terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quen

De novembro à abril: Luci

Sei que passei dez dias sem postar, mas esse nao é um post para lembra-los de que estou viva. Bem pelo contrario: é um post de despedida, pois estou morrendo, caros leitores. Isso é, se catarro matar. Minha gente, esse frio é muito frio! Como ter saude quando você tem que atravessar a cidade debaixo de -15°? Eu nao estou acostumada a esse tipo de vida. Na Paraiba, a gente soh entende o conceito de gelado por causa do sorvete. Porque minha terra tem palmeiras onde frita o sabia. As aves que aqui gorjeiam também estariam fritas por la. 

Tudo começou com uma pequena irritaçao na garganta no domingo. A irritaçao foi se desenvolvendo durante esses dias a tal ponto que, ha cinco minutos, eu tossi uma coisa que, definitivamente, nao pode ser de origem humana. Tinha uma cor que nao é obtida na natureza. Gente, eu estou com medo. Faz três dias que eu nao sinto o cheiro de nada. Minha voz ta linda. Quando eu falo, os patos respondem. Mas as minhas obrigaçoes como babah desconhecem meu estado de saude e o sofrimento é imenso quando tenho que buscar os guris na creche. 

Como sou uma garota de sorte, num dos dias mais frios de Lyon, fui à creche e nao consegui armar o carrinho de bebê. Tentei de todas as maneiras, chamei duas crechetes para me ajudar e nenhuma delas conseguiu destravar aquela PORRA de carrinho - que é duplo e parece um tanque de guerra. Resultado: as crianças tiveram que voltar para casa à pé. Mas eu precisava levar o carrinho junto. O percurso creche-casa, em condiçoes normais, dura em torno de 15 min, mas iriamos acompanhar o ritmo de um bebê de um ano e meio. Visualizem. 

Peguei o carrinho com uma mao, peguei a guria com uma outra mao e o guri com uma terceira mao (nao me perguntem de onde surgiu essa terceira mao, mas leiam Darwin) e começamos a caminhar. Cinco minutos depois tinhamos avançado 67 cm. Calculei que chegariamos em casa no inverno seguinte. Olhei para o Céu e agradeci por aquele momento maravilhoso. Meia hora depois, chegamos na esquina onde deveriamos atravessar uma rua. Crianças querendo a todo custo soltar minha mao e eu com medo de quebrar ossinhos alheios. 

Quando chegamos em casa, eu estava mais suada que pano de cuscuz. Quando a mae dos guris ouviu minha historia, ela disse que eu poderia ter deixado o carrinho na creche. "Eu também poderia ter deixado seus filhos na creche". "Que nada, foi tudo super tranquilo, tao bom! Adorei! Precisamos tentar de novo". 

E quando o problema nao é desdobrar o carrinho, é dobra-lo. Eu sei que é vergonhoso que eu, como babah e Homo Sapiens, nao consiga manusear um carrinho de bebê, mas é que, normalmente, o carrinho ja estah armado, entao eu nunca lembro das instruçoes dadas ha tempos pelos pais quando preciso delas. "Para dobrar o carrinho é muito simples, Luciana: primeiro você aperta esse botao, empurra o carrinho pra baixo, puxa essa alavanca, gira o carrinho, joga ele pra cima, bate palma, entoa o hino da Tanzania (em aramaico, nao esqueça), pula três vezes, empurra e, quando você escutar um clack, c'est bon". Véi. 

Um belo dia, cheguei no prédio com a gurizada, o carrinho de um soh lugar e as compras. Dou de cara com um elevador quebrado. Agora eu tinha ali a oportunidade de ver quantos invernos seriam necessarios para chegar ao terceiro andar com as crianças. Eu poderia ter dobrado o carrinho e coloca-lo nas costas, como uma mochila, mas claro, nao consegui dobra-lo. Peguei o carrinho com uma mao, os sacos de compras com a outra e vi bravamente a guria subir as escadas, toda lindinha, segurando no corrimao. Enquanto isso, o guri ia na frente dela: dava um passo e voltava três cada vez que a luz, automatica, desligava. Aih a gente subia no escuro até encontrar o proximo interruptor no andar seguinte. "Guri, anda! Soooobee! Segura! Segura no corrimao! Que monstro o quê, menino! Sobe logo!" Essa sou, pura e calma. Entao, me digam, como nao ficar doente? 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Quem tem culpa, digo, consciência, ajuda

Ha uns meses, através do Twitter, acabei chegando a um site onde havia uma lista de associaçoes filantropicas de todos os tipos e as informaçoes necessarias praqueles que quisessem contribuir financeiramente com qualquer uma delas. Nunca tive a iniciativa de apoiar nenhum projeto do gênero. Nao porque eu seja lisa, egoista ou muquirana - nada disso, eu sou linda. Mas em todo caso, devo ter um pouco de cada por ter deixado passar tanto tempo antes de decidir contribuir. Acho que o problema estava mais no fato de eu ser preguiçosa acomodada mesmo. Faltava isso: uma eventualidade que colocasse debaixo do meu nariz o quanto é ridiculamente facil fazer uma doaçao. 

Decidi contribuir com os Médicos sem Fronteiras (o site mostrava quantas vacinas para tal doença eles poderiam comprar com o valor da minha doaçao. Fiquei empolgada). Queria poder dizer que contribui porque sou um anjo onde nas veias corre o sangue de Madre Teresa de Calcuta, mas acho que a origem da minha decisao deve ser relacionada à uma culpa crista mesmo. Nao me julguem. Alias, me julguem. 

Quando aconteceu o terremoto no Haiti, em 2010, eu li uma matéria que descrevia a vida das pessoas apos a tragédia. Fiquei com dor no peito lendo sobre as mulheres que eram estupradas. Queria tanto que aquilo acabasse bem! Entao, sabe o que eu fiz? Nada. Meses depois, li matéria parecida e, de novo, fiquei chocada. "Esse povo ainda ta nessa situaçao?! Coitados!". Dessa vez, sabe o que eu fiz? Nada. Nao fiz nada e nunca vou fazer nada. Porque eu sou isso, aih: preguiçosa, acomodada... Fato é que eu percebi, que minha conta bancaria nunca foi tocada pelo MSF. Algum problema aconteceu e eu nunca fui atras para resolvê-lo. 

Ha uns dias recebi uma ligaçao da Unadev (Associaçao Nacional dos cegos e deficientes visuais). A mulher começou a explicar quem eles eram, o que faziam e se eu poderia contribuir com sete euros mensais. Veja bem, sete euros.

- Olha, eu nao posso ajuda-los porque... Err... 
- Senhora, você nao se preocupa com a condiçao dos cegos?
- Nao, assim... Eu até me preocupo, sabe, mas... Err... Eu vou deixar o emprego e (gente, mentira, eu nao vou deixar o emprego porra nenhuma, eu soh queria desligar aquele telefone o mais rapido possivel)... E...
- Você acha que sete euros vao fazer diferença no seu orçamento?
- Nao, mas é que... é que... Nao. Nao acho.
- Entao, você estah disposta a contribuir com a Unadev?
- Tou...


Pronto, soh assim mesmo. Depois da mulher ter sugerido que eu era egoista e murrinha, eu aceitei contribuir com os cegos da França. E eu nao estou com vergonha de estar admitindo que eu sou podrinha, porque sei que 90% das pessoas que me leem agora nao tem atitude muito diferente da minha. Estou certa? Mas eu estou aqui para ajuda-lo, irmao-amigo. Ajudar a ajudar. Vocês ja tem aih o site dos MSF. Você nao gosta de ajudar gente? Tchudjo bem: temos a WWF. Muito clichê? Entao, aqui tem uma lista com outras opçoes que vao dos autistas à moças cristas, passando pelos alcoolicos anônimos. 

Pronto, agora posso dormir melhor essa noite. Ufa. 

(Antes de dar adeus, curiosidades que vao mudar a vida de vocês: um cao-guia leva 10 meses para ser treinado e dez anos para ser aposentado. O custo do treinamento? 20 mil euros. Meus sete euros nao devem nem pagar o potinho da agua). 

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Detalhe: dias depois, fiz um cartao num cinema daqui onde tenho entrada ilimitada. Preço da adesao: 20€ mensais. E a vida segue.





Talvez

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