sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

De como nascem os traumas

Atualmente, eu moro com duas outras criaturinhas e posso dizer que achava mais facil morar com  dez pessoas que com somente duas. Porque se você nao gostar de uma das dez pessoas, você tem um problema com apenas 10% da casa. A três, se você nao gostar de uma das pessoas, você nao gosta de metade da casa. A nao ser que você também tenha um problema consigo mesmo. Nesse caso, é melhor você livrar a pessoa legal da presença de vocês dois. 

Mas nao era disso que eu queria falar. Queria dizer que, como eu fui a primeira a entrar no apartamento, eu tive que encontrar os fiadores e colocar meu nome em todas as faturas e no contrato do apartamento. Se a vida me decidiu adulta, comecei a agir com adultice e acabei me tornando descascadora de pepino profissional em relaçao aos problemas da casa. Eu arranjo tudo aqui! Pode-se dizer que eu sou o homem da casa.

(queria ter visto a cara dazamiga feminista lendo essa frase)

E, como vocês verao, os problemas daqui sao muitos. Vem comigo, gentchi!

Ha um mês, a internet parou de funcionar e... Alias, esqueçam o que eu disse no paragrafo anterior sobre autonomia na resoluçao de problemas. Eu resolvo tudo, mas eu tenho meus limites: fazer ligacoes telefônicas pra desconhecidos. Pra conhecidos também, mas nesse caso, sao eles que ligam e eu nao tenho muita escolha. Entao, quando a internet parou de funcionar, eu terceirizei a ligaçao para Namorado. Ele é otimo. Ele liga, expoe o problema e a atendente:

- Você ja tentou reiniciar a box?
- Nossa, tou falando com o funcionario do mês?

Nao estava. Claro que reiniciamos a box! Reiniciamos a box e apertamos tanto botao que devemos ter reiniciado a internet de outras casas. Mas num procedimento padrao, a moça fez a gente trocar os cabos, desligar aparelhos e liga-los numa sequencia tao especifica que eu achei que ela tivesse tirando onda da nossa cara. Pensando bem, talvez estivesse mesmo. (...) Nossa, ela nos enganou direitinho. Enfim, pra compensar minha covardia de nao ter falado ao telefone, fui seguindo namorado pela casa como uma sombra e antecipando as necessidades dele, ligando as luzes, tirando movel de lugar, dando os codigos e numero cliente exigidos pela telefonista. Acho que todo esse auxilio silencioso me lembrou muito minha avoh e de quando eu era criança e ia passar as férias na casa dela, em Campina Grande. Na época, ela tinha uma historia de ir no Centro "resolver as coisas". Veja bem, resolver as coisas nao era assinar um tratado de paz mundial, mas comprar um carretel de linha ou amolar um alicate de unha. E eu adorava resolver as coisas com ela. Ela costurava e, de vez em quando, ia atras de uma revista de costura ou de um apetrecho.

- Olha, vovoh, esse carretel é preto e...
- Num é esse preto que eu quero nao, menina.

Aih ela pegava um carretel preto mais preto que o preto absoluto e eu ficava ooohhh vovozinha! Como eu disse, eu gostava de sair com ela, MENOS... menos, meu amigos, quando chovia. Quando chovia era foda. Quando chovia todos os cidadaos campinenses se apinhavam nas calçadas à procura de um abrigo que, vez ou outra, ostentavam as lonas dos camelôs. Mas o pior era quando vovoh abria o guarda-chuva. Minha avoh é muito pequenininha, soh ela e Polegarzinho tem essa altura. Entao, quando ela abria o guarda-chuva, ele ficava exatamente na altura da cara das pessoas, funcionando como uma hélice mortifera, mas ela nem se dava conta. Ela ia andando pela calçada feito um foguete, prestando atençao nas bancas de revista, procurando a "Manequim" do mês e enfiando o guarda-chuva no olho das pessoas. Se virava e VRAAA na cara de um. Mudava de direçao e VRAAAA na cara de outro. Era passando e deixando um rastro de caretas e sangue atras dela. E eu ia atras, morta de vergonha, trabalhando a diplomacia "ai, desculpa, moço! Eita, vov... ai, minha senhora, taquih seu olho. Desculpa, ta? Ah, quê? Ele nao é verde? Meu deus, de quem é esse olho verde? Vovoh, espera, para de se mexer!" e assim ia, até a chuva dar clemência. Bons tempos!

Voltando pra 2017: a atendente nao conseguiu resolver nosso problema com a internet e tivemos que ir até a loja pegar uma chave 4G enquanto a box seria magicamente reparada à distância. "Quando a luz voltar a ficar branca, é porque tah bom". Como isso me pareceu muito razoavel, aceitei. Passado um tempo, tudo estava indo muito bem na minha vida até que o inferno astral começou. Pra quem nao sabe, o inferno astral é um periodo de merda de 30 dias que precede o dia do aniversario da pessoa. Como meu aniversario é em maio e o periodo de merda taih, imagino que estou vivenciando o inferno astral de Jesus Cristo porque ta complicado. Pra falar a verdade, tudo começou a dar ruim ha mais ou menos uma semana, entao, podemos dizer que se trata apenas de um inferninho astral.

Na quarta:
Notei que as nossas caçarolas estavam flutuando num liquido pastoso, fedorento e amarelado que escorria de algum lugar desconhecido da pia. Pesquei as panela e fui consultar o encanador que fica, comodamente, no térreo do nosso prédio. A secretaria disse que ele iria passar somente "amanha", à 10h.

Quinta:
 A 11h30, o encanador da sinal de vida. Foi la em casa e quando eu abri a porta, senti um cheiro tao forte de birita vindo dele que eu tava na duvida se eu dava um high five ou um conselho. Era um velhinho de poucas palavras. E de poucas atitudes também.

- Eh. Ta entupido.
- ...
- Nao vou poder consertar agora.
- Euh... Entao quando?
- Hoje de noite você ta em casa? 
- Tou, mas muito tarde, vocês ja vao estar fechados.
- Nao, a gente nao tem hora pra fechar nao.

Na verdade, tinham. Nao somente tinham hora pra fechar como fecharam.

Sexta:
O senhorzinho também nao passou na sexta.

Sabado:
A mangueira da maquina de lavar roupa também ta com um vazamento.
 
Segunda:
Vou no encanador, falo do primeiro vazamento, falo do segundo vazamento, temo por alguma alcunha, falo que é urgente, o encanador chega horas depois, conserta os dois vazamentos e diz que vai voltar no dia seguinte pra verificar se tudo esta bem.
 
Dia seguinte:
O encanador volta, se certifica que o primeiro vazamento esta estancado (jucah feelings) e vai embora.
 
Dia seguinte do dia seguinte:
Descubro outro vazamento na maquina de lavar. Como sou uma adulta, exclamo em adultês: mas sera o benedito? (Minha alma é velha) Desço pra ver a secretaria e encontro uma foto minha na porta do encanador com duas faixas vermelhas se cruzando em cima dela. Respiro fundo, entro e tento:
 
- Moça. Olha...
- ...
- Eu sei, eu sei. Eh que...
- Nao. 
- Sim. Aconteceu...
- Mas assim?
- Sim. Mas eu nao tenho culp...
- Querida, posso te fazer uma pergunta?
- Nessa altura, er, pode...
- Você ta apaixonada pelo...?
- Eu? Nao!
- Nao?
- Nao!
- Ta bom, ta bom...
- Eu soh queria que ele...
- Sim?
- Viesse e...
- Sim...
- Olha, tenho que ir.

Sai de la correndo, dobrei a esquina, cabelos embaraçados, lagrimas no rosto. Encostei na parede e, arfando com meu caderno apertado contra o peito, fui deslizando devagarzinho e fiquei la, agachada, naquela tarde umida, sem saber exatamente o que eu estava sentindo. Tudo aquilo fazia sentido? Estava eu apaixonada pelo encanador pé de cana? Talvez mrs. Dawson estivesse certa e eu estivesse sabotando o trabalho dele para... para...

Para ver este miseravel aparecer aqui em casa e consertar, pela 4a vez, a porra da maquina de lavar que soh podia ta possuida! O vazamento vinha da outra ponta da mangueira! O pior é que o chao do apartamento é de madeira e ele absorveu toda a agua. O piso ficou preto e todo fofo. Oing! Fechei a torneira e, enquanto esperava o enganador, resolvi diminuir o estrago secando um pouco o chao com o secador de cabelo. Procuro meu secador no banheiro e nao acho. BUFANDO mando uma mensagem pras minhas roomates, QUEM FOI A CARA DE FUINHA QUE PEGOU O CARALHO DO MEU SECADOR?, pensei. "Galera, quem pegou meu secador de cabelo, por favor?".

Enquanto a demoiselle nao se entregava, peguei um secador aleatorio que estava à disposiçao e me mandei pra cozinha. Empurrei a maquina, liguei o secador, direcionei o vapor e, 30 segundos depois, ele estourou na minha mao, POW! Eu dei um grito e um pulo pra cima da geladeira. Eu morro de medo de levar choque! Sabe aquelas brincadeiras que a gente fazia quando era criança, "você prefere morrer eletrocutado ou queim..." Queimado. Prefiro morrer queimado e esturricado. Cara, eu levei um choque dos infernos quando era pequena. Mereci. Desobedeci à minha mae e fui traquinar. Peguei um fio que tava desencapado e enfiei na tomada. Minha mae tinha avisado: "nao é pra pegar nesse fio, ele pode dar choque". Aih ela colocou o fio em cima do guarda-roupa. O que eu fiz? Subi na cômoda, peguei o fio, coloquei na tomada e depois peguei na ponta desencapada. Levei um choque dos bigode queimar. Sai correndo desesperada pra sala. Quando ela entendeu o que tinha acontecido, minha mae, banhada na agua da pedagogia, me disse "VOCÊ MORRE DURA, MENINA!" e foi isso. Nem um abracinho, minha gente. De como nascem os traumas. E dai que o secador inventa de pipocar. Desliguei aquele troço da tomada, fiz o sinal da cruz e ouvi minha roommate saindo do quarto, meu secador na mao.

Desisti daquilo tudo e fui comer. Liguei o forninho e... E ele nao estava funcionando. "Pronto, queimei a casa". Liguei pra namorado soh pra desabafar, mas ele aproveitou pra me aconselhar a nao tocar em nada, explicando que os cabos deviam estar molhados por causa do vazamento. Ta bom.

Fui ler as treta na internet. Uma hora depois, o feed nao atualizava mais. A internet-nao-esta-funcionando-caraleo-de-asa. Nessa altura eu comecei a rir. Rir de nervoso. Peguei o numero-cliente, liguei pra operadora e um cara me atendeu. Ele tinha uma batata quente na boca. Eu soh entendia o começo das frases.

- Bom dia, senhora Aquino.
- Sou eu mesma, mais adulta do que nunca, pode falar. Eu sou o homem da casa.
- Bom dia, senhora, a senhora estah com um xoxxoxoxo chahahduehfuhfufh...
- Eh, acho que sim... A internet parou de funcionar.
- Estaremos mandando um chavezzzzxox oxxoxoxoxhchah ahacjidjfi
- Mas eu ja tenho a chave, é ela que nao ta funcionando mais.
- Eu convido a senhora, madame Aquino para religar a bxxoxoxox xochhchhicichic
- Ta bom, entao. Obrigada.
- Xo.

Desliguei a chave, acionei a rede antiga e voilà! A internet voltou ao normal. Confesso que gostava mais de resolver as coisas com minha avoh.

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E pra quem é de feici:

.caso.me.esqueçam.



sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Disque L para lesar

Vocês devem nao andar se perguntando onde foram parar as historias da casa em que eu morava com mais dez pessoas. Pois bem, ha mais de três anos, eu mudei de casa e de bairro. Agora, eu moro no bairro mais popular de Lyon: a Guillotière. Esse bairro tem tanto macho assediador de beira de calçada, que eu ja dediquei um post sobre o assunto ha quatro anos, antes mesmo de morar no bairro. "Luci, se o bairro é tao foda assim, por que você escolheu morar la?" Gente, deixa eu escolher pelo menos o bairro onde eu vou morar! "Ah, entao nao reclama". Olha, o blog é meu, eu reclamo se eu quiser. Alias, eu nem sei com quem eu tou discutindo... Entao, continuando. 

Tem um bando de desocupado pelas calçadas. Eles passam o dia todo la, vendendo haxixe e marlboro falsificado. Alias, esses sao os menos desocupados. Os desocupados profissionais, te cantam quando você passa. Mas atençao, nao é aquela "cantada" de brasileiro quero-te-colocar-de-quatro-e-ripa-na-chulipa. A cantada é mais estilo "você é muito charmosa", "bom dia, hmm", o que leva muito macho a achar que estamos exagerando quando nos indignamos com esses tratamentos. Mas creiam-me: quando você escuta isso com frequência, você ja sai de casa botando sangue pelos olhos! Ou soh sou eu que reajo assim? Siiiim, soh você, Virgem Maria dos anos 90.

Diferentona

Alias, quando eu era criança, eu morria de medo dessas historias de Virgem que chora, de colchao que pega fogo sozinho. Um dia minha mae saiu de casa e eu fiquei vendo Gugu com meu irmao mais velho. O programa falava sobre uma estatua da Virgem que chorava sangue. Olha, eu tava tao tensa, que se meu irmao tivesse espirrado na hora, eu nao estaria aqui agora escrevendo besteira pra vocês, teria passado dessa pra melhor, morta de susto. Enfim, divago. O caso é que eu passei a reagir com certa frequencia às cantadas, à medida em que os anos foram passando. 

Entao, ha duas semanas, la estava eu tranquilamente andando na calçada com a criança tranquila que tomo conta, numa tarde muito tranquila. Estavamos voltando pra casa quando, de repente, um homem que estava dentro de um carro estacionado me chamou pra pedir uma informaçao. Eu fui com certa cautela, sem me aproximar muito. Por que? Porque quando eu era pequena, eu lembro de estar brincando na rua com meus irmaos/amigos e de um cara ter parado num carro pedindo informaçao. Ele queria saber onde tinha uma farmacia no bairro, porque ele tinha levado uma picada de abelha. Eu deixo vocês imaginarem onde ele tinha levado a picada. Pois é. Os anos 90 foram recheados de Caverna do Dragao e trauma. Inclusive, la vai mais um sobre o tema. 

(Aquele momento em que você usa seu blog como terapia) 

Eu tava andando pelo bairro com uma amiga e a prima dela. A gente devia ter uns 9/10 anos, no maximo. De repente, numa tarde muito intranquila, um bigodudo de boné passa de bicicleta pela gente mostrando as vergonhas dele. A vista daquele bigode pendurado me chocou bastante. Os bigodes eram muito comuns nos anos 90. Tinha até na televisao, assim, no domingo à tarde, pra qualquer criança ver. 

Mas voltando pra semana passada, eu fui andando com cautela até o carro do cara que queria a tal informaçao. Peguei a criança pela mao e fiquei ha uma distância de pelo menos dois metros dele. O cara pediu a informaçao aos cochichos achando que eu iria me aproximar. 

- Shhhffftiijjjj?
- EH O QUE, OMI?
- Eh... Onde fica o Sixième?
- Fica praquele lado la, oh.
- Ah ok. (...) Você é muito charmosa!



Coroi. Ele disse essa, acelerou e foi embora. Eu queria ter tido alguma coisa pra arremessar naquele carro, mas eu soh tinha a criança comigo, achei melhor nao. Eu voltei pra casa bufando, passei um péssimo dia. Dois dias depois, às 8h30 da manha, fui trabalhar e, quando tava entrando pela porta do prédio da guria, um cara passa por mim dizendo algo e fazendo cara de quem nunca viu mulher na vida. Claro que eu mandei ele calar a boca e claro que ele veio atras de mim. 

(Insira meu pânico aqui)

Entrei no prédio rapidamente, fechei a porta de madeira maciça, passei pela segunda porta, de vidro. Ele abriu a porta de madeira com um chute, eu abri a porta do elevador e paramos ali. Ele abriu a boca, mostrou os dentes e, com os olhos, gritou: "Sua promiscua! Putéfia!" (Optei pela traduçao que iria choca-los menos). "Zoupeira, croia!" Sem esperar que ele descobrisse que a porta de vidro nao tranca, eu peguei o elevador, toda cagadinha.

No dia seguinte, eu começaria o trabalho no mesmo horario. Fiquei com medo do insano estar me esperando no mesmo lugar, mas o Céu foi clemente e era dia de chuva. Chuva = guarda-chuva = Luci-dissimulando-o-rosto-com-guarda-chuva. Dai la estava eu na minha cautela tao caracteristica, andando e escondendo a cara, andando e colocando o guarda-chuva entre mim e os passantes, qualquer um, pra evitar antigas e novas confusoes. Dois caras vinham se aproximando no sentido oposto. Eu fui avançando em direçao a eles e, quando iamos nos cruzando, eu coloquei discretamente a umbrela entre a gente pra evitar qualquer contato. Foi quando um deles se jogou na minha frente, se agachou, avaliou meu rosto, sorriu e disse "ah sim ! Ela é linda!" e foi embora com o amigo sorrindo. Aih meus olhos foram chuvendo até o trabalho.

A verdade é que no dia em que o doido entrou no prédio, eu decidi me inscrever nas aulas de Krav Maga PORQUE VIOLENCIA A GENTE RESOLVE COM VIOLENCIA porque eu queria ter um pouco mais de auto-controle. Pra isso, eu tinha que ter um certificado médico provando que eu era apta pra atividades fisicas. Fui no médico, aquele mesmo que diagnosticou minha tosse de louco, e tivemos o seguinte dialogo:

- Dotô, eu queria um certificado médico.
- (escrevendo de cabeça baixa) Pra quê?
- Pra praticar uma atividade fisica...
- (escrevendo de cabeça baixa) Qual?
- Krav Maga.
- (cabeça baixa) Por que?
- Porque eu fui agredida na rua por um cara e...
- (para de escrever e levanta a cabeça com um sorriso) Aaah! Entao você quer bater nos homens?!

Pra falar a verdade, eu gostaria muito de estripar uns dois ou três, mas poder me defender em caso de ataque ja ta bem bom! Aih ele perguntou o que os caras me diziam. E é foda contar, né, porque, primeiro, isso nao vem ao caso, segundo, isso nao vem ao caso mesmo. Mas como eu falo pra caralho, eu disse que os caras soltam uns clichês e/ou fazem uns barulhos com a boca.

- Que tipo de barulhos?
- Ah, sei la!
- (assoviando) Fiu-fiu? 

Haha Meu filho, nin-guém faz fiu-fiu hoje em dia! A gente soh vê isso em propaganda de creme solar ou de cerveja. Na vida real os caras trincam os dentes e chupam a saliva. Arfam com a lingua do lado de fora.

- Nhé... eles dizem fiu-fiu... é... isso mesmo.
- Ta bom. Entao, vamos pra sala de exame. Tire somente a blusa e o sutia.
- Certo.
- Fiu-fiu! he-he-he

Juro. A pessoa tem que jurar no caralho desse blog, mas é verdade. O cara simplesmente assoviou. Bom, ele fez isso assim que eu levantei, antes que eu me despisse, mas ainda assim: achando que essa seria uma PIADA MUTCHO LOKA! Selo Gentili de aprovaçao. E depois ele ainda disse que era loucura se "inflamar" porque "homem é assim mesmo, sempre foi". Magina, broder! A mulher vai no seu consultorio traumatizada pelo pedofilo que tem ataque anafilatico peniano, pelo homem de bigode na bicicleta, pelos insanos da Guillotière e dezenas de outros ainda. Ela ta traumatizada a ponto de resolver fazer um esporte de combate pra se defender no caminho da propria casa e você, seu médico pessoal, depois de ouvir tudo, decide o quê? O quê? Fazer uma piada com assédio e ainda justifica-lo. Claro. Pensando bem, era bem inofensivo essa Virgem que menstrua pelos olhos. Sdds. 


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E pra quem é de feici:

.caso.me.esqueçam.




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A mulher nao vitruviana

Acalento 


As lembranças do feici me mostraram esse post de 2011 sobre uma das minhas milhares de idas ao médico. Esse post me divertiu bastante porque, se minhas acnes nadegueiras desapareceram, minha peleja por um médico continua firme e forte. 

Da médica maluca que dava o diagnostico com um mega-fone, eu migrei pra uma que atendia la perto de casa. Além de medica generalista, ela também atuava na ginecologia, o que era bem pratico, ja que isso me poupava de ver dois médicos caso eu também precisasse de um especialista nesta area. Além do mais, eu preferia me consultar com alguém que soubesse realmente o quao violenta pode ser uma colica menstrual. Entao, eu ia sempre no consultorio dela até que um dia ela me receitou vitaminas pra tratar de queda de cabelo. Teria sido maravilhoso se ela tivesse pedido exames e descoberto que, na verdade, eu tinha um tumor. Mas eu nao guardo rancor dessa maldita incompetente. A prova disso é que fui consulta-la uma ultima vez.

- Doutora, eu tou com uma micose vaginal.
- (olhos condescendentes) E como você tem tanta certeza?
- Porque nas crises de coceira eu tenho vontade de extirpar minha vulva com um ralador de legumes. Pura intuição.
- Vamos dar uma olhada então.

(uma olhada depois...)

- Nao, nao é micose nao. 
- Como assim nao é micose?
- Na verdade, sua anatomia faz com que você sinta esse desconforto, mas na verdade, você soh precisa mudar de posiçao nas suas relaçoes sexuais.

Juro pela minha mae mortinha. 
(Oi, mae! Nao se preocupa que essa historia é verdade!)

Eu fiquei assim, olhando pra cara dela, olhando praquele diploma emoldurado na parede, olhando pra cara dela, olhando praquele diploma... E fui embora. Desiludida com o fato de que uma especialista em vaginas & cia nao reconheça um problema simples relacionado à vaginas & cia, decidi avacalhar e dar uma oportunidade pros homens. Foi então que encontrei um novo médico que, em cinco consultas, não me tocou nenhuma vezinha, não tirou pressão, nem fez perguntas sobre meu historico de saúde. Muito pratico!

A primeira vez que precisei desse homem, foi no ano passado por causa de uma tosse. Essa tosse começou de mansinho, como quem nao queria me matar. Era um arranhado delicado que fazia a voz emperrar. Fui ao médico uma vez. "Antialérgico". E mel e xarope. As semanas foram passando. Fui no médico pela segunda vez: "antibiótico". E Mel, xarope, alho. Antibiotico na terceira vez também... E mel, xarope, alho, oleo essencial, exorcismo... E a tosse la, ha quase seis meses! Comemoramos juntas o Natal daquele ano.

Eu ja tinha me acostumado a ela e essa é uma mentira tao grande que fui ver uma naturopata. Se com medicamentos alopaticos o encosto nao saia, resolvi dar uma chance à homeopatia. Mas consultas com médicos homeopatas não são reembolsadas pela seguridade social francesa, então desembolsei 60 eurinhos. Finalmente, com esse novo tratamento, eu pude constatar que eu havia jogado 60 euros no lixo: a tosse persistia. 

No oitavo mês, decidi ver outro médico. Eu tava fazendo uma formação na época e pedi sugestões de médicos pros colegas de classe.

- Conheço um otimo!
- Quero o numero dele então, por favor.
- Ah, mas deixa soh eu te avisar uma coisa...

Na sua opinião, do que Luciana precisava ser avisada acerca desse médico? A pergunta soh admite uma resposta correta:

a) O médico não era discreto
b) O médico não sabia diagnosticar micoses
c) O médico não investigava as doenças
d) O médico dava falsos diagnósticos
e) O médico não curava nem tosse
f) O médico não era reembolsável
g) O médico era negro

- Olha, ele é negro.
- O_o
- Eu digo isso porque tem gente que não gosta, né?

Anos 90
Sem entrar no mérito da questão kakolega, fui no médico-que-tem-gente-que-nao-gosta. Cheguei la, me apresentei e fui desenrolando o pergaminho de cerca de sete metros onde eu tinha registrado meus ultimos percalços de (nao) saúde e li, durante sete horas, 36 minutos e 43 segundos, todas as minhas doenças importantes dos ultimos cinco anos. O caba nem piscava. Dava pra ver que aquele médico estava interessado no meu problema. Ele até me fez perguntas! Doi? Febre? Catarro? Dor de cabeça? Pediu exame de sangue e fez até aqueles exames que eu achei que tivessem ficado nos anos 90: tirou pressão com ajuda do estetoscopio, verificou minha goela com um abaixador de lingua, me fez tossir enquanto me auscultava etc. Eu fiquei assim, uau, um médico!

Então, saímos da sala de exame, voltamos para a sala de consulta e ele tinha um ar grave. Ele juntou as maos, suspirou fundo e me deu o veredicto assim, sem nem ao menos me preparar: "Luciana, você não tem nada". Como assim eu não tenho nada? Eu nunca nunca tive nada, doutor! Não me deixa assim sem doença, tao de repente! "Na verdade, esse é um problema de ordem psicológica". Devolve minha doenç... Ah, problema psicológico! Vejo que estamos chegando a um acordo. "Essa tosse é o que chamamos de 'tosse dos loucos'".

Eh o quê, broder?

La toux des fous que em francês é mais simpático, mas não menos revoltante! E essa revolta não vinha da minha desconfiança em relação a esse diagnostico, ela vinha contra mim mesma que não tinha pensado nisso antes! Quer dizer, eu cheguei a pensar, mas essa garganta coçava tanto que eu cheguei a pensar novamente no ralador de legumes. "Nada", ele disse. Mas não foi com essa analise que ele ganhou meu coração. Foi quando ele disse "você é muito mais ansiosa do que você imagina". Querido, é porque eu sou ansiosa de cagar liquido que eu vou aceitar o que você ta falando. E uma outra coisa que me leva a acreditar nessa teoria é que essa tosse começou logo depois da pericardite. Tudo se explica. Eu não tou doente, somente louca.

Três semanas depois, eu parei de tossir. Eu estava procurando médicos homens, mulheres, sem me dar conta que nada disso importava sem o auxilio dele:


Quero avisar que essa imagem é meramente ilustrativa ja que o médico era negro. 


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E pra quem é de feici:

.caso.me.esqueçam.



Talvez

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