quinta-feira, 28 de maio de 2009

Parabéns

Meus dias na França têm sido de aflição pura. No post passado, eu disse que o médico havia cogitado a idéia de eu piorar e ter de ir ao hospital. Mal escrevi o post e Camilo, depois de dar uma bela olhada na minha cara bela, disse que seria melhor irmos ao hospital. Da minha cara escorria um líquido verde. Mas isso era o gostoso da história. Meu rosto começou a inchar, a inchar e a inchar, e, quando fui atendida no hospital, meu rosto já tinha mudado. Não se tratava mais do rosto de Luci, mas de algum ser maligno que havia se apoderado da minha face. E eu tenho fotos pra provar.

Dei entrada no hospital às 23h da segunda-feira, 25, e fui atendida às 3h. Conheci profundamente o sistema de saúde público francês. A enfermeira mão-de-ferro me enfiou uma agulha na mão e por ali eu tomei antibiótico. Depois, fui delicadamente jogada num corredor e permaneci ali até o outro dia, quando fui acordada por um médico brasileiro. Porra, quanta diferença! A gente falou de feijoada, da saúde pública, dos nossos relacionamentos amorosos, do idioma, da amabilidade do francês, de imposto de renda, de orkut e de tantas outras merdas que se possa imaginar. Até tinha esquecido que estava num hospital, até tinha esquecido que eu estava falando com um médico (que eu tinha conhecido ha 10min). Mas afinal, aquela já não era eu, era compreensível tanta desenvoltura com um estranho.

Meu rosto inchou tanto que, a essa altura, meu olho esquerdo estava completamente fechado. Meu pobre rosto inchou tanto que eu não conseguia ver meu ombro esquerdo! Imaginem, uma maravilha. Fizeram uma tomografia, mas ninguém conseguia nos dizer o que eu tinha.

O banheiro do hospital fedia fortemente a mijo. Impressionante. E as pessoas insistiam em falar comigo em francês mesmo depois de eu dizer que eu não falava a língua.

- Você fala francês?
- Não.
- Você fala inglês?
- Falo!
- Ah, je ne parle pas anglais...

Fui transferida pra outro hospital. Andei de ambulância, foi super divertido, espero que tenha sido a última vez. No novo hospital, os médicos vinham me examinar em grupo. Eu me sentia um bicho exótico. Como todos eram jovens internos, ainda deixavam transparecer o nojo que a cena provocava. Não era por menos, eu imagino. Depois de mais algumas horas nesse hospital, os competentes jovens médicos me transferiram novamente pra um outro. As perguntas eram as mesmas: dói? Arde? Coça? Os dentes estão no lugar? Secreções? Não. Só alguns pesadelos e uma terrível crise de auto-estima.

No terceiro hospital, finalmente eu chorei. Chorei porque não agüentava mais ver a cara de pena de Camilo, chorei porque eu estava realmente parecendo um monstrinho. Chorei porque ninguém sabia o que porra eu tinha e porque eu não sabia falar a porra da língua e tinha que depender totalmente de Camilo que, aliás, estava perdendo trabalho desde que essa historinha havia começado.

Mas eis que chega uma luz em forma de mulher e diz: "querida, você sofreu uma reação alérgica a algum medicamento que estava usando. Esse inchaço no seu pescoço é apenas retenção de água. Entendo que você esteja mal, mas não estamos preocupados com a sua aparência, isso se resolverá (tipo, "isso é o de menos"). Você tomará antibióticos via oral e usará pomadas. Ficará dois dias interna. Até logo". Pronto. Ouviram? Era só isso! E, como se não bastasse, o hospital era lindo e limpo. Havia sido inaugurado há três semanas.

As enfermeiras eram ótimas! Sabiam que eu não falava francês e se arranjavam como podiam pra me passar as informações. Havia uma em particular que confundia minha ignorância no francês com surdez:

- MADAME, AGORA EU VOU PASSAR A SUA POMADA. OK?
- Errr... Ok.
- TRES BIEN!

No dia seguinte, chegou uma mulher muito legal que estava com câncer de pele pra dividir o quarto comigo. Ela sabia falar inglês e, de vez em quando, quando as palavras-chave em francês não me auxiliavam, ela traduzia o diálogo entre mim e os médicos. E, é claro, ela me fez pensar que uma carinha torta não significava nada perto de um câncer.

Hoje, finalmente, sai do hospital. Foi presente de aniversário. Sim, porque hoje é 28 de maio e agora sei que os 24 anos de idade me chegarão com bastante aprendizado: se for beber, minha filha, pelo amor de deus, use capacete.
Foto 1. Tirada no segundo dia de internação, o olho começando a abrir. Uma beleza!

Foto 2. Ok, eu tinha acabado de acordar, por isso não há muita diferença entre o lado esquerdo e o direito...

Foto 3. Terceiro dia de internação. O que são os antibióticos, não é mesmo? (notem o queixo meio torto...)

Foto 4. Praticamente um brotinho...



Ainda em tempo, palavras de Cabelo (isso é uma pessoa):

KbLo diz:
vc poderia ministrar um curso "como se fuder completamente sem morrer com eficiÊncia em menos de 12 horas e estragar sua viagem à Europa"
KbLo diz:
caralho
KbLo diz:
vc tá parecendo o satanás de rabo!
o sol tá massa diz:
ahuahuahuahahhahuahuahuahuahua
KbLo diz:
puta que pariu
KbLo diz:
use uma máscara
o sol tá massa diz:
cabelo, eu JURO, estava pior do que isso
KbLo diz:
naipe michael jackson
KbLo diz:
e nos poupe dessa feiura
o sol tá massa diz:
estava pior, eu nao abria nem o olho, imagino isso
KbLo diz:
mermão
KbLo diz:
pobre camilo
KbLo diz:
num rato do caralho
KbLo diz:
e agora tem uma chewbacca em casa pra comer

Obrigada pelo conforto...
Amigos, pra que servem, afinal?

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Cabeça de vento

Olhe bem! Não queria ver? Pois veja! Sacie seus olhos, impregne sua alma com a minha hediondez! (...) Não bastava ouvir-me? Tinha que conhecer minha aparência? Oh! Como vocês, mulheres, são curiosas!

Assim que eu caí, minhas chagas não chamavam tanto assim a atenção das pessoas. "Puxa, como os franceses são discretos, no Brasil já estariam me apontando!" Pobre de mim. Os franceses não cuspiam na minha cara quando me viam porque, a despeito das fotos, minhas feridas estavam discretas. Ontem, depois de uma tarde inteira no parque (Parc de la Tête d'Or), comecei a me sentir, digamos assim, diferente. Os velhinhos olhavam de soslaio. As mulheres comentavam entre cochichos. Teve uma criança que parou na minha frente e ficou me olhando durante uns 30 segundos. "Quié, porra?" perguntei eu, cheia de coragem xingando uma criança em outra língua.

Passamos um domingo maravilhoso de sol e poeira no parque. Quando chegamos em casa, desinfectei a feridinha com um remedinho e, no dia seguinte, meu olho esquerdo estava fechadinho. Achei que fosse uma reação alérgica. Camilo marcou um médico de urgência e o veredicto: infecção. Alguma coisa com péssimas intenções penetrou a ferida e agora estou tomando antibiótico e passando uma pomada branca que toma metade da cara. Tou parecendo o Fantasma da Ópera, tá foda. O médico disse que precisávamos controlar a infecção antes que ela atingisse a região do nariz (se isso não acontecer até quinta, vou ser hospitalizada). Como se não bastasse, preciso ficar dez dias sem beber. Nessa hora, sim, fiquei puta comigo. Sei que o que eu estou passando é bom perto do que poderia me acontecer, mas planejei minha vinda de acordo com a data do meu aniversário (que ocorrerá em três dias), e agora terei um dia idiota, careta e sem graça. Eu acho é pouco. Aliás, num acho não.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

De queixo caído

Sim, finalmente! O post do reencontro!

Lembro que quando faltava 62 dias pro meu reencontro com Camilo, eu o escrevi eufórica por conta disso. Meu deus, 62 dias! Era fantástico! De repente, me dei conta de que somente duas horas nos separavam.

Desci do avião com um sorriso, peguei as malas na esteira com dois sorrisos e, quando estava saindo da sala pra ver o menino que mudou o rumo da minha vida, fui parada por um policial idiota e francês. Ele falou qualquer coisa e eu, sem entendimento e educação, disse "quoi?!" quando a polidez exigia um refinado "pardon?" Mas a essa altura alguém acha que eu me importei com isso? Falei num inglês primitivo que iria morar na França com o senhor meu marido e fui liberada. A frase me deixou pensativa.

Voltei a sorrir e sai de lá. A surpresa grande foi ter que esperar trinta minutos pelo namorado atrasado. Mas quando o vi chegar... Rá! Quando eu o vi chegar... Hahahahahahahaha! Titititititi! Laaaaaaaaaaaa laaaaaalaaaaaaaaa! Viva o mundo!

A gente se abraçou, se beijou, se cheirou, se lambeu, se cheirou mais (reconhecimento, né, galera) e foi embora. Chegamos em casa na seguinte situação: três meses e meio sem nos vermos, cama grande e apartamento vazio. Então, como esse não é (ainda) um blog pornô e meus amigos são muito imaginativos, eu pulo a cena seguinte.

Combinamos depois de ir ao cinema ver um filme de Almodovar com Penelope Cruz. Almodovar, meu filho, existe outras atrizes no mundo, eu juro. Não curto muito Penelope Cruz, ela tem cara de fuinha, mas como francês não é meu forte, a opção era um filme em espanhol.

O dia ainda estava claro e a sessão era às 22h. Quando Camilo disse que faltava duas horas pro filme começar, deu um tilt em mim. Piorou quando ele disse que eram 20h. "Como assim oito?! Claro assim?!" Sim, claro assim. Uma coisa é saber que nessa época os dias são mais longos na Europa. Outra coisa é viver esse dia longo.

Eu saí toda contente e feliz de casa e a noite só chegou perto das 22h. Até essa hora, ficamos bebendo na beira do rio. Centenas de pessoas faziam o mesmo. E as figuras ilustres foram se proliferando. Chegou um grupo de meninos nos chamando pra uma festa. Depois chegou um cara, pegou a bicicleta de Camilo e fez um movimento como se fosse roubá-la, depois deixou a bicicleta, sorriu e saiu. "Oxe, que doideira, tu conhece esse cara?" Não, Camilo não o conhecia. Brincadeira muito saudável pra se fazer com um estranho, fingir que vai roubar sua bicicleta.

Bebemos uma garrafa de cerveja e outra de vinho. Foi então que percebi que eu preferia beber a ir ao cinema. Na verdade, eu sei que eu prefiro beber a fazer muita coisa, mas é que aquele momento estava sendo muito legal. A gente estava conversando tranquilamente na grama, levemente bêbados e eu estava "abobalhada" percebendo o quanto amo esse menino. Eu sei que a excitação do reencontro deixa a pessoa idiota, mas naquele momento eu tava TÃO FELIZ vendo Camilo falar sobre as coisas da vida dele! E não queria trocar aquele momento por nada, só para comprar outra garrafa de vinho.

Uma hora depois eu já estava bêbada o suficiente para fazer xixi tranquilamente perto da multidão, dividindo o espaço com outros bêbados (um muro). Nessa hora decidimos voltar pra casa. E foi nessa hora que aconteceu.

Camilo foi na sua bicicleta na frente e eu segui atrás. Em certo momento, eu o ultrapassei e comecei a pedalar muito rápido. Tão sentindo onde isso vai parar, não é? Luci bêbada e uma bicicleta em mãos. Pedalei mais rápido e fiquei chamando ele de cagão. Ele pedindo pra eu ter cuidado e eu levantando as pernas e deslizando pela pista.

O resultado foi o esperado: levei uma queda e caí de cara no chão. A queda foi tão foda que eu ralei até o pescoço. Eu ralei o pescoço, a cara, os dois ombros, mão, joelho... Eu achei que meu queixo tivesse descolado tamanha a dor que senti quando ainda estava no chão. Camilo acudiu. Na hora, ele não descreveu como estava meu rosto, só quando eu cheguei em casa foi que vi o tamanho da merda. Ele me deu um banho e eu só fazia choramingar. Bem feito. "Cagão, cagão".

No dia seguinte, ele foi na padaria e me mimou com uns pães fuderosíssimos. Foi difícil mastigar, o queixo estava doendo muito. Depois fui tomar banho e, quando me vi no espelho, fiquei horrorizada. O negócio estava horrível, meu queixo tem o dobro do tamanho e as feridas pelo corpo estão em carne viva. As fotos estão aí, mas não são fiéis à realidade.

Camilo tem me chamado carinhosamente de "monstrinho".
meu "normal"
(que já não é essas coisas todas, mas...)

meu novo lado esquerdo

nova Luci
(experimentem tapar metade do rosto e vejam a diferença)

terça-feira, 19 de maio de 2009

BSB - DF - PQP

Amigos e lindinho:

Saí de João Pessoa ontem, às 14:45h. O destino ainda não era Lyon, mas a despedida era a mesma. Na ida ao aeroporto, minha mãe cometeu o gravíssimo erro de esquecer em casa uma grana que deveria me auxiliar em Brasília (malditos humanos!). Ainda nem tínhamos saído do bairro, mas seu Pereira, meu famigerado pai, esculhambou como pôde sua pobre esposa por tão grave falta. Num sorriso triste, lembrei que eu estava indo embora. Nas palavras de Monique, descrição da cena: "parecia que tava falando com um cachorro".

Chegamos no magnânimo aeroporto de João Pessoa, e, feito o check-in, procurei o banheiro mais próximo e tive uma belíssima desinteria. Qualquer tensão no meu ser se reflete diretamente na minha barriga. Foram mais de 20 visitas no banheiro, só na última semana. Como diria minha tia, haja fê-o-fó.

Eu deveria ir (vir) a Brasília para pegar meu visto. Além disso, ainda teria que ir numa cidade próxima pra reaver uma mala que eu havia remetido de João Pessoa, e a casa da pessoa que está me hospedando, Marcella, ficava numa terceira cidade. Ou seja, haja cu e haja pé.

Acordei às 6h, fomos até a rodoviária, me despedi de Marcella e depois peguei um ônibus pra Embaixada da França. Foi a parte mais tosca do dia. O ônibus andou muito, muito, muito mesmo, meu deus. E andou por umas estradas que só tinha prédio e mato, e cada prédio a um quilômetro de distância um do outro. Pra eu descer, o motorista parou o ônibus num lugar que nem era parada de ônibus (levando buzinada) e apontou pra uns prédios que ficavam a uns dois quilômetros de onde eu tava (dois quilômetros é longe? porque, se não for, eram três).

- Tá vendo aqueeeele prédio ali?
- Laaaá longe?!
- É. É atraaaás dele.

Brasília é uma cidade muito esquisita, não fui em muitas cidades na minha vida, mas essa não se parece com nenhuma outra que já visitei. Só o que eu vejo são avenidas largas e carros. Nada de casas. E o que é mais esquisito:

- Moço, como faço pra chegar em tal lugar?
- Você pode pegar o 508.1 destino L2 Sul/47, que vai pelo trecho 2.
- Muito esclarecedor, obrigada.

Brasília, a cidade das siglas!

Mas o que (não) importa é que andei durante 30 min até chegar na embaixada da França e quase perco a paciência porque, juro, não vi ninguém no meio da rua até lá, pedia informação nas portarias dos prédios. Vi a embaixada da Tunísia, da Grécia, mas não via a da França. Vi a embaixada da Espanha, do Marrocos, mas não, eu não via a da França!

Quando finalmente cheguei, com os pés abertos em sangue e bolhas (mentira, é pra dramatizar) fiquei esperando num sofá a hora de ser chamada. Todas as pessoas ali falavam francês entre si (estranho não, Luciana, uma embaixada da França...) e fiquei um pouco incomodada. Então, me incomodei com meu incômodo, porque afinal de contas, eu vou morar na França e algo me diz que pessoas falando francês não deveriam ser motivo de incômodo pra mim.

A emoção foi grande quando vi meu passaporte. Finalmente! Agora, a parte dois da Missão Brasília: reaver a mala em Guará. Eu tinha que pegar um ônibus pra rodoviária novamente e imaginei que passaria outra eternidade pra chegar no meu destino. Qual foi a minha surpresa ao ver que eu estava a menos de cinco minutos da porra da rodoviária e que o primeiro ônibus não era lá bem o certo pra mim.

De qualquer forma, cansei de escrever, meus olhos tão doendo, tou com sono e quero dormir. Mas, pra finalizar, peguei a porra da mala: 32kg. Preferi o ônibus ao táxi (o que foi bastante interessante pra minha coluna) e depois o metrô até chegar em Taguatinga, na casa de Marcella, ao meio-dia.

Deu tudo certo, agora é só esperar amanhã chegar e partir pra Lyon. Dessa vez, pegando ônibus e metrô, numa viagem de uma hora e meia até o aeroporto, com 60 kg de bagagem. Iêi!

terça-feira, 5 de maio de 2009

E o site é da Paraíba...

Eu estava procurando "lista de viagem" no Google para garantir que minha mala estaria perfeita. Dei uma olhada em um dos links, era um site de noivas e noivos. Não resisti ao link "curiosidades" ao lado. Cliquei:

Posição da Noiva e do Noivo

A razão da noiva ficar sempre do lado esquerdo do seu noivo tem sua origem entre os anglo-saxões. O noivo temendo um ataque dos dragões e outras ameaças, deixava sempre o braço direito livre para sacar a sua espada. Segundo a superstição, quando a noiva fica no lado esquerdo, também significaria afastar o risco da infidelidade.

Peraí... Dragões?
!
No final das contas, me pergunto se viver com baratas é tão ruim assim...

Parafusos

É sempre engraçado e estranho quando as pessoas dizem "que inveja!" quando eu falo que vou morar na França. Eu diria o mesmo se não fosse comigo, porque eu sempre quis viajar, morar em outro lugar, conhecer outras pessoas etc. Mas quando acontece, quando é de verdade (e é de verdade com você), as coisas mudam.

Primeiro quero dizer que não estou reclamando de nada. Quando falo dos pontos negativos de se ter que deixar o país, as pessoas começam com o discurso de consolo. Gente, eu não acho que vá ser um martírio mas, acreditem, a tristeza que eu sinto de deixar certas coisas aqui é, definitivamente, inconsolável.

Mas olha só que legal, em Lyon não tem mosquito, não tem aranha, não tem mosca, não tem formiga, não tem barata, não tem cupim e eu vou passar o dia aqui citando os insetos existentes no mundo ou vou colocar um "etc"? Então, não tem nada disso. É absolutamente incrível! Mas o que é incrível mesmo é saber que eu não tenho rinite alérgica na França. Só quem tem rinite sabe o sofrimento que é atravessar uma crise espirrando. E aquelas crises fortes mesmo dão um sono e uma fome incrível, parece uma larica profunda. A diferença é que, em vez de você comer, você espirra.

Na França também tem uma Luci absolutamente livre. Uma Luci que tem vontade de engolir o mundo e que, finalmente, tem a oportunidade de fazê-lo. Mas sabe, tudo é mesmo questão de costume, porque quando eu precisar, e ver que meus amigos estão do outro lado do Oceano, os parafusos vão desregular. Ah, vão.

Bom ou mal, estou indo. Comprei as passagens pro dia 18 de maio, segunda-feira.

sábado, 2 de maio de 2009

Bubamara

Quarta descoberta: casar é bom (mas há que se levar em conta que...)

No dia seguinte houve aquela comoção na casa, todos queriam saber se o "noivo" estava vivo. O interessante é que ele nem teve ressaca e já acordou lindo. Olhou o sol, que não aparecia há dias e disse "olha, amor, eu encomendei o sol pra tu!" e eu me desfiz num sorriso. Hihihi

Bateram a porta e já entraram rindo. Preparamos o almoço, pegamos nossa bicicleta e fomos à prefeitura. Casar. Os amigos de Camilo foram chegando. Meus amigos, só na lembrança. Todos nos seus lugares. Daí, uma mulher muito loira e muito vesga começou a falar. Ela tinha uma faixa com as cores da França. Que legal! E a tradutora era portuguesa. Até aí, só motivo pra rir.

- Lucciana Milená Aqüino
- do jeito que minha mãe quis que fosse pronunciado...
- ...aceita se casar com Camilô Errrnestô Martí Salguerro?
- Sim.

Mas antes falaram de amor. E de filhos. E de futuro. E aquilo tudo foi me tomando, me fazendo ficar pensantiva. Eu ia casar, aquilo era sério. Apesar da mulher vesga.

Quando tudo terminou, ficamos conversando besteira por ali e os amigos de Camilo foram pra entrada. Ao sair da prefeitura, uma chuva de arroz e um batalhão de bolhas de sabão tomaram o ar e dançaram a música que começou a sair do violão. As pessoas gritaram e aplaudiram e gritaram mais. E então começaram a cantarolar o refrão de Bubamara. Não conhecia a música, mas aquele coro me fez chorar. Eu queria bater em todas aquelas pessoas, foi lindo.

Como temos convivido diariamente desde a primeira semana de namoro, aquelas descobertas infelizes já foram descobertas. E aceitas. Não sei, não sei até quando a gente vai dormir de mãos dadas, nem até quando vai tentar resolver as brigas em menos de três minutos, mas eu tenho certeza de que não vai durar depois de terminar.

Casar é bom, mas há que se levar em conta que o marido é Camilo! :D

Abor


Terceira descoberta: despedida de solteiro é ruim

Repito como uma reza que tenho (tinha) dois bons motivos para não casar: meu pai e minha mãe. Quem cresce numa casa tendo como referência um casal que, definitivamente, não deu certo, não espera nada de uma troca de alianças. E "não dar certo" pra mim não significa divórcio. Significa somente continuar junto diante do caixão do matrimônio. O caso dos meus pais. No entanto, como a vida é safadjinha, ela me colocou diante de uma situação inusitada. Ou muda o estado civil, minha filha, ou passa o resto da vida repetindo "e se..." com um filete de baba caindo no canto da boca. Aprontamos os papéis, mas combinamos que nunca nos trataríamos por "marido" e "mulher", que não haveria troca de aliança e nem contração do sobrenome dele. Piada. E assim, fomos.

Na véspera, o pobre "noivo" teve uma despedida de solteiro. Ia tudo nos conformes: bebida, amigos, comida (eu sei no que vocês estão pensando), amigos, bebida, amigos, amigos e bebida. Ah, e também tinha bebida. Quando terminou a minha festa de despedida que teve tapioca, samba, mulher, mulher, mulher (eu sei no que vocês estão pensando), música e, laaaaaaá no final, bebida, duas convidadas me chamaram pra encontrarmos nossos respectivos em um bar em que estavam. Aceitei.

Fomos de bicicleta, atravessamos os bairros e, por fim, chegamos a um antro, quer dizer, a um bar, que devia ter o triplo da capacidade de pessoas. Encontrei meu futuro esposo ensopado de álcool, com a língua enrolada e com os olhos ligeiramente trocados. "Amor, tu tá aqui!" e veio tropeçando na minha direção. Sustentei desde o princípio! e o levei pra fora. Ele tinha que tomar ar e eu tinha que encher os pulmões de fumaça.

- Abor, eu te amo!
- Eu sei...
- É sério, abor... abooorr! Eu só quero tu... (cuspindo)
- É, meu lindo?
- É!
- Eu sei...

Eu já sabia. Sabia também que eu deveria aproveitar aquelas frases porque ele não costuma dizê-las. Sabia também que ele não lembraria de nada no dia seguinte. E sabia, mais que tudo, que ele me abava e que só queria a mim.

Não ficamos muito tempo, eu sentia, pelo peso da língua dele (durante a fala), que ele não ia durar muito e aqueles 80kg seriam levados no meu lombo. Não imaginava que eu tinha acertado tanto na suposição. Fomos procurar as bicicletas. Questão de matemática: quatro indivíduos, três bicicletas. Disposição um: eu em uma, o australiano morgado não antes citado em outra e Pierre levando Camilo no guidão. Não, não no quadro, como defende o bom e velho sistema brasileiro. Estávamos na França, o sistema era francês: o passageiro ia no guidão, de frente, com as costas repousando no peito do ciclista e as perninhas balançando. É, é meio sexual. Mas enfim, o que importa é que eles não conseguiram andar nem 30cm e caíram juntos por cima de um arbusto. Eu fiz aquela cara "¬¬" e fui acudir. Segunda tentativa: eu numa bicicleta, Camilo na segunda e o australiano morgado sendo levado por Pierre na terceira.

Começamos a pedalar. Camilo ia na minha frente e eu o seguia gritando "esquerda! esquerda, esquerda, menino! agora direita! direita! direita! isso, continue". Saímos da rua esquisita, entramos na rua movimentada, atravessamos a avenida e eu pedi pra ele parar. Ele parou, parou até demais. Parou tanto que desmaiou, sei lá o que foi aquilo. Só sei que ele foi caindo, caindo e meteu a testa no chão e por lá mesmo ficou. Eu tentava levantá-lo, mas não conseguia. Quando finalmente tive sucesso, o vi levantar a cabeça e um fio de sangue escorria da boca dele e tocava a calçada. Carros e pessoa paravam e começavam a falar em francês: "bonjour? a bientôt? salut?" e eu sem entender porra nenhuma xingava em português e me desesperava como boa Luci que sou. "Fudeu, fudeu!"

Finalmente a figura levanta e começa a choramingar. Minutos depois, quando já estávamos andando, Pierre chega bêbado e preocupado. "Oh, putain!". Putain o caralho, porra, me ajuda aqui! Camilo não se sustentava em pé e não estava sendo fácil carregá-lo e equilibrar duas bicicletas ao mesmo tempo. Voltamos a pé pra casa. Vale dizer que foi uma longa caminhada de 45min com direito a neve, embalada pelo choro de Camilo que saía a cada 10min.

Na metade do caminho, a terceira queda: Pierre cai por cima de Camilo e este começa a chorar de novo. Tanto agora, como na hora, eu comecei a rir, que noite ridícula! Na calçada de casa, mais choro. Deixei as bicicletas no prédio e voltei correndo pra ajudar Pierre com Camilo. Pierre disse "dê um beijo nela" e ele me deu um beijo babado e lindo.

- Abor, foda-se!
- Humm...
- Foda-se o mundo!
- Ah... sim, o mundo. Foda-se o mundo!
- Foda-se!

Ele repetiu isso até entrar no elevador. Quando foi sair, a porta do elevador fechou com os dedinhos dele presos na entrada. Pelas marcas roxas instantâneas que ficaram nas unhas, suponho que ali deveria ter uns 50kg de pressão. Mas eu não tenho noção de distância, profundidade ou tempo, então, me ignorem. Ele soltou aquele grito mudo. Segurou os dedos e abriu o bocão. Eu arregalei os olhos vendo tanto sofrimento, mas não podia fazer nada, aquele era o dia dele.

O carregamos pra cama e tiramos a roupa dele. Quando nos demos conta da situação toda, caímos na gargalhada. Lá estava Camilo: semi-desmaiado, nariz esmagado, lábios abertos e dedos espremidos.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Mil facas

Primeira descoberta: o frio é frio.

Quando desci do avião em Lisboa, era de madrugada e todas as pessoas inteligente E prevenidas encontravam-se perfeitamente agasalhadas. Eu fingi algo parecido. Mesmo estando com duas blusas de manga comprida e uma calça jeans, não cruzei os braços e, dignamente, senti meus ovários congelarem enquanto uma "fumacinha" esquisita saía pelas minhas fuças. Ao chegar em Lyon, qual foi minha surpresa ao lembrar do filme Titanic. É, Jack, Rose, come back, come back... aquele mermo. Quando a mulé vai se matar, o desocupado adianta à moça que cair naquelas águas congelantes seria como ter o corpo espetado por mil agulhas. Ou eram mil facas? Ou era a puta que pariu? Não me lembro, só sei que, no meu caso, todas as coisas que tem o poder de cortar, perfurar e rasgar a pele humana pareciam estar dançando no meu rosto descoberto. "Ah, então, isso é frio..."

Cheguei ao apartamento. Os dias foram se passando e todas as pessoas que Camilo me apresentou eram supreendemente legais. E agora vamos para a

Segunda descoberta: os franceses são pessoas legais.

Claro que eu não cumprimentei todos os franceses da nação, mas aqueles que me dirigiram a atenção sempre foram muito gentis. E olhe que eu não estou me referindo somente aos amigos de Camilo. As atendentes do metrô, os garis, a mulher que vendia o pão, o cara que nos explicou como chegar na estação etc. Não vou comparar o mau humor daqui com o de lá, afinal, nesses 24 anos morando no Brasil, eu já tive vontade de matar muita gente, mas numa análise rápida, sim, os franceses têm uma má fama infundada. Ah, claro, se você espera que na fila do banco alguém vá puxar assunto com você ou mesmo continuar aquela reclamação lançada no ar para ninguém, esqueça. Franceses não abraçam com emoção, não tocam em você enquanto falam e não abrem a boca além do necessário. Ou seja, é o paraíso! (Espero continuar achando isso quando bater a carência afetiva).

Um ano

Admito que tenho uma dificuldade enorme em escrever sabendo que tanto o Papa como a vizinha da minha avó possam estar me lendo. Então, para que não haja travamentos, fingirei que o Papa é meu amigo e escreverei para ele. Afinal, costumamos nos sentir à vontade com os amigos, não?

Querido Papa,

Meu último ano foi incrivelmente conturbado. Assim que abandonei o Circo, meu avô morreu. Depois minha avó morreu. Meu ego supôs que isso era algum tipo de castigo divino, sei lá pelo quê, você saberia me dizer, mas... não estou interessada na sua opinião, querido Papa. Semanas depois, meu cachorro morreu! Pega mal se eu disser que fiquei mais triste pelo cachorro? Acho que pega mal, e, pensando bem, até deve ser mentira.

Meses depois, o amado do meu coração (não, graças aos céus de todas as religiões, ele não morreu) foi morar do outro lado do Atlântico. Quem morreu fui eu. Mas a gente faz planos daqui, faz planos dali e, quando me vi, já tava atravessando o oceano pra casar com o menino. Casei. Casei, aprendi a dirigir, tou prestes a me formar e a mudar de endereço. Olhando assim, meu ano não pareceu nem um pouco conturbado. Nem pareceu um ano, na verdade. Mas calma lá que eu tou me adaptando a isso aqui. E essa narração vai mudando... Essa porra desse Papa não tá é me ajudando em nada!

De qualquer forma, a parte mais interessante desse movimento todo foi minha visita à França. Eu poderia falar da morte dos meus avós, mas quando eu começasse a listar as doenças que vão desde câncer à alzheimer, as pessoas se deprimiriam, como eu me deprimi em pensar. Então, vamos às descobertas!


Casmurro

Eu não sei quanto tempo se passou até que eu me convencesse de que, se eu escrevesse qualquer coisa e parasse de pensar em como fazê-lo, eu teria a primeira linha do meu primeiro post do meu milésimo blog. Eu deveria começar com uma apresentação, eu suponho. E, ainda dentro de suposição, digo: meu nome é Luciana, estou prestes a fazer 24 anos e o nascimento desse blog vem de uma necessidade intestinal de escrever. Somado a isso, vem o fato de que, dentro de 20 dias, eu estarei indo embora do país e a vontade de me manter viva na cabeça dos amigos é maior que a necessidade de comer canjica. Eu adoro canjica.

Quem já sabe do meu nome e idade, sabe também que eu mantive um blog por alguns anos. O Circo sem Futuro. Pobrezinho, morreu de fome, esqueci o login e também como é que se faz piada. Então, por favor, não esperem nada demais deste. Eu só quero escrever. Ou me manter viva. Caso me esqueçam, é claro.

Talvez

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