sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Alguns dos meus gigantes

Eu tava lendo uma critica sobre os filmes do Monty Python no blog da Lola, quando vi o comentario sobre O Calice Sagrado: Em Busca do Cálice Sagrado é um mergulho à Idade Média, com cenas antológicas como a do cavalheiro (sic) que perde seus braços e pernas em uma batalha mas ainda quer lutar. Quando seu adversário desiste da luta já ganha, o toco de homem que sobrou grita "covarde!" (é interessante que esta comédia só foi realizada porque o beatle e fã George Harrison doou um milhão de libras ao grupo). Nesses momentos, eu suspiro. George Harrison, eu te amo duas vezes.

E, falando em Beatles...
Tudo indica que o filme Yellow Submarine sera refilmado em 3D. Sou aquela fã chata dos Beatles que considera que tudo o que eles fizeram é irretocavel! Detesto qualquer tipo de regravação das musicas deles. Ainda engulo Across the Universe por Fione Apple, mas soh porque não ha grandes mudanças na musica. Apesar disso, fiquei animada com a regravação do filme. Afinal, ainda é Beatles! O projeto é pra 2012 e eu (não) sou paciente.

E, falando em filmes...
Vai rolar um outro filme sobre Anne Frank, feito pela Disney. Esse sim me fez tremer as pernas. Anne Frank representa muito pra mim. Lembro da primeira vez em que ouvi falar sobre ela: rodoviaria de João Pessoa, 1994. Minha mãe comentou sobre essa menina que viveu escondida dos nazistas e que finalmente foi morta num campo de concentração. Nessa idade, eu tinha uma idéia bastante vaga do que era o nazismo, do que era um campo de concentração, mas a historia dela me chocou, me provocou uma curiosidade imensa. Passei os dois anos seguintes implorando pra minha mãe comprar o Diario. Quando eu ja havia esquecido da coisa, minha amada mãe chega com uma edição bem velhinha, paginas amareladas, que ja me davam a impressão de que eu tinha o original. Li o livro varias vezes durante a adolescência e a cada leitura ia descobrindo coisas novas. A identificação era incrivel, apesar de eu estar anos-luz da realidade dela. Absolutamente tudo despertava meu interesse no livro: o fato dela ser adolescente e ter que lidar com sua sexualidade de uma forma bastante limitada, tanto pelo espaço fisico como pela época vivida, cheia de tabus (na primeira edição do livro, foram, inclusive, suprimidas paginas em que ela tratava da sua sexualidade); a relação tensa que ela mantinha com a mãe; o fato de viver confinada num pequeno espaço durante anos com pessoas das quais ela não gostava; a situação de guerra em si (que sozinha ja traz traumas suficientes); a escrita profunda e sensivel de uma menina de apenas 13 anos e todas as criticas que ela faz sobre o mundo e sobre o Homem. Não sei, mas pra mim, uma pessoa que diz do fundo do coração, sei que nunca mais terei minha inocência outra vez, no contexto desumano da guerra, sabe do que ta falando. Eu tenho plena convicção de que o fato de hoje eu ser "historiadora" nasceu desses tempos em que eu passava horas no deposito de casa remexendo nos baus velhos dos meus pais e descobrindo todos os empoeirados, ouvindo musica "velha", lendo sobre a II Guerra e esses eteceteras da vida. Sim, sim: eu tremo as pernas!


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Olhos apertados apertados

Ontem, eu tive minha penultima aula de francês. Achei uma pena ser a penultima, pois foi o melhor dia. Não que tenha sido super divertido, mas simplesmente foi diferente dos outros. Pra começar, durante o intervalo de 10min que temos pela manhã, uma japonesa da sala se aproximou de mim, me entregou um pacote pequeno com as duas mãos e disse "cadeau". Tive dois segundos de lerdeza até entender que ela tava me dando um presente. Não entendi logo, não porque eu não tivesse compreendido o "cadeau" dela, é que eu simplesmente nunca falei com aquela menina, nem um simples bonjour, e la vem ela com um cadeau. Que fofo! Era um prendedor de cabelo. Agradeci e disse que era lindo! Que eu tinha adorado e que ia usar bastante porque eu prendo meu cabelo. Ela disse que notou - e quem não notaria?

A chuva do meia-dia me obrigou a almoçar dentro da Universidade. Eu costumo almoçar nos bancos da Place Carnot, naquele sol de matar, escutando os mendigos arabes gritarem uns com os outros. Eh um lugar bem tranquilo. Então, dentro da Universidade, abri meu lanchinho (macarrão com verduras), peguei minha colherzinha (eu tinha esquecido o garfo em casa, soh achei uma colher de cha na bolsa) e levei sete horas e meia pra terminar minha refeição.

Quando finalmente terminei de almoçar, dois japoneses (Shouhei e Tomonori) me convidaram pra uma festa de despedida na casa deles amanhã. Eu não tava pensando em ir, porque na quinta tem um show de jazz e eu ja tinha combinado com Camilo. Mas eles são tão legais! Tou em duvida, mas acho que vou. Porque sei, baseado no intervalo posterior a esse (o da tarde), que a coisa toda vai ser engraçada.

Nesse tal intervalo, eu abri um pacote de biscoito e ofereci à menina que senta ao meu lado esquerdo, e que geralmente faz os trabalhos em sala comigo, Keiko. Eu gosto dela, mas ela não fala. Outro dia, eu cheguei na Universidade e tava indo pra sala quando ela me parou. Eu olhei pra ela. Ela olhou pra mim. Ela apertou os olhos e começou a balbuciar alguma coisa. E eu fiquei ali, concentrada, esperando alguma palavra, mesmo que fosse em japonês, mas a danada não falou nada, ficou soh apontando pras escadas e disse algo do tipo "Aeeeuuuhhhggrrr". Velho, eu juro. Juro que foi assim. Ela soh deu um gemido! Ai, quando eu vi o pessoal da sala descendo as escadas, entendi que as aulas não seriam na sala de sempre. Ok.

Sempre foi assim, sempre sou eu quem falo com ela. Então, dessa vez, quando ofereci o biscoito, me surpreendi quando ela disse "husband". "Ok, ela quer saber sobre...".

- O nome dele é Camilo.
- (expressão interrogativa)
- Eh, não é um nome francês. Eh um nome da América Latina.
- (expressão interrogativa)
- Eh que o pai dele é salvadorenho.
- Ahhhh!
- Pois é.
- Aarrrhh... Et... Ahhh... (apontando pro mapa da capa do livro)
- Não, ele nasceu na França, mas...

Dai continuei a falar dos paises onde Camilo tinha morado com os pais, o que ele fazia, como a gente se conheceu etc. Depois disse que vim pra França porque Camilo precisava terminar os estudos dele.

- Mas agora ele vai ser contratado por uma entreprise.
- (expressão interrogativa)
- Hmm... Boîte? Tu entende?
- Aaaahhh! (ai ela começa a fazer uma dancinha)
- Não, não boite de dançar! Hahahaha Hmm... Firm, em inglês?
- FILM! OOOOOOOOOOOHHHH!
- Não! Não filme! HAHAHAHAHA!
- HAHAHAHAHA!

Nesse momento, outros dez japoneses ja prestavam atenção na conversa. Comecei a contar da minha queda de bicicleta, o porquê do meu capacete, do quanto gastamos com despesas médicas. Eh incrivel como eles aplaudem e riem! Pois bem, acho que vou pra festa.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Seven days

Como a vida de uma pessoa pode mudar em um periodo de sete dias!

Primeiro: estou formada! Iêi! Viva eu! Finalmente! E, claro: PUTA QUE PARIU! O tema do meu TCC se transformou lentamente na coisa mais odiada dos meus dias. Alias, tudo o que envolvia meu TCC se transformou numa coisa completamente repugnante. Não aguentava mais ir nas bibliotecas, falar com meus professores, conversar com meus amigos sobre isso. Agora estou extremamente feliz de ver os livros que usei para o trabalho, bem na minha frente, e pensar que "eu nunca mais vou abrir essas merdas novamente". Não vou sequer pronunciar aqui o tema do meu trabalho. Chega! Acabou! Estou formada! Agora o negocio é dominar o francês tal qual um francês e...

Segundo: ganhei meus primeiros euros! Quero dizer, por esforço proprio. Camilo estagia numa empresa e disse que ela estava precisando urgentemente de uma limpeza. Perguntou se eu não queria ganhar uma graninha fazendo uma faxina por la. De primeiro, não dei a menor importância, mas depois pensei que seria uma boa, afinal, além de eu não ter nada pra fazer agora, faxina é que eu faço todo dia nessa porra de casa sem ganhar nenhum tostão por isso ("obrigado" é bom, mas não é o suficiente).

Então, antes de ontem, fui pra empresa dar um jeito na zona. O patrão de Camilo disse que achava que eu limparia tudo em oito horas mas, mesmo que eu fizesse em menos tempo, ele pagaria o equivalente a oito horas de trabalho. A hora de trabalho aqui, baseada no salario minimo, vale 7 euros. Eu nunca ganharia 7 euros trabalhando como professora no Brasil. Alias, eu não ganharia nem mesmo 7 reais trabalhando com isso. O Patrão disse ha uns dias que eu poderia faxinar a casa dele e cuidar dos filhos, mas eu prefiro faxinar. Crianças correm e berram. Pias e sanitarios, não.

Estavamos eu e mais quatro amigos na rua quando fomos abordados por um coitado que queria um cigarro. Enrolaram um pra ele e ele foi embora feliz. Um tempo depois, ele voltou, pediu outro cigarro e tirou o relogio do pulso dizendo que era falta de educação pedir cigarro a uma mesma pessoa duas vezes, por isso, ele pediu pra que a gente aceitasse o relogio dele. Camilo recusou, mas o cara insistiu muito. Ele disse que uma carteira de cigarro so durava uma manhã pra ele e que o tabaco pra enrolar durava dois dias. Meu amigo, um pacote de tabaco, pra uma pessoa normal, dura uma semana! Mas não foi dificil acreditar que ele fumava tudo aquilo quando eu vi os dentes dele. Ou melhor, quando eu não vi os dentes dele. Agora Camilo tem um relogio.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O presente

Numa passagem rapida pelas coisas que aconteceram nesses ultimos tempos, me parece que tenho coisas legais pra contar. Legais pra mim, claro. Mas vamos por partes.

Dia 08 desse mês, fomos de novo à Chateaubriant. Dessa vez, para a festa que a mãe de Camilo estava planejando havia meses. O motivo, como eu acho que ja disse, era os 50 anos da mãe dele, os 20 anos do irmão e a comemoração do nosso casamento. Tivemos uma festa entre os amigos (de Camilo) no dia em que nos casamos, 09 de janeiro, mas essa nova festa seria para a familia (de Camilo) se inteirar dos acontecimentos. Bolamos até um diaporama pra apresentar nossa historia as pessoas. Quando puder, posto aqui.

Não nego que eu estava um pouco (MUITO!) nervosa, porque eu ia conhecer familiares que o proprio Camilo não via ha mais de 10 anos. Se seria estranho/novidade pra ele, imagina pra mim! A primeira pessoa que conheci foi Tia Renne, a tia-avô de Camilo, irmã da "mulher-maravilha" do post passado. Gostei dela. O engraçado é que Amanda, em um dos posts passado, comentou que os avos de Camilo deviam ter muita historia pra contar sobre a II Guerra ("ainda mais morando no Norte da França", ou coisa que o valha). Pois bem, Amanda, Tia Renne contou sobre um episodio que aconteceu durante a Segunda Guerra em que ela estava numa igreja no momento em que os Alemães invadiram a cidade dela e começaram a atirar "em tudo que se mexia". Ela disse que as balas passavam zunindo pelo ouvido dela, mas que ela conseguiu se salvar. Não teve a mesma sorte o namorado da irmã.

Eu fiquei me contorcendo de curiosidade! A vontade era de sentar no colo da velha e metralha-la, finalmente, de perguntas. Fiquei revoltada quando mudaram de assunto, como se aquele fosse qualquer um. Eu fico muito triste de pensar que, dos meus avos, eu nunca saberei nenhuma historia legal porque, quando eu finalmente atingi a maturidade pra conversar com meus avôs, eles morreram. Falta a avô materna. Mas creio que, pela distância que nos separa atualmente, a unica coisa que eu vou saber sobre ela é a noticia do obito.

Conheci as tias e maridos das tias de Camilo. Conheci os primos, os filhos dos primos, os amigos do colégio, as namoradas dos amigos do colégio, os amigos da mãe, os filhos dos amigos da mãe, a tia-avo. Isso me proporcionou a oportunidade incrivel de decorar em torno de quarenta nomes franceses. Isso me deu a oportunidade de conhecer Anette.

Ah, Anette!

Anette é um ser que, provalmente, não tem mais de três anos de idade e, assim como eu, Anette não domina o francês. Assim como eu, Anette não conhecia ninguém na festa. Vocês estão vendo que situação perfeita para nascer uma linda amizade? Anette jogou o seu elefantinho de pelucia na minha cabeça e assim começamos um joguinho saudavel onde ela procurava arremessar o bicho em mim (pela força não era para mim, era em mim mesmo). No entanto, percebi que Anette não poderia ser minha amiga quando ela quis ir ao banheiro e eu tive que limpar a bunda dela. Eh estranho ter uma amiga da qual você limpa a bunda. Mas tudo bem. Momentos depois, um primo de Camilo queimou a pobrezinha com o cigarro sem querer e eu fui lavar o braço dela. Diante dessa bonita historia de amor, a mãe pediu pra Anette tirar uma foto comigo.

A maior parte da festa foi somente constrangedora. Quando as pessoas perguntavam se eu sabia falar francês, a mãe de Camilo se adiantava e dizia, numa tentativa de me estimular e dar apoio, que sim. Mas a festa não foi de todo ruim, afinal, uma festa de casamento que se preze tem presentes. E os presentes que escolhemos foi dinheiro: para esse atual momento-liseu não poderiamos ganhar nada melhor. Ganhamos uns patês (que eu não vou comer), ganhamos umas orquidias (que deixamos no trem), uns porta-retratos (que esquecemos em Chateaubriant) e uns pratos LINDOS (que tivemos que deixar la por ja estarmos carregando peso demais). Tou feliz.


Anette é boa gente.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Chique é saber se expressar

Antes de escrever sobre a tal festa que citei no post passado, um pouco dos ultimos acontecimentos no curso de francês.

Na quinta passada, eu tive a segunda aula e a surpresa de recebermos novos alunos na sala. Sete novos alunos. Sete novos alunos... japoneses. Naquele momento éramos uma mexicana, uma brasileira, um chileno e 765 japoneses. Essa aula conseguiu ser ainda mais agoniante que a primeira porque tive a certeza de estar no grupo errado. O nivel do francês era o ideal pra mim, mas o nivel da turma me preocupava porque os professores tinham de ensinar aos alunos coisas obvias (pra mim), como a diferença de pronuncia entre o T e o D.

Eis que surgiu alguém com bom senso dentro daquela universidade e formou um oitavo grupo de retardados, quer dizer, de iniciantes, e eu, ainda bem, fui mandada para esse oitavo grupo. Iêi! Nessa nova turma a maioria dos alunos também é de japoneses. Também ha uma mexicana e também ha um iraquiano, o filho do casal da primeira turma (iraquiano, não iraniano, como eu disse no post retrasado. Valeu, Amanda!). Mas o ritmo é bem melhor, o que faz com que eu viaje nas aulas muitas vezes. Mas eu prefiro assim.

Ainda não tenho nenhuma amiguinha ou amiguinho feliz e ja desisti de fazer amizade: percebi pelas conversas (sondagens) que os japoneses vieram à Lyon somente para esse unico mês de curso e, como não existe outra etnia dentro do curso...

Gosto dos japoneses. Eles sempre estão tentando puxar assunto. Hoje uma das meninas perguntou porque eu tinha um capacete de bicicleta (me perguntei se existia capacete no Japão, depois achei que ela estivesse desesperada pra puxar um assunto, depois respondi, finalmente). "Porque eu tenho uma bicicleta". Vocês precisavam ver a felicidade da figura diante da minha resposta. Ela abriu um sorriso enorme, logo depois de um sonoro "aaaaaaaaahhh". So faltou bater palminha. Uma outra la, quando soube que eu era casada com um francês, fez uma careta que poderia ser traduzida num "que chique!" e começou a rir tresloucadamente. Os japoneses são muito expressivos.

Mesmo sabendo que se trata de uma relação sem futuro, eu gostaria de poder me comunicar decentemente com algum deles. Mas eu nunca entendo o que eles falam! Seja em que lingua for. Quando pergunto se sabem falar inglês, respondem orgulhosos que sim. Então, continuo:

- Ah, ok! So... How long are you staying in Lyon?
- Oôôô... Ajaga jiga buga mora! :D
- Humm... I see. Err, and where did you come from?*
- Araka tufa! :D

Eu digo que entendi mesmo sem entender, porque eu fico com vergonha de dizer mais de sete vezes que eu não entendi. A japonesa do suposto "que chique" fez uma pergunta e eu disse que sim. Ai ela fez uma cara esquisita e eu disse "desculpa, repete". Mongol.

Bom, em breve, cenas dos proximos capitulos.

*eu falo o que eu sei falar, não o que eu quero saber

O terrivel destino dos coelhos

Ha um mês Camilo e eu fomos à Chateaubriant, cidade onde moram os pais dele, no norte da França, para provindeciarmos junto à mãe dele os detalhes de uma festa tripla: comemoração do nosso casamento, dos 50 anos da mãe e dos 20 anos do irmão do meio. Aqui na França se costuma antecipar ou retardar esse tipo de comemoração de maneira que aconteça nas estações quentes. Acho que eu e Camilo somos o unico casal de Lyon que casou perto dos 0°.

Na ocasião dessa visita à Chateau, conheci a casa dos avos de Camilo. Os avos dele, juntos, tem (têm) mais de 180 anos. A avoh é aquela mulher-maravilha que faz tudo (ela propria se auto-intitula une femme a tout faire). Apesar de estar perto dos 90, corta lenha com um machado maior que ela, é impressionante. Na propriedade dela, tem pé de uns 15 tipos frutas. Tem galinha, pato, coelho (pra consumo pessoal) e umas plantações que eu esqueci de que eram.

Com essa idade, acredite, ela sabe muito sobre as coisas que cuida. Quando ela era pequena, enquanto cuidava das vacas da familia, ela transplantava galhos de uma planta para outra e o resultado era uma planta melhorada. Ela pega um galho de um tipo de maçã, por exemplo, junta com outro tipo e dai sai uma maçã mais bonita (ou uma rosa mais bonita, o que seja). Camilo diz que ela não é a pessoa mais humilde que existe, que ela vive se elogiando, mas isso não me incomoda. Primeiro porque, com essa idade e com as coisas que ela sabe, eu acho mesmo que ela merece elogio. Depois porque eu não entendo porra nenhuma do que ela diz, então, tanto faz.

Mas, na ocasião dessa visita à Chateau, além de eu ter conhecido a casa dos avos dele, eu quase conheci uma Luci vegetariana. A mãe de Camilo disse que iriamos até a casa dos pais dela pra comermos coelho. Beleza, eu nunca tinha comido coelho na minha vida. Alias, acho que se eu algum dia na vida comi alguma carne que não fosse de vaca ou de frango, foi porque me enganaram e me cozeram um gato, porque eu não sou muito fã dessas iguarias.

Chegamos na casa dos velhinhos e, assim que eu entrei na cozinha, me deparei com minha proxima refeição morta em cima de um prato, banhada de sangue, com os olhos negros esbugalhados e os dentes de fora. Não dava nem pra entender como um coelhinho fofo e saltitante tinha se transformado naquela coisa bizarra. Eu tive aquele choque instantâneo e fiquei parada observando o coelho me observar. Ali, parada. Luciana - pensei - não crie caso, querida, você vai ter que comer essa porra de coelho, então, pare de olhar pra ele.

Então, fomos dar uma volta e Camilo me chamou pra vermos os outros coelhos (vivos). Quando eu tava entrando no galpão, vi uma das patas do coelho-jantar decepada no chão. Ai soltei um gritinho de nojo pra mãe de Camilo. Foi quando eu vi a outra pata pendurada bem perto da minha cara. Foi foda. A mãe de Camilo riu e contou que, quando o irmão de Camilo era pequeno, a avoh matou um coelho e disse pra Manuel "olha como eu tiro o pijama dele" e puxou a pele do bicho de uma vez. Show de sensibilidade.


Quando voltamos à casa, o coelho estava virando churrasco. Quando foi posto no meu prato, o coelho estava virando minha barriga. A avoh pôs a cabeça do bicho no prato - que ja não estava tão assustadora, visto que agora os olhos estavam fritos, e os dentes, quase imperceptiveis. Eu peguei uma pata. Ou o resto dela. A avoh deu a ordem de comer usando as mãos. Ou seja, o cenario estava feito: mata o coelho, tira a pele, sangra, joga no fogo, pega com as mãos, como verdadeiros selvagens, e mastiga a carne do bicho.

Sai do ritual achando que eu nunca mais comeria carne na vida. Na verdade, eu nunca mais quero ver o que acontece com o bicho antes de ele estar no meu prato. Não, não é (somente) falta de consciência, é questão de praticidade mesmo: ainda não cheguei ao ponto de achar que posso manter uma dieta rigida que exclue a carne. Por questões ambientais, temos comido menos carne, mas nada além disso.

De qualquer forma, acho que essa familia não gosta muito de coelho (vivo). Ontem mesmo Camilo atropelou um. "Pô, esse foi o segundo". Tsc.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A proposito, ela é mexicana

Post escrito na terça, 04

A prova de que meu inglês não é bom, é que ouvi perfeitamente ontem que a minha primeira aula do curso de francês seria amanhã (dia 05). Ouvi tão "perfeitamente" que, quando Camilo ligou hoje pra Universidade, disseram a ele que as aulas começavam hoje. Então, sai de casa no momento em que deveria estar entrando na sala de aula, às 9h da manhã. Eu ainda tinha que passar em outro prédio, responsavel pela administração da Universidade, onde estaria afixado meu nome e meu grupo. Groupe A. Beleza. Vi que era um grupo de 15 pessoas e, pelos nomes, percebi que não veria muitos ocidentais na sala.

Na sala, nenhuma surpresa: dois terços da turma eram formados por orientais. O exercício que estava sendo praticado no momento, era a forma de se apresentar. Comment vous vous appellez? Quel âge il a? e outras variações. Foi através das respostas que soube que três dos alunos eram iraquianos. O mais jovem deles estava sentado na minha frente (a sala estava disposta em forma de U), mas foram os outros dois que me chamaram a atenção. Era um casal de mais ou menos 50 anos, que lembrava muito meus pais. O cara não sabia falar picas de francês e errava pra caralho. Até ai, tudo bem. Só que, quando o professor pedia pra esposa dele dizer alguma coisa e ela errava, OU NAO, o cara ficava maluco de raiva. Ele ficava cochichando pra ela a resposta “certa”, com aquela tensão, sempre se metendo no que ela dizia. Em um dos gravíssimos erros dela, ele chegou a levar as mãos à cabeça e a apertar os olhos. Pois então, meu pai é assim. Ele acha que a esposa dele é o ser humano mais estúpido na face da terra e que ele é, por sua vez, o mais inteligente. E ele faz questão de deixar isso bem claro. Bom, mas isso é uma outra história e deverá ser contada em outra ocasião.

Depois de ver que dividia o espaço com nove japoneses completamente entrosados entre si, três iraquianos que não me causaram a menor curiosidade e um chileno na casa dos 50 anos, meu olhos se voltaram praquela que eu julgava ser uma amizade em potencial: Maria Fernanda. Nacionalidade: ignorada. Passei a manhã toda analisando o sotaque da menina, as roupas, o cabelo e a desenvoltura pra ver se adivinhava a nacionalidade dela. Nada. A unica coisa que percebi foi o iraniano olhando pra minha cara.

A aula da manhã acabou, fui pra casa, almocei e voltei correndo pra aula da tarde. Vi que os alunos sentaram nos mesmos lugares, então, num ato desesperado, sentei na cadeira vizinha àquela que a tal Maria havia sentado de manhã. Mas quem ocupou a vaga dela foi o iraniano! Gah! Pra aumentar minha felicidade, descobri que ele é o tipo do aluno que fala mais que o professor, daquele tipo tabacudo que quer mostrar que sabe tudo, a qualquer custo.

- Vocês conhecem os numeros?
- OUI OUI OUI!
- Otimo, então vamos passar pra...
- UN! DEUX! TROIS! QUATRE!
- Que bom, vejo que sabem.
- CINQ! SIX! SEPT!
- Ok, então..
- HUIT! NEUF!

E eu la, revirando os olhos.

Eu gostei de finalmente estar saindo de casa, de ter quebrado a rotina, mas acho que as aulas não vão ser bem como eu esperava, porque é dificil ter aulas de francês quando a grande maioria da turma nem sequer tem o mesmo tipo de escrita que a nossa, ocidental. Então, uma das coisas que a professora precisou ensinar ontem foi o alfabeto. E ela escreveu o alfabeto de três maneiras diferentes. Em maiusculo, em minusculo e depois da forma que vem escrito nos livros (a forma do teclado do seu computador). Nada mais natural, afinal, o caderno de cada uma daquelas pessoas, com exceção do meu, do do chileno e do da Maria Fernanda, era cheio de codigos indecifraveis. Japonês e arabe. Então a turma anda na velocidade lesma. Tendo que aprender o basico do basico. Mas enfim, paciência.

Agora vou tratar do meu TCC, porque nem so de França vive Luci.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Rien!

Não sei se ja disse aqui, mas Camilo me inscreveu num curso de francês com duração de um mês. Do 03 ao 28 de agosto. Finalmente! Essa dinâmica diaria de escutar ele falando português, Raphe falando francês, Seb falando inglês e Pierre falando espanhol, não vai me levar muito longe. Afinal, desde que eu cheguei aqui, não tive mais que três aulas seguidas de francês com quem quer que fosse. Não sou, definitivamente, a melhor pessoa pra estudar por conta propria. Joguei a toalha e agora entrei no curso. Doi dizer que ele nos custou 600€, mas eu confio no retorno que isso me dara (espero que haja retorno! espero que haja retorno!). Confio mesmo.

Hoje foi o teste de nivelamento. Por algum motivo eu desconfio que estarei no nivel mais baixo. Tão baixo que é provavel que inventem um nivel soh pra mim.

1. Avançado
2. Intermediario
3. Iniciante
4. Luci

De qualquer forma, cheguei no prédio da prova, sentei la no fundão (pra observar as pessoas) e fiquei esperando. Impressionante o numero de asiaticos! Eram tantos, que havia uma tradutora so pra eles.

Bom, dai entregaram as provas. Eu dei uma olhada rapida em cada questão e ri internamente. "Não sei, não sei. Não sei... Opa, mas essa aqui... também não sei". As primeiras questões tinham uma frase com uma lacuna e cinco opções de resposta. Eu lia a frase, chegava na primeira opção e dizia "é essa!". Mas dizia o mesmo pra todas as outras quatro opções. Algumas so mudavam a ordem de duas palavras. Outra questão era pra transformar certas palavras em pronomes, em adjetivos (e eu também não sabia). Outra questão apontava a foto de um casal num restaurante e dizia você esteve neste restaurante e escutou a conversa deste casal (que bonito). Escreva a um amigo, usando 200 palavras, sobre o que você ouviu. Eu escrevi "querido amigo, não sei sobre o quê o casal conversava porque eles eram franceses". Achei melhor que deixar em branco.

Fiquei feliz ao ver que a prova de uma das meninas foi entregue com uma pagina inteiramente em branco. Viu como eu me preocupo com as pessoas? Bom, pelo menos não foi dificil ler a prova ou entender o que a professora explicou antes do teste ser aplicado.

Quando terminei o teste escrito, me conduziram pra uma sala onde seria aplicado o teste oral. Este é que foi engraçado! A professora sentou, perguntou meu nome. Eu respondi. Depois, perguntou minha nacionalidade. Eu respondi. Depois ela perguntou se eu ja tinha feito alguma aula de francês antes. Eu gaguejei. Eu gaguejei. Eu gaguejei. Mesmo antes de eu decidir responder isso em inglês, ja havia ficado claro que eu nunca havia tido aulas de francês. Então, eu disse, em inglês, que eu nunca tinha tido aulas antes e que

- eu não falo nada em francês.
- Nada?
- Nada.
- Nada?!
- Nada.
- Nadinha?!
- NADA, CACETE!

Eu tava quase dizendo que falava a porra da lingua pra ver se ela parava de perguntar. Que coisa. Então ela continuou a fazer as perguntas em inglês. Queria saber como conheci a Universidade, se era minha primeira vez na França, quantas linguas eu falava, o que eu esperava do curso etc. Em cinco minutos eu estava saindo do prédio ja ciente do nivel em que ia ser colocada, mas rezando pra que não fosse a unica a estar la.

Talvez

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