quinta-feira, 19 de novembro de 2009

T-o-l-e-r-â-n-c-i-a

Uma das minhas obrigações perante o Estado francês para permanecer no pais estah em assistir dois dias de palestra sobre a cultura francesa, como os direitos trabalhistas, o sistema de saude, o funcionamento escolar, os direitos e deveres do imigrante etc. Para esse evento, realizado hoje e amanhã, foi contratato um tradutor português especialmente para minha pessoa. O nome dele é M. e eu o conheci no dia em que fui assinar o Contrato de Integração e Acolhimento. Ele foi meu intérprete na ocasião. Agora, meses depois, nos encontramos de novo. Ele é pernambucano e, de cara, nos demos muito bem porque... Bom, ele é pernambucano.

Apesar de M. ser legal e da gente se dar bem e de conversar bastante sobre qualquer assunto e de até nem ficarmos constrangidos no silêncio, desconfio gravemente que não seriamos assim, chegados, se tivessemos nos encontrado em outra situação que não a do estrangeiro. Seguinte: a sala da palestra era composta de arabes, arabes e arabes. E eu (das 25 pessoas na sala, eu era a unica não-arabe). Aos dois minutos do primeiro tempo, M., quando foi se referir aos arabes, soletrou a palavra: "os a-r-a-b-e-s..." e eu fiquei sem entender o porquê de tanto segredo. Na segunda, na terceira e na quarta vez, ele usou "esse povo" pra se referir aos, err... a-r-a-b-e-s. (Shhhi!) Comecei a achar que ele tinha problemas com os arabes quando a expressão foi mudando de cor e de tom, quando "esse povo" se transformou em "ESSE POVO!" com direito a entortada de nariz. E, obviamente, eram sempre frases negativas e, as vezes, desconexas. Eu:

- Tu acha que todo mundo aqui (olhando pros arabes) é casado com francês? Ou eles assinam o Contrato porque trabalham na França?
- Menina, esse povo não é casado com francês não! Err, teu marido é francês-francês? Hum! Então, esse povo casa com francês e traz a cultura deles pra cah e depois enchem a boca pra dizer que são casados com franceses!
- (Eh o que, homi?)
- Eles casam com um francês que passou a vida toda lah. Eles passam a vida toda lah e depois vem pra cah com a cultura deles e não se adaptam! Entendeu?

Não.

Depois de uma certa confiança, M. foi rebaixando os arabes e dizendo que era dificil competir com eles porque essa gente soh da emprego pro povo deles. E era um tal de essa gente! pra cah e esse povo! pra lah e eu comecei a achar que os arabes pro M. eram assim, gente de outro mundo, de outro universo, quem sabe nem eram gente.

Eh incrivel como francês e arabe aqui não se mistura. E a resistência, a meu ver, vem de ambos os lados. Outro dia, quase tive um ataque cardiaco ao acompanhar um topico 100% brasileiro no Orkut sobre a presença arabe na França. A questão era sobre adaptação e, à certa altura, uma fulana comentou que ela fazia o maior esforço pra se adaptar à cultura francesa e achava que, se os arabes não conseguiam se adaptar aqui, eles deviam voltar pra terra deles!

Sabe, por exemplo, essa terra?

A fulana falou que ela teve que se adaptar às formas de redigir um trabalho no computador (por exemplo, ao escrever em francês, a gente deixa um espaço entre a ultima palavra e o ponto de interrogação. O mesmo serve para o sinal de dois pontos). Ela também teve que se acostumar com a agua daqui, que é diferente. Ela teve que se acostumar a um bocado de coisa, minha gente. Eu fiquei com pena dela, quase não consegui dormir naquela noite pensando o quanto deve ser duro pra ela apertar a barra de espaço toda vez que precisa colocar o ponto de interrogação. Deve ser horrivel.

COMO eu posso comparar minha adaptação na França com a adaptação de um arabe aqui? Pra mim, a coisa mais dificil de assimilar até agora na França é o fato de que minhas chances de ser estuprada ou assaltada aqui são quase inexistentes. Foi o maior choque cultural. Eu não precisei deixar minha religião fora do meu lugar de trabalho, de estudo, eu não precisei aprender outros codigos linguisticos, outros codigos juridicos, outros codigos... sociais. Não, não defendo a isolação do arabe na França. Até porque deu uma peninha tão grande quando aquela mulher de 50 anos me parou no Leader Price pra saber qual o produto era mais barato, se aquele de 85 centavos ou o de 92!

Tah dificil. Se um imigrante não pode compreender a situação de outro imigrante, o que porra eu posso esperar dos franceses?

17 comentários:

asnalfa disse...

Qual o gosto da água francesa??? Fiquei curioso.
Vcs usam espaço antes da palavra e ponto de interrogação?? Que absurdo...so podia ser coisa de frances... Realmente o mudno tem que acaber em 2012.
Por que ai quase nao tem estupro?? Gostaria de saber. É a agua francesa que controla os homens??

luci disse...

asnalfa: agua francesa faz pinto cair. por isso que eu soh deixo camilo beber cerveja...

asnalfa disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Muito obrigado por me avisar.
Jamais namorarei um frances sobrio.

Mariana disse...

Luci, não esqueça que tem muita gente que se converte ao islamismo e é confundido com arabe de origem também... e além disso eu sempre me questiono sobre essa questão da adaptação sabe? o que é isso? é abandonar as raizes culturais nas quais crescemos e vivemos até vir pra ca? é so querer falar francês, cantar francês, pensar francês? é esquecer o samba, o choro, a bossa nova, o maracatu? é não sentir saudade? independente de se tratar de arabes, chineses (aqui no meu bairro tem muiitos chineses), brasileiros ou senegaleses acho que todos os emigrados tem o direito de guardar o tanto que lhe for necessario da sua cultura...
se não estiver infringindo a lei, nem interferindo na vida alheia,qual é o problema? cada um merece a cultura que adota e a que quer resguardar. et vive la liberté!

luci disse...

ah, asnalfa, isso explica o porque daqui nao haver muitos estupros...

mariana: boa pergunta! eu ainda nao entendo o que eh se adaptar. porque se "nao se adaptar" significar ter que abandonar o samba e escutar chanson française, eu tou meio adaptada. ou "meia" :)

Mohamed disse...

لوسيانا بقرة

(jogue no tradutor do google de árabe para português)

luci disse...

mohamed: nao, obrigada. eu sou curiosa, mas se a coisa fosse boa, voce expunha aqui pra gente. fica pra proxima :)

asnalfa disse...

لوسيانا بقرة = Luciana vaca

eu joguei no guglou!!!!!!!

poxa....

luci - muh disse...

que nada, asnalfa, sejamos positivos: a vaca na india é um animal sagrado. mas existem outros animais que são somente animais. se eh que você entende onde quero chegar ;)

kbLo disse...

esse mohamed é um cara espirituoso...
:)

Aline Mariane disse...

Uma coisa que tenho dificuldade pra entender é essa discriminaçao contra arabes por aqui - e, como seu texto prova, é na França mas nao é necessariamente por parte de franceses!
Ja notei que aqui em Angers, talvez por ser uma cidade pequena, esse preconceito é ainda mais evidente. Tenho participado de um monte de conferências abertas (oo, tempo livre!) e nao tem nenhuma vez que o tema "os muçulmanos sao diferentes - e portanto, um problema" nao entre no assunto, seja o tema saude ou TV...
Verdade que no Brasil o unico muçulmano que conheci foi o meu professor de francês, africano da Costa do Marfim... Talvez por isso nunca tenha visto nada assim la. (preconceito contra quem segue religioes afro-brasileiras? Pode ser. Sou de SP, la so tem picuinha entre os cristaos pentecostais e catolicos...)
E ontem mesmo um senhor me parou no supermercado pra perguntar quais eram os cremes de cabelo e os cremes pra pele. Em arabe, depois em mimica.

Aline Mariane disse...

ah, faltou dizer que adorei a descriçao do seu perfil, hehe.

::: Luís Venceslau disse...

Acho q se adaptar tem a ver com não tentar impor ao ambiente q vc tá vivendo o q vc trás de sua terra de origem. Como no caso dos árabes, eles não podem achar q as francesas são putas pq lá na terra deles as moças direitas andam de véu. Se qualquer mulher tem q seguir as regras deles se estiverem na Palestina, seria legal Q eles respeitassem as regras de onde quer q estivessem.

E aqui a Globo pinta um Sarkozi bicho-papão, q não respeita as tradições dos coitadinhos dos arabes.. Ahammm...

monique disse...

mas sarkozi é um bicho-papão mesmo... heehehe (eu sempre encrencando com luís).

pois é, tem brasileiro que chega no exterior crente que não é mais brasileiro! e se não gostar de samba e futebol, pronto: é o próprio europeu.

o que eu acho foda é isso mesmo que luís falou, que às vezes acontece um choque cultural em que o estrangeiro quer impor sua cultura para outros que não pertencem a ela (como achar que mulher que não usa véu é puta), e o chato é que, no caso dos árabes, é uma cultura retrógrada no quesito de igualdades sociais (direito da mulher e dos homossexuais). mas a intolerância dos europeus é muito mais visível, muito mais.

é um assunto muito complexo que tem que ser mto estudado e discutido ainda...

Neide disse...

Oi Luci!
Minha professora é francesa de origem Tunisiana, ela não se considera francesa!ela me disse que não tem como deixar os costumes, religião... eu achai muito esquisito, disse pra ela que no Brasil ninguem pergunta as origens, nasceu no Brasil é brasileiro, parece que aqui não, mas as duas partes pensam assim, tanto Fracês como arabes.

Ju Moreira disse...

Luci,

Estudei frances em uma escola ligada à universidade em Reims. O curso era pago pq fui à frança com visto de estudante. Os cursos gratuitos oferecidos pela prefeitura são para aquelas pessoas q chegam à França com visto de residente (seja estudo ou exilado).

Nesta escola, tive uma professora de Estudos Sociais Franceses que é portuguesa. Nunca tive professor melhor naquela escola (tirando a prof de gramática!). Ela nos explicou tudo em detalhes essa birra francesa com os "arabes". Cito "arabes" entre aspas pq nem todo mulçumano é arabe ou vice versa, como vc deve saber (franceses costumam achar q tudo é farinha do mesmo saco!) Pois bem, não quero me alongar muito, provalvemente tu teras uma aula sobre isso, mas o maior desgosto frances com "os árabes" fica por conta da Argélia (a colonização, a independencia, a guerra q durou anos, levou muitas vidas e deixou sequelas, digamos, irreparáveis na sociedade francesa, e as consequências dessa guerra).

Falando em adaptação, no minha humilde opinião, adaptação tem muito mais a ver com a forma como vc (imigrante) entende a cultura e os valores do país para onde imigra e procura não compará-los com a tua/teus procurando achar a/o melhor. Além disso, tolerar o diferente, não achando que o diferente é pior do que a realidade q vc conhece, mas sim, procurando entender a diferença, já é um grande passo para conseguir se adaptar ao país.

No mais, compreensão e tolerancia são características muito raras atualmente.

xero
Ju

Mariana disse...

Acho que nenhuma das respostas à minha pergunta me convenceu...
Primeiro porque não acho que ninguém ta tentando impor nada... o que as pessoas pensam (por pior que seja) diz respeito à elas e não se pode tratar isso de imposição. Se o cara acha que sou puta porque uso batom, problema dele, mas o fato dele so pensar isso não me impõe coisa alguma, entende? Segundo que é impossivel não comparar! Impossivel não pensar que seria diferente/melhor/pior no nosso pais de origem! Acho que para aceitar as diferenças é preciso se dar conta de que elas existem e isso so acontece quando a gente coloca uma coisa do lado da outra, não?
No fim, acho que adaptar-se é saber conviver. é ser tolerante e respeitar a diferença...
o resto é acessorio..
tô errada?

Talvez

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