quinta-feira, 30 de junho de 2011

Glub glub - parte II


C. Creuza

A avoh dos guris disse que, nos dois meses em que ela cuidou deles, emagreceu seis quilos. Estou esperando bater esse recorde e, baseado nesses três dias de trabalho, acho que vou conseguir. Essas crianças vao me deixar magra. E louca. Antes de trabalhar como babah, meu maior sonho era ser mae. Eh, era parir. Era povoar o planeta. Hoje em dia eu nao quero me ocupar de nada que nao tenha o tempo de vida de uma borboleta. 

No segundo dia de trabalho, na hora do banho, fui tirar a fralda de Creuza. Sabe quando a criança caga e você encontra cocô até nas costas dela? Pronto, foi o caso. Alias, quase sempre em que vou trocar a fralda dela (quase sempre = três vezes), encontro cocô nas costas da menina, porque ela tem o talento de cagar sentada. Ela nem fica de banda pra dar vazao ao cocô. Nao. Ela caga sentada mesmo, dai o cocô fica sem saida e vai parar quase no pescoço. Mas pensei "bom, ao menos ela nao vai fazer cocô na banheira, como ontem". Eu, inocente.

Mais uma vez, joguei os guris dentro d'agua, ensaboei todo mundo e deixei eles brincando. De repente, vejo uma tripinha marrom e fina saindo da bunda da menina. Olha, essa menina é uma maquina de cocô, so pode. Como eu disse no twitter, acho que o unico orgao que ela possui é um intestino: um graaande e imeeenso intestino que vai da guela ao reto. Mas nao havia tempo nem de chamar palavrao. Gritei "guri, sai da agua! Creuza ta fazendo cocô!". O menino nao costuma  me obedecer, mas quando ele ouviu a palavra "cocô", ele olhou pra irma e, no segundo seguinte, ja estava nos meus braços. Se eu tivesse gritado TUBARAO, ele nao teria saido tao rapido. 

Quando o pai chegou em casa, eu disse que os brinquedos precisam ser lavados porque tinham estado numa soluçao de xixi e cocô. Ele pensou em voz alta "o que sera que eu coloco aqui pra lavar esses brinquedos? Hummm... vou colocar amaciante de roupa". Cara, nao sei, a menos que você queira brinquedos macios, va la, mas eu escaldaria eles. Mas, né, eu que nao vou me meter nas resoluçoes do patrao.  

Soh sei que eu tenho suado. Suado muito. Vou buscar o guri na creche quando o sol ainda estah a todo gaz aqui (17h). Em seguida, tem a hora do banho num banheiro minusculo e abafado. Essa é a hora mais tensa: um caga na agua, outro chora pedindo sopa, os dois tentam ficar em pé, eu mando sentar, o menino chora com sabao nos olhos, a menina engole agua, o guri tenta sair da banheira, eu grito, a guria grunhe e o suor desce. No final, eu nao sei qual dos três ta mais molhado. 

Mas o pior mesmo... O PIOR, MEU POVO, é quando os dois gritam ao mesmo tempo (80% das vezes). A menina, coitada, soh pode gritar. E o desenho no começo do post é o retrato fiel dela. Ja o guri, consegue se expressar usando algumas palavras, mas como o vocabulario dele nao é muito variado, o que se mais vê é:

- Soupe (sopa)! Soupe, soupe. Soupe, soupe, soupe!
- Ja ouvi, Guri.
- Soupe, soupe, soupe, soupe. Soupe, soupe, soupe, soupe, soupe, soupe!
- Guri, eu-ja-ouvi!
- Soupe, soupe, soupe, soupe, soupe, soupe, soupe, soupe, soupe, soupe, soupe!
- Menino, eu vou te dar sopa! (cacete, puta que pariu!)
- SOUPEEEEE! SOUPE, SOUPE!
- Senhor, me ajude a nao mata-lo.

E ele repete isso ad-in-fi-ni-tum. As vezes eu tenho vontade de amarra-los numa pipa e soltar os dois pela janela, e soh puxar a corda na hora deles dormirem. Mas vai que dah processo... 

Sugestoes? 



segunda-feira, 27 de junho de 2011

Glub Glub


Peixe um: "nossa, tive uma ideia genial"
Peixe dois: "nossa, deixa eu sair da banheira antes"

Tenho tanta besteira pra dizer que nao sei nem por onde começar. Mas como eu sei que meus leitores nao sao nada exigentes, do contrario, nao seriam meus leitores (viu como eu consigo diminuir todo mundo numa sentença soh?), eu vou começar pelo dia de hoje. 

Nos dois ultimos meses, praticamente parei de trabalhar pra ver se conseguia dar conta dos periodos de provas e recuperaçoes da faculdade. Mas isso coincidiu com o periodo em que a mae do guri do qual eu sou babah saiu da licença-maternidade. Entao, entrou em campo a avoh dos guris que deixou momentaneamente a sua casa em Paris e se instalou em Lyon durante os ultimos dois meses pra cuidar dos netos. Mas a faculdade acabou (pelo menos por enquanto) semana passada e, apos nove lindos dias de férias, esta babah que vos escreve estah de volta à ativa. Pro azar dela.

O esquema agora nao inclui somente cuidar do guri, agora eu tomo conta da monstrinha também. Pois é, Brazeel, o mundo da voltas. Eu havia jurado que nunca mais chegaria perto de Crazy Creuza, mas o que a gente nao faz por dinheiro amor? A pobrezinha, pro azar dos pais e pra minha sorte, nao tem vaga na creche, entao agora eu serei a babah dela. Das 8h da manha às 19h. 

Ai.

Antes de começar a trabalhar com ela, tive dois dias de... treinamento... dados pela experiente avoh. O objetivo era conhecer os habitos da guria antes de me ocupar dela. Foi uma experiência bem interessante. Mas com a avoh. A familia paterna da gurizada é portuguesa (por isso contrataram uma babah que fala português), o que nao impede que a lingua seja motivo de piada, pra mim. Acho curioso, por exemplo, quando ela fala "calcinhas" se referindo à calça. 

- Luciana, hoje faz calor, entao pode pôr uma calcinha no guri.
- Err... Ok... A senhora é que é a avoh.

Na primeira vez em que fui trocar a fralda da bebê, ela disse "ah, limpa bem o cuzinho dela, viu". Limpa o que, fera? Essa mulher pensa que soh porque ela colocou a palavra no diminutivo o peso dela se perdeu, foi? Cu é cu, pô. Seria como "ai, limpa o furiquinho dela, viu". Soa estranho. Mas beleza. O negocio é que hoje eu escutei ela dizendo à guria, que estava elétrica, com um super sorriso no rosto: "ai, mas você é uma pica russa mesmo, hein". Aih, eu choquei, né. Pensei, porra, essa mulher tem pego pesado com essa criança. Cu ainda vai, mas pica é foda! 

Cheguei em casa, corri pro dicionario e me impressionei com a quantidade de significados pra pica. Eu so conhecia um, pra vocês verem como eu sou inocente. Entao, com rigor cientifico, analisei cada expressao esperando por aquela que seria a mais adequada de ser dita por uma avoh à sua neta de oito meses. 

Pica: Camisola de lã. "Ai, mas você é mesmo uma camisola de lã russa!" Hmm... Nao serve.

Pica 2: Cada uma das peças delgadas que entram na construção da proa e da popa. Acho que nao.

Pica 3: Cigarro de haxixe. Como a véia é doida, eu nao me supreenderia que ela chamasse a neta de baseado. Mas nao.

Pica 4: Peixe teleósteo da família dos ciprinídeos, de água doce, muito comum em Portugal. Opa! Portugal! Pode ser isso, vamos tentar? "Netinha, você é um peixe teleosteo russo. Que, inclusive, é muito comum em Portugal". Viram? Ficou mais adequado chamar a menina de peixinho. Mas aih vem a quinta pica:

Pica 5Entusiasmo, vigor, vontade (ex.: estão cheios de pica para treinar). Voila! Mistério resolvido.  "Netinha você tem muito vigor... russo" Se for isso, eu concordo com a avoh, porque essa guria nao para quieta. Tipo assim, nenhum segundo. Inclusive, Amanda disse que era um barato cuidar de bebês porque eles dormiam o dia todo. Mas é claro que o bebê que eu cuido nao podia ser normal: a avoh ja disse que ela nao gosta de dormir. Hoje mesmo ela dormiu vinte minutos de manha (deu nem tempo d'eu sorrir) e, à tarde, uma hora, quando o irmao, bem mais velho, dorme três horas por dia.  

Hoje a avoh voltou pra Paris no meio da tarde e eu assumi sozinha o trabalho com as crianças. Fui pegar o moleque na creche, mas nao fomos ao parque porque o calor estava infernal e eu notei uma certa afliçao na cara da bebê. Me debrucei sobre o carrinho, olhei bem nos olhos dela e perguntei, meu amor, o que esses olhos querem me dizer? "Me tira daqui, vaca". 

Voltei pra casa com os dois e preparei o banho deles na banheira. Aguinha morna, brinquedinhos boiando... Joguei os dois la dentro e sai passando sabao em tudo que se mexia. Eu suava BICAS. O guri pediu pra sair. Enxuguei ele, pus sua fralda e, quando olhei pra banheira pra ver se a guria ainda tava viva, vi que a agua estava preta: quilos de cocô boiando junto com a menina e os brinquedos. Véi, eu fechei os olhos, respirei profundamente e cantei uma cançao. Era isso ou ia fazer aquele menina tomar aquela agua. Aih, né, pesquei a guria do meio da bosta toda, dei um banho de ducha na pica russa e vim pra casa. Mas amanha tem mais. E depois e depois e depois.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Toninho do Diabo feelings

Durante essa madrugada, estava eu, linda e maravilhosa, mentira, sonhando pela milésima vez com Xarah e Camilo, quando escutei um barulho. Parecia o barulho de um tambor e ele foi ficando cada vez mais forte, até que eu acordei e me dei conta de que o barulho era real. Acordei Camilo e tentamos identificar a origem do barulho. Pra mim, so havia uma explicaçao racional: tinhamos uma tribo apache no jardim. Entao, abrimos a janela, mas estranhamente, nao encontramos nada. 

Quando levei em conta que os barulhos poderiam ser tiros, comecei a entrar em pânico e pedi pra Camilo chamar a policia. Foi quando vimos nossos vizinhos nas janelas das suas casas e alguém gritando "fogo!". Na janela de um dos vizinhos, pudemos ver refletidas as chamas que vinham... da nossa rua. Corremos pra janela da frente e vimos um carro sendo incendiado. Ligamos pra emergência e fomos pra calçada ver o espetaculo. 

Os bombeiros chegaram em menos de um minuto, o que me faz pensar que sao os proprios bombeiros que tocam fogo nos carros e aparecem rapidamente pra mostrar à populaçao o quanto eles sao eficientes. No Brasil, o carro pega fogo, o sertao vira mar, o mar vira sertao e os bombeiros nao chegam*. 

Logo em seguida, a policia chegou. Eles falaram com os bombeiros e depois vieram até a gente pra confirmar nossa ligaçao. O policial olhou pro meu cabelo e disse "minha filha, você esta presa". Eu devia ta muito linda. Bom, o policial disse que haviam ligado antes da gente e dito que os incendiarios ja tinham fugido do local. Mas é claro. Se eu morasse num pais em que os bombeiros chegam antes do incêndio começar, eu também nao ficaria muito tempo no local do crime. Eh a segunda vez que tocam fogo num carro aqui. Também costumam incendiar as latas de lixo. Em 2009, um menino de 12 anos foi metralhado por causa de uma briga de gangues do bairro. Ja tocaram fogo numa moto na nossa esquina. Mermoz: um bairro tranquilo.

*Ainda em tempo: deve ser porque eles estao na cadeia.


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Nota sobre as notas

Amiguinhas, amiguinhos e gente do mal. Estou vivendo um dia lindo e fantastico. Possivelmente, o melhor do ano, até aqui. Explico sem mais delongas: recebi minhas notas ontem e, gente, eu passei de semestre!

Ooohhh!

Eu tou anunciando isso, mas ainda nao tou acreditando. Entendam. Minhas notas em pelos menos duas disciplinas estavam muito ruins (um oito e um seis quando a média exigida é dez). Eu precisava me sair muito bem nos exames escritos pra compensar essas notas. O problema é que essas notas ruins foram de trabalhos que eu havia feito no aconchego do meu lar, tendo sido revisados por um francês (ou seja la o que Camilo seja). Entao, a probabilidade de eu fazer uma prova escrita e obter uma boa nota que pudesse compensar as ruins era bem pequena e, como eu viria a saber, isso seria mesmo impossivel: tirei notas tao ruins quanto as anteriores. Hihi

Mas Luci, como entao você passou? 

A Amanda disse que foi porque ela orou bastante nos momentos em que eu fazia as provas.  E, mesmo que eu ache essa explicaçao muito razoavel, eu acho que o fato de eu ter obtido boas notas nas outras disciplinas fez com que eu pudesse compensar as notas ruins. Sistema francês, seu lindo! Eu ja tava conformada em ter que repetir essas disciplinas, em ver as detestaveis caras dos meus professores no proximo semestre, mas aconteceu algo grandioso: a matéria em que tirei sete, por exemplo, foi compensada pelo 14 de outra disciplina. Nao é lindo? 

Mas vou parar por aqui, até porque essa boa noticia nao significa muito: ainda tenho as recuperaçoes do semestre passado (onde precisarei mesmo fazer uma prova de uma disciplina que eu jamais vi), e nenhuma garantia de diploma, mas soh de pensar que eu nao precisarei mais ver a cara dos seis professores que tocaram o terror na minha vida nos ultimos três meses, ja me sinto feliz. Muito. 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A fuga das galinhas

Agora, somos uma grande coloc de onze. Como eu disse no post passado, o presente de aniversario de uma coloc foram três galinhas. Ela adora fazer bolos e doces e acho que ter ovos frescos deve significar muito pra ela - mas essa é minha explicaçao sobre o fato. Entao, quando as galinhas chegaram, sabado passado, improvisamos um galinheiro entre o forno à lenha e a estufa. Eu nunca vi pessoas tao empolgadas com galinhas, pareciam crianças. "Olha, ela abriu as asas!", "olha, ela ta ciscando!", "olha, ela ta comendo o milho". Eh, caralho, olha, ela ta agindo feito uma galinha! Puta merda. O pessoal observava as galinhas e eu observava o pessoal. 

Eu desconheço a relaçao dos meus leitores com galinhas, mas pra mim estas nao representam um bicho estranho. Minha avoh paterna, quando sabia que iamos visita-la, sempre comprava uma ou duas galinhas pro almoço. Mas vovoh era roots. Ela poderia muito bem comprar um frango congelado no supermercado. Mas nao, vamos ser diferentes: ela comprava uma galinha viva na feira, a degolava (um parênteses: ver uma galinha semi-degolada cacarejando é uma das cenas mais bizarras que eu tenho da minha infância), depois a escaldava, a depenava e a esquartejava. E a gente comia esse negocio. 


Josette, Lucette e Bernadette. Nao necessariamente nessa ordem.

Nao tenho pena no pescoço. So linda?

Depois de cinquenta minutos de admiraçao, o pessoal da casa finalmente se dispersou pra curtir a festa que tava começando a rolar. A festa foi otima! Foi a primeira que fizemos no jardim, com direito à pizza no forno e churrasco. Como sempre acontece, misturei todas as bebidas que encontrei pela frente e, apesar de nao ter ficado muito bêbada, tive uma feliz ressaca que me fez pensar que eu ia ter dor de cabeça até o aniversario do proximo ano.

Daih, acordo no dia seguinte com aquela cara de quem morreu e esqueceram de enterrar e desço com Camilo pra dar uma primeira geral na casa. O chao da casa pregava, tinha garrafa de alcool por todo lado, piola de cigarro pelo chao, caixa de som estourada, salgadinho pra todo lado, enfim, a visao do caos. Eh quando a campainha toca anunciando a visita surpresa de quem? Dos meus patroes.

Gente.

Eu estava decrépita. Eu era uma mistura de mendiga com zumbi. Cabelo despenteado, cara amassada e halito de alcool. A casa tava mais apresentavel. Obviamente que evitei que eles entrassem nela, entao conduzi os pais pelo jardim. Lembram? O jardim bonito que eu descrevi aqui? De repente, como se nao bastasse, passa uma galinha correndo pela gente. Sim, uma das dettes tinha fugido. Eu nao sabia se eu fingia que nao tinha uma galinha preta correndo pelo meu jardim ou se eu procurava identifica-la e apresenta-la formalmente à mae do guri. 

Antes que eu pudesse me decidir, a avoh do guri, que também veio, abriu as pernas, os braços, se posicionou como goleiro e ficou esperando a galinha. Todas as atençoes se voltaram pra ela. A galinha entao parou, refletiu e deve ter concluido que conseguiria romper a barreira humana da voh, porque ela recomeçou a correr loucamente. Felizmente, a mulher conseguiu segurar a galinha e o fez com tamanha segurança, que eu conclui que ela foi goleira fazendeira em outra vida. Ela disse que deveriamos cortar as penas das asas das galinhas pra que elas nao voltassem a fugir. Anotado.

As galinhas sao da inglesa, mas a pessoa mais empolgada é o socio de Camilo. Camilo diz que ele vai na varanda umas quatro vezes por dia dar uma olhada nas galinhas, depois verifica se elas ja puseram ovos. Eu nao me surpreenderia se o encontrasse um dia dormindo no galinheiro. Hoje, ele entrou pela sala super empolgado anunciando que umas das dettes tinha colocado dois ovos. "Oitenta gramas!" Ah, eu me divirto! 




Talvez

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