quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Berlim - parte II - lingua, bicicletas e amores

Mais sobre a nossa viagem à capital alema. 

Da (des)orientaçao:

Senti o peso (de novo!) de estar num pais cujo idioma eu nao domino ja nos primeiros minutos em solo alemao. Precisavamos pegar um ônibus, mas as placas me eram indecifraveis. Minha sorte é que eu tenho um namorado orientado, desenrolado e sabido todo ao meu lado. Sério, minha gente, deixa eu babar um pouquinho o amado agora. Acho impressionante o senso de direçao de Camilo. E nao é so porque eu sou uma toupeira nesse assunto. A gente mal chegava nos lugares e ele ja sabia qual o metrô certo, quanto custava o bilhete, a direçao das estaçoes, as ruas, os bairros etc. Eu perguntava aflita se ele sabia pra onde a gente tava indo e ele respondia malandro: "relaxa, meu bem, eu tou em casa". Hahaha Lindo!

E o inglês? Antes de chegar na França, eu nunca tinha ousado falar uma frase em inglês (ok, também nunca tinha precisado). Mas o que é a necessidade, nao é mesmo, meus amigos? Cheguei na França e comecei a usar um inglês que eu nem sabia que tinha! Mas bastou me concentrar no francês e agora eu sou incapaz de ter êxito numa frase em inglês. Sempre sai uma coisa cagada tipo "I would like to parler avec vous". A minha sorte (é, eu sou uma garota de sorte) é que ficamos na casa de uma francês em Berlim e, em Praga, na casa de um senhor que entendia francês, do contrario, eu passaria duas semanas muda.

Feuerwehrzufahrt. Ou seja, "oi".

Do lazer:

Os berlinenses parecem nao se importar com o fato de nao terem praia. Pelo menos tem saidas bem interessantes pra contornar a falta de mar. Nas beiras dos rios, essas cadeiras de praias sao postas e o povo fica ali, na maior tranquilidade pegando um solzinho. No momento da foto abaixo, um nubladinho.



Essa foto acima foi tirada perto do Checkpoint Charlie (explicaçoes mais adiante). Era um cercado com areia e cadeiras de praia no meio de uma avenida movimentada, um pequeno refugio no meio da cidade. O achamos bem por acaso. E alias, achamos outros lugares assim, por acaso, dando uma olhadinha aqui e ali. Adorei os bares de Berlim! Contei mais de dez bares visitados e posso dizer que amei a todos, todos criativos, a maioria com grande espaço a céu aberto, com decoraçao em madeira, super arborizado. Eh uma pena que eu nao tenha tirado mais fotos pra mostrar a vocês.


Esse é um bar à beira do rio Spree, perto do Muro. Em Berlim tah rolando uma polêmica que ja dura alguns anos sobre a ocupaçao dessa area da foto acima. Ha uma infinidade de bares parecidos com esse na beira desse rio que esta prestes a desaparecer graças a um projeto do governo, o Media Spree, que visa a construçao de varias empresas de grande porte nessa area. A area é do governo, mas é inegavel a importância desses bares, nao soh pros seus donos, mas pra vida cultural da cidade. Achei uma pena, espero que dê tudo errado :D


Da comida:

Como eu ja disse, francês é um povo muito saudavel e, depois de visitar Berlim, essa impressao soh aumentou. Eu tava completamente desacostumada a ver gente acima do peso. Mas também, pudera!, a cada dois metros tem alguém vendendo comida gordurosa. E barata. Minha gente, o Kebab em Berlim custa DOIS euros. E o melhor de tudo: tem cara de comida, nao é como o Kebab francês: é barato, o molho é uma delicia e a salada vem em quantidade generosa. Foram os melhores Kebabs provados. Mas quem quiser comer o hamburguer perfeito, vai no Burgermaister. Juro que foi o melhor hamburguer que ja comi na vida. Você come meio triste porque sabe que uma hora ele vai acabar.

Do meio ambiente:

Quem vai a Berlim pode também se impressionar com duas coisas: a quantidade de arvores e de bicicletas. Mesmo dentro da cidade, em meio à loucura dos carros, tudo é arborizado, lindo. E ha bicicletas por todos os lados, numa quantidade muito maior que em Lyon (e olhe que em Lyon a tradiçao de usar a bicicleta é grande).


Do transporte:

Nico, nosso anfitriao, nos aconselhou a alugarmos duas bicicletas, mas o preço era meio salgado: uma semana de locaçao por 40€ por pessoa. Como eu sou uma pessoa meio... desempregada, preferi pegar o bilhete de metrô que custa 25€ (por pessoa) pelo mesmo periodo. O bilhete de metrô custa 2,60€. Nao que isso devesse interessar, mas nas estaçoes de metrô nao existem catracas, no entanto, os controladores estao por aih pra manter a ordem e a lei, amém, através de suas multas (40€).

Dos pontos turisticos:

Como é impossivel falar de todos os lugares dos quais visitamos (impossivel = estou com preguiça) vou postar algumas fotos de alguns lugares visitados com comentarios superficiais. O Wikipedia esta do seu lado.

Igreja Kaiser-Wilhelm Gedächniskirche. Foi bombardeada e permanece assim desde 1943. Nao foi reconstruida pra que servisse de lembrança da Guerra. No entanto, uma nova igreja, super moderna, onde os padres rezam de sunga preta (brincadeira), foi erguida ao lado. Mais sobre a igreja aqui.


Toda cidade que se preze, tem uma construçao falica. Aqui, a Torre de TV e seus 368m. Enooorme.


A maior catedral de Berlim: Berliner Dome (inicio do século XX).


Altes Museum. Segundo o Wikipedia, "o maior e mais importante museu do mundo no campo da arte antiga da Grécia, Roma e Etruria". Agora, uma bala na testa por soh estar sabendo dessa informaçao agora.

Altes Museum ontem


O Checkpoint Charlie era um dos pontos de passagem do Muro entre os setores americano e soviético. Controlado, é claro. Parada obrigatoria pra quem vai a Berlim. O Museu do Muro fica logo ao lado e, claro, temos o McDonalds ao fundo.


Outro museu fantastico: Topografia do Terror, logo ao ladinho do Muro, no terreno em que ficava o escritorio principal da Gestapo. Tem uns paineis incriveis com fotos, documentos e textos sobre as barbaridades nazistas. Entrada gratuita.


Memorial do Holocausto, homenagem aos judeus mortos.


Portao de Brandemburgo, visita indispensavel, palco das manisfestaçoes quando da queda do Muro.


E, claro, o MuroAh, e fiquei chocada quando vi numa lojinha de souvenirs pedaços do Muro à venda. Um pedaço que media um palmo por uma bagatela de... 40€. Depois entendi que aqueles troços que vinham pregados nos cartoes postais eram, na verdade, pequenos pedaços do Muro. Quem garante a originalidade? Prefiro investir meu dinheiro de outra forma.


Seguindo a dica de uma leitora, a Lu, saimos de Berlim e fomos a Potsdam, uma cidadezinha a 30min da capital. Pegamos emprestado duas bicicletas do cara que também nos cedeu o quarto na casa de Nico e seguimos de trem pra cidade. Tivemos que pagar um bilhete de trem pras bicicletas também, mas nao lembro quanto custou. A cidade é cheia de pracinhas e parques lindos. Na foto, o palacio de verao de Frederico, o Grande, Rei da Prussia. O nome do palacio é Sanssouci ("sem problema").


Fomos ainda no Museu Anne Frank. A entrada custa 5€, mas Camilo dizia que éramos estudantes, entao pagamos meia entrada em uns três museus. Depois dizem que brasileiro é que é malandro. Pobi de nois. Esse museu é minusculo, mas satisfez minha curiosidade. Ja falei o quanto amo a moça aqui


Amei Berlim, sobretudo o Klaus. Querido, se você estiver me lendo, saiba que jamais o esquecerei. Beijos. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Uma... carreira de deputado falida

(Avisando que, desde que eu comprei esta porra de computador que eu nao tenho paz com as ediçoes do blog. Hora a letra fica grande, hora desaparece, as fotos nao ficam onde devem. Entao, desisto! Apesar da agonia em ver as fontes diferentes de um post pra outro, eu desisto). 

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Os dois proximos (e ultimos) posts sobre a viagem à Berlim estao prontos, mas antes de posta-los, preciso falar sobre uma coisa mais urgente: a imbecilidade humana. 

A unica maneira que tenho de ter informaçoes sobre o Brasil é através da internet, ja que mal falo com minha familia ou amigos. Dai, quando leio certas noticias em blogs ou Twitter, fico sem saber se é brincadeira das pessoas ou se a coisa é mesmo séria. Por exemplo, Tiririca na politica e seu bordao "pior que tah nao fica": eu devo acreditar nisso? Eh, eu devo.

Eu adoro o espirito brincalhao do povo brasileiro, o dom de amenizar o peso de qualquer tragédia através de piadas criativas. Mas até onde é direito nao levar a sério também a politica? Até onde é engraçado e permitido?

Aih vem o KLBosta se meter a deputado. Suspiro e me pergunto novamente: é sério? Eh, é sério.  Entao, vejo essa entrevista. Na primeira pergunta, o cara diz que a pedofilia merece ser combatida - e eu me pergunto onde ta a novidade. Na segunda pergunta, o cara ja começa a cagada: "familia é pai, mae e criança, como Deus criou". Otimo, traumatizemos nossos filhinhos: se você nao tem pai ou mae, você nao tem familia, viu? (E olha que eu vou me furtar de comentar o "como Deus criou").

Aih vem a parte que eu AMEI: sobre a descriminalizaçao das drogas.

Kiko: Quem fuma maconha é um p. de um burro, que esta queimando o proprio cérebro - nao sei vocês, mas fico feliz de poder sonhar com um candidato que tem essa postura de chamar o usuario de drogas de "um puta de um burro".  Excelente.

Leandro: Sou definitivamente contra. (...) Me diga uma coisa: imagine que as drogas fossem legalizadas. Dai você um dia precisa viajar e vai tomar um aviao e vê que o piloto esta cheirando uma carreirinha de cocaina. Você entraria nesse aviao? Porque é isso que vai acontecer. 

Minha gente, eu ri alto. Ri alto porque, né, até parece que o piloto que é usuario soh nao cheira no trabalho porque a droga nao é legalizada no pais. Meu Deus! Ele nao cheira pelo mesmo motivo pelo qual nao chegamos bêbados no trabalho mesmo com o alcool sendo legalizado. Questao de bom senso. Por essa linha tosca de raciocinio, "nosso" candidato à deputado deve defender que camisinhas nao devem ser distribuidas nas escolas publicas pelo risco de incentivarem adolescentes ao sexo. Acredite, quem nao fuma maconha, nao vai começar a fumar graças a descriminalizaçao. E quem fuma maconha vai sempre fumar maconha, com ou sem incentivo, dentro ou fora da lei. E os jovens vao continuar trepando, com ou sem camisinha. Ignorar isso soh vai tornar mais despendioso a resolucao dos problemas que chegam por tabela. 

E, pra finalizar com chave de ouro: o aborto.

Kiko: Eh logico que é crime. Aborto é homicidio, como nossa musica (ok, ele nao disse isso). A juventude hoje nao esta muito preocupada em ter responsabilidades, so quer curtir. No Carnaval, em vez de incentivo à familia, temos lei de incentivo à putaria - as pessoas nao falam de responsabilidade social, soh ficam distribuindo camisinha e falando de sexo. Nao é assim que funciona.

Eh, a saida é cortar o pinto de todo mundo e acabar com essa, usando o termo utilizado pelo senhor candidato, putaria. Tamo bem servido, viu...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Berlim - parte I - Mercado, pichaçao e museu

Finalmente voltamos de viagem. E, apesar da preguiça monstruosa de escrever sobre o que se passou, vou faze-lo pra evitar que certas lembranças se percam. Lembrando que eu nao sou guia de viagem e, apesar da minha intençao em dar informaçoes sobre as cidades visitadas, a escrita vai girar em torno do obvio: minhas impressoes sobre os lugares e pessoas. Afinal, informacao pratica sobre a cidade, você encontra na internet.

Berlim (12 a 20 de agosto):

Chegamos tarde da noite na cidade e fomos recepcionados por um amigo de Camilo, Nico, que iria hospedar a gente durante toda nossa estadia na cidade. Assim que colocamos as mochilas no chao da sala dele, veio o convite que eu adoro: vamos tomar uma cerveja?

Macaco gosta de banana?

Chegamos à calçada, entramos por uma porta que ficava justo ao lado do prédio, descemos uma escada, seguimos por um corredor e encontramos um bar, assim mesmo, bem escondido. O cara mais discreto do bar tinha uma cartola vermelha na cabeça. As pessoas estavam todas loucas e bêbadas. E cagou quem pensou que isso é obvio, ja que bar é lugar de bêbado: na França ninguém fica bêbado em bar, a nao ser que seja rico (250ml de cerveja a 2,50€, oi?). Portanto, ponto pra Berlim que tem cerveja barata.

A "decoraçao" do bar consistia em um guarda-chuva aberto em cima de uma geladeira, uma garrafa de Pitu (sério!) sobre uma mesa e uma luminaria brega no balcao. Com certo espanto, vi que o tabaco era liberado no pequeno espaço fechado, porque na França... nao é.

Com tanta gritaria, confesso que fiquei um pouco intimidada naquele lugar. Entao, quis logo saber o que Nico poderia dizer sobre Berlim e seu povo. Ele disse que la, as pessoas tem mais liberdade pra fazer o que querem. Se você quiser deixar o seu comércio aberto até as 5h da manha, você pode. Se quiser fumar em lugar fechado, você fuma (com excecao de alguns restaurantes). E que esses tipos de concessoes, ao contrario do que as pessoas pensam, sao utilizados com bastante consciência pelo povo. Na França, por exemplo, nao se pode beber no meio da rua. Em Berlim, apesar do alcool ser liberado, bom e barato, os niveis de violência nao sao grandes e Nico chegou mesmo a dizer que nao lembra de ter visto nenhuma briga durante os seus anos em Berlim. Disse que o povo era muito tranquilo, de paz. A tomar pela Historia, seria um pouco dificil crer nisso. Ainda bem que eu tive a oportunidade de ver com meus proprios olhos o quanto tudo isso é verdade. Duas vezes felizarda.

No dia seguinte, fomos a um mercado turco. Ele era gigante em comprimento, mas pequeno na largura, mas satisfez meu maior desejo de consumo até entao: a compra de um milho. Nao, eu nao sou tao humilde assim. Eh que vocês nao entendem: eu poderia passar o resto da vida me alimentando de frango, milho e batata. Entao, encontrar um milho amarelinho, quentinho e suculento, depois de um ano sem comer nenhum, por um misero euro, me fez muito feliz. Andamos todo o mercado impressionados por nao termos recebido nenhum empurrao ou ter visto gente bufando com a velocidade da marcha.

No final do mercado, uma movimentacao estranha: era o povo - adulto, velho e criança - que tinha parado pra ver uma banda de swing. Outra grande delicia desse dia. A banda era tao competente, apesar do jeito mambembe, que fomos ve-la outra vez na noite do mesmo dia num bar.




Alguns souvenirs da cidade, como camisas e canecas, tem o famoso "I ♥ NY" inscrito, onde o "NY" é coberto pelo nome "Berlim" pichado. A brincadeira tem explicaçao simples: a quantidade de pichaçao nos muros da cidade salta à vista. As paredes, as placas, as latas de lixo, o chao: quase tudo é recoberto de pichaçao, arte de rua. Em outro momento (nos tempo no Brasil), eu nem teria notado isso, mas em Lyon uma pichaçao nao dura muito tempo nas paredes. Outro dia, o grande NIQUE LES FLICS ("fodam-se os policiais") escrito numa esquina daqui durou uma semaninha, mas por la, parece que é estilo de vida:



Outra coisa que me impressionou na cidade foi a qualidade dos seus museus. O primeiro que visitamos foi o Museu da Historia de Berlim, super criativo, organizado e interativo. Dava pra sentir como era viver em cada época retratada, nada daquelas leituras maçantes tipicas dos museus. Otima atividade pras escolas fazerem com seus alunos e os pais, com seus filhos.

O museu começa retratando as três principais religioes existentes na cidade: judaismo, islamismo e cristianismo. Para isso, havia um armario com três colunas de gavetas (uma para cada religiao), que, ao serem abertas, mostravam objetos e simbolos referentes a cada tema ligados aos seus costumes - uma gaveta pro nascimento, outra pra morte, pros hinos, pros livros sagrados, pros lideres espirituais etc.

Pra representar a Primeira Guerra, nada mais eficaz que um cemitério e videos sobre o assunto. Nos anos 20, época de grande desenvolvimento econômico, réplicas gigantes de maquinas fotograficas, carros e um pequeno cinema instalado onde trechos de filmes alemaes eram exibidos. A sala que eu mais gostei foi uma que representava a louca vida industrial: sala escura com caixas de som reproduzindo o barulho das maquinas. Ao chegar perto das maquinas em exposiçao, o chao tremia, fazendo o visitante sentir como era o desconforto e a vida estafante dentro das industrias berlinenses.


Maquinas

A proposta inicial era imitar um trabalhador batendo ponto,
morto de sono. Mas saiu uma coisa meio... débil mental. Falhei.

Fotos de celebridades alemas. A medida em que iamos
descendo as escadas,onde as fotos estavam instaladas,
certas pessoas iam sumindo,tendo suas fotos substituidas por um
papel onde se lia "morto", "desaparecido" ou "preso".

Na época da Guerra Fria, a representaçao de uma tipica sala
de estar do ladooeste do Muro com sua TV à cores,
seu radio e seus moveis "modernos".

Do lado leste, o modesto

Ambas as salas divididas pela ameaça de uma guerra nuclear

E por falar nisso... O melhor foi realmente a visita a um abrigo nuclear que fica a alguns metros do Museu (cuja visita guiada é gratuita). O bunker foi construido em 1974 e tinha capacidade pra abrigar 3000 pessoas. Mas aih vem os problemas: o abrigo, na verdade, era um estacionamento e, caso houvesse um ataque nuclear, levaria-se pelo menos uma semana pra retirada completa dos carros e mais uma segunda semana pra organizar a provisao de comida. Algo me diz que, depois de duas semanas expostas aos efeitos de um ataque nuclear, as pessoas nao iam precisar de um abrigo. Mas acreditava-se que bastava um banho pra que a pessoa contaminada pudesse se juntar à gente saudavel que, por ventura, ja se encontraria no bunker.

Dormitorios

Cozinha

E os problemas continuam:

- Caso as camas estivessem armadas, nao haveria espaço pra caminhar dentro do abrigo;

- O gerador de eletricidade tinha capacidade pra funcionar apenas durante uma semana;

- O fim da eletricidade impossibilitaria o funcionamento do sistema de troca de ar com o exterior e, como a humidade no bunker chegava a 90%, as doenças se propagariam rapidamente;

- O unico espaço reservado pra que os doentes ficassem separados das pessoas saudaveis era na sala onde se planejou colocar os (provaveis) mortos.

- A comida duraria em torno de uma semana;

- Caso houvesse mesmo uma bomba, ela nao poderia cair proximo ao abrigo e ainda deveria ter o impacto inferior ou igual ao de uma bomba antiga, como a de Hiroshima - o que eu duvido muito que seria o caso. Somente assim poderia-se esperar por sobreviventes

Viva a privacidade

`A parte de tudo isso, eu penso no terror psicologico pelo qual iam, inevitavelmente, sofrer essas pessoas. Provavelmente, elas iam surtar antes mesmo que as provisoes de comida e a eletricidade acabassem, afinal, imagine você ter que viver, cotidianamente, diante da ameaça constante de uma guerra nuclear e depois, ter que dividir um espaço abafado e escuro com 3000 desconhecidos, por sabe-se la quanto tempo, onde o maximo de atividade seria dormir (sem nenhum conforto ou tranquilidade) e ouvir o tempo todo sobre os medos alheios. Nao pude deixar de lembrar de "Ensaio sobre a cegueira".


Essas maletas penduradas sao a representacao de uma historia que as maes contavam pra acalmarem seus filhos. Na epoca, elas diziam que, caso houvesse um ataque nuclear, bastava que as crianças colocassem suas maletas sobre suas cabeças que elas estariam protegidas.

Ainda no Museu, o labirinto pelo qual vai seguindo o visitante, passa por reproduçoes de ruinas da cidade à época da Segunda Guerra e videos reais dos sobreviventes andando pelos escombros. Eh de passar mal. A visita segue mostrando a diferença entre as duas Berlins divididas pelo famigerado muro. E como a visita termina? Desembocando propositalmente numa superloja de souvenirs, onde soh ha espaço pra uma coisa: o consumo.

Endereço: Kurfürstendamm, 207-208
Horario: Aberto diariamente das 10-20h (ultima entrada às 18h)
Ingresso: 10€. 8€ estudante

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Update: quer ler bons posts sobre Berlim? Ela é americana: parte I e parte II

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

03. Do que é diferente - Kebab


Uma das comidas mais populares aqui na França é o Kebab (no Brasil, conhecido como churrasco grego. Quer dizer, em algumas partes do Brasil, ja que eu jamais ouvi falar em churrasco grego na minha vida). Curiosamente e, como o nome sugere, o Kebab nao é uma comida francesa, mas de origem arabe. E, como os arabes andam aos montes por aqui, a comida se tornou popular (existindo, inclusive, em muitos outros paises europeus). O prato, originalmente, era comida dos reis persas. Os iranianos soh consumiam uma vez ao ano. Na França atual virou fast-food e todo mundo consome, do francês do nariz mais arrebitado à brasileira mais faminta.

Grosseiramente falando, Kebab é um pao com carne, salada e molho que pode vir acompanhado de fritas. Notou alguma semelhança com o que você ja comeu no Brasil? O Kebab é um troço enorme, que mata a fome de qualquer elefante por preços que variam entre 4€ e 7€ o menu (kebab + fritas + refrigerante). A carne (de boi, cabra, carneiro, cordeiro ou frango) é preparada na vertical, num espeto que fica girando proximo a uma grelha. Depois, pequenos pedaços sao retirados com facas enormes - ou eletricas, que garantem fatias mais fininhas.


Os molhos sao o que me fazem notar a diferença entre um hamburguer brasileiro e um Kebab. Curry, tartare, picante, branco e por aih vai. Todos uma delicia! Peço sempre o branco, porque um dia pedi um picante (sem saber do que se tratava, claro) e passei 20 min com a sensaçao de estar mastigando um pedaço de brasa. Em cada esquina do Brasil tem um lugar onde se vende coxinha, pastel, hamburguer e pizza a preços acessiveis. Na França, se você esta fora de casa, tem fome e pouco dinheiro, o Kebab é a unica solucao. Os menus nos restaurantes nao custam menos de 8€. E se você tem pressa... O melhor sao os nomes que qualificam os diferentes tipos de Kebab e molhos. Senjeh, Bareh, Koobideh. Nao é a toa que eu sempre deixo Camilo fazer o pedido: pedir comida arabe com sotaque francês nem sempre é obvio.

sábado, 14 de agosto de 2010

Inutil, a gente somos

Esse é um post pra enrolar vocês enquanto viajo (espero que funcione). Chegamos em Berlim na quinta-feira, super cansados e ainda tivemos a noticia do nosso anfitriao de que nao poderemos nos hospedar durante a semana na casa dele como haviamos combinado, porque seu coloc (figura que divide apartamento) queria "ficar tranquilo". Precisariamos mais do que isso pra nos desanimar. O tempo tah horrivel, mas a cidade é linda! Comento sobre ela depois. Por enquanto, fiquem com um post programado. hihi

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Rita postou outro dia um desafio que viu num blog que consiste em pedir pro blogueiro responder a sete topicos:

1. Meu primeiro post;
2. O post que mais gostei de escrever;
3. Um post que deu origem a um excelente debate;
4. Um post publicado em outro blog (nao o meu) que eu gostaria de ter escrito;
5. O meu post mais util;
6. Um post com um titulo do qual eu estou orgulhosa;
7. Um post que eu gostaria que tivesse sido lido por mais pessoas;

Como eu ja disse nesse post, eu adoro questionarios, enquetes e qualquer coisa dessa natureza. Entao, claro, me empolguei com esse, apesar de nao ter sido facil responder às perguntas, visto que meus posts nao deram origem a "excelentes" debates ou que eu nao me sinto necessariamente "orgulhosa" por nada que escrevi, mas bora lah, o que importa é o amor. Quer dizer, a intençao. E o amor também.

1. Meu primeiro post: a parte mais complicada de se fazer numa redaçao, numa carta ou num trabalho acadêmico, pra mim, é sempre o começo. A primeira linha, a primeira idéia. Nao foi diferente com o primeiro post do blog. Mas é por causa dele que vocês estao aqui.

2. O post que mais gostei de escrever: deve ter sido este aqui, feito no Brasil ha alguns meses. Naquela época, eu estava me contorcendo de tristeza e saudade dos meus amigos, entao, a sensaçao de poder escrever pertinho deles foi de (extrema) felicidade.

3. Um post que deu origem a um excelente debate: lembrei automaticamente desse post que fiz ha poucas semanas sobre vaidade. Nele, eu dizia que me sinto menos pressionada pra estar sempre impecavel, ja que na França as pessoas se importam menos com a aparência alheia - sem contar o apoio do namorado que gosta de mim mesmo quando nao tenho as unhas pintadas, olha, que beleza! Nao soh todas as blogueiras preferidas participaram, como teve referência ao meu post em blog de gente que se incomodou com minha felicidade. Entao, posso dizer que esse post rendeu muito assunto.

4. Um post publicado em outro blog (nao o meu) que eu gostaria de ter escrito: faço das palavras da Rita as minhas: eu poderia citar muitos posts pra responder a essa questao, mas, finalmente, pensei num post da Helena (que, sorry, nao esta em português) e que me marcou nao soh pela beleza do que foi escrito, como por ter sido um dos primeiros textos em francês que li e entendi. Entao, se eu tivesse sido a autora de um post daquele porte, eu estaria muito feliz.

5. O meu post mais util: a minha primeira pergunta ao ler esse quesito foi: util pra quem? Porque se eu fizesse um super post sobre como funciona a burocracia francesa em relaçao aos papeis necessarios para se viver aqui, ele nao seria muito interessante pra maioria dos leitores. Mas como todo mundo nessa vida ja viajou, pelo menos uma vez, acredito que o post sobre o Couchsurfing tenha sido valido. Ao menos pra mim é uma forma brilhante de se viajar. Faremos uso do sistema, mais uma vez, na viagem à Praga e eu nem saberia dizer quantas centenas de euros eu e Camilo economizamos viajando atraves do Couchsurfing.

6. Um post com um titulo do qual eu estou orgulhosa: de novo: "orgulho" nao é bem o que sinto porque nao foi a coisa mais criativa do mundo, mas cito o titulo de um post em que falava do meu trabalho como faxineira: "Dignamente de quatro". Afinal, o emprego de faxineira nao é o mais cobiçado do mundo, mas foi justamente ele que me garantiu casa, comida e roupa lavada durante meses (alias, pra mim e pras pessoas pras quais eu trabalhei! Hihi)

7. Um post que eu gostaria que tivesse sido lido por mais pessoas: (ah, como eu nao poderia perder a oportunidade de sacanea-lo mais uma vez...) Gostaria que a sessao fotografica de um grande amigo fosse vista por muito mais gente. Afinal, foi um trabalho de arte que merece ser contemplado durante muito tempo. Disso aqui, nasceu a tag "nao se reprima". Merci!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Férias

Bom dia, passarinhos! Bom dia, sol! Bom dia, aranha do canto da parede!

Pois é, minha gente, hoje eu acordei no modo princesa da Disney. Porque os ultimos dias foram muito bons e os proximos prometem.

Quando fiz aniversario, os pais do guri me deram um cartao-presente no valor de 25€ de uma loja daqui que se chama Fnac. Eh uma loja que vende de computador à livro. O cartao pode ser utilizado em até um ano, entao fiquei esperando uma boa oportunidade pra usa-lo. Foi quando, no dia seguinte a esse post sobre Carmen Maria Vega, uma amiga disse que haveria um show dela em Lyon. Coincidência? Pouco importa. Na Fnac tinha ingresso (24€) e, na noite do 19 de novembro, estarei, espero, feliz da vida vendo o show dela!

Agora, vou contar meu drama. Segurem os coraçoes.

Quando Camilo foi contratado, a empresa deu a ele um computador, entao, pude usar o outro que ele tinha. Um dia, o pobrezinho morreu (o computador). Como seres humanos de classe media, nos dias de hoje, nao conseguem viver bem sem um computador, fui no fundo do guarda-roupa e desenterrei um antigo que um amigo tinha me dado. Ele pretendia joga-lo no lixo, mas resolveu perguntar se eu tinha interesse nele. Entao, da pra imaginar o naipe da maquina, né? Era ligar e deixa-la por longos minutos a fim de que ela começasse a esquentar e funcionar. A lentidao do negocio testou minha paciência por meses a fio. E acho que sou um ser humano melhor graças a todo sofrimento vivido nesses ultimos tempos em frente daquele computador que, como se nao bastasse, nao tinha saida de som. Ou seja, nada de musica, filme ou Youtube. Cansada dessa vida, peguei meu ultimo salario e torrei num computador. "Felicidade" é pouco pra descrever o que eu sinto nesse momento. Ganhei horas de vida.

Agora que ja fiz vocês se emocionarem, vou pro real motivo do post. O senhor meu marido e eu, partiremos de férias pra Berlim e Praga. Como a gente nao conhece nada de porra nenhuma, queria saber se vocês, leitores, poderiam dar dicas a gente ou indicar algum blog de quem ja foi. E aproveito pra avisar que talvez o blog fique meio abandonadinho por esses dias, mas contarei tudo da nossa viagem pra vocês. Beleuza?

Xau, passarinhos!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

02. Do que é diferente - Boulangerie


Boulangerie

Um pais que é mundialmente conhecido pela sua gastronomia, não faria feio dentro das suas padarias. Esqueçam as do Brasil, com suas moscas dentro dos mostruarios, onde se vende de loteria à agua sanitaria. E esqueçam também essa de "pão francês". Aqui não existe isso. O pão popular aqui é a baguette, que existe na forma tradicional (parecido com o pão francês do Brasil), mas que também é encontrada com nozes, milho ou frutas. Eh uma delicia. A baguette simples custa em torno de 1€ e é vendida enrolada num papel.

Mas nem soh de baguette vivem as padarias francesas. Uma boulangerie, geralmente, também é uma patisserie, ou confeitaria. Então, além daqueles pães lindos, polvilhadinhos de trigo, você encontra doces que te engordam soh de serem apreciados com os olhos. Da mesmo prazer entrar numa padaria aqui. Sao extremamente limpas e organizadas. Imagino que seja um dos negócios mais lucrativos a se ter, porque o pão aqui não é consumido somente no café da manha, mas em qualquer refeição, mesmo durante o almoço. E ja cansei de ver filas nas calçadas nas padarias mais concorridas daqui.

(E como padaria tem a ver com café da manha...) No Brasil, meu café da manha consistia, geralmente, em um prato de cuscuz, ou de inhame, ou de macaxeira. Pra beber, um suco ou achocolatado. Como vocês podem imaginar, encontrar inhame por aqui nao é a tarefa mais fácil, entao, fui sendo, aos poucos, introduzida ao café da manha francês que consiste, geralmente, em torradas com camadas de geleia e manteiga no mesmo pão, croissants, também com geléia e, pra beber, um chazinho. Cha, pra mim, era agua suja. Hoje em dia sinto falta do produto quando a caixinha de chá esta vazia.

Geralmente cada delicia dessa da foto custa em torno de 2€ (o que eu acho caro hihi). Então, como eu sou pobre, eu adoro seguir Camilo quando ele vai numa padaria soh pra ficar paquerando os doces. As vezes eu faço um olho bem grande pra ver se ele tem pena de mim e compra alguma coisa. Raramente funciona.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Olhai meu guri!

Aqui na França, a graduação dura somente três anos, o que facilita muito a vida dessa gente. A inglesa que mora comigo, e que fez seus estudos na França, completou 24 anos em maio e ja esta no primeiro ano do doutorado. Eu, por outro lado, vou andar de marcha ré e voltar pra graduação. Fui aceita no terceiro ano do curso de Historia, na Lyon 2 - como se cinco anos não tivessem sido suficientes. Sei que pareço um pouco negativa dando essa noticia, mas tou satisfeita ja que agora vou ter a oportunidade de conhecer gente nova, melhorar meu francês, ter as vantagens de ser estudante, ganhar um diploma e, principalmente, estar em contato com as professoras do meu sonhado mestrado. Mas não é sobre nada disso que quero falar, na verdade. Dei essa noticia somente pra dizer que hoje foi, ao que tudo indica, meu ultimo dia de trabalho como baba do guri.

Primeiro, porque eu vou viajar com Camilo até o final de agosto. Depois, porque as aulas começam em setembro e, como ainda não conheço meus horarios na faculdade, fica dificil me comprometer com a familia do guri. Mas que aperto no coração! Na semana passada, quando decidi que ia me demitir, chorei no parque enquanto o pequeno corria pra la e pra ca. E, soh de pensar, ja tou com vontade de chorar de novo!

Foram somente três meses, mas esse cargo me fez refletir tanto sobre mim! E, claro, sobre os outros também. Gosto da forma com a qual os pais o educam e gostaria de praticar algumas coisas com meus filhos (caso eu decida ter algum). O guri jamais come sal, açucar ou manteiga; vai ao parque varias vezes ao dia; não assiste televisão; mesmo tendo somente um ano de idade, ele faz cocô no peniquinho pelo menos uma vez ao dia (gostaria de usar "cocô" no diminutivo também, mas merda de elefante perde em tamanho praquilo); tem milhões de livros (e prefere eles aos brinquedos); os pais falam com ele como se ele fosse um adulto - no sentido de explicar as coisas. Vejo no parque as crianças dos outros tomando coca-cola, quando ainda nem largaram a chupeta. Dai, tenho orgulho do "meu" filho.

Eh otimo vê-lo crescer. Lembrar que, quando eu cheguei, ele preferia engatinhar à andar e que hoje ele corre por aih. E a gente começou a fazer um monte de coisinhas juntos, coisinhas idiotas, mas que são nossas, como quando ele mostra os dentes: é pedindo pra que eu morda os dedos dele. Eh, é bizarro, mas ele faz isso todo dia. Todo dia eu mordo, todo dia ele sente dor e todo dia ele pede de novo. Eh lindo! Os pais disseram que esperam que eu tenha tempo entre as aulas pra continuar com eles. Eu também espero isso. Se não der, eu vou morrer de saudade!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Hay que faxinar, pero sin perder la coluna jamás!

(Post escrito no 27/07/2010)

A gente vai crescendo e vai descobrindo cada coisa bizarra sobre si mesmo que da até medo. Hoje eu descobri: eu gosto de fazer faxina. E pior, quando a casa tah BEM podre. A casa dos meus pais sempre foi limpa graças à minha mãe, então, nunca me preocupei com esse quesito, ja que era minha mãe que regia tudo e dava as ordens de limpeza aos filhos. So que filhinha saiu da casinha de papai e mamãe e agora é que eu posso realmente avaliar minha capacidade de organização.

A cada dia que passa, fico mais obsessiva com a arrumação do quarto, mas de uma forma saudavel (alguma obsessão é saudavel?): deixo a bagunça rolar solta e depois arrumo tudo. Desde os tempos em que trabalhei de faxineira, vim notando um grande prazer em ver o resultado final da faxina. Detestava trabalhar nas casas em que não havia um traço de poeira: no final da faxina, a casa parecia estar na mesma. Claro que nem sempre foi assim e é justamente por isso que me surpreendo.

Antes, a idéia de fazer faxina me revoltava por eu ver que era um trabalho mais ligado às mulheres. Tem uma comunidade no Orkut que se chama, se não me engano, "eu não sou prendada", ou coisa que o valha. Não procurei, mas duvido que tenha uma comunidade "eu não sou prendado", porque, né, não é mesmo de se esperar que o homem seja dotado de qualidades domésticas.

Hoje fiz uma faxina na cozinha que durou exatamente cinco horas e meia. Você não leu errado. Essa longa duração nem se deve tanto ao fato de eu gostar de fazer faxina. Acredite, não chega a tanto, mas quem viu o estado da cozinha antes da limpeza entende porque eu levei horas pra limpar um espaço tão pequeno. Limpei todos os armarios, separei por tamanho os saquinhos de tempero, rearrumei o espaço das panelas, aspirei todos os cantinhos, limpei as paredes e o teto, lavei os três baldes de lixo (o do composto, o da reciclagem e o normal), limpei a geladeira, limpei o microondas e, finalmente, limpei toda a pia e chão (a parte mais nojenta): cinco horas e meia e quilos de lixo. Ao final, acho que levei o dobro do tempo contemplando a cozinha. Recebi os parabéns do pessoal que mora comigo umas cinquenta vezes.

Pro meu bem-estar, ja separei a idéia de arrumação/faxina à submissão feminina. Penso que essa mania de limpeza, nunca antes suspeitada por mim, vem do fato de eu ter morado numa casinha limpa durante a maior parte da minha vida. E agora, nesse chiqueirinho em que vivo, me vejo muitas vezes angustiada por não conseguir entender como as pessoas não se importam quando o banheiro começa a feder a xixi. Então, fico no dilema: se eu limpo, podem relacionar isso a uma obsessão feminina pelos serviços domésticos. Se eu não limpo, vocês ja sabem. Além disso, não quero que o pessoal relaxe achando que eu sou a faxineira oficial da casa. Mas quando o estado é critico, como o de hoje, me dou ao trabalho de faxinar e, depois, me dou ao direito de curtir o resultado sem nenhum tipo de peso na consciência de ordem ideologica. Mas diminuir a auto-vigilância? Nunca.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Vida ferrada

Fim de semana do 10/11 de julho:

Nesse fim de semana, tanto Camilo quanto Diana iam viajar, por isso, aceitei o convite de Sonia que me chamou pra fazer a Via Ferrata com seus amigos. Pra quem não sabe do que se trata, a Via Ferrata é um caminho que se faz entre as montanhas com a ajuda de cabos, cordas e presas fixadas à montanha.




Como eu sou um poço de coragem, senti frio na barriga soh de ver as fotos do manual. O que também contribuiu pro desconforto, foi ver os niveis de dificuldade das vias que o pessoal iria fazer: Dificil, Super dificil, Extremamente dificil. Sérissimo, não havia nenhuma facil. Então, eu disse que topava acampar com eles, mas que deixaria pra fazer a Via quando eu virasse passarinho. E la fomos.

O plano era acampar, na sexta, à beira do Lac Aiguebelette (que fica aproximadamente a 1h30m de Lyon), fazer uma trilha no sabado e a Via no domingo. Partimos na sexta e armamos as barracas à beira do tal lago. No dia seguinte, acordei porque a natureza estava me chamando: hora de ir ao banheiro. Acampar é otimo, mas a hora de ir ao banheiro é sempre muito tensa. Aproveitei que todas as pessoas estavam dormindo, me enfiei dentro de uma floresta e procurei um lugar seguro. Mas o que é um lugar seguro quando você sai da vista dos seres humanos e vai de encontro às teias de aranha? A medida em que eu ia adentrando o terreno, as vozes iam ficando cada vez mais distantes e os zumbidos dos bichos iam ficando cada vez mais fortes. Cheguei a ver um mosquito do tamanho de uma galinha. Medo. Finalmente, encontrei um lugar e, toda desconfiada, fiz meu pobre cocô. Foi aih que uma abelha picou meu pescoço. Claro, ela não podia ter escolhido outro momento, esperado que eu finalizasse. Não. "Assim que essa otaria começar a cagar, eu vou pica-la". E assim foi feito. Numa situação normal, eu teria gritado, sambado ou corrido. Ou tudo ao mesmo tempo. Mas isso não seria uma boa ideia na minha situação. Então, estapeei a porra da abelha e ela caiu dentro da minha blusa. Vou repetir: dentro-da-minha-blusa. Que cena. Sinceramente, eu não sabia se me concentrava na merda ou na abelha. Apos o drama, voltei pra barraca respeitando ainda mais a natureza.

Apos o almoço, nos preparamos pra fazer uma caminhada de quatro horas dentro de uma floresta em que 90% do percurso era de subida. Na descrição da trilha no manual, havia a palavra "raide". Curiosa, perguntei:

- Sonia, o que é "raide"?
- Hum... "Raide" é "tranquilo", Luci. :)

Inocente, acreditei.

Raide passou longe de ser isso, minha gente. Soh vou dizer uma coisa: eu passei dois dias sem andar depois desse fim de semana. Eu parecia um pinguim sem articulação andando, a ponto de nego achar que eu tava gra-vi-da. Mas como eu não gosto de mimimi, subi sem reclamar as duas primeiras horas. Mas teve uma hora em que o caminho tava tão inclinado, que eu usava as mãos pra subir. E em muitos momentos, eu perguntei desolada:

- Senhor, o que eu estou fazendo aqui?

Os outros não chegaram a cantarolar durante a subida, mas não respiravam de forma ofegante, nem tinham a lingua na altura do umbigo, como eu. Na descida, perdi metade da cartilagem dos joelhos. Mas finalmente voltamos ao lago, tomamos banho, cerveja e comemos muito bem.

O domingo, pra mim, deveria ser tranquilo. Afinal, os quatro que estavam comigo iam partir pra fazer a Via e eu ia ficar quietinha, lendo meu livrinho à beira de um outro lago. Mas claro que não aconteceu nada disso. Fizemos mais uma hora de carro, paramos numa cidadezinha e pegamos um teleférico pra subir e chegarmos mais perto da Via.

Acompanhem no meu mapinha sem escala: deixamos o carro la embaixo, pegamos o teleférico e, na parte esfumaçada, nos separamos. Eh a parte mais alta do mapa também. Pra ir aos lagos ou voltar pro carro, so mesmo descendo. E muito! Até cogitei a idéia de ficar no teleférico, mas o pessoal disse que o teleférico fecharia as 17h e que nos encontrariamos OU nos três lagos OU no teleférico (e pegariamos um caminho alternativo pra descer) OU nos encontrariamos no carro.

Então, como eu sou uma pessoa muito esportista, resolvi ir a esse tal de Lago Achard sozinha, mesmo tendo as pernas muito doloridas da caminhada anterior. Foi lindo o caminho. Pinheiros, laguinhos, pedrinhas, bichinhos e todo tipo de gente indo e vindo com suas familias. Cheguei ao meu destino, tomei um revigorante banho de lago e deitei ao sol. Até aih, beleuza. O pessoal então me liga porque haviam terminado a Via. Eu aviso que estou voltando pro teleférico e que chego em uma hora.

Andei tranquila e, quando cheguei no teleférico, ele ja havia fechado e todas as pessoas tinham ido embora. Fiquei la sozinha, sentada numa sombrinha espantando as moscas com meu chapéu. Uma hora espantando as moscas com meu chapéu. Duas horas espantando as moscas com meu chapéu. E nada do pessoal. O celular deles não pegava. Do alto do teleférico, eu não conseguia enxergar ninguém nos Três Lagos e muito menos tinha forças pra descer até la (a caminhada até la daria em torno de 20min). Comecei, como é do meu feitio, a me desesperar e a cogitar a possibilidade de descer pelo tal caminho até a cidade, mas o pequeno detalhe é que eu não o conhecia.

Como ja havia se passado três horas desde o nosso ultimo contato e, como o pessoal ja tinha terminado a Via, imaginei que eles tinham descido e estavam me esperando no carro. Então, quando o desespero e o medo do sol ir embora aumentaram, decidi descer. O caminho era tão inclinado quanto o do dia anterior, a diferença é que este tinha pedras do tamanho de limões cuja a unica finalidade era me fazer escorregar. Pra minha sorte, ao longe, vi um homem: o unico ser que vi depois de varias horas. Gritei com as forças que me restavam por ele e nada. Quando o animal finalmente resolveu olhar pra tras e parou, corri feio uma louca ao encontro da unica pessoa que poderia me indicar o caminho. Eu queria muito ter a cena desse momento gravada pra mostrar a vocês: uma ladeira de pedras super inclinada, o sol queimando meu juizo e eu correndo, caindo e levantando; correndo, caindo e levantando; ad infinitum.

Enquanto eu pensava nas vantagens de ser um bode alpinista, eu ia definhando naquele sol, naquele cansaço. Nos ultimos metros, tirei os tênis e terminei a trilha somente de meias, com os dedos em chamas. Cheguei à porcaria da cidade exausta e, 20 min depois, vi o pessoal descendo a montanha. Alivio. Eu, que não consigo dormir sentada, apaguei completamente nas duas horas de viagem de volta à Lyon. Por que sera?

Eu aos 65 (quilos)

Aqui estou eu, depois de uma overdose de Buscopan, tentando escrever pra vocês. Tem qualquer coisa dentro dessa barriga que não ta muito satisfeita comigo. Espero que não seja um alien. Espero também que Buscopan resolva essa parada, porque eu não aguento mais parar minhas atividades na metade pra ficar sentada numa privada.Justificar

Desabafo feito, continuemos.

Como eu ia dizendo, eu soh entendi o que era verão depois que cheguei na Europa. Antes, as estações do ano eram tudo a mesmissima coisa. O nome desse blog foi retirado de um livro autobiografico de um homem que morou em Campina Grande - PB, e que compartilhou no livro uma frase que cai bem aqui: em Campina soh tem duas estações: o verão e a de trem. Então, sempre achei chato quando os livros situavam a época vivida com "naquele outono" ou "no inverno seguinte": não era mais facil dizer a porcaria do mês pros leitores ignorantes do hemisfério sul?

Mas essa época pra mim não esta somente ligada a churrascos no jardim, mas também a esportes (é meio dificil correr no parque a -2°). Na França, as academias de ginastica não são muito populares. Acho que devo ter visto duas ou três academias aqui em Lyon. Mas isso não esta relacionado ao fato do francês não fazer exercicio fisico. Pelo contrario, como as opções nesse sentido são variadas e o incentivo é grande, todo mundo tem um esporte preferido.

E em um ano de França, percebi que francês é um bicho saudavel. Juro que posso contar nos dedos de uma mão o numero de pessoas obesas (franceses) que vi em Lyon. As pessoas geralmente tem uma silhueta de dar inveja e eu nunca vi tanta gente gostosa! Sem falar da alimentação: apesar de eu ter engordado (brasileira louca que não resiste a um pedaço de queijo), eu como muito melhor aqui. A refeição é bastante variada e o consumo de fruta e verdura é grande. Então, como eu sou uma pessoa influenciavel, me deixei levar por essa vida e mudei alguns dos meus habitos. O proximo post mostra minhas tentativas de ser mais saudavel.

sábado, 24 de julho de 2010

Eu aos 35 (graus).

Infelizmente, ou não, eu tenho o humor extremamente influenciavel pelo meio em que me encontro. "Mas todo mundo é assim". Duvido. Eu posso estar feliz da vida, se escuto Interpol, a depressão bate instantaneamente e eu passo a repensar toda minha vida, a sentir um vazio sem tamanho. Se noto uma leve irritação em Camilo, seja la pelo que for, eu começo a ficar irritada também. Eh inconsciente, mas acontece. Mas isso tudo é pra dizer que tem uma coisa que me deixa radiante, mesmo numa dia triste ou irritante: o sol. O sol! Não ha mal humor que resista. E, aqui na França, essa paixão ganhou proporções ainda maiores, ja que as estações são bem definidas e o sol daqui não castiga as pessoas que resolvem aproveita-lo ao ar livre.

Verão aqui é uma festa. Todo mundo corre desesperado pra aproveita-lo da forma mais intensa possivel. Os parques estão simplesmente lotados. Os bares sem terraço fecham as portas, porque ninguém quer perder os bons momentos de ar fresco que soh essa época oferece. Aqui em casa, todas as pessoas tem (pequenas) viagens marcadas pra quase todos os fins de semana do verão. Nossas refeições são feitas no jardim. Os churrascos são quase semanais. Depois de passar seis meses no frio, ninguém quer perder esse momento do ano. Inclusive, uma das coisas que me fez ir ao Brasil no começo do ano, foi justamente isso: eu queria estar aqui no verão. Os amigos brasileiros que me desculpem, mas o verão aqui é um acontecimento imperdivel e insubstituivel. Dai, vocês imaginam o quanto eu tou feliz. Não ha Interpol capaz de estragar isso.

A Aline fez um post muito mais completo e interessante sobre essa estação aqui na França, deem uma olhada: surtos de verão. Eu vou é contar o que eu tenho feito por aqui nesses ultimos tempos.

Talvez

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