo o cocô do meu coraçao e, desde entao, tamo junto. 

Essa eh minha introducao.

Ele eh bem bonitinho, o bichinho, bem loiro. Muito loiro. Na verdade, ele é tao loiro, que quando a gente ta meio longe, a gente pensa que ele nao tem sobrancelha, mas ele tem logo duas. E os cilios dele sao transparentes. Quando eu chamo ele de Gasparzinho, ele aprecia médio. Mas ele nao sabe falar português, entao ta tudo serto (meu amor, se um dia você aprender português e ler isso, "serto" nao se escreve assim, ta? Eh com dois "S". Oin, também te amo). 

"Luci de namorado novo... Manda nude". Mando nao, pessoas. Mas eu vou contar uma historia, ta, que é melhor que nudes*. Eu tenho uma maldiçao coisa com namorados desastrados. Quem acampanhou o blog na época, sabe que meu ex ja tentou me esganar enquanto dormia, quebrou minha bicicleta e metade do mobiliario da casa em que a gente morava e tudo isso sem querer. Camilo, se você ainda falar português… bom, desculpaê, mano! Entao, Camilo quebrava tudo, mas a façanha de provocar uma enchente no quarto foi obra de Gaspar (agora que eu tou pensando que esganar a namorada enquanto ela dorme nao é a perfeita descriçao de uma pessoa desastrada, mas deixa pra la).

*nem eh

Eu comecei a desconfiar que Gaspar era desastrado quando ele chegou um dia em casa falando do trabalho: "hoje eu me dei um murro na cara". Eh, a historia começou assim. "Eu fui tentar tirar um saco de areia do carro, mas ele tava muito pesado! Dai, enquanto eu fazia força pra puxa-lo, minha mao escorregou e eu me dei um murro na cara". O cara por pouco nao se neutralizou sozinho. High level  de mao-esquerdice: lutar MMA com um saco de areia. E perder.

Mas desastre mesmo, eu vi no final do ano passado. Quando o inverno chega por aqui, a gente tem que retirar o ar que ficou acumulado nos aquecedores. Isso otimiza o funcionamento do aparelho. A tarefa consiste em girar levemente uma peça do aquecedor, fazendo com que o ar saia, geralmente com um pouco de agua junto. Assim que o ar sai, fecha-se a valvula outra vez. A açao dura cinco segundos. Mas para o sucesso da operaçao, é preciso ter à mao uma bacia pequena e uma chave francesa. Pode ser uma chave inglesa tambem, mas desde a Guerra dos Cem anos, as chaves inglesas nao funcionam muito bem na Franca. O senhorzinho da foto, por exemplo, muito discreto no seu modus operandi, executou o serviço com um copinho de café e uma chave de fenda. Eu, por via das duvidas, menos por temor que por exagero, realizo a açao com um tonel que cabe a familia dentro (vale salientar que minha voh pariu bastante nos anos 50). O recipiente se faz necessario porque a pressao dentro do aquecedor é muito forte e as vezes o ar liberado sai, como eu disse, com um pouco de agua.

No comeco do inverno, Gaspar chegou do trabalho meio derrubado e resmungando. Pensei que ele tivesse pego uma briga com outro saco de areia, entao nao fiz comentarios. Ele falou que tinha tido um dia ruim, mas nao entrou em detalhes. Ele disse somente que iria tirar o ar do aquecedor e que logo me daria antençao. Entao, la estava eu lendo um livro na cama sobre o Coliseu, deitada de barriga, as perninha balançando. Inclusive, voces sabiam que o nivel da arquibancada mais distante da arena do Coliseu era reservado aos pobres, aos escravos e as mulheres? Pois eh, esse blog eh um oceano de cultura. Falando nisso...

Enquanto apreciava minha leitura, eu ouvi, de repente, gritos de pessoas no quarto e buzinas de carros. Levantei o rosto e vi familias inteiras correndo na mesma direcao, fugindo de uma onda gigante que chegava à toda velocidade. Eu so tive tempo de salvar o Coliseu. Tinha um geiser descontrolado saindo do aquecedor: Gaspar tinha aberto tanto a valvula do aquecedor, que a pressao a jogou dentro da panela que ele inocentemente segurava e a agua da cidade foi sendo jorrada aos litros dentro daquele quarto. Eu presenciei um fenomeno raro, uma especie de chuva indoor, a primeira observada na França. Felizmente, eu reagi rapidamente para ajuda-lo:



Apos passar 20 segundos dando voltas em torno de mim mesma, corri pra fechar o registro da agua. Sai do quarto correndo, desci dez lances de escada num pulo, entao lembrei que eu nao sabia onde era o registro geral e voltei pro quarto. Vi o dedinho loiro da criatura enfiado no aquecedor, tentando conter a agua, em vao. Tive pena, mas quis rir. Ou foi o contrario. Perguntei a Gaspar onde era o danado do registro, mas fazia somente um mes que ele morava la e ele sabia tanto quanto eu. Ele pediu pra eu acordar o coloc dele que dormia no andar de baixo.

Desci de novo as escadas e bati descontroladamente a porta. Quando o cara abriu, ele tinha um olho fechado e o outro meio aberto, mas a situacao exigia uma açao rapida, entao fui sucinta na explicaçao.

- Gasparaquecedorcoliseuenchenteregistro! Onde eh que eh o registro?
- O registro de que?
- O de agua! Tem uma enchente!
(ele abriu um olho)
- Nao sei. Por que?
- Gaspar quebrou o aquecedor!
- An? Como assim?
- Ai, meu deus!

Olhe, eu ja estava esbaforida, imaginando encontrar meu namorado azul, boiando afogado no quarto, entao pedi pra ele subir, mas ele foi na velocidade turista-visitando-igreja e eu la, incentivando ele com os olhos arregalados. Chegando la, juro, tinha agua na parede, no teto, debaixo da cama, meias molhadjinhas e o tapete encharcado. Mas felizmente, Gaspar tinha conseguido lutar contra a pressao da agua e recolocado a valvula no lugar. E o melhor de tudo, ele continuava transparente e nao azul. Depois de secar o quarto (e o computador e os livros e as roupas), encontramos a panela. E uma chave inglesa.





sexta-feira, 22 de maio de 2015

Para sua saude, quatro frutas diarias


oi

Seria cu doce mentira dizer que eu passei um ano sem postar porque estava sem tempo. Gente, eu trabalho 12h por semana! (Beijos, capitalismo). O que me falta é vergonha na cara mesmo. Mas eis uma boa razao pra voltar à ativa: um post comemorativo pros meus seis anos na França. Com certeza, esses foram os anos mais intensos da minha vida, algumas das melhores e piores coisas que vivi aconteceram no decorrer deles. E que bom! Mas o que fica no coraçao (e que vai pro blog) é a cachorrada do quotidiano. Salve!

Final de semana passado, tava rolando o Nuits Sonores, um famoso festival de musica eletrônica de Lyon. Pra comprar o ingresso, você precisa vender seu irmao caçula. E se sua mae reclamar, venda a mae também, porque o festival dura quatro dias. Claro que eu nao fui nos shows mais caros (lembram que eu trabalho 12h por semana?). Mas os pobres também foram agraciados com noites mais baratas. Eu, por exemplo, comprei um passe de três reau e outro de dez. Pra mesma noite.

O objetivo era começar a noite bebendo uma cerveja de leve na casa dos amigos, ir pro primeiro show e, antes da meia-noite, chegar no segundo show, porque depois desse horario, cê nao entra mais, colega. Eu tinha a noite inteira pela frente e claro que eu iria chegar à tempo. O problema é que a noite começou errada e, ao inves de cerveja, comecei bebendo um tipo de alcool que o pai de uma amiga produz utilizando pêras. "Olha, Luci, bebe. Tem gostinho de pêra". Gostinho de mooorte, minha filha! O negocio era tao forte que era eu bebendo e a lagrima escorrendo. Mas a gente ficou la de bouas, falando da vida alheia, comendo amendoim, pêra, eu chorando… Quando, de repente, 21h!

Debaixo de chuva, pegamos um ônibus com um monte de gente estranha. Eu tava super comunicativa e, quando eu estou super comunicativa com gente que eu nao conheço, pode acreditar, o nome disso é alcool. Nunca na minha vida que eu vou falar com pessoas desconhecidas de forma expontânea. Credo. Mas la estava eu falando do meu guarda-chuva pra moça do lado. Dai que a gente chegou e a unica coisa que eu vi foi a fila do bar. A musica tava uma bosta e eu nao sei onde foram parar as dez da noite, mas ja eram 23h!

Eu iria pro segundo show, no Sucre, com um amigo, Adri, que ja estava comigo. O Sucre era do outro lado do planeta, ele iria de bicicleta e eu teria que pegar um ônibus + tramway. Eu nao sabia exatamente onde ir uma vez que descesse do tramway, mas encontrei mais gente esquisita la e pensei em segui-los ja que, com certeza, eles iriam pro mesmo lugar que eu.

Nao foram.

Eu desci do tramway, toda errada, seguindo a galera que ia pra uma festa num barco. "Meu deus, o Sucre virou um barco". Entendi que nao era la, dei meia-volta e nao vi mais nada. As pessoas tinham sumido. Todas. Tinha um posto de gasolina aberto, mas os postos daqui nao tem frentista, entao foi bem solitario ver tudo iluminado, sem ninguém, parecia uma cidade abandonada. Cruzei algumas pessoas que iam pro barco… maldito… que nao tinha a menor ideia de onde eu deveria ir. Entao, finalemente liguei pra Adri pra que ele viesse me buscar. Teria sido genial se ele tivesse atendido o telefone.

E eu andei, liguei, andei, religuei, a chuva aumentou, diminuiu e eu andando. Eu ligava par Adri, nada acontecia. Comecei a ter saudade dos meus amigos, da minha casa. Vento friiio… Silêncio. Vazio. Uma musica de Djavan na cabeça. Entao, bastante resignada, como soh esses momentos te ensinam a ser, escolhi um cantinho, tirei um vira-lata do bolso, um copinho vazio da starbucks do outro e comecei a pedir esmola. Pronto. Minha mae me educou tao direitinho pra eu terminar assim, meu deus. Anos de faculdade jogados no lixo. Meu tratamento odontologico, super caro, que viria me poupar anos de terapia. Uma carreira internacional no balé. Tudo jogado fora. Eu nunca fiz balé, mas eu poderia ter feito. Aquele momento é que nao iria permitir.

Aih um cara passa, me joga uma moedinha e eu vejo que é Adri! Iupiii! Ele parou a bicicleta, a gente se abraçou, pinotou no meio da rua e eu subi na bike dele. Posicionei minha querida bunda no guidao, ja que os franceses nao tem costume de levar as visitas no quadro. La estava eu, sao e salva, com meu grande amigo (literalmente). So que, enquanto eu estava mendigando, Adri estava enchendo a cara no primeiro show. Entao, ele estava bastante empolgado com a vida, por assim dizer. No curto caminho que nos levaria ao show, tinha uns bancos, umas arvores e o cérebro de Adri viu tudo isso como obstaculos legais à transpor. Ele ficava dando voltas e desviando dos bancos no ultimos segundo. E eu la, o copo de starbucks numa mao e o cu na outra.

Ele viu uma arvore cuja as folhas iam quase até o chao e disse "a gente vai atravessar essa, Lulu, se segura". Olha, eu nem tive tempo de dizer nao. Ele acelerou e se abaixou. Mas eu, que nao tinha muita opçao, levei uma lapada de galho na cara. Eu comi folha, joaninha, casulo, macaco e toda a fauna/flora existente naquele micro mundo ecologico. A bebedeira passou num segundo. Mas o pior estava por vir. Logo depois da arvore, tinha um banco. Tinha um banco no meio do caminho, no meio do caminho tinha um banco de pedra, redondo e grande como uma nave espacial. Eu soh tive tempo de gemer. A bicicleta bateu no banco e ficou onde estava. Eu fui embora. Enquanto eu voava, pensei nos momentos felizes em que era mendiga e desejei voltar no tempo, mas era tarde demais. Felizmente, eu aterrissei como uma flor no banco. Soh machuquei o pé. E a mao. E a consciência. Sangrou um pouco, mas eu ri mais do que outra coisa.

Cheguei feliz na noite, dançando e mancando, um pouco depois da meia-noite. A noite foi linda. Eu falei com todo mundo, eu apertei o mamilo de um cara, eu subi nos ombros de outro, eu tirei os sapatos, eu fiz amigos, eu dancei e, às 7h da manha, decidimos voltar pra casa. A gente queria ser responsavel entao decidimos colocar a bicicleta dentro do tramway e voltar assim. Mas o tramway estava meio longe, entao, subi na bicicleta dele (a gente nao aprende nunca) e traçamos nosso caminho. Quando viramos a esquina, vimos o tramway de longe chegando na estaçao. Adri bateu no peito e disse "a gente vai pegar aquele ali. Se segura, Lulu". Eu segurei no guidao com minhas nadegas, entreguei nas maos de deus e fomos.

Ele pedalou como um condenado e chegamos triunfalmente à tempo de pegar o bonde. As pessoas riam da palhaçada. Mas quando colocamos a bicicleta no tramway, o motorista abriu a portinha dele e mandou a bike descer. Voltei com outros amigos e, chegando em casa, encontrei Adri todo ensanguentado. Ele me contou que a roda da frente se soltou enquanto ele pedalava. Tive uma doh! Somente no dia seguinte foi que a gente se deu conta, juntos, que, no momento em que o motorista pediu pra ele descer, Adri tentou tirar a roda da bicicleta pra mostrar que… que a gente nao ia andar de bicicleta dentro bonde? Nao sei. Soh sei que ele esqueceu de fixar a roda depois e deu no que deu. Demos boas gargalhadas. Ele, nem tanto.

E o que fica como aprendizado, crianças? Pêras sao perigosas.

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Para aventuras menos complexas,

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

So faltou o Rodrigo

Nunca tivemos problemas quanto à uma falta de convidados nas nossas festas. Somos nove moradores na teoria, mas doze na pratica. Entao, uma festinha com os amigos proximos, beira facilmente a centena. Por isso, com o passar dos anos e a popularidade de algumas festas, nos vimos obrigados a desenvolver certas praticas que pudessem proporcionar a loucura geral dos convidados e a tranquilidade dos vizinhos. Falhamos miseravelmente. Pelo menos quanto à segunda parte.

As primeiras festinhas tinham todo um cheiro de inocência. Cada criança trazia sua garrafa de alcool, um tira-gosto (96,5% das escolhas giram em torno de amendoins borrachudos, mas 100% dos amendoins sao devorados antes das 2h da manha) e dois ou três coleguinhas. Eles chegavam, bebiam, vomitavam e iam embora. Tranquilo. Mas as festas foram ficando mais conhecidas e começamos a nos adaptar à nova demanda: de umas três festas pra cah, começamos a disponibilizar barris de cerveja, muros de som, um dormitorio pros guerreiros (esvaziamos um grande quarto da casa e cobrimos o chao de colchoes), uma recepçao, um fumodromo com musica e alguns metros de pizza feitas num forno à lenha. Resultado: na festa do sabado, eramos quase 300. 


Aqui qué a festa?

Em festas assim, as pessoas nunca chegam em pequenos grupos, elas chegam em caravanas. De carro, metrô, jegue, bicicleta. Vi um grupo saindo de um bueiro. Eu, particularmente, sempre peço pros meus convidados trazerem amigos pra que eles nao se sintam deslocados caso eu saia de mim va dançar. Mas tem gente que nao sabe ponderar. Uma convidada, que trouxe metade da festa, foi logo se justificando na entrada: "Me disseram que era pra trazer os amigos". Quando eu vi a quantidade de pessoas que ela trouxe, quis explicar que era pra trazer os amigos mais proximos e nao todas as pessoas que ela ja conheceu na vida. A avoh dela ficou la no sofa, com um Malibu na mao. O professor de fisica do ensino médio foi dançar com a vizinha dela. O evento foi compartilhado no Feici. As pessoas ligavam chamando os amigos. "Traz todo mundo", ouvi um dizer ao telefone. Entao, a cada dez minutos, viamos uma horda ensandecida chegar e se enraizar na nossa sala. Para a ocasiao, veio gente de Marselha, veio gente de Paris. A meia-noite, eramos bastante numerosos e meus colocs ainda nao tinham se decidido se aquilo era algo a se comemorar. Encontrei um antigo coloc, mas no momento em que começamos a conversar, um grupo que pedia passagem o levou para longe e nunca mais tivemos noticias dele.

A festa se concentrava em quatro pontos: o fumodromo, a frente da casa, a sala e o subsolo. Este ultimo era o local mais procurado, ja que sediava o bar e os djs. Desci com dois amigos pra ouvir um pouco de musica, mas logo fomos engolidos pela fumaça que saia da maquina de gelo seco e, em três segundos, eu ja tava pegando na mao de pessoas que eu nao conhecia. Eu nao sabia onde meus amigos estavam. Eu nao sabia onde eu estava. Fiquei vagando sem rumo e trombando nas pessoas que brotavam na minha frente. Elas tinham uma cara tao perdida quanto a minha. Uma menina se jogou em cima de mim, me pegou pela gola e me pediu pra tira-la dali. O problema é que algum coloc de inteligência muito desenvolvida ligou a maquina e a escondeu atras de um sofa pra ninguém tropeçar nela, mas ninguém sabia exatamente em qual tomada ela estava ligada e atras de qual sofa. Taticas de guerra foram prontamente colocadas em pratica e vi um coloc se rastejar em direçao ao ponto mais denso de fumaça e desaparecer nas brumas. Mais uma grande perda. A maquina soh parou de fazer fumaça quando o conteudo se esgotou. Foi nesse momento que nos demos conta de que eramos bem mais numerosos do que pensavamos. Metade da festa foi descoberta e os reencontros foram felizes.

No fumodromo, uma menina fez uma entrada fenomenal usando um casaco de pele, herança da avoh. No instante em que bati os olhos no casaco dela, imaginei todas as cenas catastróficas possíveis e, antecipando o pior, fui preveni-la: "você é muito corajosa de vir a uma festa assim. Você nao tem medo que alguém derrube bebida em cima do seu casaco?" e ela, com ar superior, respondeu que "nao. Eu nao me importo. Eu nao gosto de me vestir de acordo com a ocasião, gosto de ser original... pra fazer esporte, ir às compras ou ir pras festas...". Meu lado cruzeta aflorou e eu tive vontade de jogar minha cerveja naquela merda de casaco e avisar que ser original é chegar nu.

Os problemas de superlotação logo apareceram. A casa tem dois banheiros, um no andar de baixo, outro no andar de cima, mas bloqueamos o acesso às escadas que levam ao primeiro andar (porque também dao acesso aos quartos) com um colchao de espuma. Puro luxo. O resultado é que a fila do banheiro saia da casa, seguia pela calçada e dava três voltas no quarteirao. Monique chegou em mim, carinha desolada: "eu segurei tanto meu xixi na fila que, mesmo agora depois de ter ido ao banheiro, minha bexiga ainda ta doendo". Tive doh. Aquela quantidade de gente tava insuportavel, entao, nao era nem 1h da manha quando decidi ir embora. Mas fui em grande estilo: subi em cima do sofa, dei um mosh na multidao e fui conduzida até a saida.

Voltei no dia seguinte, no final da tarde, rezando pra que a faxina ja tivesse sido feita. Nao tinha. Mas a casa estava inteira. A festa durou até as 9h. A cerveja acabou à 1h da manha (900 copos de cerveja consumidos), entao, os colocs empurraram pros convidados as velhas garrafas de alcool que sobram a cada festa que fazemos, aquelas que os convidados compram à 5 euros e que ninguém quer beber. Pois bem. Beberam. E ainda pagaram por isso.



Um coloc explicou porque odiou tanto a festa. Disse que, enquanto ele dormia, um casal entrou de fininho no quarto, se apoderou da cama do colega de quarto ausente e "copulou". Sim, ele usou essa palavra. Nao, ele nao tem 126 anos. A avoh da menina, que ainda se encontrava no sofa, riu do termo. "Eh trepar, meu filho. Trepar".

Uma convidada tropeçou no colchao enquanto descia as escadas e saiu bolando ladeira abaixo. Abriu o queixo, foi pro hospital às 4h da manha. O bar produziu 600 euros, mas acho que, depois de terem pago dj, caixas de som e cerveja, nao deve ter sobrado muita coisa. Também soube que um vizinho chegou às 8h da manha pedindo clemência. Disse que os vizinhos estavam cansados do barulho, mas que eles tem medo da gente entao, ninguém disse nada, nem quiseram chamar a policia. Olha, tudo bem que meu bairro parece o Bronx (gente fuzilada, carro queimado), mas é tudo exagero. Somos legais. O problema é que minha rua é uma rua de velhos de mente velha, entao preconceito rola solto. Outro dia, uma senhora chegou no emprego de um coloc (que fica no final da rua) e perguntou se as vans que ficam na frente da nossa casa, sao vans de prostitutas. Realizem. Nao sei se ela estava interessada em se candidatar à uma vaga, mas dispersamos os rumores.

Mas a proxima festinha taih: dia 15 de fevereiro, cumbia e cerveja. Vocês estao todos convidados, toda a internet. Tragam os amigos, caso eu saia da festa. Ou de mim.


Talvez

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