quarta-feira, 14 de abril de 2010

Escalada + medo de altura: combinação explosiva


Em janeiro, Camilo se inscreveu numa sala de escalada e tem praticado o esporte uma vez por semana. Quando cheguei da viagem ao Brasil, encontrei um Camilo mais magro. O vi sem blusa e perguntei com toda minha espontaneidade paraibana "oxe, cadê teu bucho, menino?!" Não é que ele esteja slim, exibindo uma cintura de Barbie, mas ja pôde diminuir um ponto no cinto e, domingo, ele vestiu uma calça que não cabia nele havia meses!

Se eu ainda precisava de algum motivo pra me inscrever na escalada, achei um. Ainda relutei, mesmo com os convites de Camilo, porque acho importante pra saude da nossa relação que cada um tenha suas atividades particulares. Mas foda-se. Quem deve ter ficado triste foi Corentin, figura que mora com a gente e que tinha como parceiro pra escalada (que se faz em dupla) Camilo. Alias, Co ja morou dois anos com Camilo (esse é o terceiro ano), estudou com ele na universidade, estagiou com ele na mesma empresa, trabalha com ele atualmente e juntos tão criando uma empresa. Alias, eu sempre digo que a verdadeira namorada de Camilo é Co, que eu sou apenas a amante.

Seja como for, fui com Camilo pra uma aula de teste. Meo-deos-do-céo. Me deparei com aquela parede enorme, cheia de pontinhos minusculos dos quais eu teria que me equilibrar pra subir, contanto somente com a segurança de uma corda em caso de queda.

Vamos ao ja conhecido esqueminha do Paint (ja conhecido pelos leitores do finado Circo) pra saber como a coisa funciona:

Camilo (suspenso, na figura) faz um noh especial e o envolve no seu cinto de segurança (vide foto em que ele exibe feliz seu presente de aniversario). A corda vai até o topo da parede e desce até o meu cinto. A medida em que Camilo sobe, eu tenho que ir recuperando a corda dispensada por ele num movimento um pouco complicado, mas de extrema importância em caso de queda. As vezes ele cai de repente e, como ele é mais pesado do que eu, ele me suspende o bastante pra que eu tire os pés do chão, mas não o suficiente pra que eu suba e ele caia. Seria engraçado se não fosse tenso.

Ele sobe agarragando somente um tipo de presa indicada por uma cor especifica. E, quando chega em cima, eu vou dando corda pra que ele desça vagarosamente. O problema, meus amigos, é que eu não sou assim, uma pessoa que fica à vontade com os pés longe do chão. Na primeira vez em que tentei escalar, fiquei feito uma macaca a sete metros de altura, petrificada la em cima. Pra descer, você tem que confiar na pessoa que estah la embaixo e simplesmente se jogar, enquanto ela te desce. Acredite, não é facil.

Na primeira vez, quando cheguei la em cima, toda feliz porque tinha conseguido controlar meu medo, ele disse:

- Vai, agora se joga!
- Errr... tah bom! (segurando a corda)
- Vai, Luci, se joga!
- Tah bom, tah bom! (segurando a parede)
- Luciiii! Vamos la, vai, eu tou aqui!
- Eh, porra, e eu tou aqui!

Aih, eu solto a corda e vejo que continuo no ar, esperando que ele me desça. Beleza.

- Luci, agora você tem que colocar suas pernas retas, senão, quando você descer, você vai ralar o joelhos na parede.

Olhe, eu ja tinha feito o esforço sobrehumano de soltar minha mãos da parede, mas deixar as pernas retas significaria ficar ainda mais longe dela. Por esse motivo, eu cheguei la embaixo com apenas metade de cada joelho, porque eu fui quicando de cima à baixo.

No final da sessão, eu tava incapaz de levantar meus braços acima dos ombros. A coisa é muito cansativa. Ainda bem! Se eu não morrer (de medo) daqui pra setembro (quando termina minha inscrição), eu espero estar slim. Nem que pra isso eu tenha que sacrificar meus joelhos.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Desempregos de verão

Agora que tou desempregada, me pergunto se eu não me demiti cedo demais. Apesar de ser um trabalho nada edificante, a faxina me dava duas coisas que eu aprecio muito nessa vida: independência e sono tranquilo.

Mas aih vem as aventuras!

No ultimo dia 07, teve um forum em Lyon pros jovens que estão à procura de empregos de verão. Na França, o sistema de férias escolares é bem diferente do sistema do Brasil. Aqui, você não soh tem somente um mês de férias no fim do ano e outro no meio dele. Você tem varias semanas de aulas e férias intercaladas durante o ano e, no verão, você tem os três meses livres. Eh por isso que os estudante usam esses meses pra trabalhar e depois curtir as férias. E chove empregos (de merda) nessa época!

No forum, tinha emprego pra motorista de trenzinho, pra animador de colônia de férias, caixa de supermercado etc. Camilo aproveitou bem essas oportunidades durante a sua vida de estudante universitario. Ja trabalhou num matadouro de porcos, foi salva-vidas numa colônia de férias, vendedor de peixe, pedreiro e entregador de lista telefônica. Em 2005, ele trabalhou um mês, pegou os mil euros e passou as férias no México, nesse lugar feio aih da foto.

Então, la fui eu pro forum. Entrei toda esperançosa, mas trinta minutos depois, eu ja tava fora do prédio, chutando pedrinhas. A primeira dificuldade: chegar até a coluna de anuncios. Encontrei gente mais desesperada por emprego que eu, tive que rastejar entre as pernas da galera, socar alguns, subornar. Segunda dificuldade: entender quais eram os cargos que estavam sendo oferecidos. Anotei um monte de anuncio sem saber se era pra trabalhar como pedreiro ou prostituta. Mas la estava eu: caneta a todo vapor. Muitas vagas exigiam formação ou eram chances fora de Lyon. Por isso anotei somente cinco ofertas.

Fui almoçar com Camilo logo depois. Amor, o que é plongeuse? Lavadora de prato. Foi assim que aprendi mais uma palavra em francês. Mas no Dicionario Lendemain, plongeuse pode também ser homem-rã. Eh que tinha uma vaga pra lavadora de prato numa sorveteria. Conversei mais um pouco com Camilo sobre as outras possibilidades, mas todas apresentaram alguma retrição (eram longe ou eu não tinha disponibilidade pro cargo).

Então, depois do almoço, me enchi de coragem, peguei a fantasia de rã que eu trago sempre comigo, pro caso de eventuais emergências, e cheguei na sorveteria um tanto assim, balbuciante. A mulher mal olhou meu CV e ja foi perguntando quando eu poderia começar. Mas aih veio o meu porém: eu não quero trabalhar nos finais de semana, nem durante a noite. Por isso a dona da sorveteria falou que não ia dar. Eu quero muito trabalhar, mas soh quem mora aqui pode entender o quanto pode ser sagrado o verão e eu, definitivamente, não quero perder os melhores momentos do ano dentro de uma sorveteria! Vestida de rã!

Mas vou colocar meu plano B em pratica: amanhã tenho um encontro com um cara de uma agência de empregos e acho que ele pode me ajudar. Vamos ver. Ainda tenho o plano C, o D, o E e o F de fudida. Espero não precisar recorrer a este ultimo: voltar a ser faxineira.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Não vou de taxi - parte I

Uma amiga me escreveu ha algumas semanas dizendo que tinha repassado o endereço do meu blog a irmã que viria estudar em Lyon pra ela começasse a se acostumar com a vida aqui. Como mal escrevo sobre a vida em Lyon, vou fazer um esforço maior pra isso.

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Quando me perguntam sobre as coisas que gosto na França, "os transportes" é quase sempre a primeira resposta. Pra quem tava acostumada a esperar mais de uma hora por um misero ônibus, ter cinco opções de transporte publico é realmente incrivel.

FUNICULAR

O primeiro no mundo a transportar passageiros, foi inaugurado em Lyon em 1862. Atualmente existem duas linhas de funicular na cidade: Saint-Jean - Saint-Just e Saint-Jean - Fourvière. Eh um dos meios de transporte mais frequentados pelos turistas, ja que a Fourvière é parada obrigatoria pra quem vai a Lyon - e também, como essa é a unica parte não plana da cidade, é muito cansativo chegar até la sem ajuda do funicular, mas soh pra pessoas como eu, assim, atléticas.


METRO


Existem quatro linhas de metrô apenas (comparado com Paris, ridiculo), mas ao menos eles passam com grande frequência. A linha de metrô D (foto), que tem um ponto pertinho daqui de casa, no horario de pico, passa a cada dois minutos. Eh a unica das quatro linhas que roda automaticamente, pro meu desespero. Ha umas semanas, Camilo e eu conseguimos pegar o ultimo metrô pra voltarmos pra casa. Pra nossa sorte, no vagão à frente, tinha meia duzia de idiotas querendo aparecer. Como se macacar e falar alto não fosse o bastante, eles desatarraxaram todas as lâmpadas do vagão deixando ele completamente no breu. Depois disso, eles conseguiram parar o metrô apos terem lançado uma chama altissima com um isqueiro. Como diriam na Paraiba, coisa de menino buchudo.

TROLEBUS

Lyon tem a maior rede de trolebus da França. Atualmente são somente duas linhas, mas ha o projeto de uma terceira que sera aberta no ano que vem.

TRAMWAY

As quatro linhas de tramway cobrem as areas em que não ha metrô. Em algumas cidades do Brasil ja existe o projeto pra ser lançado o VTL (Veiculo Leve sobre Trilhos), como Recife, Natal e João Pessoa (o que uma Copa não faz). Li que o querido Arruda foi até Sarkozy pra construção do primeiro VTL da América Latina la em Brasilia.

(continua...)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A lingua francesa

Camilo sempre gostou de cozinhar, por isso, no começo do namoro era ele quem cozinhava - alias, é ele quem cozinha ainda hoje, hihi. Então, num desses almoços de comecinho de namoro, ele fez um frango com abacaxi que me faz lamber os beiços até hoje. Quando ele terminou seu almoço, ele levantou o prato e o lambeu de cima à baixo. Ao ver aquela cena, fiquei me perguntando estupefata se ele ainda tava com fome. Pensei em oferecer o resto do meu frango, mas me limitei a observa-lo lamber o prato. E lamber e lamber e lamber...

"Meu deus, começa assim, daqui a pouco ele vai ta peidando na minha cara", refleti. "Ah, mas vai ver que era soh porque o frango tava muito gosto", ponderei. E, não, não era soh por isso. Almoço apos almoço, Camilo tentava engolir o prato no final da refeição. Pensei que eu fosse realmente muito fresca, mas um dia, um dos caras que morava com ele passou pela cozinha e perguntou sorrindo "e ai, Camilo, vai comer o prato?" Quando percebi que não era somente eu que me chocava com aquilo, resolvi falar com ele.

Disse que achava esquisito que ele fizesse aquilo, que eu realmente não me sentia à vontade. Ele disse que era besteira, que ele tava na casa dele e que ele jamais faria isso em um restaurante, por exemplo. Fiquei meio chateada, mas ele diminuiu consideravelmente a pratica.

Um ano depois, cheguei na França. E depois de tantos jantares, posso dizer que eu teria perdido as contas se resolvesse enumerar a quantidade de vezes em vi o pessoal lambendo o prato (em casa). Até o pai de uma amiga, mês passado, no final do jantar, perguntou educadamente "posso lamber o prato?" Haha Geralmente o francês tem à mesa uma cestinha de pães fatiados. A finalidade é, além de ter o pão como acompanhamento, limpar o prato no final das refeições. Na falta do pão, para alguns, vai a lingua. Mas no começo do namoro, eu não sabia disso.

Obs 1. Longe de mim dizer que isso é regra aqui
Obs 2. Sim, eu ja lambi pratos na minha vida, mas geralmente eu tava sozinha e era sobremesa!
Obs 3. Hoje Camilo arrota, peida e vomita na minha frente: mudei um pouco minha concepção sobre o que é educado ou não e eu faço o mesmo

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E aproveitando que estamos falando de modos à mesa e comida...

Aqui é realmente dificil começar uma refeição na presença de alguém sem escutar "bon appétit!". Nessa viagem ao Brasil, me peguei surpresa por as pessoas não dizerem isso. E também se costuma agradecer àquele que preparou a refeição. Adoro o ritual da comida na França! Meus cinco quilos a mais podem falar por mim.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Pascoa suiça

Na quinta-feira passada, resolvemos sair de Lyon nesse feriado de Pascoa. Todos nossos colocs iam viajar, então pensamos no mesmo e decidimos ir pra Suiça. Essa é uma das vantagens de se morar na Europa: em uma hora e meia, estavamos em solo estrangeiro. No Brasil, em uma hora e meia, eu não teria nem saido da Paraiba.

Entendo todos os suicidas finlandeses: chegamos no sabado chuvoso e o nosso humor se manteve nessa linha infeliz. Eu seria incapaz de viver num lugar sem sol, mas a previsão pra todo o fim de semana era somente uma: chuva. Felizmente, consultamos as previsões de meteorologistas incompetentes. A noite, seguimos pra casa do nosso anfitrião, o couchsurfer Bafou, um maliano muuuito gente fina! Couchsurfers com destino à Genebra: eu aconselho!

Como todos os preços estão obviamente em francos suiços, é normal que você se assuste a cada parada num café. Mas assustada mesmo eu fiquei com uma coisa: não existem supermercados em Genebra. Sério. Tentamos achar algum pra compramos umas cervejas, paramos meia duzia de pessoas pra pedir alguma informação, mas soh fomos encontrar uma loja na estação de trem. E se vocês quiserem comprar alcool, é bom que comprem antes das 21h, depois desse horario, é proibido vender alcool. Esses paises responsaveis, humpf!

Apesar de termos alguns pontos que gostariamos de visitar, andamos meio que sem rumo na cidade. Mas passamos pelo menos uma vez, nos três dias, no Lago Léman, onde fica o famoso Jet d'Eau. Não ir ao Lago ver o Jato, é como ir a Paris e não ver a bendita Torre. Mas minha necessidade foi além da turistica. O lago é lindo. Repleto de patinhos e cisnes. Eles soh não são tão bonitos jogando jatos de cocô na agua. Eu vi. Além de cocô de cisne, o lago tah repleto de veleiros branquinhos que passam rasgando levemente a superficie da agua. Fantastico!

Outras coisas que me deixaram curiosa: não vi muitas lojas arabes, mesmo as de Kebab; a cidade deve ser tão misturada etnicamente quanto Paris: tem gente de toda cor, tipo e tamanho - encontrei um milhão de italianos, um bilhão de portugueses e um zilhão de... brasileiros; não vi nenhuma estação de bicicleta (assunto pra um proximo post); sim: ha uma loja de relogio a cada dois metros e os parques são quase indecentes de tão bonitos. Achei graça quando vi um galo no Jardim Botânico.

O museu da Cruz Vermelha quebrou minhas pernas com uma exposição com fotos das guerras dos ultimos 150 anos. Tive uma subita e incontrolavel crise de choro na saida do museu porque realmente nada me parte mais o coração que ver criança sofrendo. E eu vi muita. Mas logo a gente voltou a nossa realidade feliz de gente bem nutrida e sem problemas e aproveitamos dela.

terça-feira, 30 de março de 2010

Lyon: mestrado (ou de quando me tornei um problema para Sarkozy)

Eu não sabia que a historia dos chocolates ia impressiono-las tanto quanto a mim. Nessa altura do campeonato, ja defequei 4/5 do bau. Ah, vocês não queriam saber disso? Desculpem.

Aline ficou surpresa por eu ter encontrado os chocolates intactos. O segredo é que Camilo, graças aos anjos, não é muito chegado em chocolate. Mas ele chegou a ameaçar minha felicidade dizendo que ia comer todos antes da minha chegada. Eu, do alto da minha ira, devo ter dito algo a ele que o fez desistir de me contrariar. Muito bem, marido.

O motivo de eu ter devorado a caixa de chocolate em dois dias é que agora eu virei vagaba profissa: pedi demissão na segunda. Sim! Ajudei no aumento do numero de desempregados na França. Como diria Guanambi, me tornei um problema social.

Antes de sair da França, tentei pedir demissão. Disse a mme. Cler (minha chefa) que eu iria pro Brasil e, mesmo quando voltasse, iria procurar outro emprego. Ela tentou me convencer a ficar e, no final, pediu pra que eu soh me demitisse quando arranjasse algum outro emprego. Ela disse que esperaria essas sete semanas. Eu, sinceramente, não sabia se ficava feliz ou não, mas topei. O problema é que, apos sete semanas de férias, tudo o que minha mente e minhas mãos (que jah tinham se livrado completamente dos quatro calos de estimação) não queriam eram voltar a me ver faxinando. Mas mme. Cler (minha ex-chefa) foi super legal, aceitou numa boa, mas disse que era uma pena, que ela sentia muito. Eu também sinto muito. Sinto muita alegria.

Agora soh volto lah na sexta ou na segunda pra pegar uns ultimos papeis e um cheque de 120€ que meu francês otimista entendeu que pertencia a mim. Mas nem tudo são chocolates. Faz alguns dias que ando pesquisando sobre possiveis mestrados na França. Com a ajuda de Aline, Amanda e Livia (valeu, meninas!), recebi informações valiosissimas e também frustrantes. Vou explicar.

O mestrado aqui na França, diferentemente do mestrado no Brasil, é dividido em duas partes. O M1 e o M2. Enquanto que no Brasil você soh tem um ano de aula e no seguinte faz um trabalho final, aqui, na França, os dois anos são independentes, dando o direito ao aluno de estudar um tema completamente diferente em cada um desses dois periodos. Mas um detalhe: ter mérito no M1 não da automaticamente passe-livre pro M2. E no final de cada ano, o aluno deve fazer um memoire de cerca de 100 paginas (por favor, mestrandas en France, me corrijam se eu estiver errada, porque não ha nada pior do que gente falando o que não sabe).

O mestrado dos meus sonhos soh tem um problema: tem um intercâmbio obrigatorio em pelo menos um dos quatro semestres. E eu digo "problema" porque escrevi a uma das responsaveis e ela disse que as bolsas que ajudarão os alunos nesse deslocamento são prioritariamente dos alunos idiotas europeus. Cocô. Mas tudo bem, vou tentar de tudo, pesquisar bastante, se rolar, rolou, babe. Afinal, quem diabos quer um mestrado quando se pode limpar mesas e lavar pratos?

segunda-feira, 29 de março de 2010

Historia de superação: o dia em que superei meu peso

Agora, vou contar a vocês uma bonita historia de fé e luta, a historia de uma mulher (eu) que acreditou e conseguiu o que queria: chocolates.

Minha historia de luta e superação pessoal começa em alguma tarde perdida do mês de novembro, quando eu ainda era estudante na ACFAL. Nos dez miseraveis minutos de intervalo que tinhamos, eu saia do prédio, atravessava a rua e ia até um supermercado comprar porcaria pra comer (chocolate, jujuba, biscoito recheado etc). Um dia, eu comprei uma caixinha de chocolates da Ferrero e a levei pra casa. La, ao dar fim ao troço, joguei a caixinha fora. Foi então que observei um numero gravado na embalagem. "Entre no site da Ferrero, digite o codigo e concorra a cinquenta baus de chocolate por dia".

Meus olhinhos brilharam. Minhas banhas se agitaram. Minha gula me levou até o computador e eu digitei o bendito codigo. E, ainda que eu não soubesse ler patavinas de francês, eu soube que eu tinha ganho a porra do bau. Dei uns risinhos desconfiados. Ao mesmo tempo em que estava feliz com o prêmio, me arrependi de ter gasto minha sorte com chocolates. Nesse momento, aquela nota de cinquenta euros que eu ia achar na rua, foi esgoto abaixo.

"Em até oito semanas você recebera seu prêmio em casa. Guarde a embalagem". Guardei. Contei nos dedos cada semana. Passaram-se uma, duas, três, oito. Fiquei triste. Era Natal. Haviam me enganado. O Reveillon não me fez esquecer a frustração, mas na viagem ao Brasil, quatro meses depois, eu havia esquecido e ja recomeçava uma vida nova. Foi quando Camilo ligou dizendo que havia chegado um pacote pra mim. Nem desconfiei do que era, até escutar o barulhinho do pacote pelo telefone. "Adivinha o que chegou pra tu". Meus olhinhos brilharam. Minhas banhas se agitaram.

sábado, 27 de março de 2010

A re-volta

Como planejado, cheguei em Lyon ha quatro dias. A viagem foi cinquenta vezes menos cansativa que a da ida, mas como nem tudo é perfeito, peguei umas turbulências que me fizeram entender que ha, sim, formas de eu me sentir mais vulneravel do que me sentia na crescente violência de João Pessoa. Sabe aquelas descidas inesperadas do avião que fazem seu estômago parar nas suas amidalas? Pronto, senti três vezes. Foi otimo.

E como ja faz quatro dias que cheguei, muita das impressões da viagem se foram. O que ficou mesmo é que eu tenho amigos lindos e idiotas! Se eu não tivesse esse tempo no Brasil, acho que eu estatia babando agora, sem dizer coisa com coisa. Agora o rumo é outro. Mas antes, entendam.

Dizem que meu amor por ela é obssessivo e doentio.
Não acho



Minha moral baixa e minha barriga querendo
competir com meus peitos em tamanho


Nariz de Andressa, Fabio e Jeff, o doente


Andressa sobria


Jaque procurando a Biblia na bolsa e Elizinha.
Limpeza.

Foi bom, mas citando Paulo Francis: "Às vezes acho que aguentei tanto tempo viver no Brasil porque estava em estado etílico na maior parte do tempo". Gracias por isso, amigos!

terça-feira, 23 de março de 2010

Especial Brasil: minha primeira tattoo

Sim, finalmente um post. E, provavelmente, o último em terras brasileiras, já que me restam menos de 48h por aqui e, se eu não escrevi muito durante essas sete semanas, é pouco provável que eu o faça nessas horas que me restam no Brasil.

Gostaria de dizer que os dias aqui foram de sol, céu e sal, mas só fui à praia três vezes, e somente pra beber cerveja e enterrar os pés na areia - na realidade, eu não vejo muita utilidade na praia além destas. Apesar disso, desconfio de que eu nunca achei as praias de João Pessoa tão bonitas! Rolou até lagriminha - mas nesse mundo onde as coisas foram criadas com o único propósito de me fazer chorar, o mérito da praia, nesse sentido, se perde.

Apesar dos dias terem sido bem parecidos uns com os outros, aproveitei pra fazer coisas que nunca tinha feito antes como, por exemplo, uma tattoo. Ouais! Já era desejo antigo, mas sempre adiei por dois motivos: falta de grana e falta de imagem. O primeiro problema foi resolvido com o câmbio euro-real. E a idéia da imagem pareceu tão fácil de resolver quanto.

Há uns meses (setembro de 2009?), Camilo me presenteou com um livro de um ilustrador francês, muito conhecido por lá, que se chama Sempé. Foi ele o responsável pelas ilustrações do Petit Nicolas (primeira imagem do post). O nome do livro se chama Simple question d'équilibre e retrata a relação dos franceses com a bicicleta. Nunca vi um povo pra gostar tanto de bicicleta. Basta dizer que, assim que cheguei em Lyon, Camilo me surpreendeu com uma. Confesso que duvidei da utilidade dela no início, mas hoje, eu não me imagino sem minha bicicletinha verde-cocô. Na dedicatória, uma frase simples, entre tantas: "pra você se reconciliar com a bicicleta". E assim foi. O livro é lindo. Sempé é absurdamente simples, mas cada traço percebido aumenta o sorriso.

Apesar de ter folheado o livro de trás pra frente, e de frente pra trás, me deparei com um casal sobre a bicicleta andando de forma linda, em plena harmonia (bem diferente de quando eu ando). Daí, achei que pudesse ser eu e Camilo. Daí, lembrei daquela vez em que eu o carreguei na bike depois de uma calourada bizarra na UFPB, começo de namoro, regados à Ypióca. Belo futuro teríamos pela frente. Eu tentando pedalar com aquele ser esparramado no guidão e ele falando merda e rindo. (segurem firme, vai ser brega, mas) Foi nesse dia em que ele disse que me amava - acho que eu o impressionei com minhas habilidades bicicletísticas. E depois, teve aquela vez em que eu caí: três dias no hospital. E também aquela vez em que ele caiu: véspera do nosso casamento, nariz esmagado. E depois, veio outro livrão de Sempé no Natal. E daí, quando vi, tinha uma tatuagem nas minhas costas.

A única forma que encontrei de nos mantermos
firmes em cima de uma bicicleta.



O responsável pela arte:
Jeison Peixoto - http://www.flickr.com/photos/jeisonpeixoto/

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Especial Brasil: paredão de fuzilamento

Apesar de saber que a Rede Globo é a maior emissora de TV do país, sempre fico abismada pelo desespero dos brasileiros na França à procura de um pacote de TV que exiba a Globo. Gente, é saudade do quê? Da má educação do Faustão? Da homofobia do Pedro Bial? Da Ana Maria Braga e suas mensagens de "yes, you can"?

O post de hoje foi parido graças a cinco minutos e meio de novela que assisti. Ontem, por volta das 19h, liguei a tv e me deparei com a Cama de Gato. "Vejamos o que seja isso".

Cena 1: Vilã entra afobada na casa do mocinho-banana interpretado pelo Marcos Palmeira. Segue diálogo:

- Pelo amor de Deus, Pedro Henrique (ou qualquer coisa que o valha), você não pode se casar com a Raquel! Eu vim aqui impedí-lo!
- Não seja louca, Maria Cristina! Você não pode mais me separar da Raquel!
- Tá massa, doido, tu vai ver!

Aí a louca sai da casa dele vinte segundos depois de ter entrado- aliás, eu nunca vi uma pessoa tão decidida. Então, Pedro Henrique recebe os parabéns do seu empregado que, pasmem, é negro. Pedro Henrique sai de casa e, no jardim, ouve, sem ser percebido, uma conversa de Maria Cristina com o "capanga" dela:

- Seu idiota! Se você tivesse matado o Pedro Henrique como eu mandei, nada disso estaria acontecendo!

De repente, eis que Pedro sai do seu esconderijo:

- O quê?! Quer dizer que foi você quem tentou me matar?!
- Ohhh! Nã-não, Pedro! Você está entendendo tudo errado!
- O Tobias tinha razão sobre você!
- Não, Pedro! Não é nada disso do que você está pensando!

Haha! Sério? "Não é nada disso do que você está pensando"? Não tinha uma frase mais batida não, minha senhora? Mas o melhor vem depois, pessoal: sabem o que o Pedro Henrique faz? Ele diz que vai entregar os dois, vira as costas e tenta entrar no carro dele. Ô, Marcos Palmeira! Sério, cara: você descobre que duas pessoas tentaram te matar e você dá as costas pra elas depois de tê-las ameaçado?

Suspiro.

Bom, depois os três em questão dão início a uma perseguição de carro que, provavelmente, vai deixar Pedro Henrique em coma até o fim da novela, quando ele acordará e entregará Maria Cristina à polícia. Pfff...

Depois muda a cena: uma adolescente de cabelo vermelho anuncia ao seu namoradinho sem pêlo que está grávida dele. Mas antecipa: "se você não quiser assumir, tudo bem, eu cuido dele sozinha". Daí o guri diz extasiado, como quem cheirou uma carreira, que vai assumir o guri e que a ama e que:

- Eu vou ser pai! Que emocionante! Nós vamos ser felizes! Eu vou sustentar você com minha mesada. Tudo vai dar certo!
- Que legal, como a vida de novela é fácil!

Desde a época em que eu assistia Malhação é que é assim. Só agora, me veio à cabeça três casos de amor sem barreiras em Malhação: no primeiro, a menina engravida e o maior conflito do casal é sobre a escolha do nome do bebê. No segundo caso, o carinha descobre que tem AIDS e a namorada casa com ele. No terceiro, a menina fica paraplégica e o seu final amoroso também é feliz.

Antes que me joguem pedras: não tou dizendo que essas personagens deveriam ter um final infeliz somente porque tem problemas (doença, gravidez indesejada etc), mas o que me dá nojo é a forma com a qual a Globo romantiza tudo. O que uma telespectadora de 14 anos pode entender da última cena? Mesmo diante da seriedade de uma gravidez na adolescência, o meu príncipe me salvará: vamos casar e ser felizes. Mas enfim, aposto no progresso televisivo desse país. Ontem, por exemplo, soube que o BBB recebeu 60 milhões de votos pro último paredão. Bial, O Homofóbico, comemorou o recorde.

Em tempo: BBB 10 na Lola

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Especial Brasil: álcool histórico

Continua minha saga em busca dos amigos que preciso rever. Semana passada, foi a vez do pessoal do curso de História. Eu só faltei sambar na mesa de tanta empolgação! Povo bom, adoro! E adoro porque [modo piegas on] eles representam tudo aquilo que eu mais admiro num amigo: bondade, graça, inteligência, embriaguez... Como eu adoro esse povo! Aqui, alguns deles:

Nível alcoolico 1: todos ainda penteados e vestidos

Nível alcoolico 2: nesse estado, você sorri, faz uma gracinha...

Nível alcoolico 3: já começa a fazer careta, levanta da mesa, grita

Nível alcoolico 4: pega uma peruca, incorpora o satanás e esquece que tem uma vida social a zelar

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Especial Brasil: Pesados

Uma vez, minha mãe disse que eu tinha pesadelos porque eu não rezava de noite. Decidi rezar e, por um tempo, deu certo. Deu certo até eu descobrir que meus pesadelos estavam diretamente relacionados com minha ansiedade. A certeza é matemática: entrevista de emprego? Pesadelo. Conhecer alguém novo? Pesadelo. Uma grande viagem? Pe-sa-de-lo.

Teve um em que eu era perseguida por um bando de assassinos. Eu chegava na casa de uma família que havia sido perseguida pelos mesmos homens, corria pra cozinha e abria os armários: encontrava pai, mãe e filho mortos, dispostos em cada armário em ângulos impossíveis. Dentro de uma das gavetas, eu encontrava os olhos, os narizes, as orelhas e os dedos dos três. Suave.

Já faz um tempo, cochilei com Fábio na cama da mãe dele. Enquanto ele sonhava, eu dormia com o Demônio e tentava acordar Fábio com gritos que não saíam. A cena era a mesma que na vida real: a gente naquela cama, ele dormindo ao meu lado. Mas em sonho, quando tentei tocá-lo, "ele" se virou e o que eu vi foi meu próprio rosto gritando com os olhos esbugalhados. Quando eu acordei, eu chorei. E à noite, chorei mais um pouco lembrando do sonho. E ontem, eu sonhei que abriam o peito de um amigo por minha culpa.

- Mainha, tive outro pesadelo.
- É incrível como tu tem sonho ruim.
- Acho que tou acostumada...
- No dia em que tu sonhar com um coelhinho, tu chora.

Pois é, férias me causam pesadelos e ansiedade.

Especial Brasil: Pailhaço

Estou enfrentando, nesse exato segundo, o único ponto negativo da minha vinda ao Brasil.

Algumas doses.

- Quanto é um laptop na França?
- Sei lá...
- Como é que tu não sabe uma coisas dessas?!
- Err... Deve ser porque eu não me interesso pelo preço dos laptops na França.
- Tem um monte de coisa que não me interessa e que eu sei! Esse meu jeito é foda! Por que vocês não são assim?
- Pois é...

- Luciana, tu é como eu, sabia?
- (é, eu sei, e isso é uma pena) Hum.
- Eu sou assim... com esse espírito desbravador! Que viaja! Que conhece!
- ...
- Tu num é como tua mãe, que é lesa, que se perde! (imitando um idiota) "Onde é que eu tou? Eu num sei!"
- Hum.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Especial Brasil: a felicidade em pôr acentos

É, eu sei, eu demorei a atualizar o blog, mas tudo nessa vida tem uma explicação - ainda que a gente não a conheça. Repararam no meu e maiúsculo acentuado? Repararam nesse u acentuado? Pois é, gente, eu estou usando um teclado brasileiro. Pois é, eu estou no Brasil! Hihi

Como assim, porra?!

Seguinte: Diana chegou um belo dia no meu quarto e disse que tinha um amigo que estava vendendo passagens super baratas pro Brasil e que ela iria perguntar a ele qual os detalhes dessa passagem. No dia seguinte, um dia ainda mais belo que o anterior, eu cheguei no quarto de Diana e disse "comprei uma passagem pro Brasil" (quando eu era pequena, eu desconfiava que eu era uma pessoa impulsiva). Eu nem esperei pela passagem de Diana porque, há tempos, eu já vinha sentindo uma tristeza no meu ser que, dependendo da interpretação de cada um, poderia ser diagnosticada como sendo saudade, banzo, frescura, não-adaptação etc. E, como a única coisa boa que tristeza dá é samba, resolvi me livrar da minha.

Não disse absolutamente nada a ninguém residente no Brasil. Passei boas 24h pra chegar ao meu destino, dormi somente uma hora durante os voos, mas cheguei. Ao descer do avião, fui recepcionada pelo bafo que soprava dos infernos, e que aqui chamam de "brisa", mas eu sorri. Peguei um ônibus e minha primeira parada foi na casa do melhor amigo. Somente ontem, uma semana depois de chegar, é que vim pra casa dos meus pais. Prioridades primeiro.

Tou feliz com a mesa de bar, com o mar e a comida, mas feliz mesmo eu tou em poder ser eu. Oito meses sem ser eu. Eles não entendem, eles não podem nem imaginar que eu não sou ela. Eu não sou aquele ser balbuciante que não entende piadas. Eu não sou aquela pessoa amarela que vive calada. Eu não sou a tímida que chega a ser mal educada por não saber puxar assunto. Eu não sou ela. Eu não tenho nada a ver com ela. E era nesses momentos de frustração infinita que eu começava a chorar. Nesses momentos, eu desejava estar do outro lado com a gente que me conhecia, a gente que acharia graça (ou teria pena) se visse uma Luci quieta. Porra, tou profundamente feliz e quero aproveitar cada minuto, porque depois eu vou voltar pro gelo, ainda que verão.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Um corpo que cai

Ha algumas semanas, eu fui substituir a faxineira da casa de uma tal de mme Chevre O combinado seria eu ir somente uma vez, mas ela acabou gostando de mim e pediu pra que eu ficasse indo toda segunda-feira à casa dela. Fiquei feliz que tenha gostado do meu trabalho, e mais ainda porque a mme é muito simpatica.

A casa dela é enorme, com uma grande sala que tem vista pra uma piscina e um jardim, mas ela mora sozinha. Na primeira faxina, me espantei logo com duas coisas: com a quantidade de santos, anjos e rosarios pelo meio da casa, e com a quantidade de fotos de uma mulher bonita, espalhadas pela sala, que deduzi ser a namorada de mme Chevre (pra mim, ela seria muito jovem pra ter uma filha daquela idade).

Gosto dela porque ela me trata como se eu fosse uma vizinha antiga que veio ajuda-la com a faxina. Ela faz a faxina junto comigo e não para de perguntar sobre minha vida e de contar algo sobre a vida dela, principalmente sobre a filha que estah nos Estados Unidos. Ontem, eu anunciei que aquela seria minha ultima faxina na casa dela (a partir de agora, eu vou fazer somente substituições, pra ter tempo livre pra procurar outro emprego) e ela disse que sentia muito por isso. Então, ela perguntou se eu poderia ficar mais uma hora além do horario habitual pra que eu a ajudasse a montar umas caixas-arquivo.

Sentamos no sofa e ela continuou a fazer perguntas sobre mim. Como meu vocabulario ja tinha esgotado, inventei de perguntar se ela tinha outros filhos. "Tenho, a mais velha é Fabie, mas ela morreu em 2004. Nessa piscina", e apontou em direção à porta de vidro da sala. Quando ela disse isso, eu reagi espontâneamente como alguém que levou um susto, mas fazendo cara de enjoo. Eu realmente sei fazer as perguntas certas.

Ela contou que a filha tinha 26 anos e sabia nadar, mas que ela tava extremamente cansada depois de um dia de trabalho na época de soldes (queima de estoque na França) e que acha que foi isso que levou ao afogamento dela. "Eu tava cuidando do jardim e ela havia me dito que ia pra piscina. Como eu tenho problema auditivo, nunca vou saber se ela gritou por mim. Depois minha outra filha chegou em casa, vestiu seu biquini e encontrou a irmã no fundo da piscina". Aih ela mostrou a foto da filha: a mulher que estava por toda a casa e que eu achava que era... a namorada de mme Chevre.

Eu fico muito sensivel quando escuto historias sobre morte, porque eu sei que não poderia suportar a idéia de perder alguém querido. O enterro do meu avô, a pessoa mais distante de mim na minha familia, foi muito dificil e sofrida e, por ela, eu posso deduzir o que me espera com a morte de alguém querido.

Foi muito duro escutar tudo aquilo dela e ainda vê-la com lagrimas nos olhos. Perguntei como ela conseguia viver naquela casa, dando de cara com aquela piscina todos os dias. Mas olhando pros santos da sala, ja sabia a resposta. Ao fim de tudo, ela me acompanhou até a saida do condominio, me desejou muita sorte e me deu dois beijinhos: é a primeira vez, em quatro meses de faxina, que alguém fez isso. Devia ta entorpecida.

Ontem eu aprendi uma palavra nova: décéder.

domingo, 24 de janeiro de 2010

#100

No ultimo fim de semana (16-17) fomos à Villard de Lans, uma pequena commune nas montanhas, perto de Lyon, para andar de raquete. Raquetes são essas pranchas da foto ao lado, utilizadas pra caminhadas na neve espessa, mas o nome vem mesmo das nossas raquetes de tênis que foram adaptadas pra andar na neve (e, felizmente, remodeladas).

A primeira vez que fiz raquetes (andei, fiz, pratiquei?) foi no inverno passado, numa caminhada de poucas horas, com dois colocs nossos e, pelo que lembro, foi bonito, mas não totalmente agradavel. Apesar do sol, o frio era infernal. Alias, glacial, e eu não via a hora de voltar pra minha cama quente. Mas nesse ultimo fim de semana, não havia sol e não havia raquete!, porque a neve ja tava muito compactada em boa parte do trajeto. E outra diferença é que, dessa vez, iriamos dormir em um abrigo que ficava no topo da montanha.

Apesar da faxina-nossa-de-cada-dia, eu não sou o que se possa chamar de uma pessoa em forma. Desde que cheguei na França, engordei mais de três quilos e me sinto pesada o suficiente pra levar, morro acima, uma grande mochila e eu. Eu parecia uma lesma se arrastando e soh estava moralmente confiante porque Diana parecia, pela reclamações, mais cansada do que eu. Quando finalmente chegamos no abrigo, uma hora e meia depois da partida, encontramos um casal que estava de passagem e que disse que havia lobos de noite por la e, que se a gente fosse fazer xixi, que tomasse cuidado. Eu fiquei desconfiada, porque ele disse que também havia o Pé Grande, então, eu não sabia muito bem no que acreditar.

O abrigo era um espaço de 4x5m, com uma pequena lareira e uma enorme beliche de madeira. Um verdadeiro palacio. Acendemos o fogo, mas ele não era forte o suficiente nem pra esquentar, nem pra iluminar. Calculamos que fora do abrigo devia fazer -5° e, dentro, 2°. A fumaça não demorou em tomar conta de todo ambiente. Acendemos algumas velas que encontramos por la pra conseguir enxergar alguma coisa sobre a mesa. Do momento em que chegamos (15h), até o momento em que fomos nos deitar (21h), soh fizemos comer. Comer e comer e comer, afinal, não havia muito a se fazer no escuro.

La pelas 3h da manhã, num sono embalado pela fumaça e pelo frio, despertei com uma louca vontade de fazer xixi. Posso garantir que não é facil segurar o xixi quando seus pés estão gelados e ha neve por todo lado. Mas eu fiz o que pude pra retardar meu encontro com o Pé Grande. Aguentei dois minutos.

- Lindooooô... Lindo, acorda...
- [Grunido]
- Tu quer fazer xixi?
- Não.
- :(
- Mas eu posso te acompanhar...
- :D

Isso é que é amigo! Saimos do abrigo, olhei pros lados e tirei a três calças numa velocidade incrivel. Mal minha bunda sentiu o frio, eu ja tinha terminado o xixi. Tudo o que eu não queria era encontrar um lobo com as calças arriadas (sem trocadilhos). Ao voltar pro meu saco de dormir, passei duas horas pra voltar a "dormir". O ronco de Diana foi a trilha sonora da noite.

Acordamos, comemos mais um pouco e dai veio a vontade de fazer cocô. Por que sera que meu corpo não entendeu que eu tava numa situação completamente desfavoravel à resolução de minhas atividades fisiologicas? Dessa vez, eu não quis a ajuda de Camilo. Procurei o lugar mais afastado do abrigo e, enfrentando a neve que chegava ao joelho, deixei um presente pros lobos. Antes, escutei uma historia de Diana que disse que, uma vez, um amigo foi pras montanhas e teve vontade de fazer cocô. Dai ele subiu um pouco a montanha, fez cocô, e qual foi sua surpresa quando viu, ao chegar embaixo, que seu cocô tinha descido a montanha, deslizando pela neve, junto com ele. O detalhe é que toda a turma que estava com ele viu isso. Cruzes. Pior que historia de lobo.

Bom, o resto do domingo se passou tranquilo. Descemos a montanha por outro caminho, tomamos um chocolate quente na cidade e depois voltamos pra casa. Apesar do frio, da cama dura, da fumaça, do Pé Grande, do cansaço, do lobo, do ronco, do xixi e do cocô, foi um fim de semana muito legal!

Camilo e seus 82kg afundando na neve


Essa foto é pra vocês terem idéia do quanto era potente nossa lareira. Se Sonia precisou colocar seus pés DENTRO da lareira, imaginem o poder desta em esquentar o resto do recinto...


Diana e eu no caminho de volta


Cachoeira congelada

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Foto da defunta


Pois bem, lembram da foto que meu pai tirou no dia em que eu quase morri? Foi essa. Realmente, eu pareço bem desanimada (morta). Também, com esse vestido, quem não ficaria triste? Ou foi a sandalia! Adultos tem que entender que sandalias com elasticos atras não são legais. Doem entre os dedos, porra. E alias, eu tinha três anos, mas pelo visto, devia calçar 40. Pobre de mim. Ah, e os mais atentos notaram logo: eu menti pra vocês e minha mãe mentiu pra gente: a foto data de julho de 88. Anos-luz de qualquer dia das mães. Shame on you, mainha. Tsc.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Noticias do front

Se não morri no post passado, anuncio que estou prestes a morrer agora [olhar de suplicio]: morrer de nervosismo. Como ja deixei claro em alguns posts, eu sou uma pessoa ansiosa e essa França acaba comigo! Explico...

Como nem todo mundo sabe, eu sou "femme de menage" atualmente e, apesar de trabalhar pouco (no tocante às horas, não ao esforço miseravel), consigo pagar minhas modestas despesas. Trabalhar como faxineira na França é o sonho de muita gente no Brasil (é, pessoal, existe gente mais lascada do que vocês imaginam), mas eu não passei cinco anos numa faculdade, e nem derreti meus nervos como se derrete manteiga, em certas noites pra, no final das contas, acabar limpando o chão dos outros.

A idéia inicial ao arrumar esse emprego era, entre outras coisas, de aprofundar meu conhecimento na lingua francesa. Quatro meses depois, eu soh domino a linguagem técnica: "vassoura" é balais e "balde" é seau. Eu não converso com ninguém, trabalho em lugares diferentes a cada dia (perdendo muito tempo nos transportes) e o trabalho é tão cansativo que... que me cansa.

Então, fiz esse post pra anunciar que eu vou procurar outro emprego. Tcharam! Claro que vai ser outro emprego de merda, mas emprego de merda por emprego de merda, fico com aquele em que eu não tenha que me ocupar do sanitario dos outros. Meu foco é trabalhar como garçonete, e, apesar de eu não falar bem e estar em pânico, sinto que isso vai me ajudar justamente nessas duas coisas: a falar melhor e a ser menos ansiosa. Quer dizer, a enfrentar os problemas de frente. Ja até preveni mme Her dos meus intentos. E agora, contando a vocês, me sinto na obrigação MORAL de ir ao infinito e além! Quer dizer, a dar um passinho à frente.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Do desintupimento da pia (ou da ressuscitação da filha)

Gente, eu fiquei tão curiosa pra saber que historia foi essa da minha "morte", que enviei um email pra minha mãe. Dai, descobri que menti pra vocês. Eu não morri, eu iiiiaaaa morrendo. Mas escondam a historia verdadeira que é legal contar às pessoas que você morreu, é mais emocionante. Ok, eu publiquei a historia verdadeira no blog, mas como meu blog não tem muitos leitores, poderia manter intacta a historia mais... mortal (?) da minha vida.

Seguem os e-mails com alguns reparos:

Eu:

Mainha, eu vou pedir uma coisa bizarra, mas responde aih: como foi aquela historia de que eu "morri" aos 4 anos? hehehe O que aconteceu? A senhora sabe o que foi? Conte os detalhes aê!

Ela:


KKKKKKKK, só você mesma, criatura!

Foi o seguinte... Em maio de 1988, precisamente em um domingo dia das mães, você dormia no seu quarto com uma empregada, que se chamava Creuza. Ela saíra logo pela manhã, pra visitar uma tal irmã que morava no bairro do Grotão (Campina Grande), então ao sair do quarto, ela teve a infeliz idéia de fechar a janela e a porta do quarto enquanto você ainda dormia.

Acho que em seguida, eu acordei e, quando entrei no seu quarto, vi que você ainda dormia, mas estava completamente "banhada" de suor. Tirei você imediatamente de dentro do quarto, te coloquei na minha cama e lembro que você tinha muitas bolinhas de suor pelo rosto inteiro e pelo corpo também. Era como se alguém tivesse respingado, com uma mangueira, todo seu corpo. Em seguida notei, que você tava muito pálida e os lábios um pouco arroxiados. Fiquei bastante preocupada, claro, mas seu pai disse que era devido ao calor e te levou pro banheiro social pra tomar um banho junto com ele.

Então percebi, que apesar do seu pai tentar brincar com você e anima-la, você começou a ficar com os lábios bem mais roxos e suas pernas não tinham forças pra sustentar o corpo. Te levei rapidamente pra minha cama, e ai você já tava completamente pálida e quase sem pulsação. Apavorada, mas ciente que soh eu poderia fazer alguma coisa urgentíssima, comecei uma massagem no teu coração e a soprar no teu nariz, tipo ressuscitação, sabe? Graças a Deus, que é bom e misericordioso, você começou a "voltar". Abriu os olhinhos de jaboticaba e sorriu pra mim, como tivesse acabado de acordar e eu não sabia se chorava ou se sorria.

Detalhe: enquanto eu fazia a massagem cardíaca, ouvia um som do tipo desentupidor de pia saindo do seu peito cada vez que pressionava seu coração. No minimo esquisito, mas foi o que te salvou. Depois dessa "ressussitação", nós te levamos, imediatamente, pra a clínica de hidratação infantil, que na época, funcionava na av. Epitácio Pessoa. Quando a médica te examinou, não constatou absolutamente nada. Disse que não tinha idéia do que tinha ocorrido e que parecia que tudo estava bem com você.

A partir daí, ficamos te observando constantemente. Qualquer principio de suor, ficavamos alerta, com medo que o fato se repetisse. Felizmente, não aconteceu de novo. Mas, por muito tempo, você teve esse problema de transpirar além do normal, sempre ficava com o rosto cheio de bolhinhas d'agua, só na adolescência é que você melhorou. Nunca soube que fenômeno era esse. Enfim, você tá bem agora.

E ai, gostou do meu relato? Tenho até uma foto sua que seu pai tirou no dia do ocorrido. Você tava com uma cara bem triste e desconfiada. Quando eu acha-la, mando pra tu. Muitos beijinhos pra você, te cuida, garota. Depois te mando mais notícias. Beeeeeeeijo!

Agora, claro, meus comentarios:

1. Então eu não tinha quatro anos, tinha 2 anos, 11 meses e duas semanas de vida;
2. Valeeeu, Creuza! Massa!
3. Eu realmente era um ser muito sadico: tentar morrer no dia das mães e ainda "voltar" sorrindo!
4. Cabelo e Benzina, estou esperando as piadas envolvendo o banho com meu pai, quando ele tenta "brincar" comigo e todas as outras merdas tipicas de vocês...
5. Apavorada, mas ciente que soh eu poderia fazer alguma coisa... Mãe é um bicho solitario.
6. Abriu os olhinhos de jaboticaba e sorriu pra mim, como tivesse acabado de acordar e eu não sabia se chorava ou se sorria ;~
7. Ai, na frase seguinte... eu viro uma pia entupida!
8. Tenho até uma foto sua que seu pai tirou no dia do ocorrido. Você tava com uma cara bem triste e desconfiada. Gente, eu tava... morrendo? O minimo que eu poderia ter era uma cara triste! E melhor ter uma cara de desconfiada que uma de defunta...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Eramos quatro. Lascados.

A Lola me pediu pra explicar melhor essa historia de morrer aos quatro anos, que eu cito no meu perfil. Na verdade, eu também gostaria muito de saber mais sobre essa historia. Tudo que eu sei é que minha mãe sofreu muito com seus filhinhos. Eis um pequeno resumo de alguns dos seus pesadelos de mãe.

Somos quatro: Guilherme, eu, Renato e Elis (26, 24, 22, 15 anos).

Guilherme foi o mais cruel (com ele mesmo). Um dia, ele pegou a espada do He-man (adoro essas frases) e gritando "pelos poderes de Greyskull", correu e atravessou a porta de vidro da sala. Ele tinha (em torno de) cinco anos. Ele tinha cinco anos e muito sangue. Minha mãe disse que nunca tinha visto tanto sangue na vida dela. Acredito que a visão que ela teve naquele momento do seu primogênito não foi das melhores. Não sei se pouco antes ou depois disso, o pirralho curioso prendeu a toalha na qual ele estava enrolado numa panela de leite fervente. Resultado: uma cicatriz que toma 2/3 da barriga dele até hoje.

Eu, por outro lado, não dei muito trabalho a minha mãe. A unica reclamação que ela tinha era a de que eu chorava muito. Meus apelidos eram boca da meia-lua e manteiga derretida. Alias, eu os odiava. E alias, as coisas não mudaram muito, continuo chorona. Tudo bem que uma vez eu chorei porque não consegui tirar uma meia do pé (sete anos), mas isso não é motivo pra banalizar o choro de uma criança. Eu acho. Bom, então, eu morri. Minha mãe disse que la estava eu, aos quatro anos de idade, em cima da cama, com o relogio do meu pai no braço, quando comecei a suar. Ela disse que eu suava bicas e que eu comecei a ficar palida e mole. Então ela me colocou debaixo do chuveiro. Não sei exatamente o que ela estava esperando com isso, mas não deu certo. Meus labios ficaram roxos e meu pobre coração parou de bater. Ai ela, ninja, fez massagem cardiaca e eu ressuscitei. Aposto que eu chorei depois disso.

Renato
sim foi o filho-problema. Eh chamado de duas mãos esquerdas até hoje. Pensando nisso agora, vejo que minha familia não é muito criativa pra apelidos. Ele cortou a cabeça umas quinhetas vezes. Ele quebrou os quatro dentes da frente numa queda. Abriu a lingua. Socava os amigos, chutava a professora, foi pra diretoria inumeras vezes, fugiu dos meus pais num passeio. Foi o que mais quebrou objetos em casa, o que mais levou gritos e o que mais apanhou. Tudo se explica.

Elis foi a caçula que recebeu muita atenção. Ou não. Acho que, mesmo que eu morra aos 100 anos de idade, com Alzheimer, eu nunca vou esquecer desse fato: numa tarde dos anos 90, uma pessoa tocou nossa campainha à tarde: era a vizinha e ela estava com Elis nos braços. A gente não entendeu nada, pois ha dois minutos, Elis estava na sala de estar. Então a vizinha disse que viu Elis andando sozinha no meio da rua (Elis tinha menos de dois anos). Essa vizinha morava numa rua perpendicular à nossa e soh viu Elis porque seu portão era cheio de furinhos. Minha mãe pegou Elis nos braços sem palavras. Eu tremia. Quem estava "tomando conta" dela, era eu. Até hoje eu lembro disso e volto a estremecer pensando no que poderia ter acontecido se a vizinha não estivesse no seu terraço e se seu portão não fosse furado, até onde Elis iria?

Coitada da minha mãe...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O pulo do gato

Estah indo dar um susto na faxineira...

Gosto de observar as peculiaridades de cada casa na qual eu faxino. Os minutos que antecedem minha entrada numa nova casa são cheios de expectativa. Quem eu vou encontrar? Sera que eu vou entender o francês da madame? Sera que ela vai entender o meu francês? Sera que eu vou trabalhar feito uma vaca? Sera que a casa é desarrumada?

Eh mesmo uma vida emocionante.

Mas essa ultima pergunta não é obvia. Você pode concluir: se alguém esta contratando uma faxineira, significa que sua casa esta desarrumada. Pois bem, leitor, nem sempre. As vezes eu entro em casas em que não ha um soh rastro de poh. Acredite, são as piores: evidenciam que a dona da casa é extremamente zelosa e que espera que você deixe a casa ainda mais limpa do que ela se encontra. São as casas em que eu arrumo os shampoos por ordem de tamanho. Hoje, por exemplo, fiz minha primeira faxina na casa de mme Le Gal (tentei fazer alguma piada: não soube). Entrei na casa e encontrei tudo arrumado, pensei até em dar meia volta e ligar pra mulher pra dar conselhos a ela de como investir melhor seu dinheiro. Mas daih vi um gato na casa. Meus queridos, gatos na casa das madames significam duas coisas pra mim: pêlos por todo lado e sustos. Muitos.

Ha dois meses, fiz uma faxina na casa de um cara que tinha um gato preto. A casa era meio bizarra. Era escura e tinha uns machados e espadas penduradas nas paredes, entre outras coisas, que não vem ao caso. Então, eu decido passar o aspirador debaixo do sofa, onde o gato, não sabia eu, descansava. Eu não poderia imaginar que um gato poderia pular tão alto. Eu não poderia imaginar que eu poderia pular tão alto. Eu fiquei paralisada, com o aspirador ligado VRRRUUUMM! e meu coração batendo mais alto. Depois, decido ir ao segundo andar. Entro num quarto escuro, cheio de tralha e procuro o interruptor. De repente, do meio da escuridão, o segundo pulo do gato. E, mais uma vez, eu, prestes a cagar na calças de tanto susto. Eh daquela situação em que você ri e chama palavrão ao mesmo tempo.

Então, quando encontrei o gato na casa de hoje, lembrei do gato preto e procurei tomar cuidado. Uma hora depois, ja tinha esquecido da porra do gato e, quando meti o aspirador debaixo da cama, o gato tentou correr, mas deu de cara com meus pés. E ai, o gato e eu ficamos sambando, sem saber o que fazer. Foi horrivel. Mas horrivel mesmo é saber que sujeira de pêlo de gato é eterna: você limpa e ela retorna três segundos depois. Um verdadeiro pesadelo.

Eh muito feio o que eu vou admitir agora, mas... eu odeio gatos. Pronto, falei. Quer dizer, odiar é uma palavra muito forte. Na verdade, eu os repudio. Os que gostam de gatos os defendem com a historia batida de que eles são animais independentes, que não são carentes feitos os cachorros. Ora, se eu quisesse um animal que não dependesse de mim, eu não teria um. Eh como resolver ser mãe e adotar um filho de 30 anos. Não faz sentido.

E agora, depois de minha experiência de faxineira com gatos, eu os odeio, quer dizer, os repudio, mais ainda. Outro dia, fui limpar um banheiro e, ao abrir a porta, dei de cara com a casinha do gato, cheia de cocô. Vocês sabem da fama do cheiro do cocô de gato? Não soh fede: é o pior cheiro que existe, eu tive que me controlar pra não desmaiar. Que tipo de gente em sã consciência se tranca num banheiro com uma caixa cheia de cocô de gato? (e não venham dizer que é tatica de camuflagem).

O irônico é que aqui em casa temos um gato. Ele vive do lado de fora, na janela da cozinha. Quando Camilo coloca o gato no braço, eu passo três dias sem toca-lo. Camilo diz que ele é um gato caçador. Caçador de quê, eu não sei. Tudo o que eu vejo é o gato dando voltas no jardim, meio perdido, como se tivesse fumado alguma coisa. Aih, as vezes eu dou umas batidinhas na janela da cozinha, faço "ooiinn, gatinho, xiuiu"... depois me lembro que eu odeio gatos, me recomponho e volto a ignora-lo.

domingo, 10 de janeiro de 2010

DILF

Uma leitora do blog, Neide, me perguntou como se passou meu teste do DILF. O DILF é um teste que eu precisava fazer, juntamente com outras coisas, pra poder permanecer no pais. Foi por isso que eu tive aulas de francês gratuitas da Prefeitura.

Quando eu fiz a entrevista pra que a Prefeitura pudesse avaliar meu nivel de francês, eu tive direito a 200h de aula. As aulas eram obrigatorias, então, como vi que o show de Paul McCartney era numa quinta-feira, em Paris, eu preferi fazer o teste antes do final das 200h pra poder me livrar logo das aulas e poder ir ao show em paz. E assim foi.

Penso que nem se eu tivesse perdido todas as aulas o teste teria sido dificil. A coisa é quase uma afronta a inteligência do imigrante. Então, pra quem anda preocupado com o nivel do teste, garanto que isso não sera dor de cabeça pra ninguém. Quer dizer, no dia do teste, encontrei duas mulheres que tiveram aula comigo. Uma delas, coitada, tem problema auditivo e deve ter feito 10% da prova, ja que a maioria das questões são construidas em cima de audio.

A maioria das questões seguem a mesma logica: você tem cinco imagens e escuta cinco mensagens. Depois, você enumera as mensagens de acordo com as frases que ouviu (que são repetidas duas vezes). A parte mais dificil do teste é uma produção escrita que deve ter, no minino, 20 palavras. E esse exercicio é justamente o que tem menor peso: 5/100

Eu fiz o teste no 1° de dezembro, mas o resultado soh vai sair esse mês, sei la quando. O que me preocupa é que um cara que conheci em Toulouse me disse que, se eu quiser entrar num mestrado, tenho que passar em outro teste, o DELF (tem ainda o DALF). Alguém precisou mostrar os conhecimentos de francês no mestrado fazendo esse teste ai?

Pra mais informações sobre o DILF (e o DELF e o DALF e o DOLF... bla):
http://www.ciep.fr/dilf/index.php

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Toulousein

O plano inicial, depois de Chateubriant, era de voltarmos a Lyon e passarmos um reveillon totalmente morgado. Mas de ultima hora, resolvemos morgar em Toulouse. Cancelamos as passagens de trem, mandamos nada menos que 100 mensagens pros couchsurfers de Toulouse e recebemos quatro respostar positivas. Esse é o verdadeiro espirito de Natal.

Como compramos as passagens de trem de ultima hora, nossos assentos não foram reservados. Agora imagine: viajar em época de Natal sem assento marcado. Nessa hora, a lei que impera é a Lei do Cão: cada um por si. Como somos muito observadores, soh fomos nos dar conta de que o vagão das pessoas com bilhete sem reserva era o ultimo. A gente entrou no primeiro. Eu com uma mochila que tinha metade do meu peso, Camilo com uma outra que tinha o dobro do tamanho dele. No corredor, almas desesperadas procurando um assento. A polidez francesa permite que você leve um soco na barriga, mas que seja agraciado com um formal "desolé". Pof! Desolé. Crash. Oh, desolé! Olho roxo. Desolé.

Na metade do caminho dentro do trem rumo ao ultimo vagão, Camilo disse "lute pela sua vida, vah sem mim". Eu fui. Deixei a mochila em algum vagão, "corri" e, quando achei vaga, liguei pra Camilo vir e catar a mochila deixada sei la onde. Nos sentamos. Ainda havia um assento ao nosso lado. Esperamos.

Minutos depois, chega o controlador de bilhetes e uma loira que o grita e choraminga sem parar. "Mas é um absurdo! Dois bilhetes para um mesmo assento! Chuif! Eu estou operada! Bua! Isso não é certo! Mimimi". Eu até entendi a mulher, mas é sempre aquela historia: você perde a razão no momento em que você se descontrola. E quando vi a doida gritando com o controlador que não tinha nada a ver com a historia, antipatizei. De qualquer forma, ela soube se utilizar bem de sua condição fragil: primeiro pediu uma caixinha de suco a mulher ao seu lado. Depois pediu pra outra mulher descer numa das paradas do trem e comprar batatinha pra ela. Depois, pediu o celular de um cara e fez uma ligação que demorou mais do que ele desejava.

Mas Toulouse...

A Ponte Esqueci o Nome e minha necessidade de um pente


Urnas funerarias do Musée Saint Raymond


Jardim Botânico
(que pulamos a cerca pra tirar foto
de um pavão cretino que se recusou a abrir a cauda)

Toulouse realmente é uma cidade bonita. E olha que falo isso mesmo pensando nos dias chuvosos que passamos la. A cidade é também conhecida como "cidade rosa", porque os tijolos aparentes que estão por toda a cidade, dão esse "aspecto rosado" a ela. Outra curiosidade é que a maioria das placas que indicam o nome das ruas esta escrita em francês e na lingua occitana, muito (carece de fontes) falada no sul da França.

E alias, o sul da França tem um sotaque bem particular. Um dos caras que mora com a gente, Mikael, é de Marseille. Moro ha mais de três meses com ele e simplesmente nunca entendi o que ele fala. Ele é a unica pessoa da casa com a qual eu nunca consegui conversar. Alias, era! Depois de um curso informal intensivo em Toulouse, eu pude entender melhor Mika. Por exemplo. "Amanhã" em francês é demain. Em Lyon se pronuncia demã (biquinho no e). No sul (Toulouse, Marseille) é demein. E assim vai:

demain (amanhã): demã = demein
matin (manhã): matã = matein
copain (amigo): copã = copein
vin (vinho): vã = vein


A "cidade rosa"


Uma turista turistando

Demos sorte com as couchsurfers que abrigaram a gente. Muito legais, atenciosas. E pra voltar pra Lyon, mais sorte: voltamos de covoiturage, que é um sistema de carona que funciona bem aqui na França. Depois eu explico melhor. Chegamos exaustos, mas fechamos as nossas férias com um pequeno jantar entre "familia" pra despedida de Mika que parte pra Inglaterra por três meses pra um curso de inglês. Espero que eu ainda consiga entendê-lo em abril. De qualquer forma, a demein, mon copein!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Juliana vai à Chateaubriant

Pela primeira vez na vida, eu entendi o real sentido da palavra férias. No Brasil, férias somente era a prolongação da vida cretina que eu ja levava normalmente (casa - mesa de bar - faculdade - mesa de bar - casa)*. Nossas férias duraram apenas 11 dias, mas foi o suficiente pra um pequeno tour na França (vide mapa).

Passamos o Natal na casa dos pais de Camilo, em Loire-Atlantique (norte), na pequena commune de Chateaubriant. Eu queria não fazer a cretinice de comparar a pequena Chateau de 12 mil habitantes a qualquer pequena cidade brasileira, mas é impossivel não se surpreender. Ou fazer comentarios matutosos. Por exemplo, não importa onde você va, que rua ou estrada pegue, por qual vale ou montanha ande, ou o quão pequena seja a cidade, todas as ruas francesas são asfaltadas. Não "calçadas", asfaltadas. E se ela não for asfaltada, é na intenção de conservar o pavimento historico sob nossos pés. Louvavel.

Quando Camilo me falava sobre a cidade, eu imaginava que iria encontrar as casas separadas por quilômetros, uma pequena venda perdida em alguma rua e as cabras pastando entre as casas. Mas a pequena Chateaubriant tem, além de um castelo (chateau = castelo), ruas asfaltadas, ladeadas de flores. Tem um cinema de porte médio (dez filmes por semana), um teatro abrigado por um prédio de vidro, conservatorio de musica, dança e arte dramatica, mediateca, biblioteca, boliche, piscina olimpica etc. Os bares tampouco aparentam fazer parte da estrutura de uma pequena cidade: estilo pub inglês, com decoração estilosa e barman tatuado dos pés a cabeça. Eh, não lembra muito Cajazeiras...

Chegamos exaustos e ja nos sentamos à mesa pra Ceia de Natal. Comer na França é uma coisa quase cansativa. Uma refeição festiva aqui pode durar facilmente cinco horas. Francês é um povo que come muito e come bem. As porções de passarinho no prato tem uma explicação: você começa pelos aperitivos, passa pra entrada, vai ao prato principal (pode ter um, dois...), depois vem a salada, os queijos e, por fim, a sobremesa. Ao final, meu amigo, você estara seguramente farto. Quer dizer, satisfeito.

No dia 27, fomos ao almoço de familia organizado pela voh assassina de Camilo. O troço começou depois do meio-dia e terminou no começo da noite. Eu começo a entender porque Camilo tem me chamado de gordinha. Antes do almoço, passei duas horas tentando relembrar o nome de todas as tias e primos e maridos de sei la quem pra que, ao final, eu fosse chamada de Juliana pela tia de Camilo. So não a sacrifiquei porque minha ira foi aplacada por uma caixa de chocolate que ela nos ofertou. Humana!

*"Mesa de bar" pode ser trocado por "cinema" e "casa" pode ser trocado por "casa dos outros"

sábado, 26 de dezembro de 2009

Eu fico com o balanço

Sera que algum blogueiro vai fugir à regra de escrever sobre o Natal ou de fazer um balanço de como foi seu ano? Ou melhor, fazer listinhas de coisas a se fazer no proximo ano? Eu fico com o balanço, ja que acho que meu 2009 foi bem movimentado, onde de tudo aconteceu.

1. Adeus, solteirice (09/jan)

Ja no nono dia do ano, Camilo e eu nos casamos. Claro que foi mais uma medida que visava facilitar minha entrada na França do que qualquer outra coisa. Mas nem por isso eu deixaria de comemorar o fato de poder ficar ao lado dele, da forma que nos escolhemos. Mais sorte da proxima vez, Sarko.

2. Adeus, vida pedestre (28/abr)

Sabendo que na França o custo pra se tirar uma carteira de motorista é exorbitante, ai meu deus, eu fiz aos 23 o que deveria ter feito ha muitos anos: aprendi a dirigir. Pra falar a verdade, nunca tive muito desejo de aprender a dirigir (o tempo que levei pra fazer isso prova o que tou dizendo), mas minha mãe disse que é util, e se mãe diz, então é verdade. Espero que eu me saia melhor com o carro do que com a bicicleta.

3. Adeus, Brasil (21/mai)

Dei adeus ao mar e me instalei em Lyon. E, parafraseando um amigo: foi melhor e pior do que eu pensei. Arabes, segurança, burocracia, frio, quedas de bicicleta (muitas), queijos, liberdade, solidão. Independência.

4. Adeus, graduação (17/ago)

O segundo dia mais feliz do ano! Tudo o que sinto quando penso nessa data é "alivio". Acabou! Foram sofridos os ultimos momentos. Espero que tenha sido a primeira e a ultima vez em que estudei algo que não gostasse (me refiro somente à monografia, ja que o curso em si deveria ser obrigatorio pra qualquer ser humano que se preze). De qualquer forma, sou uma pessoa formada. Alias, eu e o namorado, que se formou no mês seguinte.

5. Adeus, desemprego (17/set)

Trabalhar como faxineira não faz parte dos meus sonhos mais ambiciosos, mas tem pago minhas contas e minhas cervejas. E, mais do que significar uma simples mudança de status empregaticio, esse emprego assinalou uma "profunda mudança no meu ser". Ha três meses, eu era uma meninota chorona e ansiosa, que ciscava antes de dar qualquer passo. Agora eu soh sou ansiosa. Esse emprego foi o inicio da verdadeira adaptação, é o que me da, até hoje, a sensação de que eu tenho dominado o espaço, de que eu tenho abarcado o ambiente. Eh o que faz com que eu sinta que pertenço um pouco a esse lugar.

6. Adeus, ignorância (?)

A cada dia que passa, eu fico mais feliz e empolgada com minha compreensão em relação ao francês. Ainda falta uns meses e um bocado de esforço até que eu possa dizer que "eu sei falar francês", ja que eu nem mesmo consigo conjugar os verbos corretamente, mas o medo de sair de casa ja passou e a sensação de liberdade soh cresce.

7. Oi, Paul! (10/dez)

Mwwhahaha! Esse foi o melhor dia do ano! Nem vou mais comentar, que é pra não afugentar os leitores, mas fica aqui o (milésimo) registro! Ano lin-do [foto de Priscila Tanaami - obrigada!].

Bom, é isso. Acho que foi um ano proveitoso, não? Mas soh aproveitando que tou falando de coisas boas, queria dividir com vocês a grande felicidade que eu sinto, que eu tou sentindo, em ter Camilo do lado. Hihi. (ele não lê meu blog, logo, a contemplação é gratuita). No final das contas, é ele que faz com que os momentos que não são assim, dignos de topicos de blog, sejam fodas. Em cada ponto desse, ele esteve colocando minha moral la em cima. Minha auto-estima deve muito a ele. Tenho sentido que eu posso muito mais do que eu poderia imaginar. Ele me faz respirar muito melhor e é por isso que, apesar de toda dor que eu sinto aqui nesse peito dilacerado de saudade, vale a pena ficar aqui. Eh como ele mesmo diz: "tu é minha casa". Então, àqueles que realmente gostam de mim, vai o recado: porra, eu tou feliz!

E que ano bom!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Cevando a faxineira

Trabalhar pra madame tem la suas vantagens (soh vi essa até agora): quarta-feira passada, cheguei na casa de mme Trognon e vi uma super caixa de Ferrero em cima da mesa com um bilhetinho: "boas festas!" Meus olhos brilharam! Se ela tivesse deixado uma caixa de cerveja, eu teria feito a faxina de graça. Na quinta-feira, mme Forfait me deu outra caixa de chocolate, também uma de Ferrero (foi ai que eu lembrei que o chocolate tava em promoção no Carrefour, mas o que vale é a intenção e ela foi muito bem apreciada). Na sexta-feira, mme Blague uma velhinha super simpatica, que provavelmente não havia ido ao Carrefour naquela semana, me deu um singelo envelope com 40€! Gente, soh não sentei no colo dela e a chamei de vovoh porque o povo na França é formal demais. Mas eu mal pude passar pela porta tamanho o sorriso! Ah, e ela disse, com toda a sinceridade dela, que eu soh não recebi mais porque faz pouco tempo que eu trabalho la, mas que no proximo Natal... (huhuhu) Pensei até em trabalhar mais um ano de piniqueira, mas desisti porque ela tah tão velhinha que é possivel que ela morra antes do proximo Natal. Esperamos que não.

Talvez

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