segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Tempestade numa panela d'agua

No começo do ano passado, eu tava me recuperando de uma desilusao amorosa, de um idiota que fez cocô no meu coraçao. Num fim de semana de amargura, decidi ir pra festa de um amiguinho. La, encontrei um cara que tinha um rolo de papel higiênico. Ele limpou todo o cocô do meu coraçao e, desde entao, tamo junto. 

Essa eh minha introducao.

Ele eh bem bonitinho, o bichinho, bem loiro. Muito loiro. Na verdade, ele é tao loiro, que quando a gente ta meio longe, a gente pensa que ele nao tem sobrancelha, mas ele tem logo duas. E os cilios dele sao transparentes. Quando eu chamo ele de Gasparzinho, ele aprecia médio. Mas ele nao sabe falar português, entao ta tudo serto (meu amor, se um dia você aprender português e ler isso, "serto" nao se escreve assim, ta? Eh com dois "S". Oin, também te amo). 

"Luci de namorado novo... Manda nude". Mando nao, pessoas. Mas eu vou contar uma historia, ta, que é melhor que nudes*. Eu tenho uma maldiçao coisa com namorados desastrados. Quem acampanhou o blog na época, sabe que meu ex ja tentou me esganar enquanto dormia, quebrou minha bicicleta e metade do mobiliario da casa em que a gente morava e tudo isso sem querer. Camilo, se você ainda falar português… bom, desculpaê, mano! Entao, Camilo quebrava tudo, mas a façanha de provocar uma enchente no quarto foi obra de Gaspar (agora que eu tou pensando que esganar a namorada enquanto ela dorme nao é a perfeita descriçao de uma pessoa desastrada, mas deixa pra la).

*nem eh

Eu comecei a desconfiar que Gaspar era desastrado quando ele chegou um dia em casa falando do trabalho: "hoje eu me dei um murro na cara". Eh, a historia começou assim. "Eu fui tentar tirar um saco de areia do carro, mas ele tava muito pesado! Dai, enquanto eu fazia força pra puxa-lo, minha mao escorregou e eu me dei um murro na cara". O cara por pouco nao se neutralizou sozinho. High level  de mao-esquerdice: lutar MMA com um saco de areia. E perder.

Mas desastre mesmo, eu vi no final do ano passado. Quando o inverno chega por aqui, a gente tem que retirar o ar que ficou acumulado nos aquecedores. Isso otimiza o funcionamento do aparelho. A tarefa consiste em girar levemente uma peça do aquecedor, fazendo com que o ar saia, geralmente com um pouco de agua junto. Assim que o ar sai, fecha-se a valvula outra vez. A açao dura cinco segundos. Mas para o sucesso da operaçao, é preciso ter à mao uma bacia pequena e uma chave francesa. Pode ser uma chave inglesa tambem, mas desde a Guerra dos Cem anos, as chaves inglesas nao funcionam muito bem na Franca. O senhorzinho da foto, por exemplo, muito discreto no seu modus operandi, executou o serviço com um copinho de café e uma chave de fenda. Eu, por via das duvidas, menos por temor que por exagero, realizo a açao com um tonel que cabe a familia dentro (vale salientar que minha voh pariu bastante nos anos 50). O recipiente se faz necessario porque a pressao dentro do aquecedor é muito forte e as vezes o ar liberado sai, como eu disse, com um pouco de agua.

No comeco do inverno, Gaspar chegou do trabalho meio derrubado e resmungando. Pensei que ele tivesse pego uma briga com outro saco de areia, entao nao fiz comentarios. Ele falou que tinha tido um dia ruim, mas nao entrou em detalhes. Ele disse somente que iria tirar o ar do aquecedor e que logo me daria antençao. Entao, la estava eu lendo um livro na cama sobre o Coliseu, deitada de barriga, as perninha balançando. Inclusive, voces sabiam que o nivel da arquibancada mais distante da arena do Coliseu era reservado aos pobres, aos escravos e as mulheres? Pois eh, esse blog eh um oceano de cultura. Falando nisso...

Enquanto apreciava minha leitura, eu ouvi, de repente, gritos de pessoas no quarto e buzinas de carros. Levantei o rosto e vi familias inteiras correndo na mesma direcao, fugindo de uma onda gigante que chegava à toda velocidade. Eu so tive tempo de salvar o Coliseu. Tinha um geiser descontrolado saindo do aquecedor: Gaspar tinha aberto tanto a valvula do aquecedor, que a pressao a jogou dentro da panela que ele inocentemente segurava e a agua da cidade foi sendo jorrada aos litros dentro daquele quarto. Eu presenciei um fenomeno raro, uma especie de chuva indoor, a primeira observada na França. Felizmente, eu reagi rapidamente para ajuda-lo:



Apos passar 20 segundos dando voltas em torno de mim mesma, corri pra fechar o registro da agua. Sai do quarto correndo, desci dez lances de escada num pulo, entao lembrei que eu nao sabia onde era o registro geral e voltei pro quarto. Vi o dedinho loiro da criatura enfiado no aquecedor, tentando conter a agua, em vao. Tive pena, mas quis rir. Ou foi o contrario. Perguntei a Gaspar onde era o danado do registro, mas fazia somente um mes que ele morava la e ele sabia tanto quanto eu. Ele pediu pra eu acordar o coloc dele que dormia no andar de baixo.

Desci de novo as escadas e bati descontroladamente a porta. Quando o cara abriu, ele tinha um olho fechado e o outro meio aberto, mas a situacao exigia uma açao rapida, entao fui sucinta na explicaçao.

- Gasparaquecedorcoliseuenchenteregistro! Onde eh que eh o registro?
- O registro de que?
- O de agua! Tem uma enchente!
(ele abriu um olho)
- Nao sei. Por que?
- Gaspar quebrou o aquecedor!
- An? Como assim?
- Ai, meu deus!

Olhe, eu ja estava esbaforida, imaginando encontrar meu namorado azul, boiando afogado no quarto, entao pedi pra ele subir, mas ele foi na velocidade turista-visitando-igreja e eu la, incentivando ele com os olhos arregalados. Chegando la, juro, tinha agua na parede, no teto, debaixo da cama, meias molhadjinhas e o tapete encharcado. Mas felizmente, Gaspar tinha conseguido lutar contra a pressao da agua e recolocado a valvula no lugar. E o melhor de tudo, ele continuava transparente e nao azul. Depois de secar o quarto (e o computador e os livros e as roupas), encontramos a panela. E uma chave inglesa.





8 comentários:

Isabela Mena disse...

(Tô louca o sumiu o post sobre isso do seu facebook)

Enfim, 100% de identificação com o Gaspar. Todas as minhas cicatrizes (pequenas, médias e grandes) foram adquiridas na idade adulta, quando se pronunciou meu poder de auto-desastre (que muitas vezes atinge quem tá perto, tipo dominó). Eu tenho um amassamento no músculo da perna por ter derrubado uma tv no meio da coxa (de uma altura considerável. E da época que elas eram de tubo) e abri e tive de levar pontos no osso da outra perna, embaixo (nunca sei como chama a perna embaixo da coxa depois do joelho, ) porque, ao tentar me olhar no espelho, subi e caí do bidê, que se espatifou (bêbada). Eu tava esperando um cara pra sair e o date foi no hospital. Já abracei poste porque tava olhando pro lado, caí em buraco na praia pelo mesmo motivo... Hoje mesmo eu tava andando e olhando cima, pra um sofá sendo içado num prédio, não vi o desnível e tropiquei. Entendeste meu ponto. Ou seja, Gaspar é gente boníssima :-)
Sabe o motivo do comentário gigante? Saudade das suas escritas nesse blog. E tó, fica com um vídeo que, coincidência, vi hoje de manhã e mostra o quanto os pinguins são desastrados :-P Bjo!

https://www.youtube.com/watch?v=Tcx6YyXvvRI

Beth disse...

Velho, só tu pra levantar a moral! Ri horrores com a história (mesmo acreditando em tudo e pensando "coitado do bixinho"!)

E devo dizer pra colega aqui de cima: melhor video ever! Vou salvar pra rir nesses momentos tristezas! Gargalhei tanto que até o gatos de casa vieram me ver com cara de quem diz "ela tá morrendo ou o quê?"

Bisous!

Luciana Nepomuceno disse...

ai, tanta saudade que eu estava do seu jeito maravilhoso de ver/contar a vida <3

Maíra disse...

Qualquer similaridade com Monique quando criança é mera coincidência hehehe Gaspar é canhoto?

Que felicidade ter a honra de poder ler mais um dos seus posts, Luci. Obrigada por me proporcionar uma leitura agradável no caminho para casa.

Beijos!

Eliana disse...

Huuummmm só posso concluir que vocês foram feitos um para o outro rs e assim seremos felizes para sempre porque vocês juntos... ohhh vai render muita história para este blog e a gente vai adorar rs bjs

Ramira Leidy disse...

Caguei de rir! Até q enfim um texto novo! Volta mais vezes poxa. Adoro seus textos. (mas coitado do rapaz! o murro do cimento foi de matar kkkk)

Gisley Scott disse...

Ri horrores com a introdução e fiquei as gargalhadas à medida que lia o texto!!! Talvez você já tenha feito isso( não sei) mas se você fizesse um livro com essas suas histórias vc iria ficar ryyyyyycaaaaa !!! Eu comprava um 10 exemplares, um pra mim e 9 pra zamiga!

Beijo!

Gisley Scott disse...

Querida, saudades, quando vc volta para nos alegrar na rede através dos seus textos?
Beijos!

Talvez

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