segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A questão do gênero na Guillotière

efeito dos ventos lioneses


Quanto eu escuto todas as portas da casa batendo por causa do vento, até as fechadas - o vento abre a porta usando o trinco e a fecha novamente -, eu sei que nao é um bom momento pra sair de casa, ainda mais de bicicleta. Mas eu tive aula e fui obrigada a sair de casa (faz uns 24 anos que eu lamento essa frase). Normalmente, o trajeto se da numa grande avenida que segue ladeira abaixo. Entao, soh tenho que ter cuidado pra nao ser atropelada pelo tramway e tudo certo, mal preciso pedalar. Soh que semana passada tava tenso. Foi a primeira vez que eu andei de ré numa bicicleta. O vento parecia um coice e, quanto mais eu fazia esforço, mais eu sentia a resistência dele. Mas enfrentei o vento, enfrentei a aula e fui contente pra Guillotière encontrar um amigo praquela cerveja de fim de tarde.

Guillotiere é um famoso bairro de Lyon, famoso sobretudo pelas cantadas dos punheteiros sedutores de plantao que te cantam com tanta convicçao que sao capazes de te engravidar soh te dando bom dia - por isso, eu fecho as pernas e os ouvidos quando ando por essas bandas. Infelizmente, nao da pra evitar o bairro porque é onde se encontra um dos lugares mais visitados na cidade: o rio Rhone. Fui enfrentando ventos e homens pra encontrar o tal amigo na beira do rio.

Comprei umas cervejas, escolhi um lugar tranquilo e sentei tensa com todas as aproximaçoes suspeitas. Um cara veio, perguntou se eu tinha um isqueiro e saiu de boa com a negativa. Mas nao tive tanta sorte com o segundo, que sentou bem do meu ladinho. 

- E aih, tudo bem?
- Ah, nao, cara. Por favor. Você nao vem pra isso, né?
- Nao, nao vou incomodar.
- Tarde demais.
- Soh quero... sei la... A vida é bonita, né?

Eu achava que conversa mais vazia que a de elevador nao existia. Mas encontramos um novo adversario, senhoras e senhores: a conversa de beira de rio. Ela começou assim, mas se dirigiu pra isso:

- Que marca roxa é essa aih no seu braço?
- Nao sei, acho que bati na porta ontem...
- Nao foi o seu namorado, né?
- Errr... nao. Mas ja essa marca aqui, oh, foi da agulha do exame de sangue que fiz ontem.
- Você tem AIDS?

Juro. O cara simplesmente perguntou se eu tinha AIDS. Tudo muito tranquilo. Oi, tudo bem, a vida é bela, você tem AIDS? Enquanto isso, ja tinha enviado mensagens de socorro ao meu amigo pra que ele viesse logo me tirar daquela situaçao. Quando o inquisidor me viu com o celular, disse que iria embora "porque seu namorado pode nao gostar que eu esteja aqui". Ou seja. Foda-se se você nao curte minha presença, o negocio é nao estar aqui quando o macho chegar. Depois apareceu dois caras vendendo dorgas. O legal é que em nenhum momento eles ofereceram pra mim, soh pro meu amigo. Alias, eles nem sequer me olharam. Eu nao ia aceitar de todo jeito, mas acho um absurdo esse machismo. Até dos traficantes! Aff.


Pelo direito de ser tomada por uma drogada!



Quando o amigo chegou, pedi pra que fossemos pra minha area preferida do Rio: entre o banheiro publico e o lugar onde vende cerveja. Estratégia, amigos. Os banheiros publicos de Lyon foram reformados e agora as cabines, que ficam espalhadas pela cidade, tem uma porta automática que se abre apos o uso para ser completamente lavadas automaticamente. O tempo de lavagem é sempre o mesmo, pouco importa a sujeira do banheiro, mas ele pode ser mais ou menos longo de acordo com o peso da sua bexiga ja que a porta se fecha por um bom minuto. Daih que eu fui pela primeira vez, naquela noite. Aguardei pacientemente o usuario sair. A porta calmamente fechou ao mesmo tempo que uma voz automatica começou a narrar as etapas da lavagem onde o banheiro tem que estar vazio. Uma vez que ele estava limpo, entrei, fiz meu pipi transparente e voltei a beber. 

Mas uma vez que fomos uma primeira vez ao banheiro, morreu, amigo, as idas serao cada vez mais frequentes. Entao, 30 min depois, la estava eu de novo, soh que dessa vez, tinha duas pessoas na minha frente. Dois caras. Fiquei branca, porque acho que eles tavam la para fazer cocô - porque, né, o cara que ta realmente se mijando nao vai ficar esperando o Galvao Bueno dos toilettes narrar como é que o banheiro sera lavado, ele vai logo é no cantinho da rua e pronto (como um animal, alias. Mas bom, diante de uma grande necessidade, somos todos animais) mas isso ainda nao da motivo de violar alguém, amiguinhos. boa noite! Entao, era cocô. E, a cada etapa, a vozinha que narrava. E abre e fecha e lava e abre e fecha e caga e abre e fecha e lava e abre. Uma eternidade. E eu la, mudando de cor. Perninha cruzada. Olhos marejados. Arrepios. Abre caceta. Para de cagar. Limpa logo essa bunda. Meu deus, nao me deixa fazer xixi aqui, por favor. Eu sou tao jovem.

E dai, a porta abre. Tudo bem que ela leva 50 seg para abrir, mas ela abre. E dai eu entro no banheiro tentando andar o mais rapido possivel abrindo minimamente as pernas. Percebam. E a voz recomeça. 

- Porta automatica, fechando em cinco segundos para lavagem.
- Vai, vai, fecha.
- Porta fechada.
- Creioemdeuspaitodopoderosocriadordoceuvailogo 
- Iniciando a lavagem.
- *suspiro
- Chuuaaaaa! Chuuuuaaaa!
- Mami.
- Você vai mijar nas calças.
- ✝
- Lavagem finalizada. Abertura de porta.

Olha. Eu nao lembro de ter passado por situaçao semelhante antes (mentira, ja mijei nas calças varias vezes depois dos meus 15 anos). Entao, quando a porta abriu, eu entrei e ja fui mijando, mesmo vendo que a porta ainda nao estava totalmente fechada. Nao sei finalmente o que poderia contribuir de maneira mais decisiva para o fim da minha dignidade: mijar nas calças à vista de todos ou mijar no banheiro à vista de todos. Mas fiz minha escolha e posso dizer que a vida ficou menos sombria de repente. A unica ma noticia é que eu tinha razao sobre o uso do banheiro pelos caras. O banheiro é lavado, mas o ar nao é purificado.

Quais as liçoes de hoje, amiguinhas? Evitem andar sozinhas na Guillotière (sobretudo se vocês tiverem um roxo no braço), nunca aceitem dorgas de estranhos (de toda forma, eles nao vao te oferecer se você tiver um pipiu) e sobretudo, jamais, em nenhum caso, entrem num banheiro publico que tenha sido utilizado por um homem. Eh cilada, Bino.



16 comentários:

disse...

eu sinto um certo contentamento sempre que vc escreve sobre xixi. me alegra saber que eu não estou sozinha nessa luta contra a bexiga que vai explodir, de meia em meia hora.
um dos momentos mais angustiantes na minha vida são esses onde eu tenho que olhar a porta se fechando pra lavagem do banheiro, sem saber se vou aguentar até ela se abrir de novo. e pra piorar ainda somos obrigadas a ouvir o terrível barulho de água caindo. o horror.


Maíra disse...

Aqui os traficantes não discriminam... principalmente na "Red Light District".

E essa do vento eu conheço... aqui está uma ventania que as rajadas chegam, em alguns lugares, a 143 km por hora. Imagine. Uma árvore acabou de cair em cima de um carro em Amsterdã, matando o motorista. Pedalar então, eu nem me arrisco. Parecemos um desenho do Scooby-Doo, quando ele corre, corre, e não sai do lugar. Mas pedalando. Prefiro pegar o trem lotado, com ambulâncias chegando para socorrer as pessoas que estão passando mal dentro do trem hehe Isso é primeiro mundo!

Sobre os banheiros... vocês também pagam para usar? Aqui custa de €0,20 a 0,50. Já fiz xixi nas calças várias vezes desde que cheguei aqui. Principalmente no inverno, quando está frio e parece que a bexiga diminui.

Beijos!

caso.me.esquecam disse...

alê: esqueci de comentar esse detalhe da agua. da vontade de entregar a deus e se mijar toda...

maira: nao, pelo menos isso! eh de graça, mas fecha as 22h, quando a noite acabou de começar...

Julieta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe Batista disse...

meu problema com traficantes sempre foi o de ser confundido com concorrência

Eliana disse...

Banheiro que fecha às 22 hr??? HAHAHAHA Olha esta coisa da porta do banheiro me lembrou aquele programa do SIlvio Santos: Porta da Esperança hahahahaha Eu conheço este banheiro, mas ele não é muito útil quando no desespero vc nao tem uma moeda de 50 centavos e muito menos dinheiro na bolsa pra trocar em algum lugar...ódeo. Será que holandeses nunca tem dor de barriga na rua e sempre tem 50 centavos no bolso?

Silvia disse...

Olá tudo bem?
Gosto muito de ler as suas aventuras! Faz-me sempre rir, mesmo quando não tenho motivos para rir :) Obrigada por isso!
Gostaria de recomendar aqui em Portugal o THE ELEVATOR HOSTEL em Lisboa. Acabou de abrir, tudo novo, bonito e barato! para os seus amigos de mochila ou não. O meu filhote trabalha lá :)
Tem uma vista fantástica da Cidade e do rio Tejo, é de certeza uma mais valia para quem quer conhecer a cidade. Só uma curiosidade: os primeiros clientes do Hostel são brasileiros!! Beijos e tudo de bom!

desenhosnacalcada disse...

Veja o lado positivo da situação . Já pensou se fosse uma daquelas pegadinhas do Sílvio Santos, onde assim que a pessoa abaixa as calças as paredes são erguidas e o povo fica no desespero tentando esconder as partes ????? Afff!
Até a próxima!
Lana

Mari Bento disse...

Acho que a pessoa engenheira que criou esses banheiros falantes nunca se atreveu em usar um. Tipo, eu sempre tomo varios sustos, molho meu pé com essa agua nojenta e jah fiquei presa dentro de um cubiculo desses no escuro. Mas, no aperto qquer coisa vale. Qto a essa parte de Lyon, fia...jah quase sai na mao com uns três caras por conta das bostas que eles me disseram. Bisous pra vc.

Renata Lins disse...

Nada a ver com o assunto, mas é que o nome do bairro tava ligando algo aqui. Aí lembrei: eu era criança e lia uma série de livros que se passavam em Lyon. Chamava "Les compagnons de la Croix-Rousse". Daí tinha um dos personagens cujo apelido era La Guille, do bairro. La Guillotière. Pronto. Umbiguei. Beijo.

Maite disse...

hahahahaha!
quase me mijo de tanto rir.

Bastian Silva disse...

Aprendi essa lição de jamais usar um banheiro usado por homens há muitos anos, homem é nojento muitas vezes. Detalhe: nasci homem. Sem contar os seres estranhos que me dão piscadinhas em banheiros públicos, por favor, não sou tão fácil assim. Por isso sempre que posso uso o banheiro e vestiário das mulheres com apoio de minhas miguxas que não se importam, afinal não curto a fruta delas. E no balé, ninguém liga pra muita coisa após uma aula suada. Mas tenho certeza de que fui Maria Antonieta e Janis Joplin nas outras encarnações, logo acho totalmente viável que eu use o banheiro feminino e limpo, please.

Querida, eu AMO seu blog. Você tem o poder de me fazer cagar de rir (já que setamos falando de cocô). Minha mãe frequentemente pergunta se está tudo bem suspeitando que eu esteja tendo uma convulsão em vez de apenas rir descontroladamente.
Te amo, cara desconhecida, continue com o bom trabalho e boa sorte e boa breja na busca por banheiros! Estamos juntos nessa luta =D

Glória Damasceno disse...

CHEFA, EU RI, OBAMA RIU E ADRIELLE (cantora mirim fã de Stefanny Absoluta lá de minha cidade) RIU. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Tu é uma graça. Essa conversa de beira de rio é mesmo um acontecimento.

SAUUUUUUUUUUUUDADE DE TE LER!!! (preciso saber de você, além do xixi a céu aberto)

Anônimo disse...

Vim te desejar um 2014 bem mais light do q foi esse q termina. Só sorrisos e alegregrias em um mar de saúde!!!
Marina

Anônimo disse...

E nós ansiosos por mais peripécias. beijo grande. Germana

Karine Tavares disse...

Forte, né? Gostei!
Parabéns pelo teu blog!
Vem conhecer o meu:

feitaparailetrados.blogspot.com

Talvez

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