terça-feira, 24 de novembro de 2009

Oinc

Passei o ultimo domingo em frente ao computador curtindo uma insistente ressaca da bebedeira do dia anterior. No final do dia, comecei a sentir uma cansaço extremo, dores nas costas, na cabeça e uma sensação de febre. Pensei que ressaca tava indo longe demais. Fui dormir e acordei as 4:30h da madrugada com a cabeça estourando e uma febre alta. Depois de me dar remédio e procurar (em vão) o termômetro, Camilo foi pro Google pra saber o que eu tinha.

- Acho que tu ta com gripe.
- Mas eu não tou espirrando.
- E dai?

Sei la, pra mim gripe = espirro.

Como eu não queria esperar que meus pulmões se desfizessem em catarro pra procurar um médico, pedi pra Camilo marcar, na primeira hora util do dia, uma consulta pra mim. As 14h fomos visitar uma francesa de sobrenome arabe (Camilo escolheu ela pelo sobrenome. Preconceito?). Ela confirmou que eu tava com gripe. Não com a gripe, mas que, em todo caso, ia me tratar com o tal do Tamiflu. Bom, depois ela disse que eu tava com uma versão light da Gripe e eu não entendi mais nada. So que eu deveria ficar, obrigatoriamente, cinco dias em casa. Essa é a parte boa. Quer dizer, essa é a parte ruim. Não sei.

Fiquei pensando se a vacina ou o Tamiflu teriam efeitos colaterais complicados e acabei achando isso aqui na internet:

Existem preocupações de que o oseltamivir (Tamiflu) pode causar perigosos efeitos colaterais psicológicos, neuropsiquiátricos, incluindo automutilação em alguns usuários.

Lim-pe-za. Chegar pra Camilo com meia perna e dizer que foi culpa da gripe. Bom, de qualquer forma, liguei pra mme. Cler pra avisar que eu soh voltarei a trabalhar segunda e ela pareceu bem compreensiva. Mas agora é bom que todo mundo seja compreensivo comigo: agora eu sou uma pessoa perigosa. Então, se vocês tiveram algum amigo do qual não gostem, eu posso tossir na cara dele, sem problemas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ai, se sêsse...

Hoje foi o segundo e ultimo dia de palestra da Prefeitura. Se ontem eu achei que tinha visto muito preconceito, é porque não esperei pra ver a sequência cômica de hoje.

Antes de tudo, lembrei que M. disse ontem que ele pensava em ir pra Strasbourg (cidade colada com a Alemanha) porque ele achava que la tinha menos desse povo. Ta bom, meu filho. Strasbourg é o recanto perdido dos ultimos franceses puros deste pais. Hoje a sala de aula tinha menos arabes. A maioria era de um outro pais que ficava no sul de sei la onde (veja como eu presto atençao nas informações). Comentario de M.: "hoje tem menos dessa porra desse povo!". Com todas essas letras. Gentil.

Mas M. não teve o privilegio de ser a unica figura intolerante por ali. A palestra de hoje girava em torno da historia da França e dos direitos dos cidadãos. Falava bastante de 1789 e do quanto esse povo (dessas vez, "esse povo" são os franceses) repudia as diferenças e trata seus filhos e seus imigrantes como iguais. Eu fiquei emocionada. No final da palestra, a mulé passou um questionario pra gente com questões do tipo:

- A mulher tem os mesmos direitos que o homem na França? ( ) sim ( ) não
- Um homem pode se casar com outra mulher mesmo estando casado? ( ) sim ( ) não
- O chefe da familia é o homem? ( ) sim ( ) não
- As mulheres devem pedir autorização do marido para utilizar metodos anticoncepcionais? ( ) sim ( ) não

Ao final, fomos corrigir as questões. Eu sabia que muita gente ali achava que o homem é o rei do lar, mas eu não imaginava que eles iam gritar isso dentro da sala pra todo mundo ouvir. Em relação à ultima questão, um dos caras respondeu "eu não concordo!". E a palestrante rebateu "é, mas não funciona assim".

A mulher que tava sentada na minha frente, devia tah se achando A pensadora liberal, racional, evoluida, porque, toda vez que a palestrante dizia que, por exemplo, a mulher na França tinha direito de escolher com quem queria se casar, ela dizia "ah, mas isso é obvio, em todo pais é assim". Eu ja tava ficando puta! Porque, ô, criatura, ou tu é muito ingênua/ignorante pra achar que isso é muito obvio e que a realidade da mulher em todos paises é assim (livre-arbitrio) ou tu ta dando uma de doida. Finalmente a palestrante respondeu à essa também dizendo que, não, coração, não é assim em todos os paises. Ai, se sêsse...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

T-o-l-e-r-â-n-c-i-a

Uma das minhas obrigações perante o Estado francês para permanecer no pais estah em assistir dois dias de palestra sobre a cultura francesa, como os direitos trabalhistas, o sistema de saude, o funcionamento escolar, os direitos e deveres do imigrante etc. Para esse evento, realizado hoje e amanhã, foi contratato um tradutor português especialmente para minha pessoa. O nome dele é M. e eu o conheci no dia em que fui assinar o Contrato de Integração e Acolhimento. Ele foi meu intérprete na ocasião. Agora, meses depois, nos encontramos de novo. Ele é pernambucano e, de cara, nos demos muito bem porque... Bom, ele é pernambucano.

Apesar de M. ser legal e da gente se dar bem e de conversar bastante sobre qualquer assunto e de até nem ficarmos constrangidos no silêncio, desconfio gravemente que não seriamos assim, chegados, se tivessemos nos encontrado em outra situação que não a do estrangeiro. Seguinte: a sala da palestra era composta de arabes, arabes e arabes. E eu (das 25 pessoas na sala, eu era a unica não-arabe). Aos dois minutos do primeiro tempo, M., quando foi se referir aos arabes, soletrou a palavra: "os a-r-a-b-e-s..." e eu fiquei sem entender o porquê de tanto segredo. Na segunda, na terceira e na quarta vez, ele usou "esse povo" pra se referir aos, err... a-r-a-b-e-s. (Shhhi!) Comecei a achar que ele tinha problemas com os arabes quando a expressão foi mudando de cor e de tom, quando "esse povo" se transformou em "ESSE POVO!" com direito a entortada de nariz. E, obviamente, eram sempre frases negativas e, as vezes, desconexas. Eu:

- Tu acha que todo mundo aqui (olhando pros arabes) é casado com francês? Ou eles assinam o Contrato porque trabalham na França?
- Menina, esse povo não é casado com francês não! Err, teu marido é francês-francês? Hum! Então, esse povo casa com francês e traz a cultura deles pra cah e depois enchem a boca pra dizer que são casados com franceses!
- (Eh o que, homi?)
- Eles casam com um francês que passou a vida toda lah. Eles passam a vida toda lah e depois vem pra cah com a cultura deles e não se adaptam! Entendeu?

Não.

Depois de uma certa confiança, M. foi rebaixando os arabes e dizendo que era dificil competir com eles porque essa gente soh da emprego pro povo deles. E era um tal de essa gente! pra cah e esse povo! pra lah e eu comecei a achar que os arabes pro M. eram assim, gente de outro mundo, de outro universo, quem sabe nem eram gente.

Eh incrivel como francês e arabe aqui não se mistura. E a resistência, a meu ver, vem de ambos os lados. Outro dia, quase tive um ataque cardiaco ao acompanhar um topico 100% brasileiro no Orkut sobre a presença arabe na França. A questão era sobre adaptação e, à certa altura, uma fulana comentou que ela fazia o maior esforço pra se adaptar à cultura francesa e achava que, se os arabes não conseguiam se adaptar aqui, eles deviam voltar pra terra deles!

Sabe, por exemplo, essa terra?

A fulana falou que ela teve que se adaptar às formas de redigir um trabalho no computador (por exemplo, ao escrever em francês, a gente deixa um espaço entre a ultima palavra e o ponto de interrogação. O mesmo serve para o sinal de dois pontos). Ela também teve que se acostumar com a agua daqui, que é diferente. Ela teve que se acostumar a um bocado de coisa, minha gente. Eu fiquei com pena dela, quase não consegui dormir naquela noite pensando o quanto deve ser duro pra ela apertar a barra de espaço toda vez que precisa colocar o ponto de interrogação. Deve ser horrivel.

COMO eu posso comparar minha adaptação na França com a adaptação de um arabe aqui? Pra mim, a coisa mais dificil de assimilar até agora na França é o fato de que minhas chances de ser estuprada ou assaltada aqui são quase inexistentes. Foi o maior choque cultural. Eu não precisei deixar minha religião fora do meu lugar de trabalho, de estudo, eu não precisei aprender outros codigos linguisticos, outros codigos juridicos, outros codigos... sociais. Não, não defendo a isolação do arabe na França. Até porque deu uma peninha tão grande quando aquela mulher de 50 anos me parou no Leader Price pra saber qual o produto era mais barato, se aquele de 85 centavos ou o de 92!

Tah dificil. Se um imigrante não pode compreender a situação de outro imigrante, o que porra eu posso esperar dos franceses?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Construindo clichês

Agora que eu escrevi a introdução, hihi, vamos à coisa curiosa que me aconteceu. Não fiquem curiosos, não é tão curioso assim. Eh tosco.

Ha algumas semanas, antes mesmo de eu entrar no curso de francês, os alunos da minha turma estavam trabalhando numa pesquisa sobre seus proprios paises a fim de apresenta-los durante as aulas da sexta-feira. Peguei o bonde andando, mas como o trabalho não é assim, acadêmico, fiz meu cartaz sobre o Brasil e fui convidada a abrir as apresentações na sexta passada.

No começo, fiquei um pouco nervosa e tive que me conter pra não quebrar os dedos da mão no estalar sem fim. Isso durou três minutos. Depois fiquei toda empolgadinha e sai falando sem parar sobre os portugueses, os indios, o presidente Lula, o dedinho que lhe falta, a feijoada, o Nordeste, o Real, o povo "catolico" do Brasil etc. Falei até dos filmes de pornochanchada dos anos 70. Não falei de caipirinha, nem de futebol, mas falei do carnaval! Disse que existia dois carnavais super tradicionais no Brasil: o do Rio de Janeiro e o de Olinda. Claro que eu puxei a brasa pra sardinha daquele que eu adoro! No final, depois de uns 20min de apresentação, sentei no meu lugar razoavelmente satisfeita, me perguntando quais as conclusões que as pessoas tiraram do Brasil depois do meu seminario.

Foi quando a professora se virou e disse que estava curiosa e que tinha uma ultima questão: "como é o carnaval de Olinda, o que vocês fazem?" Soltei um risinho porque pensei no quanto seria complicado descrever aquele suplicio nas ruas de Olinda como sendo bom, mas tentei resumir: "Ha muita gente por todo lugar. Eh preciso alugar seu alojamento muitos meses antes. Dai a gente sai nas ruas... E fica todo mundo por aih, dançando. A toda hora passam as bandas de fanfarra... tocando musicas de... carnaval... e... as pess... buuaaaaaaaaaaaaa!"

Sim, eu chorei!

Hahahahahaha! Eu chorei! Eu chorei muito! Minha gente, vocês não estão entendendo: eu chorei na sala de aula falando sobre o carnaval! Nossa! Eu rio toda vez que lembro dessa palhaçada, mas é porque foi muito cômico (ridiculo). Acho que eu fiquei emocionada quando lembrei do loloh. Vocês deveriam ter visto: as sete pessoas na sala pararam todas de respirar e olharam pros seus pés, completamente mudas, sem saber o que dizer. A professora saiu pra buscar agua e, quando voltou, eu ja tava rindo, morta de vergonha.

Mas uma coisa é flagrante: a ultima coisa que eu disse antes de parar de chorar (quando eu consegui dizer alguma coisa) foi "é porque aqui é muito diferente" e segurei com todas as forças a nova demanda de lagrimas. Falei por 20min do meu pais. Da musica, do cinema, de politica, das praias, mas quando lembrei do carnaval, da festa, das pessoas loucas que aquele pais tem, sim, eu chorei. Não acredito no clichezão de que os franceses são frios. Não, não são. Ja me diverti muito com os franceses que conheci, mas lembrando dos brasileiros, a diferença é do tamanho da distância que separa os paises em questão. Agora acho que ajudei a consolidar mais um clichê nesse mundo: no final das contas, acho que o pessoal da sala concluiu que brasileiro gosta mesmo é de carnaval.

Conclusões da introdução

Na ultima sexta-feira aconteceu uma coisa curiosa comigo. Calma, não tem nada a ver com arabes, policiais ou quedas de bicicleta. Mas antes de falar sobre o caso, uma pequena introdução - que pode durar até o ultimo paragrafo.

Sempre me perguntei como seria a minha adaptação na França, mas toda vez, antes mesmo de raciocinar e colocar os pontos positivos e negativos sobre a mesa pra analise, eu me desesperava e começava a choramingar. E a chorar. E a berrar. No entanto, pra minha surpresa, uma vez aqui, eu nunca me peguei roendo, desejando voltar, tomada pelo banzo. Inclusive, quando as pessoas me perguntam, com uma voz meio "solidaria", se eu gostaria de voltar pro Brasil, se espantam quando eu digo um espontâneo "não".

- Eh melhor aqui ou la?
- Aqui.

- Você pretende voltar?
- Pras férias.

- Você telefona muito pros seus pais?
- Eh, telefonei uma vez...

E assim por diante. E antes que vocês tirem suas conclusões, não, a França não me deixou "fria" e muito menos eu fiquei maravilhada pela "civilidade" (cof cof) francesa. Acho que as pistas pra encontrar o motivo dessa "dureza" repentina são questão de auto-sobreviência e rancor. Vamos apresentar nossos candidatos:

Questão de auto-sobrevivência: apesar de pequena, a minha cidade abriga todas as maiores felicidades que eu tive na minha vida, seja em forma de pessoas, de comidas, de bichos ou de lugares. De infeliz, João Pessoa soh tem o nome. Estar longe dela não é uma tarefa facil, por isso, não basta estar aqui, tem que estar desconectada de lah. Eu evito pensar na cidade, nas pessoas, nos cheiros, nas sensações e, na maioria das vezes, obtenho sucesso. De outra forma, minha permanência aqui seria, no minimo, impossivel.

Rancor: soh depois de sair de casa é que realmente me dei conta de que era um inferno viver dentro dela. Eu tinha consciência de que eu nunca tive, e de que eu nunca teria, o que as pessoas chamam de "lar doce lar". A convivência com meu pai era insuportavel e o sofrimento da minha mãe me consumia o figado. Eu aguentava porque aquela era a unica forma de "viver" que eu conhecia e, principalmente, porque eu nunca tive condições financeiras pra sair daquela situação. Hoje eu trabalho, não dependo de ninguém (ouviu bem, otario? ninguém!), moro com gente mentalmente saudavel e equilibrada, então... Eh, eu acho melhor morar aqui, obrigada.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Yes, o Brasil tem bananas!

Sempre que eu volto pra casa do trabalho ou do curso de francês, tenho que passar pela rua do acidente da moto. Agora, eu pedalo pela rua como uma boa cidadã. Uma boa cidadã que se fudeu e que aprendeu na marra. Como eu disse no post linkado, não da pra uma bicicleta e um carro trafegarem nessa rua ao mesmo tempo. De qualquer forma, pra minha supresa, enquanto eu pedalava na rua semana passada, um carro passou por mim e a passageira me gritou por algum motivo. Fiquei em duvida se era comigo até perceber que eu era a unica alma na rua. E não soh o grito foi pra mim, como o motivo era o fato de eu estar atrapalhando a passagem da donzela!

Eu fiquei puta.

Quando eu tou errada, eu sofro acidentes, e, quando finalmente tou certa, chega alguém e me grita? Isso não podia ficar assim! Eu subi em cima da calçada e sai correndo até alcançar o carro dela que ficou parado no semaforo (eu poderia ter continuado na rua se não fossem os outros carros que tivessem me fechado a passagem). Ai parei do lado do carro e lancei a ja usada questão-afronta: qu'est-ce qu'il y a? Ela baixou o vidro e, tanto a motorista, quanto a passageira, começaram a me gritar e eu comecei a gritar também! Eu duvido muito que eu tivesse falando corretamente, mas o importante era me defender. Comecei a dizer que eu tinha o direito de andar na rua e ela rebateu que ali não tinha ciclovia e eu disse que bicicleta não soh anda por ciclovia e que eu não poderia andar na calçada (nesse momento, o tempo congelou e, ao fundo, se viu uma imagem minha, de um mês atras, na qual se podia ver eu pedalando e atropelando um motociclista na calçada. A cena terminou, o tempo real foi descongelado e eu continuei gritando com a arabe estressada. Eramos duas).

Depois de dizer o que eu tinha pra falar, virei as costas e procurei o primeiro espaço na rua pra mim e pra minha bicicleta, soh pra contrariar. E fiquei la, puta da vida, esperando a arabe passar por cima de mim. Em casa, fiquei me questionando sobre o caso. Acho que eu era uma pessoa mais pacifica no Brasil, pra não dizer menos banana. Acho que isso de deve ao fato de eu sentir que agora eu tenho que me virar sozinha aqui, tenho que resolver meus proprios problemas. Por isso, fico feliz da motorista não ter uma cimitarra. De afiada, bastava a lingua.

domingo, 8 de novembro de 2009

Queda pra inglês sofrer

Queda de bicicleta, infelizmente (para os outros), não é privilégio meu. Hoje de manhã, depois de trocar os freios da minha bicicleta, que se romperam com o ultimo acidente, dei de cara com a inglesa que mora a gente, Cecilia. Por um segundo, eu não pude acreditar: a coitada tava toda arrebentada. Os dedos, o queixo e as palmas das mãos cheias de curativos. O labio superior completamente inchado e meio aberto. E, finalmente, lhe faltava um dente. Não precisei pensar muito pra deduzir que aquilo tinha sido resultado de uma queda de bicicleta. E, quando ela entrou no banheiro e tentou induzir o proprio vômito, não foi dificil, tampouco, imaginar que a queda foi durante um porre. Coitada.

Segue dialogo entre mim e Camilo ao som do vômito de Cecilia:

- Nossa, quantas quedas de bicicleta esse ano!
- Pois é...
- Tu caisse, Camille, Cecilia...
- Sophie...
- Quem mais? Falta uma pessoa!
- Não sei.
- ...
- ...
- Ah, eu...

O proprio se arrebentou no oitavo dia do ano, na vespera do nosso casamento. A presepada pode ser relida aqui. Camilo tava bêbado. Sophie caiu na mesma semana em que eu cai da primeira vez: bêbada. Camille caiu ha menos de um mês e também arrebentou o rosto: bêbada. Cecilia caiu ontem. Acabou de sair com Camilo pra procurar o pedaço do dente que lhe falta. Acho que ela não vai encontrar. Mas a boa noticia é que o ano ainda não acabou. Quem sera o proximo?

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Meu quartinho

Não sei, talvez vocês não entendam. Pode ser um pouco complicado. Mas eu, por exemplo, me impressionei quando Camilo perguntou qual era o Beatle que havia morrido. Ou sera que ele apontou pra John e perguntou quem era esse? Enfim... Eu sei que eu sou uma pessoa extremamente dramatica e tudo que eu descrevo é pessimo ou otimo, é maravilhoso ou é terrivel. E, ou eu choro, ou eu tou rindo abestalhadamente. Mas eu não poderia descrever minha relação com os Beatles de maneira branda. Eu tou à anos-luz de ser uma super fã dos Beatles. Anos-luz. Mas o problema é que eu sou completamente apaixonada por eles. Completamente.

Faz somente uma década que comecei a emprestar meus ouvidos a eles e, até hoje, apesar do esforço, nunca encontrei um album como a força hipnotizadora do Abbey Road. Centenas de vezes ouvindo e centenas de vezes enlouquecendo. A verdade é que ha muito tempo eles despertam minha curiosidade. Quando eu era bem guria, ia na despensa de casa pra revirar os baus velhos dos meus pais e meu pai tinha um album de figurinha (dos anos 70) de temas variados e, em meio à dinossauros, jogadores de futebol e comidas tipicas do Brasil, havia uma pagina dedicada aos Beatles. Faltava John Lennon. A coisa se desenrolou nos anos seguidos, de tal modo, que me flagrei varias vezes chorando ridiculamente depois de examinar uma sequência de fotos dos Beatles, desconsolada por ter nascido tarde e longe demais.

Seja como for, foi depositado no meu colo a oportunidade de ver 1/4 do meu sonho. A possibilidade era real: Paul Mccartney iria tocar no dia 10 de dezembro, as 20h, na capital francesa. Tudo que eu precisaria fazer era estar as 10h do dia 06 de novembro na frente do computador com um cartão de crédito na mão. O meu medo de não conseguir comprar o ingresso era real: eu sabia que Paul Mccartney estava no Guinness pela vendagem de ingressos mais rapida, mas não sabia que o recorde era esse. E meu medo se mostrou razoavel quando eu soube que os ingressos se esgotaram antes das 11h. Bom, recorde é com ele mesmo.

Camilo tentou me manter calma durante os dias que antecederam a venda e foi bastante firme quando disse "você vai pra esse show, tenha calma". Isso evitou que eu tivesse um derrame. Mas la estah de novo minha negatividade preocupada com o horario do trem pra Paris (a gente parte de Lyon três horas antes do show), com medo das greves doidas que acontecem aqui nos transportes. Com medo de uma queda de bicicleta, de uma ida ao hospital, com medo de mau olhado, com medo de que o homem, nos seus 67 anos, morra. Com medo. Com medo, mas ABSURDAMENTE FELIZ!

*agradecimentos especiais à Aline (que também vai ao show, uh ruh!) que foi quem me avisou do show e suportou meus emails aflitos. E ao meu amado, salve salve, que foi quem comprou os ingressos. Ele confessou que suou nao na frente do computador. "Se eu perder esses ingressos, Luci me mata". Matava. Agora Luci é soh beijinho e ansiedade. De qualquer forma, obrigada!

Oh, boy!

Este aqui o post mais delicioso que ja escrevi na vida. Sabe todas as empolgações, todas as felicidades e todas as ansiedades que ja tive na vida? Não são nada diante do que eu estou vivendo agora. Vou falar um pouco mais sobre isso quando tiver tempo, mas por hora, eu queria anunciar que... eu tenho dois ingressos pra um show em Paris daqui a um mês. Show de quem?































Paul Mccartney.

(poft).

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Deixa que digam, que pensem, que falem...

Uma vez, um conhecido de João Pessoa me perguntou, abismado, o porquê de eu ter um blog onde eu expunha toda minha vida (ele falava do Circo sem Futuro ainda). Eu não soube responder. João Pessoa é uma cidade ridiculamente pequena, mas eu sempre me surpreendia quando eu ficava sabendo que alguém, que eu jamais falei na minha vida, lia meu blog sempre. Tem uma fofoqueira em João Pessoa que espalhava historias alheias, falsas ou verdadeiras, aos quatros ventos. A Fofoqueira chegou uma vez a dizer que eu pegava Camilo e meu ex (nunca soube se ela quis dizer que os três faziam suruba ou se eu "somente" traia Camilo com o ex, mas... pouco importa) e que me conhecia. "Ah, conheço demais, eu leio o blog dela". Eu nunca disse um oi à figura, mas ela me conhece: ela lê meu blog.

São pessoas como essa que me mostram que eu não devo me importar com o que eu penso, falo ou escrevo. Porque, primeiro: a divulgação do que eu falo e escrevo não sera feita à semelhança do que eu disse. Segundo, serão espalhadas coisas que eu nunca disse, que eu sequer fiz, independente da minha escolha, dos meus registros. Então, do que adianta ficar se preocupando? Eh obvio que se eu escrevo, eu dou material pra fofoca, mas o pior que pode acontecer é as pessoas falarem sobre minha vida.

Bom, uma vez eu escrevi no Circo que a chefe do meu estagio era assustadora e que tinha olhos de tubarão (entre outros). Meses depois, enquanto eu trabalhava, vi, em tempo real, ela lendo meu blog. Pelo contador, soube depois que a maldita tinha procurado o proprio nome no Google e encontrado meu blog (o nome dela é tão bizarro que ela soh precisou digitar o nome). Eu fiquei gelada, mas não aconteceu absolutamente nada.

Eu sempre gostei de escrever, mas o Blog em si é uma espécie de terapia onde eu, bizarramente, me liberto, graças aos olhos de desconhecidos, dos problemas que me afligem. Eu escrevo cartas, emails, mas eu sinto que preciso falar aqui. Quando acontece alguma coisa no meu dia, mesmo que ela não seja especial, é muito normal que eu pense em relatar no blog. E, atualmente, duas coisas fazem com que eu me sinta mais ansiosa por escrever: a solidão e as descobertas francesas.

Esse post inteirinho, na realidade, não pretendia tratar de fofoca ou do alcance dela. Tinha a unica intenção de dizer que é provavel que eu escreva posts sem sentido daqui pra frente. "Sem sentido", no meu dicionario, é "sem um objetivo especifico". As vezes eu sinto somente vontade de dizer como eu me sinto, das sensações que o mundo me provoca e não quero me privar disso, ainda mais aqui, no meu espaço. Bom, acho que esse post é um começo de qualquer coisa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A décima terceira que da sorte

E, partindo pra assuntos que me deixam menos estressada...

Pouco a pouco, o desespero que eu sentia aqui na França vai se dissipando. Eu sinto a mudança. Eu poderia esperar um pouco mais antes de escrever um post falando sobre os progressos que tenho feito aqui, ja que sei que ainda falta muito a ser alcançado, mas... por que não?

Ontem eu fui, pela segunda vez, no restaurante em que almocei no dia em que tive que ligar, pela primeira vez, pra Mme. Cler. Faz algumas semanas ja e eu falei disso aqui. Camilo havia viajado por uma semana e eu havia ficado em Lyon pra resolver assuntos importantes. Um deles era ligar pra duas propostas de emprego. Se hoje meu francês é tosco, ha algumas semanas, ele era mais que bizarro. Quem me deu forças (me obrigou) a telefonar foi Audrey (uma menina que mora comigo). Foram minutos de sofrimento, mas eu consegui um contrato.

Ontem, quando voltei ao restaurante, eu tive uma sensação ruim, justamente as lembranças desagradaveis daquela tarde chuvosa, cinza e feia em que eu estava ensopada de medo. A diferença é que ontem eu voltei com Camilo e Co, o namorado de Audrey, e passamos quase duas horas conversando sobre nosso futuro (assunto pra um post que levara meses pra ser escrito). Quando eu digo "conversando" não é mais "eu ouvindo calada, sem entender nada". Quando eu digo conversando, me refiro a uma Luci falante. Gaguejei, consultei meu dicionario (Camilo) uma porção de vezes, mas pude ouvir e ser ouvida. Em francês. Mas o barato veio uma hora depois: uma assistente de Mme. Cler, até então desconhecida por mim, me telefonou e eu pude falar e perguntar determinadas coisas e chegar ao fim da conversa sem pensar em desligar o telefone, tomada por um ataque de pânico (como é bem meu estilo).

Pode parecer uma bobagem isso tudo, e eu até penso duas vezes quando vou falar dos meus avanços pros amigos franceses, mas a verdade é que é mais do que sufocante ver seu celular tocar e não ter a coragem necessaria pra atendê-lo. Eh sufocante saber que você não pode jamais se perder na cidade porque, ah, você não saberia pedir informação a ninguém. E hoje, na minha terceira ida ao restaurante, fui sozinha. Fui sozinha e fiquei bem feliz de entender tudo, de poder pedir o prato, de até aceitar a sugestão de sobremesa (torta de limão gostosa) e, no fim, pagar tudo com o meu dinheiro, que ganhei com o meu trabalho. São essas pequenas coisas, aparentemente tão estupidas, que tem me deixado mais tranquila.

Uma outra coisa boa, é que andei me aproximando da mexicana que mora com a gente. Nossa, preciso apresentar com calma as pessoas que moram com a gente! Agora somos onze na teoria e treze na pratica. E uma dessas treze pessoas se chama Diana. Diana chegou por um total acaso aqui. Quando a gente tava entrevistando os candidatos pra morar aqui, idos de agosto, conhecemos um mexicano e ele tava bem cotado pra morar conosco. Um dia, ele trouxe uma amiga e ela jantou aqui. Gostamos tanto dela que, um tempo depois, dispensamos o mexicano e a convidamos pra morar com a gente definitivamente.

Tem um monte de coisa que me faz gostar de morar com Diana. Me sinto um pouco mais confortada por poder dividir a França com alguém que estah na mesma situação que eu: sem amigos, sem seu idioma, sem sua familia etc. Mas minha empolgação com ela vai além dessa felicidade egoista. Diana é muito legal! Sabe quando você encontra aquelas pessoas que você sabe que tem bom coração? Pronto, eu moro com uma dessas. Eu me divirto muito conversando com ela porque ela é engraçada e bem humorada. E parece que o nosso grau de francês é o mesmo. Dai, eu sinto que posso falar qualquer coisa sem a pressão de ter que falar perfeitamente. Quando não da mesmo, ela diz a palavra que não conhece em espanhol, e eu, em português. E a gente se entende. A primeira conversa foi uma troca de figurinha sobre menstruação. Depois disso, ficou claro que nos dariamos bem. Ontem fofocamos, sem pudor algum, sobre o mexicano. E eu e Camilo temos convidado ela pra tudo que é canto. Hoje a gente vai ver Mary and Max.

Obviamente que ainda falta um bocado. Se eu tivesse metade da amizade que tenho com Diana com o resto da casa, a coisa estaria linda. Mas não é o caso. Falta aprender a falar no passado e no futuro e também de uma forma hipotética. Eh dificil. Mas ao menos eu ja posso me perder na cidade!

domingo, 1 de novembro de 2009

Garotos nunca dizem não

Pequenos adendos em forma de post. EU PRECISO!

Os comentarios do post passado feitos pelos homens são a prova concreta de que vocês, definitivamente, não entendem o que é ser uma mulher. Digo, não entendem o quanto é dificil ser uma mulher. Fazem idéia, mas não entendem. Tem o comentario de Mythus onde ele diz que ja sofreu cantadas ("sofreu" é expressão minha, ja que homem não sofre cantada, ele recebe) de mulheres nas ruas e ficou constrangido. Pra mim, isso é novidade. Acredito nisso, mas eu duvido muito que algum desses comentarios tenham deixado você "amedrontado" ou "emputecido", tipo assim, como acontece com a gente.

Quanto aos comentarios de Luis, não, caro amigo, nossa reação não foi desproporcional. Desproporcional foi a reação de centenas de estudantes de uma universidade ao verem uma menina usando uma minissaia.

E quanto ao comentario de Ailton... Ufa! Ainda bem que você veio nos iluminar com sua opinião. "Luis tem razão mesmo. Queiram ou não". Vou repetir: queiram-ou-não. Ponto. Afinal, ninguém melhor do que um homem pra entender a realidade de uma mulher num pais latino-americano, altamente machista/moralista. As mulheres não devem sofrer nenhum tipo de preconceito no meio da rua. Mas (e o "mas" da discordia aparece novamente!) se ela usa uma roupa provocativa, ela estah pedindo pra ser abordada. Eh como usar uma tatuagem. Ninguém usa uma tatuagem pra se enfeitar. As pessoas usam tatuagens porque gostam de sofrer preconceito, porque gostam de serem olhadas de viés. A verdade é essa. Queiram ou não.

Nos meus pobres 24 anos de vida, soh conheci dois homens feministas. Não por acaso, eles foram meus namorados. Camilo Marti e Fabio Viana. Não por acaso, eu me apaixonei perdidamente pelos dois porque eles nunca, JAMAIS me disseram o que eu podia e não podia fazer por ser mulher. Fabio nunca discutiu o tamanho da minha roupa, Camilo me incentivou a casar (e casei) de decote (isso, pra ficar soh no topico "vestimenta"). O tipo de homem que diz que é liberal mas castra a namorada pra mim é um bosta. Eh como aquele povo que diz que não tem preconceito com gay, mas se arrepia de nojo quando tem que apertar a mão de um. Pior que isso é o "não tenho preconceito, desde que fique longe de mim". Claro. Não sou machista, mas namorada minha anda na linha. Que linha mermo?

Pra finalizar, a pergunta que Mythus me fez post passado (espero que tenha respondido):

Qual a reação que a senhorita gostaria de provocar ou ver naqueles que se deslumbrarem contigo?

Sendo bem direta: quando quero impressionar alguém, seja um homem, seja uma mulher, eu prefiro usar a cabeça a usar minhas coxas. Mas se eu fico sabendo que alguém se impressionou com alguma parte do meu corpo, definitivamente, isso não vai tirar meu sono. Otimo! A questão não é absolutamente o que as pessoas possam sentir por mim, mas a forma delas externarem isso. Eu não me importo se eu provoco masturbações, pesadelos, simpatia ou sorrisos falsos. Eu não me importo. O que eu acho grosseiro são as reações. Não preciso ninguém babando em cima dos meus peitos, nem pegando na minha bunda como se eu estivesse dormente. Não quero ninguém me chamando de puta ou soltando gracinhas pelo decote, pela minissaia, por mais que eu esteja "provocativa" ou "chamando a atenção", seja la o que for isso. Finalmente, o problema não esta na minha provocação, esta na reação alheia. Quer a gente queira, quer não. Infelizmente.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

00,01%: eu gostchio!

Eh quase meia-noite, estou caindo de sono e, dentro de poucas horas, terei que estar pronta pra aproveitar mais um maravilhoso dia de faxina. No entanto, um assunto pede urgência.

Luluis, meu querido, desculpe, mas seu comentario no meu post passado foi extremamente infeliz (pra usar um termo decente). Vamos discuti-lo, amiguinhos?

"99,99% das meninas odeiam esses 'psiu' e 'vem cah', isso é óbvio, mas se uma menina anda quase nua na rua (oq não é o caso de vcs, moças de bom gosto) é pq tá querendo se exibir. E mesmo q ela seja boboca o suficiente pra não ter essa intenção, a galera vai cair em cima, aí não tem pra onde. Se elas não têm bom-senso, não vão ser os caras q vão ter".

Obviamente que um paragrafo machista como esse renderia um livro feminista. Como eu sou escritora de blogs fajutos, não de livros exemplares, deixo aqui apenas minha indignação. Não contra sua pessoa, cuja figura me é valiosissima! Mas ha de se lamentar o deslize, oh, se ha!

Luis, eu gosto dos meus peitos. E acho que não sou a unica. Entendesse? Eu gosto dos meus peitos e gosto dos meus olhos. Pros peitos, eu usava decote, porque gostava de realça-los. Pros olhos, eu usava rimel, pelo mesmo motivo: pra realça-los. Quando percebi que era mais perigoso usar decote do que rimel, parei de usar decote. Me pergunto: é justo?

Leitura obrigatoria:
Sindrome
Lola

Meninas, o que vocês acham?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Homens são diferentes, machos, iguais

Uma coisa que vai ser obvia pros brasileiros que moram na França (ou na Europa, em geral), mas que pode ser uma novidade pros amigos brasileiros: a França é cheia de arabe. Cheia, cheinha. Ja li que é o pais com o maior numero de arabes na Europa, cerca de 10% da população francesa. No começo da minha estadia na França, lembro que eu ficava super impressionada (SUPER!) quando uma mulher passava por mim com um véu. Quando vi uma mulher usando uma burca, quase que caio pra tras! O choque visual foi extraordinario. Foi alguma coisa do tipo "nossa, elas realmente usam isso". Eh, Luciana, não foi Jade quem inventou a burca.

Mas antes de continuar o post, tenho que admitir minha completa e vergonhosa ignorância acerca dos costumes arabes. Não ha Wikipedia que baste. Morro de vontade de conversar com uma arabe, mas tenho receio de cair nas perguntas-clichê que seriam totalmente voltadas pro bem estar dela dentro de casa, pra religião e pro machismo. Por mais que se diga que algumas mulheres gostam de usar o véu, e não o fazem soh por questões religiosas, eu acho que sempre olharei pra elas com um pouco de pena*. Mas o que tem me incomodado mesmo são os homens arabes. Alguns, obviamente.

Eu percebi, e comentei com Camilo, que todas as vezes em que fui chateada na rua por homens, foi pelos arabes. Sério, todas as vezes. Eh logico que esse post tem tudo pra ser interpretado como um post de uma pessoa preconceituosa e eu não vou ser tão simploria em me defender repetindo o discurso do povo que se julga desprovido de preconceito do tipo: minha vizinha é arabe e meu tataravo também e eu estudo com uma ruma de arabe, logo, não posso ser uma pessoa preconceituosa. Sinto muito. O que eu tenho que admitir é que eu não me sinto bem entre os arabes jovens. Se isso é preconceito, eu aceito o dedo em riste, mas a verdade é essa: eu não me sinto bem entre arabes jovens do sexo masculino. E é bem especifico, assim mesmo!

Os arabes (sempre lembrando que estou falando dos "arabes jovens do sexo masculino") andam sempre juntos, com seus tênis brancos, seus mp3 às alturas e as calças esportivas com elasticos nos tornozelos. Eh facil reconhecer. O meu mal estar e insegurança chegaram depois de sucessivos acontecimentos infelizes entre mim e os AJSM.

Uma vez, eu tava andando de bicicleta com Camilo. Vocês sabem o quanto eu sou perigosa sob duas rodas, não sabem? Pois, nesse dia, resolvi atravessar justamente o caminho de um AJSM que também vinha de bicicleta. Quando notei o cara, freei à tempo, mas isso não impediu que ele, ao passar por mim, me xingasse. Ele GRITOU na minha cara. Perguntei a Camilo o que ele tinha dito e Camilo ficou calado. Perguntei de novo e ele disse que foi qualquer coisa sobre minha irmã (?). Camilo queria me poupar da raiva.

Ai vocês pensam que eu tou sendo dramatica e eu digo que não. No Brasil, eu ja fui abusada na rua diversas vezes, não gosto disso, mas duvido que alguém diria que eu tenho preconceito com brasileiro, não é mesmo? O problema é que, do mesmo jeito que eu não gosto de passar perto de grupos de homens brasileiros (aih, a idade não importa), eu também me sinto incomodada com os AJSM. Se isso é ter preonceito, então tenho preconceitos com brasileiros e AJSM.

Fora as cinco ou seis vezes em que tive a atenção chamada por algum grupo de AJSM ("vem cah", "psiu" e coisas do tipo), vou citar outro exemplo. Uma vez eu tava com Camilo, tinhamos acabado de comer um Kebab (de Kebab eu gosto...) e estavamos sentados numa praça. Tava cheio de AJSM em volta e eu tava atenta à movimentação deles. Noto que um vem se aproximando da gente, olho pra ele, ele olha pra mim e, ao passar pela gente, me diz: "salope!" Salope significa nada mais, nada menos, do que "vadia". Velho, eu fiquei paralisada. Perguntei a Camilo se ele tinha escutado, se aquilo tinha mesmo sido comigo e a gente viu que sim! O cara olhou nos meus olhos e me chamou de puta! Assim, de graça.

E ha umas duas semanas, eu tava num restaurante arabe (num bairro arabe) com Camilo e o pessoal do trabalho dele. Era horario de almoço e, como eu ja tinha terminado o meu e precisava voltar ao trabalho, me despedi dos que ficaram na mesa e sai do restaurante. Dei dois passos fora e um AJSM passa por mim e me da alguma cantada altamente sebosa a julgar pelo tom de voz dele e a forma que ele me olhou. Eca, é aquilo que eu chamo de sexo oral! Fiquei tão puta que arremedei o que ele falou fazendo "nhem nhem nhem" com a lingua pra fora. E passei. Ai ele disse algo do tipo "ah, você não é tal coisa não?" mas eu ignorei. Qual foi minha supresa quando, ao me virar pra tentar desamarrar minha bicicleta, vi que o cara tinha parado e tava me olhando. Ai eu, MAIS PUTA AINDA, olhei pra ele e disse "o que é?". Na hora ele arregalou os olhos, acho que ele não esperava que eu fosse confronta-lo, mas eu repeti "qu'est ce qu'il y a?" umas três vezes olhando pra ele e depois fui embora. O otario soh ficou repetindo meu qu'est ce qu'il y a? Cadê a macheza de dez segundos atras?

Saindo um pouco do tema arabe, ja que isso não é ação soh deles... Acho foda quando sou tratada dessa forma. A Lola morre de falar sobre isso e a gente morre de concordar, mas sempre vai ter cara que acha que essa é uma pratica supernormal, que mulher foi feita pra isso mesmo: pra ser humilhada na rua, abordada, comida com os olhos (quando não pela propria ação). E a gente sempre acanhada. Depois que percebi que boa parte desses otarios soh faz isso porque sabe que a gente não tem coragem de enfrenta-los, é que comecei a fazer isso. Claro que eu não aconselho ninguém a peitar um cara numa rua esquisita. Mas, por exemplo, coisas saudaveis: toda vez que eu voltava da casa do meu ex-namorado, de noite, pegava um ônibus bem vazio com um babaca que sentava la na frente, se virava e ficava me encarado. Tipo assim, colocava o cotovelo no encosto da propria cadeira e ficava apreciando minha estonteante beleza loura. No dia em que eu cansei de me acanhar e mostrei o tamanho do meu dedo a ele, ele soh olhou mais uma vez e parou.

E agora, a moral da historia: nenhuma. Apesar de ter falado durante boa parte do post sobre minha indignação com certos arabes, essas cantadas baratas são coisa universal e acho que, aonde quer que eu vah, vou escutar piada babaca. Afinal, tem alguma mulher que esta me lendo nesse momento que NUNCA teve que escutar piadinha de merda? Seja de AJSM, seja GHRE, seja de BDSZ, KGFV, WXSZJHI... e a puta que pariu?

Como eu imaginei.

*Update (19 de maio de 2010): apesar de nao fazer muito tempo que escrevi isso, me surpreendi com essa minha "pena" em relacao as mulheres que usam veu e sao submetidas a outras formas de (do que eu julgo ser) opressao. Eh facil criticar o veu, mas a gente esquece que, desse lado do mundo, as mulheres sao tao oprimidas quanto, cotidianamente, atraves de pequenos atos que ja foram absorvidos por nossa cultura machista e a gente nem se dah conta! Nao retiro o que eu disse, retifico: tenho pena das mulheres desse mundo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Express II

Me senti confortada por ver tanta gente revoltada com a situação que fez nascer esse post aqui (Amanda, Mythus, Calcinhas, Helena e todos os demais, obrigada pelos conselhos!). Por isso que agora eu trago novas noticias. Novamente no sabado, recebi outra carta do senhor Gayet (não tou tirando onda, o sobrenome é esse mermo), o motociclista. Nessa carta, ele foi um pouco mais razoavel em relação ao orçamento e disse que encontrou um lugar que cobrava 1OO€ e pouco pra refazer a pintura da frente da moto (o local do arranhão) + o conserto do retrovisor. E, como eu ja tinha dado 20€, eu pagaria ao final "somente" 135€.

De 270€ pra 135€: quanta diferença, senhor Gaynor!

A minha aflição em relação a essa historia tem diminuido, não soh porque o preço diminuiu, mas porque Camilo fez um seguro pra gente que cobre esse tipo de problema, apesar do senhor Gaytorade ter dito que não. A mulher da seguradora disse que se, por exemplo, você vai à casa de um amigo e, sem querer, quebra o computador dele, você pode ser assegurado nesse caso. Legal, né? Mas com a minha sorte, acho que deve ter uma clausula no contrato do seguro que diz "exceto para os casos de arranhão de quatro centimetros em motos BMW verdes".

sábado, 24 de outubro de 2009

Musica francesa: Tryo


Hoje eu tenho uma coisa muito boa pra dividir com vocês. Muito boa pra mim. Ha uns dois posts, eu comentei que havia ido ao Centro Comercial e saido de la com uma compra feliz. Essa compra feliz nada mais foi que um CD. Eh, eu sei que é besteira comprar CD hoje em dia quando existem tantos sites de download de musica, mas vocês vão entender a necessidade da compra depois.

Quando Camilo foi pro Brasil, ele levou na mala as musicas de uma banda francesa chamada Tryo. Foi amor à quarta ou quinta vista. Tryo é um quarteto muito popular aqui na França (pelo menos entre os jovens) que toca musicas "socialmente engajadas": criticam politicos corruptos, a TF1 (a Rede Globo francesa), veneram o Greenpeace, defendem o uso da maconha, cantam as dores da Palestina etc. O estilo é indefinido, vai do reggae ao pop pegajoso. Comecei a adorar a banda (não por seu "engajamento" que, na realidade, me da um pouco nos nervos, ja que a banda critica o capitalismo, mas não disponibiliza nem 15seg de musica do novo album na net e os shows são super caros). E eles tem uma musica que eu adoro (Serre moi), que toda vez que toca, eu penso em Camilo e choro. Hihi

A coisa chegou ao ponto de eu programar minha vinda à França de acordo com um show da banda que iria rolar em Lyon, no 23 de maio (eu cheguei no dia 21). Infelizmente, eu perdi o show porque os ingressos esgotaram muitas semanas antes do evento. Mas no fim de semana passado, eu tava andando com Camilo pelas ruas de Lyon quando, de repente, ele aponta pra um cartaz: era Tryo e o anuncio de um outro show aqui no final de novembro. Duas horas depois, estavamos comprando o ingresso pela internet.

Vocês não imaginam o quanto eu tou feliz de pensar que vou ao show da banda. A empolgação é maior do que foi com o show das Puppini. Gah! Ah, mas esse post vem com a idéia de que eu, a partir de hoje, quando me convir, vou apresentar algumas bandas francesas (ou que cantam em francês) que eu gosto bastante.

Então, ai vai: Tryo

Discografia:
  • 1998: Mamagubida
  • 2000: Faut qu'ils s'activent
  • 2003: Grain de Sable
  • 2004: De bouches à Oreilles (live)
  • 2008: Ce que l'on sème
E aqui, o album que me introduziu à banda: [Grain de Sable - 2003 - download]

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Graça

Tou com tempo livre no computador e nem sei o que fazer. Eh emoção demais para uma soh pessoa. Ultimamente, não tenho tido tempo de fazer o que eu mais gosto nessa vida: perder meu tempo. Além das minhas amadas faxinas, agora ocupo meu dia com as aulas de francês. Sim! Porque agora eu tenho aulas de francês (novamente)!

Acho que não cheguei a comentar por aqui, mas a Madame Marti, como a França insiste em me tratar (mesmo eu dizendo que mantenho meu nome de jeune fille), precisa passar por um teste de francês (o DILF), precisa assistir à duas palestras sobre a cultura francesa (ou qualquer coisa que o valha), passar por um teste médico e ainda assinar o Contrato de Integração. Na convocação primeira, eles fazem um pequeno teste pra verificar o seu nivel de francês e, dependendo do resultado, a Prefeitura encaminha a pessoa pra uma escola onde ela tera aulas de francês de graça.

Ouvi falar que, quem não sabe de nada da lingua, recebe 400h de aula. Eu recebi "somente" 200h (no teste o cara mostrou varias imagens, entre elas a de uma garrafa de Coca-cola e disse "onde esta a Coca-cola?". Teste de francês ou de conhecimentos gerais?). Fiquei extremamente feliz por, finalmente, não ter que desembolsar nada nesse pais! Eh um acontecimento unico que eu vou aproveitar bastante. Ou não.

Esperei mais de um mês pelo começo das aulas. Tava super empolgada, mas quando cheguei na sala, percebi que minha turma tinha o nivel inferior ao dos japoneses da Universidade Catolica (onde fiz meu primeiro curso de francês). Antes que vocês me perguntem, eu também não sei como isso é possivel. Em cinco minutos de aula, algum arabe perguntou se é preciso colocar, obrigatoriamente, o ponto de interrogação no final de cada pergunta. Não sei, é preciso? Eu sei que a logica da lingua francesa não tem a mesma obviedade pra eles como a tem pra mim, mas isso não quer dizer que eu tenha que ter paciência com o processo de aprendizagem deles.

A turma era bem variada: tinha uma velha com dentes de ouro; outra mulher (uma versão envelhecida de Salma Hayek) sem braço; uma semi-surda; um velho barbudo de muletas; e uma senhora com uma mancha rosa que tomava todo o seu rosto. A unica semelhança entre todos eles é que nenhum sabia dar uma palavra em francês. A sorte é que a professora notou que eu era "sabida" e disse que "na proxima semana, você pode mudar de turma". Até essa semana chegar, eu sofri quatro dias com uma senhora que, ciente da minha sabidice, sentou ao meu lado todos os dias e copiou todos os meus exercicios. Isso não seria problema nenhum se ela não tivesse mal halito.

A turma de agora ainda deixa a desejar, mas as aulas vão acabar em dezembro ou janeiro (o negocio é tão organizado que ninguém sabe...) e, depois disso, se eu passar no teste do DILF, poderei deixar as aulas antes de completar as 200h de aula. Um sonho!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Express

"Se eu contar, ninguém acredita" pode virar uma série permanente nesse blog. Não que eu adore passar por situações espetacularmente improvaveis, mas é que o azar tem me perseguido. E, tipo assim, sabado passado me entregaram uma carta e vi que o nome do remetente não me era estranho. Dai, me dei conta de que era o nome do motociclista do post passado. Eu ignorava o conteudo da carta, mas a ultima coisa que eu pensei foi "que legal, uma carta, ele deve estar muito preocupado com meu estado de saude". Vi uma carta imensa escrita à mão e um papel. Arranquei esse papel das mãos de Camilo e desci a vista procurando aquilo que eu sabia que ia achar: um valor. E um valor salgado: 270€. Isso mesmo. O papel era a estimativa da nova pintura da moto dele. Duzentos e setenta euros. Meu coraçãozinho cansado parou. Quando ele terminou de ler a carta (em que o cara dizia que o arranhão era profundo demais pra ser removido com um kit-emergência lah), eu soltei o choro que eu tava segurando. Tudo bem, eu estava errada por estar pedalando na calçada, tudo bem, eu não consegui prever que o cara não ia parar a moto depois das meus insistentes toques de campainha, mas eu acho que eu não mereço pagar DUZENTOS E SETENTA EUROS por causa de um arranhão de QUATRO CENTIMETROS numa porra de uma moto!

Canalisando a raiva, canalisando a raiva... meu cu, meu cu...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A outra

Se eu contar, ninguém acredita. Pensando bem, se eu contar, todo mundo vai acreditar. Eh, meus amigos, eu levei OUTRA queda de bicicleta. Hihihihi Eu realmente não sei como isso acontece Uns vão dizer que é falta de atenção, mas eu acredito piamente que eu deva ter sido macumbada antes de sair do Brasil. Eh a quarta queda em terras francesas! Mas antes de narrar a coisa, quero dizer que eu estou bem - escutou sr. Viana?

Hoje, depois de uma sessão de faxina pela manhã e uma tarde sufocante numa sala de aula (assunto pra outro post...), decidi dar uma passada no Centro Comercial pra matar o tempo, porque Camilo iria encontrar um amigo salvadorenho e eu não teria porra nenhuma pra fazer em casa. Sai de la com uma compra feliz (assunto pra outro post!) e achei que minha noite seria tranquila: eu, em casa, deitada na cama, me deliciando com minha compra (relaxa, não foi um vibrador).

Ai la vai Luci, num frio do cacete, voltando pra casa de bicicleta. Ja a cinco minutos de casa, eu tenho que passar por um caminho muito chato onde tem uma rua muito estreita de um lado, o caminho do tramway no meio e outra rua do outro lado, também junto à linha do tramway. So que essas ruas são tão estreitas, que não cabe uma bicicleta e um carro ao mesmo tempo, então, pra que o carro não atropele os ciclistas, ele sobe na linha do tramway. Pra evitar acidentes (veja bem que menina precavida!) eu ando pela calçada que é superlarga, mas eu não gosto disso, porque acho que a policia não gosta disso. A policia não gosta de nada.

Na ultima vez que estive na calçada, NESSA calçada, uma velhinha fez sinal pra eu parar e disse "olha, cuidado com os pedestres, certo? Não quero te dar sermão, sei que esse é um assunto polêmico, mas cuidado". Ela disse na boa, sorri, agradeci e segui. Então, hoje eu tava andando como sempre ando pelas calçadas: devagar. Então, eu vi quando uma moto tava saindo de um prédio, o motoqueiro tava indo devagar, tranquilo, olhando pro lado esquerdo, so que eu tava vindo do lado direito. Ai comecei a fazer tilim tilim na campainha da bicicleta, mas não diminui a velocidade. E, como o cara não ouviu meu tilim tilim, ele acelerou a moto e CRASH, BING, PLOFT!


Nessa foto vocês podem ver meu amor pelo Google Maps e pelo Paint.
Na seta vermelha, eu. Na seta azul, ele. No ponto vermelho, nohs.


A unica coisa que eu ouvi na hora foi um grito de horror. O grito nem era meu, nem era do homem, era de uma menina que presenciou a cena. Correu um monte de gente pra me ajudar porque tinha uns jovens na calçada (eu falei "jovens?"). Ai eu me levantei e recuperei meu querido pé que estava preso em alguma roda. Enquanto tentanvam tirar a bicicleta que estava presa na moto do cara, percebi que a menina que tinha gritado tava do meu lado, com a mão no peito, totalmente ofengante. Eu perguntei se ela tava bem. Fiquei imaginando se a coisa tivesse sido com ela! O motoqueiro disse que tava tudo bem, que soh a pintura tava arranhada, ai eu, numa tentativa de ser espirituosa, disse, mostrando meu pé, que minha pintura também tinha arranhado. Ninguém riu.

Bom, quando vi minha bicicleta toda torta numa espécie de acasalamento com a moto do cara, tive vontade de gritar de raiva. Minha bicicleta é um dos melhores presentes que ja ganhei (né, cocô?) e eu não consigo passar um dia sem ela. Pra piorar, minha LINDA cestinha tava toda torta. Puta que pariu! Mas o cara foi gente fina, apesar da culpa ter sido completamente minha. Sai de la mancando, prendi minha bicicleta em qualquer lugar (ela tava inutilizavel) e sai pra pegar um velov.

Ja na estação, Camilo liga e, cinco minutos depois, o cara da moto me reencontra. Eu desligo o telefone e ele me diz que a pintura da moto dele foi cara e ele queria uma ajuda pra ajeita-la. Tirei do bolso minha tatica de choro antes praticada com o policial e disse que eu era femme de menage, que eu soh tinha 20€ no bolso e ele disse que isso tava bom. Ele foi simpatico, deu um toque do celular dele pro meu, pegou meu telefone e pediu meu endereço depois de dar o dele. Espero que ele não venha mandar a conta da pintura pelo correio, porque a moto era daquelas enormes, fuderosas!

Camilo tem que ensinado a ser uma pessoa menos dramatica, doida e estressada. Ele diz que é impossivel que eu controle meus impulsos, mas que eu posso canalizar meus sentimentos. Tão lindo! Então, quando vi a bicicleta fudida, a cestinha amassada e a carteira vazia (e ainda imaginando o conserto da bicicleta), fiquei chateada por um momento, mas canalizei a raiva. Enfiei ela no meu cu e ela repousa la até este momento. Amém.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Eu nunca digo nunca?

Ao andar pelos arquivos do supremo blog Sindrome de Estocolmo, achei esse post e fiquei super empolgada pra fazer igual. Eh a segunda vez que vejo esse tipo de lista em que você diz quais são as coisas que você nunca vai fazer antes de morrer. Eu sou completamente viciada em questionarios ou listas desse tipo. Mesmo que seja uma ficha médica com meus dados pessoais a ser preenchida pra dar entrada no hospital, tah valendo! Se Camilo me visse escrevendo esse post, ele iria rir. Eu odeio e adoro coisas com grande convicção. O problema é que minhas grandes convicções duram trinta segundos.

- ODEIO cebola.
- Prova essa aqui.
- Não!
- Soh um pouco...
- (nhac)
- E ai?
- ADOREI! Meu deus, eu adoro cebola! :D

Tipo isso. Portanto, que fique bem claro que essa é a lista do 13 de outubro de 2009. Então, vamos à mais uma inutilidade publica:

O que eu acho que não vou fazer antes de morrer:

- deixar de ser dramatica;
- parar de gostar de escrever (em blogs ou diarios ou emails ou cartas);
- deixar a Historia de lado;
- parar de ser chorona;
- gostar de comédia romântica;
- abrandar a vontade de ser mãe;
- ser paciente;
- parar de roer unha;
- ter orgulho da minha irmã;
- deixar de me emocionar ao pensar em Camilo;
- ficar tranquila diante de um exemplo de machismo;
- fazer bronzeamento artificial;
- deixar de beber cerveja;
- ir aos EUA à turismo;
- ouvir Zeca Baleiro;
- entender Drummond;
- gostar de biscoito recheado de morango;
- deixar de comer chocolate;
- poupar palavrões, seja qual for o motivo;
- não ter medo de espirito;
- deixar de me questionar sobre minha auto-estima;
- deixar de amar Fabio;
- ser fresca;
- parar de achar que os Beatles são os melhores e sempre serão;
- gostar de flores;
- achar que religião e Estado combinam;
- confundir cavalheirismo brega com educação;
- deixar de falar de sexo escancaradamente;
- gostar mais das amizades femininas que das masculinas;
- usar aliança;
- deixar de odiar e adorar coisas com grande convicção;

sábado, 10 de outubro de 2009

PARIS - por Amanda Lourenço

Tenho a honra (finalmente eu tenho alguma honra...) de receber o post que abre nosso querido amigo-secreto-geek! A autora, ou melhor, a pessoa que me tirou foi a senhorita, ou melhor, senhora, Amanda Lourenço, que escreve o Petit Journal de la Porte Dorée. Lembrando que o tema dos posts é Paris. Apreciem a leitura e, ao fim dela, descubram quem é meu amigo-secreto.


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Quando a gente larga nossa casa e vai pra um lugar completamente desconhecido, com uma lingua estranha, sem amigos nem conhecidos, sem saber absolutamente nada o que vai acontecer, tudo o que a gente espera é ter um pouco de sorte. Quando fui morar em outro pais pela primeira vez, era isso o que eu mais esperava: ter sorte na minha aventura. Fui morar em Brisbane, na Australia e la senti muitas vezes que a sorte não estava do meu lado. Demorei a conseguir um apartamento, cruzei com algumas pessoas detestaveis, custei pra encontrar um emprego e quando consegui, foi um que eu realmente nao gostava e que eu fazia super mal. E ainda ganhava pouco. Nao que minha estadia tenha sido ruim, mas foi cheia de obstaculos chatinhos.

Decidimos morar em Paris. As pessoas me perguntavam, "mas o que você vai fazer la?" e eu respondia que não fazia a menor ideia, vamos ver no que da. Vim sem um plano definido, sem lugar fixo pra ficar, sem emprego, sem nenhuma aula de francês e pouco dinheiro. De bagagem, trouxe uma mochila. E olhando pra tras, desde o dia em que botei os pés em Paris, eu so posso dizer uma coisa: tive uma puta sorte o tempo todo! Consegui emprego na primeira semana sem falar francês; demos sorte com apartamento, ja que o primo do cheri foi pro Canada bem na época em que chegamos; o cheri conseguiu passar nas provas super dificeis que ele tinha que fazer, sem ter tido as aulas, e aos poucos fomos nos instalando no nosso pedacinho de Paris que nos cabe. Depois eu consegui ser aceita no mestrado, e esse ano consegui uma bolsa. Antes de vir, fizemos uma lista das coisas que queriamos ter consquistado em 3 anos e ja ultrapassamos as expectativas.

Vim sem muita vontade, tinha descoberto que meu estilo de vida combina mais com uma cidade pequena, mas nao posso negar que Paris me recebeu de braços abertos e me deu tudo o que ela podia me dar. Nao fui eu que escolhi Paris, foi ela quem me escolheu desde o começo. As propostas de estudos e empregos vieram todas daqui e decidimos vir. As promessas nao foram falsas. Eu teria preferido alguma cidade do sul, mas sei que as coisas nao teriam dado tao certo.

Pra quem achava que todas as metropoles eram iguais, me surpreendi com o charme de Paris. Pra quem achava que ja tinha visto a torre tantas vezes em fotos que nao ia se impressionar, senti no meu peito um soco de êxtase quando olhei pra ela pela primeira vez (alias, a cada vez!). Pra quem achava que casa era o Rio de Janeiro, me vi com saudades do meu chatô de 23m² quando viajava. Pra quem achava que morar aqui durante tanto tempo fosse ser dificil demais, ja estou sofrendo por antecipação com a ideia de ir embora de vez.

O que Paris nao pode me dar, sao as pessoas que amo e que estao longe, mas eu juro que é so olhar a minha volta, ver a beleza inacreditavel dessa cidade, que eu me sinto melhor. Até me confortar, essa cidade me conforta, do jeitinho dela. Se for pra sentir saudade, que seja em Paris. Fica aqui a minha primeira declaração de amor por essa cidade que me acolheu tão bem. E a partir de agora fico mais tranquila em saber que, aconteça o que acontecer, We will always have Paris.



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Agora, desculpem por quebrar a magia que o final do texto proporciona, mas queria anunciar que meu amigo-secreto é a, quase senhora, Aline Mariane (woo-hoo!). Então, migrem pro São Paulo - Paris - Dakar e esperem meu post a qualquer momento!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A grande fraude

Menstruar é, definitivamente, uma merda na vida de uma mulher - na minha vida -, e, quando você lembra que todos os seus absorventes estão lindamente encaixotados para a mudança, a coisa se torna mais dramatica. Quando Camilo viu a quantidade de absorventes que eu tava trazendo do Brasil, ele perguntou se eu ia enfrentar uma guerra. Quase. Privada do acesso aos meus higiênicos tampões femininos, fui obrigada à ir, pela primeira vez na França, ao supermercado pra comprar novos absorventes.

O Leader Price pode se garantir no preço baixo, mas a variedade de seus produtos é discutivel. Com pressa, procurei por um absorvente com abas, que suportasse um fluxo médio e não fosse muito caro. Como não achava nada, resolvi pegar qualquer coisa e escolhi um pacote de absorventes noturnos (que costumam ser grandes), apesar dele não possuir abas.

O pacote continha doze absorventes, mas pelo tamanho, parecia conter trinta. "Esses absorventes devem ser enormes". Não, minha senhora dona de casa, eles não eram enormes, eram gigantescos! Eu mal conseguia fechar as pernas com aquilo. O absorvente começava no umbigo e ia até o meio da coluna. Eu sai do banheiro morrendo de rir. Quando sentei na bicicleta, senti um conforto imenso. Era um absorvente multiuso: absorve e amortece. Contei essa historia pra Camilo e ele tirou onda perguntando se eu tava usando fralda. E eu disse "tu acredita que esse absorvente serve até pra incontinência?" - eu não estava brincando. Quando chegamos em casa, analisamos melhor o pacote e nele estava escrito "couche". Ou seja, fralda.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A minha primeira vez

Continuando os posts das sensações dos ultimos tempos...

Essas semanas têm sido bem cheias pra mim. Antes, mesmo quando eu ainda escrevia a monografia, eu passava o dia inteiro na frente do computador, cheia de tédio. Agora tenho pensado no quanto minha vida mudou nesses ultimos tempos. Acordo cedo, almoço fora, e vou dormir pesadamente cansada. Pelos meus calculos ridiculos, devo pedalar mais de uma hora por dia, ja que minha nova casa fica beirando o mapa e ta quaaase fora da cidade. Mas as celulites ainda não entenderam que eu ando fazendo muito exercicio: continuam firmes e fortes, ao contrario das minhas carnes.

Pra completar, nos mudamos na ultima quarta-feira. E passei uns três dias trabalhando na mudança. Provavelmente eu ja disse isso neste blog, mas vou dizer de novo: a casa é o maximo! E ainda ganhamos o maior quarto da casa à base do "pedra, papel e tesoura". Papel pra mim, pedra pra Co. Foi emocionante. So não estou escrevendo com maior emoção por estar um pouco bêbada-cansada.

A pressa tem sido grande. Como a casa estah longe de tudo, tenho que pedalar muito pra chegar em qualquer lugar. Dessa forma, como o horario entre uma faxina e outra é apertado, meu horario de almoço dura 15 min, 20min, 30min. Essa pressa me fez cometer minha primeira infração em terras francesas. La estava eu, feliz da vida (apressada pra caralho) andando pela Saxe Gambetta (para os pessoenses, um tipo de Epitacio Pessoa). Um trafego do caralho, muita gente na rua, carros parados, hora do rush e eu la, cuidadosamente passando pelo sinal vermelho. Ando dois metros e um policial careca pula na minha frente. Faz sinal pra que eu encoste. "Merda".

"Sua identidade, por favor". Eu sabia que não tinha porra nenhuma comigo, mas eu tampouco sabia o que fazer, a não ser procurar pelo passaporte que, eu sabia, estava em casa. Enquanto isso, o policial explicava que eu passei pelo sinal vermelho. Uau, sério? Nem notei. Eh que, no Brasil, o sinal fechado fica azul, seu moço. Não? Ok. "Errr... Mon passeporte est chez moi..." Ai fudeu. Quando ele sacou que eu era estrangeira, começou com um "aqui na França se respeitam as leis". Pfff... Mas e eu la, escutando caladinha. Como eu não reagia, ele começou a dizer que eu teria que ir à "delegacia" pra fazer a verificação da minha identidade. Como eu não reagia, ele disse que eu passaria 4h la nesse processo. Ai eu reagi.

Gente, pra uma pessoa apressada como eu, o fato de passar 4h "presa" à burocracia babaca francesa era pior que a multa de 135€ que eu teria de pagar. Porque, na verdade, eu não consegui identificar em que tempo verbal ele me ameaçava. Não sei ainda se ele disse que eu tinha que pagar naquele momento a quantia, ou se eu iria ser multada numa segunda vez. De qualquer forma, até aquele momento, nossa conta bancaria ainda estava no vermelho e tudo o que eu não queria, era chegar pra Camilo e dizer que eu fui multada em mais de 100€. Então, lancei minha "tatica:" comecei a pedir pra ele falar mais calmamente (dando uma de doida, com o se eu não tivesse entendendo nada), interrompi o careca duas vezes pedindo pra ele repetir e fiz uma cara de choro (essa, sem precisar me esforçar). Eu esperava que, dessa forma, ele se cansasse de mim e tivesse vontade de mandar pastar essa porra de estrangeira nojenta que vem ao meu pais quebrar nossas leis. E foi isso que ele fez. Eu ainda disse que nunca mais iria fazer aquilo novamente e escutei, com muito odio no coração, ele dizer "é, eu sei que não". Fela!


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Tarde de superlativos

Ha uma hora, quando liguei meu compuatdor, eu estava feliz e contente porque:

- meu computador ligou;
- eu tinha acesso à internet;
- eu tinha, finalmente, tempo pra atualizar meu blog;

Como essas três coisas se tornaram raras nos ultimos dias, o meu sorriso era enorme. Comecei um post no Bloco de Notas e falei nos detalhes como foi o encontro em Paris. De repente, o computador desliga e, quando retorna à vida, percebo que o post sumiu (sim, obviamente eu estava salvando o arquivo a cada frase feita). Agora tou puta da vida e não vou mais escrever sobre o encontro de Paris.

Mentira, eu vou. hihihi

Como metade da empolgação foi embora junto com o arquivo perdido, vou resumir minhas sensações sobre o encontro. Do começo, pra quem não pegou a historia: neste ultimo fim de semana, fomos à Paris para o I Pic Nic de Blogueiros Brasileiros Residentes na França (denominação tosca por minha conta). A idéia partiu de Amanda, que, percebendo que a interação via blogs era formidavel, resolver dar cara aos blogueiros e convidou a todos pra um pic nic.

Camilo ja estava em Paris à trabalho, então, se juntou a mim e, no final da tarde da sexta-feira, chegamos à casa de Amanda e Cheri. A noite foi tranquilissima. Quando li o blog de Amanda pela primeira vez, ficou claro que eu iria voltar com frequência, como de fato aconteceu, mas não imaginava que em poucos meses eu estaria passando uma noite na casa dela. O casal em si é massa, da pra entender porque eles se amam. Muita historia pra contar e um bom ouvido pra escutar.

No dia seguinte, fomos ao Parque Esqueci o Nome e nos sentamos à beira de um laguinho. Ok, não tão à beira. Nesse momento eramos:

Amanda e Cheri, Maira e Rafael, Rodrigo-Rafael, Margareth e François (por algum motivo desconhecido e infeliz, Margareth não tem blog), Aline, Mariana, Bel e duas amigas, Benzina e China (o casal mais bonito da tarde), eu e Camilo.

No post-frustrado, comentei sobre cada uma dessas pessoas, mas o que eu queria mesmo é falar do todo. Usando as palavras de Amanda, foi isso: "Nos temos muitas afinidades em comum, senão não perderiamos tempo lendo os blogs uns dos outros". Como você disse, esse não foi um encontro comum. Sempre vejo os Orkontros dos brasileiros em Lyon e morro de tédio soh de ver os topicos. Velho, pra eu ter gasto o dinheiro que eu não tinha (até ontem, estavamos com - 60€ na conta), ter pego um trem sozinha e ido encontrar gente que eu nunca vi na vida, é porque eu sabia que ia valer a pena. E valeu mesmo!

Além de me empanturrar minha tripinhas de comida (bonissima) e beber vinho até os dentes ficarem roxos, ri muito, ouvi muita historia, recebi conselho, fui bem recebida (Benza, Margareth e Amanda, nesse sentido, um obrigada em especial. Puta merda!) e sai muito contente do Parque. Impressionante: é o que eu tenho a dizer.

A Mariana teve a idéia de um amigo-secreto-geek em que trocaremos posts sobre o tema "Paris". Rah! Acho que essa vai ser a primeira experiência de amigo-secreto da qual eu não vou me arrepender de ter participado. No memoravel amigo-secreto de 1996, na escola, eu disse aos participantes "por favor, eu não gostaria de ganhar um colar dourado. TUDO, menos um colar dourado". Tava na moda dar essas porcarias como presente. E não é que a pessoa que me tirou (VANESSA MALDITA!) me deu um colar dourado com um dalmata amarelo pendurado e ainda disse "achei tua cara"? Fiquei... putissima. Inesquecivel, inesquecivel... Dessa vez, arrisco: me deem (escrevam) o que quiserem! Tenho apreciado bastante as sugestões desse povo.

Obs: fico devendo as fotos e tenho uma otima desculpa: a câmera tah em alguma caixa desconhecida (processo de mudança de casa).
Obs2: pra quem se preocupou, Camilo recebeu seu esperado salario hoje. Tudo bem que cada centavo ja esta destinado e nao sobrara pn, mas o importante eh que saimos do vermelho. Merci!

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Um minuto

Um post super rapido soh pra avisar algumas coisas.

A coisa mais triste: a morte do meu computador. Foi pro limbo. Agora, um pai nosso e um minuto de silêncio. Obrigada.

A mais legal: esse fim de semana tem o tão aguardado encontro de blogs de meninas casadas com franceses. Deve ser esse o tema do encontro, ja que a maioria das participantes se encaixa nessa categoria incomum. Incomum? Se você estiver ai, de bobeira por Paris, ja sabe: pic nic sei la onde, sei la com quem. Perfeito.

E... achei que tivesse mais coisa pra dizer, mas acho que é soh isso. Quando eu macumbar meu computador pra ele voltar à vida, volto a escrever. Por enquanto é so pessoal!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Obrigada!

Mme Forfait. E olhe que eu gostei dela...

Hoje fui encontrar a tal da Mme Cler pra que ela me levasse até o local da minha primeira faxina como contratada da empresa dela. Longe pra caralho, fora de Lyon, num condominio enorme, com muitas arvores e crianças branquelas brincando nos parques.

A casa era de Mme Forfait. De cara ela ja me pareceu otima! Ela ta gravida e, pelo tamanho da barriga, acho que é de 17 meses: os peitos dela tinham o mesmo tamanho da barriga. Mme Cler perguntou pra quando era o filho e eu achei que ela fosse dizer "agora, segura!". Sério, não sei como aquela mulher respira, coitada, soh dava pra ver as pernas e a cabeça dela, o resto do corpo era soh barriga. E ainda, dentro das primeiras impressões, pelo estado da casa, achei que eles tivessem acabado de se mudar. O apartamento era muito pequeno e tinha bagunça por todo lado. Ela tem mais dois filhos pequenos e, no estado em que se encontra, vocês imaginam como deve ser manter uma casa limpa. Coitada, de novo.

Lavei os banheiros, o quarto dos guris, fui pra sala, aspirei o tapete e, pra executar melhor essa tarefa, coloquei as cadeiras em cima da mesa, os vasos de flores, as velas etc. Quando o chão ja se encontrava lindo e limpo, sai recolocando os objetos em seus devidos lugares. E agora, cena espetacular: três cadeiras em cima da mesa e um vaso. Dessas três cadeiras, fui inventar de tirar justamente aquela que servia de apoio pra uma outra. Quando retirei a tal cadeira, a outra perdeu o apoio e foi caindo em cima da mesa. Meus olhos seguiram a queda até se encontrarem com o vaso de flores que estava bem abaixo da cadeira que estava caindo, caindo... Eu soh tive tempo de fazer... nada. Em um segundo a cadeira caiu, o vaso explodiu, molhou a sala TODA e jogou caquinhos de vidro transparente pela casa que é habitada por duas crianças abaixo dos cinco anos. Que beleza! Pra completar, nesse exato segundo, Mme Forfait entra na casa (ela tinha saido). "Ah, o vaso quebrou". E eu, nadando na agua das flores,"mi mi mi, Mme Forfait, pardon, mi mi..." Ela disse que tava tudo bem, que esse vaso valia uns 5€, "mas cuidado pra não se cortar". Achei ela muito massa mesmo. Trinta segundos depois disso, ela perguntou se eu poderia vir proxima semana!

Ela me deixou novamente sozinha na casa e disse pra eu trancar bem tudo quando saisse. Assim o fiz, carregando prédio abaixo o lixo. Soh que eu não encontrei a lixeira do prédio e sai feito uma lesa pelas ruas com um saco preto de lixo na mão. Depois, procurei a parada de ônibus e, como não achei, perguntei a um cara o caminho. Ele perguntou a direção que eu queria ir, depois explicou onde ficava a parada de ônibus e eu agradeci, abestalhadamente feliz por ter feito minha PRIMEIRA pergunta na França a um desconhecido. Tcham ram! Eh incrivel como essas babaquices me deixam feliz. Peguei ainda um metrô, depois resgatei minha bicicleta que eu havia deixado na estação e cheguei em casa exatamente uma hora depois de ter deixado o apartamento de Mme Forget.

Acho curioso como essa semana se transformou em tantas coisas pra mim. Comecei bebendo feliz com Camilo, comemorando. No dia seguinte, passei a tarde chorando e ciscando, preocupada, tive insônia. Aih fiquei feliz por ter conseguido um contrato que, pensando bem, eu não queria. No segundo seguinte, me fizeram acreditar que era bom e eu fui. E depois de tanto vai e vem, acho que posso dizer que tou aliviada e satisfeita pelas oportunidades de sofrimento não-gratuito que essa semana me proporcionou. Por estar sempre com Camilo, nunca pergunto nada a ninguém, nunca faço um telefonema sozinha, não ando de ônibus, não compro bilhetes de metrô, nem pego metrô! De qualquer forma, espero que essa seja a unica viagem traumatizante, pra mim, que ele faz.

Ah, queria agradecer pelos recados de estimulo deixados aqui. Com a viagem de Camilo, eu tou me sentindo mais sozinha do que nunca. E eu fiquei bem feliz de ver gente que nem me conhece, que nunca me viu na vida, me colocando pra cima. A idéia inicial desse blog era permitir uma conexão entre mim e os amigos que deixei, mas agora eu me sinto mais estimulada a escrever pras pessoas que nunca vi na vida (graças à Amanda, essa situação estah prestes a mudar), ja que meus ilustres amigos nunca dão as caras (nem por aqui, nem por e-mail), com a exceção rarissima de poucos, me fazendo achar que eu tou falando sozinha. Blogueiro adora comentario, mas eu agora tenho um motivo maior pra apreciar os recados de vocês: companhia. Obrigada!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Continuando...

Hoje de manhã fui na ACFAL, empresa responsavel pelo curso de francês oferecido pelo Governo. Falei com uma mulher doida la, que fala rapido, e ela me disse que minhas aulas serão todos os dias, com exceção da terça. Serão 21h semanais. Pelo que vi nas salas de aula de la, eu vou ter muitos amiguinhos arabes. Pelo menos esses eu sei que vão morar em Lyon.

De tarde, me preparei psicologicamente pra enfrentar a entrevista. Para chegar la, fiz pequenas coisas que nunca tinha tido a possibilidade de fazer por estar sempre acompanhada de Camilo.

Passo um: achar o metrô certo pra chegar ao "bairro nove". (Linha Verde - D)
Passo dois: comprar os bilhetes pro metrô. Depois de observar atentamente uma mulher, consegui compra-los (dez bilhetes por 13€).
Passo três: achar o local da entrevista. Como eu tenho um otimo senso de localização, depois que desci do metrô, fiquei rodando sem saber aonde eu tava indo e decidi parar num lugar pra ver melhor o mapa. Parei uns cinco minutos e segui decidida pra direita. Depois voltei. Não entendi nada. E, finalmente, percebi que eu estava o tempo todo na calçada da empresa. Tipo assim, quase beijando a porta do lugar. Sinceramente, aquele mapa tem umas proporções bizarras. Ta errado.
Passo quatro: controlar o intestino pra não cagar no birô da mulher.
Passo cinco: "Bounjour! Mme. Cler?" (era eu ja apertando a mão da Madame). Na noite anterior, treinei com Audrey todas as frases pra responder às possiveis questões dela. Passamos uma hora nesse treinamento e eu ja nao aguentava mais ter que decorar tanta coisa. Pensei que a mulher não ia exigir muito. Mais uma vez, eu estava equivocada. A mulé perguntou tudo a que tinha direito, parecia que eu tava me candidatando ao cargo de gerente da empresa. Minha amiga, eu vou fazer fa-xi-na! Em certo momento ela se levantou e disse "você pode passar essa camisa pra mim?" E, quando eu vi, surgiu do chão um ferro de passar, uma mesa e uma camisa amassada. Eu nunca passei uma calcinha na minha vida! "Fudeu, fudeu!" Olhei pra camisa, olhei pra Mme Cler, sorri e fui passando, passando... Como se eu tivesse tudo sob controle. Depois ela chegou junto e perguntou simplesmente "você não passa as camisas do seu marido?". Foi foda.

Foda I: essa foi uma maneira muito gentil dela dizer que eu não sabia fazer porra nenhuma daquilo.
Foda II: é impressão minha ou madame Cler é machista?

"Não, não passo, porque ele não deixa" (o que em parte é verdade, a outra parte é que a gente não tem ferro de passar). Ai ela perguntou "você quer aprender a passar ferro?" e eu disse "não" (eu tinha entendido errado). Coitada. Porém (esse porém é bom), sai de la com um contrato de tempo determinado (ainda não assinei), de três meses, sendo as duas primeiras semanas de treinamento. Fiquei feliz por ter conseguido superar o drama, mas não sei... O primeiro trabalho, que é amanhã, fica fora de Lyon. E, pelo que ela disse, não é coisa simples. "Ah, você vai fazer uma faxininha, cuidar das crianças e fazer o jantar". Quero saber até quando vou ter saco de cuidar da familia e da casa dos outros e deixar a minha de lado. Por enquanto, vamos ver no que vai dar.

Maria do Ba(i)rro

Essa semana nem terminou (INFELIZMENTE) e eu ja posso dizer que ela foi a mais bizarra desde que cheguei em Lyon (em maio). Ok, a primeira semana aqui, em que eu tava com a cara cheia de pus por ter levado uma queda de bicicleta e com um olho fechado, também não foi comum, mas enfim, deixa eu falar dessa semana. Antes de tudo, pra que vocês entendam o drama que eu vou contar, é preciso que eu me descreva um pouco emocionalmente.

Eu sou uma pessoa terrivelmente ansiosa. Medrosa. Chorona. E adoro sofrer por antecipação. Adoro! Dois exemplos basicos:

exemplo de ansiedade: eu passei o mês inteirinho anterior à minha chegada na França tenho desinterias psicologicas. Alias, as desinterias não eram nada psicologicas: é que bastava eu lembrar da viagem e correr pro banheiro. Um mês. E cada vez que se aproximava do dia da partida, eu cagava mais. Meu ultimo rastro foi no Aeroporto Castro Pinto, de João Pessoa. Quando coloquei os pés no solo francês aconteceu um milagre.

exemplo de sofrimento antecipado: eu tendo, quero acreditar que é durante a TPM, a chorar a morte de pessoas que... não morreram. Como é? Bom, tou la eu no ônibus, feliz da vida, quando começo a pensar "meu deus, como eu ficaria se Camilo morresse?" Ai eu penso no momento em que eu escuto a noticia do falecimento, no choque instantaneo, na dor, na solidão, em todas as lembranças que temos juntos e, quando me dou conta, tou chorando loucamente. Tipo assim, soluçando, vermelha, querendo vomitar as tripas de tanta dor que tou sentindo. Entenderam? Pois bem: eu sou assim.

Agora, vou contar sobre minha semana. Ela, na verdade, começou muito bem: Camilo apresentou seu TCC dia 14. Foi um dia muito legal, eu tava muito feliz por ele! Ele se deu muito bem! Bebemos até cair (eu, literalmente) e fomos felizes. No dia seguinte, porém (sempre tem um), ele viajou com os amigos da universidade e soh volta no proximo domingo. Achei melhor ficar em Lyon porque vi nessa viagem a oportunidade de deixa-lo sozinho, curtindo um momento massa da formatura dele, com os amigos dele que estão igualmente formados. Mas, de qualquer forma, vi que eu tinha uns compromissos que, geralmente, é Camilo que me ajuda a cumprir. Não eram coisas do tipo "fim do mundo", mas pra uma pessoa que caga por qualquer suspiro, o menor dos fatos de transforma numa tragédia.

A programação solitaria da semana consistia nas seguintes atividades:
segunda: limpar latrina
terça: inscrição no Pole Emploi
quarta: ir na Agência de Imigração
quinta: limpar mais latrina
sexta: beber até cair com Simone

No entanto, a inscrição no Pole Emploi me deu o contato de duas empresas que contratam pessoas que fazem faxina. Eu. Quem me acompanhou nessa ida ao Pole Emploi foi Audrey (menina que vai morar comigo na proxima casa). Normalmente, Camilo ligaria pra essas duas empresas e faria o contato entre ela e a mocinha aqui, mas Audrey é terrorista e me fez telefonar pra essas duas empresas. Eu quase tive um derrame, mesmo a gente tendo treinado as frases-chave da conversa. A mulher do outro lado da linha, obviamente, não tinha o roteiro da conversa e me fez uma pergunta inesperada e eu me embananei todinha. Foi lindo. De qualquer forma, ela marcou comigo uma entrevista de emprego pra hoje.

Sei que, lendo assim, as coisas parecem muito simples. E são. Mas antes de eu chegar até aqui pra contar essa historia, eu chorei bastante, me senti muito sozinha, perdida, incapaz de fazer essas coisas. E isso, acreditem, me deixa muito puta comigo mesma. Porque faz com que eu sofra com coisas com as quais qualquer pessoa normal tiraria de letra.

Essa é a primeira parte da novela mexicana. Vem ai a volta por cima... ou quase.

Talvez

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