terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Um corpo que cai

Ha algumas semanas, eu fui substituir a faxineira da casa de uma tal de mme Chevre O combinado seria eu ir somente uma vez, mas ela acabou gostando de mim e pediu pra que eu ficasse indo toda segunda-feira à casa dela. Fiquei feliz que tenha gostado do meu trabalho, e mais ainda porque a mme é muito simpatica.

A casa dela é enorme, com uma grande sala que tem vista pra uma piscina e um jardim, mas ela mora sozinha. Na primeira faxina, me espantei logo com duas coisas: com a quantidade de santos, anjos e rosarios pelo meio da casa, e com a quantidade de fotos de uma mulher bonita, espalhadas pela sala, que deduzi ser a namorada de mme Chevre (pra mim, ela seria muito jovem pra ter uma filha daquela idade).

Gosto dela porque ela me trata como se eu fosse uma vizinha antiga que veio ajuda-la com a faxina. Ela faz a faxina junto comigo e não para de perguntar sobre minha vida e de contar algo sobre a vida dela, principalmente sobre a filha que estah nos Estados Unidos. Ontem, eu anunciei que aquela seria minha ultima faxina na casa dela (a partir de agora, eu vou fazer somente substituições, pra ter tempo livre pra procurar outro emprego) e ela disse que sentia muito por isso. Então, ela perguntou se eu poderia ficar mais uma hora além do horario habitual pra que eu a ajudasse a montar umas caixas-arquivo.

Sentamos no sofa e ela continuou a fazer perguntas sobre mim. Como meu vocabulario ja tinha esgotado, inventei de perguntar se ela tinha outros filhos. "Tenho, a mais velha é Fabie, mas ela morreu em 2004. Nessa piscina", e apontou em direção à porta de vidro da sala. Quando ela disse isso, eu reagi espontâneamente como alguém que levou um susto, mas fazendo cara de enjoo. Eu realmente sei fazer as perguntas certas.

Ela contou que a filha tinha 26 anos e sabia nadar, mas que ela tava extremamente cansada depois de um dia de trabalho na época de soldes (queima de estoque na França) e que acha que foi isso que levou ao afogamento dela. "Eu tava cuidando do jardim e ela havia me dito que ia pra piscina. Como eu tenho problema auditivo, nunca vou saber se ela gritou por mim. Depois minha outra filha chegou em casa, vestiu seu biquini e encontrou a irmã no fundo da piscina". Aih ela mostrou a foto da filha: a mulher que estava por toda a casa e que eu achava que era... a namorada de mme Chevre.

Eu fico muito sensivel quando escuto historias sobre morte, porque eu sei que não poderia suportar a idéia de perder alguém querido. O enterro do meu avô, a pessoa mais distante de mim na minha familia, foi muito dificil e sofrida e, por ela, eu posso deduzir o que me espera com a morte de alguém querido.

Foi muito duro escutar tudo aquilo dela e ainda vê-la com lagrimas nos olhos. Perguntei como ela conseguia viver naquela casa, dando de cara com aquela piscina todos os dias. Mas olhando pros santos da sala, ja sabia a resposta. Ao fim de tudo, ela me acompanhou até a saida do condominio, me desejou muita sorte e me deu dois beijinhos: é a primeira vez, em quatro meses de faxina, que alguém fez isso. Devia ta entorpecida.

Ontem eu aprendi uma palavra nova: décéder.

9 comentários:

Rita disse...

Menina, eu entro aqui com o seguinte espírito: "vou ali no blog da Luci dar umas risadas". Hoje: pof, cara na porta. :-(

Pelo que sei você não tem filhos, right? Espere até tê-los (se for o caso) e verá no que vai se transformar esse seu desconforto com a ideia de perder alguém. Claro, não estou com isso dizendo que só as mães e pais sabem o que é a perda. NÃO. Estou apenas dizendo o óbvio, só mães e pais têm ideia do que seria perder um filho ou filha.

Faz um favor? Volta lá na casa da madame e dá um abraço nela? :-/

Beijocas.
Rita

Amanda disse...

Puxa, tbm fiquei com um aperto aqui dentro...

Mas como vai a busca de emprego? Sabe, eu conheço um lugar que tem muuuuitas ofertas de trabalho, adivinha qual é? O problema é que não tem visto...

Rita disse...

Te linkei. ;-)

monique disse...

eu não entendo como uma pessoa que sabe nadar morre afogada numa piscina. estranho, mto estranho. e triste. =/

p.s. consegui comentar do trabalho! milagreee!

Aline Mariane disse...

que triste!
vou pra Lyon esse fds ou o proximo (talvez até os 2!) por conta de motivos assim tristes... ai, ai... =o/
sera que a gente nao se encontra?! bem, antes deixa ver como vai ficar a agenda e a nossa energia...

neideclement disse...

Oi Luci! que historia triste hein?
Quase chorei....

Anônimo disse...

Eu sempre choro qdo leio historias desse tipo, sempre me ponho no lugar da pessoa ou penso em Rick ou na minha familia.
N sei se conseguiria morar na mesma casa depois d algo assim ter acontecido. Falei sobre isso com Rick ainda essa semana. Ele disse q n conseguiria morar na casa dos pais dele se eles morressem. Por outro lado la estao a maioria das boas recordacoes q vc tem c a pessoa e, se a pessoa amasse aquele lugar fica dificil vende-lo... se meus pais (q deus me livre) morressen, por exemplo, eu nunca conseguiria vender a casa da praia, o lugar q eles mais amam em td o mundo... enfim, n eh facil tomar uma decisao dessas e eu espero nunca ter q precisar.

Bjim,
Maira

mafaqueta disse...

tu devia me ensinar de novo aqueeeeela frase la da tua despedida. como jr eu deveria sab er vai! tu lembra qual é
a frase mias elgal em frances que tu sabe falar

mafaqueta disse...

tu devia me ensinar de novo aqueeeeela frase la da tua despedida. como jr eu deveria sab er vai! tu lembra qual é
a frase mias elgal em frances que tu sabe falar

Talvez

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