Todos os anos, eu - e outros milhares de estrangeiros - preciso renovar meu
titre de sejour, o documento que permite que eu viva e trabalhe na França. E a cada ano que passa, esse procedimento se torna cada vez mais dificil de ser feito. Ano passado, incluiram como parte obrigatoria do processo a presença do marido/esposa francês na Prefeitura. E, ha alguns meses, um dos meus
colocs, originario da Ilha Mauricio, disse que a Prefeitura decidiu limitar a quantidade de estrangeiros atendidos e passou a distribuir apenas duas centenas de senhas por dia. Isso fez com que as pessoas passassem a chegar cada vez mais cedo na fila. Resultado: à 1h da manha, ja tem gente fazendo fila na calçada da Prefeitura. Detalhe importante: o expediente começa às 9h da manha.
Vocês podem imaginar o tamanho da minha felicidade quando ouvi isso. Sobretudo, porque meu titre expiraria dentro de algumas semanas. Quando a data se aproximou, preparamos a papelada e fomos super satisfeitos, às 4h da manha, fazer o que o ser humano mais gosta de fazer: fila.
Peguei minha bicicleta (afinal, o metrô nao funciona a essa hora) e fui à Prefeitura. Pelas minhas toscas contas, ja havia umas sessenta pessoas na minha frente. Camilo, zumbi, chegou meia hora depois. A chuva começou.
Personagens em volta: cinco homens arabes de jaqueta preta falando merda na minha frente. Uma jovem arabe, que tava sendo violentamente cantada por outro arabe que tava atras dela, e um velhinho caquético que eu nao sei bem onde estava. Mas ele parecia ta morrendo.
A noite foi indo embora, a chuva enfraqueceu, as pessoas foram chegando. A conversa entre os arabes era animada e de vez em quando alguém saia da fila pra comprar café. O arabe deu tanto em cima da menina que escutei num momento dela: "olha, você ta me constrangendo, eu tenho namorado". Ele dizia sorrindo: "mas eu nao me importo". Mas a menina era bem simpatica e nao se importou com as investidas, conversou com ele a manha inteira. Eu, morta de tédio, prestava atençao em tudo pra me distrair. Depois aconteceu o que todo mundo sabia que ia acontecer em alguma hora: uma briga. Minha gente, a fila da Prefeitura é mais tensa que roleta russa. Basta alguém dar um passo em falso, literalmente, que a confusao começa.
O sol apareceu. Seis, sete da manha. O arabe deu um beijo no braço da menina. O velhinho pediu pra eu avançar. O casal atras de mim começou a falar espanhol. Oito horas da manha e varios palavroes na minha cabeça.
Algum tempo depois, uma velha com seu filho adolescente, pediu pra que abrissem a grade de ferro que define a fila pra que ela entrasse. As pessoas costumam entrar e sair da fila pra substituir algum parente que esteja cansado de ficar em pé, por isso, ainda que desconfiados, deixaram a velha entrar. O problema é que ela nao estava ali pra substituir ninguém, ela estava ali pra fazer o que NINGUEM, nem mesmo uma velhinha, poderia ousar fazer nessa situaçao: furar fila.
PAM RAM RAM RAAAAAAM!
E na frente de quem ela decidiu ficar? Na minha frente, pessoas. Na-mi-nha-fren-te! Ela entrou na fila e disse "é que eu tou esperando meu outro filho que ta la na frente", aih ela deu um xauzinho la pra frente pra alguém. Soh que esse alguém nao existia! Ela acenou pra nuca das pessoas, porque ninguém respondeu ao aceno. E o Oscar de melhor atriz vai para…
Meus amigos, vejam bem. Eu sou uma pessoa otaria. Levo desaforo pra casa, nao sei dizer "nao", perco certas oportunidades de falar o que penso etc e tal, mas essa velha despertou meu lado Hulk e, quando eu me dei conta da situaçao, peguei ela pelos bigodes e a arremessei no chao eu perguntei a ela o que ela tava fazendo ali e chutei a cabeça dela quatro vezes pedi gentilmente pra ela ir encontrar o tal filho dela na fila. Como ela ficou enrolando, eu entrei na frente dela e comecei a dizer que eu nao tinha chegado ali às 4h da manha pra que alguém viesse pegar meu lugar e bla bla bla. Pra alguém banana, timida e travada no francês como eu, foi um grande feito. Eu merecia um biscoito.
A pilantra ainda tentou sustentar toda aquela farsa imunda mandando o filho dela procurar pelo suposto irmao, mas o menino era meio atrasado mentalmente porque nao captou bem o que a mae tava tentando fazer e voltou de uma breve procura na fila dizendo "maaaae, eu acho que ele ta em casa mesmo, viu". Game over, dona Maria! As pessoas atras de mim ja tavam com foices e tochas na mao, prontas pra caçar a véia. Ela acabou saindo da fila gritando "minha vingança sarah maligrina!"
Teve um momento em que um passarinho pousou no chao e os arabes enjaquetados gritaram "sai da fila!" hihihi (eu ri!). Quando finalmente deu 9h da manha, e todas as minhas varizes ja gritavam aflitas, a Prefeitura abriu. So que, a essa altura, nao existia mais uma fila definida. A arabe, o arabe, o velho, o casal e outras pessoas estavam ao meu lado, a fila tinha se compactado e ninguém sabia direito a ordem dela. Mesmo debaixo da desordem, conseguimos entrar e pegamos o ticket numero 100.

Entrei no prédio e me deparei com uma luz muito forte vindo do final do corredor: eram duas cadeiras vazias. Cadeiras, minha gente, cadeiras! Vi que havia duas pessoas se aproximando delas, entao, rapidamente, fiz uso das minhas habilidades na arte do tae kwon do para neutraliza-las. Depois de conseguir os tickets e as cadeiras, a segunda metade do dia foi facil: soh precisamos esperar mais cinco horas até sermos atendidos. Em cinco minutos, a moça simpatica do guichê deu andamento no meu novo titre e disse "volte em três meses pra pegar o documento definitivo". Com prazer.