quinta-feira, 23 de maio de 2013

Zoufris Maracas

Dia 21 de maio fez quatro anos que cheguei na França. O tempo passa rapido. Parece que foi ha quatro anos. Um amigo me perguntou, meio de onda, "e aih, ta gostando?". Pensei no frio, na musica, nas pessoas, nos lugares, nos festivais, ponderei e ele teve um sorriso como resposta. 




Por falar em musica francesa, ha algumas semanas fui apresentada à um grupo de Marselha que se chama Zoufris Maracas. Amei de cara e sigo amando loucamente. Primeiro, porque o sotaque do sul da França é um tesao. Depois, porque o vocalista é um tesao. E, terceiro, porque as letras e as melodias sao lindas. 


Esse é o vocalista. Eh, eu sei, eu sei. 
Nao agrada à tod@s, mas eu amo homen com cara de bêbado mais velho. 

Tem duas musicas onde eles fazem referência a nois. Uma se chama Bahia e a outra, Feijaon. Um dia, fiquei de ouvido ligado pra entender a letra de Bahia. O cara conta que tava numa praia na Bahia, quando ele conhece uma menina. "Uma menina a cada estaçao". E dai, ele a leva pra casa, eles se pegam, ele "acarecia os peitos" dela e ela vai tomar um banho de banheira. Ao sair, ele nota que ela, na verdade, é ele. E dai ele diz "nao tem chance!", mas dai "a menina" pega o cara, encosta ele no espelho e, finalmente, eles... bom. "Eu vou poupa-los do fim", eles diz. Entao, ele termina a musica dizendo "mas se isso te convem, que as coisas nao estejam sempre certinhas, nao hesite em te dar prazer". Gente. Vocês ouviram quantas musicas sobre homens que terminam com um travesti? A ultima frase é "Bahia, um cara a cada estaçao"*. 

Na verdade, gosto da maioria das letras. Umas, apesar de falarem de meio-ambiente, nao entram no clichê, de tao bem feitas que sao. Elas falam sobre como trabalho é perda de tempo, sobre liberdade, sobre o prazer das pequenas coisas. Infelizmente, a traduçao faz perder um pouco o brilho do original, entao, aconselho aos amiguinhos que desenrolam francês a procurarem as letras. E, no mais, à todos que tem ouvidos, Zoufris Maracas

Pour moi musique est comme l'amour
Il faudrait faire ça tous les jours
Et puis surtout recommencer

Pour moi musique n'as pas de prix
Musique connecte les esprits
Musique pimente l'existence


* Sim, sei que o Brasil é conhecido pelos seus travestis, mas pela sagacidade das outras letras, deduzo que  trata-se de uma homenagem e nao de uma tiraçao de onda. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A insustentavel beleza do ser

Eu tinha uma relaçao de amor e odio com meu cabelo. Alias, a quem estou tentando enganar? 

Eu tinha uma relaçao de odio e odio com meu cabelo. E essa relacao vinha desde pequena. Quando eu era um filhoooteeee, eu nao sabia que as pessoas poderiam gostar dos proprios cabelos. E, mais que isso, eu nao sabia que as pessoas poderiam gostar de cabelos cacheados ou, pior, crespos. Nem da cor dos meus cabelos eu gostava, afinal, a Xuxa era mais famosa que a Mara. Angélica era mais famosa que a Mara. Alias, cadê a Mara? (Viu? Gente de cabelo escuro soh se fode). Ah, Mara, se fossemos loiras! Nossas vidas poderiam ter sido diferentes!  

Na época em que eu nem sabia ler - mas que ja compreendia que nao ia ser Paquita - minha mae tentava domar meu cabelo fazendo uns penteados que nao eram nada populares entre minhas amigas e meu cabelo sempre foi motivo de piada na minha classe. - musica triste no violino - Curiosamente, era meu irmao mais velho, um verdadeiro perito em causar traumas, quem mais me importunava com essa historia, todo dia era um apelido novo. E o que dizer da minha mae que, um dia, enquanto me penteava, ja sem paciência com aquela cabeça cheia de cabelo, disse "eu passei a vida toda fazendo alisamento no meu cabelo, mas tinha esperança de ter uma filha com cabelo bom. Aih nasce essa coisa".

Pois é.

(Ja ficaram com pena da pequena Luci? Ou devo dizer que eu chorei caladinha quando ouvi isso?)

A minha mae, meu irmao, meus colegas e Xuxa acabaram por me convencer de que eu deveria ter cabelo liso. Desafiando as leis da natureza e contrariando meus genes, passei a fazer touca no cabelo com auxilio da minha mae. Para fazer a touca, os cabelos nao podem estar molhados, nem secos. E deve-se passar algumas horas com o cabelo virado pra direita e, outras tantas, pra esquerda. Isso dava dor de cabeça. Tinha sempre algum fio que ficava esticado demais ou sempre tinha algum friso filho da puta que nao tinha mais a ponta de plastico. Apesar de toda a perseverança, os frisos nao eram magicos e, quando finalmente eu retirava a touca, minha cabeça parecia uma palmeira, entao, eu amarrava os cabelos. E minha mae fazia essa toca praticamente todas as vezes em que eu lavava os cabelos.

Mais ou menos aos 11 anos, comecei a fazer alisamento no salao. Era uma coisa fedorenta, que continha formol, causava feridas no couro cabeludo, custava super caro e que deveria ser refeita basicamente a cada três meses (na parte da raiz, onde o cabelo ruim do demônio voltava a crescer). Estou absolutamente convencida de que eu devo ter passado por quase todos os saloes de beleza de Joao Pessoa (e alguns de Campina Grande), na esperança de finalmente encontrar a Fada do Cabelo Bom. Nao encontrei.


Tarde demais!


Eu era realmente escrava dos saloes. Ja cheguei a passar mais de 10h num salao em época de festas, mas quando eu saia de la, eu flutuava e meus cabelos acompanhavam o sentido do vento. Eu ficava tao diferente que meu ex-namorado me chamava pelo meu segundo nome. Mas mesmo com o cabelo liso, eu fazia questao de prende-lo. Finalmente, eu achei o salao com o alisamento "perfeito", mas isso foi somente la pelos 18. Antes disso, eu mergulhei em varias noias e tinha tanto complexo com meu cabelo, que eu fazia parte da turma do fundao porque queria evitar os olhares dos colegas. Eu sentava na parte de tras dos ônibus pelo mesmo motivo. Um pouco antes de entrar na faculdade, consegui deixar de lado o diadema e as presilhas que ajudavam a domar meu cabelo - isso foi uns dois anos depois de eu brigar com uma amiga que, inocentemente, quis fazer uma brincadeira retirando meu diadema. 

Ninguém toca no meu cabelo.

E, finalmente, chegou o dia em que eu tive que decidir se eu amava mais meu namorado francês ou a cabeleireira. Me mudei e, na França, passei momentos dificeis vendo meu cabelo se transformar. Era como se eu fosse Cinderela e todo dia fosse 23:59h. Eu vivia a angustia de me deparar com minha realidade capilar. Na França, eu teria de vender um orgao pra pagar pelo procedimento. E eu gosto dos meus orgaos. Durante três anos, me virei como pude para disfarçar o indisfarçavel.

Foi entao que eu comecei a prestar atençao nas outras pessoas (até fiz esse post, um dos mais visualizados no blog). Vi que elas tinham rugas e cabelos crespos soltos e cicatrizes e estrias e alguns nem tinham dente direito. E vi que elas nao pareciam se importar consigo, nem comigo, mas meus amigos, sim, eles nao entendiam como eu poderia ser tao extrema quando o assunto era o meu cabelo. 

Dois anos sem ir no Brasil e meu cabelo estava em cima do muro, nao se decidia se ele era liso ou cacheado. Desesperada, pedi pra Camilo corta-lo e ele subiu até o ombro. O cabelo, nao Camilo. E, pela primeira vez na vida, meus amigos, eu vi meu cabelo natural. Foi como ver o mar pela primeira vez aos 70 anos. Meu cabelo dava voltas. Ele era... era... cacheado. Foi dificil aceita-lo. Eu preferiria ter um cabelo  prostituto à um cabelo cacheado. 

Quando me perdi na Italia, meus patroes me contaram depois que eles foram no bar onde eu estive pela ultima vez e perguntaram se ninguém ali teria visto "uma menina de cabelos cacheados". E por um milésimo de segundo, ok, dois, pensei "como eles esperavam me encontrar perguntando por alguém de cabelo cacheado?!". Essa era eu. Mas mesmo atualmente, ainda estou tentando me acostumar à ideia. Ha uns dois meses, tomei um choque ao ver um desenho de mim feito por uma coloc onde eu fui feita com... cabelos curtos e cacheados. 

Mas o estranhamento vem da simples falta de costume e nao da dificuldade em aceitar. Me aceitei. Sai do armario, resolvi me assumir. Até tive uma espécie de pesadelo outro dia em que eu acordava de cabelo liso, como antes, e ficava angustiada de ter que ver o mesmo lento processo de crescimento. E sabe, minha vida agora é tao mais simples! Me pergunto ainda hoje por que eu demorei 27 anos pra ser eu. 


Mas ainda tou trabalhando em mim a possibilidade de fazer ainda mais volume nele cortando-o. Mas enfim, vida nova. Agora eu tiro fotos - sabendo que, um ano atras, eu nao conseguia nem olhar no espelho, que dira registrar o que via.



Essa, por exemplo, sou eu me amando ♥


Agora, parem de dizer aos seus filhos que eles nao nasceram do jeito certo.



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Terror durante voo França-Brasil

Senti a necessidade de retomar o blog quando me dei conta de que eu recomecei a transformar todos os fatos do meu cotidiano em uma historia pro blog. Além do fim do casamento, o Guri entrou no maternal, eu fiz amiguinhos franceses, fiz amiguinhos brasileiros, fui pro Brasil duas vezes, fui pra Inglaterra, Portugal, Espanha, recebi a visita da minha mae aqui, cortei meu cabelo curtinho, pintei meu cabelo de vermelho, de preto - nao ao mesmo tempo -, entrei no mestrado, minha patroa engravidou do terceiro moleque (moleca! ♥), minha patroa anunciou minha demissao, meu irmao se casou e, no entanto, eu nao sei sobre o que escrever. 

Pensei em olhar pra qualquer objeto a minha volta e puxar um post ninja dali, mas depois de ter a visao da minha toalha secando no aquecedor da sala, achei melhor começar do começo. Ou do meio!

Primeira ida pro Brasil do ano passado. Eu, depois de dois anos sem pisar na América, em plena crise sentimental, tendo um tumor alojado na minha barriga, os hormônio tudo doido, chorando a cada pio de passarinho, entrei no aviao com sede de descanso. Depois de mostrar a passagem, dei um deficiente sorriso a aeromoça e fui procurar meu assento.

Ouvi distraidamente o barulho das turbinas trabalhando. A medida em que fui chegando perto da minha poltrona, percebi que o barulho foi ficando cada vez mais forte, quase ensurdecedor. Pela sorte que tenho, imaginei que eu fosse viajar pendurada em uma das turbinas, tipo assim, "janela", soh que do lado de fora. Mas foi pior, meus amigos. O barulho vinha de um bebê. Mas era uma espécie de bebê-gorila, porque o choro nao era coisa de Deus. Nao. Era uma coisa meio gutural, sabe. Tipo "OOONNN OOONNNN" ao invés de um meigo "ueen ueen" sussurado. Claro que vocês ja entenderam tudo e ja imaginaram que o bebê estava pertinho de mim. Pois erraram: o bebê estava no meu assento. Como proceder? Com o bilhete na mao e um sorriso gentil, me inclinei e disse educamente:

- Com licença, senhorrrr... inho?, mas acho que esse é o meu assento.
- OOOOONNN OOOONNN!
- Por fav...
- OOOOONNNN! 

Segurando fortemente a vontade de sentar de uma vez naquela mini-cabeça, lancei um olhar maligno para os pais na esperança de alguma reaçao sensata. Foi quando descobri que nao se tratava de apenas um bebê, mas de dois. Nas quatro cadeiras do meio do aviao, estavam dispostos: (pessoa-sofredora-aleatoria) + (pai) + (mae + bebê 1) + (gorilinha). Olhei pro céu com os olhos semi-cerrados e disse "Deus, se isso é mais uma provaçao, aviso que ja aprendi muito com Godz". Dito isso, como que por magia, a mae removeu imediatamente aquela criança do meu banco e fez uma careta como se estivesse me fazendo um favor dificil. 

Revendo a cena hoje, acredito piamente que o bebê entendeu que aquilo se tratava de uma imensa injustiça porque ele dobrou a intensidade dos gritos. Firme e forte, pensei "se esse bebê estiver pensando que com isso eu vou ceder e procurar outro lugar, ele estah muito enganado". Entao, eu cedi e fui procurar outro lugar. Perguntei ao aeromoço se havia algum outro assento vago e ele, lançando um olhar de profundo desprezo em torno de si, disse "se você encontrar algum, é seu". 

Tive uma ideia genial e lembrei do vaso sanitario, unico assento disponivel no momento. Fui sorrateiramente até la mas, quando abri a porta, dei de cara com o bebê em cima do sanitario. OOOOOOONNNN OOONNNN! Fechei a porta do banheiro e sai correndo, esbarrando nas pessoas, nas malas, até que finalmente encontrei o aeromoço que estava de costas atendendo um passageiro. Toquei seu ombro e, quando ele se virou, vi que era o bebê que fez OOOOOOOONNNN! Sai correndo, tropeçando nos meus proprios pés e, antes que pudesse gritar por socorro, encontrei uma poltrona vazia. Peguei minha mochila e, assim que eu abri o cofre, o que eu vi? Nada. Entao, joguei minha mochila la dentro, sentei na poltrona e decolamos. OOOOOONNNN!

(Esse ultimo "on" nao é nada além da minha tentativa de enganar o cérebro de vocês fazendo-os pensar que o bebê também  estaria dentro do cofre. Nao estava).

Pois bem. Bunda instalada, checo vizinho da direita, direito. Checo o vizinho da esquerda e... checo de novo e choco: era um homem que vestia uma camisa onde havia uma bandeira do Brasil. Olha, minha intuiçao é foda, sabe. Nao tenho intuiçao pra ganhar na loteria, nem pra prever quando o Guri vai desmantelar a irma com um chute, mas pressinto quando algum mala vai puxar conversa comigo. Até pensei em me levantar pra sentar ao lado do baby-gorila. Foi quando senti um leve toque no meu braço.

- Oi! Tudo bom, amiguinha? De onde você vem? :D
- (Do inferno). Da França.

Daih, ele contou, sem que eu perguntasse, que ele morava em Lisboa e que estava indo ao Brasil numa "viagem de negocios" (sempre que eu ouço essa expressao, me veem à cabeça mafiosos com maletas cheias de dolares na mao). Ele tinha as orelhas esfoladas e, apesar da minha grande curiosidade, preferi brincar com os fones de ouvidos oferecidos pela companhia aerea - que estavam com defeito. O problema, é que, por mais que minha natureza de bicho-do-mato preferisse a distância dos seres humanos, resolvi seguir o exemplo de Monique que, umas duas semanas antes, me apareceu com um amiguinho que ela fez no trem Paris-Lyon. Pensei "puxa, que legal! Pessoas 'abertas' tem mais chances de fazer amigos". Entao, decidi fingir que eu era uma pessoa sociavel.

O cara era baixinho, do tipo achatado, careca, extremamente musculoso e se esforçava para "falar bonito". Numa tentativa sofrivel de impressionar, ele usava palavras pomposas para formular uma frase simples. Resultado: nao entendi nada.

- Luciana... Lu! Você como pessoa, você se sente bem na França?
- (Como pessoa, sim, mas meu lado cadela precisa de amigos). Na verdade, sinto falta de ter amigos.

Pegando-na-minha-mao ele disse:

- Pois, Lu, você pode nao ter amigos na França, mas você acaba de fazer um em Lisboa.
- (Quem?)

Meda. Sabe aqueles momentos em que você nao sabe como reagir? Tentei me emocionar, nao consegui. Tentei apenas sorrir, nao consegui. Tudo o que eu fiz foi retirar delicamente minhas maozinhas dali e me virar de volta. Mas ja era tarde demais. Quando as luzes do aviao foram desligadas, coloquei um filme qualquer, os fones e, adivinhem, o cara ficou puxando papo. Gente, eu juro! E Deus, que nesse momento ja estava bem mais perto da gente, estah de prova! Foi horrivel! La, sim, eu senti medo. Mas o pior estava por vir: ele me chamou de bebê. Be-bê!

uén

Nesse momento, voltei a me transformar em Luci e decidi nunca mais ser sociavel novamente na minha vida. Entao, pra nao dar a oportunidade de um desconhecido me chamar de bebê novamente, tive outra ideia brilhante e decidi antecipar meu cochilo. Ele nao ousaria perturbar o sono alheio. O problema é que eu nao durmo em avioes e meu cochilo durou 45 segundos. Quando minhas palpebras tentaram se abrir, ouvi o homem tomando fôlego pra recomeçar a falar entao, rapidamente, fechei os olhos e fiquei imovel. Decidi que quando o aviao pousasse, eu desembarcaria de olhos fechados.

Descemos todos em Salvador para uma escala e o cara, sem que eu perguntasse, disse que tinha um terreno pra vender no Brasil que valia um milhao (ele frisou bem esse detalhe). Mas consegui me livrar do milionario dizendo que iria encontrar um tio meu. O problema é que eu sai da area onde eu deveria ter recuperado minhas bagagens, entao, tive que ficar esperando, junto com outra menina na mesma situaçao, alguém que pudesse nos acompanhar ao tapete que faz as malas circularem.

Enquanto esperavamos, começamos a puxar conversa (sim, quebrei minha promessa). Ela perguntou porque eu estava indo pro Brasil, entao, falei do divorcio e do tumor. Ela olhou pra mim bem séria e perguntou se eu era crente. Antes que eu pudesse sair correndo responder, ela disse:


"Meu deus, é um sonho? Tarô?!" Olhei desconfiada pro lado esperarando o Pé Grande surgir, sei lah!, mas ao invés disso, ouvi uma voz familiar gritando "bebeeeê!". Eh um pesadelo. Meu "amigo" lisbonense voltou das cinzas e eu o apresentei a louca do tarô. Em dois minutos eles estavam discutindo ferozmente sobre... Chiclete com Banana.

Nao me perguntem.



Alias, o que acontece com o vocalista dessa banda? O cara tira o bigode, mas nao tira esse lenço da cabeça. Acho que no dia em que ele o tirar, o topo da cabeça dele cai podre no chao. Mas enfim. Daih que sentamos numa mesa, os três, e o cara explicou à cartomante, que ele iria vender um imovel no Brasil que valia quatro millhoes. Fiquei impressionada com a valorizacao dos imoveis no Brasil e decidi que ia vender a casa dos meus pais assim que eu chegasse nela.

De Chiclete com Banana, passamos para "violência doméstica". Foi quando ouvi a seguinte frase sair da boca do milionario (pessoas de bom coraçao, se vocês estiveram almoçando, nao leiam isso):

- Mas... bom... se é feito dentro de casa, nao tem problema.

Na minha cabeça, eu subi na mesa, dei um bicudo na cara dele e fui pro portao de embarque. Fora da minha cabeça, eu sorri, olhei pro lado e pedi pra menina tirar o tarô pra mim. Eu nao lembro direito o que ela disse, mas eram coisas bem genéricas tipo...

"Você se arrepende de algo!". Olha, eu nem tava arrependida de nada na minha vida, mas pela sugestao, eu comecei a me arrepender de muita coisa, inclusive de ter mudado de lugar no aviao. Entao, disse "sim, é verdade, me arrependo bastante de algo". E ela la, toda feliz.

Esperamos juntos pelo meu voo durante três horas. Três fucking horas! Entrei no segundo aviao com medo dos passageiros, mas... no babies, no friends. A moral? Nunca dê moral. 



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Das pequenas anedotas

Quando eu era pequena, eu dediquei (assim, por acaso) uma parte das minhas manhas assistindo ao Telecurso 2000. Nao, eu nao estava particularmente interessada nas aulas de mecânica, mas eu achava divertido ver as tecnicas usadas para construir tal ou tal coisa. Achava interessante como atores poderiam ser tao bons professores a ponto de conseguir passar o conteudo a uma ignorante como eu  (nao pela incapacidade mental, mas pela baixa idade, claro. Aos dez, eu ja era um gênio. Do mal). Lembro que, em uma aula, eles ensinavam como "limar" um objeto. Era a primeira vez que eu escutava essa palavra (ou prestava atençao a ela). Anos depois, muitos anos depois, la do outro lado do Atlântico, eu ganho, numa certa noite, esmaltes e uma lixa de unha. Uma lixa de unha tao belamente ornamentada que, à primeira vista, nem pareceu uma lixa de unha. "Ahh, mas isso é uma... é uma..." Como se chama lixa de unha em francês?! "Lime à ongles". Ahh, merci! Lime! E daih, de repente, eu voltei a Joao Pessoa, 18 anos antes, e me encontrei com cabelo assanhado e cara amassada, segurando um copo de leite na sala, na frente da televisao. Limar. O primeiro passo pra conhecer uma lingua estrangeira é conhecer a propria lingua. 

domingo, 28 de abril de 2013

Cinco anos em cinco meses (ou do amor pelo lado de lah).

Nao querendo ser monotematica, mas ja sendo, queria colocar para fora um post que martela ha alguns meses minha cabeça  sobre a França e sobre essa coisa de evoluçao - e talvez ovulaçao, porque parte desse post é oferecimento da minha tpm. 

Quando eu cheguei aqui na França (2009), me sentia uma estranha em absoluto. Eu estava convencida de que soh estava aqui por Camilo - apesar da antiga vontade de ir embora do Brasil (Brasil = Joao Pessoa. Joao Pessoa = casa dos meus pais). Até hoje, eu nao sei se fui feliz ou nao nesses anos todos em que vivi aqui. Acho que Camilo era uma boa fonte de felicidade que mascarava a solidao sentida. Eu acordava respirando Camilo, mas começava a beber às 8h da manha nos finais de semana pra ver se aguentava o tranco de estar sozinha. E eu, que gosto tanto de falar (o blog veio da vontade de falar, nao de escrever), comecei a me fechar na minha conchinha. 

Ia pro trabalho/faculdade, voltava pra casa, entrava pelas escadas exteriores que davam acesso direto ao meu quarto (para nao ter a necessidade de entrar pela sala e cruzar com meus colocs) e soh descia quando o jantar estivesse pronto. Uma vez terminada a refeiçao, eu subia e me escondia novamente. Disso, surgiram inumeras brigas ferozes com Camilo que, sei la porque, gostava de perder tempo falando merda com o pessoal la na sala. O unico momento em que eu me permitia ser social, era com um, dois, três, vinte, copos de cerveja na mao. Nao gostava de falar francês porque coloquei na minha cabeça que, por nunca ter feito um curso decente, eu nao sabia falar francês. 

E dai, mesmo estando tao longe, eu tinha uns pesadelos estranhos com meu pai. E me pegava com o coraçao acelerado pelo pensamento de um dia ter de ve-lo novamente. Mas ao mesmo tempo, eu pensava em Fabio e meu coraçao se enchia da mais fina angustia, aquela coisa negra que ia me secando por dentro - alguns a conhecem como "saudade". Mas aih a angustia ia embora e dava lugar ao medo. Eu tinha medo de falar, de contactar as pessoas, de sair, de voltar, de ficar e de ser. E, como se nao bastasse, vinha sempre, uma vez ou outra, aquela sensaçao de nao pertencer a lugar nenhum, e alguns pensamentos sempre introspectivos e pseudo filosoficos sobre a necessidade de se pertencer a algum lugar. Eu pertencia a Camilo. E ele dizia que eu era a casa dele. E parecia um bom acordo, porque a gente parecia feliz. E eu amei tanto esse homem! Eu nem lembro mais como era, mas sei que amei porque eu preferi me abandonar à abandona-lo.

Acho que meu amor se confundiu com dependência. Eu nao conseguia fazer nada sozinha. No começo, mesmo quando eu conseguia me exprimir razoavelmente em francês, eu pedia pra que ele fosse comigo ao médico. Eu fazia uma drama pra ele ir comigo resolver algo na Prefeitura. Eu entrava em pânico e fazia birra de criança pra que ele fizesse algum telefonema de meu interesse. Uma vez, a gente pegou uma briga fenomenal nos metros parisienses, porque eu queria que ele me acompanhasse a um lugar que ele nao queria ir - tudo isso porque eu achava que eu era incapaz de voltar pra casa sozinha. Ele corrigia meus trabalhos da faculdade. Eu nunca viajava sem ele. Nunca saia sem ele! Cinema. Camilo. Teatro. Camilo. Show. Camilo. Bar. Camilo. Sim, eu tenho muita vergonha de dizer isso. Eu realmente fui muito fraca. Eu achava que tentava mudar isso, eu queria que as pessoas falassem comigo, mas quando elas falavam, eu rezava pra que elas se calassem. Eu soh queria que elas soubessem que eu era mais interessante do que aquilo, mas eu nao queria fazer esforço pra isso, porque "esforço" subtendia "falar" e, isso, eu nao era capaz de fazer.

E, apesar de toda essa dependência, eu acordei e finalmente percebi que eu tava tao vazia, tao pobre, que eu nao o amava mais, que eu estava com ele, nao mais por amor, mas por medo e, nesse dia, eu realmente me senti (ainda mais) sozinha. Tentei colocar a culpa na minha extrema e fatal instabilidade. Culpei meu signo. Culpei a lua. Culpei Lula - porque todo mundo culpa o Lula. Culpei a França, o Brasil. E lembrava de Artur da Tavola (desculpa atencipada, pois citaçoes soam sempre quase esnobes) quando ele dizia que "(música é vida interior, e) quem tem vida interior jamais padecerá de solidão". Eu achava que tinha e, portanto...

Quando acabamos, eu entrei em depressao. Alias, aquilo deveria ter outro nome, porque depressao eu ja tinha sentido, mas "aquilo" era mais intenso e "aquilo" me transformou. Eu achava insuportavel viver, mas vivia porque eu sabia que fazer alguma besteira iria provocar uma tristeza semelhante na minha mae e esse pensamento me apavorava (desculpa o drama, mas foi assim que aconteceu e, apesar de eu nao entender mais aquela tristeza, eu sei que ela existiu e que foi dessa forma que ela fez parte de mim). Até que um médico me disse que aquilo tudo era, em parte, decorrência de um tumor. Fui pro Brasil desejando estar com meus pais. Sim, pai e mae. Fiz a cirurgia e, quando voltei, meus amiguinhos...

Quando eu voltei, decidi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer. Me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você. Parei de me trancar no quarto. Decidi que meu francês nao é bom para um francês, mas que é bom para uma estrangeira. Perdi quase todo o peso ganho durante a doença. Entrei no mestrado, mesmo sabendo que nao haveria ninguém pra corrigir meus trabalhos. Fui descobrindo simplesmente o que era ser eu de verdade - quando comecei minha vida sexual/amorosa, engatei nove anos no stop de namoro e era a primeira vez em que eu estava vivendo sem um cara pra me dizer o que fazer (sou feminista, mas...). Fiquei meio perdida no começo porque sou o tipico clichê de menina que nao teve a figura do pai presente e que demanda muita atençao dos namorados. Agora, gasto meu dinheiro da forma que quero - agora nao gasto mais porque, se somos livres, "nohs gatos ja nascemos pobres", nao esqueçamos. 

Aprendi a viajar sozinha - na primeira vez que viajei sem Camilo, foi pra fazer um trajeto de pouco mais de uma hora. Compro uma quiche, entro no trem, me deparo com uma cadeira vazia ao meu lado. Aguento firme, mas ao ver que nao tinha ninguém pra dividir a porra da quiche, começo a chorar. E fico assim, comendo a quiche e chorando, tendo pena de mim. Deprimente. Hoje, eu prefiro viajar sozinha, isso me da a oportunidade de passar o tempo olhando pela janela, de observar as vaquinhas no pasto ou, em dias feios, de ver macro espermatozoides de chuva se formarem na janela do trem. Aprendi a planejar coisas sozinha. Viajo e, quando volto pra Lyon, vem quase sempre uma lagriminha emocionada me socorrer quando me dou conta de que aqui é minha casa. 

Eu cortei meus cabelos! Dei um pulo dificil para fora dos padroes e agora nao sou mais a menina de cabelos longos e lisos. Sou uma mocinha de cabelos curtos e cacheados (e crespos!). Decidi usa-los como eles sao e, porra, vocês nao imaginam a liberdade que é poder ser você mesma. Fiz o primeiro Amigo francês. E o segundo e o terceiro. E agora, quando eu chego em casa, as pessoas sorriem ao me ver. Quando estou estudando no quarto, elas batem na minha porta e me mandam descer. E eu ainda nao me acostumei com isso. Porque essas eram as pessoas que eu admirava em silêncio ha uns anos e, agora, elas me dizem "eu te amo". Eu amo meus colocs. Eu aprendo com eles. Sao dez ao todo. A gente fala tudo sobre tudo e sobretudo sobre nada. E acho que, finalmente, o que me salvou foram as pessoas. Eu ja tinha falado aqui, num post antigo, que o importante nao é o lugar, mas quem te rodeia. Pra mim, vida interior, Artur, sao pessoas. Eu preciso disso. Eu preciso falar, preciso ser ouvida, mas também tenho necessidade de ouvir, de conhecer o outro. 

Nesses meses em que passei longe do blog, recebi alguns emails de leitores desconhecidos que dizam "olha, desculpa, você nao me conhece, mas eu leio seu blog e sinto como se te conhecesse", e dai, elas me perguntavam se eu ia bem e contavam um pouco a historia de vida delas. Gente, eu amo! Eu acho isso genial! Gosto de gente dada (ui), aberta (ui), que nao faz pose, que nao faz tipo. No começo de 2008, um amigo me escreveu um email depois de ler um post antigo meu num blog antigo.

(...) Desculpe o texto pseudo-sério, mas seu post realmente mexeu comigo, de alguma forma... acho que fiquei meio emocionado, de alegria e tristeza por me sentir em sua pele. Ainda assim, quero que você guarde pra sempre a forma como te admiro; bem como a forma verdadeira como você ama esse negócio de viver - que faz parecer que você não tem medo de nada, parece que nada é realmente tão grande que não possa ser alcançado.

Pois é, eu tive medo de muita coisa, mas parece que continuei conquistando-as  - pelo menos era isso que Camilo me fazia tentar enxergar. Acho que aqui, na França, eu tive a oportunidade de crescer. Sim, poderia ter sido em qualquer outro pais, mas nao foi. Foi longe de casa, longe do meu perimetro de segurança. Me fudi muito sozinha, mas percebi que tudo isso fui eu quem provocou. E, apesar de achar que fosse enlouquecer em certos momentos por nao ter ideia do que fazer com minha vida, olho pra tras e sorrio com toda a ironia que me acompanhou. A vida é irônica. E soh. Sinto como se tivessem me dado uma injeçao de vida. Decidi parar de me vitimizar, de achar que eu sou fraca. Ninguém sabe que você é fraco até que você o diga - gente, baixou o satanas da auto-ajuda? E, finalmente, acho que estou onde eu queria estar. A França me emociona ♥. Aqui é casa e vai ser casa pelos proximos nove anos - a nao ser que eu queira partir de novo, porque eu tenho a escolha. Mas tenho amado esse pais. Adorei fazer o post anterior, adorei perceber que eu faço parte disso. Nao foi pela beleza do pais que eu vim, mas foi pela beleza que eu fiquei. E, sim, pelo povo. Nao escutem os clichês que rolam por aih sobre os franceses. Os franceses sao sim um povo amavel. E quem diz o contrario, nao conhece os franceses. 

Sei que a vida vai continuar nao sendo facil. Mas eu tou bem acompanhada. Eu tenho eu. :)



sexta-feira, 19 de abril de 2013

47 coisas sobre a França que nao vao mudar sua vida



Depois do post do francês que escreveu algumas verdades sobre o Brasil, pipocaram brasileiros que vivem ou viveram na França fazendo o mesmo. Teve até uma versão gay da coisa rolando. Eu, que sigo o curso do rio, achei por bem fazer algo semelhante – vale lembrar que me apoiei em comentários ou posts de amigos e ainda dos posts supracitados. A única “originalidade” aqui vem da maneira de contar o que eu vejo/vivo na França.

1. Aqui impera o self-service : nao ha frentista, nao ha porteiro nos prédios ou empacotador nos supermercados. Ha poucas pessoas para explorar*.

2. Aqui, o salario minimo garante uma vida decente. Ganhei mais como faxineira na França do que como jamais ganharei como historiadora no Brasil. Ou historiadora na França. Ou historiadora em qualquer lugar.

3. Na França, as carteiras de identidade tem validade - como se a gente deixasse de ser a gente depois de um certo tempo. O bizarro é que o mesmo nao vale para as carteiras de motoristas, que sao vitalícias. Por isso, é comum ver velhinhos caquéticos, com uma mao no volante e outra na mascara de oxigênio.

4. Eh complexo começar uma relaçao amorosa aqui: no Brasil, você pode ser ficante de alguém durante meses até que um decida elevar a relaçao ao status de namoro. Na França, você é automaticamente namorado de alguém desde o momento em que você o beija – a nao ser, claro, que a coisa se passe numa boate, festa etc. Nesse caso, funciona-se ao contrario : melhor deixar claro desde o inicio que aquilo eh soh uma ficada – coisa que, para os brasileiros é complicado ja que "rolo" e "ficante" sao termos inexistentes por estas bandas.

5. Na mesa, o pao é rei. Ele compoe as refeiçoes de 10 entre 10 franceses, de manha, de tarde e de noite e tem multi funcoes : serve para limpar o prato depois das refeiçoes, auxilia a pessoa na hora de colocar a comida no garfo e, as vezes, é utilizado como comida mesmo.

6. Uma refeiçao festiva na França pode começar no final da manha e se estender durante toda a tarde e entrar pela madrugada. Começa com os petiscos, depois passa-se à entrada (duas ou três), em seguida, ao prato principal (quatro ou cinco); depois, come-se a salada (uns dez quilos). Quando você nao aguenta mais pensar em comida, os queijos aparecem na mesa. Finalmente, quando as lagrimas aparecem no seu rosto e a barriga incha, as sobremesas surgem. Eh por isso que o ultimo shot, logo apos as refeicoes, é chamado de vomitivo.

7.  Como normalmente, vivemos seis meses de frio e seis meses de verao, os primeiros raios solares do ano sao realmente bem aproveitados. O francês, quando vê sol, sai correndo ensandecidamente de onde quer que ele esteja e se joga em algum pedaço de grama e fica la todo aberto, feito uma lagartixa, com as calças dobradas e as mangas ajustadas para que o corpo possa aproveitar o maximo possivel daquele sol frio – aqui se diz que um dia ta bonito quando se faz sol, mesmo que faça o termômetro beire os zero graus. Achei que tivesse entendido o porquê disso apos cinco verões. Mas foi apos cinco invernos mesmo.

(esqueci quem tirou essa foto)

8. Os franceses fumam muito. Eh sabido que as mães francesas oferecem mamadeiras de tabaco para seus bebês.

9. Na franca, as pessoas pedem desculpa quando espirram.

10. Mas, bizarramente, elas assoam o nariz como se estivessem tentando expulsar os pulmões pelas narinas e, no entanto, acham o barulho que isso provoca a coisa mais normal do mundo.

11. Todo francês, independente de sexo ou idade, leva um pacote de lenço de papel no bolso.  E uma carteira de cigarro.

12. Entrando nos clichês, aqui, educaçao e gentileza nem sempre andam juntas. Eles dizem « excusez-moi » quando querem dividir o banco da praça com você, dizem « pardon » quando te triscam no metrô, dizem « bonjour » quando entram no elevador, mas dar todos esses sinais de « educaçao » sem enfeita-lo com um sorriso é bem mais do que normal. Eh esperado. Eh o que me leva ao ponto nove.

13.  Francês é bicho sincero. Franco mesmo. Ele nao leva desaforo pra casa, ele diz exatamente o que pensa (talvez nao em relacao aos seus preconceitos, mas qual é o povo que os admite?). Por isso, tive o prazer aqui de conhecer as pessoas mais sinceras da minha vida e de também escutar as verdades mais desagradaveis.

14. As mulheres curtem um top less, mas o biquini brasileiro nao tem lugar aqui, é muito ousado. A parte de baixo do biquini das francesas é grande e pode virar, dependendo da necessidade do momento, um lençol. Tenho certeza de que as francesas tem dois peitos, mas ainda aguardo sinais da existência das nadegas delas.

15. Dizem que o esporte nacional da França é a bicicleta, mas estou convencida de que é a reclamaçao. Eles reclamam quando estah ruim, eles reclamam quando estah bom, eles reclamam quando estah. Depois de alguma reclamaçao, eles enfeitam a frase com um barulho nao encontrado em qualquer outro povo ou civilizacao ja existente (observaçao de Gad Elmaleh). Trata-se de um PPPPFFFFF que, independente de qualquer frase, indica uma extrema insatisfaçao do seu interlocutor. “Vai ter sol hoje”, PFFFFF. “Vai chover” PPPFFFFF. “Vai fa...” PPPFFFF. “Mas eu nem term...” PFFFF. “Mas...” PFFFFFFFF. “Ma...” PPPPFFFF  PPFFF  PFFFFFF.

16. O "uh lala" dos franceses tem diversas versoes. Para situaçoes mais simples, como um sustinho, eles dizem "uh la !". Para uma noticia horrivel, como uma previsao de tempo para dia ruim, eles dizem "uh la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la". A duraçao do "la la" eh diretamente proporcional ao descontentamento do camarada. Pode durar dias.

17. No Brasil, falamos do tempo quando encontramos com alguém no elevador para evitar o constrangimento do silêncio. Aqui não. A previsão do tempo é um assunto abordado de maneira proposital! O único assunto que o francês evoca em qualquer parte, com qualquer pessoa, em qualquer ocasião. 

18. Adultos engravatados vao de patinete ao trabalho.

19. Você conhece a densidade demográfica de uma cidade observando o fluxo de pessoas nas saídas do metro. Se você subir em um metrô contra sua vontade ou sair antecipadamente de um metrô que o levaria ao seu destino devido à multidão que entra ou sai dele, você estah em Paris.

20. A ideia de distância do francês é distorcida:
- Tal cidade é longe daqui?
-  Muito longe!
- Quantas horas de viagem?
- Duas.

21. As vezes fico em duvida se um cara aqui é gay ou se ele é soh francês**

22. Aqui em Lyon, os bares costumam fechar à 1h da manha. No domingo, não ha comercio aberto e, durante a semana, muitas lojas abrem as 10h e fecham às 19h.

23. O calendário escolar começa em setembro, então, se alguém disser que “no próximo ano” vai fazer tal coisa, ele esta, na verdade, querendo dizer que, a partir de setembro, ele vai fazer algo.

24. Agosto estah para os franceses como o carnaval estah para os brasileiros: nada funciona. E pior que isso, praticamente toda a população francesa viaja nessa época. Quem ta no norte vai pro sul, quem ta no sul... continua no sul. Eh o lugar do sol, do céu e do sal.

25. Aqui todo mundo se exercita. Os homens sao deliciosos e as mulheres sao gostosas. Até no churrasco francês ha uma boa quantidade de salada envolvida.

26. A carne muito bem passada da França é vermelhona, faz muh e da leite. A carne mal passada aqui se chama “bleu” – azul.

27. Francês é altamente burocrático. Com os funcionarios publicos, você tem que ter senha para pegar a senha.

28. Os jovens saem de casa aos 18 anos mesmo que sua universidade se encontre na mesma cidade de seus pais. Isso é possível graças a um infindável numero de bolsas garantidas pelo Governo. E pais cansados.

29. Graças ao numero anterior, é possível se casar com homens que sabem preparar até javali.

30. Numeros de telefone aqui sao compostos por dez números. Decorei o meu no ano passado quando me inscrevi numa promoção e tive que escreve-lo 45 vezes. Não ganhei a promoção, mas aprendi meu numero.

31. Falar na França exige o domínio do francês e um pouco de matemática. 70 = 60 + 10; 80 = 4 x 20; 90 = 4 x 20 + 10. Ou seja, um numero de telefone pode sair de um 06.84.78.99.91 para um (06) + (4 x 20 + 4) + (60 + 18) + (4 x 20 + 19) + (4 x 20 + 11). Quatro anos de França e eu ainda tenho que olhar os números inscritos no caixa na hora de pagar minha feira no supermercado (e embalar sozinha).

32. Nos shows, o publico canta “seven nation army”, como uma maneira de animar o ambiente fazendo “paaaam pam pam pam pam paaaam! paaaam pam pam pam pam pam pam pam paaaam”. Toda-vez com todo-publico. O “toca Raul” deles é isso.

33. As pessoas aqui não se abraçam. Ja vi melhores amigos dando aperto de mao para felicitar o aniversariante.

34. A única coisa salgada no café da manha francês é a manteiga.

35. Um punhado de folha com uma pataca de purê sem sal pode consistir perfeitamente em uma refeição francesa. Eh pecado passível de pena de morte colocar feijão e macarrão no mesmo prato.

36. Durante as refeições, eles bebem agua – que sao servidas obrigatória e gratuitamente em uma garrafa nos restaurantes. Junto com um cestinho de pao. E um pacote de cigarro. 

37. Uma frase de texto acadêmico francês começa pelo fim, é preenchido de informações (muitas vezes) inúteis e termina pelo começo. A simples frase “O câncer de pulmão, muito comum entre os brasileiros, pode ser provocado pelo fumo” pode se tornar: “Provocado pelo fumo, o câncer, doença de pulmão (português brasileiro) ou cancro do pulmão (português europeu), caracterizada pelo crescimento celular descontrolado em tecidos do pulmão que, se não for tratado, pode se espalhar para fora do pulmão por um processo chamado de metástase, acometendo órgãos adjacentes e, eventualmente, se disseminando para outras partes do corpo, é muito comum entre os brasileiros”. 

38. Com exceção da parte do boxe, não existe ralos nos banheiros.

39. Não existe lavanderias nas casas – lava-se tênis na pia da cozinha ou do banheiro. Alias, não lava-se tênis aqui.

40. Existe cinco farmácias pra cada cidadão francês.

41. Eles não tem números nas portas dos apartamentos e sim os sobrenomes dos moradores.

42. Eh difícil fazer amizade com um francês ou de ter uma conversa intima no primeiro encontro, mas uma vez que a primeira barreira eh transposta, pode esperar ter um amiguinho em quem confiar.

43. 90% de uma verdadeira festa francesa termina em musicas dos anos 80 cantadas em coro por velhos, adultos e crianças.

44. Mulheres podem tomar a iniciativa na hora de dar em cima de um cara, mas serão julgadas por isso.

45. Quando eu falo, as pessoas simpáticas (e ignorantes) respondem em espanhol. 

46. Os franceses tem muitas vezes três nomes e somente um sobrenome. E muitos dos nomes tem referentes à nomes de velhos no Brasil. Conheço Timoteos, Sebastioes, Leopoldos. 

47. Como a prestaçao de serviço custa caro aqui, as pessoas costumam reformar suas casas ou repara-las sozinhas. Isso se chama bricolage e ha lojas gigantes destinadas aos bricoleurs.



* espero que vocês nao acreditem nisso. Foi soh licença poética.

* * no Brasil, parece que é melhor ter um filho psicopata que um filho gay. Fico feliz de ver que aqui os homens se esprimem como querem sem ter medo de que duvidem de sua sexualidade, mas ainda tenho reflexos dos tempos do Brasil. 

terça-feira, 26 de março de 2013

Azar e a esperança equilibrista

O caminho da luz que eu e Camilo temos que seguir, também chamado divorcio, é um processo longo e doloroso. Mais por questoes de logistica que por questoes emocionais. Ontem foi o dia. Iamos fechar nossa conta conjunta e fazer um passeio pelo tribunal pra dar entrada numa ajuda do governo para o pagamento do adevogado. Estamos de comum acordo pela separaçao. Inclusive, nunca estivemos tao de acordo em alguma coisa, no entanto, estar de acordo nos custa 1,500 €. Acho que a tabela dos nao acordados deve ser calculada em relaçao a sua atitude diante do ex:

Testa franzida e olhos semicerrados: 20 €
Olhar raivoso: 30 €
Grito:
(60 - 80 decibéis): 40 €
(80 - 100 decibéis): 60 €
(100 - 150 decibéis): 80 €
(150 - 200 decibéis): no es posible.
"O Rafa vai ficar comigo": 200 €
"Nao, o Rafa fica é comigo": 300 €
"Quero pensao pro nosso gato": 800 €

Mas antes de saber se fazer carinho no ex acarretaria num desconto, imprimi todos os papeis que nosso advogado nos aconselhou, peguei minha bicicleta e sai de casa. Mal cheguei na esquina e senti que alguma coisa nao estava bem. Nao demorei muito pra descobrir que o grande esforço que fiz para chegar no final da rua provinha de um furo no pneu da bicicleta. Evocando todos os demônios em meios a palavroes e maldizendo a humanidade, voltei pra casa, calma como um anjo, para pegar outra bibicleta.

Aqui em casa, as pessoas sao realmente apaixonadas por bicicletas. Eu, que tenho uma tatuagem de uma bike nas costas, sou a menos apaixonada de todos, contando com apenas duas delas. Tem nego aqui que tem cinco. Entao, nao foi dificil estar de volta à rua com uma bicicleta de dono ignorado, encontrada no jardim. Mas das sete bicicletas que estavam à disposiçao ontem, eu escolhi justamente a que nao tinha freios - deve ser por isso que ela estava à disposiçao. Teria sido mais facil chegar ao meu destino com uma bicicleta sem pneu, mas nao uma sem freios. Mesmo percebendo que ela tinha 10% de freio de um lado e 0% do outro, continuei meu caminho, mas nao sem me perguntar, a cada dez segundos, se eu nao deveria voltar pra buscar uma outra. Cheguei no banco e ainda estava me perguntando se eu nao deveria ter voltado. 

Antes de sair de casa, limpei minha conta pela internet, mas ainda restaram três miseros centavos la. No banco, burocracia francesa:

- Senhor, o senhor quer que eu faça uma transferência para sua conta ou para a conta da madame?

(Camilo com cara de olha-tou-pouco-me-fudendo) - Err... Nao posso "doar" pro banco nao?

(Mulher com cara de cu) - Infelizmente, nohs nao temos o direito.

(Eu, me divertindo muito com tudo aquilo) - :D

E, finalmente, ela fez um recibo pela transferência de três centavos para conta de Camilo. Sou mesmo generosa. Mas se eu soubesse que haveria uma tal movimentaçao por causa de três centavos, teria deixado somente um na conta. Teria sido mais divertido. 

Ao sair do banco, a caminho do tribunal, avisei a Camilo que minha bicicleta nao tinha freio e que a gente teria que ir devagar. Mal subimos na bicicleta, ele olhou pra um semaforo que ficava a um quilômetro e disse "Luci, ja pode começar a freiar". Freei pelo costume de obedecer ao senhor meu honoravel (ex) marido, mas nao é que o conselho foi valido? Ao chegar no semaforo, eu mantinha quase a mesma velocidade de antes. 

Na entrada do tribunal, que dispoe de belissimos bancos de madeira, escolhemos umas pedras que "enfeitavam" o local e sentamos pra conversar besteira. Foi legal. Legal conversar com alguém que te conhece bem pra caralho e nao tem medo do que sabe. Nao senti o tempo passar, mas ainda tinha umas feridinhas que nao estavam cicatrizadas. Mas foi tranquilo  tipo (eu): 

- Quem tem cortado teu cabelo?
- Ninguém.
- Da pra ver.

Antes de passar pelo detector de metais que precede a entrada do tribunal, Camilo me aconselhou a deixar minhas facas e minhas bombas de gas lacrimogênio para tras, o que me fez pensar que os divorcios na França nao costumam ser nada amigaveis. Passei tranquila pelo detector de metais, mas ao tatear minha mochila, o seu puliça me disse que havia tocado "em algo duro e pesado". Até que eu gostaria de possuir algo duro e pesado naquele momento, mas o objeto nao-identificado era meu molho de chaves. Minhas chaves compoem 60% do peso que carrego na mochila, portanto, compreendi a desconfiança. 

Passeando pelo tribunal e nos deparando com pessoas de roupas curiosas, chegamos a um cartaz que dizia "Aide juridictionnelle". Depositamos nosso dossiê que, diga-se de passagem, nao foi aceito. Tinhamos todos os documentos que nao eram exigidos e nao tinhamos nenhum dos quais eles necessitavam. A burocracia francesa, meus amigos, vou explicar como funciona: nao pediram tal documento? Levem-no. Pediram? Levem cinco copias. Quase quatro anos na França e eu ainda nao entendi. Mas volto hoje com a certidao de nascimento do meu cachorro, morto na Paraiba, em 1998. Cês vao ver.

Saindo do tribunal pra recuperar nossas bicicletas, coloquei meu mp3 e Camilo perguntou surpreso: 

- Nossa, o teu ainda funciona?
- Eeeh... funciona, ué. Por que? O teu nao funciona?
- Nem sei, faz tempo que nao uso.

Nos despedimos e, no momento em que coloquei meus fones, vi que o som nao estava saindo como deveria. Gente, praga de ex é pior que praga de mae, é isso? Desconfiada, segui em direçao ao Centro Comercial. Foi quando me deparei com um semaforo. Freei, mas ao inves de sentir o freio, a unica coisa que senti foi o cabo do freio se partindo. Eu olhei pro cabo solto, olhei pra rua, olhei pro cabo solto, olhei pra rua e recorri ao método Fred Flintstone e freei com os pés. Ridiculo. Continuei o resto do percurso até o Centro a pé, levando a bicicleta pra passear, mas me perguntando como eu iria fazer pra chegar em casa (25 min de bike). 

Como ainda faltava umas duas boas horas pro encontro, me sentei em um sofazinho que recebe todos os mendigos da regiao, e eu, e continuei a leitura do meu livrinho. De repente, um cara (que passava anos-luz dos meus criterios de beleza) me pergunta as horas. Pergunta em francês, respondo em francês, mas a continuaçao da conversa é:

- Do you speak english?
- Non.
- Você é de onde?
- Brasil.
- No Brasil nao se fala inglês?
- Nao.
- E você estuda aqui?
- Sim.
- E você mora aqui?

Eu fiz a minha pior cara, a cara mais terrivel. A cara mais cruel. Aquelas que eu soh faço quando o pneu da minha bicicleta fura antes de um encontro importante. Mas mesmo assim, mesmo depois de quase enfiar o livro na minha cara pra mostrar que eu estava indisponivel para conversa, mesmo depois de quase enfiar o livro na cara dele pra ajeitar um pouco aquilo, o cara continuava me perguntando coisas e sorrindo e até mudou de posicao pra ficar mais perto de mim. Oin.

- Moro. Moro com meu marido.

Eh batata, véi. O cara te assedia atééééé o momento em que você convoca a figura (inexistente) de um outro macho. Idiotas. Sério. Vocês pensam o que? Que vocês vao chegar com esse papo mole em uma pessoa que, visivelmente, nao apresenta o menor sinal de interesse e, apos meia duzia de perguntas obvias, a gente vai montar em cima de vocês e implorar por sexo? Vao tentando... Se bem que eu tava com tanta fome que se ele tivesse me oferecido um pedaço de pao seco, eu teria emprestado meu corpo. Emprestado. 

As duas horas e a leitura avançaram. Fui encontrar minhas amigas que estavam acompanhadas de uma muçulmana. No restaurante (finalmente!), falei das minhas aventuras no tribunal e ela contou como foi seu casamento. Disse que usou sete vestidos no dia da festa e, no momento mais esperado, naquele em que ela iria aparecer usando seu primeiro vestido, o noivo dela disse, decepcionado, "ta parecendo o terminator!" 


Casa comigo? 


Eu ri! Mas nao muito que era pra nao constranger demais. Dai, pedimos a boia e, enquanto eu mastigava vacamente minha deliciosa salada, observei que tinha um pedaço de salada transparente que, apos mais alguma investigaçao, se revelou como sendo um pedaço de plastico. Achei interessante a proposta francesa de querer aproveitar até mesmo os sacos plasticos da salada para compor seus pratos, mas ainda nao adotei essa dieta. Perguntei a garçonete o que era aquilo e se eu poderia comer. Ela levou o pedaço da minha salada transparente embora sem dizer nada e nem ganhamos sobremesa gratis. Alias, eu ganhei, mas nao por mérito dela. Valeu, Aline! Pedi minha sobremesa sem plastico e a garçonete nem riu. Franceses.



quinta-feira, 7 de março de 2013

Meu filhote de leao, meu raio da manha

Acho que eu passei tanto tempo sem postar, porque nao queria contar tudo o que me aconteceu nesse ultimo ano, relembrar e cutucar a ferida, mas tambem nao queria atropelar o que eu vivi e o que eu morri (e fiz mais isto que aquilo) e continuar a postar aqui como se nada tivesse acontecido. Entao, sem enrolar e puxando o band-aid de uma vez soh pra nao doer muito, eu vos anuncio que Camilo e eu terminamos. E terminamos ha tanto tempo, que ja nem doi dizer isso. Nao disse antes porque doia, porque eu posso brincar com um tumor raro, com o fato de ter um coracao que nao funciona bem, mas finalmente achei uma coisa da qual nao poderia brincar. Acho que nao preciso enfeitar esse post e tornar essas linhas especiais pra mostrar o quanto foi linda essa relacao, nao eh? Porque, se eu precisasse fazer isso, eu diria que, apesar dos motivos que nos levaram a terminar o namoro, eu nao me arrependo. Eu nao me arrependo de nada. Eu diria ainda, que parece que passou uma vida desde que ele me provocou o ultimo sorriso, mas enquanto eu me lembrar do primeiro, eu vou saber que a gente tinha que passar uma parte da nossa vida juntos. Camilo me colocou num pedestal, cuidou de mim, funcionou no modo "injecao de auto-estima de Luci" durante cinco anos. Se esforcou pra me convencer de que eu era linda. Nao me deixou desistir da faculdade. Ele me deu tanto amor que quase me consertou... 

Mas eu nasci quebrada, amor, e cirurgia nenhuma e amor nenhum vai conseguir me consertar. Eu agradeco a devocao, o esforco e o pedestal. Espero que tu saiba que nao foi o excesso disso tudo que me fez ser fraca nesses anos todos. E eu espero que tu nao se arrependa tambem. Tu fez minha vida mudar (muito antes de eu pensar em por os pes na Franca). Tu me ensinou a nao usar saquinho plastico e a nao ter orgulho. Essa eh uma das melhores coisas que ha em mim e foi tu quem me deu, tu me libertasse de uma prisao. Espero que eu tenha te deixado alguma coisa boa, alem das lembrancas. E agora, vou parar por aqui, porque chorei demais pra quem disse que ja nao doia. 

Senhoooor, por que me fizeste de seda? 

Pelo visto, o jeito eh me fumar...

(Senhoras e senhores, eu voltei).   

sábado, 17 de novembro de 2012

Isso nao é um post.

Nao. Nao voltei. Na verdade, o blog é a ultima das minhas preocupaçoes. Penso até em catar os carrapatos dos macacos do parque, mas nao penso em postar aqui. So tou escrevendo pra dizer que tampouco eu vou parar com o blog (lovo) e que eu tou bem, gente. Ainda tem gente preocupada. Tenho recebido lindos emails, mensagens, pedidos de casamento, mas ninguém me da dinheiro. Prometo um dia responder a tudo direitinho, mas por enquanto, a vida tem me esgotado. 

Vou no parque. 

Talvez

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