sexta-feira, 30 de abril de 2010

Parabéns pros blogs

Hoje meu blog faz um ano. Não que eu veja alguma coisa de especial nessa informação, mas ao menos vi esse fato como uma oportunidade pra falar sobre algo do qual eu gosto muito: de blog.

O blog Europrosa deu um selo pro Caso me Esqueçam. Eu não sei bem o que isso significa, mas sei que é uma coisa boa, um tipo de reconhecimento pelo blog. A regra diz que a imagem deve ser afixada no meu blog, mas como eu não sei fazer isso, fica por aqui mesmo, como post. Também tenho que citar quinze blogs que eu gosto (com certeza a melhor parte desse selo). Mas vou além, vou dizer resumidamente porque eu gosto dos blogs indicados, assim talvez vocês se sintam mais motivados a conhecê-los.

Ashen Lady's Blog - Blog que conheci, por acaso, essa semana. A autora faz umas reflexões sobre o cotidiano, a forma com a qual as pessoas se relacionam. A escrita é simples e fluida.

Café Velho - Eh um dos unicos blogs que fala de uma forma realmente séria sobre politica. Por coincidência ou não, ela mora em Brasilia e tem mesmo muito o que falar.

C'est pas vrai - Blog da Bel, brasileira que mora em Paris, que fala sobre tudo e sobre nada de uma forma que eu adoro: cheia de humor e ironias. C'est vrai!

Dentro do Coletivo - Apesar de ser suspeita pra falar, por se tratar de um blog do meu personal guru musical, é impossivel deixar de elogiar esse blog. Excelente quando faz criticas de albuns ou quando escreve contos. Completo.

Documentarios Verdade - Blog onde estão disponiveis documentarios obrigatorios pra quem vive nesse planeta.

Escreva, Lola, escreva - Um dos blogs mais completos pra mim: feminista bem-humorada que adora filmes. Dez feministas entre dez tem o blog dela no seu bloghall.

Foi feito pra isso - Uma boa descoberta dos ultimos tempos. Eh sempre bom ler alguém com senso de justiça e que tem talento pra escrever.

La Dolce Vita - A-do-ro! Blog sensacional que fala sobre arte (filmes, quadrinhos, desenhos animados, atores etc). Vai do classico ao tosco. Além de ter o dominio sobre o assunto que escreve, o Miguel é um gentleman de humor fino. Adoro as impressões dele.

Nunca disse que faria sentido - Também outra descoberta recente. Blog de uma criatura que fala coisas aleatorias sobre sua vida, mas que consegue prender totalmente minha atenção.

Pergunte ao Pixel - Blog da Tina, mãe da Nina, e suas aventuras. Ponto forte: um humor sarcastico. Impossivel ler um post soh.

Porte Doree - Blog da Amanda, brasileira residente em Paris. Leitura obrigatoria pra todos aqueles que decidem morar na França e também praqueles que querem conhecer a verdadeira cara da terra que o Sarkozy governa. Escrita simples pra temas complexos. E o que eu mais adoro: no clichê. Ouais!

São Paulo - Paris - Dakar - Blog da Aline que mostra de uma forma superinteressante as curiosidades no day by day nessas três capitais.

Viva Mulher - Escrito por uma jornalista feminista, me deprime as vezes por certas matérias e artigos analisados sobre a vida de mulher. Eh, a realidade deprime, mas o blog é muito bem escrito.

Não foram quinze, apesar de eu ter outros blogs como favoritos. Escolhi esses por serem menos pessoais. Espero que algum agrade a vocês. Ah, a Mirelle Siqueira também, gentilmente, me indicou pro selo. Muito obrigada, meninas!

Agora, hora de soprar a velinha!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A hora do pesadelo

Eram 21h quando a familia na qual eu tava interessada me mandou uma mensagem dizendo que me queria como babah. Massa, porque eu não aguento mais ficar em casa coçando o saco. E hoje, eu deveria passar (e passei) o dia na casa do guri, juntamente com avoh dele, pra que ele comece a se adaptar à minha presença, afinal, ja que eu vou ser a babah dele, o minimo que os pais esperam é que a gente se suporte.

O dia ja começou bem: minha ansiedade me acordou às 4:30h da manhã. Fiz xixi, voltei pra cama, deitei de bruços, deitei pra cima, de lado, de frente, de banda e nada. Pensei em todas as coisas boas e ruins que poderia naquele momento e, quando vi, me dei conta de que tinha perdido minha bolsa na UFPB. Quando achei a bendita, vi que tinham furtado minha carteira e meu celular. E pensei logo no meu titre de sejour! "Merda!" Daih comecei a gritar muito e fui acordada pelo despertador. 6:45h.

Sabe quando Freddy Krueger chega na casa da pessoa pra mata-la? Pronto, o menino teve uma reação parecida à minha chegada. Soh fazia correr e gritar. A diferença é que Freddy Krueger pegava ele nos braços e fazia biquinho. Respirei profundamente fingindo que eu sou uma pessoa paciente e continuei a sacudir todos os brinquedos que estavam dispostos sobre o tapete da sala, mas o guri soh queria a avoh. E a avoh tentava me acalmar dizendo que era normal, que depois ele melhoraria.

Por coincidência, era o primeiro dia do menino na creche e aqui na França se costuma fazer uma adaptação entre bebê e creche, nesse momento: no primeiro dia, os responsaveis deixam a criança por somente 30min na creche. No segundo dia, deixam por uma hora e assim por diante. Quando fui deixa-lo na sala da creche, ele me agarrou com tanta força, que duvidei que ele soh tivesse um ano de idade. Meia hora depois, quando voltei, o guri ainda tava soluçando e me abraçou lindo! Nada pior do que o pior, deve ter concluido ele.

A avoh foi perfeita comigo! Me deu todas as dicas, me acalmou, me ensinou um monte de coisa, conversamos bastante. O que eu vi durante o dia foi uma avoh superapaixonada, que de cinco em cinco minutos beijava o menino e tudo o que este fazia era rir largamente com os apertos da avoh.

A mae me disse, "Eu não quero que você o trate como se ele fosse sua maritonete. Ele não sabe falar ainda, então, quando ele disser 'dadada', eu não quero que você repita isso (em tom de brincadeira), quero que você sugira a ele o que ele esta tentando dizer". Tipo assim, o menino em questão tem um ano de idade. Dialogo possivel:

- Gaaah! Dadadiiidiii!
- Ah, você acha que Freud estava certo quanto à questão do inconsciente?
- Bubububu! Gagagah!
- Eu discordo plenamente do seu ponto de vista, garoto.
- Tatatiiiiii!

Claro que entendi o que a mãe quis dizer (quando ele gritou qualquer coisa desconexa hoje à tarde, perguntei "ah, você quer sua mãe, ela tah bem ali, vamos lah?"), mas é foda escutar coisas do tipo "não trate ele como se fosse sua marionete". Soh faltou ela dizer que o pirralho podia discutir fisica quantica e que eu deveria trata-lo "à altura". Isso tudo me deixou meio desconfortavel, ainda mais porque ela disse que queria conhecer Camilo! Algum patrão de vocês ja disse que gostaria de conhecer seus respectivos namorados/maridos/companheiros? Pois é, também achei estranho.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sobre pão, rosas e pessoas

Camilo anda ha meses insatisfeito com os chefes. Ano passado, quando ele ainda era somente estagiario na empresa, ele ja vinha enfrentando dificuldades com os malas de lah. Um dos socios da empresa chegou a ser meio que expulso dela, pois era uma cretino de marca maior. Mas ainda restaram todos os outros. Eh o louco que grita, é o cara que é cinico, é o outro mal educado e assim por diante. Como eu trabalhei de faxineira na empresa, sei bem do que ele fala. O chefão, um tal de Olivier, aparecia na empresa de vez em quando. Eu, com minha pobre vassoura na mão, nunca escutei uma resposta dele ao meu bom dia. Tipo assim, nunca. Espero que vocês nunca tenham a chance de comprovar isso, mas quando seu trabalho não é bem assim, glamouroso, você corre o risco de desaparecer. Daih, um belo dia, acho que alguém contou pro senhor Olivier que aquela otaria que ele sempre ignorou é a esposa de um dos engenheiros da empresa. Então, ele veio trocar duas frases comigo na hora do almoço. Deve ter sido dificil. Engraçado que esse episodio se passou bem na época em que assisti Pão e Rosas (2000). O filme gira em torno de alguns casos da vida de uma faxineira mexicana que foi morar nos Estados Unidos. Opa! Faxineira? Estrangeira? Rolou uma identificação.

Nesse exato segundo, Camilo tah no Senegal, provavelmente reunido com alguns homens engravatados discutindo sobre projetos de carbono a serem lançados na Africa. Ele me mandou um email ontem, meio aflito, contando o quanto era sufocante estar com os dois chefes. Antes de embarcar, ele ligou pra mim e disse que um dos chefes tava falando sobre a esposa dele: "Bla bla bla... mas é bom mesmo que ela faça a feira, porque eu passo três horas pra achar um produto, fico perdido. Mulher não, mulher é mais cuidadosa". Pois é, meu bom homem, é porque além de estarmos biologicamente preparadas pra gerar um ser humano, nohs mulheres também trazemos conosco o gene da feira.

E Camilo foi totalmente verdadeiro quando me disse, semana passada, que tudo depende das pessoas com as quais nos rodeamos. O trabalho é chato, mas o chefe é legal? Passa. A disciplina na faculdade é interessante, mas o professor é um cretino? Não passa. Não dah, pô. E ontem eu fui pra mais uma entrevista de emprego da qual eu gostei muito. Não soh porque era pra cuidar somente de um bebê, mas também porque o perfil dos pais me agradou muito. "Quero que você ensine coisas ao meu filho, ele é muito curioso. E nada de TV. E nada de passeios no shopping". E, quando a mãe soube que eu morava numa casa, ela perguntou se eu tinha jardim. "Eu tenho um jardim. E a gente vai plantar tomate nele". E ela sorriu. E agorinha, quando esse post ainda soh estava na minha cabeça, minha ex-patroa me ligou e disse que uma mulher havia ligado pra ela ontem perguntando pelas minhas referências, se eu era confiavel. E daih minha patroa disse que sim. E explicou que eu era séria e responsavel e meu sorriso do outro lado foi enorme e o rubor foi violento. Merci! Merci! E ela disse "mas você fez um trabalho excelente, Luciana". E eu nunca tinha comentado aqui o quanto essa mulher foi importante na minha adaptação na França e o quanto me senti bem trabalhando pra ela. E ja faz uma semana que cogito a possibilidade de voltar e trabalhar uma parte da semana como baba e a outra parte como faxineira. Porque quando a gente tah com as pessoas certas, passa.

Não vou de taxi - parte II

BICICLETA

Outra idéia que os governadores brasileiros tentam recuperar da França é a da implantação de estações de bicicletas alugaveis (aqui em Lyon, essas bicicletas são chamadas de Vélo'V). Bom, a idéia não é francesa, ja que o sistema ja existe em outros paises, mas Lyon foi a primeira cidade da França a implantar o projeto. Ele existe aqui desde 2005 e ta sendo cada vez mais ampliado. Ja existem mais de 300 estações, como essa da foto, espalhadas pela cidade toda. O sucesso vem de uma mistura simples: bicicletas de graça nos primeiros 30min de uso numa cidade quase totalmente plana. Pelo cartão de 24h você paga 1€, pelo de sete dias, você paga 3€ e pelo cartão anual você paga irrisorios 15€.

Em 2008, Sérgio Cabral foi à Paris e anunciou o lançamento do mesmo sistema no Rio. Depois de um ano funcionando, o sistema foi suspenso por alguns meses devido à quantidade de furtos das bicicletas. O projeto foi reiniciado mas, três dias depois, a policia encontrou um moleque com uma bicicleta furtada. "Dei um jeitinho". Infelizmente, por aqui a realidade não é muito diferente.

A quem deseja morar em Lyon por mais de seis meses, eu dou uma dica: compre sua propria bicicleta, mesmo que usada. Porque nem sempre você vai voltar pra casa e se deparar com uma vaguinha pra você depositar sua bicicleta naquela estação que fica perto da sua casa. E, caso você não a devolva, 150€ serão debitados da sua conta. E a multa é pequena: a manutenção de cada estação de Vélo'V custa aos cofres publicos 2000€ mensais.

A bicicleta aqui é o transporte mais rapido na cidade. Camilo demora os mesmos 20min pra chegar no trabalho dele seja de metrô ou seja de bicicleta e ja sabemos que somos mais rapidos em cima de uma bicicleta que dentro de um carro - aqui o trânsito é lento e vagas pra estacionamento são dificeis de encontrar. Por isso, você vê de empresario engravatado a "velhinha de respeito" andando de bike pela cidade. E pra coisa funcionar, leis rigidas são aplicadas (ou não) aos ciclistas. O pedestre tem sempre prioridade em relação à bicicleta e a bicicleta tem sempre prioridade em relação ao carro. O ciclista tem que respeitar todo e qualquer sinal de trânsito, inclusive as placas de contramão, correndo o risco de pagar multa. Um amigo quase foi multado em 90€ por andar de bicicleta sobre a linha exclusiva pra ônibus. E um policial tentou me tirar 135€ depois que eu atravessei o sinal vermelho. Numa mudança de via, o ciclista tem que estender o braço no sentido em que deseja seguir. Ele também ta proibido de usar celular enquanto pedala e de ter uma taxa de alcool superior a 0,5g/litro de sangue.

TCL (Transport en Commun Lyonnais)

Apesar de eficiente, o transporte lionês tem um terrivel problema que assombra a população: as greves. As famosas greves da TCL (empresa responsavel pelos quatro primeiros meios de transporte citados) são terrivelmente odiadas pela população. São tantas greves que as pessoas as vezes nem sabem mais o que a TCL quer. No site não informação. O recorde de locações de Vélo'V aconteceu em setembro do ano passado, no dia de uma greve da TCL: 44.843 locações. A TCL também fez greve no dia em que a delegação européia, que ia escolher a capital européia da cultura 2013, estava na cidade. Também fez greve no dia do vestibular. Como se pode imaginar, apesar de tudo, a TCL não é muito popular por aqui. Viva as Vélo'V!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O curioso caso dos bebês-geléia

Um trabalho para o Doutor Octopus

Finalmente me deixei influenciar por Amanda e comecei a procurar empregos como babah - aqui, chamada de nounou (nunú). Me inscrevi num famoso site da area e deixei meu humilde recadinho falando sobre minha grande experiência no ramo. Não, eu não a tenho, mas ninguém precisa saber disso.

Vi muitas propostas de emprego, mas a maioria era pro começo de setembro, quando eu pretendo estar estudando (se Deus existir e se Ele gostar de mim, é claro). Respondi às mensagens dos pais que mais me agradaram, mas essas mensagens provavelmente foram respondidas por outras duzentas nounous mais rapidas do que eu. Dois dias depois de cadastrada no site, finalmente recebo a mensagem de um pai que estah interessado numa entrevista comigo.

Vou poupa-los da narração da cruel conversa pelo telefone com o pai pra marcar a entrevista, mas posso garantir que, depois que isso foi feito, eu senti que poderia ir pra qualquer entrevista cara a cara sem correr perigo de desmaiar de nervosismo no meio da conversa.

Liguei pra Amanda e ela me deu informações valiosissimas como "se mostre motivada e disponivel. E sobretudo, não tussa em cima do bebê". Anotado! Fingindo calma, cheguei até o apartamento dos pais. Detalhe charmoso dessa proposta de emprego: eu teria que cuidar de dois bebês de seis meses e uma criança de dois anos, ao mesmo tempo, dez horas por dia (geralmente duas familias se juntam pra pagar uma soh baba). Pela minha quantidade de braços, achei que seria uma tarefa dificil. Mas dificil mesmo é o desemprego, meus amigos, então eu fui.

Fingindo segurança, levei meus dados pessoais e copia de identidade numa pasta e, quando toquei a campainha, escutei a voz do pai do outro lado da porta dizendo a alguém "vamos ligar pra você depois". Ou seja, tinha outra nounou terminando uma entrevista! Rezei pra que ela fedesse e não tivesse os dentes da frente. Quando a porta se abriu, vi uma mulher e eu fiquei sem saber se era a mãe ou a nounou entrevistada. Apertei a mão dela e, pela cara de espanto que ela fez, era mesmo minha concorrente. Hihi.

Na sala, a mãe de um bebê e os pais do outro bebê e da criança. O pai era um espetaculo de homem. Entendi porque a mãe tinha aquele sorriso. Alias, a mãe sorria tanto que achei que eu ja tava contratada. Mas infelizmente eu não sou assim tão falante em francês como sou em português. E foram muitos os momentos durante a entrevista que senti que eu deveria falar mais. Mas o pior mesmo, a coisa que acho que contribuiu pra uma imagem negativa minha, foi minha obvia falta de aptidão com as crianças.

Em certo momento, a mãe deixou seu bebê no sofa (ao meu lado) e foi se ocupar da criança que tava chorando. De repente, a outra mãe diz "opa, cuidado": era o bebê do meu lado que tava despencando pra frente. Ao invés de eu pegar a guria nos braços e ja fazer o H na frente da familia, eu soh fiz empurra-la carinhosamente de volta ao encosto do sofa usando somente três dedos. Véi, mas que agonia! Parecia que a menina era feita de gelatina. Quando encostei meus dedos nela, eles afundaram naquele monte de banha de bebê. Foi aih que pensei "o que porra eu tou fazendo aqui?!"

Quando a mãe chegou, pro meu alivio, ela pegou nos braços o bebê invertebrado e começou a dizer as coisas que eu deveria fazer. Entre o esperado, como leva-los pra passear e ajeitar a bagunça deles, estava dar banho nos três e passar as roupas deles. Olha, se eu tava com medo da historia toda, sorri interiormente pensando "quem tiver coragem, que seja contratado". Antes de me despedir, perguntei ao pai se ele precisava de alguém pra dar banho nele, mas ele negou.

[Em tempo: enquanto escrevia esse post, uma mãe do site me ligou falando sobre uma proposta de emprego de... três crianças. Ela disse que ia falar com outros pais sobre mim, mas espero que ela não ligue de volta. Medo].

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A gravata do meu namorado

Não é de hoje que eu sei que Camilo tem um sono esquisito. No começo do nosso namoro, ele acordou um dia, no meio da noite e, de joelhos em cima do colchão, começou a gritar apontando pro meio do quarto:

- O que é que esse carro tah fazendo aqui?! Olha esse carro!
- Que carro, Camilo?
- Esse carro! Esse!

O menino tava tão seguro de si que eu realmente fiquei com medo de encontrar um carro no meio do quarto. Mal sabia eu que minhas noites deixariam de ser tranquilas a partir dali. Eu ja perdi as contas de quantas vezes ele fez isso. Geralmente ele senta ou fica de joelho - nessas ocasiões, eu tenho que dar um ippon pra ele voltar pra cama. E existem as fases.

Fase amorosa:

Aconteceu quando moravamos no Brasil. Ele costuma passar a mão em volta da minha cintura quando dormimos. O problema é que quando dormiamos com amigos, ele fazia a mesma coisa. Deu um beijo uma vez no cotovelo de um amigo e passou a mão na bunda de uma amiga - por isso, esse disturbio também é chamado por mim de sono conveniente.

Fase intelectual:

Eh quando ele acorda a fim de conversar. Eh a que eu mais gosto, porque eu não acordo assustada com os gritos dele. Nessa, ele começa a falar sobre qualquer coisa. As vezes ele ri, é lindo! Ele:

- Tu viu o que aconteceu?
- Hmm, vi. Legal, né, amor? (Hihihi)
- (ruidos estranhos) Eh mesmo. Eu acho até que zzZZzz...
- (...) Lindo?

Fase protecionista

Eh quando eu acordo com ele abraçando meu crânio e dizendo "corre", "não vai pra aih", com uma voz muito desesperada. Quando acorda, ele explica que teve um pesadelo e que tava tentando me proteger de alguém. Acho bonitinho... quando eu posso respirar. Ele tem esses sonhos geralmente quando tah estressado com o trabalho.

Infelizmente, acho que a fase protecionista esta com seus dias contados. Temo que venha por aih a fase homicida. Porque ontem Camilo tentou me matar. Sério. Eu ja tava tendo um dos meus famosos pesadelos quando fui acordada pelas mãos de Camilo: uma no ombro, outra no pescoço, me apertando. E ele começou a gritar e eu, claro, também! "Para, tah doendo! Acorda!" Aih ele acordou, pediu desculpa três vezes, se virou e dormiu. Eu verifiquei se minha traquéia ainda tava onde eu gostaria que tivesse e tentei dormir, mas foi dificil.

Lembrei de uma matéria que li ha umas semanas de um cara que tinha matado sua mulher dessa forma. Ele era sonâmbulo e, um dia, quando acordou, encontrou a esposa morta do lado dele, estrangulada. Chamou a ambulância, mas não teve jeito. O marido disse que tinha sonhado que um ladrão tinha entrado na casa e aih deu no que deu. Eles eram casados ha trinta anos.

- Camilo, tu lembra que tu tentou me matar ontem?
- Foi?
- Foi.
- Eita, foi mal.

Algo me diz que eu prefiro Camilo consciente.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Escalada + medo de altura: combinação explosiva


Em janeiro, Camilo se inscreveu numa sala de escalada e tem praticado o esporte uma vez por semana. Quando cheguei da viagem ao Brasil, encontrei um Camilo mais magro. O vi sem blusa e perguntei com toda minha espontaneidade paraibana "oxe, cadê teu bucho, menino?!" Não é que ele esteja slim, exibindo uma cintura de Barbie, mas ja pôde diminuir um ponto no cinto e, domingo, ele vestiu uma calça que não cabia nele havia meses!

Se eu ainda precisava de algum motivo pra me inscrever na escalada, achei um. Ainda relutei, mesmo com os convites de Camilo, porque acho importante pra saude da nossa relação que cada um tenha suas atividades particulares. Mas foda-se. Quem deve ter ficado triste foi Corentin, figura que mora com a gente e que tinha como parceiro pra escalada (que se faz em dupla) Camilo. Alias, Co ja morou dois anos com Camilo (esse é o terceiro ano), estudou com ele na universidade, estagiou com ele na mesma empresa, trabalha com ele atualmente e juntos tão criando uma empresa. Alias, eu sempre digo que a verdadeira namorada de Camilo é Co, que eu sou apenas a amante.

Seja como for, fui com Camilo pra uma aula de teste. Meo-deos-do-céo. Me deparei com aquela parede enorme, cheia de pontinhos minusculos dos quais eu teria que me equilibrar pra subir, contanto somente com a segurança de uma corda em caso de queda.

Vamos ao ja conhecido esqueminha do Paint (ja conhecido pelos leitores do finado Circo) pra saber como a coisa funciona:

Camilo (suspenso, na figura) faz um noh especial e o envolve no seu cinto de segurança (vide foto em que ele exibe feliz seu presente de aniversario). A corda vai até o topo da parede e desce até o meu cinto. A medida em que Camilo sobe, eu tenho que ir recuperando a corda dispensada por ele num movimento um pouco complicado, mas de extrema importância em caso de queda. As vezes ele cai de repente e, como ele é mais pesado do que eu, ele me suspende o bastante pra que eu tire os pés do chão, mas não o suficiente pra que eu suba e ele caia. Seria engraçado se não fosse tenso.

Ele sobe agarragando somente um tipo de presa indicada por uma cor especifica. E, quando chega em cima, eu vou dando corda pra que ele desça vagarosamente. O problema, meus amigos, é que eu não sou assim, uma pessoa que fica à vontade com os pés longe do chão. Na primeira vez em que tentei escalar, fiquei feito uma macaca a sete metros de altura, petrificada la em cima. Pra descer, você tem que confiar na pessoa que estah la embaixo e simplesmente se jogar, enquanto ela te desce. Acredite, não é facil.

Na primeira vez, quando cheguei la em cima, toda feliz porque tinha conseguido controlar meu medo, ele disse:

- Vai, agora se joga!
- Errr... tah bom! (segurando a corda)
- Vai, Luci, se joga!
- Tah bom, tah bom! (segurando a parede)
- Luciiii! Vamos la, vai, eu tou aqui!
- Eh, porra, e eu tou aqui!

Aih, eu solto a corda e vejo que continuo no ar, esperando que ele me desça. Beleza.

- Luci, agora você tem que colocar suas pernas retas, senão, quando você descer, você vai ralar o joelhos na parede.

Olhe, eu ja tinha feito o esforço sobrehumano de soltar minha mãos da parede, mas deixar as pernas retas significaria ficar ainda mais longe dela. Por esse motivo, eu cheguei la embaixo com apenas metade de cada joelho, porque eu fui quicando de cima à baixo.

No final da sessão, eu tava incapaz de levantar meus braços acima dos ombros. A coisa é muito cansativa. Ainda bem! Se eu não morrer (de medo) daqui pra setembro (quando termina minha inscrição), eu espero estar slim. Nem que pra isso eu tenha que sacrificar meus joelhos.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Desempregos de verão

Agora que tou desempregada, me pergunto se eu não me demiti cedo demais. Apesar de ser um trabalho nada edificante, a faxina me dava duas coisas que eu aprecio muito nessa vida: independência e sono tranquilo.

Mas aih vem as aventuras!

No ultimo dia 07, teve um forum em Lyon pros jovens que estão à procura de empregos de verão. Na França, o sistema de férias escolares é bem diferente do sistema do Brasil. Aqui, você não soh tem somente um mês de férias no fim do ano e outro no meio dele. Você tem varias semanas de aulas e férias intercaladas durante o ano e, no verão, você tem os três meses livres. Eh por isso que os estudante usam esses meses pra trabalhar e depois curtir as férias. E chove empregos (de merda) nessa época!

No forum, tinha emprego pra motorista de trenzinho, pra animador de colônia de férias, caixa de supermercado etc. Camilo aproveitou bem essas oportunidades durante a sua vida de estudante universitario. Ja trabalhou num matadouro de porcos, foi salva-vidas numa colônia de férias, vendedor de peixe, pedreiro e entregador de lista telefônica. Em 2005, ele trabalhou um mês, pegou os mil euros e passou as férias no México, nesse lugar feio aih da foto.

Então, la fui eu pro forum. Entrei toda esperançosa, mas trinta minutos depois, eu ja tava fora do prédio, chutando pedrinhas. A primeira dificuldade: chegar até a coluna de anuncios. Encontrei gente mais desesperada por emprego que eu, tive que rastejar entre as pernas da galera, socar alguns, subornar. Segunda dificuldade: entender quais eram os cargos que estavam sendo oferecidos. Anotei um monte de anuncio sem saber se era pra trabalhar como pedreiro ou prostituta. Mas la estava eu: caneta a todo vapor. Muitas vagas exigiam formação ou eram chances fora de Lyon. Por isso anotei somente cinco ofertas.

Fui almoçar com Camilo logo depois. Amor, o que é plongeuse? Lavadora de prato. Foi assim que aprendi mais uma palavra em francês. Mas no Dicionario Lendemain, plongeuse pode também ser homem-rã. Eh que tinha uma vaga pra lavadora de prato numa sorveteria. Conversei mais um pouco com Camilo sobre as outras possibilidades, mas todas apresentaram alguma retrição (eram longe ou eu não tinha disponibilidade pro cargo).

Então, depois do almoço, me enchi de coragem, peguei a fantasia de rã que eu trago sempre comigo, pro caso de eventuais emergências, e cheguei na sorveteria um tanto assim, balbuciante. A mulher mal olhou meu CV e ja foi perguntando quando eu poderia começar. Mas aih veio o meu porém: eu não quero trabalhar nos finais de semana, nem durante a noite. Por isso a dona da sorveteria falou que não ia dar. Eu quero muito trabalhar, mas soh quem mora aqui pode entender o quanto pode ser sagrado o verão e eu, definitivamente, não quero perder os melhores momentos do ano dentro de uma sorveteria! Vestida de rã!

Mas vou colocar meu plano B em pratica: amanhã tenho um encontro com um cara de uma agência de empregos e acho que ele pode me ajudar. Vamos ver. Ainda tenho o plano C, o D, o E e o F de fudida. Espero não precisar recorrer a este ultimo: voltar a ser faxineira.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Não vou de taxi - parte I

Uma amiga me escreveu ha algumas semanas dizendo que tinha repassado o endereço do meu blog a irmã que viria estudar em Lyon pra ela começasse a se acostumar com a vida aqui. Como mal escrevo sobre a vida em Lyon, vou fazer um esforço maior pra isso.

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Quando me perguntam sobre as coisas que gosto na França, "os transportes" é quase sempre a primeira resposta. Pra quem tava acostumada a esperar mais de uma hora por um misero ônibus, ter cinco opções de transporte publico é realmente incrivel.

FUNICULAR

O primeiro no mundo a transportar passageiros, foi inaugurado em Lyon em 1862. Atualmente existem duas linhas de funicular na cidade: Saint-Jean - Saint-Just e Saint-Jean - Fourvière. Eh um dos meios de transporte mais frequentados pelos turistas, ja que a Fourvière é parada obrigatoria pra quem vai a Lyon - e também, como essa é a unica parte não plana da cidade, é muito cansativo chegar até la sem ajuda do funicular, mas soh pra pessoas como eu, assim, atléticas.


METRO


Existem quatro linhas de metrô apenas (comparado com Paris, ridiculo), mas ao menos eles passam com grande frequência. A linha de metrô D (foto), que tem um ponto pertinho daqui de casa, no horario de pico, passa a cada dois minutos. Eh a unica das quatro linhas que roda automaticamente, pro meu desespero. Ha umas semanas, Camilo e eu conseguimos pegar o ultimo metrô pra voltarmos pra casa. Pra nossa sorte, no vagão à frente, tinha meia duzia de idiotas querendo aparecer. Como se macacar e falar alto não fosse o bastante, eles desatarraxaram todas as lâmpadas do vagão deixando ele completamente no breu. Depois disso, eles conseguiram parar o metrô apos terem lançado uma chama altissima com um isqueiro. Como diriam na Paraiba, coisa de menino buchudo.

TROLEBUS

Lyon tem a maior rede de trolebus da França. Atualmente são somente duas linhas, mas ha o projeto de uma terceira que sera aberta no ano que vem.

TRAMWAY

As quatro linhas de tramway cobrem as areas em que não ha metrô. Em algumas cidades do Brasil ja existe o projeto pra ser lançado o VTL (Veiculo Leve sobre Trilhos), como Recife, Natal e João Pessoa (o que uma Copa não faz). Li que o querido Arruda foi até Sarkozy pra construção do primeiro VTL da América Latina la em Brasilia.

(continua...)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A lingua francesa

Camilo sempre gostou de cozinhar, por isso, no começo do namoro era ele quem cozinhava - alias, é ele quem cozinha ainda hoje, hihi. Então, num desses almoços de comecinho de namoro, ele fez um frango com abacaxi que me faz lamber os beiços até hoje. Quando ele terminou seu almoço, ele levantou o prato e o lambeu de cima à baixo. Ao ver aquela cena, fiquei me perguntando estupefata se ele ainda tava com fome. Pensei em oferecer o resto do meu frango, mas me limitei a observa-lo lamber o prato. E lamber e lamber e lamber...

"Meu deus, começa assim, daqui a pouco ele vai ta peidando na minha cara", refleti. "Ah, mas vai ver que era soh porque o frango tava muito gosto", ponderei. E, não, não era soh por isso. Almoço apos almoço, Camilo tentava engolir o prato no final da refeição. Pensei que eu fosse realmente muito fresca, mas um dia, um dos caras que morava com ele passou pela cozinha e perguntou sorrindo "e ai, Camilo, vai comer o prato?" Quando percebi que não era somente eu que me chocava com aquilo, resolvi falar com ele.

Disse que achava esquisito que ele fizesse aquilo, que eu realmente não me sentia à vontade. Ele disse que era besteira, que ele tava na casa dele e que ele jamais faria isso em um restaurante, por exemplo. Fiquei meio chateada, mas ele diminuiu consideravelmente a pratica.

Um ano depois, cheguei na França. E depois de tantos jantares, posso dizer que eu teria perdido as contas se resolvesse enumerar a quantidade de vezes em vi o pessoal lambendo o prato (em casa). Até o pai de uma amiga, mês passado, no final do jantar, perguntou educadamente "posso lamber o prato?" Haha Geralmente o francês tem à mesa uma cestinha de pães fatiados. A finalidade é, além de ter o pão como acompanhamento, limpar o prato no final das refeições. Na falta do pão, para alguns, vai a lingua. Mas no começo do namoro, eu não sabia disso.

Obs 1. Longe de mim dizer que isso é regra aqui
Obs 2. Sim, eu ja lambi pratos na minha vida, mas geralmente eu tava sozinha e era sobremesa!
Obs 3. Hoje Camilo arrota, peida e vomita na minha frente: mudei um pouco minha concepção sobre o que é educado ou não e eu faço o mesmo

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E aproveitando que estamos falando de modos à mesa e comida...

Aqui é realmente dificil começar uma refeição na presença de alguém sem escutar "bon appétit!". Nessa viagem ao Brasil, me peguei surpresa por as pessoas não dizerem isso. E também se costuma agradecer àquele que preparou a refeição. Adoro o ritual da comida na França! Meus cinco quilos a mais podem falar por mim.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Pascoa suiça

Na quinta-feira passada, resolvemos sair de Lyon nesse feriado de Pascoa. Todos nossos colocs iam viajar, então pensamos no mesmo e decidimos ir pra Suiça. Essa é uma das vantagens de se morar na Europa: em uma hora e meia, estavamos em solo estrangeiro. No Brasil, em uma hora e meia, eu não teria nem saido da Paraiba.

Entendo todos os suicidas finlandeses: chegamos no sabado chuvoso e o nosso humor se manteve nessa linha infeliz. Eu seria incapaz de viver num lugar sem sol, mas a previsão pra todo o fim de semana era somente uma: chuva. Felizmente, consultamos as previsões de meteorologistas incompetentes. A noite, seguimos pra casa do nosso anfitrião, o couchsurfer Bafou, um maliano muuuito gente fina! Couchsurfers com destino à Genebra: eu aconselho!

Como todos os preços estão obviamente em francos suiços, é normal que você se assuste a cada parada num café. Mas assustada mesmo eu fiquei com uma coisa: não existem supermercados em Genebra. Sério. Tentamos achar algum pra compramos umas cervejas, paramos meia duzia de pessoas pra pedir alguma informação, mas soh fomos encontrar uma loja na estação de trem. E se vocês quiserem comprar alcool, é bom que comprem antes das 21h, depois desse horario, é proibido vender alcool. Esses paises responsaveis, humpf!

Apesar de termos alguns pontos que gostariamos de visitar, andamos meio que sem rumo na cidade. Mas passamos pelo menos uma vez, nos três dias, no Lago Léman, onde fica o famoso Jet d'Eau. Não ir ao Lago ver o Jato, é como ir a Paris e não ver a bendita Torre. Mas minha necessidade foi além da turistica. O lago é lindo. Repleto de patinhos e cisnes. Eles soh não são tão bonitos jogando jatos de cocô na agua. Eu vi. Além de cocô de cisne, o lago tah repleto de veleiros branquinhos que passam rasgando levemente a superficie da agua. Fantastico!

Outras coisas que me deixaram curiosa: não vi muitas lojas arabes, mesmo as de Kebab; a cidade deve ser tão misturada etnicamente quanto Paris: tem gente de toda cor, tipo e tamanho - encontrei um milhão de italianos, um bilhão de portugueses e um zilhão de... brasileiros; não vi nenhuma estação de bicicleta (assunto pra um proximo post); sim: ha uma loja de relogio a cada dois metros e os parques são quase indecentes de tão bonitos. Achei graça quando vi um galo no Jardim Botânico.

O museu da Cruz Vermelha quebrou minhas pernas com uma exposição com fotos das guerras dos ultimos 150 anos. Tive uma subita e incontrolavel crise de choro na saida do museu porque realmente nada me parte mais o coração que ver criança sofrendo. E eu vi muita. Mas logo a gente voltou a nossa realidade feliz de gente bem nutrida e sem problemas e aproveitamos dela.

Talvez

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