quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Um minuto

Um post super rapido soh pra avisar algumas coisas.

A coisa mais triste: a morte do meu computador. Foi pro limbo. Agora, um pai nosso e um minuto de silêncio. Obrigada.

A mais legal: esse fim de semana tem o tão aguardado encontro de blogs de meninas casadas com franceses. Deve ser esse o tema do encontro, ja que a maioria das participantes se encaixa nessa categoria incomum. Incomum? Se você estiver ai, de bobeira por Paris, ja sabe: pic nic sei la onde, sei la com quem. Perfeito.

E... achei que tivesse mais coisa pra dizer, mas acho que é soh isso. Quando eu macumbar meu computador pra ele voltar à vida, volto a escrever. Por enquanto é so pessoal!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Obrigada!

Mme Forfait. E olhe que eu gostei dela...

Hoje fui encontrar a tal da Mme Cler pra que ela me levasse até o local da minha primeira faxina como contratada da empresa dela. Longe pra caralho, fora de Lyon, num condominio enorme, com muitas arvores e crianças branquelas brincando nos parques.

A casa era de Mme Forfait. De cara ela ja me pareceu otima! Ela ta gravida e, pelo tamanho da barriga, acho que é de 17 meses: os peitos dela tinham o mesmo tamanho da barriga. Mme Cler perguntou pra quando era o filho e eu achei que ela fosse dizer "agora, segura!". Sério, não sei como aquela mulher respira, coitada, soh dava pra ver as pernas e a cabeça dela, o resto do corpo era soh barriga. E ainda, dentro das primeiras impressões, pelo estado da casa, achei que eles tivessem acabado de se mudar. O apartamento era muito pequeno e tinha bagunça por todo lado. Ela tem mais dois filhos pequenos e, no estado em que se encontra, vocês imaginam como deve ser manter uma casa limpa. Coitada, de novo.

Lavei os banheiros, o quarto dos guris, fui pra sala, aspirei o tapete e, pra executar melhor essa tarefa, coloquei as cadeiras em cima da mesa, os vasos de flores, as velas etc. Quando o chão ja se encontrava lindo e limpo, sai recolocando os objetos em seus devidos lugares. E agora, cena espetacular: três cadeiras em cima da mesa e um vaso. Dessas três cadeiras, fui inventar de tirar justamente aquela que servia de apoio pra uma outra. Quando retirei a tal cadeira, a outra perdeu o apoio e foi caindo em cima da mesa. Meus olhos seguiram a queda até se encontrarem com o vaso de flores que estava bem abaixo da cadeira que estava caindo, caindo... Eu soh tive tempo de fazer... nada. Em um segundo a cadeira caiu, o vaso explodiu, molhou a sala TODA e jogou caquinhos de vidro transparente pela casa que é habitada por duas crianças abaixo dos cinco anos. Que beleza! Pra completar, nesse exato segundo, Mme Forfait entra na casa (ela tinha saido). "Ah, o vaso quebrou". E eu, nadando na agua das flores,"mi mi mi, Mme Forfait, pardon, mi mi..." Ela disse que tava tudo bem, que esse vaso valia uns 5€, "mas cuidado pra não se cortar". Achei ela muito massa mesmo. Trinta segundos depois disso, ela perguntou se eu poderia vir proxima semana!

Ela me deixou novamente sozinha na casa e disse pra eu trancar bem tudo quando saisse. Assim o fiz, carregando prédio abaixo o lixo. Soh que eu não encontrei a lixeira do prédio e sai feito uma lesa pelas ruas com um saco preto de lixo na mão. Depois, procurei a parada de ônibus e, como não achei, perguntei a um cara o caminho. Ele perguntou a direção que eu queria ir, depois explicou onde ficava a parada de ônibus e eu agradeci, abestalhadamente feliz por ter feito minha PRIMEIRA pergunta na França a um desconhecido. Tcham ram! Eh incrivel como essas babaquices me deixam feliz. Peguei ainda um metrô, depois resgatei minha bicicleta que eu havia deixado na estação e cheguei em casa exatamente uma hora depois de ter deixado o apartamento de Mme Forget.

Acho curioso como essa semana se transformou em tantas coisas pra mim. Comecei bebendo feliz com Camilo, comemorando. No dia seguinte, passei a tarde chorando e ciscando, preocupada, tive insônia. Aih fiquei feliz por ter conseguido um contrato que, pensando bem, eu não queria. No segundo seguinte, me fizeram acreditar que era bom e eu fui. E depois de tanto vai e vem, acho que posso dizer que tou aliviada e satisfeita pelas oportunidades de sofrimento não-gratuito que essa semana me proporcionou. Por estar sempre com Camilo, nunca pergunto nada a ninguém, nunca faço um telefonema sozinha, não ando de ônibus, não compro bilhetes de metrô, nem pego metrô! De qualquer forma, espero que essa seja a unica viagem traumatizante, pra mim, que ele faz.

Ah, queria agradecer pelos recados de estimulo deixados aqui. Com a viagem de Camilo, eu tou me sentindo mais sozinha do que nunca. E eu fiquei bem feliz de ver gente que nem me conhece, que nunca me viu na vida, me colocando pra cima. A idéia inicial desse blog era permitir uma conexão entre mim e os amigos que deixei, mas agora eu me sinto mais estimulada a escrever pras pessoas que nunca vi na vida (graças à Amanda, essa situação estah prestes a mudar), ja que meus ilustres amigos nunca dão as caras (nem por aqui, nem por e-mail), com a exceção rarissima de poucos, me fazendo achar que eu tou falando sozinha. Blogueiro adora comentario, mas eu agora tenho um motivo maior pra apreciar os recados de vocês: companhia. Obrigada!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Continuando...

Hoje de manhã fui na ACFAL, empresa responsavel pelo curso de francês oferecido pelo Governo. Falei com uma mulher doida la, que fala rapido, e ela me disse que minhas aulas serão todos os dias, com exceção da terça. Serão 21h semanais. Pelo que vi nas salas de aula de la, eu vou ter muitos amiguinhos arabes. Pelo menos esses eu sei que vão morar em Lyon.

De tarde, me preparei psicologicamente pra enfrentar a entrevista. Para chegar la, fiz pequenas coisas que nunca tinha tido a possibilidade de fazer por estar sempre acompanhada de Camilo.

Passo um: achar o metrô certo pra chegar ao "bairro nove". (Linha Verde - D)
Passo dois: comprar os bilhetes pro metrô. Depois de observar atentamente uma mulher, consegui compra-los (dez bilhetes por 13€).
Passo três: achar o local da entrevista. Como eu tenho um otimo senso de localização, depois que desci do metrô, fiquei rodando sem saber aonde eu tava indo e decidi parar num lugar pra ver melhor o mapa. Parei uns cinco minutos e segui decidida pra direita. Depois voltei. Não entendi nada. E, finalmente, percebi que eu estava o tempo todo na calçada da empresa. Tipo assim, quase beijando a porta do lugar. Sinceramente, aquele mapa tem umas proporções bizarras. Ta errado.
Passo quatro: controlar o intestino pra não cagar no birô da mulher.
Passo cinco: "Bounjour! Mme. Cler?" (era eu ja apertando a mão da Madame). Na noite anterior, treinei com Audrey todas as frases pra responder às possiveis questões dela. Passamos uma hora nesse treinamento e eu ja nao aguentava mais ter que decorar tanta coisa. Pensei que a mulher não ia exigir muito. Mais uma vez, eu estava equivocada. A mulé perguntou tudo a que tinha direito, parecia que eu tava me candidatando ao cargo de gerente da empresa. Minha amiga, eu vou fazer fa-xi-na! Em certo momento ela se levantou e disse "você pode passar essa camisa pra mim?" E, quando eu vi, surgiu do chão um ferro de passar, uma mesa e uma camisa amassada. Eu nunca passei uma calcinha na minha vida! "Fudeu, fudeu!" Olhei pra camisa, olhei pra Mme Cler, sorri e fui passando, passando... Como se eu tivesse tudo sob controle. Depois ela chegou junto e perguntou simplesmente "você não passa as camisas do seu marido?". Foi foda.

Foda I: essa foi uma maneira muito gentil dela dizer que eu não sabia fazer porra nenhuma daquilo.
Foda II: é impressão minha ou madame Cler é machista?

"Não, não passo, porque ele não deixa" (o que em parte é verdade, a outra parte é que a gente não tem ferro de passar). Ai ela perguntou "você quer aprender a passar ferro?" e eu disse "não" (eu tinha entendido errado). Coitada. Porém (esse porém é bom), sai de la com um contrato de tempo determinado (ainda não assinei), de três meses, sendo as duas primeiras semanas de treinamento. Fiquei feliz por ter conseguido superar o drama, mas não sei... O primeiro trabalho, que é amanhã, fica fora de Lyon. E, pelo que ela disse, não é coisa simples. "Ah, você vai fazer uma faxininha, cuidar das crianças e fazer o jantar". Quero saber até quando vou ter saco de cuidar da familia e da casa dos outros e deixar a minha de lado. Por enquanto, vamos ver no que vai dar.

Maria do Ba(i)rro

Essa semana nem terminou (INFELIZMENTE) e eu ja posso dizer que ela foi a mais bizarra desde que cheguei em Lyon (em maio). Ok, a primeira semana aqui, em que eu tava com a cara cheia de pus por ter levado uma queda de bicicleta e com um olho fechado, também não foi comum, mas enfim, deixa eu falar dessa semana. Antes de tudo, pra que vocês entendam o drama que eu vou contar, é preciso que eu me descreva um pouco emocionalmente.

Eu sou uma pessoa terrivelmente ansiosa. Medrosa. Chorona. E adoro sofrer por antecipação. Adoro! Dois exemplos basicos:

exemplo de ansiedade: eu passei o mês inteirinho anterior à minha chegada na França tenho desinterias psicologicas. Alias, as desinterias não eram nada psicologicas: é que bastava eu lembrar da viagem e correr pro banheiro. Um mês. E cada vez que se aproximava do dia da partida, eu cagava mais. Meu ultimo rastro foi no Aeroporto Castro Pinto, de João Pessoa. Quando coloquei os pés no solo francês aconteceu um milagre.

exemplo de sofrimento antecipado: eu tendo, quero acreditar que é durante a TPM, a chorar a morte de pessoas que... não morreram. Como é? Bom, tou la eu no ônibus, feliz da vida, quando começo a pensar "meu deus, como eu ficaria se Camilo morresse?" Ai eu penso no momento em que eu escuto a noticia do falecimento, no choque instantaneo, na dor, na solidão, em todas as lembranças que temos juntos e, quando me dou conta, tou chorando loucamente. Tipo assim, soluçando, vermelha, querendo vomitar as tripas de tanta dor que tou sentindo. Entenderam? Pois bem: eu sou assim.

Agora, vou contar sobre minha semana. Ela, na verdade, começou muito bem: Camilo apresentou seu TCC dia 14. Foi um dia muito legal, eu tava muito feliz por ele! Ele se deu muito bem! Bebemos até cair (eu, literalmente) e fomos felizes. No dia seguinte, porém (sempre tem um), ele viajou com os amigos da universidade e soh volta no proximo domingo. Achei melhor ficar em Lyon porque vi nessa viagem a oportunidade de deixa-lo sozinho, curtindo um momento massa da formatura dele, com os amigos dele que estão igualmente formados. Mas, de qualquer forma, vi que eu tinha uns compromissos que, geralmente, é Camilo que me ajuda a cumprir. Não eram coisas do tipo "fim do mundo", mas pra uma pessoa que caga por qualquer suspiro, o menor dos fatos de transforma numa tragédia.

A programação solitaria da semana consistia nas seguintes atividades:
segunda: limpar latrina
terça: inscrição no Pole Emploi
quarta: ir na Agência de Imigração
quinta: limpar mais latrina
sexta: beber até cair com Simone

No entanto, a inscrição no Pole Emploi me deu o contato de duas empresas que contratam pessoas que fazem faxina. Eu. Quem me acompanhou nessa ida ao Pole Emploi foi Audrey (menina que vai morar comigo na proxima casa). Normalmente, Camilo ligaria pra essas duas empresas e faria o contato entre ela e a mocinha aqui, mas Audrey é terrorista e me fez telefonar pra essas duas empresas. Eu quase tive um derrame, mesmo a gente tendo treinado as frases-chave da conversa. A mulher do outro lado da linha, obviamente, não tinha o roteiro da conversa e me fez uma pergunta inesperada e eu me embananei todinha. Foi lindo. De qualquer forma, ela marcou comigo uma entrevista de emprego pra hoje.

Sei que, lendo assim, as coisas parecem muito simples. E são. Mas antes de eu chegar até aqui pra contar essa historia, eu chorei bastante, me senti muito sozinha, perdida, incapaz de fazer essas coisas. E isso, acreditem, me deixa muito puta comigo mesma. Porque faz com que eu sofra com coisas com as quais qualquer pessoa normal tiraria de letra.

Essa é a primeira parte da novela mexicana. Vem ai a volta por cima... ou quase.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O mistério do queijo que não era queijo

Gente, eu estou passada. Eu nem uso essa expressão, mas deve ser a mais apropriada pro momento. Nos comentarios do post passado, me perguntaram se "cabeça de galo" não era a marca do produto, se não poderia ser um azeitezinho inofensivo. Foi quando me dei conta de que eu sequer havia lido a embalagem do produto, e que quem havia dito que aquilo era cabeça de galo tinha sido Camilo e Simone. Então, fui catar uma das latas pra analisa-la.

Primeiro: o que tava escrito na embalagem era fromage de tête. Fromage: queijo. Tête: cabeça. "Mas que puxa, como eu sou tola! E não é que o que tem aqui dentro é somente queijo! Puxa vida!" E fiquei saltitante e feliz... até ler os ingredientes: molho, tempero, açucares, gelatina e langues de porc. Não, não era cabeça de galo, era bem pior: pedaço de porco.

Depois de me recuperar do enjoo (do nojo) causado pela imagem de linguas de porco decepadas e enlatadas, fui consultar o Mestre Google e achei as seguintes referências pro que poderia ser o tal do queijo que era galo e que agora é porco.

Primeiro resultado:Ninguém é obrigado a saber que fromage de tête não é queijo e sim um patê heavy metal. (Fonte) Engoli a saliva secamente: "patê heavy metal" não pode ser coisa boa.

Segundo resultado: ...uma charcutaria da qual gosto muito, mais conhecida em Portugal por 'pasta de cabeça'. O nome diz tudo: a pasta de cabeça, que se apresenta como um paté, é obtida à partir de cabeça de porco, cozida longamente em caldo de legumes e especiarias, e depois envolta em geleia. Pode não parecer, mas fica uma delícia...! (Fonte). Mas por que sera que não parece uma delicia? Oh, deus! Cabeça de porco cozida envolta numa geleia! Não consigo pensar em nada mais apetitoso do que isso! Gah! E fica pior...

Terceiro resultado: Uma das especialidades (...) é o fromage de tête, que não sei se vocês conhecem, mas já passei a maior saia-justo com esse tipo de "fromage". Pedi de entrada num bistrô parisiense o tal fromage, para acompanhar com vinho. Fromage é fromage, certo? E quando se pensa em queijo francês (...), não se tem a menor dúvida de que vem coisa bacana... pois bem, o tal fromage não era fromage e sim um patê. Superado o susto (e mico) visual, veio o susto olfativo (não esqueço o cheiro), seguido da legenda: é um patê de miolos, tudo que vc possa imaginar. E chega aos pedaços. ou seja, vc vai sentindo no boca cada miolinho e outras coisas mais. Come-se com pepino. Eles comem, eu não consegui... (Fonte) Patê + miolo + porco = vômito.

Quarto resultado: Dicionario Lendemain: fromage de tête (n.): gelatina de porco.

Voila! Quinze latas de gelatina de miolo de porco estragado. Acho que quero meu galo de volta.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A cabeça do mormon

O mundo ta cheio de gente bonita, que vai pro céu. Por exemplo, ha algumas semanas, aconteceu uma fato que me deixou deveras emocionada. Camilo comentou, na empresa em que estagiava, que não poderia tirar férias naquele momento porque a gente tava com problema de grana. No dia seguinte, o contador da empresa apareceu com uma cesta basica e deu de presente pra Camilo. Achei legal da parte dele, apesar de que "problema de grana", pra gente, não significava necessariamente "estamos passando fome", e sim, "não podemos gastar agora com uma viagem pra/pro... [coloque aqui o nome de algum pais do mundo]". Era isso. Mas achei legal o cara ter se preocupado com a gente. Achei lindo.

De qualquer forma, Camilo pareceu um pouco chateado quando chegou em casa. Dai explicou que o cara pediu a Camilo o numero do celular dele. Em troca, o contador deu o seu cartão pessoal e Camilo pode ver que o cara era mormon. Aaaah, agora tah explicado o motivo de tanta bondade.

Pra quem não entendeu, ver isso aqui:



Mais tarde, fomos analisar o presente da figura. Acho que o cara levou muito a sério o termo "basica", porque a cesta era composta por apenas quatro produtos. E praqueles que vão dizer que "cavalo dado não se olha os dentes", preciso adiantar que não foi falta de educação da nossa parte analisar a cesta, foi instinto de preservação mesmo. Explico. O cara deu seis quilos de arroz (massa), três pacotes de macarrão (massa) e algo em torno de 20 latas de sardinha e pelo menos umas 15 latas de cabeça de galo. Eh, gente, cabeça de galo. Eu nem abri a lata porque eu tive medo de ver uma cabeça cocoricando pela cozinha. Credo! Mas o fantastico não foi isso, afinal, o cara realmente pode ter pensado que nohs eramos fãs de sardinha e de... cabeça de galo. O problema foi constatar que todos os produtos que o cara nos ofereceu estavam fora do prazo de validade ha anos.

Aqui em Lyon (e/ou na França, na Europa, sei la) tem umas lojas que vendem comida fora do prazo de validade por preços modicos. Gente, assim eu também quero fazer caridade. Compro comida fora do prazo de validade, alimento dois famintos e mostro a eles outras maravilhas que Jesus Cristo pode fazer por eles. Camilo ficou com medo que o Helder Contador tentasse converter ele. Deus me livre, ja basta os caras da Testemunha de Jeova que toda semana aparecem aqui e sempre quebram a cara porque quem abre a porta é a brasileira muda. Tai, nessas horas eu fico feliz em não saber falar francês (e soh nessas mesmo). Porque é melhor engolir as cabeças de galo, com lata e tudo, do que engolir papo de missionario.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Cestinha ou morte

O que é melhor que dinheiro pra simbolizar independência? Nesse sete de setembro, um pequeno post em homenagem ao meu primeiro cheque.

Hoje fui faxinar na casa de uma amiga (Julie) de uma amiga nossa (Audrey). Audrey havia nos dito que o apartamento de Julie era "magnifique". Quando ela disse magnifique, ela quis dizer "o apartamento é grande pra caralho e tu vai se fuder limpando ele". Se ela não quis dizer isso, ela deveria ter dito, porque o apartamento era grande pra caralho e eu me fudi limpando ele.

O combinado foi que eu limparia somente as partes em comum da casa. Pensei "que facil, vou fazer essa faxina em duas horas". Mas o sofrimento ja começou na hora de entrar no prédio. O nome que ela havia me dito simplesmente não estava escrito no interfone. Ai fiquei apertando o botõezinhos de cada apartamento esperando que alguém respondesse. Ou não. Ja que, sempre lembrando, eu não falo francês. Finalmente alguém respondeu no apartamento certo e a femme de ménage (nome bonito pra piniqueira) subiu pra fazer seu trabalho.

A menina, cujo nome eu esqueci, me apresentou ao apartamento (o banheiro é do tamanho do meu atual quarto) e aos produtos. Tinha uns trinta tipos de sabão, agua sanitaria, limpa-vidro etc. O interessante é que eu não sabia o que era o quê. 80% dos produtos tinham uma cozinha bonita desenhada na embalagem, o mesmo cheiro, a mesma cor. Sabão em po que é bom, nada. Finalmente eu peguei qualquer coisa e sai por ai, lavando, limpando, esfregando, varrendo, aspirando e espanando durante exatas três horas. No final, uma outra fulana que chegou, que eu tampouco sei o nome, me perguntou se ela me pagaria na hora. Olhei pra cara dela pensando "claro, né, porra! tah doida?" mas eu disse "aaah, boon, je pense... err... si tu... oh... oui". Que dureza.

Dificil ou não, sai de la com um cheque bastante humilde de 24€ e um sorriso do tamanho do cansaço. Como ainda não recebi a grana do patrão de Camilo, considero este meu primeiro "salario". E eu ja sei onde vou torrar meus primeiros euros. Na Decathlon, nessa cestinha de bicicleta aih do lado. Isso mesmo: uma cestinha de bicicleta, meu maior sonho de consumo (viram que pessoa humilde?). Faz meses que eu almejo em ter uma cestinha e Camilo sempre me enrola (é, amor, você me enrola). Vai ser lindo e maravilhoso poder colocar a bolsa na cestinha ao invés de ficar toda atrapalhada com a bolsa nas costas. Vai ser lindo! Divino! Vai ser meu! Finalmente um sete de setembro a se comemorar.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Dignamente de quatro

Na ultima segunda-feira, Camilo me increveu no site do Pole Emploi, uma agência de emprego. Penso que ela é ligada ao Governo francês, porque quando fui dar continuidade ao processo do visto, na ultima quarta-feira, a moça de la disse que teriamos, se precissassemos, aulas de francês, consulta com uma assistente social E um cadastro no Pole Emploi, praqueles que estao à procura de alguma ocupação. Como eu.

Conheci o tradutor de lingua portuguesa da Agência de Imigração. Um pernambucano super legal, Flavio. Ele tah aqui na França desde 2005 e falou um pouco sobre os empregos que teve. Disse que era super dificil arrumar trabalho aqui, que ele ja havia mandado curriculo pra todos os lugares (de Carrefour à escola primaria). A minha sorte é que, ao contrario desse coitado, eu não preciso fazer faxina pra sobreviver. Camilo foi contratado essa semana pela empresa na qual ele estagiava e, apesar da nossa atual crise econômica, as coisas vão se normalizar com o tempo. Quero trabalhar pra ter dignidade, ainda que esse trabalho signifique limpar privada alheia. Deixar de depender do meu pai pra depender do meu marido não é lah o sonho da minha vida.

Infelizmente, eu não posso trabalhar com aquilo que quero e, por não saber falar francês, tenho que me limitar a esses trabalhos braçais pontuais. A medida em que meu francês for evoluindo, envoluirah também a qualidade dos meus empregos. Ou assim espero. De qualquer forma, falando francês ou não, la fomos eu e Camilo, hoje de manhã, pra agência do Pole Emploi pro cadastro pessoal.

No site, a informação é a de que, apos o cadastro via internet, o interessado deve ir à agência até cinco dias apos o cadastro on-line. Mas na verdade, segunda a moça da empresa, devemos esperar um email do Pole Emploi com a hora e a data marcada pra uma entrevista pessoal. Por isso, voltamos pra casa sem nada.

Ja em casa, quando abri a caixa de email, li uma mensagem de uma das meninas que vai morar comigo na proxima casa, Audrey. Ela disse que fez esses trabalhos de limpeza ano passado e que tinha alguns contatos. Perguntou, na ocasião em que conversavamos, se poderia repassar meu email a alguem que estivesse à procura de uma faxineira. "Tudo bem". Então, qual foi minha surpresa ao ler hoje uma mensagem de uma menina que perguntava se eu poderia fazer uma faxina no apartamento dela. Seria coisa de 3h por semana, pagando oito euros por hora. Mais do que a empresa de Camilo paga. Otimo! Vou responder que sim. Mas agora, hora de estudar francês.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As bestas e asbestos

Ha pouco tempo, minha mãe descobriu algo maravilhoso chamado Internet. Internet é uma coisa da qual ela tem acesso, debaixo do proprio teto, ha pelo menos uns nove anos, mas que ela nunca deu importância. Depois que alguém fez um endereço de e-mail pra ela, ela tomou gosto pela coisa e agora exige seu tempo no computador diariamente. Eu gosto de ver minha mãe usar a internet, mas tenho um pouco de pena quando vejo ela apanhar do computador. De repente, tem dois videos no YouTube rolando ao mesmo tempo e ela não tem idéia de como para-los, ou então, ela se mostra confusa na hora de salvar uma fotografia que eu mandei por e-mail.

Bom, mas ninguém nasce sabendo usar o computador/internet. A questão é que, ao mesmo tempo em que é bom poder contactar minha mãezinha a qualquer minuto do dia, também é um teste de paciência ler os e-mails que ela manda. Não os pessoais, esses ai eu ainda aceito bem, apesar de virem cheios de conselhos do tipo "se chover, saia com o guarda-chuva". O problema são aqueles e-mails toscos que as pessoas enviam no intuito de pegar os mais inocentes, os mais desavisados ou a minha mãe.

Uma vez ela mandou um e-mail alertando sobre uma gangue que age da seguinte maneira: lah esta você, bom cidadão, andando tranquilamente pela rua, quando escuta um barulho, uma voz tremida... um choro! Alguém pedindo socorro! Você procura pela voz chorosa e se da conta de que ela vem de um terreno escuro. Você, pobre homem, na tentativa de ajudar aquele ser que sofre e que chora, entra no terreno descuidado e... pimba! Ja era, papai! Te botaram pra dormir e, quando você finalmente acordou, estava... Sim, meus amigos: o caso dos rins e a banheira de gelo. Minha mãe me mandou esse e-mail com receio de que eu pudesse andar pelas ruas francesas e... pimba. Não, mãe. Não se preocupe, eu não vou ajudar ninguém (dessa forma). E, se é pra ter medo, eu tenho medo é de espirito e homem de gravata. Soh.

Outro dia, ela mandou um email que alertava sobre o uso de certas marcas de batom que continham chumbo. Acho que pelo tom do email, eles faziam cair o beiço. So pode. Ai pediam pras senhoras donas-de-casa repassar o e-mail pra outras inocentes como você. Ainda que eu usasse batom!

Resolvi fazer esse post depois de ter recebido o e-mail n° 6.598 que continha um .pss intitulado de "absorvente interno". Eu nunca, jamais, abro arquivo desse tipo, mas como o assunto era relacionado às mulheres, não me contive.

A apresentação tem ao fundo aquelas imagens toscas, desenhos, de mulheres sob a luz da lua, com seus longos cabelos pelo corpo e uma musica altamente funebre, assustadora! O texto:

Você sabia que certos tipos de absorvente interno usam "asbestos" (amianto)? Por que eles fazem isso? Porque asbestos fazem você sangrar mais. Se você sangra mais, logo vai precisa de mais absorventes. Meu deus, é genial!

Por que isso não vai contra a lei, visto que asbestos são tão perigosos? Porque os poderosos, com toda sua "sabedoria", não consideram os absorventes internos como produtos alimentares
(mas como não?!), não consideram ilegais ou perigosos. Pois pra mim, não ha nada mais perigoso que um absorvente interno. Aquela bolinha fofinha de algodão! Que meda!

Ai o cara fala sobre dois absorventes feitos de algodão, mas que não estão disponiveis no Brasil.
Oh! E continua: Uma mulher (uma mulher aih, sabe...) que tem seu PHD na Universidade do Colorado, Boulder, escreveu o seguinte: "Estou escrevendo isto porque as mulheres não são informadas sobre o perigo de alguns absorventes, algo que a maioria de nos utiliza. Eu estou dando aulas neste mês e eu tenho estudado muito sobre biologia e sobre mulher, ja que muitos absorventes internos são realmente perigosos (por essa razão, ao discutirmos o assunto em classe, a maioria das mulheres ficou realmente brava e revoltada com os fabricantes de absorventes), e eu mesma dedidi começar a fazer alguma coisa sobre isto". Essa foi a parte em que eu mais ri. Minha amiga, se depois de um PhD, você escreve assim, eu não quero nem imaginar como era que você escrevia antes da graduação. Tenho estudado muito sobre biologia e sobre mulher. Opa: biologia + mulher = estudo sobre absorvente. Perfeito.

Outros produtos para higiene feminina (absorventes externos) contem dioxina, porém não são tão perigosos, pois não ficam em contato direto com a vagina. Fudeu. Foi ai que eu descobri que eu não sei como usar um absorvente, porque eu costumava colocar o absorvente em contato direto com a vagina, mas agora que eles disseram que não é assim, vou tentar no furico da proxima vez. Os EUA insistem em nao divulgar o assunto. Ah, esses Estados Unidos! São todos uns fanfarrões! Nos estamos sendo manipulados pelas industrias e pelo governo! Eh, existe gente mais inocente que minha mãe.

Vitae

Agora, vamos à grande pergunta: Luciana, como anda seu francês? Bem, querido leitor, meu francês não anda, rasteja. Mas rastejar é melhor que ficar parado. Depois do curso de francês, tenho uma base, ainda que infima, pra formar algumas frases. Camilo passou a falar comigo, em grande parte do tempo, em francês (coisa que era impossivel antes do curso). Eu entendo muita coisa, ja posso participar das conversas e saber do que as pessoas estão falando, mesmo que eu ainda não consiga captar os detalhes da conversa (sei que uma pessoa viajou pro sul na terça-feira, de carro, com a namorada, mas não consegui entender o porquê da viagem, por exemplo). Mas ainda tenho MUITO caminho pela frente.

Hoje vamos resolver mais uma etapa do meu visto, a mais importante, talvez. E amanhã, vamos a uma agência de emprego me inscrever pra ver se eu saio do canto. Tou um pouco estressada com isso, porque... porra, eu não sei falar francês e nunca ouvi falar na minha vida de um emprego onde não se precise dizer uma palavra. E se eu precisar ir a uma entrevista de emprego? E se eu nem precisar disso, e for logo empregada, fico imaginando como vou entender as ordens do patrão, se ele vai ter paciência de empregar uma muda quando poderia empregar outra pessoa "mais habil" pro serviço. Enfim, muitas perguntas. Pode ser também que eu soh seja empregada quando tiver falando perfeitamente, afinal, emprego hoje em dia não cai do céu, ainda mais pra mudos. Nessa hora, eu penso que não adianta deixar a insônia me tomar a noite. Não adianta sofrer por antecipação, mas eu tenho um talento incomum pra isso. Mentalizo diariamente que esse pequeno inferno que eu tou passando por não saber uma porra de uma lingua vai acabar. Vai sim.

Mas antes, uma coisa esquisita. (Fabinho, tas ai?) Pra me inscrever na agência de empregos, precisei fazer meu curriculo. Camilo pegou o curriculo dele como base e saiu apagando as informações sobre ele e adicionando as minhas no lugar. Acontece que o curriculo de Camilo é muito bom. O cara é bilingue (mãe francesa, pai salvadorenho), sabe falar inglês e português numa fluência impressionante. Ja estudou na Espanha, estagiou na Suécia, fez projeto disso e daquilo outro na França e... Bla, curriculo bonito. O meu? Bom, o meu diz que eu entendo isso, mas que não falo muito bem, diz que eu compreendo tal lingua, mas não sei escrever (enrolação). Fala que eu sou formada em Historia e que fiz um estagio num arquivo que, porra, nunca vi serventia praquilo. Fim. Eu não pude segurar o riso na hora. Era patético. Mas esse riso se tornou num abatimento grandioso, do tipo "golpe de misericordia na auto-estima e no juizo dessa menina". Eu preciso me esforçar mais.

Enquanto isso, vou me virando. Fiz minha segunda faxininha na empresa de Camilo e o patrão dele (o nosso?) ja falou que era pra eu ir toda semana. Minha mãe me chama de Solineuza nos emails. Palhaça. Bom, mas ganhei 77 euros até aqui. Nada mal pra uma muda.

Rua dos Bobos

Senta que la vem historia...

Aqui na França, o calendario universitario começa em setembro (para ler mais, clique aqui). Eh por isso, que essa é a epoca mais dificil pra se arranjar moradia. Basta dar uma olhada nas comunidades de brasileiros na França pra ver que os topicos que se abrem com frequência são daqueles que estão à procura de um teto.

Os amigos universitarios aqui costumam juntar-se em grupos à procura de um apartamento pra dividir durante o ano letivo. E agora que chegou setembro, é hora de dar adeus a casa antiga e procurar uma nova casa, com novos (ou velhos) amigos. Atualmente, eu e Camilo dividimos um apartamento com um casal e mais um amigo, todos engenheiros ambientais. Gosto muito do pessoal da casa, mas definitivamente, é hora de renovar! Mudar de problemas, conhecer gente nova, conhecer gente que não faça engenharia, puta que pariu! (95% dos seres humanos que conheci através de Camilo são engenheiros. Cansa).

Então, com essa intenção, Camilo se juntou com um outro pessoal, e assim, partiram em busca de uma casa pra esse novo ano letivo. Acontece que agora não seremos cinco, seremos dez. E uma casa pra abrigar dez pessoas tem que ser, no minimo, grande. E é o que é nossa nova casa! Encontramos uma casa muito legal! Com quatro quartos, duas salas, duas cozinhas, garagem, jardim, porão e... somente dois banheiros. Mas as casas da França são mesmo "estranhas" em se tratando de banheiro: nunca tem suite, o sanitario fica num canto, o chuveiro no outro, o papel higiênico usado é jogado na privada e não no lixeiro. Confesso que acho a versão francesa mais pratica, menos em época de menstruação. Sempre me encontro sentada no sanitario, com uma porra de absorvente usado na mão, me perguntando "o que porra é que eu vou fazer com essa merda?". A vontade é de meter no cu do esperto que pensou em um banheiro sem lixeiro.

Tem uma cozinha e uma sala no andar de baixo e uma cozinha e uma sala no andar de cima. Como não precisamos dessa invenção toda, vamos alugar esses cômodos de cima. As pessoas que viram nossos anuncios começaram a visitar a casa na terça-feira passada. Então, foi por isso que eu não compareci à festa dos japoneses, porque eu queria ver as figuras ilustres que queriam morar concosco.

Recebemos uma menina que queria desesperadamente uma casa nova porque havia rompido ha dois dias com o namorado que morava com ela. Mas dai ela soube que o aluguel era somente pro mês de setembro. Depois desse periodo é que iamos selecionar as pessoas que ficariam. Todo mundo estava ciente disso, mas quando ela ouviu essa informação disse "ah, somente um mês? Então eu não preciso me esforçar pra ser legal". Nem preciso dizer que essa voou da parada, né?

Outro ser que chegou na casa foi chamado carinhosamente por mim de Vampiro. O cara tinha 42 anos, os olhos maiores que a cara, o olhar estranho de assassino e um jeito de andar de falar e de gesticular que por si soh denunciava que ele não tinha exatamente o perfil "jovem" (ou "saudavel"?) que estavamos procurando nos moradores.

Outro candidato era um mexicano que eu implorei pra que ficasse na casa como "teste" durante o mês de setembro. Desde sempre eu disse a Camilo que seria legal eu ter na casa alguém que não fala francês perfeitamente, que estah na fase do aprendizado (apesar do cara ja falar francês tranquilo). O povo aceitou. Nessa noite, o mexicano nos apresentou à uma amiga mexicana. Gostamos dela e perguntamos se ela não queria morar com a gente nesse mês. Ela aceitou. Agora todo mundo gosta mais da mexicana do que do mexicano. Adorei ela! Adorei ter americanos na casa! Espero que eles sejam legais e possam ficar durante o resto do ano.

Nesse mês, como a casa é grande e tem muita gente sem teto, passarão pela casa quase 20 pessoas durante as proximas semanas. Em outubro a coisa vai se normalizar. Saem umas pessoas, entram outras (eu e Camilo). Ah! Talvez recebamos aqui em casa duas brasileiras que estão sem teto também. Talvez.

Tou muito feliz com a casa. Muito mesmo. Ela é enorme, é cheia de detalhes, compartimentos, toda equipada, nova, linda! E eu vou ter um jardim novamente! Falta soh convencer as outras 642765 pessoas a ter um cachorro! Assim eu teria com quem conversar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Me restou o limão

O curso de francês encerrou na quinta-feira passada, 27. Foi esquisito, eu tava estranhamente emocionada por ter que me despedir de 15 japoneses que eu mal conhecia. Ok, que eu não conhecia em nada. Apesar de eles serem muito divertidos e fofos e educados e legais e tudo mais, a saudade era simplesmente pura tristeza e o prenuncio de mais uma outra temporada que eu passarei isolada dos outros seres vivos (os pensantes, claro, porque ser vivo por ser vivo, e eu estaria muito bem acompanhada dos tomates que Camilo cultiva ha meses aqui na janela do quarto. Tou quase tentando um dialogo com eles).

Numa sessão tosca, quer dizer, solene, recebemos o diploma, tiramos algumas fotos (a que estah no fim do post é a unica que as pilhas preguiçosas da maquina permitiram que eu tivesse) e depois fomos pra um salão encher a pança com uns aperitivos que a Universidade preparou. Chamaram aquilo de "confraternização", mas a briga do povo por um espaço perto da mesa não lembrava em nada um momento fraterno. Eu, que fiquei com medo de levar uma mordida de alguém, tive que me contentar com os bombons de limão que sobraram em cima da mesa. Também tomei um copo de Pepsi morna.

Depois da emocionante confraternização, fomos à ultima aula do curso. No fim dela, os japoneses tiraram mais uma duzia de fotos com a professora e, finalmente, me vi no momento da despedida. Fui séria e me apressei em sair da sala depois de ter recebido o ultimo "salut" do ultimo japonês, porque tenho pavor de despedida e abraço.

Acabei não indo pra festa dos japoneses. Tanto pra evitar mais uma despedida, como porque eu tinha uma coisa pra fazer: escolher os moradores da Torre de Babel versão francesa: minha proxima moradia. Assunto do proximo post.

Mas chegando ao fim e apresentando:

UM - Essa é a mexicana da turma, Lariza. Desconfio de que ela não foi muito com minha cara. Pela desconfiança, nunca me atrevi a falar com ela. Ela deveria desconfiar a mesma coisa em relação a mim, pois tampouco falou comigo durante todo o curso.

DOIS - Maiuko: a menina que me deu o prendedor de cabelo. Infelizmente, são as unicas informações que tenho à respeito dela.

TRES - Esse é Shohei, definitivamente, o cara mais disciplinado e estudioso da turma. Eh o unico dos japoneses que tem o inglês perfeito e o francês bastante claro.

QUATRO - Essa é a minha amiguinha Keiko! Hihi Sentavamos sempre juntas e faziamos todas as atividades em dupla. Eh ela a menina que citei em um dos posts passados.

CINCO - Mami Sugino: sentava do meu lado direito. Me corrigia centenas de vezes na gramatica. Eu sempre recorria à ela quando não sabia de algo (ou seja, quase sempre).

SEIS - Kaoru: a primeira pessoa que conversei no curso. Ela sempre foi fantastica comigo. Ela estuda na Italia e por isso entendia algumas coisas que eu deixava escapar em português.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Alguns dos meus gigantes

Eu tava lendo uma critica sobre os filmes do Monty Python no blog da Lola, quando vi o comentario sobre O Calice Sagrado: Em Busca do Cálice Sagrado é um mergulho à Idade Média, com cenas antológicas como a do cavalheiro (sic) que perde seus braços e pernas em uma batalha mas ainda quer lutar. Quando seu adversário desiste da luta já ganha, o toco de homem que sobrou grita "covarde!" (é interessante que esta comédia só foi realizada porque o beatle e fã George Harrison doou um milhão de libras ao grupo). Nesses momentos, eu suspiro. George Harrison, eu te amo duas vezes.

E, falando em Beatles...
Tudo indica que o filme Yellow Submarine sera refilmado em 3D. Sou aquela fã chata dos Beatles que considera que tudo o que eles fizeram é irretocavel! Detesto qualquer tipo de regravação das musicas deles. Ainda engulo Across the Universe por Fione Apple, mas soh porque não ha grandes mudanças na musica. Apesar disso, fiquei animada com a regravação do filme. Afinal, ainda é Beatles! O projeto é pra 2012 e eu (não) sou paciente.

E, falando em filmes...
Vai rolar um outro filme sobre Anne Frank, feito pela Disney. Esse sim me fez tremer as pernas. Anne Frank representa muito pra mim. Lembro da primeira vez em que ouvi falar sobre ela: rodoviaria de João Pessoa, 1994. Minha mãe comentou sobre essa menina que viveu escondida dos nazistas e que finalmente foi morta num campo de concentração. Nessa idade, eu tinha uma idéia bastante vaga do que era o nazismo, do que era um campo de concentração, mas a historia dela me chocou, me provocou uma curiosidade imensa. Passei os dois anos seguintes implorando pra minha mãe comprar o Diario. Quando eu ja havia esquecido da coisa, minha amada mãe chega com uma edição bem velhinha, paginas amareladas, que ja me davam a impressão de que eu tinha o original. Li o livro varias vezes durante a adolescência e a cada leitura ia descobrindo coisas novas. A identificação era incrivel, apesar de eu estar anos-luz da realidade dela. Absolutamente tudo despertava meu interesse no livro: o fato dela ser adolescente e ter que lidar com sua sexualidade de uma forma bastante limitada, tanto pelo espaço fisico como pela época vivida, cheia de tabus (na primeira edição do livro, foram, inclusive, suprimidas paginas em que ela tratava da sua sexualidade); a relação tensa que ela mantinha com a mãe; o fato de viver confinada num pequeno espaço durante anos com pessoas das quais ela não gostava; a situação de guerra em si (que sozinha ja traz traumas suficientes); a escrita profunda e sensivel de uma menina de apenas 13 anos e todas as criticas que ela faz sobre o mundo e sobre o Homem. Não sei, mas pra mim, uma pessoa que diz do fundo do coração, sei que nunca mais terei minha inocência outra vez, no contexto desumano da guerra, sabe do que ta falando. Eu tenho plena convicção de que o fato de hoje eu ser "historiadora" nasceu desses tempos em que eu passava horas no deposito de casa remexendo nos baus velhos dos meus pais e descobrindo todos os empoeirados, ouvindo musica "velha", lendo sobre a II Guerra e esses eteceteras da vida. Sim, sim: eu tremo as pernas!


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Olhos apertados apertados

Ontem, eu tive minha penultima aula de francês. Achei uma pena ser a penultima, pois foi o melhor dia. Não que tenha sido super divertido, mas simplesmente foi diferente dos outros. Pra começar, durante o intervalo de 10min que temos pela manhã, uma japonesa da sala se aproximou de mim, me entregou um pacote pequeno com as duas mãos e disse "cadeau". Tive dois segundos de lerdeza até entender que ela tava me dando um presente. Não entendi logo, não porque eu não tivesse compreendido o "cadeau" dela, é que eu simplesmente nunca falei com aquela menina, nem um simples bonjour, e la vem ela com um cadeau. Que fofo! Era um prendedor de cabelo. Agradeci e disse que era lindo! Que eu tinha adorado e que ia usar bastante porque eu prendo meu cabelo. Ela disse que notou - e quem não notaria?

A chuva do meia-dia me obrigou a almoçar dentro da Universidade. Eu costumo almoçar nos bancos da Place Carnot, naquele sol de matar, escutando os mendigos arabes gritarem uns com os outros. Eh um lugar bem tranquilo. Então, dentro da Universidade, abri meu lanchinho (macarrão com verduras), peguei minha colherzinha (eu tinha esquecido o garfo em casa, soh achei uma colher de cha na bolsa) e levei sete horas e meia pra terminar minha refeição.

Quando finalmente terminei de almoçar, dois japoneses (Shouhei e Tomonori) me convidaram pra uma festa de despedida na casa deles amanhã. Eu não tava pensando em ir, porque na quinta tem um show de jazz e eu ja tinha combinado com Camilo. Mas eles são tão legais! Tou em duvida, mas acho que vou. Porque sei, baseado no intervalo posterior a esse (o da tarde), que a coisa toda vai ser engraçada.

Nesse tal intervalo, eu abri um pacote de biscoito e ofereci à menina que senta ao meu lado esquerdo, e que geralmente faz os trabalhos em sala comigo, Keiko. Eu gosto dela, mas ela não fala. Outro dia, eu cheguei na Universidade e tava indo pra sala quando ela me parou. Eu olhei pra ela. Ela olhou pra mim. Ela apertou os olhos e começou a balbuciar alguma coisa. E eu fiquei ali, concentrada, esperando alguma palavra, mesmo que fosse em japonês, mas a danada não falou nada, ficou soh apontando pras escadas e disse algo do tipo "Aeeeuuuhhhggrrr". Velho, eu juro. Juro que foi assim. Ela soh deu um gemido! Ai, quando eu vi o pessoal da sala descendo as escadas, entendi que as aulas não seriam na sala de sempre. Ok.

Sempre foi assim, sempre sou eu quem falo com ela. Então, dessa vez, quando ofereci o biscoito, me surpreendi quando ela disse "husband". "Ok, ela quer saber sobre...".

- O nome dele é Camilo.
- (expressão interrogativa)
- Eh, não é um nome francês. Eh um nome da América Latina.
- (expressão interrogativa)
- Eh que o pai dele é salvadorenho.
- Ahhhh!
- Pois é.
- Aarrrhh... Et... Ahhh... (apontando pro mapa da capa do livro)
- Não, ele nasceu na França, mas...

Dai continuei a falar dos paises onde Camilo tinha morado com os pais, o que ele fazia, como a gente se conheceu etc. Depois disse que vim pra França porque Camilo precisava terminar os estudos dele.

- Mas agora ele vai ser contratado por uma entreprise.
- (expressão interrogativa)
- Hmm... Boîte? Tu entende?
- Aaaahhh! (ai ela começa a fazer uma dancinha)
- Não, não boite de dançar! Hahahaha Hmm... Firm, em inglês?
- FILM! OOOOOOOOOOOHHHH!
- Não! Não filme! HAHAHAHAHA!
- HAHAHAHAHA!

Nesse momento, outros dez japoneses ja prestavam atenção na conversa. Comecei a contar da minha queda de bicicleta, o porquê do meu capacete, do quanto gastamos com despesas médicas. Eh incrivel como eles aplaudem e riem! Pois bem, acho que vou pra festa.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Seven days

Como a vida de uma pessoa pode mudar em um periodo de sete dias!

Primeiro: estou formada! Iêi! Viva eu! Finalmente! E, claro: PUTA QUE PARIU! O tema do meu TCC se transformou lentamente na coisa mais odiada dos meus dias. Alias, tudo o que envolvia meu TCC se transformou numa coisa completamente repugnante. Não aguentava mais ir nas bibliotecas, falar com meus professores, conversar com meus amigos sobre isso. Agora estou extremamente feliz de ver os livros que usei para o trabalho, bem na minha frente, e pensar que "eu nunca mais vou abrir essas merdas novamente". Não vou sequer pronunciar aqui o tema do meu trabalho. Chega! Acabou! Estou formada! Agora o negocio é dominar o francês tal qual um francês e...

Segundo: ganhei meus primeiros euros! Quero dizer, por esforço proprio. Camilo estagia numa empresa e disse que ela estava precisando urgentemente de uma limpeza. Perguntou se eu não queria ganhar uma graninha fazendo uma faxina por la. De primeiro, não dei a menor importância, mas depois pensei que seria uma boa, afinal, além de eu não ter nada pra fazer agora, faxina é que eu faço todo dia nessa porra de casa sem ganhar nenhum tostão por isso ("obrigado" é bom, mas não é o suficiente).

Então, antes de ontem, fui pra empresa dar um jeito na zona. O patrão de Camilo disse que achava que eu limparia tudo em oito horas mas, mesmo que eu fizesse em menos tempo, ele pagaria o equivalente a oito horas de trabalho. A hora de trabalho aqui, baseada no salario minimo, vale 7 euros. Eu nunca ganharia 7 euros trabalhando como professora no Brasil. Alias, eu não ganharia nem mesmo 7 reais trabalhando com isso. O Patrão disse ha uns dias que eu poderia faxinar a casa dele e cuidar dos filhos, mas eu prefiro faxinar. Crianças correm e berram. Pias e sanitarios, não.

Estavamos eu e mais quatro amigos na rua quando fomos abordados por um coitado que queria um cigarro. Enrolaram um pra ele e ele foi embora feliz. Um tempo depois, ele voltou, pediu outro cigarro e tirou o relogio do pulso dizendo que era falta de educação pedir cigarro a uma mesma pessoa duas vezes, por isso, ele pediu pra que a gente aceitasse o relogio dele. Camilo recusou, mas o cara insistiu muito. Ele disse que uma carteira de cigarro so durava uma manhã pra ele e que o tabaco pra enrolar durava dois dias. Meu amigo, um pacote de tabaco, pra uma pessoa normal, dura uma semana! Mas não foi dificil acreditar que ele fumava tudo aquilo quando eu vi os dentes dele. Ou melhor, quando eu não vi os dentes dele. Agora Camilo tem um relogio.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O presente

Numa passagem rapida pelas coisas que aconteceram nesses ultimos tempos, me parece que tenho coisas legais pra contar. Legais pra mim, claro. Mas vamos por partes.

Dia 08 desse mês, fomos de novo à Chateaubriant. Dessa vez, para a festa que a mãe de Camilo estava planejando havia meses. O motivo, como eu acho que ja disse, era os 50 anos da mãe dele, os 20 anos do irmão e a comemoração do nosso casamento. Tivemos uma festa entre os amigos (de Camilo) no dia em que nos casamos, 09 de janeiro, mas essa nova festa seria para a familia (de Camilo) se inteirar dos acontecimentos. Bolamos até um diaporama pra apresentar nossa historia as pessoas. Quando puder, posto aqui.

Não nego que eu estava um pouco (MUITO!) nervosa, porque eu ia conhecer familiares que o proprio Camilo não via ha mais de 10 anos. Se seria estranho/novidade pra ele, imagina pra mim! A primeira pessoa que conheci foi Tia Renne, a tia-avô de Camilo, irmã da "mulher-maravilha" do post passado. Gostei dela. O engraçado é que Amanda, em um dos posts passado, comentou que os avos de Camilo deviam ter muita historia pra contar sobre a II Guerra ("ainda mais morando no Norte da França", ou coisa que o valha). Pois bem, Amanda, Tia Renne contou sobre um episodio que aconteceu durante a Segunda Guerra em que ela estava numa igreja no momento em que os Alemães invadiram a cidade dela e começaram a atirar "em tudo que se mexia". Ela disse que as balas passavam zunindo pelo ouvido dela, mas que ela conseguiu se salvar. Não teve a mesma sorte o namorado da irmã.

Eu fiquei me contorcendo de curiosidade! A vontade era de sentar no colo da velha e metralha-la, finalmente, de perguntas. Fiquei revoltada quando mudaram de assunto, como se aquele fosse qualquer um. Eu fico muito triste de pensar que, dos meus avos, eu nunca saberei nenhuma historia legal porque, quando eu finalmente atingi a maturidade pra conversar com meus avôs, eles morreram. Falta a avô materna. Mas creio que, pela distância que nos separa atualmente, a unica coisa que eu vou saber sobre ela é a noticia do obito.

Conheci as tias e maridos das tias de Camilo. Conheci os primos, os filhos dos primos, os amigos do colégio, as namoradas dos amigos do colégio, os amigos da mãe, os filhos dos amigos da mãe, a tia-avo. Isso me proporcionou a oportunidade incrivel de decorar em torno de quarenta nomes franceses. Isso me deu a oportunidade de conhecer Anette.

Ah, Anette!

Anette é um ser que, provalmente, não tem mais de três anos de idade e, assim como eu, Anette não domina o francês. Assim como eu, Anette não conhecia ninguém na festa. Vocês estão vendo que situação perfeita para nascer uma linda amizade? Anette jogou o seu elefantinho de pelucia na minha cabeça e assim começamos um joguinho saudavel onde ela procurava arremessar o bicho em mim (pela força não era para mim, era em mim mesmo). No entanto, percebi que Anette não poderia ser minha amiga quando ela quis ir ao banheiro e eu tive que limpar a bunda dela. Eh estranho ter uma amiga da qual você limpa a bunda. Mas tudo bem. Momentos depois, um primo de Camilo queimou a pobrezinha com o cigarro sem querer e eu fui lavar o braço dela. Diante dessa bonita historia de amor, a mãe pediu pra Anette tirar uma foto comigo.

A maior parte da festa foi somente constrangedora. Quando as pessoas perguntavam se eu sabia falar francês, a mãe de Camilo se adiantava e dizia, numa tentativa de me estimular e dar apoio, que sim. Mas a festa não foi de todo ruim, afinal, uma festa de casamento que se preze tem presentes. E os presentes que escolhemos foi dinheiro: para esse atual momento-liseu não poderiamos ganhar nada melhor. Ganhamos uns patês (que eu não vou comer), ganhamos umas orquidias (que deixamos no trem), uns porta-retratos (que esquecemos em Chateaubriant) e uns pratos LINDOS (que tivemos que deixar la por ja estarmos carregando peso demais). Tou feliz.


Anette é boa gente.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Chique é saber se expressar

Antes de escrever sobre a tal festa que citei no post passado, um pouco dos ultimos acontecimentos no curso de francês.

Na quinta passada, eu tive a segunda aula e a surpresa de recebermos novos alunos na sala. Sete novos alunos. Sete novos alunos... japoneses. Naquele momento éramos uma mexicana, uma brasileira, um chileno e 765 japoneses. Essa aula conseguiu ser ainda mais agoniante que a primeira porque tive a certeza de estar no grupo errado. O nivel do francês era o ideal pra mim, mas o nivel da turma me preocupava porque os professores tinham de ensinar aos alunos coisas obvias (pra mim), como a diferença de pronuncia entre o T e o D.

Eis que surgiu alguém com bom senso dentro daquela universidade e formou um oitavo grupo de retardados, quer dizer, de iniciantes, e eu, ainda bem, fui mandada para esse oitavo grupo. Iêi! Nessa nova turma a maioria dos alunos também é de japoneses. Também ha uma mexicana e também ha um iraquiano, o filho do casal da primeira turma (iraquiano, não iraniano, como eu disse no post retrasado. Valeu, Amanda!). Mas o ritmo é bem melhor, o que faz com que eu viaje nas aulas muitas vezes. Mas eu prefiro assim.

Ainda não tenho nenhuma amiguinha ou amiguinho feliz e ja desisti de fazer amizade: percebi pelas conversas (sondagens) que os japoneses vieram à Lyon somente para esse unico mês de curso e, como não existe outra etnia dentro do curso...

Gosto dos japoneses. Eles sempre estão tentando puxar assunto. Hoje uma das meninas perguntou porque eu tinha um capacete de bicicleta (me perguntei se existia capacete no Japão, depois achei que ela estivesse desesperada pra puxar um assunto, depois respondi, finalmente). "Porque eu tenho uma bicicleta". Vocês precisavam ver a felicidade da figura diante da minha resposta. Ela abriu um sorriso enorme, logo depois de um sonoro "aaaaaaaaahhh". So faltou bater palminha. Uma outra la, quando soube que eu era casada com um francês, fez uma careta que poderia ser traduzida num "que chique!" e começou a rir tresloucadamente. Os japoneses são muito expressivos.

Mesmo sabendo que se trata de uma relação sem futuro, eu gostaria de poder me comunicar decentemente com algum deles. Mas eu nunca entendo o que eles falam! Seja em que lingua for. Quando pergunto se sabem falar inglês, respondem orgulhosos que sim. Então, continuo:

- Ah, ok! So... How long are you staying in Lyon?
- Oôôô... Ajaga jiga buga mora! :D
- Humm... I see. Err, and where did you come from?*
- Araka tufa! :D

Eu digo que entendi mesmo sem entender, porque eu fico com vergonha de dizer mais de sete vezes que eu não entendi. A japonesa do suposto "que chique" fez uma pergunta e eu disse que sim. Ai ela fez uma cara esquisita e eu disse "desculpa, repete". Mongol.

Bom, em breve, cenas dos proximos capitulos.

*eu falo o que eu sei falar, não o que eu quero saber

O terrivel destino dos coelhos

Ha um mês Camilo e eu fomos à Chateaubriant, cidade onde moram os pais dele, no norte da França, para provindeciarmos junto à mãe dele os detalhes de uma festa tripla: comemoração do nosso casamento, dos 50 anos da mãe e dos 20 anos do irmão do meio. Aqui na França se costuma antecipar ou retardar esse tipo de comemoração de maneira que aconteça nas estações quentes. Acho que eu e Camilo somos o unico casal de Lyon que casou perto dos 0°.

Na ocasião dessa visita à Chateau, conheci a casa dos avos de Camilo. Os avos dele, juntos, tem (têm) mais de 180 anos. A avoh é aquela mulher-maravilha que faz tudo (ela propria se auto-intitula une femme a tout faire). Apesar de estar perto dos 90, corta lenha com um machado maior que ela, é impressionante. Na propriedade dela, tem pé de uns 15 tipos frutas. Tem galinha, pato, coelho (pra consumo pessoal) e umas plantações que eu esqueci de que eram.

Com essa idade, acredite, ela sabe muito sobre as coisas que cuida. Quando ela era pequena, enquanto cuidava das vacas da familia, ela transplantava galhos de uma planta para outra e o resultado era uma planta melhorada. Ela pega um galho de um tipo de maçã, por exemplo, junta com outro tipo e dai sai uma maçã mais bonita (ou uma rosa mais bonita, o que seja). Camilo diz que ela não é a pessoa mais humilde que existe, que ela vive se elogiando, mas isso não me incomoda. Primeiro porque, com essa idade e com as coisas que ela sabe, eu acho mesmo que ela merece elogio. Depois porque eu não entendo porra nenhuma do que ela diz, então, tanto faz.

Mas, na ocasião dessa visita à Chateau, além de eu ter conhecido a casa dos avos dele, eu quase conheci uma Luci vegetariana. A mãe de Camilo disse que iriamos até a casa dos pais dela pra comermos coelho. Beleza, eu nunca tinha comido coelho na minha vida. Alias, acho que se eu algum dia na vida comi alguma carne que não fosse de vaca ou de frango, foi porque me enganaram e me cozeram um gato, porque eu não sou muito fã dessas iguarias.

Chegamos na casa dos velhinhos e, assim que eu entrei na cozinha, me deparei com minha proxima refeição morta em cima de um prato, banhada de sangue, com os olhos negros esbugalhados e os dentes de fora. Não dava nem pra entender como um coelhinho fofo e saltitante tinha se transformado naquela coisa bizarra. Eu tive aquele choque instantâneo e fiquei parada observando o coelho me observar. Ali, parada. Luciana - pensei - não crie caso, querida, você vai ter que comer essa porra de coelho, então, pare de olhar pra ele.

Então, fomos dar uma volta e Camilo me chamou pra vermos os outros coelhos (vivos). Quando eu tava entrando no galpão, vi uma das patas do coelho-jantar decepada no chão. Ai soltei um gritinho de nojo pra mãe de Camilo. Foi quando eu vi a outra pata pendurada bem perto da minha cara. Foi foda. A mãe de Camilo riu e contou que, quando o irmão de Camilo era pequeno, a avoh matou um coelho e disse pra Manuel "olha como eu tiro o pijama dele" e puxou a pele do bicho de uma vez. Show de sensibilidade.


Quando voltamos à casa, o coelho estava virando churrasco. Quando foi posto no meu prato, o coelho estava virando minha barriga. A avoh pôs a cabeça do bicho no prato - que ja não estava tão assustadora, visto que agora os olhos estavam fritos, e os dentes, quase imperceptiveis. Eu peguei uma pata. Ou o resto dela. A avoh deu a ordem de comer usando as mãos. Ou seja, o cenario estava feito: mata o coelho, tira a pele, sangra, joga no fogo, pega com as mãos, como verdadeiros selvagens, e mastiga a carne do bicho.

Sai do ritual achando que eu nunca mais comeria carne na vida. Na verdade, eu nunca mais quero ver o que acontece com o bicho antes de ele estar no meu prato. Não, não é (somente) falta de consciência, é questão de praticidade mesmo: ainda não cheguei ao ponto de achar que posso manter uma dieta rigida que exclue a carne. Por questões ambientais, temos comido menos carne, mas nada além disso.

De qualquer forma, acho que essa familia não gosta muito de coelho (vivo). Ontem mesmo Camilo atropelou um. "Pô, esse foi o segundo". Tsc.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A proposito, ela é mexicana

Post escrito na terça, 04

A prova de que meu inglês não é bom, é que ouvi perfeitamente ontem que a minha primeira aula do curso de francês seria amanhã (dia 05). Ouvi tão "perfeitamente" que, quando Camilo ligou hoje pra Universidade, disseram a ele que as aulas começavam hoje. Então, sai de casa no momento em que deveria estar entrando na sala de aula, às 9h da manhã. Eu ainda tinha que passar em outro prédio, responsavel pela administração da Universidade, onde estaria afixado meu nome e meu grupo. Groupe A. Beleza. Vi que era um grupo de 15 pessoas e, pelos nomes, percebi que não veria muitos ocidentais na sala.

Na sala, nenhuma surpresa: dois terços da turma eram formados por orientais. O exercício que estava sendo praticado no momento, era a forma de se apresentar. Comment vous vous appellez? Quel âge il a? e outras variações. Foi através das respostas que soube que três dos alunos eram iraquianos. O mais jovem deles estava sentado na minha frente (a sala estava disposta em forma de U), mas foram os outros dois que me chamaram a atenção. Era um casal de mais ou menos 50 anos, que lembrava muito meus pais. O cara não sabia falar picas de francês e errava pra caralho. Até ai, tudo bem. Só que, quando o professor pedia pra esposa dele dizer alguma coisa e ela errava, OU NAO, o cara ficava maluco de raiva. Ele ficava cochichando pra ela a resposta “certa”, com aquela tensão, sempre se metendo no que ela dizia. Em um dos gravíssimos erros dela, ele chegou a levar as mãos à cabeça e a apertar os olhos. Pois então, meu pai é assim. Ele acha que a esposa dele é o ser humano mais estúpido na face da terra e que ele é, por sua vez, o mais inteligente. E ele faz questão de deixar isso bem claro. Bom, mas isso é uma outra história e deverá ser contada em outra ocasião.

Depois de ver que dividia o espaço com nove japoneses completamente entrosados entre si, três iraquianos que não me causaram a menor curiosidade e um chileno na casa dos 50 anos, meu olhos se voltaram praquela que eu julgava ser uma amizade em potencial: Maria Fernanda. Nacionalidade: ignorada. Passei a manhã toda analisando o sotaque da menina, as roupas, o cabelo e a desenvoltura pra ver se adivinhava a nacionalidade dela. Nada. A unica coisa que percebi foi o iraniano olhando pra minha cara.

A aula da manhã acabou, fui pra casa, almocei e voltei correndo pra aula da tarde. Vi que os alunos sentaram nos mesmos lugares, então, num ato desesperado, sentei na cadeira vizinha àquela que a tal Maria havia sentado de manhã. Mas quem ocupou a vaga dela foi o iraniano! Gah! Pra aumentar minha felicidade, descobri que ele é o tipo do aluno que fala mais que o professor, daquele tipo tabacudo que quer mostrar que sabe tudo, a qualquer custo.

- Vocês conhecem os numeros?
- OUI OUI OUI!
- Otimo, então vamos passar pra...
- UN! DEUX! TROIS! QUATRE!
- Que bom, vejo que sabem.
- CINQ! SIX! SEPT!
- Ok, então..
- HUIT! NEUF!

E eu la, revirando os olhos.

Eu gostei de finalmente estar saindo de casa, de ter quebrado a rotina, mas acho que as aulas não vão ser bem como eu esperava, porque é dificil ter aulas de francês quando a grande maioria da turma nem sequer tem o mesmo tipo de escrita que a nossa, ocidental. Então, uma das coisas que a professora precisou ensinar ontem foi o alfabeto. E ela escreveu o alfabeto de três maneiras diferentes. Em maiusculo, em minusculo e depois da forma que vem escrito nos livros (a forma do teclado do seu computador). Nada mais natural, afinal, o caderno de cada uma daquelas pessoas, com exceção do meu, do do chileno e do da Maria Fernanda, era cheio de codigos indecifraveis. Japonês e arabe. Então a turma anda na velocidade lesma. Tendo que aprender o basico do basico. Mas enfim, paciência.

Agora vou tratar do meu TCC, porque nem so de França vive Luci.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Rien!

Não sei se ja disse aqui, mas Camilo me inscreveu num curso de francês com duração de um mês. Do 03 ao 28 de agosto. Finalmente! Essa dinâmica diaria de escutar ele falando português, Raphe falando francês, Seb falando inglês e Pierre falando espanhol, não vai me levar muito longe. Afinal, desde que eu cheguei aqui, não tive mais que três aulas seguidas de francês com quem quer que fosse. Não sou, definitivamente, a melhor pessoa pra estudar por conta propria. Joguei a toalha e agora entrei no curso. Doi dizer que ele nos custou 600€, mas eu confio no retorno que isso me dara (espero que haja retorno! espero que haja retorno!). Confio mesmo.

Hoje foi o teste de nivelamento. Por algum motivo eu desconfio que estarei no nivel mais baixo. Tão baixo que é provavel que inventem um nivel soh pra mim.

1. Avançado
2. Intermediario
3. Iniciante
4. Luci

De qualquer forma, cheguei no prédio da prova, sentei la no fundão (pra observar as pessoas) e fiquei esperando. Impressionante o numero de asiaticos! Eram tantos, que havia uma tradutora so pra eles.

Bom, dai entregaram as provas. Eu dei uma olhada rapida em cada questão e ri internamente. "Não sei, não sei. Não sei... Opa, mas essa aqui... também não sei". As primeiras questões tinham uma frase com uma lacuna e cinco opções de resposta. Eu lia a frase, chegava na primeira opção e dizia "é essa!". Mas dizia o mesmo pra todas as outras quatro opções. Algumas so mudavam a ordem de duas palavras. Outra questão era pra transformar certas palavras em pronomes, em adjetivos (e eu também não sabia). Outra questão apontava a foto de um casal num restaurante e dizia você esteve neste restaurante e escutou a conversa deste casal (que bonito). Escreva a um amigo, usando 200 palavras, sobre o que você ouviu. Eu escrevi "querido amigo, não sei sobre o quê o casal conversava porque eles eram franceses". Achei melhor que deixar em branco.

Fiquei feliz ao ver que a prova de uma das meninas foi entregue com uma pagina inteiramente em branco. Viu como eu me preocupo com as pessoas? Bom, pelo menos não foi dificil ler a prova ou entender o que a professora explicou antes do teste ser aplicado.

Quando terminei o teste escrito, me conduziram pra uma sala onde seria aplicado o teste oral. Este é que foi engraçado! A professora sentou, perguntou meu nome. Eu respondi. Depois, perguntou minha nacionalidade. Eu respondi. Depois ela perguntou se eu ja tinha feito alguma aula de francês antes. Eu gaguejei. Eu gaguejei. Eu gaguejei. Mesmo antes de eu decidir responder isso em inglês, ja havia ficado claro que eu nunca havia tido aulas de francês. Então, eu disse, em inglês, que eu nunca tinha tido aulas antes e que

- eu não falo nada em francês.
- Nada?
- Nada.
- Nada?!
- Nada.
- Nadinha?!
- NADA, CACETE!

Eu tava quase dizendo que falava a porra da lingua pra ver se ela parava de perguntar. Que coisa. Então ela continuou a fazer as perguntas em inglês. Queria saber como conheci a Universidade, se era minha primeira vez na França, quantas linguas eu falava, o que eu esperava do curso etc. Em cinco minutos eu estava saindo do prédio ja ciente do nivel em que ia ser colocada, mas rezando pra que não fosse a unica a estar la.

Talvez

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