quarta-feira, 19 de maio de 2010

Fala que eu te escuto. Ou nao.

(Antes de tudo, perdao: post escrito num teclado espanhol desconfigurado).

Quando Camilo anunciou, ano passado, que iriamos morar com mais nove pessoas, eu fiquei preocupada. Ainda mais porque, das nove pessoas, eu conhecia somente duas. E superficialmente. Sempre morei com muitas pessoas, afinal, eramos seis na minha familia, entao quatro a mais, quatro a menos, nao deveria ser problema pra mim. Mas dai a gente lembra que o espaco onde um grupo numeroso vive soh funciona quando tem um lider ou coisa parecida regendo a coisa. Mas tentemos.

O cotidiano na casa eh curioso. Nas compras, sacos de 25kg de arroz, 25 kg de farinha, dezenas de pacotes de papel higienico. Na feira de frutas e verduras do sabado, o s feirantes ja nos conhecem e oferecem os produtos em caixas feitas pra venda no atacado. Todo dia se vai um quilo de macarrao ou de arroz no jantar e jantamos todos juntos. Todo dia. Quase vinte escovas no banheiro dividindo um mesmo potinho. Tem o saco de lixo de cem litros que eh trocado constantemente. No minimo, onze casacos espalhados pelo sofa e onze pares de sapato dividindo o chao com a sujeira (porque quando onze sujam e dois limpam, voces sabem...) Pra acomodar o vidro que sera reciclado depois, um carrinho de supermercado. E pra coisa toda dar certo: dialogo, muito dialogo.

Ja falei aqui que o amado tah criando uma empresa com um dos caras que moram com a gente. Eu nao vou explicar do que se trata, mas o fator "comunicação" eh essencial no tipo de projeto que eles estao criando e, por conta disso, os dois tem lido muito sobre essa "arte". Isso trouxe, inevitavelmente, pro meu namoro com Camilo, varias discussoes (algumas ferrenhas) e, ironicamente, nos demos conta de que não somos um casal que se comunica bem (pelo menos nao da forma ideal).

Uma das coisas que contribuem pra isso, eh o fato de que eu sou agressiva na hora de expor minha opiniao e intolerante na hora de aceitar a opiniao alheia. E eu nem preciso ir muito longe pra saber o porque, afinal, nossos defeitos e qualidades estao ligados a forma com a qual fomos educados, concordam? E na minha casa, a primeira e ultima palavra sempre foi a do meu pai. Entre berros. Por isso, reproduzir esse tipo de comportamento durante minha vida nao foi algo muito dificil pra mim e experimentei varias vezes a sensacao de "perder" quando eu nao podia convencer alguem de que meu pensamento era o certo ou estava perto disso.

Coitadinho de Fabio. Eu sempre enlouquecia nas nossas discussoes, apesar de escutar todos os argumentos dele. Quando o odio no meu coracao aplacava, eu ia ate ele pra pedir desculpa e admitir que ele estava certo. Mas ate esse odio passar... Ah! Entao Camilo chegou e esse processo de "discordar - ter raiva - refletir - pedir desculpa" teve que ser otimizado: era isso, ou eu perdia o namorado.

E quando eu falo em comunicacao, eu estou falando de um sentido bem mais amplo do que esse de "ouvir o outro e saber aceitar a opiniao alheia". Entra aih a parte do saber falar. E querer falar. De vez em quando, fazemos uma reuniao com os moradores da casa pra que a gente discuta os problemas dela. No comeco, eu me limitava a ouvir e, quando tinha algo a dizer, o fazia atraves de Camilo. De uns tempos pra cah, aceitei que eu deveria comecar a dizer o que eu penso, mesmo se o idioma pode limitar a forma com a qual eu repasso minha opinioes. Sucesso. Diante de um grupo que esta nao soh disposto a ouvir como a aceitar o que voce tem a dizer, eu me senti muito estimulada a praticar esse tipo de comunicacao nao-violenta (interna: Camilo, se um dia voce ler esse post, nao ria de mim! hehehe)

Quando fui ao Brasil em fevereiro, Fabio disse que as vezes se sentia inclinado a concordar comigo, mas nao o fazia somente pela forma agressiva com a qual eu defendia meu ponto de vista. Pelo fato de eu ama-lo muito, dele me conhecer mais do que qualquer pessoa e tambem da opiniao dele ter peso mil sobre mim, decidi entrar nessa vibe da coloc de ser mais esforcada na hora de transmitir minhas opinioes. Nao, nao vou virar um anjo da compreensao. Sou muito enfezada e Camilo ja me preveniu que nao seria uma boa ideia me reprimir (hihi ele eh lindo). Mas ao menos quero que as praticas do patriarca da familia fiquem bem longe.

Finalmente eh engracado perceber que nao eh nenhum sacrificio jantar com as pessoas que moram com voce. Como eh engracado tambem perceber que, quando se tem bom senso, lideres sao inuteis. Se meu pai soubesse o quanto um pouco de dialogo o faria bem, e a sua familia, talvez ainda seriamos seis.

11 comentários:

Ana Flavia disse...

Luci,hahaha! minha históra é parecida. Na casa onde me criei, falava bem quem falasse mais alto.
Tenho esse jeito agressivo de me expressar e o desenvolvimento de um novo hábito é um longo caminho. Gracinha mesmo do Camilo, que te deixa solta sem reprimir.
Bjocas

luci disse...

ah, ana, nesse sentido eu nao tenho do que reclamar dele. ele me deixa ser chata, diz que sabe que eu nao vou mudar, mas que eu devo canalizar o impulso pra nao ficar doente depois (raiva mata). eu rio. heheh ele eh paciente :)

Rita disse...

OI, Luci.

Certa vez, em outra encarnação, eu tive 8 sócios. Havia reuniões em que precisávamos pôr alguma ideia em votação e tinhamos... 9 possibilidades. Chego a sentir mal estar quando lembro dessas reuniões. Então, PARABÉNS por conseguir levar numa boa a convivência com tantos roomates.

Mas o que eu gostei mesmo no post foi o quadrinho do menino batendo com o balão! Impagável, muito bom!

Beijocas
Rita

Glória Maria Vieira disse...

Luci, se só fosse na sua casa essa coisa do patriarcalismo! [suspiro] Aqui em casa é do mesmo jeito. Painho nunca soube conversar. Nem o timbre de voz dele ajuda (BERRANTE), nem a brutalidade da pessoa dele mesmo. Nunca conversou com nenhum de nós (eu e meus irmãos). Aliás, conversou e conversa sim, mas só quando está bêbado e meio. Fica enchendo o saco por horas à fio eu querendo ou, não. Às vezes, eu até consigo me sobressair, mas nem sempre eu chego lá! UASHUSHSH E não pense você que são horas de falatório 'diverso, ou 'enriquecedor', viu? Repete a mesma coisa mais que a boba da peste. Fico muito, muito irritada. E ai daquele que não escutar até ele resolver liberar e pior ainda: ai [duplo] daquele que não concordar com ele. No mínimo, ele mandará ir pra casa da peste! E lá irão mais outras horasd de 'esporro'! AUSHUAHSUAHSUHSUHUSHUIHS Sempre expõe sua opinião como uma verdade universal/absoluta e isso me deixa muito puta. E o que me deixa mais puta ainda é que nem sempre ele está correto,como pensa que está, e minha mãe até rebate de primeira algumas colocações grosseiras dele, mas em seguida sempre tem um: 'no fundo seu pai está certo...' SE ELA SOUBESSE COMO EU 'AMO' ESSA FRASE, ELA NÃO DIRIA NEM EM PENSAMENTO! AUSHUAHSUHAUHSUHS ODEIOPRASEMPRE ! UAHSUAHSUUAHSUAHUSH Eu, muitas vezes, só estou certa alguma vez na vida por 'segundos' e olhe lá, pq sempre vem a bendita frase que falei acima. Eu, dependendo do assunto, sou como você. Agressiva na hora de expor. Por vezes, sou tomada por uma raiva infernal! AUHSUAHUSHAUHS SAI DEBAIXO quando eu tô assim! Mas é como eu disse: depende do assunto, de como ele chega até mim.
Eu sou de escutar. Acho que há vezes que só escuto. Falar que é bom? NADA! Enfim, ... estamos juntas nessa companheira! UASHUSHUAHSUHUH ;*

Amanda disse...

La em casa sempre foi so eu e minha mãe. Sera que é por isso que não sei agredir pessoas? Eu bem que tava precisando de umas aulinhas... Vou morar uns tempos com seu pai, ou o pai da Glorinha!

quilombra dos palmares disse...

pare de blefar, você nunca vai conseguir deixar de ser insuportavel

monique disse...

ah, uma luci não-violenta =~
mas concordo com benza hahahah!

luci disse...

rita: deus me livre! nove no trabalho? hahaha aqui eh "soh" pra morar e ja eh assim... se fosse pra trabalhar eu ja teria desistido. esse eh o espirito, luciana .D

gloria: sabe o que mais? minha filha, vivemos na casa uma da outra e nao sabemos! acho que nunca fizeram uma descricao tao parecida da minha casa como voce fez agora hahahaha nossa! a unica coisa que eu tiraria seria o comportamento da minha mae. somente, mas em relacao ao meu pai, voce o descreveu perfeitamente: a bebida, as conversas, as reacoes que eu tenho, tudo. impressionante, agora voce sabe melhor como me sinto ,)

amanda: rapaz, se voce morasse somente com meu pai, voce saberia agredir as pessoas. de gracas aos ceus da sua mae ser tranquila. mas se quiser estagio com meu pai, tah valendo hohoho

quilombra: voce sempre tem razao :D mas em todo caso, vai tomar no cu!

monique: ueppaaa! nao-violenta, jamais. senao tu vai deixar de me amar...

Glória Maria Vieira disse...

BINGO! kkkkkkkk Então eu nunca disse com tanta veemência 'estamos juntas nessa companheira!' UASHSUAHUAIHUSH Que 'barato', né?!
... AUSHUSHUAHS!
Mas quais são as reações da sua mãe?
Eu já disse a mainha: Mulher, deixe de ser discípula de painho pelo menos uma vez na vida! UASHAUSAHUSHAU
Eu brinco assim, mas já peguei cada arranco rabo da peste com ela por causa das posições que ela toma que, na maioria da vezes, são à favor de painho. Até hoje temos atritos 'fuertes' por causa disso. E pra quem pensa que isso me faz mal, muito pelo contrário. Quando eu fico calada diante desse tipo de situação, frequente, aqui em casa, eu fico muito mal comigo mesma. Já explodindo e expelindo raiva até pra quem não tem nada a ver com a história! AUHUHSUHSUH :/ Caso a pessoa tome o partido oposto a minha raiva! AUSHUAHSH ENFIM, vou encerrando por aqui, companheira, antes que eu faça um poste sobre! kkkk um beijo! :*

Drixz disse...

Luci, adorei o post. Morar com qualquer pessoa além de vc mesmo já é complicado, com nove pessoas ainda deve ser bem mais difícil. Mas tem sempre suas coisas divertidas. Eu morava com 4 pessoas quando meus pais eram casados e um extra no fim de semana (meu primo). A convivência era muito difícil e a tática das crianças era fugir dos adultos. Eu concordo com vc quando fala do diálogo e principalmente de tentar não reproduzir o modelo do "patriarca". Minha família eram um bando de pessoas que moravam juntas, agora é cada um na sua. Se tivesse havido mais diálogo quem sabe as coisas se somassem, afinal, eu e meu irmão somos casados, ele tem duas filhas. Seria uma grande família. Mas uma dica que eu considero muito boa e que sempre me ajuda é tentar me acalmar antes de defender o meu ponto de vista. A gente foi acostumado a receber agressões quando tentava se expor e por isso ataca antes de ser atacada, mas a verdade é q temos q tentar entender que as pessoas fora da nossa família não tem porque fazer isso, então, pra quê a raiva? A gente sempre aprende morando em comunidade. ;)

Thayz disse...

Conversar, não ser violenta e não sentir raiva tbm é dificil pra mim. Imagine só, eu e vc discutindo. Ui.

Talvez

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