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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Alguém tem que ceder


Pra quem nao sabe, a França esta em polvorosa por causa de um projeto do Petit Nicolas que pretende elevar a idade pra se aposentar de 60 pra 62 anos e de 65 a 67 pra se ter uma pensao completa. Ha dois anos, Camilo estava me explicando como funcionam as regalias sociais que os franceses tem como remédio de graça, consultas médicas a preços acessiveis, ajuda pra moradia etc. Perguntei como a França tinha tanto dinheiro pra dar conta disso tudo. "Nao tem. A França vai quebrar dentro de alguns anos". 

Agora o Governo ta tentando tapar o buraco em cima dos trabalhadores.  O desespero é grande. O incentivo governamental pros casais franceses terem filhos é enorme. O que mais se vê na rua é bebê e mulher gravida, porque o pais precisa de gente pra trabalhar pra manter os aposentados, mas por enquanto que esse povo nao cresce...

Dai que nos ultimos dias, o pais ta mergulhado em greve e Lyon no caos. Carros foram incendiados, nego foi preso, vitrines quebradas, depredaçao, roubo de lojas, bombas de gas lacrimogênio, enfim, aquela merda toda no meio da rua. Os transportes publicos funcionando uma hora sim, outra nao (levei mais de uma hora hoje pra voltar pra casa. Usei o metro, o tramway, a bicicleta e, finalmente, fiz o percurso final, à pé). Nao tive aula nem ontem, nem hoje (por isso as atualizaçoes no blog!): universidade fechada pra que os alunos possam participar da greve.

Aih você vê as fotos do pessoal responsavel pela destruiçao e nota que eles nao tem porra nenhuma a ver com a greve. Da uma pena do pessoal que tah se mobilizando a favor dela. Enfim, eu nao sei em que pais eu vou me aposentar, entao esse assunto nao me é tao caro quanto o é pros franceses, por isso nao meto meu bico. Mas ontem tava conversando com uma arabe na parada de ônibus sobre o assunto e ela estava revoltada dizendo que ela nao pode ver o marido trabalhando até quase os 70 anos como pedreiro (porque vocês sabem que trabalho de estrangeiro em pais rico é braçal), que "Sarkozy tah procurando merda e ele vai achar". Por enquanto, torçamos pra que esse homem se aposente.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Conclusao: Luci é um ser humano


Eu acho lindo quando as pessoas tentam me ajudar. Cada um faz ao seu jeito.

[13:41:10] o sol ta massa dit:
je suppose (hypothèse), je pose (thèse), j'oppose (antithèse), je compose (synthèse)

[13:41:48] o sol ta massa dit:
entendi, soh nao sei como aplicar isso

[13:46:43] Fábio dit:
agora fica a dúvida.. essa hipótese já é sua ou é a do texto?

[13:47:44] Fábio dit:
pq pode ser a hipótese do texto (por exemplo: luci peida dormindo.)

[13:48:07] Fábio dit:
a tese defendida no texto (luci peida dormindo pq tem gazes e pq dorme de bunda pra cima)

[13:48:31] Fábio dit:
a antítese defendida por tu (luci não peida! nunca! nem cu ela tem...)

[13:49:00] Fábio dit:
e a síntese (luci é um ser humano, se ela peida ou não, não importa)

[13:49:30] Fábio dit:
aí assim.. faço a menor idéia de nada ehehe

[14:06:54] o sol ta massa dit:
huahuahuaauahuauha

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Algo me diz que eu preciso da ajuda de alguém mais capacitado.
Alguém conhece alguém?

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Fugitivos

(uma fuga rapida!)

Estou conhecendo uma Luci que eu nao imaginava que existisse: a Luci que estuda nos fins de semana. Jardim de infância, Ginasio, Ensino Fundamental, Médio... Cinco anos de faculdade e nunca na historia desse pais eu abri um livro durante o fim de semana. Mas estudar é preciso, viver nao é.

Mas como eu ja vinha anunciando (na minha cabeça?) que eu precisava ficar bêbada pra nao "péter un câble", como dizem por aqui, fui encontrar Camilo depois do trabalho dele na sexta pra tomarmos um vinho no quai (à beira do rio) e irmos à nossa pizzaria preferida. 

No metrô, vi um cara passar por mim rapidamente com uma roupa de paciente de  hospital, sujo e descalço (eu disse hospital, mas pela cara dele, devia ser hospicio mesmo). Fiquei esperando o médico do cara aparecer e nada! O cara tava super inquieto. Percebi que ninguém parecia se importar com aquela figura maluca. Olhei pro cara da frente, meio gatinho e tal, e ele esboçou o que parecia ser um sorriso, mas faltava, pelo menos, uns cinco dentes naquela boca. Credo. Depois percebi que esse cara tinha uns trejeitos esquisitos, uns tiques, fazia uns movimentos bizarros com a boca. Finalmente o doido era normal e o normal era doido. Isso é Lyon, minha gente. 

Cumpri minha missao naquela sexta-feira. Bebi uma garrafa de vinho de barriga vazia e esqueci metade da noite. Camilo diz que eu bebo feito uma adolescente que nao conhece seus limites. Hihihi "Pelo menos tu fica docil". Docil, minha gente. Como um cavalinho. 

No sabado, teve o SUPER show de Cat Empire! Nada melhor que escutar ao vivo musicas que você adora! E foi aquele show lindo, sabe, onde todo mundo canta à plenos pulmoes e bate palminha junto com o vocalista. Andamos de uma ponta a outra do teatro à base de chutes e empurroes. Levei um murro que ficarah gravado pra sempre em nossos coraçoes. E no meu estômago. Que Deus o tenha. 


Mas quando o sol raia, eu vou pro computador me dedicar à Historia (insira aqui barulho de fogos de artificio e algum hino bonito)!

Eu tou tensa e sensivel até a alma. Chorando por tudo e por nada, es-tres-sa-da, sonhando com a faculdade, com bicho papao, com o guri cagando minha roupa, com as apresentaçoes etc. Nice. Mas minha mae deve rezar com muito afinco, e Deus deve gostar muito dela, porque hoje... Hoje.

Hoje era aula de Historia Moderna. Hoje eu teria que me meter em um grupo qualquer pra fazer uma apresentaçao oral a ser marcada. Dai, lembrei de uma menina que senta sempre sozinha nessa aula e que parecia ser legal. Estrategicamente, cheguei mais cedo e sentei ao lado da cadeira onde ela costuma sentar. Mas quando a aula começou, ela ainda nao havia chegado. Fiquei decepcionada, porque as pessoas nao costumam se atrasar e achei que ela nao viria mais. Mas eis que ela chegou (apos meia hora). Fiquei feliz de vê-la entrar na sala, mas vi que ela foi rumando pra um outro lado. Aih ela parou, voltou e sentou-se ao meu lado. O plano estava dando certo. Soh faltava eu tomar coragem em pedir a mao dela em casamento pra fazer o trabalho com ela. Mas eu sou uma cagona e nao aproveitei o intervalo pra fazer isso, fiquei enrolando. Quando o intervalo acabou, ela se virou pra mim e disse "olha, tu tem grupo pra esse trabalho? Porque eu queria saber se posso fazer contigo". Hahahaha Minha gente, eu nao me contive, dei um sorrisao e até chamei palavrao. "Putain! Ouais! Bien sûr!" Acho que a menina pensou, Ok, minha filha, é soh um trabalho. 

Agora todas as apresentaçoes estao marcadas pra novembro. Algumas com apenas três dias de intervalo entre elas. Claro que ja comecei a estudar, mas algumas coisas me desanimam. Por exemplo, se me perguntassem qual o tema da aula do professor de hoje, eu nao saberia responder. Nao é o maximo? Passar quatro horas se concentrando numa aula que nao faz o menor sentido pra você? Eu adoro! O foda é que ja faz um mês que ele fala e eu nao entendo nada!

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Saudades das minhas leituras bloguisticas diarias, mas continuarei off por tempo indeterminado dos vossos blogs queridos, queridas. Preciso garantir que nao serei vaiada durante novembro. 

À Historia!

domingo, 26 de setembro de 2010

Figo de uma figa!

Camilo mostrou toda sua indignaçao pra mim, outro dia, apos ter lido esse post. "Mimimi, eu nao sou desastrado, mimimi, eu sou azarado". Aih, me chega hoje com cara de bezerro desmamado.

Eu: - O que foi, amor?
BD: - Caramba, eu soh faço merda.
Eu: - La vem...
BD: - Quebrei o pote com a geléia de figo que Cecilia havia feito.

Mas quando eu falo que é desastrado...*

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Diana partiu, mas no lugar dela, restou outra mexicana, Victoria. Eh o quarto mexicano que passa pela casa. Em todos os quatro pude notar uma certa semelhança que vai além da fisica: mexicanos sabem fazer barulho. Hoje, Victoria preparou uma pequena festa aqui em casa com seus amigos da faculdade. Passei a tarde toda escutando "shot! shot! shot! shot!" e musica de mariachi. No começo da noite, a menina começa a gritar debaixo da minha janela. Fiquei emocionada, achei que fosse uma serenata em minha homenagem. Camilo foi verificar do que se tratava e a viu no chao, deitada, aos prantos, gritando "pinche figo!" O causo: escorregou num figo e arrombou o joelho que ja tinha passado por duas cirurgias nos ligamentos. As frutas de hoje estao cada vez mais perigosas.  O Samu foi chamado, ela foi pro hospital e passa bem.

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Ainda em tempo:

1. Camilo leu o post e tah aqui dando chilique, exigindo justiça: tu distorce tudo! Eu cheguei pra tu e disse 'acho que tu tem razao, eu sou mesmo desastrado' justamente pra nao ouvir 'eu nao avisei?'. Justiça seja feita, amor!

2. Enquanto eu escrevia o paragrafo anterior, Camilo vira pra mim, meio indignado, meio desconfiado e pergunta: e o que é um bezerro?

Coisa linda!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

As exploraçoes começa

O dia de ontem soh nao foi mais estressante porque soh durou 24h. Acordei de madrugada (6:40h) e, cheia de preguiça, fui pro meu primeiro dia de aula na faculdade. Desde que soube que fui aprovada, em julho, ignorei o fato de eu nao saber falar francês direito, fingi que esse seria mais um dos tantos momentos tranquilos da minha vida na França, que tudo daria certo.

Nao deu.

Eu era toda nervosismo. Tomei meu café da manha, tomei meu banho e tentei controlar meus pensamentos pra nao deixar um rastro de cocô de casa até a sala de aula. A unica coisa que me deixava tranquila, era o fato de que eu entendo francês. Mas até isso tiraram de mim!

A primeira aula de ontem foi de Historia Moderna I. As pessoas sacaram seus computadores e cadernos e começaram a escrever loucamente tudo o que o professor dizia. Eu, claro, quis fazer o mesmo: eu escrevia tudo o que eu entendia (ou seja, metade das coisas) mas como nao era rapida o suficiente mesmo pra escrever o que eu entendia, metade das frases que eu entendi ficou pela metade. Tcharam! Sinceramente, achei que eu tivesse arrasando, porque eu tinha quase uma folha completa escrita, mas quando fui lê-la, me deparei com coisas desse tipo:

"A cirurgia progressa. As descobertas e exploraçoes começa. As religioes sao conservadores. Tudo é vontade de Deus. Isso justifica todas as inegalidades sociais, mas no 19o ha o desenvolvimento do pensamento. (...) Os judeus se integram a essa pratica. (...) O pensamento é legal".

Gente.

Isso é anotaçao de quem ja fez faculdade? Traduçoes ao pé da letra, falta de concordância, falta de sentido (os judeus se integram a essa pratica. Que pratica, meu deus?!). O pensamento é legal. Realmente. Mais legal ainda é escrever certo. Mas tudo bem, continuei fingindo que tudo estava correndo bem (até quando o professor fazia piada e eu soh entendia que era piada quando as pessoas riam).

O cara citou o Brasil umas quatro vezes durante a aula. Falou de uma faculdade, dos bandeirantes, do futebol, de Copacabana e depois, que ja tinha dado aula la "em francês". No intervalo, levantei e fui choramingar junto a ele, tirar minhas duvidas e explicar que eu era brasileira e que...

- BRASILEIRA! Ah! Que maravilha! "Ftscdoe glsrpei"? :D
- Eh o que, homi?! Hum rum! (Interpretei essa frase bizarra como sendo "tudo bem?" e confirmei com um sorriso amarelo).
- Ah, mas você fala muito bem!
- Obrigada, professor, mas ta sendo dificil, é justamente sobre isso que eu queria fal...
- Ah, mas você é de onde?
- Joao Pessoa.
- Onde?
- Perto de Recife. Eu g...
- Aaaaaahhh! Que legal!
- Entao, professor, eu gostaria de...
- Ah, entao você mora perto de Olinda!
- Mizera, deixa eu falar.

Minha gente, eu soh queria perguntar onde eu poderia encontrar os textos. Acabei falando sobre o Brasil e sai sem nenhuma resposta! Ele soh disse que eu teria que me juntar com algum grupo pra fazer um trabalho oral (mais uma da série "Frases que nao podem ser retiradas de contexto"). Eh fogo! Eu ODEIO trabalho em grupo. Odeio! De todo o meu coraçao! Ainda mais nessa situaçao, em que vou ter que pedir pra ser aceita em algum grupo, porque, claro, depois de dois anos de curso*, todo mundo ja tem seus amiguinhos e seus grupinhos.

*Pra quem nao entendeu: eu ja sou formada em Historia pela UFPB, entao, por possuir esse diploma, fui diretamente pro terceiro e ultimo ano do curso de Historia na Lyon 2.

Eu ja tinha ha tempos desistido de fazer anotaçoes quando a aula acabou. Proximo round: Iniciaçao à Pesquisa em Historia Moderna, ministrada por um professor com voz de adolescente. Sabe quando os guri de 12 anos começam a trocar a voz E A FALAR assim, meio alTO E MEIO BAixo e totalMENTE TOsco? Pronto. Vi uma aula de Historia em diferentes frequências. Fantastico. La pela metade da aula (depois dele ter passado um trabalho em dupla, pro meu sofrimento), ele nos deu um papel com a reproduçao de um documento, como o da foto, escrito no século XVIII. "Agora, decifrem": era aula de Paleografia. Eu ri, né. Ri porque, vejam bem: eu passo quatro horas tomando no meu cu pelo fato de eu nao entender o que esta sendo dito pelos professores. Daih, chega um cara com um documento ilegivel do século XVIII e diz que eu devo transcrevê-lo. Eu nem sei ler o francês contemporâneo! Mas tudo bem, fingi que sabia tudo e, pra minha surpresa, o documento tinha muito mais sentido que minhas anotaçoes da outra aula.

Novamente, fui choramingar dizendo que eu era estrangeira e que precisava de ajuda. Ele disse que eu falava muito bem francês e o professor de hoje disse o mesmo. Foi aih que notei uma coisa: quando eu chego pra alguém mostrando dificuldade (por causa da lingua), as pessoas automaticamente elogiam meu francês tentando levantar minha moral. Quando eu me apresento como brasileira, sem comentar nada além disso, ninguém se manifesta. Utilizando isso como tatica, ja consegui ser liberada de duas apresentaçoes orais. Hihi (e nao quero saber de quem vai dizer que isso nao é bom pra mim. Se eu soubesse que nao corro o risco de ter um ataque cardiaco durante uma apresentaçao pra 40 pessoas, eu a faria).  

Finalmente, sai meio que em estado de choque da universidade. Fui encontrar Diana: era o ultimo dia dela na França. Resumindo lindamente essa segunda parte do dia: fomos deixa-la na estaçao, segurei o choro e, na volta pra casa, fui andando devagar pra nao balançar demais e explodir em lagrimas (coisa que soh fiz quando cheguei em casa). Agora, acabou. 

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Casal Midas da destruiçao

Pro Priberam, "desastrado" significa "desajeitado, desgracioso, funesto, infeliz". Pra mim, significa tao somente "Camilo". Nem o Katrina causou tanta destruiçao por onde passou. 

(Nesse momento, ele deve estar lendo e pensando: "o que foi que eu fiz pra merecer esse post, meu deus?"). Calma, meu bem, vai doer pouco.

Ha alguns meses, Audrey chegou toda contente em casa com um litro de um oleo fino que havia sido produzido na casa dos seus pais. Proibiu terminantemente de que utilizassem o oleo pra cozinhar. O oleo deveria ser usado somente nas saladas, pois era especial demais pra que fosse desperdiçado em frituras. Dois dias depois, Camilo explodiu a garrafa de oleo no chao da cozinha, sem querer. 

Cecilia, desde o começo do verao, começou a se ocupar da plantacao de flores. Quando viajava, pedia pra que alguém da casa nao esquecesse de regar suas pequenas maravilhas. A sua preferida era um girassol, que ainda nao havia florescido. Com frequencia, ela dava o relatorio do crescimento ao pessoal da casa, orgulhosa da plantinha. Um belo dia, arrancando as ervas daninhas, Camilo matou o girassol sem saber do que se tratava. Cecilia chorou e passou um dia sem falar com ele. 

Quando cheguei na França, ganhei um dos presentes mais legais que poderia ganhar: uma bicicleta. Com ela, eu ia pra todo lugar: pro centro, pro trabalho, pras aulas, eu caia, enfim, eu era feliz. Foi um ano e meio de puro amor pela minha bicicletinha. Até que um dia... apareceu o monstro das maos tortas, pediu minha bicicleta emprestada e... vocês ja sabem. Destruiu, sei la como, o sistema de marchas. Conserto: 100€. Nova: 150€. Agora me perguntem se eu tenho dinheiro. 

Eu nao posso criticar muito. Apesar de eu nao me considerar desastrada, tenho algo que eu poderia chamar de "nervosismo demolidor". Eh que quando eu fico nervosa, as coisas ao meu redor se quebram, explodem, racham, caem, morrem etc. Tou cortando batata, chega alguém que me deixa envergonhada: corto um dedo. Tou andando na calçada, a vizinha pergunta algo que eu nao entendo: eu tropeço. E assim vai. Eh por isso que eu sou um perigo na bicicleta, minha gente, porque eu estou sempre nervosa. O meu historico de quedas nao me deixara nunca repousar na tranquilidade de um passeio. 

Ontem, voltando feliz de uma pizzaria de bicicleta, perguntei a Camilo se nao poderiamos voltar pra casa por outro caminho que nao aquele da pista de tramway que sempre pegamos. Minha gente, é tenso passar por essa pista. Além de eu ter que ficar ligada no tramway que vem de frente, tenho que ficar ligada naquele que vem de tras. Mas meu olho de tras é cego. Fora isso, tem os carros que podem dobrar a qualquer momento na sua frente. Mas Camilo insistiu e eu fui. 

La pela metade do caminho, vejo que um tramway vem atras e, na minha frente, um pedestre e um ciclista. Pronto, foi demais pra mim. Fiquei louca, tentei passar pra pista do lado, prendi o pneu da bicicleta na linha do tramway QUE ESTAVA VINDO. Ai meu deus, ai meu deus, a bicicleta ficou desgovernada! Ai meu deus, o tramway! Eu vou morrer, eu vou morrer, socorro e... Potof. A bicicleta caiu. Mas como eu tenho PhD em queda de bicicleta*, dessa vez, consegui pular e cair em pé. Da proxima vez, vou apromirar o show e tentar dar uma pirueta no ar antes de tocar o solo. Apesar de nao ter quebrado a cabeça, torei a minha sandalia preferida. Aquela que eu usava pouco como forma de prolongar sua vida. C'est fini: torou em duas partes. 

Agora, vou ser malvada com aqueles que me amam e que achavam que tinham motivo pra se preocupar comigo: ha duas semanas recebi minha carteira de motorista francesa. Sim, estou apta a conduzir veiculos pelas ruas lionesas! Mas eu tenho um otimo historico no volante: soh fiz uma baliza certa (no dia do teste) e estava ha 16 meses sem dirigir (onde a ultima vez... foi no teste). Alguém mais ta tenso?

*Duas das quatro quedas: post 1, post 2, post 3 e post 4 (fotos) - nao abrir o ultimo link caso esteja fazendo uma refeiçao.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Berlim - parte II - lingua, bicicletas e amores

Mais sobre a nossa viagem à capital alema. 

Da (des)orientaçao:

Senti o peso (de novo!) de estar num pais cujo idioma eu nao domino ja nos primeiros minutos em solo alemao. Precisavamos pegar um ônibus, mas as placas me eram indecifraveis. Minha sorte é que eu tenho um namorado orientado, desenrolado e sabido todo ao meu lado. Sério, minha gente, deixa eu babar um pouquinho o amado agora. Acho impressionante o senso de direçao de Camilo. E nao é so porque eu sou uma toupeira nesse assunto. A gente mal chegava nos lugares e ele ja sabia qual o metrô certo, quanto custava o bilhete, a direçao das estaçoes, as ruas, os bairros etc. Eu perguntava aflita se ele sabia pra onde a gente tava indo e ele respondia malandro: "relaxa, meu bem, eu tou em casa". Hahaha Lindo!

E o inglês? Antes de chegar na França, eu nunca tinha ousado falar uma frase em inglês (ok, também nunca tinha precisado). Mas o que é a necessidade, nao é mesmo, meus amigos? Cheguei na França e comecei a usar um inglês que eu nem sabia que tinha! Mas bastou me concentrar no francês e agora eu sou incapaz de ter êxito numa frase em inglês. Sempre sai uma coisa cagada tipo "I would like to parler avec vous". A minha sorte (é, eu sou uma garota de sorte) é que ficamos na casa de uma francês em Berlim e, em Praga, na casa de um senhor que entendia francês, do contrario, eu passaria duas semanas muda.

Feuerwehrzufahrt. Ou seja, "oi".

Do lazer:

Os berlinenses parecem nao se importar com o fato de nao terem praia. Pelo menos tem saidas bem interessantes pra contornar a falta de mar. Nas beiras dos rios, essas cadeiras de praias sao postas e o povo fica ali, na maior tranquilidade pegando um solzinho. No momento da foto abaixo, um nubladinho.



Essa foto acima foi tirada perto do Checkpoint Charlie (explicaçoes mais adiante). Era um cercado com areia e cadeiras de praia no meio de uma avenida movimentada, um pequeno refugio no meio da cidade. O achamos bem por acaso. E alias, achamos outros lugares assim, por acaso, dando uma olhadinha aqui e ali. Adorei os bares de Berlim! Contei mais de dez bares visitados e posso dizer que amei a todos, todos criativos, a maioria com grande espaço a céu aberto, com decoraçao em madeira, super arborizado. Eh uma pena que eu nao tenha tirado mais fotos pra mostrar a vocês.


Esse é um bar à beira do rio Spree, perto do Muro. Em Berlim tah rolando uma polêmica que ja dura alguns anos sobre a ocupaçao dessa area da foto acima. Ha uma infinidade de bares parecidos com esse na beira desse rio que esta prestes a desaparecer graças a um projeto do governo, o Media Spree, que visa a construçao de varias empresas de grande porte nessa area. A area é do governo, mas é inegavel a importância desses bares, nao soh pros seus donos, mas pra vida cultural da cidade. Achei uma pena, espero que dê tudo errado :D


Da comida:

Como eu ja disse, francês é um povo muito saudavel e, depois de visitar Berlim, essa impressao soh aumentou. Eu tava completamente desacostumada a ver gente acima do peso. Mas também, pudera!, a cada dois metros tem alguém vendendo comida gordurosa. E barata. Minha gente, o Kebab em Berlim custa DOIS euros. E o melhor de tudo: tem cara de comida, nao é como o Kebab francês: é barato, o molho é uma delicia e a salada vem em quantidade generosa. Foram os melhores Kebabs provados. Mas quem quiser comer o hamburguer perfeito, vai no Burgermaister. Juro que foi o melhor hamburguer que ja comi na vida. Você come meio triste porque sabe que uma hora ele vai acabar.

Do meio ambiente:

Quem vai a Berlim pode também se impressionar com duas coisas: a quantidade de arvores e de bicicletas. Mesmo dentro da cidade, em meio à loucura dos carros, tudo é arborizado, lindo. E ha bicicletas por todos os lados, numa quantidade muito maior que em Lyon (e olhe que em Lyon a tradiçao de usar a bicicleta é grande).


Do transporte:

Nico, nosso anfitriao, nos aconselhou a alugarmos duas bicicletas, mas o preço era meio salgado: uma semana de locaçao por 40€ por pessoa. Como eu sou uma pessoa meio... desempregada, preferi pegar o bilhete de metrô que custa 25€ (por pessoa) pelo mesmo periodo. O bilhete de metrô custa 2,60€. Nao que isso devesse interessar, mas nas estaçoes de metrô nao existem catracas, no entanto, os controladores estao por aih pra manter a ordem e a lei, amém, através de suas multas (40€).

Dos pontos turisticos:

Como é impossivel falar de todos os lugares dos quais visitamos (impossivel = estou com preguiça) vou postar algumas fotos de alguns lugares visitados com comentarios superficiais. O Wikipedia esta do seu lado.

Igreja Kaiser-Wilhelm Gedächniskirche. Foi bombardeada e permanece assim desde 1943. Nao foi reconstruida pra que servisse de lembrança da Guerra. No entanto, uma nova igreja, super moderna, onde os padres rezam de sunga preta (brincadeira), foi erguida ao lado. Mais sobre a igreja aqui.


Toda cidade que se preze, tem uma construçao falica. Aqui, a Torre de TV e seus 368m. Enooorme.


A maior catedral de Berlim: Berliner Dome (inicio do século XX).


Altes Museum. Segundo o Wikipedia, "o maior e mais importante museu do mundo no campo da arte antiga da Grécia, Roma e Etruria". Agora, uma bala na testa por soh estar sabendo dessa informaçao agora.

Altes Museum ontem


O Checkpoint Charlie era um dos pontos de passagem do Muro entre os setores americano e soviético. Controlado, é claro. Parada obrigatoria pra quem vai a Berlim. O Museu do Muro fica logo ao lado e, claro, temos o McDonalds ao fundo.


Outro museu fantastico: Topografia do Terror, logo ao ladinho do Muro, no terreno em que ficava o escritorio principal da Gestapo. Tem uns paineis incriveis com fotos, documentos e textos sobre as barbaridades nazistas. Entrada gratuita.


Memorial do Holocausto, homenagem aos judeus mortos.


Portao de Brandemburgo, visita indispensavel, palco das manisfestaçoes quando da queda do Muro.


E, claro, o MuroAh, e fiquei chocada quando vi numa lojinha de souvenirs pedaços do Muro à venda. Um pedaço que media um palmo por uma bagatela de... 40€. Depois entendi que aqueles troços que vinham pregados nos cartoes postais eram, na verdade, pequenos pedaços do Muro. Quem garante a originalidade? Prefiro investir meu dinheiro de outra forma.


Seguindo a dica de uma leitora, a Lu, saimos de Berlim e fomos a Potsdam, uma cidadezinha a 30min da capital. Pegamos emprestado duas bicicletas do cara que também nos cedeu o quarto na casa de Nico e seguimos de trem pra cidade. Tivemos que pagar um bilhete de trem pras bicicletas também, mas nao lembro quanto custou. A cidade é cheia de pracinhas e parques lindos. Na foto, o palacio de verao de Frederico, o Grande, Rei da Prussia. O nome do palacio é Sanssouci ("sem problema").


Fomos ainda no Museu Anne Frank. A entrada custa 5€, mas Camilo dizia que éramos estudantes, entao pagamos meia entrada em uns três museus. Depois dizem que brasileiro é que é malandro. Pobi de nois. Esse museu é minusculo, mas satisfez minha curiosidade. Ja falei o quanto amo a moça aqui


Amei Berlim, sobretudo o Klaus. Querido, se você estiver me lendo, saiba que jamais o esquecerei. Beijos. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Uma... carreira de deputado falida

(Avisando que, desde que eu comprei esta porra de computador que eu nao tenho paz com as ediçoes do blog. Hora a letra fica grande, hora desaparece, as fotos nao ficam onde devem. Entao, desisto! Apesar da agonia em ver as fontes diferentes de um post pra outro, eu desisto). 

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Os dois proximos (e ultimos) posts sobre a viagem à Berlim estao prontos, mas antes de posta-los, preciso falar sobre uma coisa mais urgente: a imbecilidade humana. 

A unica maneira que tenho de ter informaçoes sobre o Brasil é através da internet, ja que mal falo com minha familia ou amigos. Dai, quando leio certas noticias em blogs ou Twitter, fico sem saber se é brincadeira das pessoas ou se a coisa é mesmo séria. Por exemplo, Tiririca na politica e seu bordao "pior que tah nao fica": eu devo acreditar nisso? Eh, eu devo.

Eu adoro o espirito brincalhao do povo brasileiro, o dom de amenizar o peso de qualquer tragédia através de piadas criativas. Mas até onde é direito nao levar a sério também a politica? Até onde é engraçado e permitido?

Aih vem o KLBosta se meter a deputado. Suspiro e me pergunto novamente: é sério? Eh, é sério.  Entao, vejo essa entrevista. Na primeira pergunta, o cara diz que a pedofilia merece ser combatida - e eu me pergunto onde ta a novidade. Na segunda pergunta, o cara ja começa a cagada: "familia é pai, mae e criança, como Deus criou". Otimo, traumatizemos nossos filhinhos: se você nao tem pai ou mae, você nao tem familia, viu? (E olha que eu vou me furtar de comentar o "como Deus criou").

Aih vem a parte que eu AMEI: sobre a descriminalizaçao das drogas.

Kiko: Quem fuma maconha é um p. de um burro, que esta queimando o proprio cérebro - nao sei vocês, mas fico feliz de poder sonhar com um candidato que tem essa postura de chamar o usuario de drogas de "um puta de um burro".  Excelente.

Leandro: Sou definitivamente contra. (...) Me diga uma coisa: imagine que as drogas fossem legalizadas. Dai você um dia precisa viajar e vai tomar um aviao e vê que o piloto esta cheirando uma carreirinha de cocaina. Você entraria nesse aviao? Porque é isso que vai acontecer. 

Minha gente, eu ri alto. Ri alto porque, né, até parece que o piloto que é usuario soh nao cheira no trabalho porque a droga nao é legalizada no pais. Meu Deus! Ele nao cheira pelo mesmo motivo pelo qual nao chegamos bêbados no trabalho mesmo com o alcool sendo legalizado. Questao de bom senso. Por essa linha tosca de raciocinio, "nosso" candidato à deputado deve defender que camisinhas nao devem ser distribuidas nas escolas publicas pelo risco de incentivarem adolescentes ao sexo. Acredite, quem nao fuma maconha, nao vai começar a fumar graças a descriminalizaçao. E quem fuma maconha vai sempre fumar maconha, com ou sem incentivo, dentro ou fora da lei. E os jovens vao continuar trepando, com ou sem camisinha. Ignorar isso soh vai tornar mais despendioso a resolucao dos problemas que chegam por tabela. 

E, pra finalizar com chave de ouro: o aborto.

Kiko: Eh logico que é crime. Aborto é homicidio, como nossa musica (ok, ele nao disse isso). A juventude hoje nao esta muito preocupada em ter responsabilidades, so quer curtir. No Carnaval, em vez de incentivo à familia, temos lei de incentivo à putaria - as pessoas nao falam de responsabilidade social, soh ficam distribuindo camisinha e falando de sexo. Nao é assim que funciona.

Eh, a saida é cortar o pinto de todo mundo e acabar com essa, usando o termo utilizado pelo senhor candidato, putaria. Tamo bem servido, viu...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Olhai meu guri!

Aqui na França, a graduação dura somente três anos, o que facilita muito a vida dessa gente. A inglesa que mora comigo, e que fez seus estudos na França, completou 24 anos em maio e ja esta no primeiro ano do doutorado. Eu, por outro lado, vou andar de marcha ré e voltar pra graduação. Fui aceita no terceiro ano do curso de Historia, na Lyon 2 - como se cinco anos não tivessem sido suficientes. Sei que pareço um pouco negativa dando essa noticia, mas tou satisfeita ja que agora vou ter a oportunidade de conhecer gente nova, melhorar meu francês, ter as vantagens de ser estudante, ganhar um diploma e, principalmente, estar em contato com as professoras do meu sonhado mestrado. Mas não é sobre nada disso que quero falar, na verdade. Dei essa noticia somente pra dizer que hoje foi, ao que tudo indica, meu ultimo dia de trabalho como baba do guri.

Primeiro, porque eu vou viajar com Camilo até o final de agosto. Depois, porque as aulas começam em setembro e, como ainda não conheço meus horarios na faculdade, fica dificil me comprometer com a familia do guri. Mas que aperto no coração! Na semana passada, quando decidi que ia me demitir, chorei no parque enquanto o pequeno corria pra la e pra ca. E, soh de pensar, ja tou com vontade de chorar de novo!

Foram somente três meses, mas esse cargo me fez refletir tanto sobre mim! E, claro, sobre os outros também. Gosto da forma com a qual os pais o educam e gostaria de praticar algumas coisas com meus filhos (caso eu decida ter algum). O guri jamais come sal, açucar ou manteiga; vai ao parque varias vezes ao dia; não assiste televisão; mesmo tendo somente um ano de idade, ele faz cocô no peniquinho pelo menos uma vez ao dia (gostaria de usar "cocô" no diminutivo também, mas merda de elefante perde em tamanho praquilo); tem milhões de livros (e prefere eles aos brinquedos); os pais falam com ele como se ele fosse um adulto - no sentido de explicar as coisas. Vejo no parque as crianças dos outros tomando coca-cola, quando ainda nem largaram a chupeta. Dai, tenho orgulho do "meu" filho.

Eh otimo vê-lo crescer. Lembrar que, quando eu cheguei, ele preferia engatinhar à andar e que hoje ele corre por aih. E a gente começou a fazer um monte de coisinhas juntos, coisinhas idiotas, mas que são nossas, como quando ele mostra os dentes: é pedindo pra que eu morda os dedos dele. Eh, é bizarro, mas ele faz isso todo dia. Todo dia eu mordo, todo dia ele sente dor e todo dia ele pede de novo. Eh lindo! Os pais disseram que esperam que eu tenha tempo entre as aulas pra continuar com eles. Eu também espero isso. Se não der, eu vou morrer de saudade!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Vida ferrada

Fim de semana do 10/11 de julho:

Nesse fim de semana, tanto Camilo quanto Diana iam viajar, por isso, aceitei o convite de Sonia que me chamou pra fazer a Via Ferrata com seus amigos. Pra quem não sabe do que se trata, a Via Ferrata é um caminho que se faz entre as montanhas com a ajuda de cabos, cordas e presas fixadas à montanha.




Como eu sou um poço de coragem, senti frio na barriga soh de ver as fotos do manual. O que também contribuiu pro desconforto, foi ver os niveis de dificuldade das vias que o pessoal iria fazer: Dificil, Super dificil, Extremamente dificil. Sérissimo, não havia nenhuma facil. Então, eu disse que topava acampar com eles, mas que deixaria pra fazer a Via quando eu virasse passarinho. E la fomos.

O plano era acampar, na sexta, à beira do Lac Aiguebelette (que fica aproximadamente a 1h30m de Lyon), fazer uma trilha no sabado e a Via no domingo. Partimos na sexta e armamos as barracas à beira do tal lago. No dia seguinte, acordei porque a natureza estava me chamando: hora de ir ao banheiro. Acampar é otimo, mas a hora de ir ao banheiro é sempre muito tensa. Aproveitei que todas as pessoas estavam dormindo, me enfiei dentro de uma floresta e procurei um lugar seguro. Mas o que é um lugar seguro quando você sai da vista dos seres humanos e vai de encontro às teias de aranha? A medida em que eu ia adentrando o terreno, as vozes iam ficando cada vez mais distantes e os zumbidos dos bichos iam ficando cada vez mais fortes. Cheguei a ver um mosquito do tamanho de uma galinha. Medo. Finalmente, encontrei um lugar e, toda desconfiada, fiz meu pobre cocô. Foi aih que uma abelha picou meu pescoço. Claro, ela não podia ter escolhido outro momento, esperado que eu finalizasse. Não. "Assim que essa otaria começar a cagar, eu vou pica-la". E assim foi feito. Numa situação normal, eu teria gritado, sambado ou corrido. Ou tudo ao mesmo tempo. Mas isso não seria uma boa ideia na minha situação. Então, estapeei a porra da abelha e ela caiu dentro da minha blusa. Vou repetir: dentro-da-minha-blusa. Que cena. Sinceramente, eu não sabia se me concentrava na merda ou na abelha. Apos o drama, voltei pra barraca respeitando ainda mais a natureza.

Apos o almoço, nos preparamos pra fazer uma caminhada de quatro horas dentro de uma floresta em que 90% do percurso era de subida. Na descrição da trilha no manual, havia a palavra "raide". Curiosa, perguntei:

- Sonia, o que é "raide"?
- Hum... "Raide" é "tranquilo", Luci. :)

Inocente, acreditei.

Raide passou longe de ser isso, minha gente. Soh vou dizer uma coisa: eu passei dois dias sem andar depois desse fim de semana. Eu parecia um pinguim sem articulação andando, a ponto de nego achar que eu tava gra-vi-da. Mas como eu não gosto de mimimi, subi sem reclamar as duas primeiras horas. Mas teve uma hora em que o caminho tava tão inclinado, que eu usava as mãos pra subir. E em muitos momentos, eu perguntei desolada:

- Senhor, o que eu estou fazendo aqui?

Os outros não chegaram a cantarolar durante a subida, mas não respiravam de forma ofegante, nem tinham a lingua na altura do umbigo, como eu. Na descida, perdi metade da cartilagem dos joelhos. Mas finalmente voltamos ao lago, tomamos banho, cerveja e comemos muito bem.

O domingo, pra mim, deveria ser tranquilo. Afinal, os quatro que estavam comigo iam partir pra fazer a Via e eu ia ficar quietinha, lendo meu livrinho à beira de um outro lago. Mas claro que não aconteceu nada disso. Fizemos mais uma hora de carro, paramos numa cidadezinha e pegamos um teleférico pra subir e chegarmos mais perto da Via.

Acompanhem no meu mapinha sem escala: deixamos o carro la embaixo, pegamos o teleférico e, na parte esfumaçada, nos separamos. Eh a parte mais alta do mapa também. Pra ir aos lagos ou voltar pro carro, so mesmo descendo. E muito! Até cogitei a idéia de ficar no teleférico, mas o pessoal disse que o teleférico fecharia as 17h e que nos encontrariamos OU nos três lagos OU no teleférico (e pegariamos um caminho alternativo pra descer) OU nos encontrariamos no carro.

Então, como eu sou uma pessoa muito esportista, resolvi ir a esse tal de Lago Achard sozinha, mesmo tendo as pernas muito doloridas da caminhada anterior. Foi lindo o caminho. Pinheiros, laguinhos, pedrinhas, bichinhos e todo tipo de gente indo e vindo com suas familias. Cheguei ao meu destino, tomei um revigorante banho de lago e deitei ao sol. Até aih, beleuza. O pessoal então me liga porque haviam terminado a Via. Eu aviso que estou voltando pro teleférico e que chego em uma hora.

Andei tranquila e, quando cheguei no teleférico, ele ja havia fechado e todas as pessoas tinham ido embora. Fiquei la sozinha, sentada numa sombrinha espantando as moscas com meu chapéu. Uma hora espantando as moscas com meu chapéu. Duas horas espantando as moscas com meu chapéu. E nada do pessoal. O celular deles não pegava. Do alto do teleférico, eu não conseguia enxergar ninguém nos Três Lagos e muito menos tinha forças pra descer até la (a caminhada até la daria em torno de 20min). Comecei, como é do meu feitio, a me desesperar e a cogitar a possibilidade de descer pelo tal caminho até a cidade, mas o pequeno detalhe é que eu não o conhecia.

Como ja havia se passado três horas desde o nosso ultimo contato e, como o pessoal ja tinha terminado a Via, imaginei que eles tinham descido e estavam me esperando no carro. Então, quando o desespero e o medo do sol ir embora aumentaram, decidi descer. O caminho era tão inclinado quanto o do dia anterior, a diferença é que este tinha pedras do tamanho de limões cuja a unica finalidade era me fazer escorregar. Pra minha sorte, ao longe, vi um homem: o unico ser que vi depois de varias horas. Gritei com as forças que me restavam por ele e nada. Quando o animal finalmente resolveu olhar pra tras e parou, corri feio uma louca ao encontro da unica pessoa que poderia me indicar o caminho. Eu queria muito ter a cena desse momento gravada pra mostrar a vocês: uma ladeira de pedras super inclinada, o sol queimando meu juizo e eu correndo, caindo e levantando; correndo, caindo e levantando; ad infinitum.

Enquanto eu pensava nas vantagens de ser um bode alpinista, eu ia definhando naquele sol, naquele cansaço. Nos ultimos metros, tirei os tênis e terminei a trilha somente de meias, com os dedos em chamas. Cheguei à porcaria da cidade exausta e, 20 min depois, vi o pessoal descendo a montanha. Alivio. Eu, que não consigo dormir sentada, apaguei completamente nas duas horas de viagem de volta à Lyon. Por que sera?

Talvez

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