quarta-feira, 28 de julho de 2010

Vida ferrada

Fim de semana do 10/11 de julho:

Nesse fim de semana, tanto Camilo quanto Diana iam viajar, por isso, aceitei o convite de Sonia que me chamou pra fazer a Via Ferrata com seus amigos. Pra quem não sabe do que se trata, a Via Ferrata é um caminho que se faz entre as montanhas com a ajuda de cabos, cordas e presas fixadas à montanha.




Como eu sou um poço de coragem, senti frio na barriga soh de ver as fotos do manual. O que também contribuiu pro desconforto, foi ver os niveis de dificuldade das vias que o pessoal iria fazer: Dificil, Super dificil, Extremamente dificil. Sérissimo, não havia nenhuma facil. Então, eu disse que topava acampar com eles, mas que deixaria pra fazer a Via quando eu virasse passarinho. E la fomos.

O plano era acampar, na sexta, à beira do Lac Aiguebelette (que fica aproximadamente a 1h30m de Lyon), fazer uma trilha no sabado e a Via no domingo. Partimos na sexta e armamos as barracas à beira do tal lago. No dia seguinte, acordei porque a natureza estava me chamando: hora de ir ao banheiro. Acampar é otimo, mas a hora de ir ao banheiro é sempre muito tensa. Aproveitei que todas as pessoas estavam dormindo, me enfiei dentro de uma floresta e procurei um lugar seguro. Mas o que é um lugar seguro quando você sai da vista dos seres humanos e vai de encontro às teias de aranha? A medida em que eu ia adentrando o terreno, as vozes iam ficando cada vez mais distantes e os zumbidos dos bichos iam ficando cada vez mais fortes. Cheguei a ver um mosquito do tamanho de uma galinha. Medo. Finalmente, encontrei um lugar e, toda desconfiada, fiz meu pobre cocô. Foi aih que uma abelha picou meu pescoço. Claro, ela não podia ter escolhido outro momento, esperado que eu finalizasse. Não. "Assim que essa otaria começar a cagar, eu vou pica-la". E assim foi feito. Numa situação normal, eu teria gritado, sambado ou corrido. Ou tudo ao mesmo tempo. Mas isso não seria uma boa ideia na minha situação. Então, estapeei a porra da abelha e ela caiu dentro da minha blusa. Vou repetir: dentro-da-minha-blusa. Que cena. Sinceramente, eu não sabia se me concentrava na merda ou na abelha. Apos o drama, voltei pra barraca respeitando ainda mais a natureza.

Apos o almoço, nos preparamos pra fazer uma caminhada de quatro horas dentro de uma floresta em que 90% do percurso era de subida. Na descrição da trilha no manual, havia a palavra "raide". Curiosa, perguntei:

- Sonia, o que é "raide"?
- Hum... "Raide" é "tranquilo", Luci. :)

Inocente, acreditei.

Raide passou longe de ser isso, minha gente. Soh vou dizer uma coisa: eu passei dois dias sem andar depois desse fim de semana. Eu parecia um pinguim sem articulação andando, a ponto de nego achar que eu tava gra-vi-da. Mas como eu não gosto de mimimi, subi sem reclamar as duas primeiras horas. Mas teve uma hora em que o caminho tava tão inclinado, que eu usava as mãos pra subir. E em muitos momentos, eu perguntei desolada:

- Senhor, o que eu estou fazendo aqui?

Os outros não chegaram a cantarolar durante a subida, mas não respiravam de forma ofegante, nem tinham a lingua na altura do umbigo, como eu. Na descida, perdi metade da cartilagem dos joelhos. Mas finalmente voltamos ao lago, tomamos banho, cerveja e comemos muito bem.

O domingo, pra mim, deveria ser tranquilo. Afinal, os quatro que estavam comigo iam partir pra fazer a Via e eu ia ficar quietinha, lendo meu livrinho à beira de um outro lago. Mas claro que não aconteceu nada disso. Fizemos mais uma hora de carro, paramos numa cidadezinha e pegamos um teleférico pra subir e chegarmos mais perto da Via.

Acompanhem no meu mapinha sem escala: deixamos o carro la embaixo, pegamos o teleférico e, na parte esfumaçada, nos separamos. Eh a parte mais alta do mapa também. Pra ir aos lagos ou voltar pro carro, so mesmo descendo. E muito! Até cogitei a idéia de ficar no teleférico, mas o pessoal disse que o teleférico fecharia as 17h e que nos encontrariamos OU nos três lagos OU no teleférico (e pegariamos um caminho alternativo pra descer) OU nos encontrariamos no carro.

Então, como eu sou uma pessoa muito esportista, resolvi ir a esse tal de Lago Achard sozinha, mesmo tendo as pernas muito doloridas da caminhada anterior. Foi lindo o caminho. Pinheiros, laguinhos, pedrinhas, bichinhos e todo tipo de gente indo e vindo com suas familias. Cheguei ao meu destino, tomei um revigorante banho de lago e deitei ao sol. Até aih, beleuza. O pessoal então me liga porque haviam terminado a Via. Eu aviso que estou voltando pro teleférico e que chego em uma hora.

Andei tranquila e, quando cheguei no teleférico, ele ja havia fechado e todas as pessoas tinham ido embora. Fiquei la sozinha, sentada numa sombrinha espantando as moscas com meu chapéu. Uma hora espantando as moscas com meu chapéu. Duas horas espantando as moscas com meu chapéu. E nada do pessoal. O celular deles não pegava. Do alto do teleférico, eu não conseguia enxergar ninguém nos Três Lagos e muito menos tinha forças pra descer até la (a caminhada até la daria em torno de 20min). Comecei, como é do meu feitio, a me desesperar e a cogitar a possibilidade de descer pelo tal caminho até a cidade, mas o pequeno detalhe é que eu não o conhecia.

Como ja havia se passado três horas desde o nosso ultimo contato e, como o pessoal ja tinha terminado a Via, imaginei que eles tinham descido e estavam me esperando no carro. Então, quando o desespero e o medo do sol ir embora aumentaram, decidi descer. O caminho era tão inclinado quanto o do dia anterior, a diferença é que este tinha pedras do tamanho de limões cuja a unica finalidade era me fazer escorregar. Pra minha sorte, ao longe, vi um homem: o unico ser que vi depois de varias horas. Gritei com as forças que me restavam por ele e nada. Quando o animal finalmente resolveu olhar pra tras e parou, corri feio uma louca ao encontro da unica pessoa que poderia me indicar o caminho. Eu queria muito ter a cena desse momento gravada pra mostrar a vocês: uma ladeira de pedras super inclinada, o sol queimando meu juizo e eu correndo, caindo e levantando; correndo, caindo e levantando; ad infinitum.

Enquanto eu pensava nas vantagens de ser um bode alpinista, eu ia definhando naquele sol, naquele cansaço. Nos ultimos metros, tirei os tênis e terminei a trilha somente de meias, com os dedos em chamas. Cheguei à porcaria da cidade exausta e, 20 min depois, vi o pessoal descendo a montanha. Alivio. Eu, que não consigo dormir sentada, apaguei completamente nas duas horas de viagem de volta à Lyon. Por que sera?

12 comentários:

Aline Mariane disse...

e eu achando que o andar de grávida era por conta dos 70km de bicicleta. Gente, que menina esportiva! Bjss!

Helena disse...

Hahaha, sério, soltei muitas gargalhadas ao ler o relato do cocô!

Ana Flavia disse...

Gente que cilada. Morri de rir aqui. Que a dor passe logo. E eu vo ja procurar um spray antiabelha pra qd for fazer o b2 nq floresta. Daqui uns dias, sairemos pelas montanhas a cacar cogumelos e so de iaginar uma cena dessa da abelha me da arrepios.

Bjinho

Glória Maria Vieira disse...

Não, CHEFA! O poste de hoje merece até um super erro de português: EU RI MUIIIIIIIIIIIIITO DEMAIS, MIRMÃ! [VIDA FERRADA, VIDA PICADA!]
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Eita cagada da mazela como diria meu priminho que não vale uma pipoca!
TADINHA DA MINHA CHEFA!=/ Mas que situação da peste!?! Eu ODEIO abelhas. MEDO MÁXIMO desses seres picantes e intrusos. Só se metem onde não são chamados. GRAÇAS A ALA que ela não picou noutro canto, chefa, porque senão você tinha encerrado sua obra de um jeito que eu não vou nem comentar... AUSHSUAHUAHSUAHHS!
Eu duvido se você não tiraria de letra a corrida de São Silvestre, chefia! Depois desse final de semana onde a adrenalina e resistência se fizeram EXTREMAMENTE PRESENTES, uma corridinha seria fichinha para uma pessoa ALTAMENTE atlética como você! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Sério... Eu tinha chorado pitangas, maçãs, melões, melancias, jacas de tanto desespero. =/ AUSHUHAUHSAUH

LUCI, A CHEFA CORAGEM! \o/ (Num tem aquele desenho do coragem? AUHSUHSUAHSUAHSHAUHS Você tá "muitxo" melhor que ele, pexada! AUSHUHSUAHSHU =*)

Amanda disse...

Puxa, pq seu post so apareceu no meu blogspot um dia depois? :( Cheguei atrasada!

Fiquei cansada so de ler seu relato! Os franceses fazem muito esporte mesmo e o melhor eh que nao ficam com aquele corpo bombado que invadiu o Rio de Janeiro. Aqui é tudo mais equilibrado e saudavel. Ah, vou seguir seus passos e tentar me inscrever na escalada na reentré!

Vou responder seu email! beijos!

Ashen Lady disse...

Ah mas melhor sentir dor porque fez um exercício físico que dor por não fazer nada, eu saio da academia tão acabada que às vezes mal consigo andar de volta pra casa, mas estranhamente eu gosto.

Estou acima do peso mas não sou sedentária e às vezes penso em andar com exames de taxas de colesterol, glicemia e ecocardiograma na bolsa só pra esfregar na cara dos magrelos sedentários que torram o meu saco com um papo de que eu tenho que emagrecer pra ter saúde.

Mas o importante é que você ganhou uma história pitoresca pra contar pros netos.

Mariana disse...

Apesar da presepada, da abelha desgraçada etc, esse teu post me deu uma saudade danada das trilhas que eu fazia com meus amigos em Floripa! Subida, descida, pedra, lama, chuva, bicho, inseto... até de noite eu ja fiz trilha por la!! e sempre chegava um momento que eu pensava : caralho, não vou chegar nunca! Vou morrer sem fôlego antes! Mas eu continuava e então a gente chegava num lugar simplesmente paradisiaco e todo o esforço fazia sentido!!!
e depois da volta... pelo menos dois dias de pernas pra cima!
ehehhehe

bjuus!

Ana Duarte disse...

kkkkkkkkkkkkkkkk simplesmente morri de rir!!!! ai desculpa Luci, mas vc é muito engraçada e conta de uma forma legal ai ai!!!! Queria te conhecer, pena que vc mora em Lyon kkkkkkk
Beijos

::: Luís Venceslau disse...

É por essas e outras que eu evito tudo que tem a ver com "acampar", "trilha" e "escalada", pelo bem da minha integridade física.

Rita disse...

Afe, deus do céu, que agonia. Comecei a ler rapidinho pra chegar no fim, pensando "se ela escreveu o post é porque achou o caminho de volta, calma, tá tudo bem". Ufa. Prestenção, criatura, pelamordedeus. Ó, não adianta, eu não acredito na existência dessa ponte aí da foto. Não acredito. Não existe. Né?

Beijos
Rita

Carol Maia disse...

Isso que eu chamo de grande aventura!!!

Caso me esqueçam disse...

aline: nada! essa aih foi outra historia que, caso eu tenha paciencia, eu conto. fico cansada soh de lembrar desse fds :(

helena: na hora nao foi muito engraçado hehehehe

ana: se eu soubesse, eu teria ido com uma roupa de apicultor. :/

gloria: po, seu trocadilho foi melhor que o meu hahahahaha tah vendo? voce ta bem no posto de vice. quando eu tiver que deixar meu longo imperio nas maos de alguem, vou ficar tranquila de ser na sua :D

"GRAÇAS A ALA que ela não picou noutro canto, chefa" acredite, eu tambem pensei nisso hahahaha afinal, ela nao escolheu o pescoço porque achou bonito. foi aleatorio, eu sei =~

amanda: se tu realmente fizer escalada, tu vai ver o que eh corpo sarado. toda vez que eu passo por la, como hoje, eu fico impressionada. nivel de gordura desse povo passou longe!

ashen: foi exatamente isso que eu disse pra sonia: eh otimo estar casada de um exercicio fisico, mesmo que voce esteja exausta. mas bastou estar "cansadinha" de um dia de trabalho pra o humor estragar!

mariana: de noite?! nossa, que disposicao! VER o caminho ja eh cansativo. ver metade com uma lanterna ja seria demais! Oo

ana duarte: que bom que fiz rir, porque achei que soh fosse produzir nojo nos leitores :D

e olha, tah mais facil a gente se conhecer do que voce pensa, ja que eu vou pra paris de vez em quando. achei que tu morasse no brasil, assim ficaria dificil mesmo!

guru: vei, taih: nao te imagino fazendo uma trilha hahahaha imagino com um livro, com uma caneta, um violao, mas com uma mochila e uma barraca de camping nas costas? hehehehehe

rita: agora voce entende minha aflicao. imagina ter medo de altura e ser convidada pra atravessar uma coisas dessas!

carol: isso eu chamo de grande furada! ;)

Talvez

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