sexta-feira, 27 de julho de 2018

A peleja do Petit Dragon

As aulas do Krav Maga ja começaram e também ja terminaram - é nessas horas em que eu me dou conta de como eu demoro a escrever. "A Era Cenozoica começou. E também ja terminou". As aulas do Krav Maga ja começaram e também ja terminaram. Agora, podem me chamar de Arma Branca. A gente aprendeu a desarmar gente que te ameaça com faca ou com revolver, aprendemos a fugir de uma agressao se estivermos sentadas ou mesmo deitadas (é soh se fingir de morta, igual com urso). Aprendemos até a sair de uma situaçao onde você ta de joelho e ha uma pessoa apontando uma arma pra sua cabeça, atras de você. Nessa, o professor perguntou "qual melhor maneira de sair dessa situaçao?"

- Rapaz... O cara ta armado?
- Eh.
- Atras de mim?
- Sim.
- Eu tou de joelho.
- Eh...
- A merda ja ta na calcinha.
- Eh. O que?

Eu sei la como se sai dessa! Eu faria o que sempre faço quando tenho um problema, chamo a minha maezinha. Uma das primeiras coisas que ele explicou foi que, durante uma agressao, nunca devemos  gritar "socorro" pra dissuadir o agressor. Alguém sabido disse "temos que gritar 'fogo'". O professor corrigiu: "nao, temos que gritar 'terrorista!'". 

DICIONARIO PORTUGUES - FRANCES

Bom dia: Bonjour !
Por favor: S'il vous plaît!
Socorro: Terroriste !
Boa noite: Bonsoir !
Obrigada: Merci !

O material obrigatorio pras aulas: caneleira, protetor genital feminino, luvas de luta livre e proteçao pros dentes. Caso você quebre algum dente, o seguro soh te cobre se você tiver portado o protetor de dente no momento do acidente. Também comprei uma blusa com o nome do clube, mas depois contaram que uma menina tava vestida com a blusa e um cara ficou provocando ela no metrô, chamando pra briga. Acho isso uma idiotice sem tamanho. Pra mim, a unica razao valida pra começar uma briga é diante da injuria "Beatles ou Rolling Stones?". Ja matei três. 

Eu nunca usei o protetor genital. Eu posso até ficar com essa cara da foto com o protetor de dentes, mas usar protetor genital é demais pra minha imagem. E olha que eu conheço os estragos de uma vulva destroçada. *musica triste no violino* Quando eu era pequena, eu tava andando de bicicleta (sempre ela), andando muito rapido, muito muito rapido. Eu estava montada no vento. Aih eu tive que frear e nessa freada, meu corpo foi se projetando pra frente e a bicicleta ficou exatamente onde ela estava. Mas algo me impediu de voar da bicicleta: o meu pubis. Ele se chocou contra o noh central do guidao. Doeu tanto que eu achei que meu umbigo e minha vagina tinham formado um soh. Décadas depois, me encontro recusando um protetor xenital. Sei la, aquele negocio voluminoso entre as pernas te dah uma sensaçao de poder muito grande, sabe. Você olha la pra baixo, você vê aquele pacote e ja começa a coça-lo, a mostra-lo pras meninas na rua. Você soh fala nele pros seus amigos e começa a achar que você tem mais direitos que os nao-pacotudos. E como eu sou ligada nessas baboseiras de feminismo e direitos iguais, deixei o protetor genital pra la. Vai que eu começo a achar que eu sou o centro da terra.

No intuito de colocar a gente em situacoes verossimeis, o professor trancava a gente no vestiario ou no banheiro e designava uma vitima e varios agressores. Você sabe que tudo é encenado. Você conhece as pessoas que estao encenando. Mas quando você ta trancada num banheiro e três pessoas tentam te bater, você da play no instinto de sobrevivência. E nao é bonito. A primeira te bate, você revida, a segunda chega, você da murro, a primeira volta, você lembra que tem pernas, da chute, mas a terceira ja ta te socando, você empurra todo mundo, a baba escorre, você fecha a boca mas o protetor ta ali impedindo. Pela gritaria, você pensa que realmente tem um estuprador ali. Em dois minutos de luta, você ta tremendo de cansaço. E acho que esse é, pra mim, um dos grandes aprendizados do Krav: eu nao duraria nada numa luta. Mas o professor disse que isso era o esperado de qualquer pessoa de porte fisico de uma galinha desnutrida médio. Por isso, o objetivo dele nao era ensinar a gente a lutar, mas ensinar tecnicas que permitiriam a gente de fugir em segurança. Aceitei. Mas aceitar nao é pra todo mundo.

Sophie, nunca te esquecerei. Sophie era uma jovem garota que nao sabia brincar. Quando ela vinha pra aula, a gente fazia um eye roll coletivo e tentava nunca fazer dupla com ela. Vou explicar o porquê. Claro. Numa das aulas, o professor deu a cada uma 1/4 de um macarrao (o de fazer boiar, nao o de comer, pelo amor de deus) pra que a gente tentasse tocar os pontos fracos da nossa adversaria (pescoço, barriga...) ao mesmo tempo em que evitavamos ser tocadas. Era soh tocar, no melhor estilo D'Artagnan, touché. Mas a cavala da Sophie pegava o macarrao e descia o cacete na parceira, puxava o macarrao da ôta e tome porrada nela! Ave maria! Eu parava com minha adversaria pra olhar a cena, a mao na boca. O professor ficava louco. Se o professor mandasse bater no pao, ela batia com a força das tripas. Foda-se a técnica, o importante é fazer a colega do outro lado cair dura no chao.

Pessoa segurando um pao

Pessoa segurando um pão

As aulas seguiam quase sempre a mesma dinâmica: o professor nos ensinava uma técnica e, la pro fim da aula, ele cansava a gente em algum exercicio aleatorio. Logo em seguida, nohs deviamos aplicar a técnica ensinada no começo do curso. Ele explicava que esse "cansaço" seria o equivalente a um ataque surpresa no meio da rua, quando você nao consegue raciocinar direito. Entao, ele fazia, por exemplo, a gente girar em torno de nohs mesmas, de olhos fechados e, ao abrir os olhos, alguém atacava a gente. Ou ele colocava duas meninas no tatame de 3x3m e a ideia era colocar pra fora a adversaria. Aih volta Sophie e uma pequena descriçao dela: um ser muito competitivo de 17 anos, maior e mais pesada que todas nohs, com uma pontinha de psicopatia brilhando atras daqueles  olhinhos negros. Quando ela entrava no tatame, ela ja olhava pra gente assim


"Meu deus, entrei aqui pra aprender tecnicas de defesa e vou sair dentro de um saco fechado com ziper". O professor se aproxima, escolhe Sophie e eu pra subir no tatame. Sophie começa a dançar Haka. Eu enxugo discretamente o suor do buço. A gente sobe no tatame, o professor dita as regras: "vocês começam de joelho e nao podem se levantar. A primeira que tocar o chao, com qualquer parte do corpo, perde. Vocês tem três chances. E as que perderem, tem uma puniçao. FIGHT!". O professor mal fechou a boca, a menina foi voando em cima de mim. Soh que Sophie nao sabia um detalhe: eu sou competitiva pra caralho. Alias, troquem "competitiva" por "apaixonada pela vida". Quando ela voou em cima de mim eu apliquei a técnica dos manifestantes que precisam ser evacuados pela policia de algum lugar ocupado: fiz peso morto. Ela se cagava pra me empurrar pra fora mas enquanto eu tava prostrada no chao, aproveitei pra agarra-la e joga-la sobre mim pra fora do tatame. Ela colocou a maozinha dela no chao, mas mesmo assim continuou a lutar.

- Opa, nao! Perdeu, balao! Ieewww!
- NAO, MAS EU COLOQUEI SOH A MAO PRA FORA, TEM QUE SER O CORPO TODO!
- Tiaaaaa! Olha Sophie robaaanu!

O professor veio e me deu razao. Luci 1 x 0 Sophie. Senti o olhar maligno dela pairar sobre minha alma, mas pensei "se eu ganhar essa, broder, tou tranquila". Até porque a puniçao pras perdedoras eram três murros de cada vencedora na barriga. Not today. Tentei a técnica do peso morto de novo, mas ela se concentrou em empurrar meu centro de gravidade e aquela merda tava dando certo. Pensei com serenidade "vou perder, caralho" e o chao cada vez mais perto. Foi quando eu ouvi a voz de Mestre Chung e seus grandes bigodes brancos.

- Procure a força que ha em você, Pequeno Dragao!
- Mas ela é mais forte do que eu, Mestre!
- Observe uma flor: a cada dia, ela se abre para alcançar a luz e a cada fim de tarde, ela se fecha novamente.
- Mas como isso pode me ajudar nesse momento?
- Nao pode.
 
Nao me perguntem como, mas eu consegui jogar essa menina pra fora do tatame e soh nao fiz dancinha porque ainda tinha a terceira parte e eu nao sabia se ela conhecia o significado do termo fair play. Fiquei na minha. Nao demorou muito, ela me jogou pra fora do tatame e disse sorrindo "PELO MENOS EU SALVEI MINHA HONRA".
"Minha honra".

Salvou nao, minha filha. Agora soh no harakiri. Fiquei passada imaginando essa menina perdendo a virgindade e estendendo o lençol sujo de sangue na varanda de casa. Depois de uns meses, ela abandonou o curso. Nao vou me inscrever de novo no proximo ano porque temos novas aventuras em vista, cenas do proximo capitulo. 




7 comentários:

Luciana Roque disse...

Hahaha me acabo de rir com suas resenhas, vei! Aguardando ansiosamente os próximos capítulos...

Gisley Scott disse...

AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE A MAIS FELIZ COM O SEU RETORNO !!!!


Mas a cavala da Sophie pegava o macarrao e descia o cacete na parceira, puxava o macarrao da ôta e tome porrada nela!

KKKKKKKKKKKKKK, QUE MENINA SEM NOÇÃO! Já chorei 5 Coca Colas de 3 litros de tanto rir!!!

Sophie parece ser do tipo pyscho bitch. Feliz que vc colocou "fogo na ordinária", em plena praça pública, pra todo mundo ver!!!

Por favor, não some não! Continua escrevendo! Me divirto com seus posts! Feliz com todas as coisas que vc tá aprendendo no Krav Maga :)

www.vivendolaforanoseua.blogspot.com

Helena disse...

A pausa na narrativa pra petite aula de francês me matou, hahaha. Luci, tu é foda demais da conta, vai ficar rica escrevendo !

Anônimo disse...

Quando eu vejo aqui é risada certa! Adoro seus textos!

Andrea disse...

HAHAHA, que relato maravilhoso!! Mas olhe pelo lado positivo, com uma Sophie como colega de turma, QUEM será páreo para você na rua???
PRFVR, volte para a segunda rodada de relatos divertidos!!! :D

Luciana Nepomuceno disse...

consegui ouvir tua voz lendo este texto. caraca, como eu gosto de você.

Jessica Araujo disse...

AHHHHH mulher adoro seus textos!!! Não demore tanto a escrever #PeloAmordeDeus

Boa semana!

Talvez

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