sábado, 4 de setembro de 2010

Berlim - parte III - Campo de Concentraçao Sachsenhausen

Terceiro e ultimo post sobre a viagem à Berlim - para ver os dois outros posts, clique aqui e aqui


Uma pequena introduçao pra que a importância da visita pra mim a esse campo seja melhor compreendida por vocês. Teoricamente, eu tou apta a transmitir o ensino da Historia. Repito, teoricamente. Eh esse importante e prazeroso poder que meu diploma me permite. Pra que eu o obtivesse, eu tive que passar alguns preciosos anos da minha linda juventude dentro de uma universidade. Mas meu amor pela Historia, ao contrario do que se poderia esperar, tem muito menos ligaçao com a Academia do que qualquer um pode supor: é inato. Veio sei la de onde, cresceu sei la como. Sou eu mesma. Acho fenomenal como a Historia é misteriosa e inalcançavel, como nunca iremos conseguir nos apropriarmos totalmente dela, chegar ao fundo, desvenda-la. Acho lindo esse mistério.

E, de toda essa boniteza, o que consegue me tocar com extrema facilidade, sao essas tais historias que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Eu sei esse é um tema que deixa muita gente comum* curiosa e intrigada (imagino que seja como a Ditadura brasileira ou a Inquisiçao). Mas em mim, isso ganha outras proporçoes. E quanto mais eu mergulho, mais eu me sinto completa. Entao, olha, foi um dia que eu nunca vou esquecer. Nao eram mais livros, nem relatos, nem fotos: era eu no espaço em que a palavra sofrimento perdeu significado por nao ter dado conta do tamanho da dor vivida.

*Comum no sentido de nao haver relaçao profissional com a Historia


::

O Campo de Concentraçao Sachsenhausen foi o primeiro campo nazista e, entre os anos em que os alemaes estiveram no seu comando, entre 1936 e 1945, foram mortas 200.000 mil pessoas, a sua maioria homossexuais, judeus, ciganos, pobres e deficientes fisicos. Fica a 35km ao norte de Berlim, na cidade de Oranienburg.

A entrada é gratuita, mas o audio guia custa 3€ e eu aconselho fortemente que o visitante o adquira. O audio ta muito bem feito, contem informaçao referente a cada ponto do campo e outras informacoes "secundarias" (como o testemunho dos presos ou discursos politicos). Agora, paciência pra absorver a grande quantidade de informaçao que o guia traz: passamos varias horas no campo e eu sai sem ver tudo, a visita é longa e minha orelhinha, que ja tava vermelha, nao caiu no chao por pouco.


O ponto de partida leva a esse caminho por onde os presos chegavam ao Campo. Era o ultimo momento de liberdade deles. As fotos nas paredes contam um pouco a historia do Campo e dos que passaram por ali.


Essa casa era destinada à formaçao, alojamento e diversao das tropas da SS. Os homens contratados pra se ocupar dos serviços no Campo eram sobretudo formado por jovens por estes terem a vantagem de serem pessoas que nao tinham muito a perder (esposa, filhos etc). Dignidade nao conta.


Esse era o patio principal. Os presos recebiam as boas vindas aqui. Um dos sobreviventes testemunha que ja ali começavam as humilhaçoes: eram frequentemente colocados nus. Os gays levavam chutes na bunda e tapas. Tinham o ânus revistado à procura de objetos de valor.




Portao do campo onde se lê "o trabalho liberta o homem".


Passando pelo portao, do lado de dentro do Campo, a torre em forma semi circular que garante uma visao ampla do lugar. O guia dizia que, dessa torre, podia-se atirar em qualquer um que estivesse no Campo.




Essas sao replicas dos barracoes dos prisioneiros construidas a partir de peças originais. Comportavam 400 pessoas. Tinham dormitorio, refeitorio, lavatorio e sanitarios (fotos seguintes).


Os presos tinham um espaço médio de 70cm pra dormir e, caso precisassem ir ao banheiro durante a noite, corriam o risco de nao encontrar mais espaço ao voltar.






Os presos tinham trinta minutos pra acordarem, comerem, usarem o banheiro e se lavarem. Cada fonte desta se destinava a dez pessoas. A agua, gelada, jorrava de um buraco central.


Esse era o local (patio em frente à torre principal) das marchas. Os presos deveriam correr com botas destinadas ao exército alemao com a intençao de testa-las. Eles corriam de manha até a noite, sem parar. Vocês podem imaginar o resultado dessas marchas.


Entrada de uma câmera de gas. Ao lado ficam ainda os crematorios e outras salas onde eram fuzilados os presos. As estes, era dito que eles iriam passar por uma consulta médica. Eles tomavam banho, trocavam de roupa e se sentavam de costas diante de um pequeno furo na parede. Os que tinham dente de ouro eram marcados com um X no braço. Ao sinal do "médico", o prisioneiro recebia uma bala na nuca através do buraco. Os que haviam sido marcados, eram selecionados e tinham o dente de ouro arrancado. Havia musica para abafar o barulho das mortes.


Crematorio




Balcoes pra autopsia


Os triângulos indicavam o motivo de cada detençao: vermelho pros presos politicos, amarelo pros judeus, roxo pros religiosos, rosa pros homossexuais e preto pros marginais.


Uma entre milhoes de historias: essa é a familia Nussbaum. O marido era um médico respeitado que trabalhava dando assistência a crianças e alcoolatras. Foi denunciado por dois colegas. Antes que pudesse ser julgado, foi sentenciado a três anos de prisao. Quando sua pena acabou, ele foi preso pela Gestapo e levado pra Sachsenhausen. A esposa havia tomado conta da casa desde entao e as despesas da familia foram gastas com os advogados. Quando ela recebeu a carta avisando sobre a morte do marido, comentou com a vizinha que a perseguiçao aos judeus era uma mancha no Reich Alemao. A vizinha a denunciou. A mulher foi condenada a um ano de prisao e morreu cinco meses depois.

Ninguém conseguiu escapar do Campo. Os que tentavam, eram fuzilados. No entanto, quando os guardas percebiam que a intençao dos fugitivos era a de serem mortos, eles se limitavam a dar tiros nas pernas ou braços dos presos. Alguns destes se jogavam de proposito contra as cercas elétricas.

Dezoito mil soviéticos foram mortos em Sachsenhausen nesse periodo. Ao fim da guerra, os soviéticos tomaram posse do Campo até 1950 onde mantiveram seus prisioneiros politicos. Nos anos 90, valas comuns foram descobertas e estima-se que 12 mil pessoas tenham morrido nas maos dos soviéticos. Ironias :)

A quantidade de relatos e informaçoes sobre as brutalidades praticadas em Sachsenhausen é enorme. As paredes e os audio guias estao repletos de testemunhos. Sinceramente, chegou um momento em que eu comecei a ter um inutil sentimento de vergonha. Vergonha de quê, nao sei exatamente. Talvez vergonha de incluir no meu passeio turistico um local de exterminio. Talvez vergonha por fazer parte da raça que praticou esses crimes. Talvez vergonha pelos momentos em que reclamei da minha vida perfeita. Vergonha. Inutil. Teve uma hora em que sentei numas escadas e fiquei, calada, cansada daquilo tudo, tentando entender. Uma pessoa que é castigada, que tem os cabelos cortados, as roupas retiradas, que é marcada como gado, que é privada de sua liberdade, que perdeu quem amava, que mal se alimenta, cujo o corpo nao mais o pertence, que é humilhada diariamente e que diariamente vê a morte passar ao lado... Que admiraçao eu sinto pelas pessoas que passaram por tudo isso sem perder a humanidade!

Tem uma frase de um dos sobreviventes em que ele diz que simplesmente nao sabe o que fazer com a liberdade dele. Essa frase foi uma das coisas que mais me marcou. Vocês podem imaginar o que significa? Aquela situaçao entrou tao fundo na pele dele, foi a realidade dele por tanto tempo, que ele ja nem sabe mais viver de outra forma. Eh ganhar a liberdade e continuar preso.

Endereço:
Gedenkstätte und Museum Sachsenhausen
Strass der Nationen 22
D-16515 Oranienburg
Horarios:
15 de março a 14 de outubro: todos os dias, das 8:30h às 18h
15 de outubro a 14 de março: todos os dias, das 8:30h às 16:30h
Algumas areas do museu sao fechadas às segundas.
Ingresso:
Gratuito. Folheto: 0,50 centavos Audio Guia: 3€
Como chegar:
Trem regional RE 5: desde a estaçao de Berlin-Hauptbahnhof até a estaçao de Oranienburg (25 min de trajeto) ou trem regional RE 12: desde a estaçao de Berlin-Lichtenberg até a estaçao de Oranienburg (30 min de trajeto)

Algumas informaçoes sobre essa viagem foram retiradas deste blog: Viajando pelo Mundo

15 comentários:

Amanda disse...

Te recomendo muito um livro que li na semana passada, na verdade um BD (quadrinho): Maus, conhece? Parece que ganhou varios premios. Eh sobre o nazismo e é excelente! Senti bem isso que vc descreveu sem nem ter ido no lugar.

Line disse...

Eu nem sei o que dizer, pois sou fascinada pelas histórias das guerras, sobretudo as da Segunda Guerra Mundial. Tenho um post no rascunho que fala sobre isso, mas ainda não consegui terminá-lo. Chegar aqui na Holanda e ouvir minha sogra contando algumas histórias sobre a vida no pós-guerra foi como um tapa na cara pra mim. De repente, todas aquelas figuras quase infantis dos livros de história se tornaram reais na minha frente. Foi tudo realidade, aconteceu de verdade.
Bom, depois disso assisti um documentário com imagens da guerra, imagens reais que eu nem sabia que existiam, tamanha minha ignorância. Li o clássico da Anne Frank, um livrinho em holandês que era da minha sogra e mostra a cidade de Zutphen, na Holanda, depois de um bombardeio. Eu me casei nessa cidade, tem noção? Pra mim é surreal.
Indico esse livro aqui: Sob as cinzas de Stalingrado, do Marcelo Lacativa. Não deixe de ler esse livro (se já não leu!!!).

Adorei esse post.

Drixz disse...

Eu me sentiria mal de qualquer jeito num lugar desses. Passei por uma experiência parecida aqui no Brasil, em São Paulo. Era um esposição na Estação Pinacoteca que falava sobre um preso político importante (sou péssima com nomes). Mas durante a esposição nós éramos levados à réplicas das celas onde ficavam os presos políticos. Só o lugar já te dá um aperto no peito. Depois vc vai pra ontra sala cheia de fones onde pode escutar os depoimentos de pessoas que estiveram ali ou familiares que perderam parentes ali. Realmente, passei mal com aquilo. Sempre me pergunto o que leva alguém a fazer aquilo com outra pessoa. E me pergunto ainda se eu na mesma situação seria capaz de tal atitude. Ouvi de uma professora que muitos que presos que escaparam dos campos de concentração acabaram se matando. Outros tantos nunca conseguiram falar sobre a experiência. Existem muitos soldados nazistas que tbm não conseguem entender o que fizeram nem o que aconteceu. Mas eu sei de uma coisa, detesto guerra.

Drixz disse...

PS: desculpe pelas mancadas ortográficas, mas devido à preguiça, deixarei o comentário acima feio assim mesmo.

Rita disse...

Luci

Não sei se pelo efeito A Ilha do Medo ainda, ou se só por seu post tão sensível, mas você me emocionou mesmo com este texto.

:-( snif..

Rita

Borboletas nos Olhos disse...

Minha cara, como sempre um post lindo. Mas, dessa vez, doloroso. Muito. Há coisas que são tão imensas interrogações que me queimam em vazios de palavras a responder. Os eventos da Segunda Guerra ficam bem nesse espaço de nada a dizer que me atormenta. Com psicóloga (talvez quase tanto quanto como historiadora) é uma situação que prende o olhar e questiona o saber. Senti com você, a vergonha. Dupla, porque mesmo sabendo que ela virá, se um dia a oportunidade chegar também eu cruzarei os portões. Como turista.

Clara Gurgel disse...

Relato sensível e emocionante!Não entendo como ainda tem gente que diz que isso não aconteceu. Não sei se vc já ouviu falar de um livro chamado:"Tu carregas meu nome".Esse livro traz o depoimento de vários descendentes de nazistas.Como eles enfrentam o preconceito e os problemas por terem seus nomes associados a um dos maiores genocídios da história.Ainda não li,mas deve ser interessante saber como eles lidam com essa questão.

Caso me esqueçam disse...

amanda: nao conhecia. dei uma pesquisada e pareceu ser interessante! como você ja leu, a fonte se torna mais segura. vou tentar nao esquecer!

line: a tia-avo de camilo tambem contou umas historias do tipo da ultima vez que a vimos (sobre a segunda guerra - ela chegou a perder o cunhado numa invasao dos alemaes à cidade dela). fiquei muito curiosa pra saber o resto, mas nao sabia se ela era o tipo de pessoa que contava a historia pra aliviar ou contava porque nao conseguia esquecer. :/

drixz: "Ouvi de uma professora que muitos que presos que escaparam dos campos de concentração acabaram se matando". caralho, isso foi pesado. sei nem o que dizer :(

rita: nao eh merito meu, essas historias tem esse poder de entristecer qualquer um…

borboleta: ih! imagino que essas historias rendam muito mais questoes pra um psicologo que pra um historiador. quando me questionei sobre esses fatos, nao foi como historiadora.

clara: taih! fiquei curiosa quanto a esse livro, porque geralmente as pessoas se interessam mais pelos testemunhos dos prisioneiros, mas o testemunho daqueles que estiveram do outro lado deve ser tao interessante quanto. ou melhor, depoimento daqueles que sofrem pelo que seus antepassados fizeram. e o nome do livro? excelente!

S. disse...

mu.da

Glória Maria Vieira disse...

Chefa! Impressionante, viu?! Eu também sinto uma admiração sem tamanho por essas pessoas. Cada foto... E os relatos então?! Poxa!

Aquele livro lá do Menino do pijama listrado é magnífico. Já ouviu falar, né?! Fizeram um filme, mas ainda não assisti. E só de ler, eu chorei, acredita? Muito triste... =\

Thayz disse...

chorei.

Ana Pe disse...

Parabéns pela magnífica postagem!
Sempre fico emocionada quando leio sobre o horror vivido na II Guerra.
Brota em mim um sentimento muito estranho, um misto de dor, vergonha, angustia, tristeza, desespero... não consigo acreditar que seres humanos foram capazes de tamanha crueldade com o seu semelhante... ver tudo isso de perto exigiria de mim um trabalho psicológico de meses... não sei se aguentaria fazer um passeio como esse.

Liana disse...

e eu so fui ver esse post agora?

Anônimo disse...

Olá !! Hoje tive a oportunidade de conhecer pessoalmente esse campo, seus relatos sobre a história e o lugar são perfeitos. Todas as pessoas deveriam ter a oportunidade de viver essa experiência, e ver de perto como alguns seres humanos podem ser crueis. Quem sabe assim o mundo seria um lugar melhor.

Zazá Dantas disse...

Estive neste campo,o único que fui, quando fui visitar Berlim. A sensação que tive, ao terminar a visita, foi de que havia MUITO peso em minhas costas! A energia negativa daquele lugar é sufocante... e bate um desespero danado. Depois de andar por tudo,ver as câmaras de gás e no final todas aquelas pedrinhas juntas, representando as vidas que ali foram ceifadas, e eram tantas, é de lascar qualquer coração! Então, para visitar um campo de concentração há que se fazer um preparo espiritual para o que se vai presenciar! Não é para qq um. Muito triste mesmo.

Talvez

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