sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Alguns dos meus gigantes

Eu tava lendo uma critica sobre os filmes do Monty Python no blog da Lola, quando vi o comentario sobre O Calice Sagrado: Em Busca do Cálice Sagrado é um mergulho à Idade Média, com cenas antológicas como a do cavalheiro (sic) que perde seus braços e pernas em uma batalha mas ainda quer lutar. Quando seu adversário desiste da luta já ganha, o toco de homem que sobrou grita "covarde!" (é interessante que esta comédia só foi realizada porque o beatle e fã George Harrison doou um milhão de libras ao grupo). Nesses momentos, eu suspiro. George Harrison, eu te amo duas vezes.

E, falando em Beatles...
Tudo indica que o filme Yellow Submarine sera refilmado em 3D. Sou aquela fã chata dos Beatles que considera que tudo o que eles fizeram é irretocavel! Detesto qualquer tipo de regravação das musicas deles. Ainda engulo Across the Universe por Fione Apple, mas soh porque não ha grandes mudanças na musica. Apesar disso, fiquei animada com a regravação do filme. Afinal, ainda é Beatles! O projeto é pra 2012 e eu (não) sou paciente.

E, falando em filmes...
Vai rolar um outro filme sobre Anne Frank, feito pela Disney. Esse sim me fez tremer as pernas. Anne Frank representa muito pra mim. Lembro da primeira vez em que ouvi falar sobre ela: rodoviaria de João Pessoa, 1994. Minha mãe comentou sobre essa menina que viveu escondida dos nazistas e que finalmente foi morta num campo de concentração. Nessa idade, eu tinha uma idéia bastante vaga do que era o nazismo, do que era um campo de concentração, mas a historia dela me chocou, me provocou uma curiosidade imensa. Passei os dois anos seguintes implorando pra minha mãe comprar o Diario. Quando eu ja havia esquecido da coisa, minha amada mãe chega com uma edição bem velhinha, paginas amareladas, que ja me davam a impressão de que eu tinha o original. Li o livro varias vezes durante a adolescência e a cada leitura ia descobrindo coisas novas. A identificação era incrivel, apesar de eu estar anos-luz da realidade dela. Absolutamente tudo despertava meu interesse no livro: o fato dela ser adolescente e ter que lidar com sua sexualidade de uma forma bastante limitada, tanto pelo espaço fisico como pela época vivida, cheia de tabus (na primeira edição do livro, foram, inclusive, suprimidas paginas em que ela tratava da sua sexualidade); a relação tensa que ela mantinha com a mãe; o fato de viver confinada num pequeno espaço durante anos com pessoas das quais ela não gostava; a situação de guerra em si (que sozinha ja traz traumas suficientes); a escrita profunda e sensivel de uma menina de apenas 13 anos e todas as criticas que ela faz sobre o mundo e sobre o Homem. Não sei, mas pra mim, uma pessoa que diz do fundo do coração, sei que nunca mais terei minha inocência outra vez, no contexto desumano da guerra, sabe do que ta falando. Eu tenho plena convicção de que o fato de hoje eu ser "historiadora" nasceu desses tempos em que eu passava horas no deposito de casa remexendo nos baus velhos dos meus pais e descobrindo todos os empoeirados, ouvindo musica "velha", lendo sobre a II Guerra e esses eteceteras da vida. Sim, sim: eu tremo as pernas!


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Olhos apertados apertados

Ontem, eu tive minha penultima aula de francês. Achei uma pena ser a penultima, pois foi o melhor dia. Não que tenha sido super divertido, mas simplesmente foi diferente dos outros. Pra começar, durante o intervalo de 10min que temos pela manhã, uma japonesa da sala se aproximou de mim, me entregou um pacote pequeno com as duas mãos e disse "cadeau". Tive dois segundos de lerdeza até entender que ela tava me dando um presente. Não entendi logo, não porque eu não tivesse compreendido o "cadeau" dela, é que eu simplesmente nunca falei com aquela menina, nem um simples bonjour, e la vem ela com um cadeau. Que fofo! Era um prendedor de cabelo. Agradeci e disse que era lindo! Que eu tinha adorado e que ia usar bastante porque eu prendo meu cabelo. Ela disse que notou - e quem não notaria?

A chuva do meia-dia me obrigou a almoçar dentro da Universidade. Eu costumo almoçar nos bancos da Place Carnot, naquele sol de matar, escutando os mendigos arabes gritarem uns com os outros. Eh um lugar bem tranquilo. Então, dentro da Universidade, abri meu lanchinho (macarrão com verduras), peguei minha colherzinha (eu tinha esquecido o garfo em casa, soh achei uma colher de cha na bolsa) e levei sete horas e meia pra terminar minha refeição.

Quando finalmente terminei de almoçar, dois japoneses (Shouhei e Tomonori) me convidaram pra uma festa de despedida na casa deles amanhã. Eu não tava pensando em ir, porque na quinta tem um show de jazz e eu ja tinha combinado com Camilo. Mas eles são tão legais! Tou em duvida, mas acho que vou. Porque sei, baseado no intervalo posterior a esse (o da tarde), que a coisa toda vai ser engraçada.

Nesse tal intervalo, eu abri um pacote de biscoito e ofereci à menina que senta ao meu lado esquerdo, e que geralmente faz os trabalhos em sala comigo, Keiko. Eu gosto dela, mas ela não fala. Outro dia, eu cheguei na Universidade e tava indo pra sala quando ela me parou. Eu olhei pra ela. Ela olhou pra mim. Ela apertou os olhos e começou a balbuciar alguma coisa. E eu fiquei ali, concentrada, esperando alguma palavra, mesmo que fosse em japonês, mas a danada não falou nada, ficou soh apontando pras escadas e disse algo do tipo "Aeeeuuuhhhggrrr". Velho, eu juro. Juro que foi assim. Ela soh deu um gemido! Ai, quando eu vi o pessoal da sala descendo as escadas, entendi que as aulas não seriam na sala de sempre. Ok.

Sempre foi assim, sempre sou eu quem falo com ela. Então, dessa vez, quando ofereci o biscoito, me surpreendi quando ela disse "husband". "Ok, ela quer saber sobre...".

- O nome dele é Camilo.
- (expressão interrogativa)
- Eh, não é um nome francês. Eh um nome da América Latina.
- (expressão interrogativa)
- Eh que o pai dele é salvadorenho.
- Ahhhh!
- Pois é.
- Aarrrhh... Et... Ahhh... (apontando pro mapa da capa do livro)
- Não, ele nasceu na França, mas...

Dai continuei a falar dos paises onde Camilo tinha morado com os pais, o que ele fazia, como a gente se conheceu etc. Depois disse que vim pra França porque Camilo precisava terminar os estudos dele.

- Mas agora ele vai ser contratado por uma entreprise.
- (expressão interrogativa)
- Hmm... Boîte? Tu entende?
- Aaaahhh! (ai ela começa a fazer uma dancinha)
- Não, não boite de dançar! Hahahaha Hmm... Firm, em inglês?
- FILM! OOOOOOOOOOOHHHH!
- Não! Não filme! HAHAHAHAHA!
- HAHAHAHAHA!

Nesse momento, outros dez japoneses ja prestavam atenção na conversa. Comecei a contar da minha queda de bicicleta, o porquê do meu capacete, do quanto gastamos com despesas médicas. Eh incrivel como eles aplaudem e riem! Pois bem, acho que vou pra festa.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Seven days

Como a vida de uma pessoa pode mudar em um periodo de sete dias!

Primeiro: estou formada! Iêi! Viva eu! Finalmente! E, claro: PUTA QUE PARIU! O tema do meu TCC se transformou lentamente na coisa mais odiada dos meus dias. Alias, tudo o que envolvia meu TCC se transformou numa coisa completamente repugnante. Não aguentava mais ir nas bibliotecas, falar com meus professores, conversar com meus amigos sobre isso. Agora estou extremamente feliz de ver os livros que usei para o trabalho, bem na minha frente, e pensar que "eu nunca mais vou abrir essas merdas novamente". Não vou sequer pronunciar aqui o tema do meu trabalho. Chega! Acabou! Estou formada! Agora o negocio é dominar o francês tal qual um francês e...

Segundo: ganhei meus primeiros euros! Quero dizer, por esforço proprio. Camilo estagia numa empresa e disse que ela estava precisando urgentemente de uma limpeza. Perguntou se eu não queria ganhar uma graninha fazendo uma faxina por la. De primeiro, não dei a menor importância, mas depois pensei que seria uma boa, afinal, além de eu não ter nada pra fazer agora, faxina é que eu faço todo dia nessa porra de casa sem ganhar nenhum tostão por isso ("obrigado" é bom, mas não é o suficiente).

Então, antes de ontem, fui pra empresa dar um jeito na zona. O patrão de Camilo disse que achava que eu limparia tudo em oito horas mas, mesmo que eu fizesse em menos tempo, ele pagaria o equivalente a oito horas de trabalho. A hora de trabalho aqui, baseada no salario minimo, vale 7 euros. Eu nunca ganharia 7 euros trabalhando como professora no Brasil. Alias, eu não ganharia nem mesmo 7 reais trabalhando com isso. O Patrão disse ha uns dias que eu poderia faxinar a casa dele e cuidar dos filhos, mas eu prefiro faxinar. Crianças correm e berram. Pias e sanitarios, não.

Estavamos eu e mais quatro amigos na rua quando fomos abordados por um coitado que queria um cigarro. Enrolaram um pra ele e ele foi embora feliz. Um tempo depois, ele voltou, pediu outro cigarro e tirou o relogio do pulso dizendo que era falta de educação pedir cigarro a uma mesma pessoa duas vezes, por isso, ele pediu pra que a gente aceitasse o relogio dele. Camilo recusou, mas o cara insistiu muito. Ele disse que uma carteira de cigarro so durava uma manhã pra ele e que o tabaco pra enrolar durava dois dias. Meu amigo, um pacote de tabaco, pra uma pessoa normal, dura uma semana! Mas não foi dificil acreditar que ele fumava tudo aquilo quando eu vi os dentes dele. Ou melhor, quando eu não vi os dentes dele. Agora Camilo tem um relogio.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O presente

Numa passagem rapida pelas coisas que aconteceram nesses ultimos tempos, me parece que tenho coisas legais pra contar. Legais pra mim, claro. Mas vamos por partes.

Dia 08 desse mês, fomos de novo à Chateaubriant. Dessa vez, para a festa que a mãe de Camilo estava planejando havia meses. O motivo, como eu acho que ja disse, era os 50 anos da mãe dele, os 20 anos do irmão e a comemoração do nosso casamento. Tivemos uma festa entre os amigos (de Camilo) no dia em que nos casamos, 09 de janeiro, mas essa nova festa seria para a familia (de Camilo) se inteirar dos acontecimentos. Bolamos até um diaporama pra apresentar nossa historia as pessoas. Quando puder, posto aqui.

Não nego que eu estava um pouco (MUITO!) nervosa, porque eu ia conhecer familiares que o proprio Camilo não via ha mais de 10 anos. Se seria estranho/novidade pra ele, imagina pra mim! A primeira pessoa que conheci foi Tia Renne, a tia-avô de Camilo, irmã da "mulher-maravilha" do post passado. Gostei dela. O engraçado é que Amanda, em um dos posts passado, comentou que os avos de Camilo deviam ter muita historia pra contar sobre a II Guerra ("ainda mais morando no Norte da França", ou coisa que o valha). Pois bem, Amanda, Tia Renne contou sobre um episodio que aconteceu durante a Segunda Guerra em que ela estava numa igreja no momento em que os Alemães invadiram a cidade dela e começaram a atirar "em tudo que se mexia". Ela disse que as balas passavam zunindo pelo ouvido dela, mas que ela conseguiu se salvar. Não teve a mesma sorte o namorado da irmã.

Eu fiquei me contorcendo de curiosidade! A vontade era de sentar no colo da velha e metralha-la, finalmente, de perguntas. Fiquei revoltada quando mudaram de assunto, como se aquele fosse qualquer um. Eu fico muito triste de pensar que, dos meus avos, eu nunca saberei nenhuma historia legal porque, quando eu finalmente atingi a maturidade pra conversar com meus avôs, eles morreram. Falta a avô materna. Mas creio que, pela distância que nos separa atualmente, a unica coisa que eu vou saber sobre ela é a noticia do obito.

Conheci as tias e maridos das tias de Camilo. Conheci os primos, os filhos dos primos, os amigos do colégio, as namoradas dos amigos do colégio, os amigos da mãe, os filhos dos amigos da mãe, a tia-avo. Isso me proporcionou a oportunidade incrivel de decorar em torno de quarenta nomes franceses. Isso me deu a oportunidade de conhecer Anette.

Ah, Anette!

Anette é um ser que, provalmente, não tem mais de três anos de idade e, assim como eu, Anette não domina o francês. Assim como eu, Anette não conhecia ninguém na festa. Vocês estão vendo que situação perfeita para nascer uma linda amizade? Anette jogou o seu elefantinho de pelucia na minha cabeça e assim começamos um joguinho saudavel onde ela procurava arremessar o bicho em mim (pela força não era para mim, era em mim mesmo). No entanto, percebi que Anette não poderia ser minha amiga quando ela quis ir ao banheiro e eu tive que limpar a bunda dela. Eh estranho ter uma amiga da qual você limpa a bunda. Mas tudo bem. Momentos depois, um primo de Camilo queimou a pobrezinha com o cigarro sem querer e eu fui lavar o braço dela. Diante dessa bonita historia de amor, a mãe pediu pra Anette tirar uma foto comigo.

A maior parte da festa foi somente constrangedora. Quando as pessoas perguntavam se eu sabia falar francês, a mãe de Camilo se adiantava e dizia, numa tentativa de me estimular e dar apoio, que sim. Mas a festa não foi de todo ruim, afinal, uma festa de casamento que se preze tem presentes. E os presentes que escolhemos foi dinheiro: para esse atual momento-liseu não poderiamos ganhar nada melhor. Ganhamos uns patês (que eu não vou comer), ganhamos umas orquidias (que deixamos no trem), uns porta-retratos (que esquecemos em Chateaubriant) e uns pratos LINDOS (que tivemos que deixar la por ja estarmos carregando peso demais). Tou feliz.


Anette é boa gente.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Chique é saber se expressar

Antes de escrever sobre a tal festa que citei no post passado, um pouco dos ultimos acontecimentos no curso de francês.

Na quinta passada, eu tive a segunda aula e a surpresa de recebermos novos alunos na sala. Sete novos alunos. Sete novos alunos... japoneses. Naquele momento éramos uma mexicana, uma brasileira, um chileno e 765 japoneses. Essa aula conseguiu ser ainda mais agoniante que a primeira porque tive a certeza de estar no grupo errado. O nivel do francês era o ideal pra mim, mas o nivel da turma me preocupava porque os professores tinham de ensinar aos alunos coisas obvias (pra mim), como a diferença de pronuncia entre o T e o D.

Eis que surgiu alguém com bom senso dentro daquela universidade e formou um oitavo grupo de retardados, quer dizer, de iniciantes, e eu, ainda bem, fui mandada para esse oitavo grupo. Iêi! Nessa nova turma a maioria dos alunos também é de japoneses. Também ha uma mexicana e também ha um iraquiano, o filho do casal da primeira turma (iraquiano, não iraniano, como eu disse no post retrasado. Valeu, Amanda!). Mas o ritmo é bem melhor, o que faz com que eu viaje nas aulas muitas vezes. Mas eu prefiro assim.

Ainda não tenho nenhuma amiguinha ou amiguinho feliz e ja desisti de fazer amizade: percebi pelas conversas (sondagens) que os japoneses vieram à Lyon somente para esse unico mês de curso e, como não existe outra etnia dentro do curso...

Gosto dos japoneses. Eles sempre estão tentando puxar assunto. Hoje uma das meninas perguntou porque eu tinha um capacete de bicicleta (me perguntei se existia capacete no Japão, depois achei que ela estivesse desesperada pra puxar um assunto, depois respondi, finalmente). "Porque eu tenho uma bicicleta". Vocês precisavam ver a felicidade da figura diante da minha resposta. Ela abriu um sorriso enorme, logo depois de um sonoro "aaaaaaaaahhh". So faltou bater palminha. Uma outra la, quando soube que eu era casada com um francês, fez uma careta que poderia ser traduzida num "que chique!" e começou a rir tresloucadamente. Os japoneses são muito expressivos.

Mesmo sabendo que se trata de uma relação sem futuro, eu gostaria de poder me comunicar decentemente com algum deles. Mas eu nunca entendo o que eles falam! Seja em que lingua for. Quando pergunto se sabem falar inglês, respondem orgulhosos que sim. Então, continuo:

- Ah, ok! So... How long are you staying in Lyon?
- Oôôô... Ajaga jiga buga mora! :D
- Humm... I see. Err, and where did you come from?*
- Araka tufa! :D

Eu digo que entendi mesmo sem entender, porque eu fico com vergonha de dizer mais de sete vezes que eu não entendi. A japonesa do suposto "que chique" fez uma pergunta e eu disse que sim. Ai ela fez uma cara esquisita e eu disse "desculpa, repete". Mongol.

Bom, em breve, cenas dos proximos capitulos.

*eu falo o que eu sei falar, não o que eu quero saber

O terrivel destino dos coelhos

Ha um mês Camilo e eu fomos à Chateaubriant, cidade onde moram os pais dele, no norte da França, para provindeciarmos junto à mãe dele os detalhes de uma festa tripla: comemoração do nosso casamento, dos 50 anos da mãe e dos 20 anos do irmão do meio. Aqui na França se costuma antecipar ou retardar esse tipo de comemoração de maneira que aconteça nas estações quentes. Acho que eu e Camilo somos o unico casal de Lyon que casou perto dos 0°.

Na ocasião dessa visita à Chateau, conheci a casa dos avos de Camilo. Os avos dele, juntos, tem (têm) mais de 180 anos. A avoh é aquela mulher-maravilha que faz tudo (ela propria se auto-intitula une femme a tout faire). Apesar de estar perto dos 90, corta lenha com um machado maior que ela, é impressionante. Na propriedade dela, tem pé de uns 15 tipos frutas. Tem galinha, pato, coelho (pra consumo pessoal) e umas plantações que eu esqueci de que eram.

Com essa idade, acredite, ela sabe muito sobre as coisas que cuida. Quando ela era pequena, enquanto cuidava das vacas da familia, ela transplantava galhos de uma planta para outra e o resultado era uma planta melhorada. Ela pega um galho de um tipo de maçã, por exemplo, junta com outro tipo e dai sai uma maçã mais bonita (ou uma rosa mais bonita, o que seja). Camilo diz que ela não é a pessoa mais humilde que existe, que ela vive se elogiando, mas isso não me incomoda. Primeiro porque, com essa idade e com as coisas que ela sabe, eu acho mesmo que ela merece elogio. Depois porque eu não entendo porra nenhuma do que ela diz, então, tanto faz.

Mas, na ocasião dessa visita à Chateau, além de eu ter conhecido a casa dos avos dele, eu quase conheci uma Luci vegetariana. A mãe de Camilo disse que iriamos até a casa dos pais dela pra comermos coelho. Beleza, eu nunca tinha comido coelho na minha vida. Alias, acho que se eu algum dia na vida comi alguma carne que não fosse de vaca ou de frango, foi porque me enganaram e me cozeram um gato, porque eu não sou muito fã dessas iguarias.

Chegamos na casa dos velhinhos e, assim que eu entrei na cozinha, me deparei com minha proxima refeição morta em cima de um prato, banhada de sangue, com os olhos negros esbugalhados e os dentes de fora. Não dava nem pra entender como um coelhinho fofo e saltitante tinha se transformado naquela coisa bizarra. Eu tive aquele choque instantâneo e fiquei parada observando o coelho me observar. Ali, parada. Luciana - pensei - não crie caso, querida, você vai ter que comer essa porra de coelho, então, pare de olhar pra ele.

Então, fomos dar uma volta e Camilo me chamou pra vermos os outros coelhos (vivos). Quando eu tava entrando no galpão, vi uma das patas do coelho-jantar decepada no chão. Ai soltei um gritinho de nojo pra mãe de Camilo. Foi quando eu vi a outra pata pendurada bem perto da minha cara. Foi foda. A mãe de Camilo riu e contou que, quando o irmão de Camilo era pequeno, a avoh matou um coelho e disse pra Manuel "olha como eu tiro o pijama dele" e puxou a pele do bicho de uma vez. Show de sensibilidade.


Quando voltamos à casa, o coelho estava virando churrasco. Quando foi posto no meu prato, o coelho estava virando minha barriga. A avoh pôs a cabeça do bicho no prato - que ja não estava tão assustadora, visto que agora os olhos estavam fritos, e os dentes, quase imperceptiveis. Eu peguei uma pata. Ou o resto dela. A avoh deu a ordem de comer usando as mãos. Ou seja, o cenario estava feito: mata o coelho, tira a pele, sangra, joga no fogo, pega com as mãos, como verdadeiros selvagens, e mastiga a carne do bicho.

Sai do ritual achando que eu nunca mais comeria carne na vida. Na verdade, eu nunca mais quero ver o que acontece com o bicho antes de ele estar no meu prato. Não, não é (somente) falta de consciência, é questão de praticidade mesmo: ainda não cheguei ao ponto de achar que posso manter uma dieta rigida que exclue a carne. Por questões ambientais, temos comido menos carne, mas nada além disso.

De qualquer forma, acho que essa familia não gosta muito de coelho (vivo). Ontem mesmo Camilo atropelou um. "Pô, esse foi o segundo". Tsc.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A proposito, ela é mexicana

Post escrito na terça, 04

A prova de que meu inglês não é bom, é que ouvi perfeitamente ontem que a minha primeira aula do curso de francês seria amanhã (dia 05). Ouvi tão "perfeitamente" que, quando Camilo ligou hoje pra Universidade, disseram a ele que as aulas começavam hoje. Então, sai de casa no momento em que deveria estar entrando na sala de aula, às 9h da manhã. Eu ainda tinha que passar em outro prédio, responsavel pela administração da Universidade, onde estaria afixado meu nome e meu grupo. Groupe A. Beleza. Vi que era um grupo de 15 pessoas e, pelos nomes, percebi que não veria muitos ocidentais na sala.

Na sala, nenhuma surpresa: dois terços da turma eram formados por orientais. O exercício que estava sendo praticado no momento, era a forma de se apresentar. Comment vous vous appellez? Quel âge il a? e outras variações. Foi através das respostas que soube que três dos alunos eram iraquianos. O mais jovem deles estava sentado na minha frente (a sala estava disposta em forma de U), mas foram os outros dois que me chamaram a atenção. Era um casal de mais ou menos 50 anos, que lembrava muito meus pais. O cara não sabia falar picas de francês e errava pra caralho. Até ai, tudo bem. Só que, quando o professor pedia pra esposa dele dizer alguma coisa e ela errava, OU NAO, o cara ficava maluco de raiva. Ele ficava cochichando pra ela a resposta “certa”, com aquela tensão, sempre se metendo no que ela dizia. Em um dos gravíssimos erros dela, ele chegou a levar as mãos à cabeça e a apertar os olhos. Pois então, meu pai é assim. Ele acha que a esposa dele é o ser humano mais estúpido na face da terra e que ele é, por sua vez, o mais inteligente. E ele faz questão de deixar isso bem claro. Bom, mas isso é uma outra história e deverá ser contada em outra ocasião.

Depois de ver que dividia o espaço com nove japoneses completamente entrosados entre si, três iraquianos que não me causaram a menor curiosidade e um chileno na casa dos 50 anos, meu olhos se voltaram praquela que eu julgava ser uma amizade em potencial: Maria Fernanda. Nacionalidade: ignorada. Passei a manhã toda analisando o sotaque da menina, as roupas, o cabelo e a desenvoltura pra ver se adivinhava a nacionalidade dela. Nada. A unica coisa que percebi foi o iraniano olhando pra minha cara.

A aula da manhã acabou, fui pra casa, almocei e voltei correndo pra aula da tarde. Vi que os alunos sentaram nos mesmos lugares, então, num ato desesperado, sentei na cadeira vizinha àquela que a tal Maria havia sentado de manhã. Mas quem ocupou a vaga dela foi o iraniano! Gah! Pra aumentar minha felicidade, descobri que ele é o tipo do aluno que fala mais que o professor, daquele tipo tabacudo que quer mostrar que sabe tudo, a qualquer custo.

- Vocês conhecem os numeros?
- OUI OUI OUI!
- Otimo, então vamos passar pra...
- UN! DEUX! TROIS! QUATRE!
- Que bom, vejo que sabem.
- CINQ! SIX! SEPT!
- Ok, então..
- HUIT! NEUF!

E eu la, revirando os olhos.

Eu gostei de finalmente estar saindo de casa, de ter quebrado a rotina, mas acho que as aulas não vão ser bem como eu esperava, porque é dificil ter aulas de francês quando a grande maioria da turma nem sequer tem o mesmo tipo de escrita que a nossa, ocidental. Então, uma das coisas que a professora precisou ensinar ontem foi o alfabeto. E ela escreveu o alfabeto de três maneiras diferentes. Em maiusculo, em minusculo e depois da forma que vem escrito nos livros (a forma do teclado do seu computador). Nada mais natural, afinal, o caderno de cada uma daquelas pessoas, com exceção do meu, do do chileno e do da Maria Fernanda, era cheio de codigos indecifraveis. Japonês e arabe. Então a turma anda na velocidade lesma. Tendo que aprender o basico do basico. Mas enfim, paciência.

Agora vou tratar do meu TCC, porque nem so de França vive Luci.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Rien!

Não sei se ja disse aqui, mas Camilo me inscreveu num curso de francês com duração de um mês. Do 03 ao 28 de agosto. Finalmente! Essa dinâmica diaria de escutar ele falando português, Raphe falando francês, Seb falando inglês e Pierre falando espanhol, não vai me levar muito longe. Afinal, desde que eu cheguei aqui, não tive mais que três aulas seguidas de francês com quem quer que fosse. Não sou, definitivamente, a melhor pessoa pra estudar por conta propria. Joguei a toalha e agora entrei no curso. Doi dizer que ele nos custou 600€, mas eu confio no retorno que isso me dara (espero que haja retorno! espero que haja retorno!). Confio mesmo.

Hoje foi o teste de nivelamento. Por algum motivo eu desconfio que estarei no nivel mais baixo. Tão baixo que é provavel que inventem um nivel soh pra mim.

1. Avançado
2. Intermediario
3. Iniciante
4. Luci

De qualquer forma, cheguei no prédio da prova, sentei la no fundão (pra observar as pessoas) e fiquei esperando. Impressionante o numero de asiaticos! Eram tantos, que havia uma tradutora so pra eles.

Bom, dai entregaram as provas. Eu dei uma olhada rapida em cada questão e ri internamente. "Não sei, não sei. Não sei... Opa, mas essa aqui... também não sei". As primeiras questões tinham uma frase com uma lacuna e cinco opções de resposta. Eu lia a frase, chegava na primeira opção e dizia "é essa!". Mas dizia o mesmo pra todas as outras quatro opções. Algumas so mudavam a ordem de duas palavras. Outra questão era pra transformar certas palavras em pronomes, em adjetivos (e eu também não sabia). Outra questão apontava a foto de um casal num restaurante e dizia você esteve neste restaurante e escutou a conversa deste casal (que bonito). Escreva a um amigo, usando 200 palavras, sobre o que você ouviu. Eu escrevi "querido amigo, não sei sobre o quê o casal conversava porque eles eram franceses". Achei melhor que deixar em branco.

Fiquei feliz ao ver que a prova de uma das meninas foi entregue com uma pagina inteiramente em branco. Viu como eu me preocupo com as pessoas? Bom, pelo menos não foi dificil ler a prova ou entender o que a professora explicou antes do teste ser aplicado.

Quando terminei o teste escrito, me conduziram pra uma sala onde seria aplicado o teste oral. Este é que foi engraçado! A professora sentou, perguntou meu nome. Eu respondi. Depois, perguntou minha nacionalidade. Eu respondi. Depois ela perguntou se eu ja tinha feito alguma aula de francês antes. Eu gaguejei. Eu gaguejei. Eu gaguejei. Mesmo antes de eu decidir responder isso em inglês, ja havia ficado claro que eu nunca havia tido aulas de francês. Então, eu disse, em inglês, que eu nunca tinha tido aulas antes e que

- eu não falo nada em francês.
- Nada?
- Nada.
- Nada?!
- Nada.
- Nadinha?!
- NADA, CACETE!

Eu tava quase dizendo que falava a porra da lingua pra ver se ela parava de perguntar. Que coisa. Então ela continuou a fazer as perguntas em inglês. Queria saber como conheci a Universidade, se era minha primeira vez na França, quantas linguas eu falava, o que eu esperava do curso etc. Em cinco minutos eu estava saindo do prédio ja ciente do nivel em que ia ser colocada, mas rezando pra que não fosse a unica a estar la.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Flash

No Brasil, os unicos amigos que moravam sozinhos (leia-se, sem parentes) eram aqueles que vinham de outras cidades para estudar. Aqui, graças aos céus, ou não, os jovens costumam sair de casa aos 18 anos. Isso estimula certos habitos, como festas e jantares frequentes na casa dos amigos. E eu adoro isso! Na nossa casa fazemos muitas festas e não ha nada melhor que beber sem preocupações (sem preocupações = muito), dar dois passos e cair na propria cama.

Sexta passada fizemos uma festa surpresa para Simone aqui em casa. Na ocasião, pude conhecer uma das meninas que vai morar com a gente na proxima casa. Eh uma marroquina que deve ter a minha idade e que mora na França ha cinco anos. Das pessoas que vão morar conosco (sem contar eu e Camilo, serão seis) ela foi a unica com a qual não simpatizei muito.

Meu inglês é uma porcaria, mas é com ele que eu me viro aqui na França. Então, toda vez que alguém me faz uma pergunta, respiro fundo e falo sempre fazendo caretas e perguntando "você entende?" ou "essa palavra tah certa?" e costumo sempre, sempre, ver as pessoas com um sorriso me aprovando com a cabeça, mesmo quando eu tou errada, afinal, o que vale é o esforço. Mas acho que essa não é o lema da marroquina. Cada vez que eu falava alguma coisa errada, ela mexia a sobrancelha de uma maneira quase imperceptivel, mas pelo fato de se repetir sem parar, eu acabei notando. E, porra, isso brocha qualquer interlocutor! Ela não era de todo chata, mas a conversa não estava sendo agradavel e tampouco ela se mostrou interessante, o que é uma pena, ja que ela vai MORAR comigo. E, no auge da conversa, eu:

- Meu pai trabalha num banco e minha mãe é dona de casa. Ela trabalha muito, é a primeira a acordar e a ultima a dormir.
- Mas por que?!
- Porque ela limpa, lava, cozinha, cuida de toda uma casa!
- Ela não tem maquina de lavar?
(Claro, porque uma maquina de lavar resolve todos os problemas domesticos. Inclusive, a roupa vai pro varal sozinha, é passada sozinha e vai pro guarda-roupa sozinha)

- Tem, mas existe outras coisas pra fazer.
- Ah, pois eu vou ser dona de casa! (se espreguiçando) Acordar tarde, não ter nada pra fazer, soh cuidar do bebê.

Adoro mulheres ambiciosas.

Depois de meia hora de sofrimento gratuito, nos livramos uma da outra e eu corri pra Camilo pra dizer que não tinha gostado dela. Foi ai que descobri que eu não sou a unica.

Ja ontem teve uma festa pra comemorar a mudança de Laure pro apartamento das amigas. Pedi e implorei a Camilo que, pelo amor de jesus cristinho, não me deixasse sozinha (principalmente com alguém chato). Beleza.

Chegamos na festa e, mais ou menos uma hora depois, um amigo liga pra Camilo dizendo que precisa urgentemente conversar com ele em tal lugar. O assunto é sério. Camilo me da essa noticia e eu fico me perguntando "o que porra eu vou fazer aqui sozinha?" Porque geralmente, depois de eu beber, não preciso mais ficar seguindo Camilo pra onde ele vai e acabo conversando por ai com qualquer pessoa. Mas não era o caso. Eu não tava bêbada, a festa tava estranha, tinha pouca gente conhecida. Então, la vai Luci com seu copo de vinho na mão se enfiando nesse grupo aqui, ou naquele ali...

O que aconteceu foi que, finalmente, não consegui achar nenhum grupo interessante pra me meter, e o melhor que consegui foi conversar com um cara com um sotaque francês fortissimo e não entender porra nenhuma.

- Minha namorada é de tal pais.
- Eh de onde, brother? Sei...
- Então, ela enfrenta o mesmo problema que você...
- Ela enfrenta o que? Que coisa, hein!

Acho que ele notou, as respostas não tavam encaixando muito bem. Uma hora depois, Camilo ainda não tinha voltado, e eu ja tava tão doida de vinho, que entrei em um dos quartos e me joguei numa cama. Ai vem o que eu lembro. Flash um: eu brigando com Camilo que tinha acabado de me acordar e, flash dois, eu no meio da rua chorando voltando pra casa a pé com ele.

Hoje de manhã acordei meio puta porque sabia que a gente tinha brigado, mas não lembrava exatamente porquê, então, toda desconfiada, liguei pra ele (no trabalho) e perguntei porque a gente brigou. Que pessoa idiota. Ele riu, disse que eu tava muito bêbada, que acordei histérica dizendo que ele tinha me esquecido, que fiquei batendo no braço dele, que tentei vomitar etc. Ele disse ao amigo do trabalho hoje: "tenho que voltar pra casa cedo pra me resolver com Luci. Ou ela vai tah muito puta e a gente vai brigar ou ela não vai lembrar de nada e vai rir da historia". Então, foi mesmo a segunda opção, mas eu não ri muito. A pior ressaca é a moral.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Eis a questão

The Puppini Sisters

Ha dois meses, eu anunciei aqui meu belissimo presente de aniversario: ingressos pro show das Puppini Sisters. Agora chegou a hora em que eu descrevo o show. Em duas palavras? Absolutamente fantastico! Mas como eu não sou de falar pouco, ai vai:

O show estava marcado pras 20:30h, mas às 19h eu ja estava abortando de tanta ansiedade! Pulando toda a movimentação infeliz pré-show, entramos no teatro e procuramos uma vaguinha. Escolhemos um bom lugar, mas num anfiteatro ha maus lugares? O lugar em si é absolutamente fantastico. Meu lado historiadora estava batendo palminhas internas. Quantas centenas de pessoas ja não puseram a bunda exatamente naquele lugar em que eu estava sentada? Ok, sei que é uma coisa esquisita de se pensar, mas eu estava feliz também por isso. Pra mim, eram milhares de historias que se cruzavam sendo testemunhadas pelo mesmo local.

Com apenas cinco minutos de atraso, elas entraram. Eu nem percebi de imediato: quando escutei os gritos da multidão, voltei o olhar distraido em direção ao palco e vi aquelas três figuras prateadas sorrindo. Nossa! O queixo começou a tremer. "Se segura". Cantei pra disfarçar a cara de imbecil, mas na segunda musica comecei o berreiro e soh parei depois da terceira musica. Sim, Luis, elas são tão afinadas quanto no estudio. Elas tem presença de palco, elas soltam piadas engraçadinhas, dançam e tocam bem. A ruiva com um violino, a morena com um acordeão e a loira com uma escaleta (perdoem, não sei o nome delas e a falta de interesse não permite saber). Quando a ruiva entrou, Camilo disse "puta que pariu, que coxão da porra!". Pois é, tem ainda esse "agravante". Mas vamos voltar a esse assunto depois.

Indo para o Brasil...

Apesar de eu ja poder somar quase cinco meses de residência na França, ainda me surpreendo com muitas coisas que acontecem por aqui. Com um espetaculo como esse, não seria diferente. As três bandas que vimos (The Puppini Sisters, Java e Caravan Palace) são voltadas pro publico jovem. Mas isso não impediu que quase a metade das pessoas que viram ao show no ultimo dia 28, fossem compostas por pessoas acima dos 40 anos. No Brasil, pessoas de 40 anos saem de casa pra ver o show de Roberto Carlos. No Brasil, nunca vi um show começar com apenas cinco minutos de atraso. No Brasil, eu não deixaria minha mochila no banco enquanto pulo e balanço distraidamente. Monique me escreveu ha alguns dias dizendo que foi furtada no show do Festival de Inverno de Garanhus (PE). La você pode introduzir sua mochila na sua vagina e, acreditem, vão achar uma forma de tira-la dali, por bem ou por mal.

Voltando...

O publico era, pra mim, um espetaculo à parte. Quando a banda pedia palmas, batia-se palmas até o fim da musica. E não era raro ver a onda de braços balanço pra ca e pra la. Velho, foi um show bonito, pra onde se olhava (pro publico, pros assentos, pro palco) se via um espetaculo. Entre um show e outro eu corria pra me embebedar, o que tornou as coisas ainda mais fantasticas! Ou não.

Eh o seguinte... O figurino das Puppini era uma roupa prateada, bem bonitinha: a ruiva gostosona vestia uma roupa micro que deivaxa 99% das pernas de fora; a morena baixinha tinha pano até metade da coxa; ja a loira, usava um modelo até os joelhos. Na hora, eu dei pouco importância àquilo. A vocalista do Caravan Palace, no entanto, entrou com uma roupa que deixava a ruiva puppini parecendo uma freira. E cada vez que ela entrava no palco, a multidão gritava com mais energia. E quando ela descia até o chão (à la Sheila Carvalho)? Então eu comecei a achar aquilo meio idiota. A voz da mulher era uma massagem no ouvido (e o show foi do caralho!), mas eu me perguntava "pra que vir pelada?". Eh logico que vão dizer que eu estou sendo puritana ou neurotica, (ou pior, invejosa. credo!) mas a questão é que acho uma pena elas, todas elas, terem que aparecer peladas pra agradar. Então, acabei vendo o show de Caravan Palace com a mão no queixo, parecendo aquelas velhas ranzinzas. Porque cada vez que eu olhava pro palco e via aquela mulher pinotando pelada, eu tinha vontade de correr la, sacudir os ombros dela e dizer pra ela não se sujeitar àquilo.

No final do show, discuti sobre o assunto com Camilo e passamos quase uma hora (estimulados pelo alcool) falando sobre machismo, sobre os direitos da mulher sobre seu corpo etc. Disse que era desnecessario que elas usassem aquelas roupas pra representar um determinado estilo musical. Camilo rebateu dizendo que elas poderiam soh querer ser sexy. E depois de mais meia hora discutindo, ele me perguntou se tinha alguma forma das mulheres usarem pouca roupa, querendo ser bonita/sexy, e não serem chamadas de vitimas (ou não) da sociedade machista. Velho, eu não sei. Não é que uma mulher não possa usar roupa curta, decote. Quem sou eu pra dizer isso, não é? Eu sou a primeira a usar. Mas o apelo erotico usado pra dar audência à banda é que me deixa nervosa. Camilo, aos cinco minutos do primeiro tempo soltou "que coxão da porra". Talvez ele tenha percebido que a voz da moça era bonita, mas o comentario foi sobre a coxa. Tou de acordo com ele. Que coxão da porra! Mas é uma peninha que o coxão da porra não possa ser poupado da exibição. E é uma peninha pensar que a idéia daquela roupa minima, provavelmente, não foi idéia de uma mulher. Ou melhor, da mulher que usou o traje.


segunda-feira, 27 de julho de 2009

E é boa

Numa contagem rapida, me vem à cabeça pelo menos uns dez amigos de Camilo que sabem falar português e ainda outros dez que desenrolam o espanhol (sem contar os que falam inglês: quase todos) mas com nenhuma dessas pessoas eu consegui conversar por mais de cinco minutos. A conversa, além de tudo, insiste em girar sempre em torno da minha adaptação na França, como se minha vida fosse resumida a isso.

No entanto, conheci um amigo de Camilo, Simone (um italiano que estava de intercâmbio na Argentina ha pouco tempo) que me fez relembrar que eu sou gente. Eh incrivel como uma simples conversa pode humanizar alguém. Na primeira conversa, falamos sobre masturbação. Na ultima, sobre Astrologia. Recebi meu primeiro xingamento em terras estrangeiras (por alguém que não fosse meu namorado) e, se isso não mostra que eu e o recém-chegado seremos amigos, pelo menos me faz relembrar como é a sensação de ter um.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Estranho no estrangeiro - parte I


Vou metralhando, presta atenção. Porque isso aqui não é redação pra vestibular e não precisa ter começo, meio e fim. Ou mesmo sentido.

Quando eu digo que sou timida, as pessoas riem. Algumas ja gargalharam, o que não foi muito legal. Quanto mais riem, maior é o grau de distância que percebo entre mim e este ser humano, porque, quem me conhece, nunca duvidaria que esta afirmativa é verdadeira, porque, quem me conhece, sabe que eu gosto de falar, de falar e de falar (um amigo me disse uma vez que eu não era timida, que eu apenas tinha traços de timidez. Mas o que é uma pessoa com traços de imbecilidade senão um imbecil?). Não culpo as pessoas que me conhecem pouco por rirem de mim quando falo da minha suposta timidez. Afinal, geralmente estas pessoas me encontram em mesas de bares, shows, festas de rua e, nesses lugares, eu estarei, quase que com certeza, bêbada ou prestes a ficar. E todo mundo sabe que pessoas bêbadas são os seres mais expansivos e desenrolados do mundo (perdendo a linha do raciocinio... voltando em um, dois, três).

O fato é que, bêbada ou não, eu gosto de conversar. Eu gosto de sentar numa mesa de bar e descobrir uma figura desconhecida do outro lado. Quem mora em João Pessoa sabe o quanto é dificil situações como estas acontecerem. E pior, é muito raro que as pessoas de João Pessoa que conseguem juntar no mesmo corpo bom humor, conversa interessante e HUMILDADE, se sentem na sua mesa de bar. Não é a toa que meus melhores amigos se tornaram meus melhores amigos desde o primeiro instante.

Então, sair de uma cidade subprovinciana, onde muitas pessoas (também os jovens) tem o cérebro do tamanho de uma ervilha, e ir para uma das maiores cidades de um dos maiores paises da Europa, me deixou, no minimo, excitada com a possibilidade de uma nova vida. Me deu ao menos a esperança de que, um dia, uma tarde que fosse, eu conversaria com alguém que não tem cérebro de ervilha, que não faz questão de inserir, no meio de uma conversa sobre geo-politica, que seu pênis mede dois palmos ou que você passou no vestibular aos 16 anos.

Mas a pergunta é: e cego vê? Porque, de repente, apesar de ter todos os sentidos funcionando perfeitamente, de ter as faculdades mentais em ordem, na França eu sou surda, muda e analfabeta. Eu não entendo as pessoas, não consigo me expressar e, como se não bastasse, não consigo identificar os codigos do mundo exterior estampados nos letreiros do ônibus e nos cartazes das ruas. Eh isso. Fiz faculdade, mas, da noite do dia 20 de maio pro dia 21, me tornei uma completa tapada.

Obviamente esse post não é um pedido de ajuda e a autora dele não admitira conselhos e tapinhas no ombro. Vou falar francês algum dia, não tenho duvida quanto a isso. Mas enquanto esse dia não chega, é mais do que frustrante ir a uma festa e não encontrar sequer um cérebro de ervilha pra trocar meia duzia de palavras. Irônico, não?

terça-feira, 21 de julho de 2009

Feminismo

A Amanda (responsavel pelo blog linkado no meu ultimo post) fez uma publicação no Porte Dorre sobre um concurso de blogs cujo tema é o feminismo. Li alguns posts concorrentes e posso dizer que estou pipocando (pipocando?) de felicidade por ter encontrado não somente posts superinteressantes, mas blogs que sei que lerei enquanto durarem. Ah, essas mulheres!




segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sem lenço e sem documento

Neste ultimo final de semana, apesar do convite de amigos para viajarmos, resolvemos ficar em casa para colocarmos em dia os nossos compromissos. Foram e-mails respondidos e cartas remetidas. Fizemos minha pré-matricula no curso de francês. Camilo organizou todos os papéis necessarios para pedir o reembolso dos remédios e das contas do hospital em que fiquei internada no final de maio.

O meu seguro social cobre 80% das despesas hospitalares. Infelizmente, somente depois de ser internada, é que Camilo foi atras da cobertura dos outros 20%. Tarde demais. A conta referente a esses 20% chegou ha uns dias: 508€. Exatamente. Quase R$1.500. "Ja passou", consolava o menino diante da minha angustia. Mas parece que não passa nunca! 508€ por um momento de abestalhamento. Valeu, Luciana!

Bom, mas o que estah feito, estah feito (conclusão apos momento de reflexão profunda).

Para resolver esses compromissos que citei, passamos a tarde inteira do domingo em meio a papéis de todo tipo. Eh impressionante a burocracia francesa. Para qualquer ação tomada junto ao governo francês, ha um milhão de requisitos e pré-requisitos a serem cumpridos e meia tonelada de papel certificando que você é você, que você tem boas intenções, que você trabalha, que você. Simplesmente. Antes de respirar a tranquilidade do estrangeiro legalizado, preciso ir na Prefeitura validar meu visto até 18 de agosto proximo.

Na primeira tentativa de fazê-lo, chegamos à Prefeitura às 9h da manhã, pegamos a senha 125 e soh fomos atendidos às 16h. A espera soh não foi tão traumatica porque saimos da Prefeitura e fomos andar pela cidade até a hora em que calculamos ser a ideal para voltarmos. Soh que um dos nossos papéis, o comprovante de residência, estava um mês fora do prazo, então tivemos que voltar pra casa de mãos vazias. Então, para Camilo não perder um dia inteiro de trabalho novamente, combinamos que hoje eu iria sozinha, pegaria a (maldita) senha, voltaria pra casa e somente de tarde iriamos à Prefeitura.

Eu não pretendia escrever tanto, mas eu preciso descrever o horror da fila da Prefeitura! A Casa abre às 9h, mas acredito que de madrugada ja tenha gente acampando na calçada. Hoje cheguei às 8:45h e a fila tinha uns 150m (mas poderia ter 50m, afinal, ja disse que minha noção de distância veio com defeito). O que importa é que tem muita, mas muita gente mesmo! Somos então segregados: "povão estrangeiro" do lado esquerdo e "cidadãos franceses" do lado direito.

Na fila do lado esquerdo, se vê gente de toda cor, tamanho, sexo e cheiro. Esse é o ponto interessante. Passei 45min na fila atras de um cara que desconhece o uso do desodorante. Cada vez que ele se movimentava, o veneno que saia debaixo dos braços dele corria pras minhas narinas. Eu ja estava perdendo os sentidos quando a fila começou a andar.

A policia acompanha todo o movimento. E acompanha com uma cara nada simpatica. E eu la, sozinha, com meu papelzinho escrito "je viens faire une 1ere demande de titre de sejour". Eu odeio ter pena de mim. E hoje eu tive pena de mim. Quando tirei o papelzinho do bolso, ja na proximidade da entrada da Prefeitura, gaguejei o que lembrava do papelzinho. A mulher entendeu (acho que foram os anos escutando sotaques dos mais variados) e me indicou um guichê. A moça do guichê perguntou pelo meu passaporte. Pensei "fudeu". Primeiro porque eu não havia levado o documento, depois porque não sabia explicar em francês onde estava o meu passaporte. Olhei pra cara dela, com minha cara de cu, pensei dois segundos e disse (em francês) que estava em casa, mas, claro, ela não entendeu. "Err... maison? Hmm... Ah, chez moi!" Não, não adiantava estar em "chez moi", querida, tinha que estar nas minhas mãos mesmo. Então, tive que voltar pra casa de novo. Sem nada.

Aquela sensação que, provalmente, eu tive pela ultima vez aos oito anos de idade, voltou com força depois de ter recebido o não da funcionaria. Fiquei super chateada. A sensação era essa: era como se eu fosse criança de novo e enfrentasse toda minha timidez pra comprar o melhor doce da venda tendo apenas dois centavos nas mãos. Dramatica, não? Mas é assim que eu sou e é assim que senti hoje de manhã. Mas soh me senti assim até achar a saida da Prefeitura. Depois voltei a ser Luci atual e xinguei mentalmente a mulher do guichê, o policial, o cara do sovaco podre, Sarkozy e a mim. A telepatia fez Camilo me ligar na mesma hora. E de novo, "ja passou, amor".

Quinta-feira tentarei de novo! Munida de mp3, passaporte e mascara!

Para mais: PorteDoree.blogspot

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Felicidade tem forma e nome de homem

Quando é ruim, eu escrevo. Quando é bom, também. E, apesar de eu sempre estar te falando e fazendo coisas pra que tu entenda que eu gosto de tu, desconfio seriamente que a gente não deva ser o casal mais bonito da face da terra, e que talvez estejamos longe de ser o que mais se ama. A sorte é que eu não tenho ambição de fazer parte do casal mais bonito da face da terra e não me importo também que não sejamos eleitos os namorados que mais se amam. Porque, no final das contas, tu cuida tanto de mim que minha felicidade às vezes passa da conta e eu costumo, como agora, chorar so de pensar o que seria da minha vida sem tu. Entro em pânico quando penso que um dia tu não vai mais existir. Mas tu ri dessas minhas preocupações e eu acabo rindo junto. E fico assim, tristemente feliz do teu lado. "Quanto mais se ama mais fraco se é". E se por inveja ou por preocupação dizem que é feio ou perigoso precisar tanto assim de um homem, ignoro. Tudo o que tu me provoca é orgulho, é amor, é felicidade. Felicidade daquela boa, carimbada pelos santos e aprovada pelos céus.

Sabe, e aqui entre nos, o que faz com que eu saiba que eu te amo, não são essas coisas. Eh que, misteriosamente, toda vez que eu penso tu, meus olhos se fecham devagar... Eh massa, gordo!

O mundo pega fogo. Enquanto isso...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Bem feito

Ah! Familia cansa! Cansa pra caralho! E é uma confusão o que eu sinto pela minha. E não falo da familia de primos, tios e avos, porque, com essa dai, me desapeguei ha uns dez anos. Definitivamente, eu não sou uma pessoa "familia". Quando morava em João Pessoa, passava um mês longe de casa (entre as casas de amigos e de C.) e, quando voltava para minha, era somente pra escutar grito e presenciar briga. Eh foda olhar as pessoas que cresceram com você, as pessoas que educaram você, e se dar conta de que, apesar de eu falar igual a minha mãe, ter as mesmas sobrancelhas do meu pai, dividir o mesmo coração mole da minha irmã, eu não tenho absolutamente nada a ver com eles. Quero todos bem, saudaveis, trabalhando em algo recompensador, meu irmão "de cuca legal", mas é da forma que ta agora: longe. Me contorço de saudade dos meus amigos, e amuo quando olho pra foto do meu cachorro, mas quando recebo os emails da familia (ainda com exceção dos emails da pequena), eu respiro fundo. E quando escrevo a resposta, preciso antes de umas cinco revisões pra tirar todos os "pare com isso", "deixe de besteira", "não quero saber" e "puta que pariu", porque sei que isso magoaria imensamente a todos e não é bem isso que quero. Acontece que as pequenas coisas que vivi durante a adolescência e idade adulta insistem em não sair da cabeça. Aquelas magoas que latejam e sempre voltam, a cada dia, de uma forma diferente. Eh impressionante como sonho com meu pai. Se é que se pode chamar aquilo de sonho. Ele em um carro, minha mãe do lado. Ele bate nela, eu mando ela reagir, ela fecha os olhos. Então, castigo aos três: "vocês nunca mais vão me ver". Eu vou embora. Eles choram. Eu choro também. Viu? Não é simples diagnosticar tanta magoa? Nem precisa ter formação como psicologo. Foram anos batendo cabeça, puxando cabelo, fungando de madrugada e imaginando em que ocasião eu finalmente sairia de casa. E demorou tanto, tanto! Mas quando fiz, fiz bem feito. Fui pra outro continente. E agora eu durmo tranquila (quando os tais sonhos não vem). E acordo ao lado de pessoas que se respeitam, que se amam. Acordo todo dia com "bom dia, amor da minha vida". E, apesar de enfrentar dias solitarios, dias angustiantes de silêncio, tão torturantes pra alguém que adora falar e contar historia, sim, eu estou bem. E me aborreço soh de pensar que tenho que voltar um dia. E esses emails, esses tais emails me chegam pra me torturar. Pra que eu nunca esqueça que, apesar dos pesares, eu venho deles e pra eles eu voltarei quando eu deixar de ser o amor da vida dele e estar perdida novamente.

terça-feira, 7 de julho de 2009

"Apesar de você"

Como eu estou completamente fudida no prazo de entrega dessa infindavel monografia e não ando com tempo nem de me coçar, vou enrolar descaradamente vocês, meus queridos leitores, com um post feito em um oooutro blog que mantenho oculto.

O tema é o meu preferido: Camilo. O contexto: Luci depois do fim de um namoro longo resolve sair no sabado. Afinal, sabado à noite tudo pode mudar. Ou não?

Eh um. Eh dois. Eh um, dois, três e...

Como foi? Foi assim... Anh? Certo, em detalhes. Pra você se lembrar no futuro exatamente como foi, Luci. Caso a tua fraca memória resolva, você sabe... te abandonar de vez. Ela tem ameaçado, não?

A horrível sexta-feira 13 tinha passado. Eu queria morrer e os meus pensamentos insistiam nisso. É noite. Eu enxugo as lágrimas e começo a me arrumar - depois de uns amigos terem me adotado. Me sinto como uma personagem gorda, feia e loser de um filme americano e recomeço o choro. Olho pra roupa e choro, olho pro rosto e choro, sento na cama e choro, enxugo as lágrimas e saio.

Lá, sento numa mesa com Toni. Ansiosa e estranha, converso. Eliza já vem e trará dois amigos: Osvaldo e Camila. Quando chegam, descubro que Camila é homem e que é aquele francês, aquele que Monique tanto falava, do Hospitality Club... Sei sei. Porra de francês!

Eu bebo, falo, rio e faço rir. Conversamos a noite inteira. Camilo me observa mudo, com um sorrisinho indecifrável. Eu amuo. Ele vai conversar com o que parece ser uma nova amiga. Ele chupa o que parece ser a língua dela. Oh... Eu amuo. Nem sei porque. Acho que é o costume...

- Quer dormir lá em casa?
- Quero...

Em 20 minutos estamos na casa de Eliza. O francês, que estava se hospedando na casa dela, chegaria mais tarde. A noite deve ter sido boa. Mas eu não pensei sobre, eu estava egoistamente infeliz naquela noite pra perceber isso.

Acordei ainda mais feia, mas menos triste. Procuro e acho Eliza na cozinha. E, ao me voltar, me deparo com o francês que começa a ter nome. "Oi, Camilo". E me impressiono com minha impressão sobre ele. Esse menino fica mais bonito de manhã! Interessante...

O constrangimento confina a nós dois naquela minúscula sala, mas só eu percebo isso. Procuro um CD mágico que possa quebrar o clima e acho um de Django. (...) Django é como uma vida nova dentro de mim, mesmo quando eu estou menstruadíssima. Django é não sentir a menor vergonha dessa minha última frase. Django me leva à vida que eu queria ter. E aquele Django, oh, meu deus, era do fr... Camilo. Ponto pra ele!

Eu sento no sofá verde, ele senta na mesinha azul, assim, desavergonhadamente de frente pra mim. Eu costumo me surpreender quando percebo que há pessoas que simplesmente não se importam. Eu falo de timidez. Elas não são! É estranho... Porque pra mim parece óbvio, mas... deixa pra lá.

De alguma forma ele já estava tentando me convencer de que estávamos no fim do bairro, quando eu nunca havia dado importância a isso. Ele pega o mapa e senta do meu lado. Eu suo levemente. Ah, eu também disse que, quando o inverno chegasse... "Mas é inverno". Ah, claro, eu sei. É verdade. Meu nervosismo fazia as estações mudarem. Fantástico!

E ali ficamos. Ele, com aquele sotaque inspirador de masturbações, e eu, com aquela angústia que paria lágrimas. Antes do almoço, Eliza comenta em particular que notou tudo, hein! No sofá, sua safada! E eu rio mais de nervoso do que de vergonha. E acho engraçado como um comentário poderia exercer tanto poder sobre mim, porque, a partir dali, tive certeza de que queria aquele maldito menino. E adivinha só!

Tá bom, pode ir fazer xixi (...)

A tarde era o tempo reservado para uma reunião entre amigos universitários que iriam discutir... assuntos universitários. Fomos todos juntos e felizes à casa de um tal de Bigode. Juntos e felizes começamos uma bebedeira que terminou em três mortos e uma ferida. A minha, no caso. No meio da noite, a amiga de língua grande que mostrou a Camilo no outro dia o quanto somos hospitaleiros, o chamou pra outro lugar e, como bom cavalheiro, ele foi. Filho da puta.

Horas entediantes se passaram até a hora de voltar pra casa (de Eliza). Encontramos o francês de cueca no meio da casa se preparando pra dormir. Era quase meia-noite, mas ainda jogamos uma partidinha chata de cartas. Eliza vai dormir, um amigo que viera praquela noite, também. Eu decido fumar um cigarro no sofá verde, sabendo que aquela era a chance de ver um possível interesse de Camilo em... fumar.

Fumamos. E conversamos sobre nossos cachorros e sobre a política educacional do Brasil. Que chatice. E chegamos a uma hora da manhã. E depois passamos das duas. E fumávamos e conversávamos, mas às três horas o sono queria ser mais forte.

Camilo encostou a cabeça no sofá e fechou os olhos. Não! Eu fui encostando minha cabeça, mas tirei e... voltei a tentar encostar, mas... tirei e, mesmo com a garganta querendo expulsar o coração, eu consegui encostar a minha cabeça no ombro dele. E experimentei os séculos silenciosos que se passaram naqueles segundos e, mesmo sabendo que o estômago era frágil, acariciei o braço dele. E já não sabia o que fazer, quando ele se voltou pra mim decidido e... adivinha só! No domingo fazemos oito meses de namoro. Com direito a planos pro futuro e tudo mais. Tá bonito.

Não imaginava onde iriam dar esses "planos pro futuro". Mas agora, atualizando: em dez dias, dois anos. So não continua bonito... agora é lindo! Lindo!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Documentários de verdade

Um post pra divulgação de um site que deveria interessar o mundo inteiro:

[Documentários de Verdade]

O blog conta com dezenas de documentários que lutam "contra a exploração laboral e infantil, a fome, a miséria, a guerra, a corrupção dos governos, a parcialidade da mídia, a venda dos estados em favor das corporações, a degradação ambiental, o preconceito racial, social e sexual, a crueldade com as pessoas e com os animais e, claro, contra a injustiça social".

O mais difícil já foi feito. Agora, você só precisa assistir aos documentários.

Divulguem!


terça-feira, 30 de junho de 2009

Biscoito da sorte

Passar o dia inteiro no apartamento entre as atividades de cozinhar, fazer monografia e esperar o marido chegar, definitivamente, não é o plano de vida que tracei pra mim. Então, enquanto a coisa não melhora, pra aliviar o estresse e não ficar doida dentro de casa, eu pego minha linda e amada e adorada bicicleta (presente do amado) e vou dar uma voltinha. Acontece que Lyon é uma cidade doida! DOIDA! E às vezes, um inofensivo passeio de bicicleta se transforma em um pesadelo. E vocês sabem que eu sei bem do que eu estou falando.

Eu não me considero uma pessoa desastrada... até estar nervosa. Eu acho que eu sou bastante habilidosa pra certas atividades, mas quando eu tou em cima de uma bicicleta, me descontrolo. Se uma coisa dá errado, uma série de desgraças acontece até que eu chegue em casa. Por exemplo, assim que cheguei em Lyon (ano passado), quase fui atropelada por uma bicicleta que vinha em alta velocidade. Fiquei nervosa e, quando fui andar na minha bicicleta, caía cadeado do bolso, isqueiro... Depois, eu mesma caí da bicicleta por causa de uma freada que dei achando que eu fosse ser atropelada por um carro que estava... parado. Foi maravilhoso.

Depois do acidente de bicicleta sofrido recentemente, comprei um capacete e agora eu olho até pra cima quando vou atravessar uma rua. E agora é minha vez de reclamar dos sem-noção (eu posso, afinal, todas as vezes em que eu caí da bicicleta, eu coloquei somente a minha saúde em risco).

Andar de bicicleta em Lyon é realmente perigoso. E não é somente porque eu estou nas ruas (hihihi)! Existe uma rua perto de casa em que parece que as pessoas combinam de abrir as portas dos carros na hora em que eu passo. É quase sincronizado. Da vontade de arrancar porta, com retrovisor, com tudo. É uma pena saber que é mais fácil eu perder a bacia no impacto do que levar a porta do carro comigo.

E o que fazer com os suicidas? Semana passada eu tava andando no meio da rua em alta velocidade quando o semáforo à minha frente abriu. Continuei na velocidade que tava. De repente, vejo uma bola atravessar a minha frente e, logo atrás da bola, claro, um guri. Meus amigos, em um segundo esse mizerinha tava na calçada e, no outro segundo, ele tava a um metro de mim. Eu dei um grito e uma freada e não sei o que foi mais estridente. Eu fiquei a um palmo dele. O preocupante é que vi que ele sequer olhou pro lado, ou seja, ele não calculou errado a minha chegada, ele simplesmente não a viu. Podia ter sido uma moto, um carro, um jumento correndo (mas não, foi a sortuda aqui).

No dia seguinte (vejam bem, NO DIA SEGUINTE), eu tava na ciclovia andando tranqüilamente. Lá lá lá... Luci na ciclovia, pedestres na calçada, Luci na ciclovia, pedestres na calçada, de repente, Luci na ciclovia, mulher louca na ciclovia. Foi da meeeesma forma. A maluca botou a patona dela na ciclovia e se jogou sem nem mesmo se preocupar em olhar pros lados. Dispenso a culpa da criança que estava hipnotizada pela bola, mas e essa?

Eu queria ter aquelas buzinas de navio pra dar um fooooooooom no pé do ouvido da desgraça que atravessasse minha frente. Morre do coração, mas se livra de um atropelamento. Eu tou nesse tom, mas eu ri muito nesse dia. Quando essa mulher passou, eu dei um freio enorme, parei bem em cima dela, foi tão assustador que ela jogou uns biscoitos (ou bolo, sei lá que porra era aquilo) pro ar. Ela deu um grito e jogou os braços pra cima. Aí ficou pedindo desculpa. Ah, se eu soubesse falar francês. “Dona Maria, essa porra não mata, mas aleija!”

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Não se reprima

Em 2007, conheci de maneira totalmente inesperada o sr. Raphael Lima (mais conhecido no submundo recifense como Cabelo): um amigo em comum (Bruno) deixou o MSN logado permitindo que Cabelo se apoderasse do seu computador e iniciasse uma conversa com a moça que lhos escreve.

Pelas posteriores trocas de e-mail, percebi em Cabelo uma figura bastante rude, um troglodita, poderia-se dizer. Ganhou o momentâneo apelido de "presidiário" após me revelar uma primeira foto: Cabelo tinha uma barba rala, malfeita, cara de poucos amigos, cabelo raspado. Enfim, um presidiário.

Nos meses que se seguiram, nenhuma demonstração de afeto para com sua nova amiga. Fui (sou) chamada de "amarela" trezentas vezes e mandada tomar no cu sem o menor motivo outras tantas. Depois que Cabelo conseguiu seduzir a pobre Mariana, achei que seu coração fosse abrandar. Mas a imagem de machão sempre foi realçada em qualquer detalhe ligado a ele, como o "ninguém é bem-vindo aqui" estampado no seu Orkut.

No entanto, eu sempre disse a ele: "Cabelo, meu querido, você é um romântico! Deixe de brabeza! Mostre seu interior". Obviamente minha intenção não era outra senão aquela de provocar raiva no menino. Eu não imaginava, porém, que nessas palavras jogadas ao vento eu estaria certíssima!

Senhoras e senhores, com vocês, a verdadeira identidade do famigerado Raphael Lima, escancarada nas páginas de um jornal recifense em matéria sobre o Dia dos Namorados:





Pois é, meus amigos, toda a comunidade recifense ficou em choque. Faço das palavras de Bruno, o amigo supracitado, as minhas: "magricelo, essas fotos vão te martirizar até o fim da sua existência. a melhor coisa a se fazer agora é antecipar a morte cortando alguma artéria do cu e sangrando até morrer pálido".

E agora, amarelo, quem tomou no cu?
HAHAHAHA

Talvez

Related Posts with Thumbnails