sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Da arte de enrolar seus leitores - fotos recuperadas

Quando estavamos perto de completar um ano juntos, o computador de Camilo sofreu um derrame e perdemos tudo o que havia nele e coisas que soh havia nele, como todas as fotos dos ultimos cinco anos da minha vida. Passei três dias chorandinho e cada lembrança de foto perdida fazia meu luto ficar ainda mais negro. Semana passada, ao revirar umas caixas antigas, Camilo descobriu, por acaso, algumas fotos que ele havia revelado no Brasil. Entre elas, umas raridades: as primeiras fotos que tiramos juntos. Hihi Vou postar parte da leva encontrada aqui. Assim, se a casa pegar fogo um dia...





Eles nao sabiam que iriam dividir o aluguel um dia

Eles nao sabiam muitas coisas

 Essa sou eu: 13kg mais magra e a indefectivel cara de poucos amigos



Igreja do Carmo - Joao Pessoa 

Rio Sanhaua - Joao Pessoa

Igreja de Sao Pedro Gonçalves - Joao Pessoa



 Casa grande - Areia - PB

 A primeira foto que vi de Lyon

Arvore solitaria em alguma parte do mundo

 E um Jesus ainda mais solitario...

domingo, 21 de agosto de 2011

Especial férias (Amandao e Chèri) - parte IV

Depois da viagem de bike, voltamos pra Lyon pra receber Mme. Amanda e M. Chèri. Foi tao lecau! Eu tava precisando conversar com alguém - alguém que nao fosse Camilo (nada contra seu papo, gato, foi ele que me ganhou, mas...). Eu acho que sou vista entre o pessoal que mora comigo como a muda da casa. Nao falo muito: prefiro ficar calada à me dar ao trabalho de participar de um dialogo onde eu vou falar o que sei falar, nao o que eu quero falar. Muito frustrante. E o primeiro passo para evitar uma frustraçao, meu amigos, é nao dar nenhum passo - é, eu sei, é brilhante como atitude, desconfio que deva ser por isso que o meu francês nao progride tanto quanto deveria. Mas como eu ia dizendo, foi muito bom ter os dois aqui. 

Tinha esquecido como era conversar com alguém à vontade, gargalhar, fofocar, fazer confidências, falar merda, fazer piada. Acho que ela ja descreveu muito bem aqui o que eu queria dizer sobre afinidade, palavra bonita essa. Camilo comentou depois "é incrivel como duas pessoas de temperamentos tao diferentes podem ter o carater tao parecido". Pois é, isso explica muita coisa. E quanta tagarelice!

Pessoas, a gente falou tanto que teve uma hora em que eu acabei perguntando quantos dentes ela tinha, e ela, assim, bem naturalmente, começou a contar os dentes com a lingua. Inclusive, a quem possa interessar, ela tem 47 dentes, ao todo. Eh meio bizarro quando ela sorri, mas ela é minha amiga e eu aceito ela assim. No dia em que eles foram embora, a gente começou a matracar às 10h da manha e foi parar às 3h da madrugada, non stop - e somente porque ela tinha que acordar às 6h, senao a gente estaria contando os dentes dela até agora.

Infelizmente (?), quase nenhuma das pessoas que mora com a gente estava em casa. Mas Amanda pareceu bem contente em conhecer Josette, Lucette e Bernadette: nossos urubus nossas galinhas. A gente pensou em fazer um churrasco. Bernadette, a mais inteligente e desconfiada das dettes, ao saber da nossa intençao, foi se esconder entre as plantas do jardim. Ela é mesmo a rainha da camuflagem. 

Alguém ta me vendo?


Felizmente, Amanda é mais inteligente que a galinha* e acabou encontrando seu esconderijo secretissimo. E a dette foi parar na grelha**.

O tempo, claro, passou voando e cada casal partiu de Lyon pra dar continuaçao às suas férias. E todos viveram felizes para sempre. The end.

* Amanda soh se fode nesse blog.
** Brincadeirinha, gente, aquilo era pimentao. Eu seria incapaz de matar um animal. Eu soh os como.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Especial férias (en velo) - parte III

(Para ler a primeira parte da viagem clique aqui).
(Para ler a segunda parte da viagem clique aqui). 

Carnon Plage veio pra compensar Grau du Roi: foi o melhor momento da viagem! Eu nao sei quantos quilômetros rodamos (Camilo acha que foi em torno de 150km, nos cinco dias), mas a cada dia que passava, pedalavamos cada vez menos porque vimos que estavamos aproveitando pouco os lugares por onde passavamos. Acho que nem pretendiamos ficar na cidade, mas eu tava de saco cheio e queria pegar uma praiazinha. Entao, nos registramos no primeiro camping que encontramos. 

Camilo e eu tivemos algumas experiências com campings nas nossas ultimas viagens e agora eu posso confirmar o que bem falou Amanda: camping na França é mesmo uma instituiçao. Nao fui a muitos campings no Brasil, mas eu arriscaria dizer que essa parece mais ser uma saida pra estudante lascado. Aqui na França, os grandes frequentadores dos campings de lascados nao tem nada: sao compostos na sua maioria por aposentados franceses abastados ou por familias estrangeiras com bom orçamento. Pelo menos esse é o perfil que vi com mais frequência por onde fui.

E aqui, o tempo de estadia nao é para uma ou duas noites, eles passam semanas inteiras plantados no mesmo camping com as caravanas das mais modernas e com as barracas das mais caras. Eles montam com isso verdadeiras casas, super equipadas, que tem de mesinha de plastico à antena parabolica. A gente chegava no nosso espaço, montava a barraca, saia, voltava e eles continuavam la, naquela vida mansa, jogando baralho e fumando maconha tomando café.



Na boa, nao sei que lugar é esse

Soh sei que...

Quando chegamos em Carnon Plage, montamos nossa barraca e fomos à praia. Antes mesmo de nos instalarmos, vi ao menos quatro mulheres fazendo topless. Nao pensei duas vezes e entrei na onda. E qual foi a surpresa ao ver que... ninguém-ta-nem-aih. Nem mesmo o adolescente mais envenenado pelos hormônios te olha de esgueira. Em Joao Pessoa, eu teria sido estuprada três vezes.

O nosso camping em Carnon Plage: bicicletas ao fundo, barraca nas trevas, tênis e um lindo rolo de papel higiênico sobre a canga. Porque ir na casa do Pedrinho é preciso, viver nao é.

Camilo e eu, eu e Camilo.

Minha nada kicht campainha. Lovo. 

Entao! Daih que, depois da praia, eu precisava de um banho. Esperei Namorado voltar da ducha dele e ele avisou: "tem fila no banheiro dos homens". 

Tensao. 

REFLITAMOS: se tem fila no banheiro dos homens, o que eu posso esperar do banheiro feminino? Respirei fundo e fui la. E o que encontro? Um zilhao de meninas de 15 anos +  chapinha, batom, prancha, absorvente, cera quente, cera fria, cera morna, cera, creme hidratante, rimel, lapis, touca, esmalte, sombra, contorno, blush, repador de pontas, pinça, tesoura, cola, spray, prego, martelo, cimento, cal, britadeira e todas aquelas coisas que se precisa pra se deixar alguém biito. Gente. Eu soh queria agua! Calor dos infernos, eu suava por todos os poros e tinha areia até no feh-oh-foh. 

Acho que passei meia hora na fila da ducha até que alguma iluminada desocupasse uma vaga. Eu tinha lagrima nos olhos quando entrei na cabine. Metodica, coloquei minha roupa limpa aqui, meus produtos de higiene ali e abri a torneira esperando um banho revigorante. 

Quando abri o chuveiro, me apareceu um jato d'agua tao forte, mas tao forte, que eu pensei que meu couro fosse ir embora ralo abaixo. Me virei de frente pra lavar o rosto e a ducha foi bem nos meus peitos. Dai eu tive que procurar meus mamilos no chao, porque, minha gente, que ducha era aquela? 80 toneladas de pressao sobre minha cabeça. Eu lavei o cabelo e sai da ducha pelo menos uns três centimetros menor. Você pode nao acreditar, mas isso aconteceu na Nova Zelândia. 

Depois, nohs fomos pro centro procurar algum restaurante. Escolhemos um que servia mexilhoes. Apesar de ter crescido no litoral, acho que eu nunca havia comido mexilhoes. Fiquei tentando lembrar, mas nao consegui. Quando comi o primeiro, tive certeza de que eu nunca havia comido antes: o gosto é inesquecivel e a maneira de comer, errr... é bem particular. Nao é à toa que, em francês, moule (mexilhao) é um nome usado pra se referir à vagina.

Na frente do restaurante que vendia vaginas

No dia seguinte, com muito aperto no coraçao de minha parte, deixamos Carnon Plage e fomos pra Vic. Pegamos esse caminho simpatico:


A unica coisa que conhecemos do lugar foi o camping, porque estavamos muito cansados e, no dia seguinte, partimos direto para Sète, onde iriamos pegar o trem de volta à Lyon.

Feio, feio, feio...

A gente passou menos de duas hora em Sète, o suficiente para comer uma pizza e testemunhar uma tradiçao local: uma terrivel batalha de barcos!

Uh la la, braços!

Os barcos se aproximavam um do outro...

...o suficiente para que os dois nobres cavalheiros, dispostos na ponta de cada embarcaçao...

...estivessem proximos o suficiente para se atacarem com um bastao. O objetivo era derrubar o oponente na agua.

Eh, eu sei. Emocionante.



Algumas horas depois, estavamos em Lyon para receber dona Amanda e seu chéri que chegariam de Paris no dia seguinte. Mas os posts de férias continuam. Proximo destino: Jonzac!


domingo, 14 de agosto de 2011

Especial férias (en velo) - parte II

(Para ler a primeira parte da viagem clique aqui). 

Depois de Tarascon, fomos parar em Saint Gilles. Nesses dois primeiros dias, nohs pegamos muitas estradas ruins por culpa de Camilo por falta de experiência. No segundo dia, por exemplo, tomamos uma estradinha simpatica que seguia o curso de um canal. Começamos contentes e felizes, mas de repente os buracos começaram a aparecer, a mata começou a se fechar e, quando nos demos conta, ja era impossivel pedalar. Entao, peguei minha foice de bolso e fui derrubando arvore por arvore e nem mesmo os ferozes hipopotamos e dragoes que encontramos pelo caminho ficaram vivos pra contar historia. 

Inclusive, aproveito esse momento para dizer àqueles que acham que eu exagero em certas historias que tudo o que eu falo aqui no blog é a mais pura verdade. No ultimo pic nic de blogs, Camilo, injustamente, disse que eu inventava as historias, minha gente. Absurdo! Foi um golpe duro, sobretudo por se tratar de alguém que me conhece bem e sabe que eu nao minto nun-ca. Portanto, hoje, quero apresentar a vocês o patrono do caso.me.esqueçam. O rei! O mestre! O inesquecivel Nelson!

 iêu?

Opa, Nelson errado. Agora vai: Nelson Rubens, meu povo!

Tchan ram!

Criador do bordao "eu aumento, mas nao invento", Nelson Rubens certamente me entenderia. Mas voltando...

Em uma outra estrada, encontramos um cercado cheio de touros. Touro foi o bicho do qual mais vi referência indo pro sul. Nao sei que tara é essa desse povo pelo bicho. Estatua de touro, exposiçao de touro, feira de touro, cartazes de touro. Touro.

 Os touros estavam desconfiados com a presença da maquina fotografica. Menos um. 


 Gente, pode ser pro Daily Press
Nao era. 


 Nao sei o que me encantou mais nesse touro. Se foram os mosquitos sambando nos olhos dele...

...ou se foi essa linguinha preta. 

Chegamos à Saint Gilles, nos instalamos no camping e fomos tomar uma cerveja. Foi pra compensar, estavamos saudaveis demais. No dia seguinte, fomos dar uma volta na cidade (o que deve ter nos tomado 2 min, dado o tamanho dela). A coisa mais bonita da cidade era essa igreja que faz parte do itinerario dos peregrinos que vao à Santiago de Compostela:





Tinha até uma "casa dos peregrinos" perto da igreja. E esse mendigo que ta na frente dela é meu marido. (Eh naaaao, amor! Eh mendigo nao, é lindo! Chuac!)

 A esquerda, uma bunda. A direita, uma placa que diz "compartilhemos a estrada" que, claro, era ignorada pelos carros que tentavam a todo custo nos matar. Eu, como cidada consciente, respeitei a placa e pedalei a menos de 70 km/h.

Trecho da viagem: vinhas

Vamos recapitular nossa viagem, amiguinhos?

1° dia: Lyon - Avignon (em trem) - Beaucaire - Tarascon
2° dia: Saint Gilles 
3° dia: Grau du Roi 

Grau du Roi foi o lugar mais cu da viagem, apesar da praia, do céu azul, do cheiro de mar, do sol, das gaivotas gaiteiras... (ai, que bom!). Quando chegamos, eu tava quase infartando de tanta felicidade (pelos motivos citados), mas a cidade tava atolada de turistas e tava dificil encontrar vaga nos campings. Nao tiramos nem foto, mas joga no Google e você vai entender porque a cidade fica lotada nessa época.

Ficamos rodando e a unica vaga que encontramos num camping custava 56€ pros dois (quando estavamos acostumados a pagar 15/20€)! Era um camping 4 estrelas, mas pra gente que so queria um chaozinho pra armar uma barraca, isso pouco interessava (momento classe média sofre). Mas Grau du Roi é uma cidada pra gente RYCA!, e se a gente ta na chuva é pra se molhar. Inclusive, havia chovido na noite anterior e a vaga que nos deram estava completamente enlamaçada. Tou dizendo, foi um cu. Tive vontade de deixar um cocô no terreno, mas isso nao seria muito sao. Picamos nossa mula e fomos pra Carnon Plage.

(Fim do segundo ato)


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Especial férias (en velo) - parte I

Luci e Camilo viajando. Yupiiii!

Os pais dos guris dos quais sou babah resolveram tirar férias nesse verao, o que significa, automaticamente, férias para Luci. Três longas e lindas semanas de férias. Entao, como ha muito tempo tinhamos vontade de fazer uma viagem de bicicleta, decidimos usar a oportunidade pra colocar o plano em pratica. 

Ha algumas semanas, cinco dos meus colocs e eu fizemos um passeio de bicicleta durante um fim de semana até um famoso lago que fica perto de Lyon, o Lac Aiguebelette. Eu ja tinha ido ao lago ano passado, entao achei a idéia genial. Achei a idéia genial até perceber que 70% do caminho era composto por ladeiras que subiam e ladeiras que sobem nao sao de Deus. 

Na ocasiao, eu estava usando minha bicicleta de princesa da Disney. Eh uma bicicleta de passeio, meio velhinha, de marcha manual e sela de couro. Linda, mas que nao estava correspondendo às minhas necessidades naquele momento (minhas necessidades = chegar com vida ao topo das ladeiras). Na verdade, a unica bicicleta que iria me ajudar a subir aquelas ladeiras seria uma bicicleta voadora, mas até onde sei, nao existe nenhuma no mercado. 

Eu era a pessoa que ficava sempre pra tras. A bicicleta de Camilo é muito boa, parece uma moto comparada à minha e ele tentou varias vezes que trocassemos de bicicleta, mas neguei porque sou uma pessoa orgulhosa. Mas até mesmo as pessoas orgulhosas tem seus limites: troquei de bicicleta com ele e vivi alguns minutos de felicidade, cheguei até mesmo a ultrapassar Camilo em certo ponto, mas descobri que a bicicleta de Camilo é boa, mas nao é magica: voltei a ficar por ultimo. 

Antes de chegar ao nosso destino, sentamos num bar e encontramos, por acaso, a menina que iria nos hospedar. Eu, que estava super entretida com minha cerveja, nao vi, mas Camilo disse que a menina olhou pro meu cabelo molhado e, inocente, perguntou "ah, mas vocês ja foram tomar banho no lago?". Eh, eu sou uma pessoa que transpira. 

E essa historia todinha é so pra dizer que… queriamos fazer uma viagem de bicicleta, nao sabiamos bem como e nem por onde, mas uma coisa era certa: o roteiro teria que ser desprovido de ladeiras. Apos consultar alguns amigos mais experientes, resolvemos ir pro sul, onde aparentemente as estradas eram planas e, bom, sul aqui significa praia e sol.

Como minha bicicleta de camponesa nao parecia ser muito apropriada pra viagem, Camilo pegou a antiga bicicleta dele, trocou uns cabos, colocou uma bagageira, um suporte pra garrafa d'agua, minha cestinha, campainha, ajeitou os freio e os pedais. Ficou otima!


Antes

Depois


Agora eu tenho duas bicicletas e soh uma bunda. Obrigada, amor! Mas Camilo e eu nao tinhamos planejado muita coisa. Por indicaçao de um amigo, escolhemos Avignon como ponto de partida (fomos de trem até la) e depois algumas outras cidades aleatorias que pareciam ser interessantes como destino. Mas nao sabiamos quais estradas tomariamos ou quanto tempo ficariamos nos lugares. E isso, claro, garantiu muitas surpresas. A primeira delas: 


Pegamos uma estradinha cheia de pedrinhas assassinas e logo meu pneu furou. Apesar de Camilo estar em açao na foto, quem trocou o pneu fui eu, pra acabar com essa historia de que mulher nao sabe trocar pneu. Na verdade, Camilo, assim como meu bob pai, nao costuma dar as coisas de mao beijada e tenta sempre me ensinar como elas funcionam. Acho otimo, mas as vezes Camilo exagera. Lembro que quando cheguei em Lyon pela primeira vez, fomos dar um românticuzinho passeio pelas ruas da cidade, quando ele me puxou e falou "vem ver como funciona o sistema de troca de trilhos do tramway". Hum, interessante. Anyway... Pneu trocado, Luci engraxada, partimos.

Depois de pegarmos uma auto-estrada estressante, chegamos à Tarascon. Gente, eu vou dizer uma coisa: a França é véia. A França é véia, entao, quando você ta fazendo turismo, você sai andando e tropeçando nos castelos. Você olha pro lado e "opa! Um castelo medieval", é um barato. 

Um castelo aqui...

Outro acolah... 
Luci, deixe-me ser seu perêncepe


Indo para o camping, encontramos essa praça e uma grande movimentaçao (reparem no homem de azul coçando suas sarnas).


Era um daqueles espetaculos com touros pros machos da cidade se exibirem e mostrarem o quanto sao... bravos e corajosos? Cada vez que algum deles conseguia tocar no touro, eram aplaudidos. Tocar é facil. Queria ver dar beijinho. 


Nosso camping ficava atras dessa belezura




A rua dos apaixonados - com um pequeno erro ortografico

(Fim do primeiro ato).

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Fila da mae (ou trocadilhos a se evitar)


Todos os anos, eu - e outros milhares de estrangeiros - preciso renovar meu titre de sejour, o documento que permite que eu viva e trabalhe na França. E a cada ano que passa, esse procedimento se torna cada vez mais dificil de ser feito. Ano passado, incluiram como parte obrigatoria do processo a presença do marido/esposa francês na Prefeitura. E, ha alguns meses, um dos meus colocs, originario da Ilha Mauricio, disse que a Prefeitura decidiu limitar a quantidade de estrangeiros atendidos e passou a distribuir apenas duas centenas de senhas por dia. Isso fez com que as pessoas passassem a chegar cada vez mais cedo na fila. Resultado: à 1h da manha, ja tem gente fazendo fila na calçada da Prefeitura. Detalhe importante: o expediente começa às 9h da manha. 

Vocês podem imaginar o tamanho da minha felicidade quando ouvi isso. Sobretudo, porque meu titre expiraria dentro de algumas semanas. Quando a data se aproximou, preparamos a papelada e fomos super satisfeitos, às 4h da manha, fazer o que o ser humano mais gosta de fazer: fila. 

Peguei minha bicicleta (afinal, o metrô nao funciona a essa hora) e fui à Prefeitura. Pelas minhas toscas contas, ja havia umas sessenta pessoas na minha frente. Camilo, zumbi, chegou meia hora depois. A chuva começou. 

Personagens em volta: cinco homens arabes de jaqueta preta falando merda na minha frente. Uma jovem arabe, que tava sendo violentamente cantada por outro arabe que tava atras dela, e um velhinho caquético que eu nao sei bem onde estava. Mas ele parecia ta morrendo.

A noite foi indo embora, a chuva enfraqueceu, as pessoas foram chegando. A conversa entre os arabes era animada e de vez em quando alguém saia da fila pra comprar café. O arabe deu tanto em cima da menina que escutei num momento dela: "olha, você ta me constrangendo, eu tenho namorado". Ele dizia sorrindo: "mas eu nao me importo". Mas a menina era bem simpatica e nao se importou com as investidas, conversou com ele a manha inteira. Eu, morta de tédio, prestava atençao em tudo pra me distrair. Depois aconteceu o que todo mundo sabia que ia acontecer em alguma hora: uma briga. Minha gente, a fila da Prefeitura é mais tensa que roleta russa. Basta alguém dar um passo em falso, literalmente, que a confusao começa. 

O sol apareceu. Seis, sete da manha. O arabe deu um beijo no braço da menina. O velhinho pediu pra eu avançar. O casal atras de mim começou a falar espanhol. Oito horas da manha e varios palavroes na minha cabeça. 

Algum tempo depois, uma velha com seu filho adolescente, pediu pra que abrissem a grade de ferro que define a fila pra que ela entrasse. As pessoas costumam entrar e sair da fila  pra substituir algum parente que esteja cansado de ficar em pé, por isso, ainda que desconfiados, deixaram a velha entrar. O problema é que ela nao estava ali pra substituir ninguém, ela estava ali pra fazer o que NINGUEM, nem mesmo uma velhinha, poderia ousar fazer nessa situaçao: furar fila.

PAM RAM RAM RAAAAAAM!

E na frente de quem ela decidiu ficar? Na minha frente, pessoas. Na-mi-nha-fren-te! Ela entrou na fila e disse "é que eu tou esperando meu outro filho que ta la na frente", aih ela deu um xauzinho la pra frente pra alguém. Soh que esse alguém nao existia! Ela acenou pra nuca das pessoas, porque ninguém respondeu ao aceno. E o Oscar de melhor atriz vai para… 

Meus amigos, vejam bem. Eu sou uma pessoa otaria. Levo desaforo pra casa, nao sei dizer "nao", perco certas oportunidades de falar o que penso etc e tal, mas essa velha despertou meu lado Hulk e, quando eu me dei conta da situaçao, peguei ela pelos bigodes e a arremessei no chao eu perguntei a ela o que ela tava fazendo ali e chutei a cabeça dela quatro vezes pedi gentilmente pra ela ir encontrar o tal filho dela na fila. Como ela ficou enrolando, eu entrei na frente dela e comecei a dizer que eu nao tinha chegado ali às 4h da manha pra que alguém viesse pegar meu lugar e bla bla bla. Pra alguém banana, timida e travada no francês como eu, foi um grande feito. Eu merecia um biscoito.

A pilantra ainda tentou sustentar toda aquela farsa imunda mandando o filho dela procurar pelo suposto irmao, mas o menino era meio atrasado mentalmente porque nao captou bem o que a mae tava tentando fazer e voltou de uma breve procura na fila dizendo "maaaae, eu acho que ele ta em casa mesmo, viu". Game over, dona Maria! As pessoas atras de mim ja tavam com foices e tochas na mao, prontas pra caçar a véia. Ela acabou saindo da fila gritando "minha vingança sarah maligrina!"

Teve um momento em que um passarinho pousou no chao e os arabes enjaquetados gritaram "sai da fila!" hihihi (eu ri!). Quando finalmente deu 9h da manha, e todas as minhas varizes ja gritavam aflitas, a Prefeitura abriu. So que, a essa altura, nao existia mais uma fila definida. A arabe, o arabe, o velho, o casal e outras pessoas estavam ao meu lado, a fila tinha se compactado e ninguém sabia direito a ordem dela. Mesmo debaixo da desordem, conseguimos entrar e pegamos o ticket numero 100. 

Entrei no prédio e me deparei com uma luz muito forte vindo do final do corredor: eram duas cadeiras vazias. Cadeiras, minha gente, cadeiras! Vi que havia duas pessoas se aproximando delas, entao, rapidamente, fiz uso das minhas habilidades na arte do tae kwon do para neutraliza-las. Depois de conseguir os tickets e as cadeiras, a segunda metade do dia foi facil: soh precisamos esperar mais cinco horas até sermos atendidos. Em cinco minutos, a moça simpatica do guichê deu andamento no meu novo titre e disse "volte em três meses pra pegar o documento definitivo". Com prazer. 


Talvez

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