terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Um corpo que cai

Ha algumas semanas, eu fui substituir a faxineira da casa de uma tal de mme Chevre O combinado seria eu ir somente uma vez, mas ela acabou gostando de mim e pediu pra que eu ficasse indo toda segunda-feira à casa dela. Fiquei feliz que tenha gostado do meu trabalho, e mais ainda porque a mme é muito simpatica.

A casa dela é enorme, com uma grande sala que tem vista pra uma piscina e um jardim, mas ela mora sozinha. Na primeira faxina, me espantei logo com duas coisas: com a quantidade de santos, anjos e rosarios pelo meio da casa, e com a quantidade de fotos de uma mulher bonita, espalhadas pela sala, que deduzi ser a namorada de mme Chevre (pra mim, ela seria muito jovem pra ter uma filha daquela idade).

Gosto dela porque ela me trata como se eu fosse uma vizinha antiga que veio ajuda-la com a faxina. Ela faz a faxina junto comigo e não para de perguntar sobre minha vida e de contar algo sobre a vida dela, principalmente sobre a filha que estah nos Estados Unidos. Ontem, eu anunciei que aquela seria minha ultima faxina na casa dela (a partir de agora, eu vou fazer somente substituições, pra ter tempo livre pra procurar outro emprego) e ela disse que sentia muito por isso. Então, ela perguntou se eu poderia ficar mais uma hora além do horario habitual pra que eu a ajudasse a montar umas caixas-arquivo.

Sentamos no sofa e ela continuou a fazer perguntas sobre mim. Como meu vocabulario ja tinha esgotado, inventei de perguntar se ela tinha outros filhos. "Tenho, a mais velha é Fabie, mas ela morreu em 2004. Nessa piscina", e apontou em direção à porta de vidro da sala. Quando ela disse isso, eu reagi espontâneamente como alguém que levou um susto, mas fazendo cara de enjoo. Eu realmente sei fazer as perguntas certas.

Ela contou que a filha tinha 26 anos e sabia nadar, mas que ela tava extremamente cansada depois de um dia de trabalho na época de soldes (queima de estoque na França) e que acha que foi isso que levou ao afogamento dela. "Eu tava cuidando do jardim e ela havia me dito que ia pra piscina. Como eu tenho problema auditivo, nunca vou saber se ela gritou por mim. Depois minha outra filha chegou em casa, vestiu seu biquini e encontrou a irmã no fundo da piscina". Aih ela mostrou a foto da filha: a mulher que estava por toda a casa e que eu achava que era... a namorada de mme Chevre.

Eu fico muito sensivel quando escuto historias sobre morte, porque eu sei que não poderia suportar a idéia de perder alguém querido. O enterro do meu avô, a pessoa mais distante de mim na minha familia, foi muito dificil e sofrida e, por ela, eu posso deduzir o que me espera com a morte de alguém querido.

Foi muito duro escutar tudo aquilo dela e ainda vê-la com lagrimas nos olhos. Perguntei como ela conseguia viver naquela casa, dando de cara com aquela piscina todos os dias. Mas olhando pros santos da sala, ja sabia a resposta. Ao fim de tudo, ela me acompanhou até a saida do condominio, me desejou muita sorte e me deu dois beijinhos: é a primeira vez, em quatro meses de faxina, que alguém fez isso. Devia ta entorpecida.

Ontem eu aprendi uma palavra nova: décéder.

domingo, 24 de janeiro de 2010

#100

No ultimo fim de semana (16-17) fomos à Villard de Lans, uma pequena commune nas montanhas, perto de Lyon, para andar de raquete. Raquetes são essas pranchas da foto ao lado, utilizadas pra caminhadas na neve espessa, mas o nome vem mesmo das nossas raquetes de tênis que foram adaptadas pra andar na neve (e, felizmente, remodeladas).

A primeira vez que fiz raquetes (andei, fiz, pratiquei?) foi no inverno passado, numa caminhada de poucas horas, com dois colocs nossos e, pelo que lembro, foi bonito, mas não totalmente agradavel. Apesar do sol, o frio era infernal. Alias, glacial, e eu não via a hora de voltar pra minha cama quente. Mas nesse ultimo fim de semana, não havia sol e não havia raquete!, porque a neve ja tava muito compactada em boa parte do trajeto. E outra diferença é que, dessa vez, iriamos dormir em um abrigo que ficava no topo da montanha.

Apesar da faxina-nossa-de-cada-dia, eu não sou o que se possa chamar de uma pessoa em forma. Desde que cheguei na França, engordei mais de três quilos e me sinto pesada o suficiente pra levar, morro acima, uma grande mochila e eu. Eu parecia uma lesma se arrastando e soh estava moralmente confiante porque Diana parecia, pela reclamações, mais cansada do que eu. Quando finalmente chegamos no abrigo, uma hora e meia depois da partida, encontramos um casal que estava de passagem e que disse que havia lobos de noite por la e, que se a gente fosse fazer xixi, que tomasse cuidado. Eu fiquei desconfiada, porque ele disse que também havia o Pé Grande, então, eu não sabia muito bem no que acreditar.

O abrigo era um espaço de 4x5m, com uma pequena lareira e uma enorme beliche de madeira. Um verdadeiro palacio. Acendemos o fogo, mas ele não era forte o suficiente nem pra esquentar, nem pra iluminar. Calculamos que fora do abrigo devia fazer -5° e, dentro, 2°. A fumaça não demorou em tomar conta de todo ambiente. Acendemos algumas velas que encontramos por la pra conseguir enxergar alguma coisa sobre a mesa. Do momento em que chegamos (15h), até o momento em que fomos nos deitar (21h), soh fizemos comer. Comer e comer e comer, afinal, não havia muito a se fazer no escuro.

La pelas 3h da manhã, num sono embalado pela fumaça e pelo frio, despertei com uma louca vontade de fazer xixi. Posso garantir que não é facil segurar o xixi quando seus pés estão gelados e ha neve por todo lado. Mas eu fiz o que pude pra retardar meu encontro com o Pé Grande. Aguentei dois minutos.

- Lindooooô... Lindo, acorda...
- [Grunido]
- Tu quer fazer xixi?
- Não.
- :(
- Mas eu posso te acompanhar...
- :D

Isso é que é amigo! Saimos do abrigo, olhei pros lados e tirei a três calças numa velocidade incrivel. Mal minha bunda sentiu o frio, eu ja tinha terminado o xixi. Tudo o que eu não queria era encontrar um lobo com as calças arriadas (sem trocadilhos). Ao voltar pro meu saco de dormir, passei duas horas pra voltar a "dormir". O ronco de Diana foi a trilha sonora da noite.

Acordamos, comemos mais um pouco e dai veio a vontade de fazer cocô. Por que sera que meu corpo não entendeu que eu tava numa situação completamente desfavoravel à resolução de minhas atividades fisiologicas? Dessa vez, eu não quis a ajuda de Camilo. Procurei o lugar mais afastado do abrigo e, enfrentando a neve que chegava ao joelho, deixei um presente pros lobos. Antes, escutei uma historia de Diana que disse que, uma vez, um amigo foi pras montanhas e teve vontade de fazer cocô. Dai ele subiu um pouco a montanha, fez cocô, e qual foi sua surpresa quando viu, ao chegar embaixo, que seu cocô tinha descido a montanha, deslizando pela neve, junto com ele. O detalhe é que toda a turma que estava com ele viu isso. Cruzes. Pior que historia de lobo.

Bom, o resto do domingo se passou tranquilo. Descemos a montanha por outro caminho, tomamos um chocolate quente na cidade e depois voltamos pra casa. Apesar do frio, da cama dura, da fumaça, do Pé Grande, do cansaço, do lobo, do ronco, do xixi e do cocô, foi um fim de semana muito legal!

Camilo e seus 82kg afundando na neve


Essa foto é pra vocês terem idéia do quanto era potente nossa lareira. Se Sonia precisou colocar seus pés DENTRO da lareira, imaginem o poder desta em esquentar o resto do recinto...


Diana e eu no caminho de volta


Cachoeira congelada

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Foto da defunta


Pois bem, lembram da foto que meu pai tirou no dia em que eu quase morri? Foi essa. Realmente, eu pareço bem desanimada (morta). Também, com esse vestido, quem não ficaria triste? Ou foi a sandalia! Adultos tem que entender que sandalias com elasticos atras não são legais. Doem entre os dedos, porra. E alias, eu tinha três anos, mas pelo visto, devia calçar 40. Pobre de mim. Ah, e os mais atentos notaram logo: eu menti pra vocês e minha mãe mentiu pra gente: a foto data de julho de 88. Anos-luz de qualquer dia das mães. Shame on you, mainha. Tsc.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Noticias do front

Se não morri no post passado, anuncio que estou prestes a morrer agora [olhar de suplicio]: morrer de nervosismo. Como ja deixei claro em alguns posts, eu sou uma pessoa ansiosa e essa França acaba comigo! Explico...

Como nem todo mundo sabe, eu sou "femme de menage" atualmente e, apesar de trabalhar pouco (no tocante às horas, não ao esforço miseravel), consigo pagar minhas modestas despesas. Trabalhar como faxineira na França é o sonho de muita gente no Brasil (é, pessoal, existe gente mais lascada do que vocês imaginam), mas eu não passei cinco anos numa faculdade, e nem derreti meus nervos como se derrete manteiga, em certas noites pra, no final das contas, acabar limpando o chão dos outros.

A idéia inicial ao arrumar esse emprego era, entre outras coisas, de aprofundar meu conhecimento na lingua francesa. Quatro meses depois, eu soh domino a linguagem técnica: "vassoura" é balais e "balde" é seau. Eu não converso com ninguém, trabalho em lugares diferentes a cada dia (perdendo muito tempo nos transportes) e o trabalho é tão cansativo que... que me cansa.

Então, fiz esse post pra anunciar que eu vou procurar outro emprego. Tcharam! Claro que vai ser outro emprego de merda, mas emprego de merda por emprego de merda, fico com aquele em que eu não tenha que me ocupar do sanitario dos outros. Meu foco é trabalhar como garçonete, e, apesar de eu não falar bem e estar em pânico, sinto que isso vai me ajudar justamente nessas duas coisas: a falar melhor e a ser menos ansiosa. Quer dizer, a enfrentar os problemas de frente. Ja até preveni mme Her dos meus intentos. E agora, contando a vocês, me sinto na obrigação MORAL de ir ao infinito e além! Quer dizer, a dar um passinho à frente.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Do desintupimento da pia (ou da ressuscitação da filha)

Gente, eu fiquei tão curiosa pra saber que historia foi essa da minha "morte", que enviei um email pra minha mãe. Dai, descobri que menti pra vocês. Eu não morri, eu iiiiaaaa morrendo. Mas escondam a historia verdadeira que é legal contar às pessoas que você morreu, é mais emocionante. Ok, eu publiquei a historia verdadeira no blog, mas como meu blog não tem muitos leitores, poderia manter intacta a historia mais... mortal (?) da minha vida.

Seguem os e-mails com alguns reparos:

Eu:

Mainha, eu vou pedir uma coisa bizarra, mas responde aih: como foi aquela historia de que eu "morri" aos 4 anos? hehehe O que aconteceu? A senhora sabe o que foi? Conte os detalhes aê!

Ela:


KKKKKKKK, só você mesma, criatura!

Foi o seguinte... Em maio de 1988, precisamente em um domingo dia das mães, você dormia no seu quarto com uma empregada, que se chamava Creuza. Ela saíra logo pela manhã, pra visitar uma tal irmã que morava no bairro do Grotão (Campina Grande), então ao sair do quarto, ela teve a infeliz idéia de fechar a janela e a porta do quarto enquanto você ainda dormia.

Acho que em seguida, eu acordei e, quando entrei no seu quarto, vi que você ainda dormia, mas estava completamente "banhada" de suor. Tirei você imediatamente de dentro do quarto, te coloquei na minha cama e lembro que você tinha muitas bolinhas de suor pelo rosto inteiro e pelo corpo também. Era como se alguém tivesse respingado, com uma mangueira, todo seu corpo. Em seguida notei, que você tava muito pálida e os lábios um pouco arroxiados. Fiquei bastante preocupada, claro, mas seu pai disse que era devido ao calor e te levou pro banheiro social pra tomar um banho junto com ele.

Então percebi, que apesar do seu pai tentar brincar com você e anima-la, você começou a ficar com os lábios bem mais roxos e suas pernas não tinham forças pra sustentar o corpo. Te levei rapidamente pra minha cama, e ai você já tava completamente pálida e quase sem pulsação. Apavorada, mas ciente que soh eu poderia fazer alguma coisa urgentíssima, comecei uma massagem no teu coração e a soprar no teu nariz, tipo ressuscitação, sabe? Graças a Deus, que é bom e misericordioso, você começou a "voltar". Abriu os olhinhos de jaboticaba e sorriu pra mim, como tivesse acabado de acordar e eu não sabia se chorava ou se sorria.

Detalhe: enquanto eu fazia a massagem cardíaca, ouvia um som do tipo desentupidor de pia saindo do seu peito cada vez que pressionava seu coração. No minimo esquisito, mas foi o que te salvou. Depois dessa "ressussitação", nós te levamos, imediatamente, pra a clínica de hidratação infantil, que na época, funcionava na av. Epitácio Pessoa. Quando a médica te examinou, não constatou absolutamente nada. Disse que não tinha idéia do que tinha ocorrido e que parecia que tudo estava bem com você.

A partir daí, ficamos te observando constantemente. Qualquer principio de suor, ficavamos alerta, com medo que o fato se repetisse. Felizmente, não aconteceu de novo. Mas, por muito tempo, você teve esse problema de transpirar além do normal, sempre ficava com o rosto cheio de bolhinhas d'agua, só na adolescência é que você melhorou. Nunca soube que fenômeno era esse. Enfim, você tá bem agora.

E ai, gostou do meu relato? Tenho até uma foto sua que seu pai tirou no dia do ocorrido. Você tava com uma cara bem triste e desconfiada. Quando eu acha-la, mando pra tu. Muitos beijinhos pra você, te cuida, garota. Depois te mando mais notícias. Beeeeeeeijo!

Agora, claro, meus comentarios:

1. Então eu não tinha quatro anos, tinha 2 anos, 11 meses e duas semanas de vida;
2. Valeeeu, Creuza! Massa!
3. Eu realmente era um ser muito sadico: tentar morrer no dia das mães e ainda "voltar" sorrindo!
4. Cabelo e Benzina, estou esperando as piadas envolvendo o banho com meu pai, quando ele tenta "brincar" comigo e todas as outras merdas tipicas de vocês...
5. Apavorada, mas ciente que soh eu poderia fazer alguma coisa... Mãe é um bicho solitario.
6. Abriu os olhinhos de jaboticaba e sorriu pra mim, como tivesse acabado de acordar e eu não sabia se chorava ou se sorria ;~
7. Ai, na frase seguinte... eu viro uma pia entupida!
8. Tenho até uma foto sua que seu pai tirou no dia do ocorrido. Você tava com uma cara bem triste e desconfiada. Gente, eu tava... morrendo? O minimo que eu poderia ter era uma cara triste! E melhor ter uma cara de desconfiada que uma de defunta...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Eramos quatro. Lascados.

A Lola me pediu pra explicar melhor essa historia de morrer aos quatro anos, que eu cito no meu perfil. Na verdade, eu também gostaria muito de saber mais sobre essa historia. Tudo que eu sei é que minha mãe sofreu muito com seus filhinhos. Eis um pequeno resumo de alguns dos seus pesadelos de mãe.

Somos quatro: Guilherme, eu, Renato e Elis (26, 24, 22, 15 anos).

Guilherme foi o mais cruel (com ele mesmo). Um dia, ele pegou a espada do He-man (adoro essas frases) e gritando "pelos poderes de Greyskull", correu e atravessou a porta de vidro da sala. Ele tinha (em torno de) cinco anos. Ele tinha cinco anos e muito sangue. Minha mãe disse que nunca tinha visto tanto sangue na vida dela. Acredito que a visão que ela teve naquele momento do seu primogênito não foi das melhores. Não sei se pouco antes ou depois disso, o pirralho curioso prendeu a toalha na qual ele estava enrolado numa panela de leite fervente. Resultado: uma cicatriz que toma 2/3 da barriga dele até hoje.

Eu, por outro lado, não dei muito trabalho a minha mãe. A unica reclamação que ela tinha era a de que eu chorava muito. Meus apelidos eram boca da meia-lua e manteiga derretida. Alias, eu os odiava. E alias, as coisas não mudaram muito, continuo chorona. Tudo bem que uma vez eu chorei porque não consegui tirar uma meia do pé (sete anos), mas isso não é motivo pra banalizar o choro de uma criança. Eu acho. Bom, então, eu morri. Minha mãe disse que la estava eu, aos quatro anos de idade, em cima da cama, com o relogio do meu pai no braço, quando comecei a suar. Ela disse que eu suava bicas e que eu comecei a ficar palida e mole. Então ela me colocou debaixo do chuveiro. Não sei exatamente o que ela estava esperando com isso, mas não deu certo. Meus labios ficaram roxos e meu pobre coração parou de bater. Ai ela, ninja, fez massagem cardiaca e eu ressuscitei. Aposto que eu chorei depois disso.

Renato
sim foi o filho-problema. Eh chamado de duas mãos esquerdas até hoje. Pensando nisso agora, vejo que minha familia não é muito criativa pra apelidos. Ele cortou a cabeça umas quinhetas vezes. Ele quebrou os quatro dentes da frente numa queda. Abriu a lingua. Socava os amigos, chutava a professora, foi pra diretoria inumeras vezes, fugiu dos meus pais num passeio. Foi o que mais quebrou objetos em casa, o que mais levou gritos e o que mais apanhou. Tudo se explica.

Elis foi a caçula que recebeu muita atenção. Ou não. Acho que, mesmo que eu morra aos 100 anos de idade, com Alzheimer, eu nunca vou esquecer desse fato: numa tarde dos anos 90, uma pessoa tocou nossa campainha à tarde: era a vizinha e ela estava com Elis nos braços. A gente não entendeu nada, pois ha dois minutos, Elis estava na sala de estar. Então a vizinha disse que viu Elis andando sozinha no meio da rua (Elis tinha menos de dois anos). Essa vizinha morava numa rua perpendicular à nossa e soh viu Elis porque seu portão era cheio de furinhos. Minha mãe pegou Elis nos braços sem palavras. Eu tremia. Quem estava "tomando conta" dela, era eu. Até hoje eu lembro disso e volto a estremecer pensando no que poderia ter acontecido se a vizinha não estivesse no seu terraço e se seu portão não fosse furado, até onde Elis iria?

Coitada da minha mãe...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O pulo do gato

Estah indo dar um susto na faxineira...

Gosto de observar as peculiaridades de cada casa na qual eu faxino. Os minutos que antecedem minha entrada numa nova casa são cheios de expectativa. Quem eu vou encontrar? Sera que eu vou entender o francês da madame? Sera que ela vai entender o meu francês? Sera que eu vou trabalhar feito uma vaca? Sera que a casa é desarrumada?

Eh mesmo uma vida emocionante.

Mas essa ultima pergunta não é obvia. Você pode concluir: se alguém esta contratando uma faxineira, significa que sua casa esta desarrumada. Pois bem, leitor, nem sempre. As vezes eu entro em casas em que não ha um soh rastro de poh. Acredite, são as piores: evidenciam que a dona da casa é extremamente zelosa e que espera que você deixe a casa ainda mais limpa do que ela se encontra. São as casas em que eu arrumo os shampoos por ordem de tamanho. Hoje, por exemplo, fiz minha primeira faxina na casa de mme Le Gal (tentei fazer alguma piada: não soube). Entrei na casa e encontrei tudo arrumado, pensei até em dar meia volta e ligar pra mulher pra dar conselhos a ela de como investir melhor seu dinheiro. Mas daih vi um gato na casa. Meus queridos, gatos na casa das madames significam duas coisas pra mim: pêlos por todo lado e sustos. Muitos.

Ha dois meses, fiz uma faxina na casa de um cara que tinha um gato preto. A casa era meio bizarra. Era escura e tinha uns machados e espadas penduradas nas paredes, entre outras coisas, que não vem ao caso. Então, eu decido passar o aspirador debaixo do sofa, onde o gato, não sabia eu, descansava. Eu não poderia imaginar que um gato poderia pular tão alto. Eu não poderia imaginar que eu poderia pular tão alto. Eu fiquei paralisada, com o aspirador ligado VRRRUUUMM! e meu coração batendo mais alto. Depois, decido ir ao segundo andar. Entro num quarto escuro, cheio de tralha e procuro o interruptor. De repente, do meio da escuridão, o segundo pulo do gato. E, mais uma vez, eu, prestes a cagar na calças de tanto susto. Eh daquela situação em que você ri e chama palavrão ao mesmo tempo.

Então, quando encontrei o gato na casa de hoje, lembrei do gato preto e procurei tomar cuidado. Uma hora depois, ja tinha esquecido da porra do gato e, quando meti o aspirador debaixo da cama, o gato tentou correr, mas deu de cara com meus pés. E ai, o gato e eu ficamos sambando, sem saber o que fazer. Foi horrivel. Mas horrivel mesmo é saber que sujeira de pêlo de gato é eterna: você limpa e ela retorna três segundos depois. Um verdadeiro pesadelo.

Eh muito feio o que eu vou admitir agora, mas... eu odeio gatos. Pronto, falei. Quer dizer, odiar é uma palavra muito forte. Na verdade, eu os repudio. Os que gostam de gatos os defendem com a historia batida de que eles são animais independentes, que não são carentes feitos os cachorros. Ora, se eu quisesse um animal que não dependesse de mim, eu não teria um. Eh como resolver ser mãe e adotar um filho de 30 anos. Não faz sentido.

E agora, depois de minha experiência de faxineira com gatos, eu os odeio, quer dizer, os repudio, mais ainda. Outro dia, fui limpar um banheiro e, ao abrir a porta, dei de cara com a casinha do gato, cheia de cocô. Vocês sabem da fama do cheiro do cocô de gato? Não soh fede: é o pior cheiro que existe, eu tive que me controlar pra não desmaiar. Que tipo de gente em sã consciência se tranca num banheiro com uma caixa cheia de cocô de gato? (e não venham dizer que é tatica de camuflagem).

O irônico é que aqui em casa temos um gato. Ele vive do lado de fora, na janela da cozinha. Quando Camilo coloca o gato no braço, eu passo três dias sem toca-lo. Camilo diz que ele é um gato caçador. Caçador de quê, eu não sei. Tudo o que eu vejo é o gato dando voltas no jardim, meio perdido, como se tivesse fumado alguma coisa. Aih, as vezes eu dou umas batidinhas na janela da cozinha, faço "ooiinn, gatinho, xiuiu"... depois me lembro que eu odeio gatos, me recomponho e volto a ignora-lo.

domingo, 10 de janeiro de 2010

DILF

Uma leitora do blog, Neide, me perguntou como se passou meu teste do DILF. O DILF é um teste que eu precisava fazer, juntamente com outras coisas, pra poder permanecer no pais. Foi por isso que eu tive aulas de francês gratuitas da Prefeitura.

Quando eu fiz a entrevista pra que a Prefeitura pudesse avaliar meu nivel de francês, eu tive direito a 200h de aula. As aulas eram obrigatorias, então, como vi que o show de Paul McCartney era numa quinta-feira, em Paris, eu preferi fazer o teste antes do final das 200h pra poder me livrar logo das aulas e poder ir ao show em paz. E assim foi.

Penso que nem se eu tivesse perdido todas as aulas o teste teria sido dificil. A coisa é quase uma afronta a inteligência do imigrante. Então, pra quem anda preocupado com o nivel do teste, garanto que isso não sera dor de cabeça pra ninguém. Quer dizer, no dia do teste, encontrei duas mulheres que tiveram aula comigo. Uma delas, coitada, tem problema auditivo e deve ter feito 10% da prova, ja que a maioria das questões são construidas em cima de audio.

A maioria das questões seguem a mesma logica: você tem cinco imagens e escuta cinco mensagens. Depois, você enumera as mensagens de acordo com as frases que ouviu (que são repetidas duas vezes). A parte mais dificil do teste é uma produção escrita que deve ter, no minino, 20 palavras. E esse exercicio é justamente o que tem menor peso: 5/100

Eu fiz o teste no 1° de dezembro, mas o resultado soh vai sair esse mês, sei la quando. O que me preocupa é que um cara que conheci em Toulouse me disse que, se eu quiser entrar num mestrado, tenho que passar em outro teste, o DELF (tem ainda o DALF). Alguém precisou mostrar os conhecimentos de francês no mestrado fazendo esse teste ai?

Pra mais informações sobre o DILF (e o DELF e o DALF e o DOLF... bla):
http://www.ciep.fr/dilf/index.php

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Toulousein

O plano inicial, depois de Chateubriant, era de voltarmos a Lyon e passarmos um reveillon totalmente morgado. Mas de ultima hora, resolvemos morgar em Toulouse. Cancelamos as passagens de trem, mandamos nada menos que 100 mensagens pros couchsurfers de Toulouse e recebemos quatro respostar positivas. Esse é o verdadeiro espirito de Natal.

Como compramos as passagens de trem de ultima hora, nossos assentos não foram reservados. Agora imagine: viajar em época de Natal sem assento marcado. Nessa hora, a lei que impera é a Lei do Cão: cada um por si. Como somos muito observadores, soh fomos nos dar conta de que o vagão das pessoas com bilhete sem reserva era o ultimo. A gente entrou no primeiro. Eu com uma mochila que tinha metade do meu peso, Camilo com uma outra que tinha o dobro do tamanho dele. No corredor, almas desesperadas procurando um assento. A polidez francesa permite que você leve um soco na barriga, mas que seja agraciado com um formal "desolé". Pof! Desolé. Crash. Oh, desolé! Olho roxo. Desolé.

Na metade do caminho dentro do trem rumo ao ultimo vagão, Camilo disse "lute pela sua vida, vah sem mim". Eu fui. Deixei a mochila em algum vagão, "corri" e, quando achei vaga, liguei pra Camilo vir e catar a mochila deixada sei la onde. Nos sentamos. Ainda havia um assento ao nosso lado. Esperamos.

Minutos depois, chega o controlador de bilhetes e uma loira que o grita e choraminga sem parar. "Mas é um absurdo! Dois bilhetes para um mesmo assento! Chuif! Eu estou operada! Bua! Isso não é certo! Mimimi". Eu até entendi a mulher, mas é sempre aquela historia: você perde a razão no momento em que você se descontrola. E quando vi a doida gritando com o controlador que não tinha nada a ver com a historia, antipatizei. De qualquer forma, ela soube se utilizar bem de sua condição fragil: primeiro pediu uma caixinha de suco a mulher ao seu lado. Depois pediu pra outra mulher descer numa das paradas do trem e comprar batatinha pra ela. Depois, pediu o celular de um cara e fez uma ligação que demorou mais do que ele desejava.

Mas Toulouse...

A Ponte Esqueci o Nome e minha necessidade de um pente


Urnas funerarias do Musée Saint Raymond


Jardim Botânico
(que pulamos a cerca pra tirar foto
de um pavão cretino que se recusou a abrir a cauda)

Toulouse realmente é uma cidade bonita. E olha que falo isso mesmo pensando nos dias chuvosos que passamos la. A cidade é também conhecida como "cidade rosa", porque os tijolos aparentes que estão por toda a cidade, dão esse "aspecto rosado" a ela. Outra curiosidade é que a maioria das placas que indicam o nome das ruas esta escrita em francês e na lingua occitana, muito (carece de fontes) falada no sul da França.

E alias, o sul da França tem um sotaque bem particular. Um dos caras que mora com a gente, Mikael, é de Marseille. Moro ha mais de três meses com ele e simplesmente nunca entendi o que ele fala. Ele é a unica pessoa da casa com a qual eu nunca consegui conversar. Alias, era! Depois de um curso informal intensivo em Toulouse, eu pude entender melhor Mika. Por exemplo. "Amanhã" em francês é demain. Em Lyon se pronuncia demã (biquinho no e). No sul (Toulouse, Marseille) é demein. E assim vai:

demain (amanhã): demã = demein
matin (manhã): matã = matein
copain (amigo): copã = copein
vin (vinho): vã = vein


A "cidade rosa"


Uma turista turistando

Demos sorte com as couchsurfers que abrigaram a gente. Muito legais, atenciosas. E pra voltar pra Lyon, mais sorte: voltamos de covoiturage, que é um sistema de carona que funciona bem aqui na França. Depois eu explico melhor. Chegamos exaustos, mas fechamos as nossas férias com um pequeno jantar entre "familia" pra despedida de Mika que parte pra Inglaterra por três meses pra um curso de inglês. Espero que eu ainda consiga entendê-lo em abril. De qualquer forma, a demein, mon copein!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Juliana vai à Chateaubriant

Pela primeira vez na vida, eu entendi o real sentido da palavra férias. No Brasil, férias somente era a prolongação da vida cretina que eu ja levava normalmente (casa - mesa de bar - faculdade - mesa de bar - casa)*. Nossas férias duraram apenas 11 dias, mas foi o suficiente pra um pequeno tour na França (vide mapa).

Passamos o Natal na casa dos pais de Camilo, em Loire-Atlantique (norte), na pequena commune de Chateaubriant. Eu queria não fazer a cretinice de comparar a pequena Chateau de 12 mil habitantes a qualquer pequena cidade brasileira, mas é impossivel não se surpreender. Ou fazer comentarios matutosos. Por exemplo, não importa onde você va, que rua ou estrada pegue, por qual vale ou montanha ande, ou o quão pequena seja a cidade, todas as ruas francesas são asfaltadas. Não "calçadas", asfaltadas. E se ela não for asfaltada, é na intenção de conservar o pavimento historico sob nossos pés. Louvavel.

Quando Camilo me falava sobre a cidade, eu imaginava que iria encontrar as casas separadas por quilômetros, uma pequena venda perdida em alguma rua e as cabras pastando entre as casas. Mas a pequena Chateaubriant tem, além de um castelo (chateau = castelo), ruas asfaltadas, ladeadas de flores. Tem um cinema de porte médio (dez filmes por semana), um teatro abrigado por um prédio de vidro, conservatorio de musica, dança e arte dramatica, mediateca, biblioteca, boliche, piscina olimpica etc. Os bares tampouco aparentam fazer parte da estrutura de uma pequena cidade: estilo pub inglês, com decoração estilosa e barman tatuado dos pés a cabeça. Eh, não lembra muito Cajazeiras...

Chegamos exaustos e ja nos sentamos à mesa pra Ceia de Natal. Comer na França é uma coisa quase cansativa. Uma refeição festiva aqui pode durar facilmente cinco horas. Francês é um povo que come muito e come bem. As porções de passarinho no prato tem uma explicação: você começa pelos aperitivos, passa pra entrada, vai ao prato principal (pode ter um, dois...), depois vem a salada, os queijos e, por fim, a sobremesa. Ao final, meu amigo, você estara seguramente farto. Quer dizer, satisfeito.

No dia 27, fomos ao almoço de familia organizado pela voh assassina de Camilo. O troço começou depois do meio-dia e terminou no começo da noite. Eu começo a entender porque Camilo tem me chamado de gordinha. Antes do almoço, passei duas horas tentando relembrar o nome de todas as tias e primos e maridos de sei la quem pra que, ao final, eu fosse chamada de Juliana pela tia de Camilo. So não a sacrifiquei porque minha ira foi aplacada por uma caixa de chocolate que ela nos ofertou. Humana!

*"Mesa de bar" pode ser trocado por "cinema" e "casa" pode ser trocado por "casa dos outros"

Talvez

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