terça-feira, 28 de setembro de 2010

Mainha é brother!

(...) Outra coisa, nunca deixe de mandar notícias apenas pelo fato delas não serem boas. Por razões obvias, é claro que eu gosto de receber boas notícias, mas que mãe seria eu se não ouvisse também os seus dissabores? Saiba que, apesar da distância, o meu cabeção tá sempre aí com vocês dois.Tá ligada? kkk

Espero que esteja melhor do catarro (é, minha gente, eu tive catarro).Tome vitamina C, pois o inverno se aproxima e o que você menos precisa agora é de ficar dodoi. Filhos não deveriam se afastar tanto assim da mãe. Dá um espécie de "impotência materna" nessas horas. Procura se recuperar e procurar um médico, se necessário. Eu também tive gripada por esses dias, mas já tô bem de novo. Seu papai tá de licença por quinze dias, pois se machucou em Fortaleza nos jogos da Caixa. Como se não bastasse, os bancos vão entrar em greve nessa próxima quarta-feira. Coitadinha de mim! Tá vendo minha filha, como tem coisas piores do que assistir aulas em francês sem entender? kkkkk

Ficar longe de você é uma delas.

domingo, 26 de setembro de 2010

Figo de uma figa!

Camilo mostrou toda sua indignaçao pra mim, outro dia, apos ter lido esse post. "Mimimi, eu nao sou desastrado, mimimi, eu sou azarado". Aih, me chega hoje com cara de bezerro desmamado.

Eu: - O que foi, amor?
BD: - Caramba, eu soh faço merda.
Eu: - La vem...
BD: - Quebrei o pote com a geléia de figo que Cecilia havia feito.

Mas quando eu falo que é desastrado...*

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Diana partiu, mas no lugar dela, restou outra mexicana, Victoria. Eh o quarto mexicano que passa pela casa. Em todos os quatro pude notar uma certa semelhança que vai além da fisica: mexicanos sabem fazer barulho. Hoje, Victoria preparou uma pequena festa aqui em casa com seus amigos da faculdade. Passei a tarde toda escutando "shot! shot! shot! shot!" e musica de mariachi. No começo da noite, a menina começa a gritar debaixo da minha janela. Fiquei emocionada, achei que fosse uma serenata em minha homenagem. Camilo foi verificar do que se tratava e a viu no chao, deitada, aos prantos, gritando "pinche figo!" O causo: escorregou num figo e arrombou o joelho que ja tinha passado por duas cirurgias nos ligamentos. As frutas de hoje estao cada vez mais perigosas.  O Samu foi chamado, ela foi pro hospital e passa bem.

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Ainda em tempo:

1. Camilo leu o post e tah aqui dando chilique, exigindo justiça: tu distorce tudo! Eu cheguei pra tu e disse 'acho que tu tem razao, eu sou mesmo desastrado' justamente pra nao ouvir 'eu nao avisei?'. Justiça seja feita, amor!

2. Enquanto eu escrevia o paragrafo anterior, Camilo vira pra mim, meio indignado, meio desconfiado e pergunta: e o que é um bezerro?

Coisa linda!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pondé, você conseguiu: eu me depilei!

Tudo começou quando vi esse post da Maira: e se eu nao quiser me depilar, algum problema?

E terminou quando vi uma mensagem no Twitter do @iavelar sobre o neopelucias.   

Imagino que tenha sido somente uma idéia provocadora, jogada ao acaso. Mas eu sou uma menina que leva as coisas muito a sério, e, como eu precisava ir aos correios amanha, nao resisti. 

Beijos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

As exploraçoes começa

O dia de ontem soh nao foi mais estressante porque soh durou 24h. Acordei de madrugada (6:40h) e, cheia de preguiça, fui pro meu primeiro dia de aula na faculdade. Desde que soube que fui aprovada, em julho, ignorei o fato de eu nao saber falar francês direito, fingi que esse seria mais um dos tantos momentos tranquilos da minha vida na França, que tudo daria certo.

Nao deu.

Eu era toda nervosismo. Tomei meu café da manha, tomei meu banho e tentei controlar meus pensamentos pra nao deixar um rastro de cocô de casa até a sala de aula. A unica coisa que me deixava tranquila, era o fato de que eu entendo francês. Mas até isso tiraram de mim!

A primeira aula de ontem foi de Historia Moderna I. As pessoas sacaram seus computadores e cadernos e começaram a escrever loucamente tudo o que o professor dizia. Eu, claro, quis fazer o mesmo: eu escrevia tudo o que eu entendia (ou seja, metade das coisas) mas como nao era rapida o suficiente mesmo pra escrever o que eu entendia, metade das frases que eu entendi ficou pela metade. Tcharam! Sinceramente, achei que eu tivesse arrasando, porque eu tinha quase uma folha completa escrita, mas quando fui lê-la, me deparei com coisas desse tipo:

"A cirurgia progressa. As descobertas e exploraçoes começa. As religioes sao conservadores. Tudo é vontade de Deus. Isso justifica todas as inegalidades sociais, mas no 19o ha o desenvolvimento do pensamento. (...) Os judeus se integram a essa pratica. (...) O pensamento é legal".

Gente.

Isso é anotaçao de quem ja fez faculdade? Traduçoes ao pé da letra, falta de concordância, falta de sentido (os judeus se integram a essa pratica. Que pratica, meu deus?!). O pensamento é legal. Realmente. Mais legal ainda é escrever certo. Mas tudo bem, continuei fingindo que tudo estava correndo bem (até quando o professor fazia piada e eu soh entendia que era piada quando as pessoas riam).

O cara citou o Brasil umas quatro vezes durante a aula. Falou de uma faculdade, dos bandeirantes, do futebol, de Copacabana e depois, que ja tinha dado aula la "em francês". No intervalo, levantei e fui choramingar junto a ele, tirar minhas duvidas e explicar que eu era brasileira e que...

- BRASILEIRA! Ah! Que maravilha! "Ftscdoe glsrpei"? :D
- Eh o que, homi?! Hum rum! (Interpretei essa frase bizarra como sendo "tudo bem?" e confirmei com um sorriso amarelo).
- Ah, mas você fala muito bem!
- Obrigada, professor, mas ta sendo dificil, é justamente sobre isso que eu queria fal...
- Ah, mas você é de onde?
- Joao Pessoa.
- Onde?
- Perto de Recife. Eu g...
- Aaaaaahhh! Que legal!
- Entao, professor, eu gostaria de...
- Ah, entao você mora perto de Olinda!
- Mizera, deixa eu falar.

Minha gente, eu soh queria perguntar onde eu poderia encontrar os textos. Acabei falando sobre o Brasil e sai sem nenhuma resposta! Ele soh disse que eu teria que me juntar com algum grupo pra fazer um trabalho oral (mais uma da série "Frases que nao podem ser retiradas de contexto"). Eh fogo! Eu ODEIO trabalho em grupo. Odeio! De todo o meu coraçao! Ainda mais nessa situaçao, em que vou ter que pedir pra ser aceita em algum grupo, porque, claro, depois de dois anos de curso*, todo mundo ja tem seus amiguinhos e seus grupinhos.

*Pra quem nao entendeu: eu ja sou formada em Historia pela UFPB, entao, por possuir esse diploma, fui diretamente pro terceiro e ultimo ano do curso de Historia na Lyon 2.

Eu ja tinha ha tempos desistido de fazer anotaçoes quando a aula acabou. Proximo round: Iniciaçao à Pesquisa em Historia Moderna, ministrada por um professor com voz de adolescente. Sabe quando os guri de 12 anos começam a trocar a voz E A FALAR assim, meio alTO E MEIO BAixo e totalMENTE TOsco? Pronto. Vi uma aula de Historia em diferentes frequências. Fantastico. La pela metade da aula (depois dele ter passado um trabalho em dupla, pro meu sofrimento), ele nos deu um papel com a reproduçao de um documento, como o da foto, escrito no século XVIII. "Agora, decifrem": era aula de Paleografia. Eu ri, né. Ri porque, vejam bem: eu passo quatro horas tomando no meu cu pelo fato de eu nao entender o que esta sendo dito pelos professores. Daih, chega um cara com um documento ilegivel do século XVIII e diz que eu devo transcrevê-lo. Eu nem sei ler o francês contemporâneo! Mas tudo bem, fingi que sabia tudo e, pra minha surpresa, o documento tinha muito mais sentido que minhas anotaçoes da outra aula.

Novamente, fui choramingar dizendo que eu era estrangeira e que precisava de ajuda. Ele disse que eu falava muito bem francês e o professor de hoje disse o mesmo. Foi aih que notei uma coisa: quando eu chego pra alguém mostrando dificuldade (por causa da lingua), as pessoas automaticamente elogiam meu francês tentando levantar minha moral. Quando eu me apresento como brasileira, sem comentar nada além disso, ninguém se manifesta. Utilizando isso como tatica, ja consegui ser liberada de duas apresentaçoes orais. Hihi (e nao quero saber de quem vai dizer que isso nao é bom pra mim. Se eu soubesse que nao corro o risco de ter um ataque cardiaco durante uma apresentaçao pra 40 pessoas, eu a faria).  

Finalmente, sai meio que em estado de choque da universidade. Fui encontrar Diana: era o ultimo dia dela na França. Resumindo lindamente essa segunda parte do dia: fomos deixa-la na estaçao, segurei o choro e, na volta pra casa, fui andando devagar pra nao balançar demais e explodir em lagrimas (coisa que soh fiz quando cheguei em casa). Agora, acabou. 

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Um parênteses

Eu poderia até dizer que esse post é fruto da minha TPM, mas eu nao tou com TPM. O post é de graça e ja faz um tempo que eu venho pensando em escreve-lo. 

Sei que cada pessoa que decide morar fora do seu pais tem uma experiência unica em relaçao a isso. Ha os que vao pra nunca mais voltar pela saudade da terra natal ser muito menor que as vantagens em se morar longe dela. Ha aqueles que sonham com a cidade em que cresceram todos os dias, num banzo sofrivel. Eu, eu ja nem sei mais o que sentir. 

Quando cheguei pra morar definitivamente aqui, eu chorava horrores e ficava entre a delicia de estar com Camilo e o sofrimento de nao poder ver o rosto dos meus amigos. Aqui, descobri que eu iria enfrentar mais despedidas do que se tivesse me fixado no Brasil. Porque aqui, todo mundo vai embora. A Europa te da essa oportunidade de estudar sei la onde, de trabalhar do outro lado, e eu ja venho me preparando pra, de novo, me despedir da minha atual "melhor unica amiga", aquela que foi, no ultimo ano, a peça fundamental pra que eu me sentisse viva e nao murchasse nessa terra fria. E ela disse que eu ia sofrer. Nao é por maldade, ela sabe: "todo mundo vai embora daqui, Luci, e eu nao sei como tu aguenta tanta despedida". E depois continuou dizendo que nao teria minha coragem de abandonar tudo assim. Aih eu tive que incorporar Bob Dylan e explicar. 

Me encontrei formada, sem emprego, sem perspectiva de nada, com o cara que eu amava puxando minha mao, me convidando gentilmente a dividir teto e problema com ele. Quem nao iria? E hoje, eu olho pra Camilo em silêncio, e até o dentinho discretamente rachado que ele tem, me encanta. Mas eu tenho um buraco que nao pode ser preenchido por ele (por favor, nao tirem essa frase de contexto): necessidade de amigos. Nao tou falando de qualquer tipo. Falo do perfil dos meus amigos que francês nenhum, nem de longe, pode parecer alcançar. 

E isso tudo era pra dizer que o blog e tudo o que ele me traz, direta e indiretamente, tem me feito bem. Ele passou de uma simples ferramenta de contato entre mim e meus amigos à uma poderosa forma de escape nos dias de furia (e de tristeza, e de saudade, e de alegria) e vocês sao as grandes responsaveis por isso, por aliviarem essa necessidade de contato humano. Claro que minhas relaçoes virtuais nao irao nunca substituir o contato real. Claro. Mas fico super satisfeita de conhecer um pouco mais da vida daquelas que estao no meu blog hall, de poder compartilhar momentos da minha vida aqui e de perceber que pessoas interessantes se interessam por eles. 

Talvez esse post tenha saido hoje porque, essa manha, eu acordei e me deparei com um recado no Orkut muito carinhoso, inesquecivel, deixado pela maluca da Glorinha (lindo, viu? Vocês nem imaginam como ela foi fofa. Ou imaginam. Fiquei toda besta!). Eu sou sensivel demais pra deixar essas "demonstraçoes publicas de afeto" passarem sem serem reconhecidas. Fico realmente muito feliz com as mensagens que vocês deixam aqui: quando dizem que torcem por mim, quando ficam preocupadas, ou quando simplesmente riem da minha cara por algum post mais avacalhado. Como igualmente é adoravel lê-las, questiona-las e conhecê-las um pouco mais. Escolho a dedo os blog que leio e adiciono, e sinto muito orgulho das visitas que recebo. 

Quero agradecer, mas nao vou citar nomes. Quem vem aqui com frequência deve saber que me sinto agradecida pela sua presença e os outros, devem saber que sao sempre bem-vindos. Esse post é pra isso, pra um grande obrigada.  

Go to him now, he calls you, you can't refuse
When you got nothing, you got nothing to lose
You're invisible now, you got no secrets to conceal

How does it feel?
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

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Va para ele agora, ele te chama, você nao pode recusar
Quando você nao tem nada, você nao tem nada a perder
Você esta invisivel agora, você nao tem mais segredos a ocultar

Como se sente?
Por estar por sua conta
Sem direçao alguma pra casa
Como uma completa estranha
Como uma pedra a rolar?

(Dylan)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Praga

A viagem à Praga, pra mim, nao foi tao marcante quanto a de Berlim, mas posso dizer que Praga é a cidade mais bonita que ja vi. Pra onde se olha, ha alguma coisa bonita a ser vista, é impressionante. Os prédios, as pontes, os parques, os jardins... as tchecas - nunca vi tanta mulher gostosa! Mas o que você mais vai ver em Praga, amiguinho, é turista. Aos milhares. Por isso, se você for à Praga, muita atençao aos pick pockets. Uma coisa atrai a outra.

Achei o povo de Praga, em relaçao aos alemaes, igualmente tranquilo. Todas as vezes em que pedimos informaçao, percebemos um esforço por parte das pessoas em tirar nossa duvida. Mesmo aquelas que nao falavam inglês, gesticulavam e sorriam. Adorei ver os casais gays da cidade. Era comum ver homens e mulheres de maos dadas com seus parceiros. O mesmo pra Berlim. Em Lyon, essa exposiçao é bastante rara. 

A cerveja é ridiculamente barata. No supermercado, 20 centavos de euro por meio litro. Vou repetir. Vinte-cen-ta-vôs. Meio-li-trô. No Jardim da Cerveja, no topo de Praga, onde fica o Metrônomo (foto abaixo), e uma linda vista da cidade, compravamos meio litro de cerva por 1€. Esse parque (Jardim da Cerveja) é lindo, enorme e tem bares que vendem cerveja barata. Fomos duas vezes. 



Na segunda vez, à luz do dia, pudemos reparar nas crianças praguenses. O nosso anfitriao havia nos dito que as praguinhas comem desde cedo "comida de adulto", que a dieta deles é a mesma dos pais. E, como os pais se empanturram de comida ruim, os filhos seguem o caminho. Nessa tarde de cerveja, vimos varias maes acalmarem os guris com batatas fritas. Os bebês, que nem tinham idade pra andar, seguravam suas batatinhas. Outra criança, que deveria ter um ano e meio, com sua lata de Fanta na mao. Podem me condenar por eu estar criticando os pais que fazem isso, mas acho que ha coisa melhor a se oferecer a um bebê. Pior que, pela grossura dos braços das crianças, aquela nao parecia ser uma pratica rara, de final de semana. 

Outra coisa muito curiosa que vi, foi varias crianças vestidas iguais. As maes que tinham duas ou três filhas (vi isso somente com meninas) as vestiam com roupas idênticas, mesmo elas nao sendo gêmeas. Nunca tinha visto isso antes. E alias, ja acho bizarro vestir crianças gêmeas de maneira igual. 

Bom, como de costume, usamos o Couchsurfing pra nos hospedarmos. Ficamos na casa de um senhor de 65 anos que tinha acabado de fazer seu perfil no site e, no espaço de duas semana, ja havia recebido 16 pessoas. Quando chegamos na casa dele, ja havia quatro hospedes. O cara é uma figura: um inglês muito bem humorado, de piadas acidas, que bebia cerveja o dia todo. Um sonho! Assim que chegamos na casa dele, nos deparamos com nada menos que cinquenta relogios espalhados pelos cômodos (contei "somente" 55). No banheiro, tem quatro. Na cozinha, cinco. No quarto e sala, o restante. Ele também nunca contava o tempo usando as horas, mas sempre os minutos. "Vocês vao demorar 60 minutos pra chegar em tal lugar". E, cada vez que falava sobre o tempo entre sua casa e tal lugar, era de uma precisao incrivel. "Vocês vao levar 16 minutos pra chegarem". 



Ele nos deu um pequeno roteiro que ele havia feito para seus couchsurfers conhecerem melhor a cidade. Mas eu nao vou me estender muito sobre essa viagem. Vou postar as fotos e falar sobre algumas coisas rapidamente.



Torre de televisao Zizkov, também chamada de "Pênis de Praga". Falei: toda cidade tem alguma construçao falica. Lyon tem seu famoso Crayon. Recife, a pica de Brennand. Berlim, a Torre de TV. E assim vai. Se vocês repararem, tem uns bebezinhos subindo pela torre. Arte de David Cerny. Também vimos mais bebês de Cerny à beira de um rio de Praga:



Prefiro meu guri

O inglês me colocou numa cama de armar que fazia TREC! cada vez que eu me mexia. Bastava eu pensar em respirar que a cama fazia TREC! Aih, eu comecei a ficar incomodada por estar respirando, porque tinha outras quatro pessoas dormindo no mesmo cômodo. Foi uma noite e tanto! As molas que ficavam na altura das minhas costas ja estavam bem gastas, deixando um buraco nessa parte. O nivel dos meus pés e cabeça estava bem acima do nivel da coluna. Aquilo parecia mais uma rede, entao, eu nao poderia dormir de bruços (a unica posiçao que me permite dormir) com medo de quebrar minha coluna. Mas me mantive sossegada, tentando nao respirar muito. Mas do que adianta você tomar tanto cuidado quando você tem um namorado doido que tem o sono assombrado? No meio da noite, acordo com uma movimentaçao estranha. Quando olho pro lado, vejo Camilo se levantando e indo sentar no sofa onde dormia o inglês. 

PANICO.

Imagine o susto dessa criatura quando Camilo sentasse na cabeça dele? Dei um pulo, TREEC!, agarrei a mao de Camilo, TREEEC!, e fiquei puxando, TREEEEC!, ele pra perto de mim. O inglês acorda, se levanta e vai ao banheiro. Camilo desperta. 

- Menino, o que é que tu quer fazer, hein?!
- Sei la!

Eh tao tenso dormir com Camilo, meu deus. Noite sim, noite nao, ele apronta dessas. Outro dia, acordei com um pé na minha cara: era ele que tinha virado ao contrario enquanto dormia. Ha umas semanas, ele acordou, puxou meu cabelo (sabe criança puxando cabelo da amiguinha? Pronto) e dormiu. Eu acordo sendo maltratada, minha gente. Posso nem acionar a Lei Maria da Penha, porque o desgraçado faz dormindo. Ele da chute, beliscao, puxa o lençol, o cabelo, empurra, fala, grita, levanta, ri. Quando é comigo, tudo bem, mas quando a gente divide o quarto, eu durmo com um olho aberto e outro fechado. No dia seguinte, eu estava tao quebrada, que quando eu respirava, doia, juro!

Esquecendo a noite passada, pegamos um tramway, fomos até a parte mais turistica da cidade, ao norte, e descemos a pé, visitando os pontos mais famosos da regiao. A tarde, quando chegamos numa praça bonita, comecei a me sentir mal: lombrigas dando sinais de vida. Otimo, pensei. Comecei a suar levemente e minha pressao foi baixando. Fiquei em duvida se eu ia desmaiar ou cagar nas calças. Foi entao que vi um banheiro publico. Como a maioria das minhas disenterias sao psicologicas, respirei fundo e disse com firmeza a mim mesma que aquilo nao era nada. Três segundos e meio mais tarde, eu estava no banheiro.

Essa disenteria (e as três seguintes...) foram oferecimento da comida de Berlim. No ultimo dia na cidade, por exemplo, comemos pizza no café da manha, Kebab no almoço, uma porçao de batata frita + salsicha no lanche e mais pizza no jantar. Uma disenteria era o minimo que eu poderia esperar com uma dieta tao equilibrada. Fica o exemplo.

Jardim biito









Muro John Lennon. Fica em frente à Embaixada francesa. Famoso, até Yoko Ono ja deixou mensagem aih. 









Cristo feito de calçados



Dancing House - originalmente chamado de Fred e Ginger - tem um restaurante francês no teto e uma vista incrivel da cidade. 









Meiguinha na Praça Venceslau com o Museu Nacional ao fundo. Essa é uma das praças mais importantes da cidade. Foi nela em que Jan Palach, um estudante de Filosofia, ateou fogo ao proprio corpo em sinal de protesto contra a ocupaçao soviética, morrendo três dias depois. 






Achei os museus caros. Fomos somente a dois: Museu do Comunismo e o de Mucha (lê-se "murra"), onde havia uma linda exposiçao sobre ele. O trabalho do cara é sensacional. Compramos cartao postal, blusa, cartaz, isqueiro, tudo que eu tinha direito. Adoro! Grande parte da cidade esta construida no estilo Art Nouveau, estilo criado por Mucha. 

O Museu do Comunismo, na minha humilde opiniao, deveria se chamar Museu Anticomunista, porque apesar da historia de Praga parecer ter se tornado negra no momento da ocupaçao soviética, soh havia uma versao dos fatos nos painéis que contavam a historia do comunismo no pais. O comunismo matou mais, poluiu mais, fez mais infelizes, comeu crianças, bla bla bla. Olha, enchi o saco na metade da visita. Os souvenirs consistiam basicamente em reproduçoes de cartazes soviéticos com mensagens pouco elogiosas aos vermelhos. Em um cartaz em que se via, originalmente, meninas comunistas, havia uma frase que dizia "por que nos nao queimamos sutias como as americanas? Porque eles nao existem por aqui". Ou qualquer coisa do tipo. Havia um video com imagens dos anos 90 de revoltas realizadas na Praça Venceslau e duramente reprimidas pela policia. Chocante. De qualquer forma, achei o Museu um perigo praqueles que nao tem senso critico (alias, qualquer coisa pra alguém que nao tem senso critico é um perigo). Ironicamente, o Museu fica no prédio de um cassino, bem ao lado de um McDonalds. 



Quer dizer, ainda fomos num terceiro museu. Camilo viu esse cartaz e chamou minha atençao. Estavamos no final do penultimo dia de viagem, mas depois de ver esse cartaz, era obvio que eu tinha que reservar o ultimo dia de pra ver essa exposiçao. Valeu a pena. Vimos umas fotos raras, um casaco de John Lennon, uns rabiscos que ele fez num envelope e outras coisas idiotas que soh um fa da valor.





Por hoje é soh, pessoal!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Casal Midas da destruiçao

Pro Priberam, "desastrado" significa "desajeitado, desgracioso, funesto, infeliz". Pra mim, significa tao somente "Camilo". Nem o Katrina causou tanta destruiçao por onde passou. 

(Nesse momento, ele deve estar lendo e pensando: "o que foi que eu fiz pra merecer esse post, meu deus?"). Calma, meu bem, vai doer pouco.

Ha alguns meses, Audrey chegou toda contente em casa com um litro de um oleo fino que havia sido produzido na casa dos seus pais. Proibiu terminantemente de que utilizassem o oleo pra cozinhar. O oleo deveria ser usado somente nas saladas, pois era especial demais pra que fosse desperdiçado em frituras. Dois dias depois, Camilo explodiu a garrafa de oleo no chao da cozinha, sem querer. 

Cecilia, desde o começo do verao, começou a se ocupar da plantacao de flores. Quando viajava, pedia pra que alguém da casa nao esquecesse de regar suas pequenas maravilhas. A sua preferida era um girassol, que ainda nao havia florescido. Com frequencia, ela dava o relatorio do crescimento ao pessoal da casa, orgulhosa da plantinha. Um belo dia, arrancando as ervas daninhas, Camilo matou o girassol sem saber do que se tratava. Cecilia chorou e passou um dia sem falar com ele. 

Quando cheguei na França, ganhei um dos presentes mais legais que poderia ganhar: uma bicicleta. Com ela, eu ia pra todo lugar: pro centro, pro trabalho, pras aulas, eu caia, enfim, eu era feliz. Foi um ano e meio de puro amor pela minha bicicletinha. Até que um dia... apareceu o monstro das maos tortas, pediu minha bicicleta emprestada e... vocês ja sabem. Destruiu, sei la como, o sistema de marchas. Conserto: 100€. Nova: 150€. Agora me perguntem se eu tenho dinheiro. 

Eu nao posso criticar muito. Apesar de eu nao me considerar desastrada, tenho algo que eu poderia chamar de "nervosismo demolidor". Eh que quando eu fico nervosa, as coisas ao meu redor se quebram, explodem, racham, caem, morrem etc. Tou cortando batata, chega alguém que me deixa envergonhada: corto um dedo. Tou andando na calçada, a vizinha pergunta algo que eu nao entendo: eu tropeço. E assim vai. Eh por isso que eu sou um perigo na bicicleta, minha gente, porque eu estou sempre nervosa. O meu historico de quedas nao me deixara nunca repousar na tranquilidade de um passeio. 

Ontem, voltando feliz de uma pizzaria de bicicleta, perguntei a Camilo se nao poderiamos voltar pra casa por outro caminho que nao aquele da pista de tramway que sempre pegamos. Minha gente, é tenso passar por essa pista. Além de eu ter que ficar ligada no tramway que vem de frente, tenho que ficar ligada naquele que vem de tras. Mas meu olho de tras é cego. Fora isso, tem os carros que podem dobrar a qualquer momento na sua frente. Mas Camilo insistiu e eu fui. 

La pela metade do caminho, vejo que um tramway vem atras e, na minha frente, um pedestre e um ciclista. Pronto, foi demais pra mim. Fiquei louca, tentei passar pra pista do lado, prendi o pneu da bicicleta na linha do tramway QUE ESTAVA VINDO. Ai meu deus, ai meu deus, a bicicleta ficou desgovernada! Ai meu deus, o tramway! Eu vou morrer, eu vou morrer, socorro e... Potof. A bicicleta caiu. Mas como eu tenho PhD em queda de bicicleta*, dessa vez, consegui pular e cair em pé. Da proxima vez, vou apromirar o show e tentar dar uma pirueta no ar antes de tocar o solo. Apesar de nao ter quebrado a cabeça, torei a minha sandalia preferida. Aquela que eu usava pouco como forma de prolongar sua vida. C'est fini: torou em duas partes. 

Agora, vou ser malvada com aqueles que me amam e que achavam que tinham motivo pra se preocupar comigo: ha duas semanas recebi minha carteira de motorista francesa. Sim, estou apta a conduzir veiculos pelas ruas lionesas! Mas eu tenho um otimo historico no volante: soh fiz uma baliza certa (no dia do teste) e estava ha 16 meses sem dirigir (onde a ultima vez... foi no teste). Alguém mais ta tenso?

*Duas das quatro quedas: post 1, post 2, post 3 e post 4 (fotos) - nao abrir o ultimo link caso esteja fazendo uma refeiçao.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Quem vale mais?

Ontem aconteceu uma coisa muito chata e, apesar do post passado ser suficientemente triste, eu preciso escrever sobre o que aconteceu na esperança de poder esquecer. 

Ontem, vadiando no Twitter, cliquei num link deixado por uma conhecida. Era matéria de um jornal de Joao Pessoa anunciando o assassinato de um faixa preta em Jiu Jitsu. Parece que o cara tentou deter um ladrao que tentava assaltar uma conhecida dele e acabou levando três tiros no peito. Fechei o site, continuei no TT e cheguei, sei la como, no perfil de um conhecido que eu nao via ha muito tempo. Comecei a ler suas mensagens por pura curiosidade. Nelas havia palavras de condolência pela morte de um amigo. Quando li o nome do amigo morto nao acreditei, porque ele foi o primeiro cara que eu fiquei e, olha, é chocante quando você sabe da morte de alguém que você conhece, ainda que seja uma pessoa distante. E, sim, a materia do jornal sobre o cara assassinado era sobre ele.

Eu passei a tarde inteira chocada, pensando na morte babaca que o coitado teve (tentou parar um ladrao que ja tinha desistido de assaltar uma vizinha). Me peguei dando muita importância ao fato. Imaginei o quanto ele deveria ter sofrido enquanto estava caido na calçada, sangrando com dois tiros no peito. E quem poderia imaginar, no momento em que estavamos juntos, ha dez anos, que ele iria morrer tao cedo? Finalmente, quando Camilo chegou em casa, contei a historia meio triste e, finalmente, desatei no choro. Sabe quando você é criança, machuca o dedo, segura o choro e soh solta quando chega perto da mae? Foi isso que aconteceu. Chorei, nao tanto pela perda, que nao foi a minha, apesar de eu sentir muito, mas por sentir um desamparo, por me dar conta do quanto somos frageis - e todas essas reflexoes automaticas que soh a morte traz. 

Ninguém sai de casa esperando que vai morrer. A gente fica um pouco receoso por pegar um aviao, redobra o cuidado quando precisa fazer uma longa viagem de carro, mas ninguém se precave quando sai pra comprar pao, quando dobra a esquina de casa. 

Aih chega nego e me diz: "nossa, mas Joao Pessoa agora ta muito violenta, nao é mais a mesma". Ta nao, cara-palida, sempre foi violenta, o problema é que essa violência nao chegava à bolha na qual a gente vive. Mas ela sempre teve aih. 

Ha uns meses, um amigo me contou que um grupo de amigos dele foi assaltado. Roubaram somente o celular de um deles. A policia chegou, levou o assaltado à favela e pegaram os ladroes e o celular. Aih a policia perguntou ao assaltado: "sim, mas e aih? Quer que eu mate os caras, como vai ser?" (Pois é, pasmem). Se o assaltado tivesse dito "sim", dois homens teriam morrido naquele momento por causa de uma merda de um celular, mas isso nao chocaria ou preocuparia a sociedade  tanto quanto a morte de Eduardo - branco, classe média, esportista - chocou e preocupou. Entao, sera que Joao Pessoa se tornou violenta apos a morte de Eduardo ou sempre foi assim, mas a gente nao se importava porque nao era "um dos nossos"? 

sábado, 4 de setembro de 2010

Berlim - parte III - Campo de Concentraçao Sachsenhausen

Terceiro e ultimo post sobre a viagem à Berlim - para ver os dois outros posts, clique aqui e aqui


Uma pequena introduçao pra que a importância da visita pra mim a esse campo seja melhor compreendida por vocês. Teoricamente, eu tou apta a transmitir o ensino da Historia. Repito, teoricamente. Eh esse importante e prazeroso poder que meu diploma me permite. Pra que eu o obtivesse, eu tive que passar alguns preciosos anos da minha linda juventude dentro de uma universidade. Mas meu amor pela Historia, ao contrario do que se poderia esperar, tem muito menos ligaçao com a Academia do que qualquer um pode supor: é inato. Veio sei la de onde, cresceu sei la como. Sou eu mesma. Acho fenomenal como a Historia é misteriosa e inalcançavel, como nunca iremos conseguir nos apropriarmos totalmente dela, chegar ao fundo, desvenda-la. Acho lindo esse mistério.

E, de toda essa boniteza, o que consegue me tocar com extrema facilidade, sao essas tais historias que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Eu sei esse é um tema que deixa muita gente comum* curiosa e intrigada (imagino que seja como a Ditadura brasileira ou a Inquisiçao). Mas em mim, isso ganha outras proporçoes. E quanto mais eu mergulho, mais eu me sinto completa. Entao, olha, foi um dia que eu nunca vou esquecer. Nao eram mais livros, nem relatos, nem fotos: era eu no espaço em que a palavra sofrimento perdeu significado por nao ter dado conta do tamanho da dor vivida.

*Comum no sentido de nao haver relaçao profissional com a Historia


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O Campo de Concentraçao Sachsenhausen foi o primeiro campo nazista e, entre os anos em que os alemaes estiveram no seu comando, entre 1936 e 1945, foram mortas 200.000 mil pessoas, a sua maioria homossexuais, judeus, ciganos, pobres e deficientes fisicos. Fica a 35km ao norte de Berlim, na cidade de Oranienburg.

A entrada é gratuita, mas o audio guia custa 3€ e eu aconselho fortemente que o visitante o adquira. O audio ta muito bem feito, contem informaçao referente a cada ponto do campo e outras informacoes "secundarias" (como o testemunho dos presos ou discursos politicos). Agora, paciência pra absorver a grande quantidade de informaçao que o guia traz: passamos varias horas no campo e eu sai sem ver tudo, a visita é longa e minha orelhinha, que ja tava vermelha, nao caiu no chao por pouco.


O ponto de partida leva a esse caminho por onde os presos chegavam ao Campo. Era o ultimo momento de liberdade deles. As fotos nas paredes contam um pouco a historia do Campo e dos que passaram por ali.


Essa casa era destinada à formaçao, alojamento e diversao das tropas da SS. Os homens contratados pra se ocupar dos serviços no Campo eram sobretudo formado por jovens por estes terem a vantagem de serem pessoas que nao tinham muito a perder (esposa, filhos etc). Dignidade nao conta.


Esse era o patio principal. Os presos recebiam as boas vindas aqui. Um dos sobreviventes testemunha que ja ali começavam as humilhaçoes: eram frequentemente colocados nus. Os gays levavam chutes na bunda e tapas. Tinham o ânus revistado à procura de objetos de valor.




Portao do campo onde se lê "o trabalho liberta o homem".


Passando pelo portao, do lado de dentro do Campo, a torre em forma semi circular que garante uma visao ampla do lugar. O guia dizia que, dessa torre, podia-se atirar em qualquer um que estivesse no Campo.




Essas sao replicas dos barracoes dos prisioneiros construidas a partir de peças originais. Comportavam 400 pessoas. Tinham dormitorio, refeitorio, lavatorio e sanitarios (fotos seguintes).


Os presos tinham um espaço médio de 70cm pra dormir e, caso precisassem ir ao banheiro durante a noite, corriam o risco de nao encontrar mais espaço ao voltar.






Os presos tinham trinta minutos pra acordarem, comerem, usarem o banheiro e se lavarem. Cada fonte desta se destinava a dez pessoas. A agua, gelada, jorrava de um buraco central.


Esse era o local (patio em frente à torre principal) das marchas. Os presos deveriam correr com botas destinadas ao exército alemao com a intençao de testa-las. Eles corriam de manha até a noite, sem parar. Vocês podem imaginar o resultado dessas marchas.


Entrada de uma câmera de gas. Ao lado ficam ainda os crematorios e outras salas onde eram fuzilados os presos. As estes, era dito que eles iriam passar por uma consulta médica. Eles tomavam banho, trocavam de roupa e se sentavam de costas diante de um pequeno furo na parede. Os que tinham dente de ouro eram marcados com um X no braço. Ao sinal do "médico", o prisioneiro recebia uma bala na nuca através do buraco. Os que haviam sido marcados, eram selecionados e tinham o dente de ouro arrancado. Havia musica para abafar o barulho das mortes.


Crematorio




Balcoes pra autopsia


Os triângulos indicavam o motivo de cada detençao: vermelho pros presos politicos, amarelo pros judeus, roxo pros religiosos, rosa pros homossexuais e preto pros marginais.


Uma entre milhoes de historias: essa é a familia Nussbaum. O marido era um médico respeitado que trabalhava dando assistência a crianças e alcoolatras. Foi denunciado por dois colegas. Antes que pudesse ser julgado, foi sentenciado a três anos de prisao. Quando sua pena acabou, ele foi preso pela Gestapo e levado pra Sachsenhausen. A esposa havia tomado conta da casa desde entao e as despesas da familia foram gastas com os advogados. Quando ela recebeu a carta avisando sobre a morte do marido, comentou com a vizinha que a perseguiçao aos judeus era uma mancha no Reich Alemao. A vizinha a denunciou. A mulher foi condenada a um ano de prisao e morreu cinco meses depois.

Ninguém conseguiu escapar do Campo. Os que tentavam, eram fuzilados. No entanto, quando os guardas percebiam que a intençao dos fugitivos era a de serem mortos, eles se limitavam a dar tiros nas pernas ou braços dos presos. Alguns destes se jogavam de proposito contra as cercas elétricas.

Dezoito mil soviéticos foram mortos em Sachsenhausen nesse periodo. Ao fim da guerra, os soviéticos tomaram posse do Campo até 1950 onde mantiveram seus prisioneiros politicos. Nos anos 90, valas comuns foram descobertas e estima-se que 12 mil pessoas tenham morrido nas maos dos soviéticos. Ironias :)

A quantidade de relatos e informaçoes sobre as brutalidades praticadas em Sachsenhausen é enorme. As paredes e os audio guias estao repletos de testemunhos. Sinceramente, chegou um momento em que eu comecei a ter um inutil sentimento de vergonha. Vergonha de quê, nao sei exatamente. Talvez vergonha de incluir no meu passeio turistico um local de exterminio. Talvez vergonha por fazer parte da raça que praticou esses crimes. Talvez vergonha pelos momentos em que reclamei da minha vida perfeita. Vergonha. Inutil. Teve uma hora em que sentei numas escadas e fiquei, calada, cansada daquilo tudo, tentando entender. Uma pessoa que é castigada, que tem os cabelos cortados, as roupas retiradas, que é marcada como gado, que é privada de sua liberdade, que perdeu quem amava, que mal se alimenta, cujo o corpo nao mais o pertence, que é humilhada diariamente e que diariamente vê a morte passar ao lado... Que admiraçao eu sinto pelas pessoas que passaram por tudo isso sem perder a humanidade!

Tem uma frase de um dos sobreviventes em que ele diz que simplesmente nao sabe o que fazer com a liberdade dele. Essa frase foi uma das coisas que mais me marcou. Vocês podem imaginar o que significa? Aquela situaçao entrou tao fundo na pele dele, foi a realidade dele por tanto tempo, que ele ja nem sabe mais viver de outra forma. Eh ganhar a liberdade e continuar preso.

Endereço:
Gedenkstätte und Museum Sachsenhausen
Strass der Nationen 22
D-16515 Oranienburg
Horarios:
15 de março a 14 de outubro: todos os dias, das 8:30h às 18h
15 de outubro a 14 de março: todos os dias, das 8:30h às 16:30h
Algumas areas do museu sao fechadas às segundas.
Ingresso:
Gratuito. Folheto: 0,50 centavos Audio Guia: 3€
Como chegar:
Trem regional RE 5: desde a estaçao de Berlin-Hauptbahnhof até a estaçao de Oranienburg (25 min de trajeto) ou trem regional RE 12: desde a estaçao de Berlin-Lichtenberg até a estaçao de Oranienburg (30 min de trajeto)

Algumas informaçoes sobre essa viagem foram retiradas deste blog: Viajando pelo Mundo

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Chega de maças!


Gente, resolvi participar, depois de encerrado, do 4o concurso de blogueiras promovido pela Lola. Nao gosto muito da idéia de "concurso", porque isso me da a sensaçao de competição e eu sou daquelas que prefere nao jogar com medo de nao ganhar, pela pressão etc. Mas a idéia defendida pela Lola, é que os blogs sejam divulgados e que as pessoas possam se conhecer. E, como eu conheci muito blog legal através dos concursos anteriores, resolvi participar deste sem maiores frescuras. O concurso foi dividido em três partes e, caso eu entre, sera somente na terceira, mas vocês ja podem ler e votar pra primeira etapa. Entao, um, dois, três, la vai: A origem do meu feminismo.

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Estava eu lendo um livro à sombra de uma arvore quando, de repente, uma jaca caiu na minha cabeça. Aquele caso curioso provocou em mim um lampejo de auto-observação e, depois de assistir a um rápido filme que se passava pela minha cabeça sobre minha vida, me veio uma revelação extraordinária: "eu sou feminista!" - talvez o caso se torne ainda mais insolito pelo fato de que a arvore era uma macieira. Mas isso nao importa. O que importa é que minha vida mudou a partir dali. 

Ok, as coisas nao aconteceram assim. Na verdade, o processo foi menos romântico e levou mais tempo do que eu gostaria. Ironicamente, me tornei feminista graças a convivência com machistas. Afinal, leitor, sabe você o que significa crescer num dos estados mais machistas do Brasil? Pois eu vou te contar o que é. 

Meus pais nasceram em Campina Grande, interior da Paraíba e, meus avos, nasceram num interior ainda mais interior - tao interior que eu nem sei aonde fica. Nao fui um primor de inteligência, nem dispunha de um senso critico aguçado: sempre fui muito feliz com minhas Barbies, os carrinhos de bebês e as vassourinhas de brinquedo. Também aproveitei bem das "brincadeiras de menino" por ter dois irmaos. Era a única menina na minha escola que sabia fazer uma pipa ou lançar um peão sem perder um olho. Mas nossa irma nasceu e, como eu já tinha nove anos de idade, poderia me ocupar, além das tarefas domésticas, das fraldas cagadas da pequena. Questionada pela razao daquela injustiça, minha mae respondia com naturalidade e inocência: "porque você é mulher. Ou você quer que seus irmaos limpem a bunda da sua irma?" (Bom, na verdade, eu queria). "Prefiro que você lave os pratos, porque seus irmaos nao sabem fazer direito". Eh que se podia ler nos meus cromossomos algo como "Born to be dishwasher". 

Eu, como uma lady que sou, esperneava e gritava. Nao adiantava: centenas de anos de tradiçao estavam contra mim. Minha boa mae, que tinha aquele machismo cravado na pele, nem se dava conta do que estava falando quando dizia que eu deveria aprender a cozinhar porque, do contrario, no dia em que eu casasse, o marido morreria de fome. Meu irmão tinha liberdade pra dizer que ia dormir na casa da namorada. Se eu fizesse o mesmo, eu nao teria os 24 dentes na boca. Meu pai disse que ia escolher meus namorados. Minha mae dizia que falar palavrao nao ficava bem em uma mulher. Um inferno.

A vida de certas amigas igualmente me davam arrepio. Tinha aquela que fechava os livros, em plena época de vestibular, pra fazer o jantar do irmão (que ficava na sala com as pernas pro ar, gritando a fome e devolvendo o prato de comida caso este nao estivesse bom o suficiente pro seu paladar). E aquela outra que me revelou que nao iria perder a virgindade antes do casamento porque nao saberia com que cara olharia pro pai quando chegasse em casa. Ora, cara de quem deu, ué.

Anos depois, conheci o amado e resolvemos nos casar por meras questoes burocraticas (facilitar minha entrada e estadia no pais em que ele nasceu). O casamento era coisa simples (casei de jeans e All Star), mas minha avoh, temendo pela minha honra, me preveniu pra tirar fotos com o juiz, do contrario, eu ficaria mal falada, as pessoas iam pensar que eu tinha apenas me amancebado*. E contou historias de meninas do interior que, nao podendo casar como gostariam, se vestiam de noivas e tiravam fotos pra mostrar a sociedade que mereciam respeito. E nao ha nada pior pra uma mulher que a perda de seu himen sua honra. Minha prima, por exemplo, antes de casar, foi obrigada pelo meu tio a ir no ginecologista pra comprovar sua virgindade. 

*Viver como casada sem o ser

Eh natural que meus pais tenham reproduzido a educação machista que receberam da sociedade e dos meus avos. Por isso, me indago sobre o que me levou a me distanciar da cultura machista da minha família, do meu estado, do meu pais. O que faltou pra prima que cresceu comigo tornar-se feminista? Qual foi o momento que permitiu que eu tivesse esse comportamento quase fobico em relação ao machismo? Sinceramente, soh tenho uma explicação plausivel: foi a jaca. 

Talvez

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