sexta-feira, 31 de julho de 2009

Flash

No Brasil, os unicos amigos que moravam sozinhos (leia-se, sem parentes) eram aqueles que vinham de outras cidades para estudar. Aqui, graças aos céus, ou não, os jovens costumam sair de casa aos 18 anos. Isso estimula certos habitos, como festas e jantares frequentes na casa dos amigos. E eu adoro isso! Na nossa casa fazemos muitas festas e não ha nada melhor que beber sem preocupações (sem preocupações = muito), dar dois passos e cair na propria cama.

Sexta passada fizemos uma festa surpresa para Simone aqui em casa. Na ocasião, pude conhecer uma das meninas que vai morar com a gente na proxima casa. Eh uma marroquina que deve ter a minha idade e que mora na França ha cinco anos. Das pessoas que vão morar conosco (sem contar eu e Camilo, serão seis) ela foi a unica com a qual não simpatizei muito.

Meu inglês é uma porcaria, mas é com ele que eu me viro aqui na França. Então, toda vez que alguém me faz uma pergunta, respiro fundo e falo sempre fazendo caretas e perguntando "você entende?" ou "essa palavra tah certa?" e costumo sempre, sempre, ver as pessoas com um sorriso me aprovando com a cabeça, mesmo quando eu tou errada, afinal, o que vale é o esforço. Mas acho que essa não é o lema da marroquina. Cada vez que eu falava alguma coisa errada, ela mexia a sobrancelha de uma maneira quase imperceptivel, mas pelo fato de se repetir sem parar, eu acabei notando. E, porra, isso brocha qualquer interlocutor! Ela não era de todo chata, mas a conversa não estava sendo agradavel e tampouco ela se mostrou interessante, o que é uma pena, ja que ela vai MORAR comigo. E, no auge da conversa, eu:

- Meu pai trabalha num banco e minha mãe é dona de casa. Ela trabalha muito, é a primeira a acordar e a ultima a dormir.
- Mas por que?!
- Porque ela limpa, lava, cozinha, cuida de toda uma casa!
- Ela não tem maquina de lavar?
(Claro, porque uma maquina de lavar resolve todos os problemas domesticos. Inclusive, a roupa vai pro varal sozinha, é passada sozinha e vai pro guarda-roupa sozinha)

- Tem, mas existe outras coisas pra fazer.
- Ah, pois eu vou ser dona de casa! (se espreguiçando) Acordar tarde, não ter nada pra fazer, soh cuidar do bebê.

Adoro mulheres ambiciosas.

Depois de meia hora de sofrimento gratuito, nos livramos uma da outra e eu corri pra Camilo pra dizer que não tinha gostado dela. Foi ai que descobri que eu não sou a unica.

Ja ontem teve uma festa pra comemorar a mudança de Laure pro apartamento das amigas. Pedi e implorei a Camilo que, pelo amor de jesus cristinho, não me deixasse sozinha (principalmente com alguém chato). Beleza.

Chegamos na festa e, mais ou menos uma hora depois, um amigo liga pra Camilo dizendo que precisa urgentemente conversar com ele em tal lugar. O assunto é sério. Camilo me da essa noticia e eu fico me perguntando "o que porra eu vou fazer aqui sozinha?" Porque geralmente, depois de eu beber, não preciso mais ficar seguindo Camilo pra onde ele vai e acabo conversando por ai com qualquer pessoa. Mas não era o caso. Eu não tava bêbada, a festa tava estranha, tinha pouca gente conhecida. Então, la vai Luci com seu copo de vinho na mão se enfiando nesse grupo aqui, ou naquele ali...

O que aconteceu foi que, finalmente, não consegui achar nenhum grupo interessante pra me meter, e o melhor que consegui foi conversar com um cara com um sotaque francês fortissimo e não entender porra nenhuma.

- Minha namorada é de tal pais.
- Eh de onde, brother? Sei...
- Então, ela enfrenta o mesmo problema que você...
- Ela enfrenta o que? Que coisa, hein!

Acho que ele notou, as respostas não tavam encaixando muito bem. Uma hora depois, Camilo ainda não tinha voltado, e eu ja tava tão doida de vinho, que entrei em um dos quartos e me joguei numa cama. Ai vem o que eu lembro. Flash um: eu brigando com Camilo que tinha acabado de me acordar e, flash dois, eu no meio da rua chorando voltando pra casa a pé com ele.

Hoje de manhã acordei meio puta porque sabia que a gente tinha brigado, mas não lembrava exatamente porquê, então, toda desconfiada, liguei pra ele (no trabalho) e perguntei porque a gente brigou. Que pessoa idiota. Ele riu, disse que eu tava muito bêbada, que acordei histérica dizendo que ele tinha me esquecido, que fiquei batendo no braço dele, que tentei vomitar etc. Ele disse ao amigo do trabalho hoje: "tenho que voltar pra casa cedo pra me resolver com Luci. Ou ela vai tah muito puta e a gente vai brigar ou ela não vai lembrar de nada e vai rir da historia". Então, foi mesmo a segunda opção, mas eu não ri muito. A pior ressaca é a moral.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Eis a questão

The Puppini Sisters

Ha dois meses, eu anunciei aqui meu belissimo presente de aniversario: ingressos pro show das Puppini Sisters. Agora chegou a hora em que eu descrevo o show. Em duas palavras? Absolutamente fantastico! Mas como eu não sou de falar pouco, ai vai:

O show estava marcado pras 20:30h, mas às 19h eu ja estava abortando de tanta ansiedade! Pulando toda a movimentação infeliz pré-show, entramos no teatro e procuramos uma vaguinha. Escolhemos um bom lugar, mas num anfiteatro ha maus lugares? O lugar em si é absolutamente fantastico. Meu lado historiadora estava batendo palminhas internas. Quantas centenas de pessoas ja não puseram a bunda exatamente naquele lugar em que eu estava sentada? Ok, sei que é uma coisa esquisita de se pensar, mas eu estava feliz também por isso. Pra mim, eram milhares de historias que se cruzavam sendo testemunhadas pelo mesmo local.

Com apenas cinco minutos de atraso, elas entraram. Eu nem percebi de imediato: quando escutei os gritos da multidão, voltei o olhar distraido em direção ao palco e vi aquelas três figuras prateadas sorrindo. Nossa! O queixo começou a tremer. "Se segura". Cantei pra disfarçar a cara de imbecil, mas na segunda musica comecei o berreiro e soh parei depois da terceira musica. Sim, Luis, elas são tão afinadas quanto no estudio. Elas tem presença de palco, elas soltam piadas engraçadinhas, dançam e tocam bem. A ruiva com um violino, a morena com um acordeão e a loira com uma escaleta (perdoem, não sei o nome delas e a falta de interesse não permite saber). Quando a ruiva entrou, Camilo disse "puta que pariu, que coxão da porra!". Pois é, tem ainda esse "agravante". Mas vamos voltar a esse assunto depois.

Indo para o Brasil...

Apesar de eu ja poder somar quase cinco meses de residência na França, ainda me surpreendo com muitas coisas que acontecem por aqui. Com um espetaculo como esse, não seria diferente. As três bandas que vimos (The Puppini Sisters, Java e Caravan Palace) são voltadas pro publico jovem. Mas isso não impediu que quase a metade das pessoas que viram ao show no ultimo dia 28, fossem compostas por pessoas acima dos 40 anos. No Brasil, pessoas de 40 anos saem de casa pra ver o show de Roberto Carlos. No Brasil, nunca vi um show começar com apenas cinco minutos de atraso. No Brasil, eu não deixaria minha mochila no banco enquanto pulo e balanço distraidamente. Monique me escreveu ha alguns dias dizendo que foi furtada no show do Festival de Inverno de Garanhus (PE). La você pode introduzir sua mochila na sua vagina e, acreditem, vão achar uma forma de tira-la dali, por bem ou por mal.

Voltando...

O publico era, pra mim, um espetaculo à parte. Quando a banda pedia palmas, batia-se palmas até o fim da musica. E não era raro ver a onda de braços balanço pra ca e pra la. Velho, foi um show bonito, pra onde se olhava (pro publico, pros assentos, pro palco) se via um espetaculo. Entre um show e outro eu corria pra me embebedar, o que tornou as coisas ainda mais fantasticas! Ou não.

Eh o seguinte... O figurino das Puppini era uma roupa prateada, bem bonitinha: a ruiva gostosona vestia uma roupa micro que deivaxa 99% das pernas de fora; a morena baixinha tinha pano até metade da coxa; ja a loira, usava um modelo até os joelhos. Na hora, eu dei pouco importância àquilo. A vocalista do Caravan Palace, no entanto, entrou com uma roupa que deixava a ruiva puppini parecendo uma freira. E cada vez que ela entrava no palco, a multidão gritava com mais energia. E quando ela descia até o chão (à la Sheila Carvalho)? Então eu comecei a achar aquilo meio idiota. A voz da mulher era uma massagem no ouvido (e o show foi do caralho!), mas eu me perguntava "pra que vir pelada?". Eh logico que vão dizer que eu estou sendo puritana ou neurotica, (ou pior, invejosa. credo!) mas a questão é que acho uma pena elas, todas elas, terem que aparecer peladas pra agradar. Então, acabei vendo o show de Caravan Palace com a mão no queixo, parecendo aquelas velhas ranzinzas. Porque cada vez que eu olhava pro palco e via aquela mulher pinotando pelada, eu tinha vontade de correr la, sacudir os ombros dela e dizer pra ela não se sujeitar àquilo.

No final do show, discuti sobre o assunto com Camilo e passamos quase uma hora (estimulados pelo alcool) falando sobre machismo, sobre os direitos da mulher sobre seu corpo etc. Disse que era desnecessario que elas usassem aquelas roupas pra representar um determinado estilo musical. Camilo rebateu dizendo que elas poderiam soh querer ser sexy. E depois de mais meia hora discutindo, ele me perguntou se tinha alguma forma das mulheres usarem pouca roupa, querendo ser bonita/sexy, e não serem chamadas de vitimas (ou não) da sociedade machista. Velho, eu não sei. Não é que uma mulher não possa usar roupa curta, decote. Quem sou eu pra dizer isso, não é? Eu sou a primeira a usar. Mas o apelo erotico usado pra dar audência à banda é que me deixa nervosa. Camilo, aos cinco minutos do primeiro tempo soltou "que coxão da porra". Talvez ele tenha percebido que a voz da moça era bonita, mas o comentario foi sobre a coxa. Tou de acordo com ele. Que coxão da porra! Mas é uma peninha que o coxão da porra não possa ser poupado da exibição. E é uma peninha pensar que a idéia daquela roupa minima, provavelmente, não foi idéia de uma mulher. Ou melhor, da mulher que usou o traje.


segunda-feira, 27 de julho de 2009

E é boa

Numa contagem rapida, me vem à cabeça pelo menos uns dez amigos de Camilo que sabem falar português e ainda outros dez que desenrolam o espanhol (sem contar os que falam inglês: quase todos) mas com nenhuma dessas pessoas eu consegui conversar por mais de cinco minutos. A conversa, além de tudo, insiste em girar sempre em torno da minha adaptação na França, como se minha vida fosse resumida a isso.

No entanto, conheci um amigo de Camilo, Simone (um italiano que estava de intercâmbio na Argentina ha pouco tempo) que me fez relembrar que eu sou gente. Eh incrivel como uma simples conversa pode humanizar alguém. Na primeira conversa, falamos sobre masturbação. Na ultima, sobre Astrologia. Recebi meu primeiro xingamento em terras estrangeiras (por alguém que não fosse meu namorado) e, se isso não mostra que eu e o recém-chegado seremos amigos, pelo menos me faz relembrar como é a sensação de ter um.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Estranho no estrangeiro - parte I


Vou metralhando, presta atenção. Porque isso aqui não é redação pra vestibular e não precisa ter começo, meio e fim. Ou mesmo sentido.

Quando eu digo que sou timida, as pessoas riem. Algumas ja gargalharam, o que não foi muito legal. Quanto mais riem, maior é o grau de distância que percebo entre mim e este ser humano, porque, quem me conhece, nunca duvidaria que esta afirmativa é verdadeira, porque, quem me conhece, sabe que eu gosto de falar, de falar e de falar (um amigo me disse uma vez que eu não era timida, que eu apenas tinha traços de timidez. Mas o que é uma pessoa com traços de imbecilidade senão um imbecil?). Não culpo as pessoas que me conhecem pouco por rirem de mim quando falo da minha suposta timidez. Afinal, geralmente estas pessoas me encontram em mesas de bares, shows, festas de rua e, nesses lugares, eu estarei, quase que com certeza, bêbada ou prestes a ficar. E todo mundo sabe que pessoas bêbadas são os seres mais expansivos e desenrolados do mundo (perdendo a linha do raciocinio... voltando em um, dois, três).

O fato é que, bêbada ou não, eu gosto de conversar. Eu gosto de sentar numa mesa de bar e descobrir uma figura desconhecida do outro lado. Quem mora em João Pessoa sabe o quanto é dificil situações como estas acontecerem. E pior, é muito raro que as pessoas de João Pessoa que conseguem juntar no mesmo corpo bom humor, conversa interessante e HUMILDADE, se sentem na sua mesa de bar. Não é a toa que meus melhores amigos se tornaram meus melhores amigos desde o primeiro instante.

Então, sair de uma cidade subprovinciana, onde muitas pessoas (também os jovens) tem o cérebro do tamanho de uma ervilha, e ir para uma das maiores cidades de um dos maiores paises da Europa, me deixou, no minimo, excitada com a possibilidade de uma nova vida. Me deu ao menos a esperança de que, um dia, uma tarde que fosse, eu conversaria com alguém que não tem cérebro de ervilha, que não faz questão de inserir, no meio de uma conversa sobre geo-politica, que seu pênis mede dois palmos ou que você passou no vestibular aos 16 anos.

Mas a pergunta é: e cego vê? Porque, de repente, apesar de ter todos os sentidos funcionando perfeitamente, de ter as faculdades mentais em ordem, na França eu sou surda, muda e analfabeta. Eu não entendo as pessoas, não consigo me expressar e, como se não bastasse, não consigo identificar os codigos do mundo exterior estampados nos letreiros do ônibus e nos cartazes das ruas. Eh isso. Fiz faculdade, mas, da noite do dia 20 de maio pro dia 21, me tornei uma completa tapada.

Obviamente esse post não é um pedido de ajuda e a autora dele não admitira conselhos e tapinhas no ombro. Vou falar francês algum dia, não tenho duvida quanto a isso. Mas enquanto esse dia não chega, é mais do que frustrante ir a uma festa e não encontrar sequer um cérebro de ervilha pra trocar meia duzia de palavras. Irônico, não?

terça-feira, 21 de julho de 2009

Feminismo

A Amanda (responsavel pelo blog linkado no meu ultimo post) fez uma publicação no Porte Dorre sobre um concurso de blogs cujo tema é o feminismo. Li alguns posts concorrentes e posso dizer que estou pipocando (pipocando?) de felicidade por ter encontrado não somente posts superinteressantes, mas blogs que sei que lerei enquanto durarem. Ah, essas mulheres!




segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sem lenço e sem documento

Neste ultimo final de semana, apesar do convite de amigos para viajarmos, resolvemos ficar em casa para colocarmos em dia os nossos compromissos. Foram e-mails respondidos e cartas remetidas. Fizemos minha pré-matricula no curso de francês. Camilo organizou todos os papéis necessarios para pedir o reembolso dos remédios e das contas do hospital em que fiquei internada no final de maio.

O meu seguro social cobre 80% das despesas hospitalares. Infelizmente, somente depois de ser internada, é que Camilo foi atras da cobertura dos outros 20%. Tarde demais. A conta referente a esses 20% chegou ha uns dias: 508€. Exatamente. Quase R$1.500. "Ja passou", consolava o menino diante da minha angustia. Mas parece que não passa nunca! 508€ por um momento de abestalhamento. Valeu, Luciana!

Bom, mas o que estah feito, estah feito (conclusão apos momento de reflexão profunda).

Para resolver esses compromissos que citei, passamos a tarde inteira do domingo em meio a papéis de todo tipo. Eh impressionante a burocracia francesa. Para qualquer ação tomada junto ao governo francês, ha um milhão de requisitos e pré-requisitos a serem cumpridos e meia tonelada de papel certificando que você é você, que você tem boas intenções, que você trabalha, que você. Simplesmente. Antes de respirar a tranquilidade do estrangeiro legalizado, preciso ir na Prefeitura validar meu visto até 18 de agosto proximo.

Na primeira tentativa de fazê-lo, chegamos à Prefeitura às 9h da manhã, pegamos a senha 125 e soh fomos atendidos às 16h. A espera soh não foi tão traumatica porque saimos da Prefeitura e fomos andar pela cidade até a hora em que calculamos ser a ideal para voltarmos. Soh que um dos nossos papéis, o comprovante de residência, estava um mês fora do prazo, então tivemos que voltar pra casa de mãos vazias. Então, para Camilo não perder um dia inteiro de trabalho novamente, combinamos que hoje eu iria sozinha, pegaria a (maldita) senha, voltaria pra casa e somente de tarde iriamos à Prefeitura.

Eu não pretendia escrever tanto, mas eu preciso descrever o horror da fila da Prefeitura! A Casa abre às 9h, mas acredito que de madrugada ja tenha gente acampando na calçada. Hoje cheguei às 8:45h e a fila tinha uns 150m (mas poderia ter 50m, afinal, ja disse que minha noção de distância veio com defeito). O que importa é que tem muita, mas muita gente mesmo! Somos então segregados: "povão estrangeiro" do lado esquerdo e "cidadãos franceses" do lado direito.

Na fila do lado esquerdo, se vê gente de toda cor, tamanho, sexo e cheiro. Esse é o ponto interessante. Passei 45min na fila atras de um cara que desconhece o uso do desodorante. Cada vez que ele se movimentava, o veneno que saia debaixo dos braços dele corria pras minhas narinas. Eu ja estava perdendo os sentidos quando a fila começou a andar.

A policia acompanha todo o movimento. E acompanha com uma cara nada simpatica. E eu la, sozinha, com meu papelzinho escrito "je viens faire une 1ere demande de titre de sejour". Eu odeio ter pena de mim. E hoje eu tive pena de mim. Quando tirei o papelzinho do bolso, ja na proximidade da entrada da Prefeitura, gaguejei o que lembrava do papelzinho. A mulher entendeu (acho que foram os anos escutando sotaques dos mais variados) e me indicou um guichê. A moça do guichê perguntou pelo meu passaporte. Pensei "fudeu". Primeiro porque eu não havia levado o documento, depois porque não sabia explicar em francês onde estava o meu passaporte. Olhei pra cara dela, com minha cara de cu, pensei dois segundos e disse (em francês) que estava em casa, mas, claro, ela não entendeu. "Err... maison? Hmm... Ah, chez moi!" Não, não adiantava estar em "chez moi", querida, tinha que estar nas minhas mãos mesmo. Então, tive que voltar pra casa de novo. Sem nada.

Aquela sensação que, provalmente, eu tive pela ultima vez aos oito anos de idade, voltou com força depois de ter recebido o não da funcionaria. Fiquei super chateada. A sensação era essa: era como se eu fosse criança de novo e enfrentasse toda minha timidez pra comprar o melhor doce da venda tendo apenas dois centavos nas mãos. Dramatica, não? Mas é assim que eu sou e é assim que senti hoje de manhã. Mas soh me senti assim até achar a saida da Prefeitura. Depois voltei a ser Luci atual e xinguei mentalmente a mulher do guichê, o policial, o cara do sovaco podre, Sarkozy e a mim. A telepatia fez Camilo me ligar na mesma hora. E de novo, "ja passou, amor".

Quinta-feira tentarei de novo! Munida de mp3, passaporte e mascara!

Para mais: PorteDoree.blogspot

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Felicidade tem forma e nome de homem

Quando é ruim, eu escrevo. Quando é bom, também. E, apesar de eu sempre estar te falando e fazendo coisas pra que tu entenda que eu gosto de tu, desconfio seriamente que a gente não deva ser o casal mais bonito da face da terra, e que talvez estejamos longe de ser o que mais se ama. A sorte é que eu não tenho ambição de fazer parte do casal mais bonito da face da terra e não me importo também que não sejamos eleitos os namorados que mais se amam. Porque, no final das contas, tu cuida tanto de mim que minha felicidade às vezes passa da conta e eu costumo, como agora, chorar so de pensar o que seria da minha vida sem tu. Entro em pânico quando penso que um dia tu não vai mais existir. Mas tu ri dessas minhas preocupações e eu acabo rindo junto. E fico assim, tristemente feliz do teu lado. "Quanto mais se ama mais fraco se é". E se por inveja ou por preocupação dizem que é feio ou perigoso precisar tanto assim de um homem, ignoro. Tudo o que tu me provoca é orgulho, é amor, é felicidade. Felicidade daquela boa, carimbada pelos santos e aprovada pelos céus.

Sabe, e aqui entre nos, o que faz com que eu saiba que eu te amo, não são essas coisas. Eh que, misteriosamente, toda vez que eu penso tu, meus olhos se fecham devagar... Eh massa, gordo!

O mundo pega fogo. Enquanto isso...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Bem feito

Ah! Familia cansa! Cansa pra caralho! E é uma confusão o que eu sinto pela minha. E não falo da familia de primos, tios e avos, porque, com essa dai, me desapeguei ha uns dez anos. Definitivamente, eu não sou uma pessoa "familia". Quando morava em João Pessoa, passava um mês longe de casa (entre as casas de amigos e de C.) e, quando voltava para minha, era somente pra escutar grito e presenciar briga. Eh foda olhar as pessoas que cresceram com você, as pessoas que educaram você, e se dar conta de que, apesar de eu falar igual a minha mãe, ter as mesmas sobrancelhas do meu pai, dividir o mesmo coração mole da minha irmã, eu não tenho absolutamente nada a ver com eles. Quero todos bem, saudaveis, trabalhando em algo recompensador, meu irmão "de cuca legal", mas é da forma que ta agora: longe. Me contorço de saudade dos meus amigos, e amuo quando olho pra foto do meu cachorro, mas quando recebo os emails da familia (ainda com exceção dos emails da pequena), eu respiro fundo. E quando escrevo a resposta, preciso antes de umas cinco revisões pra tirar todos os "pare com isso", "deixe de besteira", "não quero saber" e "puta que pariu", porque sei que isso magoaria imensamente a todos e não é bem isso que quero. Acontece que as pequenas coisas que vivi durante a adolescência e idade adulta insistem em não sair da cabeça. Aquelas magoas que latejam e sempre voltam, a cada dia, de uma forma diferente. Eh impressionante como sonho com meu pai. Se é que se pode chamar aquilo de sonho. Ele em um carro, minha mãe do lado. Ele bate nela, eu mando ela reagir, ela fecha os olhos. Então, castigo aos três: "vocês nunca mais vão me ver". Eu vou embora. Eles choram. Eu choro também. Viu? Não é simples diagnosticar tanta magoa? Nem precisa ter formação como psicologo. Foram anos batendo cabeça, puxando cabelo, fungando de madrugada e imaginando em que ocasião eu finalmente sairia de casa. E demorou tanto, tanto! Mas quando fiz, fiz bem feito. Fui pra outro continente. E agora eu durmo tranquila (quando os tais sonhos não vem). E acordo ao lado de pessoas que se respeitam, que se amam. Acordo todo dia com "bom dia, amor da minha vida". E, apesar de enfrentar dias solitarios, dias angustiantes de silêncio, tão torturantes pra alguém que adora falar e contar historia, sim, eu estou bem. E me aborreço soh de pensar que tenho que voltar um dia. E esses emails, esses tais emails me chegam pra me torturar. Pra que eu nunca esqueça que, apesar dos pesares, eu venho deles e pra eles eu voltarei quando eu deixar de ser o amor da vida dele e estar perdida novamente.

terça-feira, 7 de julho de 2009

"Apesar de você"

Como eu estou completamente fudida no prazo de entrega dessa infindavel monografia e não ando com tempo nem de me coçar, vou enrolar descaradamente vocês, meus queridos leitores, com um post feito em um oooutro blog que mantenho oculto.

O tema é o meu preferido: Camilo. O contexto: Luci depois do fim de um namoro longo resolve sair no sabado. Afinal, sabado à noite tudo pode mudar. Ou não?

Eh um. Eh dois. Eh um, dois, três e...

Como foi? Foi assim... Anh? Certo, em detalhes. Pra você se lembrar no futuro exatamente como foi, Luci. Caso a tua fraca memória resolva, você sabe... te abandonar de vez. Ela tem ameaçado, não?

A horrível sexta-feira 13 tinha passado. Eu queria morrer e os meus pensamentos insistiam nisso. É noite. Eu enxugo as lágrimas e começo a me arrumar - depois de uns amigos terem me adotado. Me sinto como uma personagem gorda, feia e loser de um filme americano e recomeço o choro. Olho pra roupa e choro, olho pro rosto e choro, sento na cama e choro, enxugo as lágrimas e saio.

Lá, sento numa mesa com Toni. Ansiosa e estranha, converso. Eliza já vem e trará dois amigos: Osvaldo e Camila. Quando chegam, descubro que Camila é homem e que é aquele francês, aquele que Monique tanto falava, do Hospitality Club... Sei sei. Porra de francês!

Eu bebo, falo, rio e faço rir. Conversamos a noite inteira. Camilo me observa mudo, com um sorrisinho indecifrável. Eu amuo. Ele vai conversar com o que parece ser uma nova amiga. Ele chupa o que parece ser a língua dela. Oh... Eu amuo. Nem sei porque. Acho que é o costume...

- Quer dormir lá em casa?
- Quero...

Em 20 minutos estamos na casa de Eliza. O francês, que estava se hospedando na casa dela, chegaria mais tarde. A noite deve ter sido boa. Mas eu não pensei sobre, eu estava egoistamente infeliz naquela noite pra perceber isso.

Acordei ainda mais feia, mas menos triste. Procuro e acho Eliza na cozinha. E, ao me voltar, me deparo com o francês que começa a ter nome. "Oi, Camilo". E me impressiono com minha impressão sobre ele. Esse menino fica mais bonito de manhã! Interessante...

O constrangimento confina a nós dois naquela minúscula sala, mas só eu percebo isso. Procuro um CD mágico que possa quebrar o clima e acho um de Django. (...) Django é como uma vida nova dentro de mim, mesmo quando eu estou menstruadíssima. Django é não sentir a menor vergonha dessa minha última frase. Django me leva à vida que eu queria ter. E aquele Django, oh, meu deus, era do fr... Camilo. Ponto pra ele!

Eu sento no sofá verde, ele senta na mesinha azul, assim, desavergonhadamente de frente pra mim. Eu costumo me surpreender quando percebo que há pessoas que simplesmente não se importam. Eu falo de timidez. Elas não são! É estranho... Porque pra mim parece óbvio, mas... deixa pra lá.

De alguma forma ele já estava tentando me convencer de que estávamos no fim do bairro, quando eu nunca havia dado importância a isso. Ele pega o mapa e senta do meu lado. Eu suo levemente. Ah, eu também disse que, quando o inverno chegasse... "Mas é inverno". Ah, claro, eu sei. É verdade. Meu nervosismo fazia as estações mudarem. Fantástico!

E ali ficamos. Ele, com aquele sotaque inspirador de masturbações, e eu, com aquela angústia que paria lágrimas. Antes do almoço, Eliza comenta em particular que notou tudo, hein! No sofá, sua safada! E eu rio mais de nervoso do que de vergonha. E acho engraçado como um comentário poderia exercer tanto poder sobre mim, porque, a partir dali, tive certeza de que queria aquele maldito menino. E adivinha só!

Tá bom, pode ir fazer xixi (...)

A tarde era o tempo reservado para uma reunião entre amigos universitários que iriam discutir... assuntos universitários. Fomos todos juntos e felizes à casa de um tal de Bigode. Juntos e felizes começamos uma bebedeira que terminou em três mortos e uma ferida. A minha, no caso. No meio da noite, a amiga de língua grande que mostrou a Camilo no outro dia o quanto somos hospitaleiros, o chamou pra outro lugar e, como bom cavalheiro, ele foi. Filho da puta.

Horas entediantes se passaram até a hora de voltar pra casa (de Eliza). Encontramos o francês de cueca no meio da casa se preparando pra dormir. Era quase meia-noite, mas ainda jogamos uma partidinha chata de cartas. Eliza vai dormir, um amigo que viera praquela noite, também. Eu decido fumar um cigarro no sofá verde, sabendo que aquela era a chance de ver um possível interesse de Camilo em... fumar.

Fumamos. E conversamos sobre nossos cachorros e sobre a política educacional do Brasil. Que chatice. E chegamos a uma hora da manhã. E depois passamos das duas. E fumávamos e conversávamos, mas às três horas o sono queria ser mais forte.

Camilo encostou a cabeça no sofá e fechou os olhos. Não! Eu fui encostando minha cabeça, mas tirei e... voltei a tentar encostar, mas... tirei e, mesmo com a garganta querendo expulsar o coração, eu consegui encostar a minha cabeça no ombro dele. E experimentei os séculos silenciosos que se passaram naqueles segundos e, mesmo sabendo que o estômago era frágil, acariciei o braço dele. E já não sabia o que fazer, quando ele se voltou pra mim decidido e... adivinha só! No domingo fazemos oito meses de namoro. Com direito a planos pro futuro e tudo mais. Tá bonito.

Não imaginava onde iriam dar esses "planos pro futuro". Mas agora, atualizando: em dez dias, dois anos. So não continua bonito... agora é lindo! Lindo!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Documentários de verdade

Um post pra divulgação de um site que deveria interessar o mundo inteiro:

[Documentários de Verdade]

O blog conta com dezenas de documentários que lutam "contra a exploração laboral e infantil, a fome, a miséria, a guerra, a corrupção dos governos, a parcialidade da mídia, a venda dos estados em favor das corporações, a degradação ambiental, o preconceito racial, social e sexual, a crueldade com as pessoas e com os animais e, claro, contra a injustiça social".

O mais difícil já foi feito. Agora, você só precisa assistir aos documentários.

Divulguem!


terça-feira, 30 de junho de 2009

Biscoito da sorte

Passar o dia inteiro no apartamento entre as atividades de cozinhar, fazer monografia e esperar o marido chegar, definitivamente, não é o plano de vida que tracei pra mim. Então, enquanto a coisa não melhora, pra aliviar o estresse e não ficar doida dentro de casa, eu pego minha linda e amada e adorada bicicleta (presente do amado) e vou dar uma voltinha. Acontece que Lyon é uma cidade doida! DOIDA! E às vezes, um inofensivo passeio de bicicleta se transforma em um pesadelo. E vocês sabem que eu sei bem do que eu estou falando.

Eu não me considero uma pessoa desastrada... até estar nervosa. Eu acho que eu sou bastante habilidosa pra certas atividades, mas quando eu tou em cima de uma bicicleta, me descontrolo. Se uma coisa dá errado, uma série de desgraças acontece até que eu chegue em casa. Por exemplo, assim que cheguei em Lyon (ano passado), quase fui atropelada por uma bicicleta que vinha em alta velocidade. Fiquei nervosa e, quando fui andar na minha bicicleta, caía cadeado do bolso, isqueiro... Depois, eu mesma caí da bicicleta por causa de uma freada que dei achando que eu fosse ser atropelada por um carro que estava... parado. Foi maravilhoso.

Depois do acidente de bicicleta sofrido recentemente, comprei um capacete e agora eu olho até pra cima quando vou atravessar uma rua. E agora é minha vez de reclamar dos sem-noção (eu posso, afinal, todas as vezes em que eu caí da bicicleta, eu coloquei somente a minha saúde em risco).

Andar de bicicleta em Lyon é realmente perigoso. E não é somente porque eu estou nas ruas (hihihi)! Existe uma rua perto de casa em que parece que as pessoas combinam de abrir as portas dos carros na hora em que eu passo. É quase sincronizado. Da vontade de arrancar porta, com retrovisor, com tudo. É uma pena saber que é mais fácil eu perder a bacia no impacto do que levar a porta do carro comigo.

E o que fazer com os suicidas? Semana passada eu tava andando no meio da rua em alta velocidade quando o semáforo à minha frente abriu. Continuei na velocidade que tava. De repente, vejo uma bola atravessar a minha frente e, logo atrás da bola, claro, um guri. Meus amigos, em um segundo esse mizerinha tava na calçada e, no outro segundo, ele tava a um metro de mim. Eu dei um grito e uma freada e não sei o que foi mais estridente. Eu fiquei a um palmo dele. O preocupante é que vi que ele sequer olhou pro lado, ou seja, ele não calculou errado a minha chegada, ele simplesmente não a viu. Podia ter sido uma moto, um carro, um jumento correndo (mas não, foi a sortuda aqui).

No dia seguinte (vejam bem, NO DIA SEGUINTE), eu tava na ciclovia andando tranqüilamente. Lá lá lá... Luci na ciclovia, pedestres na calçada, Luci na ciclovia, pedestres na calçada, de repente, Luci na ciclovia, mulher louca na ciclovia. Foi da meeeesma forma. A maluca botou a patona dela na ciclovia e se jogou sem nem mesmo se preocupar em olhar pros lados. Dispenso a culpa da criança que estava hipnotizada pela bola, mas e essa?

Eu queria ter aquelas buzinas de navio pra dar um fooooooooom no pé do ouvido da desgraça que atravessasse minha frente. Morre do coração, mas se livra de um atropelamento. Eu tou nesse tom, mas eu ri muito nesse dia. Quando essa mulher passou, eu dei um freio enorme, parei bem em cima dela, foi tão assustador que ela jogou uns biscoitos (ou bolo, sei lá que porra era aquilo) pro ar. Ela deu um grito e jogou os braços pra cima. Aí ficou pedindo desculpa. Ah, se eu soubesse falar francês. “Dona Maria, essa porra não mata, mas aleija!”

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Não se reprima

Em 2007, conheci de maneira totalmente inesperada o sr. Raphael Lima (mais conhecido no submundo recifense como Cabelo): um amigo em comum (Bruno) deixou o MSN logado permitindo que Cabelo se apoderasse do seu computador e iniciasse uma conversa com a moça que lhos escreve.

Pelas posteriores trocas de e-mail, percebi em Cabelo uma figura bastante rude, um troglodita, poderia-se dizer. Ganhou o momentâneo apelido de "presidiário" após me revelar uma primeira foto: Cabelo tinha uma barba rala, malfeita, cara de poucos amigos, cabelo raspado. Enfim, um presidiário.

Nos meses que se seguiram, nenhuma demonstração de afeto para com sua nova amiga. Fui (sou) chamada de "amarela" trezentas vezes e mandada tomar no cu sem o menor motivo outras tantas. Depois que Cabelo conseguiu seduzir a pobre Mariana, achei que seu coração fosse abrandar. Mas a imagem de machão sempre foi realçada em qualquer detalhe ligado a ele, como o "ninguém é bem-vindo aqui" estampado no seu Orkut.

No entanto, eu sempre disse a ele: "Cabelo, meu querido, você é um romântico! Deixe de brabeza! Mostre seu interior". Obviamente minha intenção não era outra senão aquela de provocar raiva no menino. Eu não imaginava, porém, que nessas palavras jogadas ao vento eu estaria certíssima!

Senhoras e senhores, com vocês, a verdadeira identidade do famigerado Raphael Lima, escancarada nas páginas de um jornal recifense em matéria sobre o Dia dos Namorados:





Pois é, meus amigos, toda a comunidade recifense ficou em choque. Faço das palavras de Bruno, o amigo supracitado, as minhas: "magricelo, essas fotos vão te martirizar até o fim da sua existência. a melhor coisa a se fazer agora é antecipar a morte cortando alguma artéria do cu e sangrando até morrer pálido".

E agora, amarelo, quem tomou no cu?
HAHAHAHA

segunda-feira, 22 de junho de 2009

La tête du Philosophe Sofocles

Acabou de rolar aqui em Lyon um festival que se chama Les Invites. É um festival de rua gratuito, com música e teatro. Muito bom! Na quinta, vimos uma tal de Tahiti 80 (uma banda). Era a cópia de The Thrills, impressionante, mas Camilo não gosta muito desse tipo de rock, então me contentei, sem muito sacríficio em beber e ir para casa cedo. Mas na sexta a coisa foi diferente. O dono de um bar que ele conhece, disse que uma companhia de teatro muito boa ia se apresentar à noite. Chegamos exatamente no primeiro segundo da apresentação.

O nome da companhia é Les 3 Points de Suspension, é um humor meio pastelão, mas muito engraçado! Eu gostei tanto que pedi a Camilo para irmos de novo no dia seguinte ver o espetáculo em outra praça.

A peça é apresentada por quatro caras vestidos com uma roupa colada prateada e toucas de banho. Dois deles usam dentes postiços, o que torna a coisa automaticamente engraçada, independente do que eles venham a fazer. O palco é ornamentado com um monte de porcaria, (cabeça empalhada de veado, vitrola, cruz de ferro) e atrás das cortinas, há uma cama elástica que foi usada pelos atores que se arremessavam para lá e para cá, levando Luci ao delírio. Eu vou contar um pouco como foi, porque só de ver as fotos eu começo a rir!

A história gira em torno, basicamente, da perda da cabeça do Filósofo Sofocles (eles repetem essas palavras até a exaustão). Quem narra a história é um cara vestido com cinta-liga preta e óculos Ray Ban que, no meio da cena, sapateia do nada:

clique nas fotos para ampliar

As personagens:

O Filósofo Sofocles


A irmã de quatro braços do Rei


O Rei

O Filósofo se apaixona pela irmã de quatro braços do Rei. Este, preocupado com a virgindade da irmã, manda matar o Filósofo Sofocles. A irmã de quatro braços então se transforma em corvo (sei lá o que porra é aquilo) e vai tentar salvar a cabeça do Filósofo Sofocles para jogá-la no mar do fim do mundo, e assim, deixar em paz o espírito do Filósofo Sofocles, ou qualquer coisa parecida com isso, já que assisti o espetáculo em francês.

Uma das cenas que eu mais amei é a sequência que começa quando entra em cena a irmã do Rei . Os atores, com muita habilidade, escrevem uma carta enquanto tomam café, acendem e fumam um cachimbo e tocam cavaquinho!


Entra em cena o Filósofo Sofocles e começa a se declarar e pular na cama elástica. No espetáculo da sexta, havia pétalas de rosa na cama elástica, que pulavam encantadoramente no ar enquanto a Princesa tocava um cavaquinho com seus quatros braços. Como não poderia deixar de ser, eu chorei. Não há cena surreal que não possa me provocar choro (ver primeiro vídeo).

O espetáculo conta ainda com mágica e até uma catapulta, que, em certo momento, arremessa o Corvo que dá um vôo incrível por cima do palco! (ver o segundo vídeo). O espetáculo é lindo! A trilha sonora é linda e os atores são estupidamente engraçados. É uma pena que a probabilidade dos meus amigos verem é ridícula. Por isso mesmo eu tirei um monte de fotos e gravei uns cinco vídeos na segunda vez que fui. Vou postar dois vídeos e as melhores fotos!

A morte do Filósofo Sofocles


Com direito à magica...
(na sequência, o cabo da vassoura atravessa o Filósofo!)


e à sangue - eis a famosa cabeça!

E aqui, os vídeos:

Neste, os amantes se encontram. Cantam em espanhol quando, de repente, o Rei entra em cena:

Rei: Vocês estão cantando em espanhol? Vocês estão apaixonados?!
Filosofo Sofocles: No son los problemas que buscan a la gente. Es la gente que busca los problemas!
Rei (pensativo): Vamos a la playa?



Aqui, o vôo do Corvo!




Para mais: Les 3 Points de Suspension

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O terceiro olho

Sempre fico esperando que alguma novidade apareça na minha vida para que eu tenha motivos para postar neste blog. O que é detestável, afinal, a idéia inicial era de ter um contato direto com meus amigos, escrever somente para eles, o que quer que fosse, pois eu sei que qualquer coisa que eu escreva será bem-vinda. Mas o fato de outras pessoas agora lerem o blog, me deixa um pouco mais inibida. Gastei uma hora do meu tempo ontem escrevendo um post que, depois de publicado, foi deletado (justamente por eu não ter me sentido à vontade com as confissões e o público estranho). Mas que tenha sido a primeira e última vez! Odiei fazê-lo!

O post de ontem, que os amigos finalmente receberam via e-mail, falava de ciúme. Eu falava de uma faísca entre mim e Camilo por causa de uma menina que o havia paquerado numa pizzaria. Nada demais. E, no post, tentei dizer justamente isso, foi apenas um mal-entendido. Mas ao ler o email-resposta de Monique que dizia "ciúme é saudável" (um tipo de consolo/conselho?) eu me senti na obrigação de vir aqui salvar a minha reputação (e eu tenho?).

Não é que eu tenha sentido ciúme de uma esquisita paquerando meu namorado. Não é a primeira vez que isso acontece. E, oxalá, não será a última. Não gostei somente da forma com a qual ele me contou o fato (com certa alegria). Não é que ele tenha que acender uma vela preta e contar, entre lágrimas, que foi paquerado. Mas um pouco de seriedade nessas horas não faz mal a ninguém. Ele sabe perfeitamente bem que não sou de encrencar com essas coisas, mas temos códigos de ética.

Nos quatro anos em que passamos juntos, Fábio me ensinou muitas coisas boas. Duas delas foram de tremenda importância para que eu viesse a me tornar o que sou hoje. Ele me ensinou a não ter orgulho (quando errada: "refletir, arrepender-se, desabafar, desculpar-se". Isso passou a ser prática freqüente) e a ser sincera. Ser sincera é poder dizer sem censura coisas que antes eu não ousava dizer ou fazia questão de não ouvir. Logo, eu não tenho problemas em falar a Camilo questões que vão deixá-lo enciumado ou de ouvir deste confissões que possam me deixar da mesma forma. Essa prática me tornou mais compreensiva e tolerante (hoje, quem se utiliza dos benefícios dos ensinamentos do mestre Fábio não é ele, é Camilo). Ou seria, menos incompreensiva e intolerante? (Fábio, manifeste sua nobre opinião).

De tarde, logo depois de ter publicado (e deletado) o tal post, fomos a um bar. Conversávamos. Camilo disse que achava esquisito que no Brasil os caras sacassem a bunda das mulheres sem o menor pudor. "É, como se isso fosse um sinal de virilidade, não de estupidez", completei. E comecei a falar do quanto detesto quando meus amigos fazem isso, do quanto ficam parecendo idiotas. E ele perguntou se tinha alguma forma de um cara olhar meu corpo (ou o corpo de qualquer menina) sem parecer grosseiro. Eu respondi tudo o que achava sobre o fato, mas ele perguntava novamente. Ainda não satisfeito com a resposta, finalmente disse "pela décima vez, eu vou reformular minha pergunta" e "confessou" que olhava para outras meninas (para o corpo, mais precisamente) e não queria que elas se sentissem mal, então, ele estava atrás de alguma fórmula para que pudesse fazê-lo sem me ferir, sem ferir a moça e sem manchar a dignidade dele. Aí, lá vai Luci dar dicas ao namorado de como olhar pros corpos de outras meninas.

"Rapaz, em primeiro lugar, faça tudo, menos olhar pro rosto dela depois de ter olhado pra bunda, porque se o olhar de vocês se baterem, vai ser ridículo! E também não precisa olhar cinqüenta vezes pros peitos da menina, uma olhada rápida pra dar uma sacada tá de boa, afinal, mesmo que ela não o veja, a amiga pode estar de olho e, acredite, ela vai comentar sobre o fato com a outra". E a conversa foi andando...

Não adianta se enganar. Minha querida leitora, por mais que seu marido/namorado diga que os dois olhos dele são para você, acredite: há um terceiro olho e esse aí, ninguém controla. E isso não significa absolutamente NADA. Mentalize isso, afinal, não há nada mais sexy que uma pessoa segura de si. Quando a coisa fica difícil, eu finjo segurança e escuto com paciência qualquer coisa que eu ainda não possa compreender bem. Porque, no fim, sempre vem a recompensa: "como é bom poder falar essas coisas contigo!”


sexta-feira, 12 de junho de 2009

O chão

Estou tendo problemas em escrever esse blog. Fico entre o narrar de forma estúpida minha estadia aqui na França e escrever minhas impressões sobre as coisas que vivencio. É, parece ser mais óbvio escolher a segunda opção, mas não é fácil escrever sobre as minhas impressões quando a "essência" se perdeu entre o momento em que as senti e àquele em que pude chegar ao computador. Tudo se perde.

Geralmente, quando eu estou andando pela cidade e pensando a respeito da minha vida, eu costumo formar as frases que serão dirigidas aos amigos, seja em blog, e-mail, telefone etc. Mas é quase sempre certo me imaginar falando com Fábio. Praticamente tudo o que sai da minha cabeça é dirigido a ele, mesmo que eu não esteja pensando em dizê-lo. A falta que ele faz (que você faz) é grande. E não há nada melhor na nossa amizade que a possibilidade que ela traz de conversarmos. As escadas do Caricé me acostumaram mal e, desde a separação, falo sozinha pra você.

Ontem, enquanto atravessava uma rua de bicicleta, vi uma velhinha encurvada parada na calçada. Fiquei me perguntando o que ela procurava no chão e a apontei pra Camilo. Ele disse que ela era assim mesmo. Fiquei observando e ela realmente não ficava ereta. Era sempre no ângulo de 90° graus, sustentada por uma bengala. O sinal abriu e ela começou a se mover: fez um esforço e levantou a cabeça minimamente (que estava, até então, virada pro chão), viu o caminho livre, baixou a cabeça e deu dois passos. Levantou a cabeça novamente e, devagar, avançou vagarosamente mais uns metros. Parou, levantou a cabeça de novo e andou mais. Assim, ia progredindo na travessia de uma avenida que, para ela, deveria significar uma pista de maratona.

Eu fiquei olhando tudo com uma pena que doía. Olhava e dizia "ooooww" e virava o rosto. Não resistia e olhava de novo pra velhinha, pra de novo fazer "oooow". E fiquei tão penalizada que os olhos começaram a se encher de lágrimas. Aquela velhinha era visivelmente mais independente do que eu dentro da cidade (era velhinha, mas estava sozinha, e eu, sempre acompanhada de Camilo). Mas não foi isso que me consolou. Foi pensar em Fábio dizendo "mas ela tá feliz, ela tem dificuldade, mas ela nem liga!" E daí eu esbocei um sorriso e esqueci da velhinha

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Happy hour!

Nesses dois anos em que estou com Camilo, foi impossível ter um dia agradável nos nossos aniversários. Principalmente nos MEUS aniversários. No meu aniversário de 2008, a gente brigou no dia 27, não se viu na minha festa, no dia 28, e ele acabou o namoro no dia 29. Palmas pra gente. No aniversário de 2009, eu fiquei hospitalizada parte do dia e ainda tivemos tempo de ter um atrito por conta de uma besteira, que foi tão besteira!, que nem ficou na memória. De qualquer forma, lá estávamos nós, dispostos a fazer com o que o último dia 28 fosse lembrado por qualquer outra coisa que não tivesse cheiro de éter.

Quando queríamos comemorar algo em João Pessoa, sabíamos aonde ir: Dona Branca. E sabíamos a hora de ir: no happy hour! hohoho Mas aqui na França nem o happy hour é feliz. Custa caro comer fora. No entanto, Camilo foi apresentado à pizzaria do careca: pizza a cinco euros, um verdadeiro achado!

Chegando lá, depois do pedido, Camilo tirou da bolsa um par de ingressos praquele que vai ser um dos melhores shows da minha, até então, curta vida: show de The Puppini Sisters!

Show de quem?!

Puppini Sisters!



Esse não é o estilo em que qualquer um dá conta do recado. Não. E essas três se garantem. Tive uma crise de abestalhamento na hora e segurei as lágrimas, porque nunca imaginei que um dia fosse ver o show delas! O curioso é que no ingresso o nome delas aparece depois de outras duas bandas, numa fonte pequena, porque elas são a coisa menos importante da noite. Oh! As outras duas atrações são bandas francesas que eu não conhecia e Camilo disse que são muito boas.

Caravan Palace é nada mais, nada menos, do que jazz manouche. Mais um motivo para ter orgamos múltiplos na hora do show. Quando Camilo me mostrou uma música da banda, eu morri de rir, porque era a banda que eu estava ouvindo no hospital, mas não sabia o nome. Perfeito! Aqui vai uma musiquinha:



A outra banda se chama Java, é acordeon com hip hop. Não dá pra imaginar como seja, ainda não a ouvi, mas ele disse que essas duas últimas bandas estão em todos os festivais franceses.

Que bom, então! No final das contas, eu tive um aniversário decente. Ah, e ainda ganhei meu lindo chip de celular! Lindinho disse que esse era o primeiro passo pra minha nova vida na França, e é mesmo. Agora tenho um número de celular. Ok, não tenho ainda quem possa me ligar hehehe Pior, não tenho ainda alguém que eu possa ligar, mas uma coisa de cada vez. É ou não é, ou não é? É!

O show vai rolar no dia 28... de julho! Paciência não é meu forte, mas... Quem se importa? Posso seguir o conselho de Priscila e fingir que meu aniversário é em outro dia.

Ah! E tem mais! O show vai ser nessa beleza aqui:


História e música! Nada mal, hein...

Para mais: Nuit de Fourviere

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Parabéns

Meus dias na França têm sido de aflição pura. No post passado, eu disse que o médico havia cogitado a idéia de eu piorar e ter de ir ao hospital. Mal escrevi o post e Camilo, depois de dar uma bela olhada na minha cara bela, disse que seria melhor irmos ao hospital. Da minha cara escorria um líquido verde. Mas isso era o gostoso da história. Meu rosto começou a inchar, a inchar e a inchar, e, quando fui atendida no hospital, meu rosto já tinha mudado. Não se tratava mais do rosto de Luci, mas de algum ser maligno que havia se apoderado da minha face. E eu tenho fotos pra provar.

Dei entrada no hospital às 23h da segunda-feira, 25, e fui atendida às 3h. Conheci profundamente o sistema de saúde público francês. A enfermeira mão-de-ferro me enfiou uma agulha na mão e por ali eu tomei antibiótico. Depois, fui delicadamente jogada num corredor e permaneci ali até o outro dia, quando fui acordada por um médico brasileiro. Porra, quanta diferença! A gente falou de feijoada, da saúde pública, dos nossos relacionamentos amorosos, do idioma, da amabilidade do francês, de imposto de renda, de orkut e de tantas outras merdas que se possa imaginar. Até tinha esquecido que estava num hospital, até tinha esquecido que eu estava falando com um médico (que eu tinha conhecido ha 10min). Mas afinal, aquela já não era eu, era compreensível tanta desenvoltura com um estranho.

Meu rosto inchou tanto que, a essa altura, meu olho esquerdo estava completamente fechado. Meu pobre rosto inchou tanto que eu não conseguia ver meu ombro esquerdo! Imaginem, uma maravilha. Fizeram uma tomografia, mas ninguém conseguia nos dizer o que eu tinha.

O banheiro do hospital fedia fortemente a mijo. Impressionante. E as pessoas insistiam em falar comigo em francês mesmo depois de eu dizer que eu não falava a língua.

- Você fala francês?
- Não.
- Você fala inglês?
- Falo!
- Ah, je ne parle pas anglais...

Fui transferida pra outro hospital. Andei de ambulância, foi super divertido, espero que tenha sido a última vez. No novo hospital, os médicos vinham me examinar em grupo. Eu me sentia um bicho exótico. Como todos eram jovens internos, ainda deixavam transparecer o nojo que a cena provocava. Não era por menos, eu imagino. Depois de mais algumas horas nesse hospital, os competentes jovens médicos me transferiram novamente pra um outro. As perguntas eram as mesmas: dói? Arde? Coça? Os dentes estão no lugar? Secreções? Não. Só alguns pesadelos e uma terrível crise de auto-estima.

No terceiro hospital, finalmente eu chorei. Chorei porque não agüentava mais ver a cara de pena de Camilo, chorei porque eu estava realmente parecendo um monstrinho. Chorei porque ninguém sabia o que porra eu tinha e porque eu não sabia falar a porra da língua e tinha que depender totalmente de Camilo que, aliás, estava perdendo trabalho desde que essa historinha havia começado.

Mas eis que chega uma luz em forma de mulher e diz: "querida, você sofreu uma reação alérgica a algum medicamento que estava usando. Esse inchaço no seu pescoço é apenas retenção de água. Entendo que você esteja mal, mas não estamos preocupados com a sua aparência, isso se resolverá (tipo, "isso é o de menos"). Você tomará antibióticos via oral e usará pomadas. Ficará dois dias interna. Até logo". Pronto. Ouviram? Era só isso! E, como se não bastasse, o hospital era lindo e limpo. Havia sido inaugurado há três semanas.

As enfermeiras eram ótimas! Sabiam que eu não falava francês e se arranjavam como podiam pra me passar as informações. Havia uma em particular que confundia minha ignorância no francês com surdez:

- MADAME, AGORA EU VOU PASSAR A SUA POMADA. OK?
- Errr... Ok.
- TRES BIEN!

No dia seguinte, chegou uma mulher muito legal que estava com câncer de pele pra dividir o quarto comigo. Ela sabia falar inglês e, de vez em quando, quando as palavras-chave em francês não me auxiliavam, ela traduzia o diálogo entre mim e os médicos. E, é claro, ela me fez pensar que uma carinha torta não significava nada perto de um câncer.

Hoje, finalmente, sai do hospital. Foi presente de aniversário. Sim, porque hoje é 28 de maio e agora sei que os 24 anos de idade me chegarão com bastante aprendizado: se for beber, minha filha, pelo amor de deus, use capacete.
Foto 1. Tirada no segundo dia de internação, o olho começando a abrir. Uma beleza!

Foto 2. Ok, eu tinha acabado de acordar, por isso não há muita diferença entre o lado esquerdo e o direito...

Foto 3. Terceiro dia de internação. O que são os antibióticos, não é mesmo? (notem o queixo meio torto...)

Foto 4. Praticamente um brotinho...



Ainda em tempo, palavras de Cabelo (isso é uma pessoa):

KbLo diz:
vc poderia ministrar um curso "como se fuder completamente sem morrer com eficiÊncia em menos de 12 horas e estragar sua viagem à Europa"
KbLo diz:
caralho
KbLo diz:
vc tá parecendo o satanás de rabo!
o sol tá massa diz:
ahuahuahuahahhahuahuahuahuahua
KbLo diz:
puta que pariu
KbLo diz:
use uma máscara
o sol tá massa diz:
cabelo, eu JURO, estava pior do que isso
KbLo diz:
naipe michael jackson
KbLo diz:
e nos poupe dessa feiura
o sol tá massa diz:
estava pior, eu nao abria nem o olho, imagino isso
KbLo diz:
mermão
KbLo diz:
pobre camilo
KbLo diz:
num rato do caralho
KbLo diz:
e agora tem uma chewbacca em casa pra comer

Obrigada pelo conforto...
Amigos, pra que servem, afinal?

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Cabeça de vento

Olhe bem! Não queria ver? Pois veja! Sacie seus olhos, impregne sua alma com a minha hediondez! (...) Não bastava ouvir-me? Tinha que conhecer minha aparência? Oh! Como vocês, mulheres, são curiosas!

Assim que eu caí, minhas chagas não chamavam tanto assim a atenção das pessoas. "Puxa, como os franceses são discretos, no Brasil já estariam me apontando!" Pobre de mim. Os franceses não cuspiam na minha cara quando me viam porque, a despeito das fotos, minhas feridas estavam discretas. Ontem, depois de uma tarde inteira no parque (Parc de la Tête d'Or), comecei a me sentir, digamos assim, diferente. Os velhinhos olhavam de soslaio. As mulheres comentavam entre cochichos. Teve uma criança que parou na minha frente e ficou me olhando durante uns 30 segundos. "Quié, porra?" perguntei eu, cheia de coragem xingando uma criança em outra língua.

Passamos um domingo maravilhoso de sol e poeira no parque. Quando chegamos em casa, desinfectei a feridinha com um remedinho e, no dia seguinte, meu olho esquerdo estava fechadinho. Achei que fosse uma reação alérgica. Camilo marcou um médico de urgência e o veredicto: infecção. Alguma coisa com péssimas intenções penetrou a ferida e agora estou tomando antibiótico e passando uma pomada branca que toma metade da cara. Tou parecendo o Fantasma da Ópera, tá foda. O médico disse que precisávamos controlar a infecção antes que ela atingisse a região do nariz (se isso não acontecer até quinta, vou ser hospitalizada). Como se não bastasse, preciso ficar dez dias sem beber. Nessa hora, sim, fiquei puta comigo. Sei que o que eu estou passando é bom perto do que poderia me acontecer, mas planejei minha vinda de acordo com a data do meu aniversário (que ocorrerá em três dias), e agora terei um dia idiota, careta e sem graça. Eu acho é pouco. Aliás, num acho não.

Talvez

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