sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Vê vê vê de vingança

Um ano e meio como babá e, graças aos santos anjos do Senhor, ou nao, os guris nunca ficaram doentes. O maximo que eu enfrento é um cocô liquefeito ali, uma tosse de cachorro acolá ou um nariz escorrendo aqui e acolá. E alias, Miss Tolete e Mister Catarro. Mas ontem, quando fui buscar meus anjinhos na creche, uma crechete (qual o nome dado às mulheres que trabalham na creche? Professora? Tia? Mulher da creche?) me disse que o guri havia tido 39,3° graus de febre. 

Ele realmente parecia cansado e, quando ele disse no parque que queria voltar pra casa, antes mesmo de descer do carrinho, tive certeza de que algo nao ia bem. Chegando em casa, preparei o banho deles. Depois de cinco minutos dentro da banheira, ele subitamente começa a chorar, gritar e tremer. Enfase no tremer. O pirralho tremia tanto que ocupava todos os espaços do banheiro ao mesmo tempo. Entao, o resgatei, coloquei cueca, calça grossa, duas blusas, meias e ainda enfiei o menino numa manta grossa, soh deixei de fora os cilios dele. E ainda assim, ele ainda reclamava do frio. 

Fiquei com tanta pena do bichinho, Amanda, que tudo o que ele pedia, eu fazia. Coloquei o DVD preferido dele e ainda servi o jantar no sofa. Ele tomou a sopa, mas recusou parte do arroz, entao, passamos pro iogurte. Na terceira colherada, o presente: uma vigorosa vomitada verde. Quando eu era pequena, eu tinha medo de morrer sufocada enquanto vomitava, entao, entre um arroz e outro que saia pelo nariz, eu fazia o maior escândalo pra que alguém viesse supervisionar evitar minha morte. Eh, eu sou dramatica desde pequenininha. Por isso, me choquei com o ar blasé do menino enquanto  ele vomitava. Ele nem se mexeu. Eu, no entanto, parecia uma galinha cafeinada no meio da sala. Enquanto o primeiro jato voava pelo ar, "Luciana, porra, pensa rapido em algo que possa minimizar o estrago!"


Corri pra cozinha, peguei uma Tupperware, meio quilo de papel-toalha, voltei e, quando coloquei o recipiente debaixo do queixo do guri, caiu uma gotinha de sopa. 

- Calma, guri, nao se mexe! 
- ...
- Ai, meu deus, vai ficar tudo bem, pequeno!
- ...
- Calma, CALMA! VAI FICAR TUDO BEM!
- Tirem esta mulher louca da minha sala. 

Vocês se lembram do "cueca, calça grossa, duas blusas, meias, manta grossa"? Pronto. Juntem a isso a capa do sofa: ficou tudo verdinho. Tudo bem, Luci, você soh tem que passar uma aguinha em tuuudo isso. E o que importa se você acabou de dar banho nele? Enquanto, limpava o guri no banheiro, notei o silêncio de Crazy Creuza e lembrei das sabias palavras da minha mae: criança em silêncio ta fazendo coisa errada. Fui dar uma checada na sala e encontrei a menina com o pote de iogurte na mao e o conteudo dele na cabeça. Xampu de Activia, meu povo. Ah, ela também batizou o pijama e o tapete.

Estou tao despreparada pra imprevistos como esses, que quando fui tirar a temperatura do menino, colocando o termômetro debaixo do braço dele, ele disse "nao é assim!". Daih ele tomou de mim o termômetro e o enfiou na bunda. Fiquei chocada com o nivel de instruçao do menino de dois anos e meio. "Meu deus, quanta humilhaçao. Talvez o dia de amanha seja melhor". 

O dia de amanha:

Chego pra trabalhar e encontro, pela primeira vez, as crianças ainda dormindo. Mae: "Crazy ta dormindo na minha cama. Eu coloquei travesseiros ao lado dela, mas assim que você escutar algo, corra pra que ela nao caia da cama". Ela vai embora, a casa mergulha no silêncio que é rompido, 30min depois, por um POC ôco que, por sua vez, é seguido de um UUEEENNNNNN agudo. Bela maneira de começar o dia pra ambas.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A espera de um milagre

Sou inofensivo

Quem acompanha meu blog/me conhece, deve ter notado que eu dei uma engordadinha. Uma engordadinha de 14kg. As pessoas malvadas tentam culpabilizar minha cerveja, mas tudo nao passa de intriga da oposiçao. No Brasil, eu bebia muito mais e nunca engordei um quilo por isso. Obrigada, papi, pelos genes. Mas na França, eu fui apresentada ao inimigo. Camembert, Roquefort, Bleu. Somado a isso, no começo da faculdade, passei por uma crise de ansiedade onde tudo poderia (mas nao foi) ser resolvido com a ingestao de alimentos.

O resultado desse processo é que ganhei quilos de bochecha e perdi meu guarda-roupa. Uma tragédia. Semana passada, a mae do moleque perguntou se eu nao teria emagrecido. Essa mulher é tao cega gentil, meu deus! "Nao, na verdade, eu engordei um quilo nos ultimos dias". Para piorar a situaçao, os exercicios que eu costumo fazer cotidianamente (1h de bicicleta para ir/voltar do trabalho e as horas de caminhada parque-creche-casa com os guris) serao interrompidos por motivo de força maior. O frio. 

Foi entao que eu tive uma brilhante idéia: "vou comprar uma esteira". Camilo recebeu a noticia com bastante desconfiança. Sua boca dizia "você é livre, passarinho, pra gastar seu dinheiro no que quiser", mas seus olhos me diziam "esta mulher estah louca. Louca!". Louca ou nao, encomendei minha esteira. A entrega nao me custou nada, mas desde que eu quisesse que os entregadores subissem um andar com a encomenda, eu teria que pagar a bagatela de 79€! Olha, se quando eu fizesse cocô saisse dinheiro, eu poderia até pensar no caso, mas infelizmente eu ganho meu dinheiro de outra forma e preferi encontrar outra maneira de subir até meu quarto a tal esteira. Eu soh nao sabia que a ela pesava 60kg.

Com os olhos cheios de amor, convenci Camilo e um amigo a me ajudarem a subir a esteira. O amigo em questao parece uma tripa seca, mas era o que tinhamos pro momento. (Corentin, se você estiver lendo isso, saiba que eu estou muito agradecida. E que você é uma tripa seca). Cada um se colocou em uma das extremidades da caixa. Respiramos fundo, contamos até três, empurramos e a caixa... nem-se-mexeu.

Apos muito esforço, chegamos aos pés das escadas. Conseguimos ganhar o primeiro degrau. O suor descia de nossas frontes. Como bravos, lançamos olhares de incentivo uns aos outros, mas à medida em que subiamos, eram ouvidos barulhos de vertebras sendo partidas. O suor descia, as hemorroidas brotavam. Alguns companheiros foram ficando para tras. Camilo provavelmente nunca mais voltarah a andar, mas quem se importa: a esteira finalmente tinha encontrado seu lugar de direito.


Segunda parte da missao-esteira: monta-la. Primeiro, passei boas duas horas rearranjando  os moveis do quarto. Quando finalmente abri a caixa, encontrei um bilhao de plasticos, isopores e tabuas de madeira. Ta explicado porque a caixa era tao pesada.


Agora, adivinhem o que eu vou fazer. Nao, "comer queijo", nao. Vou inaugurar a esteira. Me desejem sorte. Alias, me desejem dinheiro.



sábado, 8 de outubro de 2011

Katia me entenderia


Esse post deve ser lido ao som da marcante Nao esta sendo facil, by Katia Cega. Solta, DJ!

Luci, uma pessoa zen. Zen paciência 

Quando comecei a trabalhar como babah, eu me ocupava de um bebê de um aninho, super gentil e simpatico. Alguns meses depois, a sua irmazinha nasceu e, como era de se esperar, o menino começou a ter umas crises de ciume que estao transformando a vida de toda a familia, sobretudo a vida da sua pobre babah. 

Todo dia ao amanhecer 
Quanto mais tento te esquecer 
Mais me lembro 
Não tem jeito...

Ha uns meses, virei a babah exclusiva da pequena ja que o guri estava na creche em tempo integral. Isso durou pouco tempo: os pais o tiraram da creche nos dias em que trabalho, afinal, nao fazia sentido pagar creche quando se tem uma babah em casa. Mas... WHY, GOD, WHY? Minha vida nunca mais foi a mesma.

Desde quando eu te conheci 
Nunca mais te tirei daqui 
Do meu peito
De que jeito...

A atividade preferida do menino é tomar o brinquedo que a irma tem na mao. Nao interessa se é um ursinho desinteressante, um pedaço de trapo ou uma tampa de caneta. O que interessa é ter o objeto pra si e, pra isso, ele se utiliza dos mais diversos artificios pra chegar ao seu objetivo: monta em cima da menina, puxa o cabelo, chuta, enforca, pisa e empurra. De vez em quando, ele cospe na cabeça dela. Eu sou uma pessoa paciente. Tudo que Buda sabe fui eu que ensinei. Entao, quando escuto a menina berrar, vou flutuando até a sala e aparto a briga calmamente. Quando escuto a menina chorar, vou feito um trem-bala até sala pra salva-la do irmao que, a essa altura, ja arremessou o brinquedo tomado do outro lado do cômodo. Esse processo se repete a cada 3 minutos e meio. Mas vamos pro refrao!

Não está sendo faaaácil
Não está sendo faaaácilllll
Não está sendo fácil viver assim
Você está grudado em miiiiiim

Quando ele nao age capetamente, ele se comporta no modo carência. Ele fala choramingando, pede pra ir pro braço, chora por tudo, grita e faz todo tipo de coisa pra chamar a atençao. Tenho que ser ninja e saber reagir a isso de uma forma na qual ele nao se sinta ignorado (e nao precise fazer analise aos 18 anos durante 50 anos), mas tampouco devo dar grande atençao a ele pra que ele nao repita esses comportamentos cada vez que quiser atençao. 

Geralmente, eu me agacho, tento fazer com que ele olhe nos meus olhos e explico porque ele nao pode matar a irma. Enquanto a conversa rola, ele ja esta tentando alcançar o brinquedo que ela tem na mao. Quando a situaçao se torna extrema, eu pergunto se ele quer ir pro quarto ficar de castigo. Ele avalia a situaçao e responde negativamente. 

Detalhe: fui jantar na casa da Mari e encontrei a filha dela sentada numa almofada na sala, de castigo. Perguntei quantos minutos ela deixava a menina la e ela disse que se deve calcular o tempo do castigo de acordo com a idade do delinquente: se a criança tem um ano, deixa um minuto, se ela tem dois, deixa-se dois minutos e assim por diante. Digamos que eu o castigo como se ele tivesse 20 anos. Sou legal?

Quando tento me divertir 
Nos lugares que eu quero ir 
Você sempre está
De algum jeito estaaaá...

Ha umas semanas, a mae precisou trabalhar em casa e tivemos a oportunidade de discutir sobre o comportamento do guri. Comentei que, na França, os pais dialogam bastante com os filhos, mesmo se eles tem alguns meses de vida, e que, no Brasil, os conflitos geralmente, quando nao sao resolvidos à base do chinelo, sao resolvidos por um "porque eu tou mandando" ou por um "porque sim" impaciente. 

- Chinelo?
- Eh. Os pais batem nos filhos assim. 
- :O
- Eles podem usar as maos, mas geralmente é com a sandalia.
- :OO
- Ou de cinto.
- :OOO

Eu ia dizer que meus primos ja apanharam de flanela molhada e corda, mas tive medo de provocar um enfarto nela. A mulher ja estava suficientemente chocada. Contei alguns causos da minha infância e a conversa foi longa. Falei que meu irmao caçula apanhou bastante por ter sido o mais desobediente e ela quis saber quais as consequências disso. "Sessoes no psicologo aos dez anos". Pra mim, uma baixa auto-estima violenta que desencadeou uma ansiedade e um complexo de inferioridade que acordam e dormem comigo todo dia. 

Falei que, pior que ter apanhado, foi ter sido minada por um pai que nunca perdeu uma oportunidade de gritar e humilhar os filhos (a esposa, o cachorro...), tendo sido ele proprio também vitima de um pai pouco cuidadoso com a educaçao dos seus. Diante de tao infeliz desabafo, pobrezinha de mim, a mae disse que sentia muito por isso, mas que eram esses traumas que me transformaram em quem eu sou hoje e que ela nao sabia o que faria sem mim. Minha gente, eu fiquei tao emocionada! Ela ainda disse, entre outras coisas muito legais, que eu era uma pessoa equilibrada. Eu, equilibrada.

Eu ri.

Elogios assim entram por um ouvido e saem pelo outro, mas eu gostei de escuta-la, tentei nao ignorar o que ela disse, nao assim. No dia seguinte, cheguei pra trabalhar e encontrei um envelope em cima da mesa com meu nome escrito. Abri e encontrei três coisas. Um bilhete: 


Luciana, nohs gostariamos de te agradecer pela tua gentileza e por todo cuidado que tu nos dah! Obrigado também por ser paciente com a gente, mesmo se nao somos sempre gentis! Obrigado por tua disponibilidade. Nohs temos muita sorte de te ter pra cuidar da gente! Muitos beijos! (e os nomes censurados dos dois guris no canto). 

Havia ainda três fotos lindas em preto e branco dos guris. Eu comecei logo a chorar. Depois, chorei ainda mais quando vi a terceira coisa: duas notas de 50 euros. Minha gente, muita emoçao. Se eu soubesse que ela ia tentar compensar meus traumas de infância assim, eu teria dito que apanhava de cabo de aço. 

Eu te encontro em qualquer canção 
Você vive em meu coração 
E eu aceito
Não tem jeito...

Eu nao sei onde vamos parar. O guri ta a cada dia mais carente e eu tou cada vez mais tensa com o comportamento dele, me questionando fortemente a cada decisao tomada, morrendo de medo de deixar que ele se transforme em uma Luci cagona.

Não está sendo fácil 
Não está sendo fácil
Não está sendo fácil viver assim...
Você está grudado em mim



domingo, 2 de outubro de 2011

Historinhas

1. Finalmente tomei vergonha na cara e mudei de médico. Minha nova médica se chama Lapica. Lapica tem sorte de nao ter nascido no Brasil, vocês nao acham?

2. Minhas aulas começaram. Uma disciplina é sobre a historia da India e a outra é sobre a historia do livro. Era o que tinhamos para o momento. A professora de Historia da India parece ser bem legal, apesar de um pouco desorientada. 

- Os textos religiosos indianos sao infinitos! Infinitos!
- (...) 
- Ok, talvez nao infinitos. Mas eles sao milhares! Milhares!

Tudo bem, professora, a gente entendeu que "infinito" era modo de falar. Em um momento, ela quis saber, sabe-se la porque, se alguém da turma falava chinês. Uma menina disse que teve curso durante a escola. Foi o suficiente pra professora virar pra ela e, com voz anasalada, começar a falar em chinês. Chang chuan chang chuan! Chang? A cara da menina: 


Acho que vou me divertir com essa professora. Para a outra disciplina, temos dois professores que se alternarao durante o semestre. A professora desse curso é assustadoramente magra, vocês nao tem idéia. Eu passei as 4h de aula observando ela, aflita, vendo a hora dela cair no chao de fraqueza. Vou levar um prato de sopa pra ela na proxima aula. 

3. Coloquei um piercing ontem. Havia alguns meses que eu planejava isso, mas o momento era sempre adiado. Ora devido à falta de companhia para a empreitada, ora pela... preguiça. Aproveitei entao, a presença de uma amiga que ta de passagem em Lyon e fui me furar. Adorei! Eh uma pena que eu soh tenha duas orelhas, porque eu gostaria de ter mais piercings.

Um dia, o guri viu meu piercing do umbigo e disse que queria um também. Fui toda sorridente contar isso à mae dele no melhor tom "criança diz cada uma!". Quando ela ouviu, virou pro guri, segurou os ombros dele e disse "filho, Luciana é o exemplo de tudo o que a gente nao quer nessa casa: tatuagem e piercing :)"

Luci: :O
Mae: :)
Luci: :O
Mae: :)
Luci: ¬¬





Talvez

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