quinta-feira, 26 de maio de 2011

Livres (com update)

A Brabuleta recebeu um meme, repassou pra Rita, que repassou pra mim. Meme sobre livros que lemos e que deixamos de ler. A quantidade de livros que estas nobres pessoas leram me constrange, porque meu curriculo literario nao é tao extenso quanto eu gostaria que fosse, mas a gente se mete mesmo assim a falar de livro. Emperiquitando o comentario que deixei na Borboleta:


1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Li e reli varias vezes O diario de Anne Frank. Eh absurdo dizer isso, mas foi identificaçao profunda e a cada leitura eu vejo algo diferente. Lembro perfeitamente do dia em que ouvi falar dela pela primeira vez: eu tinha uns doze anos, tava na rodoviaria de Joao Pessoa com minha mae, numa fila sem fim, quando ela comentou sobre essa menina que ficou escondida durante a Segunda Guerra "num quarto". Fiquei louca de curiosidade. Ela me comprou o livro algumas semanas depois num sebo (update: nesse post, eu digo que implorei por dois anos pelo livro à minha mae. Memoria, essa safada). Paginas amareladas, cheirando estranho. Muito amor. 

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

O morro dos ventos uivantezzzZZZzzz. Cheguei três vezes na metade, trouxe ele pra França, mas acho que é caso perdido. Mas Kate Bush cantando (e dançando!) Wuthering Heights é tudo o que ha. 

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

Sem duvida alguma, Cem anos de solidao. Chorei feito uma desgraçada quando o livro acabou. Fiquei assim, em estado de choque. Orfa. 

4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

O segundo sexo, porque procrastinar, prazer, é meu nome. 

5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?

Ah, o final de Eramos seis. Afinal, quase minha familia, né...


6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Nao chamaria de "habito" hehehe Digamos que eu lia mais que as outras crianças, o que nao significa nada, ja que brasileiro nao tem habito de leitura e ler uma caixa de fosforo ja te faz ficar acima da média nacional. Mas eu lia o que a escola pedia e outras coisas que ficavam na despensa de casa: livros didaticos sobre sexo (foi quando aprendi quantos buraquinhos eu tinha), Turma da Mônica forever, a revista Seleçoes dos anos 50 do meu avô (vocês nao tem idéia do quanto uma revista pode ser machista), As anedotas do Pasquim, contribuiçao inestimavel e imensuravel pra formaçao da minha escrotagem do meu carater. 

Meu tio (o tal que matou um cara e foi assassinado, que eu comento no perfil do blog), deixou uns manuais da Disney que minha mae, por motivos obvios, tinha o maior ciume, guardava à sete chaves. E a gente sabe que o que é proibido é mais interessante... Entao, quando ela saia de casa, eu destrancava as sete trancas. Fui procurar agora as imagens dos manuais e... quanta emoçao! O que eu mais gostava era esse dos escoteiros mirins: eles ensinavam a fazer uma fogueira. Eu nunca aprendi. O falecido também tinha uns gibis do Mortadelo e Salaminho que eu AMAVA, morria de rir, e que minha tia jogou fora quando de uma mudança. Gosto nem de lembrar. Ele também tinha uns livros de contos de terror que eu adorava! Mas depois eu tinha pesadelo à noite e nao podia dizer a minha mae o por que. Jênia.

7. Qual o livro que achaste chato e mesmo assim leste até o fim? Por quê?

Madame Bovary foi tortura chinesa. Li até o fim porque ja havia tempos que eu queria ler o livro e porque nao gosto de deixar livro pela metade, mas ô coisa dificil!

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

A insustentavel leveza do ser (presente de uma girafa); O iluminado e O exorcista (pelas imagens terriveis que me proporcionaram. Obrigada); Lolita (por conseguir me fazer torcer pelo pedofilo).

9. Que livro estás a ler neste momento?

Ulysse from Bagdad. Livro bobinho cuja importância esta mais ligada ao fato de me ensinar a conjugar os verbos no imperfeito que à historia em si.  


terça-feira, 24 de maio de 2011

De como um anel (nao) legitima relaçoes amorosas

Ontem tava rolando uma discussao no twitter sobre o uso de alianças. Alianças, aquelas coisas que as pessoas costumam colocar no dedo quando se casam. @AmandaLourenco disse que nao reparava nas pessoas que a usavam e que nao sabia nem mesmo qual era a serventia de uma aliança. Eu desconfio que tem algo a ver com dominio. Eu juro que posso entender que algumas pessoas se sintam bem usando alianças sem que isso tenha alguma coisa a ver com minha explicaçao. 

@adelialund disse que usava aliança, mas que seu marido nao usa e que ela nao se importa com isso. Tenho um casal de amigos que, nem sei se usam aliança, mas fizeram cada uma tatuagem igual. Taih, acho uma forma muito mais criativa (e até mais séria) de mostrar uniao e comprometimento com o outro. Mas a grande maioria costuma usar aliança pra mostrar à sociedade que nao esta disponivel ou exige do parceiro o uso da aliança pra esse fim. E é isso que eu acho muito tosco. Acharia muito tosco se Camilo me pedisse pra usar aliança. Sinal claro de que ele nao confia em mim. Mas essa é minha opiniao, claro. 

Usar uma aliança como soluçao pra manter possiveis paqueras longe é a saida mais inocente do mundo pra mim. Porque, primeiro, existem as pessoas como Amanda, que sequer percebem esse detalhe na mao do cidadao. Segundo, porque existem pessoas que nao estao muito preocupadas no status amoroso de alguém que elas estejam afim. E, terceiro, se você estiver disposto a trair, nao vai ser um anel que vai te impedir de fazer isso, certo? Ja trai e ja fui traida suficientemente pra saber que essa questao nao se resolve através do uso de um anel. 

Tenho um amigo que namora ha dez anos uma menina e que estava sendo paquerado no trabalho por uma amiga. Perguntei se essa menina sabia que ele tinha namorada e ele respondeu "ela deve saber, eu uso um anel prateado de 1cm". Oh, meu deus! Se eu visse um anel prateado de 1cm na mao de um homem, eu ia pensar que se trata de... um anel prateado de 1cm na mao de um homem, e nao que ele namora sei la quem ha uma década. 

No começo de 2010, eu tava no Brasil e fui curtir meu carnaval em Olinda (Camilo ficou na França porque tava trabalhando). Fomos (uma amiga, um amigo e eu) pra Olinda de carona com um cara que conhecia as pessoas da casa em que iamos nos hospedar - ele ficaria igualmente hospedado lah. Na viagem de ida, notei que o cara ficava me sacando de uma forma esquisita, mas ignorei. Quando chegamos em Olinda, nao sei como, a conversa que vinhamos tendo acabou tendo como tema meu casamento e o cara sugeriu que eu tava ali pra trair Camilo. Eu disse que nao, que nao era porque eu tava em Olinda que eu nao respeitava (ou nao poderia respeitar) meu marido. Entao, todo indignado, ele lembrou que eu estava sem aliança e sem marido. Porque é isso: a gente so respeita o macho se ele tiver colado do lado. Nesse caso, eu soh poderia ser respeitada se tivesse uma aliança. A noite, o cara continuou investindo e chegou ao ponto de sentar ao meu lado e roçar as pernas cabeludas dele nas minhas pernoquinhas lindas de meu deus. Tomah-no-cu! Fiquei muito puta!* O cara sabia que eu era casada, mas continuou dando em cima. Agora pergunto: se eu tivesse uma aliança ele teria me respeitado? Algo me diz que nao. O pior dessa palhaçada é que fiquei com sentimento de culpa. Alias, como ficamos sempre, é de praxe. 

Chegando em Joao Pessoa, comentei o caso com minha mae que, contrariadissima com a historia, perguntou por que diabos eu nao usava uma aliança. (suspiro) Nem preciso dizer que Camilo, ao saber da historia, nao exigiu que eu começasse a usar uma coleira aliança, nao é? De vez em quando, minha mae chegava pra mim "ô, minha filha, por que você nao usa uma aliançazinha, hein? Pode ser uma bem discretazinha". Naozinho, maezinha, obrigadinha. Soh usaria uma aliança se ela viesse com um raio-laser capaz de abrir no meio gente sem noçao. Aih valeria a pena. 

- Como é você quer que eu respeite você, se você vem sem aliança e...
- ZEEEEEUUM! 

Cabou-se. 

* Antes que eu alguém pense que eu tou me fazendo passar de ultimo bastiao da honra em pleno carnaval, adianto que eu nao tenho problemas em ser paquerada. A minha indignaçao nesse caso foi (também) a de ter que aguentar as investidas de um babaca machista que achava que poderia dar em cima de mim pelo fato de eu nao usar aliança em pleno carnaval. Contexto é tudo nessa vida, nao é mesmo?


domingo, 22 de maio de 2011

Quem gosta de ménage?

A semana de provas aconteceu semana passada. Cinco exaustivos dias onde o esquema era acordar às 8h, revisar a prova do dia, fazer a prova, voltar pra casa e revisar a prova do dia seguinte até a hora de ir dormir. Quando tudo acabou, eu soh pensava em fazer uma coisa: faxina. Nao é que eu curta fazer faxina (mentira, eu curto), mas se vocês vissem o estado da minha casa, entenderiam. O problema é que aqui em casa existem dez pessoas pra sujar e duas ou três pra limpar - sem contar os que sujam por cinco. 

Eh comum encontrar casca de cebola no chao da cozinha, o lixo do banheiro transbordando, roupas pelo sofa etc. A bagunça que eu mais admiro sao os copos espalhados, eu os encontro até no banheiro. Morando em dez, "a gente" costuma fazer uma baguncinha aqui e ali esperando que alguma outra pessoa va arrumar ("alguma outra pessoa" = eu). Eles deixam copos em cima do centro da sala e acho que esperam que eles ganhem vida durante a madrugada e caminhem todos juntos de maos dadas até a pia. Infelizmente, isso nunca aconteceu. 

o balde da faxina
Entao, ontem, aproveitando que todos os moradores da casa viajaram, eu comecei uma pequena faxininha ao meio-dia que se desenrolou até as 19h. Eu toquei o terror no mundo das aranhas. Eu apontava o aspirador e elas começavam a gritar e a correr, mas eu VLUPT! à todas! Claro que depois do processo eu perdi todas as minhas capacidades de movimento e fui me arrastando feito uma ameba até a cama onde fiquei durante 30 min pensando no sentido da vida. A amebice, a cama e a questao filosofica foram um oferecimento da minha embriaguez porque, né, a gente tem que compensar com algo. Foi um dia util. 

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Pra celebrar os dois anos oficiais de França feitos ontem (iêi!), fiz algumas mudanças no blog. Espero que tenham aprovado!


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Os passaros

Semana passada, Camilo me perguntou se eu gostaria de passar o fim de semana em Côte d'Azur. Apesar de se tratar do meu ultimo fim de semana de estudo antes das provas (que estao rolando essa semana), nao levei muito tempo pra me decidir. 
Do alto do meu pescoço, pensei "por que nao?", afinal, Côte d'Azur = mar. E Luci gosta de mar. Luci nao via mar ha mais de um ano. Luci gosta de falar na terceira pessoa. Mas Luci vai parar. 

A casa em que ficamos é de uma colega de trabalho de uma menina que mora com a gente. Uma coisa assim, impressionante. Perguntei à Camilo e a uma colega dele o quanto ela, a casa, valeria. Chutei dois, três milhoes, mas eles disseram que era bem mais que isso, que nao tinha nem como calcular. Enfim, casa de um povo que nao passa aperto. 

Em uma das disciplinas de geografia da faculdade, a gente estuda as regioes francesas e a distribuiçao de riqueza entre elas (é bem interessazzZZZzzz). Professor disse que o sul era o lugar dos velhinhos, que os franceses aposentados iam pra la gastar suas aposentadorias. Pois bem, pude confirmar isso. A gente ficou na cidade de Saint Raphael. Minha gente, parecia um mundo paralelo dominado por velhos. Velho, velho, velho. Se eu fosse investir nesse lugar, com certeza apostaria em farmacias, hospitais e cemitérios. 

Fomos comprar pao pro café da manha e vimos no caminho dezenas de velhinhos fazendo ciclismo. Aqui na França, é muuuuito comum ver equipes de ciclistas, com uniforme e tudo, fazendo... ciclismo. Quando chegamos na padaria, tinha um velhinho ciclista comprando pao. A caixa perguntou "oh, você anda com uma nota desse valor enquanto faz esporte?" Era uma singela notinha de 100$. Esperei que ele fosse dizer a ela "fique com o troco", mas nao rolou. Pois é, pessoas que compram pao com notas de 100€. 

Pra minha sorte, choveu durante todo o sabado, entao nao foi realmente um sacrificio ficar dentro do quarto estudando. Mas no domingo...

Aqui os caranguejos sao felizes


Gordo lindo bocejando


A outra perna ta debaixo do chapéu


:(

No sabado, um amigo foi pegar ouriço. Que coisinha nojentinha e fedorenta! Mas essa nao era a opiniao da gaivota que apareceu por la. A gaivota tava completamente enlouquecida atras dos ouriços deixados na varanda. Ela dava uns voos rasantes e tinha um olhar maligno. A gente espantou ela, mas a marvada voltou no dia seguinte, determinada. Colocamos a mesa na varanda e, à mesa, um delicioso prato de quiche. Em dois minutos, tinhamos um passaro comendo nosso almoço. Enquanto a gaivota se fartava, uma das meninas gritava. Fiquei sem saber se eu espantava o passaro ou se eu batia na menina pelo escândalo. 

Depois de compartilharmos o que sobrou da comida, tive a excelente idéia de tomar banho de mar. O que poderia ter sido um maravilhoso mergulho em aguas mediterrâneas, se revelou uma sessao de tortura. Tirei o biquini da mala. Peguei minha toalha. Lambuzei a cara de protetor solar e desci toda serelepe pra praia. Quando coloquei minhas patinhas na agua, descobri que a vida nao é tao bonita assim. A agua tava gelada e, 15 min depois, eu ainda estava na mesma posiçao tentando arrumar coragem, enquanto Camilo ja devia ter feito Saint Raphael - Malta à nado. Quando finalmente entrei no mar, fiquei me debatendo, engoli agua... e sai cinco minutos depois. Phino. 


quarta-feira, 27 de abril de 2011

Solo

La vai.

Eu e meus irmaos crescemos ouvindo, quase que diariamente, que estavamos abaixo intelectualmente das outras pessoas. Ouvindo de quem? Do nosso querido genitor. Eu sempre fui comparada à filha do gerente do banco em que ele trabalha, à filha da vizinha, às minhas primas, às minhas melhores amigas... Todo mundo era mais esperto e mais capaz do que a gente. Essas pessoas faziam Medicina ou Direito e estavam em cargos publicos de salarios exorbitantes. E eu... eu era soh uma aluna de Historia. Uma "vagabunda". Quando você tem 25 anos e escuta coisas desse tipo, você nem mesmo pensa em ouvir o sermao até o fim. Mas quando você tem 12 anos, brother, isso te afeta. E quando esse se torna o mantra do seu pai, ja era. Cresci assim: acreditando que eu nao podia. Me convenceram disso. Me convenceram realmente que eu sou inferior à qualquer criatura. Mas eu escuto, nao raramente, inclusive do meu pai, que eu sou forte. Que eu sou forte por estar aqui na França, por estar numa faculdade no "estrangeiro", por estar enfrentando todos os problemas que a distância da terra natal pode trazer. Mas eu nao levo esse reconhecimento em consideraçao, pelo menos nao ao ponto de ter uma postura mais positiva em relacao às minhas capacidades. Eu nao quero desistir de nada porque isso seria confirmar tudo aquilo que meu pai pensa de mim. Meu complexo de inferioridade, meu medo e minha timidez ainda nao impediram que eu colocasse em pratica as coisas que eu planejo. Mas isso nao quer dizer que eu nao faça essas coisas me cagando de medo. Eu sou chorona, admito. Eu choro muito, eu choro por qualquer coisa. Eh uma forma nada original de escape da qual eu dependo. E eu tento me convencer de que isso nao me faz necessariamente uma pessoa fraca. Eh que eu ando com o coraçao na mao, assim, ao vento. Eh por isso que quando alguém me diz alguma coisa ruim, eu me sinto destruida, mas o efeito inverso vem pra equilibrar minha vida: basta eu escutar algo positivo, qualquer palavra de afeto, e eu me derreto. E, olha, eu gosto de ser assim. Eu pretensiosamente acho que vivo mais que muita gente. Minha vida nao é a mais fantastica, minha rotina se limita à "casa-faculdade-trabalho", mas eu sinto tanto que as vezes fico cansada. E, por algum misterio que eu ignoro, eu consegui reunir ao meu redor, sem perceber, um bom numero de pessoas que sao mais ou menos assim, intensas. Eh isso que torna minha vida, apesar de todos os probleminhas que eu possa ter, florida. Linda. 

O impulso que me levou a escrever esse post, foi um email que acabei de receber, da dona desse blog aqui (e que me fez chorar, claro). Eu nunca vi essa mulher na minha vida! E, de repente, sei la, ela se tornou muito mais compreensiva e preocupada comigo como jamais meu pai sera (e isso nao vem de hoje). E a cadeia de eventos que me ligou à ela (através dos nossos blogs) me ligou também a outras pessoas e, meu deus... Como agradecer a vocês? Na verdade, como celebrar isso tudo, como mostrar meu agradecimento sem ser brega (tarde demais?) ou de forma eficaz? Alias, nao acho que a questao se limita somente à agradecer todas as palavras e comentarios positivos que me chegam. A questao é mesmo "que puta sorte eu tenho por ter essas pessoas". Vou deixar de ser cagona? Dificilmente. Mas da pra respirar mais tranquilamente quando penso que eu sou RYYYYCA em recursos humanos (hihi). As vezes da vontade de engolir o mundo. E eu adoro dividir essas coisas com vocês. Obrigada!  




terça-feira, 26 de abril de 2011

Futuro mais-que-perfeito

Semana passada, uma das minhas professoras decidiu arruinar minha vida: a monstra desse post. Sabe aquele trabalho sobre Abbé Pierre/Emmaus? Pronto, eu tirei oito. Isso seria uma noticia maravilhosa se a média das notas escolares francesas nao fosse dez (a nota maxima é vinte). Mas o problema nao foi a nota, foram os comentarios super motivadores. 

Ela disse que eu nao dominava o francês (o que de maneira alguma representou uma surpresa pra mim. Oi, eu estou na França ha quase dois anos e nao sei conjugar os verbos no subjuntivo) e ficou me questionando sobre o que eu pretendia fazer depois da graduaçao. Ela me chamou atençao e me questionou sobre coisas absolutamente normais, mas enquanto ela ia falando, as pessoas à minha volta foram se calando e as observacoes dela sobre minha habilidade com a lingua foram sendo ouvidas pouco a pouco pelos outros alunos até o momento em que eu me encontrei completamente constrangida, sobretudo quando eu tive que responder que o que eu gostaria de fazer em seguida era um mestrado. Foi chato. Foi chato escutar tudo aquilo e foi chato ver que o que ela disse me atingiu tanto que, assim que ela deu as costas, eu comecei a chorar. E se fosse so isso! Comecei a avaliar todas as dificuldades que eu teria num possivel mestrado com esse meu francês capenga e mimimi, o choro foi aumentando, mimimi, o que é que eu tou fazendo nessa faculdade, mimimi, ela tah certa, mimimi, eu nao vou tentar o mestrado. Olha, nem queria descrever meu estado de espirito naquele momento. TPM, baixa auto-estima, complexo de inferioridade e cansaço se deram as maos e massacraram este pobre coraçao durante as horas que se seguiram.

Entao, pra minha extrema surpresa, a Luci forte foi convocada e disse pra Luci patética  "a unica pessoa que tem o direito de sabota-la é você mesma, amiga, nao uma professora que ta com a vida ganha e que ta pouco se fudendo com você". Entao, a nuvem de medo se dissipou e eu voltei a sorrir e a reconsiderar todos os meus planos. Acho que vou escrever um livro de auto-ajuda. "Como matar seu eu patético". Vendera milhoes. E sera escrito em francês. Sem o uso do subjuntivo, é claro. 

domingo, 10 de abril de 2011

Um exemplo de perspicacia

Aconteceu uma coisa tao ridicula hoje que vale a pena postar de novo. 

Pra ir à universidade, eu pego um metrô no sentido contrario à ela pra depois pegar o tramway que me levara a faculdade. Esse percurso é feito em uma boa meia hora (com o plus do tramway estar sempre lotado). Mas eu sempre soube que havia um outro caminho pra universidade que passava por dentro do parque Parilly, que fica a cinco minutos da minha casa, onde eu gastaria somente 15 minutos indo de bicicleta, mas eu estava sem bicicleta desde setembro, entao, ignorei essa opçao. Soh que um dos caras que mora comigo, me disponibilizou uma bicicleta (que provavelmente eu comprarei, pois esta à venda) entao hoje, como eu fui correr no parque, resolvi dar uma olhada no novo caminho pra ir à universidade. Camilo me explicou qual caminho eu deveria pegar pra atravessar o parque, mas ele nao sabia me indicar a segunda parte do caminho, uma vez que eu estivesse fora do parque.



Fiz o percurso de sempre na corrida e cheguei no limite do Parque. Pensei "ok, soh falta conhecer agora o resto do caminho" (que eu faria no dia seguinte, com a bicicleta). Eu ja estava me virando pra voltar pra casa quando me deparei com uma placa indicando "Université Lyon 2" e uma setinha pra direita. Minha gente, de repente, a universidade brotou do chao e apareceu na minha frente! Ela estava ALI o tempo todo! Eu morava a 15 min da porra da universidade e nao sabia. Eu passei seis meses pegando dois transportes, um deles lotado, todo-santo-dia, quando bastava eu atravessar o parque! Olha, eu ri. Mas nao é modo de falar. Eu ri muito na calçada. Porque agora, ao invés de passar pelo tormento descrito, eu vou de bicicleta pra universidade, nesse tempo lindo que ta fazendo, vou ver o parque todo dia e ainda ganhar preciosos minutos de sono. Mas que foi ridiculo, foi.


Pra ficar social

Sei que vocês andam sentindo minha falta nos vossos blogs (NAO ANDAM?), mas minha explicaçao pra essa ausência é aquela de sempre: faculdade cuzuda e sem fim. Ontem passei parte do meu lindo e ensolarado sabado dentro de uma opressora biblioteca lendo sobre coisas das quais eu nao gosto e nao entendo. Mas a gente compensa: fui encontrrar Camilo e duas garrafas de vinho na beira de um dos rios de Lyon. Que emoçao! Centenas de cabeças sobre a grama e sob o sol. A França teve recordes de temperatura pra uma começo de primavera: Paris, 24°, Lyon, 26°, Outro Lugar que eu Esqueci o Nome, 30°! Ok, vocês no Brasil estao se lixando pro sol, mas é que depois de seis meses de frio, a emoçao desse lado é grande. O dia foi lindo, estavamos bêbados e felizes. Voltando pra casa, no metrô, sentei do lado de um homem e fiquei fazendo careta pra ele quando ele nao estava olhando. Maturidade: trabalhamos. Depois ele percebeu o movimento. Ai eu virei pra ele e perguntei "o que é que tu fizesse hoje? :D"

Gente bêbada é uma merda.

Camilo disse que eu fico muito sociavel quando bebo. Eh por isso que eu bebo, pô, pra ficar social.



O céu de hoje e as glissines do nosso pergolado

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Curriculo sincero

Oi, meu nome é Luciana, tenho 25 anos e sou viciada em memes. 

Leia pra entender: Estrada Anil 

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Meu curriculo sincero

Idade: tou grandinha, ja passei da idade de beber até vomitar. Mas a gente vomita mesmo assim. 

Objetivos: ser professora de Historia e mudar o mundo. Ok, pelo menos o mundo de alguém. Vamos começar humildemente.

Disponibilidade para o trabalho: se o trabalho for muito trabalhoso, nenhuma.

Atuaçao: atriz, quando tenho que ler as historinhas de Tchoupi; Super-Homem, quando tenho que atravessar o parque voando pra aparar o menino da queda; escudo humano, quando o bebê resolve direcionar o jato de vômito pro chao (o estranho zelo pelo chao vem do fato do chao ser limpo por mim); faxineira, quando a atuaçao como escudo-humano falha.

Diferenciais: eu sou a unica pessoa pontual que eu conheço. Mas pontualidade nunca empregou ninguém. 

Experiências anteriores: oi?

Periodos: 1985 - 2008: papi pagava; 2008 - 2011: marido paga; 1989 - 2011: Luci estuda. 

Linguas estrangeiras: conheço uma muito bem e a amo! Na verdade, eu a amo tanto que casei com o dono dela. 

Conhecimentos: (resposta vazia por falta de criatividade da blogueira)

Capacidade de liderança: todos me obedecem. Afinal, so é respeitado quem tem o poder de intimidar. #bolsonarofeelings.   

Pos-graduaçao ou cursos complementares: para o céu e avante!

Ou nao.

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"O cargo é seu": Brabuleta 

domingo, 27 de março de 2011

Menstru... açao! - o resultado

Indo direto ao ponto: o coletor menstrual foi um sucesso. Tentei seguir todos os conselhos que recebi e mantive em mente todos os problemas que eu poderia ter. Entao agora, irmaos, vou dar meu testemunho sobre o produto. 

Escaldei o coletor numa panela com muita agua (pra evitar que o troço grudasse e derretesse no fundo dela). Eh uma etapa chata, visto que a probabilidade de uma das 862875367963 pessoas que moram comigo se deparar com meu coletor menstrual boiando numa panela é grande. Mas eu nao sou pudica e isso nao é problema meu.

Tomei banho, tchururu, peguei meu coletor, tchururu, e deitei na cama. O fabricante recomenda o uso de lubrificante nas primeiras vezes, entao eu, gênia, peguei o KY e ("Para você, amigo telespectador, que acabou de sentar no sofah, estamos falando de coletores menstruais, nao de outra coisa") e peguei o KY e lambuzei a parada. Crianças, nao tentem isso em casa: o negocio ficou sambando na minha mao, mas tal qual Crocodilo Dundee com seus crocodilos, consegui dominar meu coletor e dobra-lo. 

Entao, viria a parte mais dificil: enfiar. Alguém disse que a coisa mais importante era relaxar. Entao, respirei fundo, procurei a paz do Senhor e, quando eu ja estava quase desmaiando de tao relaxada, coloquei o troço. Nao achei facil, na minha opiniao ele é meio grande e se você estiver travada, pode esquecer. E ainda estamos falando de coletores menstruais.

Tentei verificar com o dedo se o coletor continuava dobrado, mas nao consegui. Entao, apertei o coletor e saiu, junto com o ar, um barulho que teria me comprometido caso eu estivesse acompanhada. "Pronto, agora fixou".  

Nao senti nenhum incômodo, nao precisei aparar o toquinho e nao vazou nada. Iêi! Maaaas... à noite, na hora de tirar, o negocio nao quis sair. Eu puxei, puxei, girei e nada. Pensei "meu deus, esse negocio esta preso à mim, socorro" e lembrei do Dr. Octopus. Tive medo que o coletor ganhasse vida propria e me dominasse e passasse a lançar jatos de sangue nas pessoas e quisesse dominar o mundo. Nao sei, uma coisa assim. Mas eu vou tranquiliza-los: isso nao aconteceu.

O que aconteceu foi que, na segunda vez em que o coloquei, ele ficou dobrado. Eu usei o dedo pra desdobrar e deu certo. Ou seja, Amanda, se você diz que nunca consegue desdobrar o seu, é porque você tem uma micro-vagininha, beijos.

Agora que eu usei e aprovei, vou fazer uma peregrinaçao pelo Sertao, quer dizer, pelo interior da França, propagando os beneficios do coletor. A causa é boa, espero atrair multidoes. Amém. 

sábado, 19 de março de 2011

Menstru... açao!

Depois dos testemunhos (e da aprovaçao) de cinco mulheres que conheço sobre os beneficios do coletor menstrual, decidi economizar a porra do meu dinheiro optar por uma postura mais ecologica e garantir a compra do meu. Nao vou dar minha opiniao sobre o coletor porque ainda nao o utilizei (pois é, tou escrevendo so porque eu sou empolgada). Mas ja achei o troço o maximo! Ele é lindo, é azul, mas eu teria escolhido vermelho, assim a gente adianta logo o serviço. 

Eu sinto, bem dentro do meu ser, que eu vou rir muito manejando esse troço... dentro do meu ser. Pra começar, o negocio parece um balde. Me sinto segura pra ter uma hemorragia se eu quiser. A marca é Lunacopine - nunca ouvi falar - e so custou 22€. O coletor vem com um saquinho super brega pra que você possa conservar o copo em segurança. Brega, mas para a mulher que gosta de discriçao, a opçao é melhor que as embalagens do Always que anunciam aos quatro ventos, no momento em que você tenta sacar discretamente o absorvente da sua bolsa, que você estah menstruando loucamente.  


Segundo esse esquema, o copo tem quatro furos pro ar. Pra quem quer a bacurinha ventilada, fica a dica. Na verdade, nao entendo a necessidade desses furos. Uma das vantagens do coletor nao é justamente a de nao permitir o contato do sangue com o ar (evitando assim o caracteristico e  desagradavel cheiro de sangue oxidado)? Bom.


Mas o que achei o maximo mesmo foi essa tabelinha que sugere o tamanho do coletor de acordo com o... tamanho do colo do utero? "Virgem, adolescente, mulheres jovens com/sem filhos, mulheres com mais de 30 anos com/sem filhos" etc etc e... "micro vagina: onde o colo do utero é facilmente alcançado com um dedo"*. Minha amiga dona de casa, se a senhora possui uma vagininha, melhor esquecer essa coisa de coletor menstrual. Seguinte: os fabricantes dizem que o coletor pode recuperar até 1/3 de todo o sangue vertido durante o ciclo. E vocês sabem por que? Porque o coletor é ga-ran-de-rê. Bucetinha nao tem vez! Fiz um esqueminha cientifico pra que vocês entendam:


Micro vagina (que parece uma folha - e que nem ta tao micro assim - desculpem, eu nao sei desenhar) + coletor-balde-menstrual = era uma vez uma micro vagina. 

Ok! Eu estou exagerando um pouco (eu ja disse que eu sou empolgada?). 

Bom, so sei que a encomenda veio numa boa hora. Terei minhas preciosas regras na semana que vem. Enquanto minha indisposiçao durar, revelarei aqui minha experiência com meu pequeno grande coletor, porque eu sei que vocês estao ansiosos pra saber como eu me viro com minha menstruçao. Eh, eu sei. 

Amigo que deixa Luci pagar mico com traduçoes toscas no blog, sem corrigir, nao é amigo.

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Elas também ja escreveram sobre:



segunda-feira, 14 de março de 2011

Ao mestre com carinho

Professor piscante: bom sinal

Como eu disse aqui, hoje eu deveria apresentar um seminario sobre o Abbé Pierre. Na verdade, nao era bem sobre o cara, mas isso nao importa. O que também nao importa é que, como a sala é numerosa e nem todas as pessoas podem apresentar os seminarios, a professora divide os temas entre dois ou três alunos e, no dia da apresentaçao, ela faz um sorteio pra escolher quem deve apresentar. Aqueles que nao foram escolhidos pra fazer a apresentaçao devem entregar um trabalho escrito sobre o tema. Dessa forma, todo mundo se prepara pra o seminario. 

A professora dessa disciplina tem a fama de ser muito exigente. Exigente = grossa. Entao, eu que ja sou medrosa sem motivo, cheguei hoje na aula rezando forte pra nao ser a escolhida. A reza deu resultado. No meu lugar, uma coitada foi à frente da turma falar sobre Abbé Pierre e cia. No final da apresentaçao, a professora respirou fundo e começou:

"Vocês precisam deixar de lado essa mania de falar no futuro. Vocês sao historiadores, nao jornalistas. Como assim 'Abbé Pierre farah isso, farah aquilo'? Ele 'fez' isso, ele 'fez' aquilo. (...) Você fala demais 'personne'. E sua problematica? Nao tem nada a ver com uma problematica! (...)  Sua introduçao esta completamente confusa, você se perdeu entre dados e numeros. E sua conclusao nao corresponde ao que você disse durante o seminario"

Ela criticou ainda a menina por ela nao ter visto um filme que fala sobre o Abbé Pierre, disse que ela nao tinha se "doado pro trabalho". E ainda reclamou pelo fato da menina ter esquecido certas datas. Minha gente, vinte minutos seguidos de critica. Quando olhei pra menina, ela tava com cara de choro. Eu quase levantei da cadeira pra ir dar um abraço nela. Soh digo uma: me livrei de ter pago um micao chorando na frente de todo mundo. Foi duro. Inclusive, ela havia comentado comigo que mandou um email pra professora pedindo algumas dicas de livros pra fazer o trabalho e a resposta da professora foi simplesmente: "você nao tem capacidade de fazer uma pesquisa bibliografica?"

Meda.

Pra minha paz, essa nao é a unica professora que da coice. Mas da outra professora eu nao reclamo, porque a disciplina dela é feminismo puro, do começo ao fim, é lindo! Mas eu nao ouso abrir minha boca. Ela vive cortando os alunos, mas de uma forma grosseira mesmo. 

Outro dia, um desavisado foi inventar de dizer o que ele pensava sobre determinado assunto que estava sendo discutido. Infelizmente, a opiniao dele nao correspondia à opiniao da professora. Entao, ela olhou pra cara dele e disse:

- E o que você sabe sobre isso?!
- Eu nao sei, eu soh acho que...
- "Acha"? Acha o que? O que você sabe sobre isso?!
- O_o
- Você por acaso leu sobre isso?
- Nao... eu...
- Entao! 

Cri cri cri. 

O mesmo aluno, antes disso, tava comendo um sanduiche dentro da sala e ela disse "quando você vai terminar seu pic nic?". 

Uma aluna tava guardando o material dela quando a professora parou a aula e disse "mademoiselle, a aula ainda nao acabou, tenha respeito". E eu, louca, quando ainda nao havia testemunhado nada disso, fui perguntar a ela se eu poderia entregar um trabalho escrito no lugar de apresenta-lo como seminario.

- ...porque eu sou estrangeira, mimimi.
- E dai? Você pode fazê-lo mesmo assim! 
- Mimimi?
- Ok.

Eu devo ter feito cocô na calcinha depois que dei as costas a ela. Tenso! A de hoje foi ela escrachando os estrangeiros que entregam trabalhos com erro de ortografia. "Vocês tem o corretor! Coloquem no corretor!" Ela te corta se você fala, se você nao fala, se você come, se você respira, se você. 

Entao, é com muito orgulho que eu anuncio que eu ganhei uma piscadinha dela! Hihi Ela tinha falado de um mestrado lindo que eu queria muito fazer ano passado sobre trabalho e gênero, mas por haver a necessidade de um intercâmbio, eu desisti da idéia (desisti da idéia = nao passei :D). Mas o mestrado vai abrir na Lyon II e nao serao somente cinco vagas. Entao, achando que eu tinha alguma chance, fui falar com ela durante o intervalo da aula. Falamos durante uns dez minutos. Ela explicou o que eu precisava fazer. 

Quando voltamos à aula, uma menina começou a apresentaçao de um seminario sobre a Barbie (pois é...) e comentou que algumas até falavam. "Tem uma Barbie que diz que blablabli e isso deixou algumas feministas furiosas". Como eu nao entendi a frase, me virei pra Lucie e perguntei baixinho o que ela havia dito. A professora percebeu, levantou da cadeira e foi ao quadro escrever pra mim o que ela tinha dito: "a matematica é muito dificil". Quando eu li o que ela escreveu, olhei pra ela e ela deu um sorriso e uma piscadinha pra mim. Um SORRISO e uma PISCADINHA. Foi muita emoçao, meu povo. Pensando agora, acho que ela ta afim de mim. No final, os professores so querem que a gente mostre esforço e interesse pelo curso - e que a gente nao coma, nao fale e nao respire. 


quinta-feira, 10 de março de 2011

Emmaüs

Abbé Pierre nos anos 50 e muita atitude. Yo!
A Drixz do Café Velho acabou de se mudar pra Suécia e, tao logo chegou ao pais, partiu em busca dos utensilios domésticos - nao subestimemos a importância de um copo. Como ela também procurou lojas que vendem objetos de segunda mao, dei a sugestao do Emmaüs e agora vim aqui falar sobre ele, porque se trata de um projeto muito legal e muito conhecido na França.  

Emmaüs é uma instituiçao filantropica fundada por um sacerdote de Lyon, Abbé Pierre, ainda nos anos 50, que se espalhou pelo mundo todo, existindo hoje em quase 40 paises. O projeto atua em diversos campos: ajuda pessoas sem alojamento (o principal objetivo), os imigrantes, os famintos, os desempregados etc. Eh lindo, mas o que me interessa mesmo sao as lojas Emmaüs que vendem objetos e moveis de segunda mao. 

Irmaozinho, eu ainda estou no sol
Tem de tudo, minha gente, de abajur do século passado à geladeira. Eles vendem roupa, talher, bengala, sapato, novelo de la, muleta, livro e tudo o mais que possa ser vendido/doado. Apesar de se tratar de objetos usados, eles prezam por uma certa qualidade dos objetos à venda, claro, e os preços sao ridiculamente pequenos. Comprei uma carteira que eu amo pela bagatela de 50 centavos. Camilo, no ultimo final de semana, comprou uma mesa pro futuro escritorio dele por 25 euros e ela ta em excelente estado! E alias, varios moveis e objetos da nossa casa vieram do Emmaüs e vao voltar pra la quando nao precisarmos mais deles. 

Nao sei se essas lojas existem no Brasil porque, na minha opiniao, o funcionamento delas exige uma cultura bem particular e uma economia especifica. No Brasil, a gente nao tem o habito de se desfazer das coisas que estao velhas ou quebradas (muito menos das coisas que estao em bom estado, mas que nao utilizamos mais). A gente ou conserta, ou vende, ou da pros parentes/amigos, mas jogar fora? Jamais. Os franceses (e acho que muitos outros europeus) costumam jogar as coisas quebradas fora, ja que o conserto custa os olhos da cara aqui. E nao é raro ver objetos em otimo estado nas calçadas daqui (que ou vao pro lixo ou sao recuperados por alguém menos exigente). 

Uma vez, indo pro trabalho, vi um amontoado de roupas jogadas na calçada com um papel em cima onde se lia "sirvam-se". Horas depois, quando passei de volta, nao havia uma meia pra contar historia. Na minha familia nao existe essa de se desfazer das roupas: se nao cabe em mim, vai pra caçula ou pra prima. Nem sei como se dah o fim de uma roupa na nossa casa. Acho que a gente usa até ela se desfarelar no corpo.

O dinheiro das vendas desses objetos vai pra Associaçao, mas acho que a maioria das pessoas que vao ao Emmaüs ja nem se lembram do lado caritativo dela. Parece que o Emmaüs aqui na França é mais importante como regulador dessa cultura do desperdício que outra coisa. Mas isso é soh um pitaco. 

Das coisas que nao nos interessam: (1) Emmaüs é o nome da cidade em que Cristo apareceu depois de ressuscitar. (2) Vou apresentar na segunda-feira um seminario sobre o assunto. Oremos. (3) Eu tenho dificuldade pra escrever "ressuscitar" (é uma palavra que eu soh utilizo quando vou falar de Jesus. Aih ja viu, né...) 

Comentario mais ou menos (nada) a ver com a historia: a familia de Camilo passou essa semana em Lyon. A mae dele resolveu me ensinar a tricotar. Foi no Emmaüs, comprou agulha e linha de tricô e, mais cheia de boa vontade que Abbé Pierre, me ensinou uns pontos. Minha gente, que troço dificil é aquele? Pensei em estimular o cérebro dos meus filhos, aqueles que eu nao terei, colocando-os em aulas de xadrez ou bateria, mas agora eu vou coloca-los pra tricotar! Uma sessao de tricô e seu QI sobe uns cinco pontos. Nao o meu, claro, que pelo visto nem devo ter, porque ainda nao consegui fazer nada que prestasse. O que era pra ser um cachecol ta parecendo um ninho de passarinho. No pior dos casos, usarei como chapeu. Ou doarei pro Emmaüs. 

quarta-feira, 9 de março de 2011

"Presente"

A Borboleta pediu a alguns amiguinhos pra que eles fizessem alguns posts tematicos pra comemorar seu aniversario. Eu fui uma das escolhidas (tou me achando?) e, como o tema era livre, decidi falar de um drama pelo qual estou passando ha algumas semanas. Preparem os lenços.

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Do caso do professor que nao tinha voz


E os visigodos conquistaram a Penin… bérica. Com a che… dos abbassides, em seissen… …renta e nove, ess… região vai se de…volver por um perio…

É assim que tem me chegado as informações da disciplina de Historia Medieval. O professor tem um pequeno probleminha de voz que não o permite falar todas as palavras, a voz dele falha completamente em certos momentos. Detalhe importante: faço essa graduação na França, então, além do esforço que tenho que fazer pra entender o que esta sendo dito, tenho agora que me esforçar pra saber aquilo que não esta sendo. "Tina", por exemplo, é Palestina. Não que ele erre sempre e exatamente nas mesmas silabas/palavras, mas a repetição é freqüente e Palestina virou Tina varias vezes.

(Para continuar lendo, clique aqui). 



segunda-feira, 7 de março de 2011

Crazy Creuza


Oi, eu sou uma farsa!


Lembram quando escrevi esse post falando sobre o quanto o guri tava mimado e dificil? Ok, vocês nao lembram. Mas eu escrevi. Pois bem, o guri mudou. Mudou e virou a coisinha mais fofa!, comportada! e inteligente! desse mundo. Ele ja começa a falar e entende tudo o que dizemos a ele (seja em português, seja em francês). Ele vai fazer dois anos e ja caga no sanitario, minha gente. Eh mesmo um prodigio. E ha tempos ja come de garfo! Claro que eu sempre fico esperando que um dia eu o encontre com o garfo enfiado no olho, mas se a mae libera, nao sou eu que vou castrar o garoto. Tou super orgulhosa e curiosa com o desenvolvimento dele. O trabalho de babah acabou se tornando a melhor atividade da semana. Mas...

Mas.

Um professor anunciou, no começo do semestre, que os horarios da sua aula estavam errados e que passariam a ser na sexta-feira, o unico dia que eu tinha pra trabalhar. Ou seja, além de nao poder mais acompanhar o pequeno, eu fiquei desempregada. A rua da amargura me espera. E, como gostamos de situaçoes extremas, Camilo se demitiu também e daqui a alguns dias seremos um casal de desempregados. Nosso objetivo agora é mostrar ao mundo que um casal pode sim viver de amor. Vamos comer carinho no café da manha e amor no almoço. As cinco da tarde faremos um lanchinho de afeto e, à noite, comeremos ternura. Dinheiro pra que, nao é mesmo?

Mas antes do trabalho acabar, a mae do guri perguntou se eu poderia trabalhar como babysitter durante três segundas-feiras seguidas. Eu topei, apesar de ter durante a segunda  dez horas de aula seguidas (com apenas um intervalo de 15min a cada 1:45h de aula). Mas eu precisava de dinheiro e so tomaria conta do guri, a irma dele (de cinco meses) ficaria na casa de uma vizinha (porque eu nunca tomei conta de um bebê tao novinho antes). Soh que, no terceiro e ultimo dia de babysitter, a mae perguntou se eu me garantiria de tomar conta da bebê também. Eu disse que sim, mas somente porque, nessa noite, Camilo iria comigo pra conhecer os pais do guri e me fazer companhia (ja que eu trabalharia até meia-noite).

Tudo certo. 

A mae começa a dar as instruçoes e a explicar os habitos da guria. "Ela nao gosta de ficar no berço e provavelmente soh vai dormir nos seus braços. As vezes, quando a gente tenta coloca-la no berço, quando ela começa a dormir, ela acorda. E acorda cheia de energia". Em outras palavras: você vai segurar sete quilos das 20h à meia-noite, beijos. 

Posso adiantar logo? Foi a pior noite de trabalho da minha vida. Aquele bebê nao é de Deus, minha gente. Assim que a mae saiu, ela começou a chorar e nao-parou-mais. Eu e Camilo colocamos um desenho infantil, esperando que ela se distraisse e deu certo! Deu certo durante sete segundos e meio. Depois de meia hora chorando, ela começou a mastigar um brinquedo e se acalmou durante incriveis 20min. Mas o brinquedo deixou de exercer seu efeito magico sobre ela e o choro voltou. 

Como ela estava sempre nos meus braços, o choro era beeem dentro do meu ouvido. Eu fiz de tudo: falei, sorri, a sacudi, a coloquei no berço, mostrei a ela todos os brinquedos da casa, dancei mas... nada. Nada acalmava aquela menina. Era aquele choro constante e agudo. As 22:30h, quando a mae disse que, provavelmente, ela dormiria, eu a coloquei no berço. Minha nossa senhora. Essa menina começou a chorar de um jeito que... Olha, nem sei explicar. Ela gritou e chorou ainda mais. As veias do pescoço dela saltaram e ela ficou roxa. Os olhos, esbugalhados. Achei que os pulmoes dela fossem voar pela boca. Temendo que ela explodisse, peguei ela de volta, mas ela continuou a chorar. Corri pra Camilo e entreguei o pacote, porque tendências homicidas começaram a nascer em meu ser. 

Luci
As 23h, Camilo começou a assoviar e a dar tapinhas nas costas dela pra que ela arrotasse. A menina parecia um pedreiro arrotando. De repente, ela começou a se calar e eu comecei uma oraçao. Quando Camilo ja nao sentia mais os proprios braços, ela começou a dormir. Eu sentei no sofa completamente perturbada, ainda escutando o choro da menina. Trinta minutos depois, os pais chegaram e ela... acordou. Acordou sorrindo! E eu la, dura. 

A mae perguntou se ela tinha chorado muito e eu narrei a noite (deixando de lado a parte em que eu quis matar a filha dela). Ela pediu desculpa e explicou que Creuza tah acostumada com a mae e que costuma estranhar as pessoas que ela nao conhece. Depois, ela disse que, agora que Creuza me conhecia, seria mais facil nas proximas vezes. Minha senhora, agora que eu conheço a sua filha, nao havera mais proxima vez. Mentira, eu sorri nervoso. 

Depois ela disse "espero que vocês nao estejam traumatizados e ainda pensem em ter filhos he-he-he". Querida, no primeiro ataque de choro dela, eu tentei arrancar meu utero com as unhas! Sério, imaginem isso todo-santo-dia. Deus me livre! A menos que eu tenha certeza de que meu filho sera um bebê Anne Gueddes, nao parirei. E eu bato na primeira que deixar comentario dizendo que eu soh tive uma experiência ruim e que bebês sao fofos! 


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Felicidade de dois segundos

Ao contrario do semestre anterior, coloquei a metade dos meus seminarios nas primeiras semanas de aula (isso também explica meu sumiço dos meios sociais virtuais). Essa semana, pedi pra Camilo corrigir o texto de um dos seminarios.

- Essa frase aqui ta muito bem construida! Foi tu quem fez?
(Eu, que duvido das minhas habilidades na escrita): 
- Nao sei, acho que nao...
- Nao, foi tu mesma! Da pra ver pelos erros de gramatica...

:(


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

#200

Post super rapido soh pra levar pra longe as lamentaçoes do post passado. Xô! E pra agradecer os comentarios de apoio. Tao lindos! Eu sempre fico emocionada com vocês, minha gente, sempre. Obrigada, de verdade.

Dentro das preocupaçoes, a universidade trouxe uma coisa boa: uma academia. Fiquei sabendo que havia um ginasio e que eu poderia me inscrever por miseros dez euros. Trarei mais informaçoes sobre esse evento fabuloso quando o ânimo chegar. 

Ah, chegamos aos 200 posts. Obrigada pela companhia!



Xau

As notas da faculdade sairam. Das cinco disciplinas que fiz, passei somente em três e com notas deprimentes. Como ja tava esperando ter ficado em recuperaçao nas outras duas, o golpe nao foi tao duro. Até que... até que vi um pequeno detalhe na lista das notas: uma sexta disciplina na qual eu nao sabia estar inscrita. Ou seja, eu, que nunca faltei uma aula, que sequer chego atrasada, perdi toda uma disciplina por nao saber que estava matriculada nela. Olha, é preciso ter muito talento pra conseguir isso. Isso foi o que eu precisava pra dar inicio a uma sessao de choro e auto-flagelaçao. Tou completamente desmotivada aqui, mergulhada num sentimento de fracasso nojento. Como posso pensar num mestrado se eu nao consigo nem mesmo fazer uma dissertaçao? 

Bom, as aulas começaram segunda e ja tenho a data de pelo menos três seminarios. Acho que ter ficado em recuperaçao nessas disciplinas me fez ver que meu desespero e todo o sofrimento que passei no semestre passado foram de graça. Agora o mote vai ser o "foda-se". Se chorar me fizesse tirar boas notas, eu seria doutora. Vou levar como eu posso esse semestre e deixar de visualizar o diploma pra ver se me livro dessa pressao. Ainda bem que nao sou chinesa. 

domingo, 30 de janeiro de 2011

Musica francesa: Mr. Roux




Mr. Roux é uma banda de chanson française da cidade de Rennes, norte da França. Otima dica pra quem esta aprendendo francês. As letras sao legais. Algumas sao cheias de sarcasmo e fazem pequenas criticas sobre alguns elementos da sociedade francesa. Mas nao é isso que me faz gostar da banda (até porque, pra mim, arte nao precisa ser engajada). Foi Camilo quem me apresentou à banda, em 2007, quando ele apareceu pelo Brasil. Por isso, esse album me traz otimas lembranças, me leva à época da inocência, quando a nossa maior preocupaçao era a escolha do bar de sabado à noite. Tempos dificeis. 


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Maracugina


Fiapo no dente! Aaahhh!


Nao é preciso me conhecer muito bem pra saber que eu sou uma mulher bruta. Ja sofri e fiz sofrer muita gente por causa disso. Ultimamente, tou mais calminha (essa frase deve ter feito Camilo rir). Seja como for, a cavala que habita em mim é um verdadeiro ursinho de pelucia perto do meu roommate. 

Antes dele morar aqui em casa, perguntei a duas pessoas que o conheciam bem se ele era legal. O dialogo foi o mesmo com as duas:

- Ah, ele é otimo! Eh engraçado, é atencioso...
- Otimo, porque ele vai morar com a gente.
- Morar?! Ah, nao, pra morar nao!

Nao era o que eu queria ouvir. Também nao demorou muito tempo pra eu descobrir o porquê disso. O cara é um pouco esquentado. Uma vez, conversando com sua mae ao celular, uma chinesa, ele ficou muito puto e chutou um negocio de ferro que fez o pé dele abrir e dar um banho de sangue na casa. Na ocasiao, ele também quebrou o celular no chao. 

Outra vez, ele foi acordado por um pessoal que estava conversando perto da janela do quarto dele. Como resolver essa situaçao?

Pessoa normal: "por favor, vocês poderiam conversar em outro lugar, porque eu estou tentando dormir. Obrigado".

Ele: foi no quintal, mandou todo mundo tomar no cu, estirou dedo, depois quebrou uma cadeira e uma xicara. Outro dia, sei la pelo quê, quebrou uma mesa. O bom é que geralmente eu fico sozinha com ele em casa, entao, quando eu começo a me apavorar com as pancadas que ele faz enquanto destroi a casa, eu me lembro que pode ser ele nas suas atividades e deixo pra la. Até porque, ja falei do detalhe que ele é faixa preta no Kung Fu? Pois bem, ele é. 

So que essa semana, Pai Mei passou um pouquinho dos limites. Camilo, feliz e contente, mandou um email pra todos os seus contatos convidando o pessoal pra sua festa de aniversario. A gente sabe como é dificil manter controlado os convidados bêbados, principalmente aqueles que nao conhecem o dono da festa e usam o momento pra fazer merda (na ultima festa que houve aqui em casa, mijaram num colchao que fica no subsolo). Entao, Camilo, inocentemente, disse ao final do email que nohs tinhamos um chinês que fazia Kung Fu e que nao ia tolerar as pessoas que viessem quebrar a casa. 

Pra que?

Eu, que no momento em que lia o email, estava em casa, comecei a ouvir umas pancadas fortes vindo do quarto dele, algo como batidas de porta, mas de maneira muito mais alta e intensa. Fiquei apavorada, apesar de saber do que se tratava (e talvez por isso). Finalmente, um outro morador da casa chegou e perguntou a Pai Mei o que porra ele tava fazendo. Nao escutei a explicaçao, mas quando chegou à noite, entendi o motivo: encontrei Camilo num restaurante e ele disse que o estressado havia respondido ao email quatro vezes. As mensagens sao bem carinhosas: ele manda Camilo tomar no cu, diz que vai bater nos amigos dele, que vai bater em Camilo, inclusive, que vai matar Camilo e que vai fazer realmente isso pra Camilo ver que ele nao ta brincando. Dai vocês me perguntam: por qual motivo ele vai fazer isso? E quem sabe! Eu fiquei tao assustada que disse que Camilo nao ia ficar sozinho com ele quando voltasse pra casa pra conversar com ele.

No final das contas, aconteceu o que a gente sabia que aconteceria: ainda por telefone, ele pediu desculpas a Camilo e depois teve uma conversa muito sincera sobre o quanto ele estava errado e sobre o quanto ele deveria mudar. Nohs, os estressados, violentos, temos consciência absoluta da nossa ignorância e do quanto isso afeta nossos relacionamentos. E o pior: justamente aqueles que sao os mais proximos e, consequentemente, os mais queridos. Eh uma maldiçao. Mas tudo acabou bem e Pai Mei ta pensando em deixar a casa em fevereiro.

PS. nao estranhem se eu deletar esse post dentro dos proximos dias. Seguro de vida: nao temos. 

Talvez

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