terça-feira, 26 de março de 2013

Azar e a esperança equilibrista

O caminho da luz que eu e Camilo temos que seguir, também chamado divorcio, é um processo longo e doloroso. Mais por questoes de logistica que por questoes emocionais. Ontem foi o dia. Iamos fechar nossa conta conjunta e fazer um passeio pelo tribunal pra dar entrada numa ajuda do governo para o pagamento do adevogado. Estamos de comum acordo pela separaçao. Inclusive, nunca estivemos tao de acordo em alguma coisa, no entanto, estar de acordo nos custa 1,500 €. Acho que a tabela dos nao acordados deve ser calculada em relaçao a sua atitude diante do ex:

Testa franzida e olhos semicerrados: 20 €
Olhar raivoso: 30 €
Grito:
(60 - 80 decibéis): 40 €
(80 - 100 decibéis): 60 €
(100 - 150 decibéis): 80 €
(150 - 200 decibéis): no es posible.
"O Rafa vai ficar comigo": 200 €
"Nao, o Rafa fica é comigo": 300 €
"Quero pensao pro nosso gato": 800 €

Mas antes de saber se fazer carinho no ex acarretaria num desconto, imprimi todos os papeis que nosso advogado nos aconselhou, peguei minha bicicleta e sai de casa. Mal cheguei na esquina e senti que alguma coisa nao estava bem. Nao demorei muito pra descobrir que o grande esforço que fiz para chegar no final da rua provinha de um furo no pneu da bicicleta. Evocando todos os demônios em meios a palavroes e maldizendo a humanidade, voltei pra casa, calma como um anjo, para pegar outra bibicleta.

Aqui em casa, as pessoas sao realmente apaixonadas por bicicletas. Eu, que tenho uma tatuagem de uma bike nas costas, sou a menos apaixonada de todos, contando com apenas duas delas. Tem nego aqui que tem cinco. Entao, nao foi dificil estar de volta à rua com uma bicicleta de dono ignorado, encontrada no jardim. Mas das sete bicicletas que estavam à disposiçao ontem, eu escolhi justamente a que nao tinha freios - deve ser por isso que ela estava à disposiçao. Teria sido mais facil chegar ao meu destino com uma bicicleta sem pneu, mas nao uma sem freios. Mesmo percebendo que ela tinha 10% de freio de um lado e 0% do outro, continuei meu caminho, mas nao sem me perguntar, a cada dez segundos, se eu nao deveria voltar pra buscar uma outra. Cheguei no banco e ainda estava me perguntando se eu nao deveria ter voltado. 

Antes de sair de casa, limpei minha conta pela internet, mas ainda restaram três miseros centavos la. No banco, burocracia francesa:

- Senhor, o senhor quer que eu faça uma transferência para sua conta ou para a conta da madame?

(Camilo com cara de olha-tou-pouco-me-fudendo) - Err... Nao posso "doar" pro banco nao?

(Mulher com cara de cu) - Infelizmente, nohs nao temos o direito.

(Eu, me divertindo muito com tudo aquilo) - :D

E, finalmente, ela fez um recibo pela transferência de três centavos para conta de Camilo. Sou mesmo generosa. Mas se eu soubesse que haveria uma tal movimentaçao por causa de três centavos, teria deixado somente um na conta. Teria sido mais divertido. 

Ao sair do banco, a caminho do tribunal, avisei a Camilo que minha bicicleta nao tinha freio e que a gente teria que ir devagar. Mal subimos na bicicleta, ele olhou pra um semaforo que ficava a um quilômetro e disse "Luci, ja pode começar a freiar". Freei pelo costume de obedecer ao senhor meu honoravel (ex) marido, mas nao é que o conselho foi valido? Ao chegar no semaforo, eu mantinha quase a mesma velocidade de antes. 

Na entrada do tribunal, que dispoe de belissimos bancos de madeira, escolhemos umas pedras que "enfeitavam" o local e sentamos pra conversar besteira. Foi legal. Legal conversar com alguém que te conhece bem pra caralho e nao tem medo do que sabe. Nao senti o tempo passar, mas ainda tinha umas feridinhas que nao estavam cicatrizadas. Mas foi tranquilo  tipo (eu): 

- Quem tem cortado teu cabelo?
- Ninguém.
- Da pra ver.

Antes de passar pelo detector de metais que precede a entrada do tribunal, Camilo me aconselhou a deixar minhas facas e minhas bombas de gas lacrimogênio para tras, o que me fez pensar que os divorcios na França nao costumam ser nada amigaveis. Passei tranquila pelo detector de metais, mas ao tatear minha mochila, o seu puliça me disse que havia tocado "em algo duro e pesado". Até que eu gostaria de possuir algo duro e pesado naquele momento, mas o objeto nao-identificado era meu molho de chaves. Minhas chaves compoem 60% do peso que carrego na mochila, portanto, compreendi a desconfiança. 

Passeando pelo tribunal e nos deparando com pessoas de roupas curiosas, chegamos a um cartaz que dizia "Aide juridictionnelle". Depositamos nosso dossiê que, diga-se de passagem, nao foi aceito. Tinhamos todos os documentos que nao eram exigidos e nao tinhamos nenhum dos quais eles necessitavam. A burocracia francesa, meus amigos, vou explicar como funciona: nao pediram tal documento? Levem-no. Pediram? Levem cinco copias. Quase quatro anos na França e eu ainda nao entendi. Mas volto hoje com a certidao de nascimento do meu cachorro, morto na Paraiba, em 1998. Cês vao ver.

Saindo do tribunal pra recuperar nossas bicicletas, coloquei meu mp3 e Camilo perguntou surpreso: 

- Nossa, o teu ainda funciona?
- Eeeh... funciona, ué. Por que? O teu nao funciona?
- Nem sei, faz tempo que nao uso.

Nos despedimos e, no momento em que coloquei meus fones, vi que o som nao estava saindo como deveria. Gente, praga de ex é pior que praga de mae, é isso? Desconfiada, segui em direçao ao Centro Comercial. Foi quando me deparei com um semaforo. Freei, mas ao inves de sentir o freio, a unica coisa que senti foi o cabo do freio se partindo. Eu olhei pro cabo solto, olhei pra rua, olhei pro cabo solto, olhei pra rua e recorri ao método Fred Flintstone e freei com os pés. Ridiculo. Continuei o resto do percurso até o Centro a pé, levando a bicicleta pra passear, mas me perguntando como eu iria fazer pra chegar em casa (25 min de bike). 

Como ainda faltava umas duas boas horas pro encontro, me sentei em um sofazinho que recebe todos os mendigos da regiao, e eu, e continuei a leitura do meu livrinho. De repente, um cara (que passava anos-luz dos meus criterios de beleza) me pergunta as horas. Pergunta em francês, respondo em francês, mas a continuaçao da conversa é:

- Do you speak english?
- Non.
- Você é de onde?
- Brasil.
- No Brasil nao se fala inglês?
- Nao.
- E você estuda aqui?
- Sim.
- E você mora aqui?

Eu fiz a minha pior cara, a cara mais terrivel. A cara mais cruel. Aquelas que eu soh faço quando o pneu da minha bicicleta fura antes de um encontro importante. Mas mesmo assim, mesmo depois de quase enfiar o livro na minha cara pra mostrar que eu estava indisponivel para conversa, mesmo depois de quase enfiar o livro na cara dele pra ajeitar um pouco aquilo, o cara continuava me perguntando coisas e sorrindo e até mudou de posicao pra ficar mais perto de mim. Oin.

- Moro. Moro com meu marido.

Eh batata, véi. O cara te assedia atééééé o momento em que você convoca a figura (inexistente) de um outro macho. Idiotas. Sério. Vocês pensam o que? Que vocês vao chegar com esse papo mole em uma pessoa que, visivelmente, nao apresenta o menor sinal de interesse e, apos meia duzia de perguntas obvias, a gente vai montar em cima de vocês e implorar por sexo? Vao tentando... Se bem que eu tava com tanta fome que se ele tivesse me oferecido um pedaço de pao seco, eu teria emprestado meu corpo. Emprestado. 

As duas horas e a leitura avançaram. Fui encontrar minhas amigas que estavam acompanhadas de uma muçulmana. No restaurante (finalmente!), falei das minhas aventuras no tribunal e ela contou como foi seu casamento. Disse que usou sete vestidos no dia da festa e, no momento mais esperado, naquele em que ela iria aparecer usando seu primeiro vestido, o noivo dela disse, decepcionado, "ta parecendo o terminator!" 


Casa comigo? 


Eu ri! Mas nao muito que era pra nao constranger demais. Dai, pedimos a boia e, enquanto eu mastigava vacamente minha deliciosa salada, observei que tinha um pedaço de salada transparente que, apos mais alguma investigaçao, se revelou como sendo um pedaço de plastico. Achei interessante a proposta francesa de querer aproveitar até mesmo os sacos plasticos da salada para compor seus pratos, mas ainda nao adotei essa dieta. Perguntei a garçonete o que era aquilo e se eu poderia comer. Ela levou o pedaço da minha salada transparente embora sem dizer nada e nem ganhamos sobremesa gratis. Alias, eu ganhei, mas nao por mérito dela. Valeu, Aline! Pedi minha sobremesa sem plastico e a garçonete nem riu. Franceses.



quinta-feira, 7 de março de 2013

Meu filhote de leao, meu raio da manha

Acho que eu passei tanto tempo sem postar, porque nao queria contar tudo o que me aconteceu nesse ultimo ano, relembrar e cutucar a ferida, mas tambem nao queria atropelar o que eu vivi e o que eu morri (e fiz mais isto que aquilo) e continuar a postar aqui como se nada tivesse acontecido. Entao, sem enrolar e puxando o band-aid de uma vez soh pra nao doer muito, eu vos anuncio que Camilo e eu terminamos. E terminamos ha tanto tempo, que ja nem doi dizer isso. Nao disse antes porque doia, porque eu posso brincar com um tumor raro, com o fato de ter um coracao que nao funciona bem, mas finalmente achei uma coisa da qual nao poderia brincar. Acho que nao preciso enfeitar esse post e tornar essas linhas especiais pra mostrar o quanto foi linda essa relacao, nao eh? Porque, se eu precisasse fazer isso, eu diria que, apesar dos motivos que nos levaram a terminar o namoro, eu nao me arrependo. Eu nao me arrependo de nada. Eu diria ainda, que parece que passou uma vida desde que ele me provocou o ultimo sorriso, mas enquanto eu me lembrar do primeiro, eu vou saber que a gente tinha que passar uma parte da nossa vida juntos. Camilo me colocou num pedestal, cuidou de mim, funcionou no modo "injecao de auto-estima de Luci" durante cinco anos. Se esforcou pra me convencer de que eu era linda. Nao me deixou desistir da faculdade. Ele me deu tanto amor que quase me consertou... 

Mas eu nasci quebrada, amor, e cirurgia nenhuma e amor nenhum vai conseguir me consertar. Eu agradeco a devocao, o esforco e o pedestal. Espero que tu saiba que nao foi o excesso disso tudo que me fez ser fraca nesses anos todos. E eu espero que tu nao se arrependa tambem. Tu fez minha vida mudar (muito antes de eu pensar em por os pes na Franca). Tu me ensinou a nao usar saquinho plastico e a nao ter orgulho. Essa eh uma das melhores coisas que ha em mim e foi tu quem me deu, tu me libertasse de uma prisao. Espero que eu tenha te deixado alguma coisa boa, alem das lembrancas. E agora, vou parar por aqui, porque chorei demais pra quem disse que ja nao doia. 

Senhoooor, por que me fizeste de seda? 

Pelo visto, o jeito eh me fumar...

(Senhoras e senhores, eu voltei).   

Talvez

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