Hoje, enquando eu estava indo pro metrô, vi uma figura sombria andando à minha frente. Era uma menina vestida de preto, com um vestido que deveria ter sido da tataravoh dela e que era tão bizarro que soh poderia ter sido comprado numa loja de fantasias. Deu um noh na minha cabeça ver uma camponesa do seculo XVIII pegando metrô. Essa é uma das coisas das quais eu adoro aqui. O fato de poder ser camponesa do século XVIII e pegar metrô? Não, querido leitor, é o fato de que você poder andar como quiser sem que ninguém se importe/olhe/aponte/ria. Impagavel.
Isso me fez refletir um pouco sobre a forma com a qual eu me visto na França. Em João Pessoa, nada passa despercebido aos olhos dos outros. Nada. Aqui, eu tenho mais liberdade pra ser quem eu quiser porque:
a) na França, ninguém me conhece;
b) Camilo não cobra que eu funcione no modo princesa;
c) as pessoas aqui não fazem alarde sobre a forma com a qual você se veste;
Por esses três motivos, eu me peguei indo pra padaria outro dia com o cabelo do jeitinho que ele estava quando acordei de manhã. E alias, vestida numas calças que eu uso pra dormir no inverno que, além de tudo, estavam manchadas. E, na verdade, noto que minha vaidade em geral tem arrefecido e isso, ao contrario do que possa parecer pra maioria, é muito bom.
Acho que eu tenho uma sorte muito grande de ter Camilo como namorado. Porque, sinceramente, não é todo namorado que briga com você por você ter se depilado cedo demais. "Deixa esses pelos crescerem! Cadê teu feminismo?", ele pergunta. E ninguém aqui pensa que sinônimo de feminismo é cultivar pêlo. Mas ninguém pode negar que gilete/cera é uma tortura, e é uma tortura pela qual os homens não passam - não esqueci de vocês, nadadores, beijos! - e que a gente passa... por que mesmo?
No meu caso, se eu não devo satisfação aos desconhecidos do metrô, se eu gostaria de aumentar o espaço entre uma depilação e outra e se meu proprio namorado ta pouco se fudendo pro caso, por que eu continuo me torturando? Resposta: eu continuo me torturando por causa do segundo tipo de pessoas que leem esse blog. O primeiro tipo vai pensar "é verdade, depilação, vaidade em excesso, pressão sobre a mulher estar sempre bela é uma merda". O segundo tipo vai dizer "sebosa. Casou e agora ficou desleixada. Pobre Camilo".
Graças aos anjos de Jesus Cristinho, tudo nessa vida tudo é questão de equilibrio.
Não, você não vai ver minhas axilas nesse
estado. Jamais. Eu soh não uso brincos quando vou dormir. Eu uso creme hidratante todo dia. E, se pudesse, continuaria indo pro cabeleireiro a cada três meses, como fazia no Brasil. Por outro lado, não perco o sono quando vejo minhas celulites e estrias. E tampouco faço dietas agressivas pro meu corpo pra deixa-lo mais Gisele. Não suporto maquiagem (outra droga que Camilo me encorajou a largar de vez). Não uso salto. E, melhor de tudo: sei que eu poderia ser diferente em muitos sentidos em relação ao padrão de beleza e de comportamento imposto pras mulheres porque tenho o ambiente ideal pra trabalhar isso. Admito que é triste que eu não tenha me dado conta disso tudo sozinha e que precisei de ter um homem compreensivo ao meu lado pra me fazer enxergar estas coisas. Mas eu não lamento, eu comemoro.Comemoro também o fato de eu poder, com ele, chamar palavrão pelos cotovelos e não escutar nenhuma frase do tipo "isso não é coisa pra mulher", sentença que me atinge ainda mais fundo quando é falada por mulheres, porque vejo isso como um tiro no pé. Uma francesa outro dia disse que eu falava demais "putain", mas nunca a vi censurar o namorado que faz a mesma coisa, e olha que ja morei com os dois. E ha umas semanas, foi uma brasileira no Orkut que disse que meu blog era de mal gosto, que tinha palavrão. Muito triste. Eu entendo que minha avoh pense parecido, mas meninas de 30 aninhos? Enfim, infelizmente, pega mal pra mulher ser agressiva. E no quesito comportamento, eu tou muito mais dentro daquele campo t
ido pelo senso comum como sendo o campo masculino: beber cerveja, sentar de perna aberta, falar palavrão, arrotar. Sou praticamente Hagar, o Horrivel! Grrrau!Ok, voltando...
Seja como for, falta muito pra que eu me sinta realmente livre com meu corpo, minhas roupas e meu comportamento. O objetivo não é virar uma mendiga, é somente alcançar um nivel de esclarecimento sobre as coisas que me impeça de sofrer por causa da minha (falta de) feminilidade. Como também não julgar quem ainda não conseguiu enxergar essas coisas. Afinal, eu ainda não cheguei la e não quero ser julgada.























