sábado, 26 de dezembro de 2009

Eu fico com o balanço

Sera que algum blogueiro vai fugir à regra de escrever sobre o Natal ou de fazer um balanço de como foi seu ano? Ou melhor, fazer listinhas de coisas a se fazer no proximo ano? Eu fico com o balanço, ja que acho que meu 2009 foi bem movimentado, onde de tudo aconteceu.

1. Adeus, solteirice (09/jan)

Ja no nono dia do ano, Camilo e eu nos casamos. Claro que foi mais uma medida que visava facilitar minha entrada na França do que qualquer outra coisa. Mas nem por isso eu deixaria de comemorar o fato de poder ficar ao lado dele, da forma que nos escolhemos. Mais sorte da proxima vez, Sarko.

2. Adeus, vida pedestre (28/abr)

Sabendo que na França o custo pra se tirar uma carteira de motorista é exorbitante, ai meu deus, eu fiz aos 23 o que deveria ter feito ha muitos anos: aprendi a dirigir. Pra falar a verdade, nunca tive muito desejo de aprender a dirigir (o tempo que levei pra fazer isso prova o que tou dizendo), mas minha mãe disse que é util, e se mãe diz, então é verdade. Espero que eu me saia melhor com o carro do que com a bicicleta.

3. Adeus, Brasil (21/mai)

Dei adeus ao mar e me instalei em Lyon. E, parafraseando um amigo: foi melhor e pior do que eu pensei. Arabes, segurança, burocracia, frio, quedas de bicicleta (muitas), queijos, liberdade, solidão. Independência.

4. Adeus, graduação (17/ago)

O segundo dia mais feliz do ano! Tudo o que sinto quando penso nessa data é "alivio". Acabou! Foram sofridos os ultimos momentos. Espero que tenha sido a primeira e a ultima vez em que estudei algo que não gostasse (me refiro somente à monografia, ja que o curso em si deveria ser obrigatorio pra qualquer ser humano que se preze). De qualquer forma, sou uma pessoa formada. Alias, eu e o namorado, que se formou no mês seguinte.

5. Adeus, desemprego (17/set)

Trabalhar como faxineira não faz parte dos meus sonhos mais ambiciosos, mas tem pago minhas contas e minhas cervejas. E, mais do que significar uma simples mudança de status empregaticio, esse emprego assinalou uma "profunda mudança no meu ser". Ha três meses, eu era uma meninota chorona e ansiosa, que ciscava antes de dar qualquer passo. Agora eu soh sou ansiosa. Esse emprego foi o inicio da verdadeira adaptação, é o que me da, até hoje, a sensação de que eu tenho dominado o espaço, de que eu tenho abarcado o ambiente. Eh o que faz com que eu sinta que pertenço um pouco a esse lugar.

6. Adeus, ignorância (?)

A cada dia que passa, eu fico mais feliz e empolgada com minha compreensão em relação ao francês. Ainda falta uns meses e um bocado de esforço até que eu possa dizer que "eu sei falar francês", ja que eu nem mesmo consigo conjugar os verbos corretamente, mas o medo de sair de casa ja passou e a sensação de liberdade soh cresce.

7. Oi, Paul! (10/dez)

Mwwhahaha! Esse foi o melhor dia do ano! Nem vou mais comentar, que é pra não afugentar os leitores, mas fica aqui o (milésimo) registro! Ano lin-do [foto de Priscila Tanaami - obrigada!].

Bom, é isso. Acho que foi um ano proveitoso, não? Mas soh aproveitando que tou falando de coisas boas, queria dividir com vocês a grande felicidade que eu sinto, que eu tou sentindo, em ter Camilo do lado. Hihi. (ele não lê meu blog, logo, a contemplação é gratuita). No final das contas, é ele que faz com que os momentos que não são assim, dignos de topicos de blog, sejam fodas. Em cada ponto desse, ele esteve colocando minha moral la em cima. Minha auto-estima deve muito a ele. Tenho sentido que eu posso muito mais do que eu poderia imaginar. Ele me faz respirar muito melhor e é por isso que, apesar de toda dor que eu sinto aqui nesse peito dilacerado de saudade, vale a pena ficar aqui. Eh como ele mesmo diz: "tu é minha casa". Então, àqueles que realmente gostam de mim, vai o recado: porra, eu tou feliz!

E que ano bom!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Cevando a faxineira

Trabalhar pra madame tem la suas vantagens (soh vi essa até agora): quarta-feira passada, cheguei na casa de mme Trognon e vi uma super caixa de Ferrero em cima da mesa com um bilhetinho: "boas festas!" Meus olhos brilharam! Se ela tivesse deixado uma caixa de cerveja, eu teria feito a faxina de graça. Na quinta-feira, mme Forfait me deu outra caixa de chocolate, também uma de Ferrero (foi ai que eu lembrei que o chocolate tava em promoção no Carrefour, mas o que vale é a intenção e ela foi muito bem apreciada). Na sexta-feira, mme Blague uma velhinha super simpatica, que provavelmente não havia ido ao Carrefour naquela semana, me deu um singelo envelope com 40€! Gente, soh não sentei no colo dela e a chamei de vovoh porque o povo na França é formal demais. Mas eu mal pude passar pela porta tamanho o sorriso! Ah, e ela disse, com toda a sinceridade dela, que eu soh não recebi mais porque faz pouco tempo que eu trabalho la, mas que no proximo Natal... (huhuhu) Pensei até em trabalhar mais um ano de piniqueira, mas desisti porque ela tah tão velhinha que é possivel que ela morra antes do proximo Natal. Esperamos que não.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Puoh

Como o post passado foi sobre briga e o antipenultimo foi sobre mme Goujat, lembrei de uma historia. Gente, quando chamei a mme Goujat de mme Louca, não foi à toa. Ha duas semanas, eu cheguei na casa dela no horario de sempre pra fazer a faxina e a encontrei completamente surpresa com minha visita dizendo que ela não tinha marcado comigo naquela semana. Eu repassei mentalmente todos os palavrões que eu conhecia e me xinguei por pensar que eu tinha me enganado de horario/dia e que talvez não tivesse entendido bem quando mme Cler* cancelou a faxina. Sei la (não seria a primeira vez que eu teria me enganado de horario). Então, pedi desculpas a mme Goujat, disse que eu deveria ter me enganado e fui embora.

Cinco minutos depois, mme Cler me liga dizendo que eu não tinha me enganado coisissima nenhuma e que queria me ver no escritoria agora. Fui sem entender nada. E la encontrei mme Cler:

"Luciana, você estava certa. Então, ao telefone, disse a mme Goujat que o erro não era seu e que ela deveria pagar seus tickets de metrô e pelo menos uma hora do seu salario. Ela se recusou e gritou comigo! Disse que soh pagaria os tickets e eu disse 'mme Goujat, o pagamento não é para mim, é pra Luciana', mas eu nunca a vi gritar daquele jeito, dizendo que estava cansada e que não sabia de nada. Então, ela encerrou seu contrato".

Brother, que situação! Mas sinceramente? Eu tenho um cartão de metrô que me permite pegar quantos metrôs, ônibus e tramways eu quiser por dia a um custo de 40€ por mês. Ou seja, o fato de eu não ser paga pelo transporte dessa faxina não representa realmente um rombo no meu salario no final do mês. E a "decepção" de ter a faxina cancelada é transformada na alegria de ter uma tarde livre! E de repente, eu vejo as duas madames se estressando no telefone por minha causa (hihi). De qualquer forma, eu ri muito da descrição que mme Cler fez da ligação entre as duas. E ela completou "Luciana, acho que ela vai reclamar com você na semana que vem".

Que legal!

Com o cu na mão, fui pra casa de mme Goujat, na semana seguinte, esperando que ela me recebesse com uma vassourada. Ela abriu a porta e eu não sei qual das duas estava mais desconfiada. Mas ela logo perguntou com voz meiga:

- Luciana, você ficou sabendo?
- Fiquei. Que a senhora, murrinha, não queria me pagar? Não, o quê?
- A briga que eu tive com mme Cler!
- Ah, não sabia...
- Pois bem. Ela me gritou Luciana! Ela me gritou tanto!
- Nossa, foi mesmo?!
- Foi (com ar consternado). Ela me tratou como se eu fosse uma criança!
- Por que sera? Ah, que pena!
- Mas Luciana, eu vou lhe pagar! Vou lhe pagar duas horas! E os tickets!
- Madame, me desculpa, mas não precisa, pra mim tan...
- Não, eu vou sim :)

Apesar de saber que ela, mesmo sendo rica, não queria me pagar, e ainda veio com essa historia de boa samaritana pro meu lado querendo pagar até as horas que não precisava, não da pra ficar chateada com mme Goujat. Nenhum pouquinho. Grande parte do que eu sinto por ela é pena. Ela cuida sozinha de dois bebês recém-nascidos, não sai de casa por causa deles e, quando as gêmeas param de encher o saco, ela vai passar as camisas do marido. E detalhe: no dia em que houve a discussão, ela tava fazendo faxina quando eu cheguei. Juntou o cansaço com a indignação de ter que pagar quase 50€** pra outra pessoa por uma faxina que ela mesma fez e deu no que deu...

Comigo ela é supertagalera. Não perde a oportunidade de comentar algo, de falar das filhas, de mostrar cada roupa que ela comprou pra elas, o nome da loja e o quanto custou (não se exibe, ela compra baratinho). Fala do peso das filhas e a quantidade de dias que elas ja existem sob a Terra. Comenta sobre quantas horas elas dormiram naquele dia. E conta sobre as férias que vai passar na Russia e como se fala "bom dia" la. Me oferece doce e café de cinco em cinco minutos e pediu varias vezes que eu fosse visita-la. Da pena.

* Pro leitor recém-chegado: mme Cler é dona da empresa de faxina pra qual eu trabalho. Mme Goujat é (era) uma de suas clientes. Eu sou a escrava.
** Uma vez vi um quadro na empresa e, se o li bem, cada hora de faxina custa 21€ por cliente + 2,60€ por faxina (o transporte pro escravo). Desses 21€, pagos a mme Cler, eu ganho 7€. Por isso, calculei que mme. Goujat pagaria quase 50€ pela faxina perdida.

Defenda-se: você não esta sendo atacado!

Não sei se as brasileiras que moram na França e leem este blog vão concordar comigo, mas o povo francês é tão briguento! Seis meses aqui e eu ainda me impressiono. E por briguentos eu não quero dizer "lutadores", tipo assim, estilo Street Fighter. Eh uma coisa mais simples mas que me assusta igualmente. Eh o fato de você estar sempre inflamado e armado (não no sentido literal) pra se defender. Se defender mesmo que não estejam te atacando! Voila! Esta é a descrição!

Eh extremamente comum ver as pessoas se gritando no meio da rua. Mas eu vou ficar na coisa mais gratuita, que são as pequenas ações chatas do cotidiano. Por exemplo. Quando você vai pegar o metrô, a educação (e o bom senso) faz você deixar todas as pessoas sairem antes de você entrar. Mas semana passada, no metrô, eu vi que não tinha ninguém saindo, entrei, mas dei de cara com uma velha tentando sair. A porta do metrô é enorme e dava pra passar as duas tranquilamente sem mesmo haver necessidade de nos tocarmos. Mas ela precisava garantir seus direitos. E precisava garantir seus direitos gritando e sendo chata. "Minha filha, deixe eu sair primeiro!" E resmungou até eu perder ela de vista.

Ainda recentemente, sentei ao lado de uma loira no metrô. O metrô ia em silêncio, completamente tranquilo. De repente, essa mulher, DO NADA, olha pro outro lado (acho que foi pra um homem) e da um grito bem alto, que eu interpretei como "tah olhando o que, filho da puta?" Interpretei isso tudo porque um homem começou a rir dela. Mas é assim o tempo todo. As pessoas se gritam no metrô, na fila do banco. As pessoas ficam putas e são grossas por muito pouco. Basta trocar o "vous" pelo "tu" e sua vida corre risco. Tenho na cabeça muitos outros exemplos que me fogem agora porque muitos deles ja foram pro arquivo de coisas comuns que vivo na França.

Discutindo sobre isso com Camilo, vi que os dois estavam de acordo que isso é herança de um povo que sempre lutou pelos seus direitos. Eu nunca vi um pais fazer tanta greve, por exemplo. Aqui, qualquer suspiro mal dado por um politico gera uma passeata, uma reinvidicação. Inclusive, eu disse a Camilo que achava que o caso da briga com a arabe do carro do outro dia, poderia ter sido influenciada por esse clima de tensão que os franceses vivem. Não vou dizer que me sinto bem com isso, mas se for pra viver num pais onde as coisas funcionam, eu até aguento as velhas do metrô.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O dia em que vi Paul McCartney!

Finalmente aconteceu! E, se é que isso é possivel, foi melhor do que eu previa. O estadio não era a céu aberto, não era tão grande e, das 35 musicas do set list, 23 eram dos Beatles! Tento colocar em palavras as sensações da noite porque historiador tem essa mania besta de querer registrar as coisas. Mas, desde ja, prevejo meu fracasso. Afinal, aqui fala um fã dos Beatles sobre... o show de Paul McCartney!

Acordei na manhã do show como quem acorda pra ir à feira: era um dia qualquer. Apos dois minutos de reflexão sobre o que iria se passar no meu dia, as lagrimas chegaram rapidinho. Tudo o que eu vou (tentar) evitar falar seria brega demais praqueles que apenas simpatizam com a banda. Mas acreditem, nenhum show sera o mesmo depois deste. Morreram os covers, morreram os iniciantes, morreram os grandes concertos! Eu vi Paul McCartney! Nada sera como antes.

Vi aquela pequena figura (eu tava meio longe) dar o ar de sua graça as 21h do dia 10 deste mês. À sua entrada, a iluminação se foi completamente, restando as pequenas luzes do celulares e câmeras de video, o que, ao meu ver, lembravam pequenas estrelas e davam a perfeita impressão (que durou quatro segundos) de que eu tinha o céu debaixo dos meus pés. Para minha maior emoção, ele é extremamente simpatico, daqueles que tira gracinha o tempo todo e faz rir. E, apesar dos seus quase 70 anos, pulou e enlouqueceu os milhares ao seu redor por incriveis três horas de show! Quem não enlouqueceria, meu deus?

Quando ele começou a tocar Blackbird, sei la porquê, pensei em Fabinho, virei a câmera pra minha cara chorona e me deixei filmar. Sim, grande, grande amor meu, você esteve comigo numa das noites mais especiais e lindas dos meus curtos 24 anos. E chorei durante toda essa musica pensando em tu e pensando no quanto tu ficaria feliz ao saber da minha felicidade. Coincidentemente, a musica seguinte falava de amizade. E de uma amizade que mudou a historia da musica:

[tradução tosca por conta do meu inglês de colégio] "As vezes você não diz as pessoas o que você quer dizer. As vezes você quer dizer a uma pessoa que a ama e você pensa 'não, talvez uma outra hora'. E talvez você perca a oportunidade, deixe ela passar. E então você pensa 'eu gostaria de ter dito isso'. De qualquer forma, eu dedico essa proxima canção ao meu amigo John". Pois é, sabe aquele John? O John Lennon? Pronto. Agora você estah entendendo as proporções desse espetaculo: um tal de Paul McCartney dedicando, NA MINHA FRENTE, uma musica a um tal de John Lennon. Brother, é demais pro meu coração chorão. E então, ele toca Here today. E eu? Eu choro!

Setlist - Paul McCartney live - Paris - Bercy:

01. Magical Mystery Tour
02. Drive my car
03. Jet
04. Only Mama Knows
05. Flaming Pie
06. Got to get you into my life
07. Let Me roll it
08. Foxy Lady
09. Highway
10. The Long and winding road
11. I want to Come Home
12. My Love
13. Blackbird
14. Here Today
15. Dance tonight
16. And I love Her
17. Mrs Vanderbilt
18. Eleanor Rigby
19. Band on the run
20. Ob-la-di, ob-la-da
21. Sing the changes
22. Back in the USSR
23. Something
24. I've got a feeling
25. I've got a feeling extended jam
26. Paperback Writer
27.Paperback Writer extended jam
28. A Day in the Life
29.Give Peace a chance
30. Let it Be
31. Live and let Die
32. Hey Jude

33. Day Tripper
34. Lady Madonna
35. Get back

36. Yesterday
37. Helter Skelter
38. Sgt Pepper's Reprise
39. The End


Os outros fãs estarão de acordo comigo: uma coisa é escutar Hey Jude no seu sonzinho/mp3/computador. Outra coisa é ouvir o autor da musica tocar ao vivo e você poder cantar junto, desafinadamente, "na na na na na na na na, na na na, hey Jude!" E eu cantei e gritei alto! E descobri, pelo video, que minha voz não é nada sereia. E que se eu tivesse que incitar alguém a lutar pela paz mundial cantando Give peace a chance, o mundo afundaria em fome e guerra. Em voz de gralha com tosse, eu cantava: "all we are saaaaying, is give peace a chaaaance. Gaaah!"

Depois, o pobre rapaz de 67 anos, nos chega com um pequeno violãozinho encarnado (duplo sentido), que a ignorância não me permite discernir se é pareia de banjo ou de cavaquinho, e diz que aquilo foi presente de, vocês sabem, George Harrison. "Ele sabia tocar muito bem isso". E, enquanto Paul tocava Something no seu Ukulele (lê-se Iuculelê), imagens do finado apareciam ao fundo e, à frente do "pobre rapaz de 67 anos", eu chorava (alguma surpresa?).

Os franceses foram à loucura com Michelle. Et moi aussi! A day in life, na minha opinião, foi uma das mais bonitas! Toda aquela loucura psicodélica da musica afirmada pelos holofotes coloridos e gente doida gritando no ar. Lindo! Lindo!

Ah, uma coisa besta a se comentar. Se ha uma coisa que eu odeio é a tal da intereção publico-palco. Eh tipo quando o cantor diz "eueueueue" e você responde "eueueueue". Odeio. Mas em Bercy, ontem, eu fui além das minhas tolerâncias. Paul me fez latir! Quando gritou "rouf" e todo mundo respondeu "rouf", ele riu. Tão lindo!

Apos duas fingidas despedidas, Paul finalizou o show com Yesterday (a musica mais regravada de todos os tempos), Helter Skelter (Charles Manson teria curtido), Sgt. Peppers e The end! A esse momento, o torpor me tomava da cabeça aos pés. "Eu vi, eu vi!" E aquela alegria de estar ali, entre os três grandes homens da minha vida, não me deixara nunca ser triste outra vez. Eu me sinto completa e feliz. Eu vi! Eu vi!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A culpa é do sistema, mano

Nas terças, eu trabalho na casa de mme Goujat. Nas quintas, na casa de mme Forfait. O que essas mulheres tem em comum, alem das suas faxineiras, é que elas acabaram de ter filhos. Goujat teve gêmeas, suas primeiras filhas. Forfait, teve seu terceiro filho (os outros dois tem quatro e dois anos apenas).

Como tou ha quase três meses trabalhando semanalmente na casa delas, é impossivel que o modo de vida de cada uma nao me provoque uma reflexao sobre o fato de ser mae. De ser mae e mulher. De ser mae, mulher e casada. De ser mae, mulher, casada e dona de casa. Tudo ao mesmo tempo e em tempo integral.

Mme Forfait conversa com seus dois pequenos como se eles fossem adultos. Eu gosto muito dela, gostei desde o primeiro dia. Acho que ela tem uma cabeça aberta, é total relax e conversa comigo sem me julgar, sem fazer caras e bocas. Na ultima faxina, o bebê dela chorou muito, mamou e dormiu. E dormiu justamente no quarto em que eu deveria fazer faxina com o aspirador. Timidamente, perguntei à mae se eu poderia ligar mesmo assim o trambolho. Ela disse sem pestanejar: "sim, ele tem que se acostumar". Detalhe, o pirralho tem um mês de vida. Quando liguei o troço, o guri deu um pulo no berço tamanho foi o susto, coitado! Quando ela tem que sair de casa, nao conta historia: mesmo com o inverno chegando, ela mete o recem-nascido na bolsa-canguru (sei la como se chama aquela porra) e vai embora com ele. A casa, pro meu desespero, é repleta de brinquedo, de lapis, de papel colorido, quebra-cabeça, bola, casinha. Tem até uma pia e um aspirador de po de brinquedo. Acho o maximo ela nao se limitar aos "brinquedos de homem". Ah, e nenhuma televisao à vista!

Mme Goujat é o extremo oposto. A palavra que define bem ela é "neurotica". Creio fortemente que o nome dela deveria estar como sinônimo pra esse adjetivo no dicionario. Ela tem uma risada nervosa e mania de limpeza. Quando tava gravida, passava o dia todo feito um parasita dentro de casa. A ordem é a de sempre: mulher embucha, marido trabalha. Agora que ela pariu, esta pior: ela nao sai de casa de forma alguma. Eu vou ao correio pra ela, vou à lavanderia, vou pegar as suas cartas "porque os bebês nao podem sair! Elas nao podem sair! A gripe! O frio! O inverno, Luciana!" E agora a coitada tah com uma cara cada vez mais de louca. Quando as bebês choram ao mesmo tempo, eu a vejo correr pra todo lado e dizer "que maratona!". Ela me mandou, excepcionalmente, na ultima faxina, passar as camisas do marido porque "nao aguento mais! Ja disse ao meu marido que ele nao vai usar camisa de botao no fim de semana!" Eh, minha senhora, coloque o seu marido pra passar as camisas dele e ele vai entender que seria melhor evitar as camisas dificeis de se passar.

E, na ultima faxina, mme Louca me perguntou se eu conhecia alguém que tem bebê. Pensei em mme Forfait e disse que sim. Entao, ela veio a mim com uma sacola repleta de roupas e brinquedos pra bebês e disse: "ta tudo novo, tou dando porque as coisas sao laranja e o tema do quarto das meninas é rosa" (ui). E os brinquedos? "Ah, eles fazem barulho e criança nao gosta de brinquedo que faz barulho" (ai).

Comentario 1: que feio! Se desfazer de presentes alheios!
Comentario 2: vocês também acham que se as filhas dela usassem a cor laranja elas iriam provocar o fim do mundo?
Comentario 3: ao oito de dezembro de 2009 foi decretado: criança nao gosta de brinquedo que faz barulho.

Sinceramente, até agora, o estilo de educaçao que eu venho apreciando é o pânico do aspirador. Depois de me dizer que criança nao gosta de brinquedo que parece brinquedo, Goujat me mostrou uma casinha feita de feltro, totalmente bizarra e sem graça e disse que era aquilo que era legal. Espero que ela nao seja o tipo da mae que da roupa de presente no Natal. Cruzes. E quanto ao marido, o Y da questao, eu ainda tou preferindo o meu.

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E por falar em maternidade, divulgo aqui o Terceiro Concurso de Blogueiras. Otima oportunidade pra conhecer novos blogs. No meu caso, foi uma otima oportunidade pra repensar se eu quero mesmo ter filhos...

Eu também nao...

De vez em quando, bem de vez em quando, eu saio de Lyon pra fazer uma faxina em St Didier. Eh uma commune bem longe de Lyon, ao norte, onde soh moram ricos. Quanto mais afastada de Lyon esta a commune, mais rica ela é. Eh em St Didier, por exemplo, que moram mme Cler e um dos chefes de Camilo. Fui a St Didier duas vezes pra fazer uma faxina na casa da vizinha e amiga de mme Cler, mme Liseron, uma velhinha viuva. Na saida da primeira faxina, pude averiguar que St Didier foi feita pra ricos porque existem ruas sem calçadas. Ora, calçadas servem pra pedestres, os mortais que andam a pé. E andar a pé? Em St Didier? Jamais.

Quando sai da casa de mme Liseron, procurei, sem sucesso, alguma alma viva que pudesse me informar onde eu poderia pegar o ônibus 84. O maximo que consegui foi avistar ao longe um jardineiro dentro de uma propriedade que era tao grande, que nem valia a pena me esgoelar pra chamar atencao do trabalhador. Outra conclusao de que St Didier é rica é que o ônibus, que eu finalmente peguei, soh tinha três pessoas: eu, uma velhinha e o motorista.

Mas St Didier me lembra coisas boas. Lembra um bom festival que fui assim que cheguei à Lyon e também mme Liseron, que é muito gentil. Hoje, fui pela segunda vez na casa dela. Ela fala bem-pau-sa-da-men-te. Bem pausadamente. Porque eu sou estrangeira. Mas é melhor pau-sa-da-men-te do que GRITANDO, como fazia a enfermeira que me cuidou de mim na ocasiao da Queda de Bicicleta. Ela gritava o francês, como se meu problema fosse surdez e nao o desconhecimento da lingua. Bom, de qualquer forma, mme Liseron tem um gato. E ela disse que ela adotou esse gato. Mas, pela solidao dela, acho que foi o gato que resolveu ficar com a mulher.

Quase ao final da faxina, ela me mostrou uma planta morta e disse: "é marijuana". Como mme Liseron tem uma mao inutilizada por alguma doenca, pensei "ah, pobrezinha, ela utiliza a erva pra diminuir a dor". Mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela se adiantou. "Ah, mas eu nao consumo. Nao mais". Acho que a velhinha da historia sou eu.

sábado, 5 de dezembro de 2009

13

Gostaria muito de dividir essa leitura com vocês. Fala do periodo da historia do Brasil que mais me interessa. E das pessoas mais interessantes, ao meu ver, que lutaram pra que esse periodo da historia, que eu tanto gosto, acabasse.

Dilma 13 - parte I

Dilma 13 - parte II



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dando rosto aos nomes e chifre aos donos

Enquanto eu procurava a foto da despedida de Simone na maquina, achei muitas outras que tirei ha meses e que ainda não havia visto. Como eu nunca posto fotos aqui, achei que fosse o momento ideal pra começar. Fiquei até feliz depois das fotos (é, eu fico feliz e triste com pouco...)

"Finalmente alguém tem o chifre maior que o meu".


Aonde esta o brasileiro?


Eu, com cara de virgem em Megève, nov/09.
Ao fundo o Mont Blanc, a montanha mais alta da Europa.


Aqui, o resto do pessoal: [em pé] Noemi, Seb, Raphe, Pierre (namorado de Raphe), Laure (namorada de Seb) e Julia. [agachados] Moi, Kevin (namorado de Julia) e Lou (namorado de Noemi). Como se pode ver, um fim de semana entre casais. Ah, e finalmente uma foto pra mostrar minha antiga coloc: Seb, Raphe e Pierre: foi com eles (+ Camilo) que morei assim que cheguei na França. Gente boa.

Chega de saudade!

Eu odeio falar aqui no blog sobre meus momentos de tristeza. Evito mesmo. Fiz um blog soh pra isso e, quando eu tou afim de expor minhas angustias, eu exponho no outro... (na verdade, eu exponho", ja que o blog é fechado). Ah, mas eu preciso falar desses dias. Aqui.

Ha uns dias, eu recebi uma otima noticia que me deixou triste: o fato dos meus amigos de universidade terem passado no mestrado. Isso me deixou feliz, claro! Mas ao mesmo tempo, essa situação logo me questionou sobre o que EU tou fazendo da vida. Bom, eu? Eu faço faxina. O fato de eu ter estudado com esse pessoal faz com que eu pense que eu fiquei "pra tras", ja que eu não tou acompanhando a maré junto a eles. Aih, tome tristeza!

Somado a isso, veio a saudade. Nem sei falar sobre saudade. Nem sei dizer como começa, mas termina sempre em tristeza. E o sentimento de abandono é muito forte. Então, adorei quando Amanda me deu uma sacudida nos ombros dizendo que quem abandonou os amigos fui eu. Bom, isso não melhora minha tristeza, mas ao menos livra meus pobres amigos de serem responsaveis pelo abandono. E por falar nisso, mais um cravo: a despedida de Simone.

Ha muitos meses eu falei de Simone aqui. A amizade soh tava começando, mas eu ja sentia que ia ficar muito amiga dele e acertei. Simone é foda. Simplesmente. O que ele conseguiu despertar na minha pessoa beira mesmo o amor. Quando eu falava, Simone era soh ouvidos. E quando Simone abria a boca, eu soh conseguia escutar. Eu jamais, jamais conheci alguém assim e é facil saber porque todo mundo aqui na França gosta dele. Falar dele aqui soh vai me deixar em crise, porque eu nem mesmo conseguirei descrever a figura imensa que ele é. Mas vale a pena registrar que eu tive por quatro meses um superamigo que tornou esses meses na França totalmente felizes. Mas Simone teve que voltar pra Argentina. Ele vai ser pai.

E a vida continua...

Mas, pra resolver aquilo que pode ser resolvido: fui pesquisar meu mestrado. Pensei em trabalhar com feminismo, mas não consegui ir além disso. Assim, sem imaginação, fica dificil bolar um projeto. Mas dizem que vouloir c'est pouvoir... Por enquanto, a possibilidade de um mestrado, ainda que distante, me deixa mais tranquila. E aproveito pra pedir às leitoras brasileiras que estão fazendo mestrado na França que me contem um pouco como foi o processo pra chegar ao mestrado: equivalência de diploma, tema, dificuldades iniciais (pré-curso). Por favor, uma luz! E prometo que os proximos posts vão refletir uma Luci menos desconsolada. Mas por enquanto...

Dois minutos depois, ele tava no ônibus e eu tava aos prantos.
Chega de saudade!

Talvez

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