domingo, 15 de setembro de 2013

Pequenas crônicas de um coraçao partido - parte II


Ah, se tivesse sido tao romântico assim...


Depois de um post mela-cueca, alias, mela-calcinha (alguém me explica porque 95% das pessoas que leem meu blog é formada por mulheres? Nada contra as mulheres, eu até sou uma, mas...), vou mostrar a dura realidade de uma cirurgia no coraçao. Atençao! Os relatos a seguir serao fortes. Pessoas com problemas no coraçao (sobretudo vocês, hahaha), crianças e amigos sensiveis, evitem a leitura das linhas que se seguem. 

(Pros que acabaram de desembarcar no blog...) Ano passado, descobriu-se que eu tinha um tumor de 3 cm na supra-renal direita. Foi descoberto assim, por acaso, apesar dos efeitos provocados serem ja bem evidentes. Enquanto os médicos faziam os exames necessarios para a operaçao de retirada do tumor, descobriu-se ainda que eu tinha uma abertura de 3 cm no lado direito do coraçao. Percebe-se que meu corpo tem alguma implicância com "3" e lado direito. Mas poderia ser pior. Eu poderia ter três maos direitas. Ou um pênis de três centimetros na coxa direita. Ou três olhos direitos. Ou, pior ainda, eu poderia ser de direita até a terceira idade.

O tumor foi pro lixo numa operaçao bem sucedida e, 417 dias depois, chegara a vez do coraçao. O meu problema, nao era assim tao grave. Um pequeno sopro. Pra quem ignora o que seja, uma foto pra ilustrar o problema.


Uma pequena abertura que provocava um desvio no curso normal do sangue que, por sua vez, provoca um monte de coisa ruim que eu nunca procurei saber o que era porque o importante eu ja sabia: eu nao tinha escolha. A cirurgia foi marcada para o dia, adivinhem, 03, mas eu tinha que entrar no hospital no dia anterior. Como a vida costuma conspirar quando você ja ta toda lascada, minha orientadora deu como prazo o dia 02 para a entrega do trabalho de conclusao da primeira parte do mestrado: eu tinha 15 dias para redigir 40 paginas em francês. Na verdade, eu tive alguns meses para fazer isso, mas soh tomei tino duas semanas antes, de modo que, horas antes de entrar no hospital, eu ainda estava preparando a conclusao. Porque a vida precisa de emoçao.

No hospital, dividi o quarto com uma senhorinha de 83 que tinha acabado de fazer uma cirurgia no coraçao. Ela perguntou: 

- Você vai fazer uma cirurgia de quê?
- Do coraçao.
- Sim. Claro. Mas de quê?

Aih eu lembrei envergonhada de que a gente tava no... Hopital Cardiologique. Apos corar levemente, tentei disfarçar, expliquei meu problema sem muito entusiasmo e ela se danou a falar da sopa que tava tomando. "Porque quando a gente vive uma guerra e passa fome, qualquer refeiçao é deliciosa". Eu tava de costas pra ela e, quando ouvi aquilo, meu olhos brilharam, minha cabeça fez uma volta de 180° e eu perguntei "gue-guerra? Que guerra?". A Segunda, meu povo. 

E daih ela começou a contar como foi, dos amigos que perdeu, do tanque de guerra estacionado na calçada dela que bombardeava o bairro e eu la, achando tudo lindo. Foi dificil imaginar o sofrimento vivido e os barulhos até ela começar a peidar. Sim, peidar. O primeiro peido durou tempo suficiente para que lagartas se transformassem em borboletas. Ela tava sentada num tipo de troninho instalado numa poltrona e sua missao do dia era fazer cocô. OU SEJA, eu estava confinada num quarto com uma mulher desconhecida que deveria cagar. E, à isso, eu preciso adicionar o fato de que... ela tentou. Ela peidou o mundo naquele quarto de hora. O cheiro subiu e eu, pobre coitada, com os olhos marejados de nausea, continuei impassivel para nao constrange-la.

- Um casal de amigos, que tinha pouco mais de 18 anos, foi levado pra um campo de concentraçao.
- Eles eram judeus?
- Eram nada. Mas foram levados assim VRRRRAAAAA mesmo. Eles estavam conversando na calçada.
- Eles foram levados pra onde?
- Primeiro, VRRRRAAA pra Alemanha, mas depois, VRA VRAAAA, eu perdi o paradeiro deles.

Gente. Eu me perguntava o que ainda restava dentro dessa mulher para que ela ainda continuasse cagando, mas quando a enfermeira entrou no quarto e perguntou se ela ja tinha terminado, ela disse que nao tinha conseguido fazer nada! Quis dizer que ela estava errada e que ela tinha conseguido me fazer perder o apetite, mas me limitei a comemorar internamente o fato de que a porta estava aberta.

No dia seguinte, às 13h, o maqueiro veio me buscar pra me levar pro bloco cirurgico. O cara era tao bonito quanto Brad Pitt e tao gay quanto Elton John. Sem problema, eu nao estava em condiçoes de exibir meu chalme naquele momento: depois dos remedios que me deram pra que eu chapasse relaxasse e aquela camisolinha de hospital, eu nao ia conseguir chamar a atençao dele nem se eu fosse o mais divino dos gays. A velha também elogiou a beleza do homem.

Cheguei na sala de cirurgia meio drogada e ja nessa hora, eu nao lembro de quase nada. E eh a partir desse momento que o drama se acentua. Abro os olhos, apos ter passado um longo momento passeando no limbo, e começo a sentir todos os invasores do meu corpo: um tubo na goela, outro entre as pernas, no nariz e, os mais incômodos, no peito. O médico, ao ver meus olhinhos abertos, vem e retira o tubo da garganta. Fez cocegas, mas nao as do tipo que te fazem rir. Meus olhos se encheram de lagrimas (reaçao normal apos compressao de algum nervinho local) e eu fiquei la, estatica. Vi as horas passarem com rapidez. Nao porque eu estava distraida, mas porque eu voltava a dormir por longos periodos.

No dia seguinte, fui levada a um quarto com duas camas. Ocupei a primeira e dormi. Meus amigos foram chegando, dei um oi drogado e dormi. Recebi presentinhos e dormi. A gente conversou e eu dormi. Eu tava bem louca. Eu nao queria falar, nem abrir os olhos. Na verdade, eu nao queria nem respirar, mas meus pulmoes eram teimosos. Mas o melhor momento foi sem duvida aquele em que ha a troca da roupa de cama. A troca se faz com o paciente na cama. Realizem. Eles levantam meus pés ao mesmo tempo em que vao retirando o lençol, me suspendem os quadris enquanto uma outra figura vai projetando o lençol limpo no colchao, até que todo o meu corpo tenha sido levantado, por partes, e um novo lençol tenha tomado o lugar do sujo. Falar sobre essa experiência nao me perturbou e me tomou somente alguns segundos do meu tempo. Viver a experiência me fez querer chutar aquelas mulheres e sentir dores em lugares cuja existência eu ignorava.

Quando nao eram visitas de trocas de lençol, eu recebia no quarto as responsaveis por me dar banho. "Banho". Elas tinham que passar uma esponja com sabao e depois agua no corpo todo. Esse momento era até relaxante. O problema é quando elas queriam lavar as costas e dai eu tinha que sentar. Soh que, quando você tem que sentar tenho uma abertura de um palmo recem-fechada no peito, sentar significa sentir dor. Muita dor. Tentei explicar que no Brasil as pessoas nao lavam as costas, um costume ancestral, praticado pelo povo local antes mesmo da vinda dos portugueses, mas elas me ignoraram e, quando dei por mim, tava sentada, choramingando e sendo lavada.

Quando nao eram as visitas de troca de lençol ou as de banho... o pessoal da radiologia chegava pra bater foto dos meus pulmoes. E dai eu tinha que levantar as costas da cama pra posicionar a placa na altura dos pulmoes. Dor. Muita dor. Minha vida, Brasil.


Mas nada era comparado à dor provocada pelas duas mangueiras enfiadas na lateral do meu peito. Eu nao tinha ideia de como exatamente elas estavam instaladas e fazia menos ideia ainda de como elas seriam retiradas. Por causa delas, era dificil mexer o braço direito. Eu não poderia fazer uma saudação nazista nem se eu quisesse. Mas isso me fez perceber algo obvio e pavoroso: o corte da cirurgia foi realizado no peito direito. “Misericordia... O que foi que eles operaram ?” Ja estava me preparando psicologicamente com a ideia de portar somente um pulmão, mas eu realmente estava na ala de cardiologia. Tudo certo. Ou quase.

Novo quarto apos a cirurgia, nova companheira de quarto. Esta compartilhava duas coincidências em relaçao à anterior: foi criança durante as Cruzadas a Segunda Guerra e peidava com vigor. Anna e Paula estao de prova ! Mas ela tinha um plus... Ela roncava.

Leitores queridos. Eu ignorava que um ser humano, tao pequeno e, aparentemente, tao frágil, pudesse emitir um som tao potente. Não deveria haver um soh musculo naquela garganta que prestasse pra alguma coisa. Dormi duas noites com meus fones de ouvido – sem musica. Numa delas, dormi três horas. Privada de sono, passei pelo menos uma hora ouvindo a melodia do ronco dela antes de decidir me entregar à televisão (em silêncio, usando os fones de ouvido). No dia seguinte, madame acorda e pergunta com um fio de indignação: “você assistiu televisão tarde da noite, não foi?” Fiquei calada porque sou lesa não queria contraria-la, mas admito que ja tava cansada dos pitacos e reclamações da véia.

Mais cansada ainda eu tava do cheiro que emanava do meu couro cabeludo. O banho de esponja que as enfermeiras me davam não se estendia à cabeça e, como em Lyon estava fazendo 78 graus, na sombra, e a véia tinha decidido fechar as persianas pra evitar a entrada de sol e oxigênio no quarto, eu transpirava por cada poro e mangueira do meu corpo. “Não morri com a cirurgia, vou morrer de calor. Que lindo”. A partir do segundo dia, comecei a sentir um cheiro de macaco velho. Era eu. Minhas lindas madeixas encaracoladas, ao termo de três dias roçando no travesseiro, tinham virado um ninho de rato. Uma enfermeira se apiedou da minha situação e com grande bravura se apresentou para pentear meu cabelo. Eu ri. Expliquei que ela poderia ainda encontrar na minha cabeça as mãos das pessoas que tentaram tocar no meu cabelo. E eu continuei la, na cama, parecendo a doida dos gatos. 

Gostaria de ter mais registros desses momentos. Eu deveria estar realmente um primor. Cabelo em pane, entubada, suada, cansada e fedida. Beth disse que eu dormia no meio das conversas e acordava respondendo à perguntas feitas dez minutos antes. Mas eu não dormia. Eu piscava o olho lentamente. Os primeiros dias foram bem dificeis. Eu tinha uma bombinha de morfina que eu podia acionar quando eu sentisse dor, mas ela soh liberava morfina a cada dez minutos e, na boa, eu nao via diferença nenhuma entre antes e depois. Eu nao, mas a velhinha do meu lado sim. Ela disse que a ultima vez que deram morfina a ela, depois de uma cirurgia no fêmur, ela teve visoes e caiu da cama! "Tinham coisas andando no meu quarto! Eu vi. E nao quero tomar morfina dessa vez". Pensei "nem eu quero que a senhora tome". Credo.

 Com o passar dos dias, foram me desentubando. Assim, ganhei uma mobilidade importante e a permissao de tomar banho! Eu sentia como se tivesse ganho na loteria. Eu podia me levantar, andar (andei cinco metros no quarto dia e senti que esses passos foram tao importantes quanto os de Armstrong em 69). Eu poderia ir sozinha no banheiro. E eu até deveria, senao a enfermeira teria que recolar a sonda na uretra. Horas depois, a enfermeira me perguntou com a mao na cintura:

- Você ja fez xixi?
- Nao... :D
- Mas voce nao esta bebendo agua suficiente?!
- Na-nao... :/
- Ah é? Você quer que eu coloque a sonda de volta?
- Nao :(

Aih eu sai correndo pra mijar. As enfermeiras pareciam minha mae, aff. Como vocês podem ver, fui bem cuidada. Voltei pra casa e tou sendo assistida por minha coloc que, olha que sorte, é enfermeira! Pra finalizar as boas noticias, minha orientadora disse que tinha gostado do meu trabalho. Agora, hora de descansar: muita informaçao pro meu coraçao.




domingo, 8 de setembro de 2013

E a mae, joana.


broder, e essa força?

por aqui, tudo bem. posso começar a falar do tempo, ja que a senhora sempre pergunta se aqui ta frio ou quente. é verdade que o clima pode influenciar bastante nosso humor, mas ultimamente tenho me sentindo tao bem, que deixei de ir à janela checar o rumo dos ventos pra decidir se ponho um sorriso ou se o guardo no bolso. gostaria de explicar porque me sinto bem, mas pra sua decepçao, é sem motivo aparente, mais ligado às minhas drasticas mudanças de humor do que propriamente à um emprego novo. ou esse bem-estar seja talvez porque eu tenha me dado conta de que um emprego, ainda que novo, nao vai contar em nada à minha felicidade. talvez conte à minha conta. mas nao conto com isso. mas te conto que (parei) estou bem simplesmente porque, aqui, ja sofri demais. mas nao era um sofrimento sabido. eu soh soube que fui triste porque agora eu sorrio. ainda que sem motivo. desculpa. na verdade, tem um motivo. ou varios. mas nao sao aqueles motivos-clichês: estabilidade, labrador no jardim ou carro na garagem. e ja me adianto que nao ando feliz porque descobri que o grande segredo da felicidade é mudar de carreira do nada, trabalhar menos, se ocupar mais dos filhos, seguir seus sonhos ou começar a procurar beleza nas pequenas coisas da vida, como o caminhar de uma joaninha no nosso joelho. eu sempre soube que joaninhas eram indicadoras supremas de gente feliz. ou sensivel. joaninhas ja me fizeram muito feliz. a ultima, inclusive, me fez feliz ha umas três semanas, quando eu tava colhendo damasco la em larnage. o sentimento provocado nesta mulher de 28 anos, foi provavelmente o mesmo produzido em qualquer outra criança que vê uma joaninha pela primeira vez na vida. o mundo todo para de mexer. e aquela joaninha se torna imensa. e vai dançando desajeitada na nossa pele. e vai deixando, em cada passo, um carinho. e, de repente, o nosso coraçao começa a queimar e o sorriso começa a sorrir e, sei la porque, a desgraçada da joaninha voa no apice do momento. e a realidade volta, os carros buzinam, você levanta o rosto e o mundo ta ali de novo, como era antes da joaninha decidir dançar. decidi parar de procurar felicidade em coisas tao efêmeras, mas nao pretendo afastar a possibilidade. 

mas mainha, nao tou escrevendo pra falar de joaninhas, ainda que eu saiba que a senhora poderia me escutar falar durante horas sobre um assunto tao banal. (...) desculpa, joaninha. tao "banal". eu tou te escrevendo pra dizer que eu ja fiz a cirurgia do coraçao e, por favor, maezinha, nao se sinta traida. eu nao vi nenhum interesse em amargurar esse seu coraçao falando da data ainda que ele seja bem saudavel (apesar dele estar batendo ao dobro do tempo que o meu). nao disse nada porque eu sabia que, enquanto meu coraçao estivesse sendo consertado, o seu estaria paralisado. mas pra te acalmar: tou bem. de novo. os detalhes eu conto em casa, ao telefone, porque ainda tou no hospital. mas tou aqui de boa, sem absolutamente nenhum cateter ou soro ou sonda ou dor, onde as recomendaçoes se limitam basicamente a "nao dar bunda canastica" ou "nao dançar a macarena bêbada". mas de qualquer jeito, eu nao faço mais isso – nao danço a macarena. sigo à risca as recomendaçoes do médico e as enfermeiras estao derretidas por mim. acho que ainda nao sou a queridinha de todas elas, mas pretendo me transformar deixando (comida e) um bilhetinho agradecido em cima da cama antes de ir embora. sou absolutamente a favor de bilhetinhos. dentro do bolso do amigo, na carteira do amado, na cama - ainda que seja na de um hospital e pra uma mulher. mas quando falei de traiçao, nao me referi propriamente ao fato de nao ter revelado a data. falo na verdade, da escolha de ter feito a cirurgia aqui, tao longe da senhora. mas segui meu coraçaozinho fudido e apostei que teria aqui o suporte necessario (nao o melhor) pra realizar a cirurgia. 

quando acordei sozinha na sala de reanimaçao, me senti infinitamente sozinha. eu tive um sonho quando era criança, provavelmente o sonho mais bizarro que ja tive na vida (eu sei, sonho bizarro = pleonasmo, mas). eu, numa piscina profunda, me deparo com uma vaca amarrada em cima de uma cama, as quatro patas atadas em cada ponta dela. e nesse momento do sonho, nao havia barulho. eu sentia uma angustia enorme de ver aquele bicho que, ainda que vivo, nao se debatia debaixo da agua. eu queria procurar a superficie, mas nao me mexia. ficava ali, vendo a porra da vaca turva e aquele silêncio ensurdecedor, aquela solidão azul. quando acordei sozinha na sala de reanimaçao, eu tava presa à cama, anestesiada. tinha pelo menos um tubo saindo de cada buraco do meu corpo, dois que saiam grotescamente da lateral do meu peito direito diretamente pra uma caixa de plastico e outras tantas agulhas presas às maos e aos braços. e naquele silêncio, soh me limitei a seguir o medico com os olhos. e toda vez que eu me sinto sozinha, eu lembro desse sonho, desse vazio. e nessa hora, eu me senti realmente sozinha, solidoes que soh uma doença é capaz de proporcionar. mas dessa vez, eu decidi me mexer. e fui la pra superficie tomar fôlego, deixei o silêncio, a agua e a vaca pra la. enfrentei quatro dias de claustrofobia em cima de uma cama porque nao podia me mexer e o que me enclausurava era meu proprio corpo. mas olha. tou aqui escrevendo esse email. tirei os tubos. guardei os buracos.

e sabe, no primeiro dia no quarto, recebi tanta gente, que fiquei de saco cheio (nada pessoal, pessoal): nao podia falar direito. e eles trouxeram porcos de pelucia, chocolates, paes, cookies, livros, bombons e até vieram, num dia de tempestade, me ajudar na correçao final da minha monografia (inclusive, a entreguei hoje). eles se revezaram pra corrigir os erros de ortografia e fizeram uma tabela com os dias de visita, pra que eu nao passasse nenhum dia sozinha no hospital. nico me abraçou tao forte quando voltou de viagem que eu senti o coraçao dele bater contra meu peito. e priscilla, quando se despediu hoje, pegou meu rosto com as duas maos, deu um beijo bem longo e, quando pensou em largar meu rosto, voltou a beijar a bochecha e rimos juntas como um belo casal de lesbica que nao somos. e eu soh pude ter vivido essas coisas, porque eu apostei que aqui daria tudo certo. era garantido que com a senhora eu nao passaria nenhuma privaçao, mas eu decidi arriscar. e ganhei. é por isso que eu tenho me preocupado menos com o tempo. essas pessoas sao minhas joaninhas de felicidades não-efêmeras. pode sorrir.


com amor, da filha querida


luciana

(é bom especificar, ela tem duas).

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Qual o problema de ser uma puta?

Li um artigo em francês que entra na série "mais atual, impossivel" e que, por sua utilidade publica, me fez querer traduzi-lo e publica-lo neste meu amado espaço. Por favor, nao analisar muito o nivel da traduçao, eu fiz o que pude. Foca no que interessa.

A verdade sobre as verdadeiras putas


Eu sou uma puta. Uma puta de puta, puta. Eles dizem isso direto. Os que leem meu blog e nao estao de acordo com o conteudo. Os que nao me amam. As mulheres que pensam que o sexo é repugnante. Os caras que querem boas meninas pra apresentar às suas maes e que pensam que, porque eu falo abertamente de sexo, eu nao gosto dos jantares de familia ou das maes.

Eles tem muitas razoes pra pensar o que eles pensam. Eu ja dormi com um monte de homem. Mais de dez. Mais de vinte. A gente continua ? Eu ja escrevi muito sobre minha vida sexual. Eu dividi historias pessoais porque eu pensei, e penso ainda, que nao somente eu escrevo bem, mas que eu escrevo uma boa histoira. Uma historia que, eu ainda estou convencida, tera um "happy ending" em alguma parte nessa porra, entre os emails injuriados e o papel que alguem colocou no carro da minha mae, estacionado numa estacao, no qual estava escrito "eu espero que voce esteja orgulhosa da puta que voce educou". 

Eu comecei a assistir a série The newsroom, de Aaron Sorkin. No começo, eu odiei o personagem de Sloan Sabbith. Essa cronista de economia, excepcionalmente atraente, loucamente inteligente e jamais desprovida de uma reposta espirituosa.

Atençao, spoiler, se você assiste à série.

Eu assisti o episodio que saiu no domingo passado. Dois momentos que prenderam mais do que tudo. Maggie pergunta à Sandra Fluke : "qual é o problema de ser uma puta ?". O segundo momento, é uma situaçao complicada na qual se encontra Sloan Sabbith. Ela sai com um cara. Ele tira fotos dela, ela ta de acordo, depois ela termina a relaçao. Ele publica as fotos na internet. O mundo inteiro vê o corpo da jovem menina. Sua carreira esta em perigo. Todo mundo fica sabendo. O rumor corre solto. Ela se senta no chao de um quarto escuro, chorando, e diz baixinho : "eu quero morrer".

Eu nunca me imaginei um dia me sentir grata à Aaron Sorkin. Por tudo. Mas eu agradeci baixinho à Aaron Sorkin.

Mais ao longo do episodio, Sloan Sabbith da de cara com seu ex, que publicou as fotos, no momento em que ele esta no meio de uma reuniao. Ela da um chute no saco dele, acerta uma direita e tira uma foto do seu nariz sangrando.

A puta ganhou. E isso, meus amigos, é magico. Porque, vejam vocês, a puta nao ganha nunca. As meninas que tiveram suas fotos publicadas na internet, nao ganham nunca. Elas perdem o emprego delas e a reputaçao. Elas sao humilhadas e forçadas a levar sua vergonha. Vergonha de seus corpos. Elas devem se desculpar por serem sexualmente ativas no meio privado. Por essas coisas que nohs fazemos na intimidade de nossos quartos que nohs nao deveriamos fazer, mas que nohs fazemos mesmo assim, porque existem nove bilhoes de habitantes nesse planeta e eles chegaram aqui de uma maneira ou de outra. Sloane Sabbith se senta no seu quarto escuro e diz : "eu quero morrer". Porque ela deixou seu namorado tirar fotos e ele as publicou. Nao foram fotos dela matando cachorrinhos, batendo em criancinhas ou estuprando pessoas idosas. Sao fotos dela. Do seu corpo. Essa coisa que vive sob suas roupas. As partes do seu corpo que sao, de certa maneira, mais ofensivas que os dedos dos seus pés. 

Depois chega Maggie com essa frase que resume o que eu me esforço dizendo ha muitos anos. "Qual é o problema de ser uma puta ?"

Fim do spoiler

Nohs temos todas medo de receber essa etiqueta. E a ironia dessa historia, é que a maior parte de nohs (e talvez eu esteja errada sobre esse ponto, mas eu estou quase certa de ter razao) fazemos essas coisas como as verdadeiras putas fazem. Nos tiramos fotos. Nos enviamos mensagens de texto safadas. Nos dormimos com nossos namorados. Nossos maridos. Nos chupamos. Nohs nos despimos. Nohs temos uma vagina. Nohs a utilisamos. Algumas entre nohs, as vezes, sentem mesmo prazer em utilisa-las. Nohs temos seios e mamilos e nadegas. Entao, com certeza, nohs deveriamos todas ter vergonha. Porque somos as unicas a fazer esse tipo de coisa. Você me entende, você, mulher do mundo inteiro ? Você é a unica a fazer o que você faz com esse cara (ou essa menina, ou pior, COM OS DOIS). E isso é tao terrivelmente ofensivo, ruim e vergonhoso. Como? Você quer saber por que ? Oh. Porque… puta ?

Me chamaram de puta outro dia, na internet, no que deve ter sido a milésima vez. Por causa de um artigo que eu escrevi sobre o emprego de barman. Como se fosse também uma injuria. Eu nunca ganhei o prêmio Pulitzer. Mas vocês sabem quem eu sou ? Uma boa pessoa. Eu sou perfeita ? Nao. Eu cometo erros ? Absolutamente. Grandes erros ? As vezes. Eu fiz coisas das quais eu me arrependo ? Sim. Eu faço coisas que eu nao me arrependo mas que, segundo alguns, eu deveria me arrepender ? Sim. Eu sou um ser humano. Eu tenho seio. E uma vagina. E a maneira com a qual eu os utiliso nao faz de mim alguém bom ou mal. Eu escrevi uma vez que se uma mulher descobrisse uma vacina contra a aids, mas no dia seguinte fotos dela nua com um vibrador viessem à tona, essa ultima parte seria a manchete dos jornais. Porque, evidentemente, os vibradores fazem mal às pessoas (piadas à parte). Evidentemente, uma mulher tendo uma relaçao sexual ofende as pessoas. Uma mulher tirando fotos dessa coisa assustadora sob suas roupas ? Falemos sério, eu nao diria que seria tao horrivel quanto uma criança com cancer, mas… na verdade, sim.

Eu agradeci silenciosamente Aaron Sorkin, nao porque ele soube sair do pensamento quadrado e abrir um debate sobre o sexismo, as mulheres e "dois pesos, duas medidas". Esse duplo padrao incrivelmente frustrante, existirah até o fim da minha vida e ainda muito tempo depois disso. Desculpa cortar seus coraçoes, senhoras. Mas eu agradeci Aaron Sorkin de ter dado à puta "aberta" o "happy ending". De ter lembrado ao mundo que a puta que se deixa flagrar fazendo coisas (que todo mundo faz) e que ninguém ousa fazer, é ainda sim, alguem bom. Que mesmo com internet, os blogs de fofoca e de "dupla moral", as putas podem ganhar sempre. E ter esses momentos onde elas atingem o saco de um cara e o faz se arrepender de ter um pênis nesse momento, da mesma forma que as mulheres se arrependem de ter uma vagina quando uma foto da dita vagina é publicada na internet. 

Eu me recuso a me desculpar de ser uma verdadeira puta e de escrever sobre esse assunto se isso puder evitar que uma menina, nesse pais, se sente num quarto escuro dizendo que ela quer morrer porque a chamaram de puta. Por lembrar ao mundo que as putas podem fazer boas açoes. Elas praticam esporte, ganham trofeus e ajudam doentes. Elas ganham causas e eleicoes. Elas amam suas familias. Elas podem ser boas amigas que trabalham voluntariamente num abrigo de animais e que enviam correios aos soldados no exterior. Elas podem dar 10$ a um sem-teto que ninguém da atençao. E elas nao fazem isso por se desculparem por serem putas. Elas o fazem porque ela sao boas pessoas. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Round II

Meu coração tá batendo
Como quem diz:
"Não tem jeito!"
Zabumba bumba esquisito
Batendo dentro do peito...

Falei aqui, mas aparentemente nao expus suficientemente minha vida. Hohoho. Post rapido pra acalmar os coraçoes - porque sei o que é um coraçao preocupado.

Teu coração tá batendo
Como quem diz:
"Não tem jeito!"
O coração dos aflitos
Pipoca dentro do peito
O coração dos aflitos
Pipoca dentro do peito...

Crianças, vou fazer um breve post relatando com mais detalhes o que ha. O que haverah: preciso fazer uma cirurgia pra corrigir o que conhecemos como "sopro no coraçao". Ponto. Nasci com isso, nao quero morrer com isso. 

Como eu gosto muito do meu coraçao, apesar das coisas que ele me faz sentir... (ou justamente por isso?) eu gostaria de remenda-lo. Isso me darah algo como uma melhor qualidade de vida. Qualidade de vida pra mim é tomar cerveja na beira da praia com meus amigos. Ou tomar cerveja, somente. Mas ao que me aparece, os medicos nao estao de acordo com minha simploria filosofia de vida e logo vou fazer outra temporada num hospital lionês. 

Vou mandar consertar o bichinho aqui mesmo. Fiquei apavorada com a historia do tumor, por isso fui pro Brasil. Acho que a tal depressao nao ajudou muito, mas, uma vez esta ultima vencida, estou de peito aberto para receber uma nova cirurgia por aqui mesmo. Mais estrupiado do que ele estah, ele nao pode ficar. Eh o que esperamos. 

Coração-bôbo
Coração-bola
Coração-balão
Coração-São-João
A gente
Se ilude, dizendo:
"Já não há mais coração!"...


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Je dis aime!

Ontem tive uma noite linda com um homem. Eu, ele e mais dez mil pessoas. Foi uma orgia à céu aberto, num dos meus lugares preferidos em Lyon. O nome do sujeito é Mathieu Chedid e ele é dono dessa cara:



 Ele também é dono dessa aih embaixo. Mas eu o aceito como ele é. 


Sou lindo.

Gosto. Gosto dele. Tem voz fina e, sei la como, consegue ser sexy - falou a pessoa que gosta de homem-macho, sabe. Brucutu. Que coça o saco, cospe no chao e da tiro pra cima. Mas nao acreditem em tudo o que eu digo. Dai, desembolsei uma grana - que daria pra me deixar bêbada durante uns dois dias - num ingresso e, NOVE MESES depois, la estava eu, euforica e palpitante pra ver o homem cantar. E dai, ele cantou, eu cantei, ele dançou, eu dancei, ele gritou, eu gritei. Ele rico graças a mim e eu pobre por causa dele. Os dois felizes. Isso que importa. Foi bom pra você? Foi. Quando a gente se vê de novo? Em novembro: cabei de comprar outro ingresso pra vê-lo. Prazer, meu nome é Luciana e eu sou impulsiva. Sou pobre. Passo fome, mas nao passo vontade.

J' veux pas finir ma vie à Honolulu
Chanter comme un oiseau çà n'se fait plus
Je veux ma voix brisée, triplement brisée !





Ps. Oui, cops Elisabeth, vamos juntas! :D

::

Vou viajar, volto em julho com novas aventuras. Essas, prometem. E, se eu morrer, quero que vocês saibam: amo minha mae. E Fabio. E minha irma. Véi, eu amo minha irma. 

terça-feira, 4 de junho de 2013

Tom sobre tom

Um dia, enquanto eu mostrava aos meus amigos a nova cor da parede da sala da minha casa, pintada por mim mesma, a campanhia tocou. Nos entreolhamos. Estamos esperando alguém? As sobrancelhas saltaram aos pares. Gritei um "vai entrando" curioso e decidido: permitir as pessoas entrar na minha casa me possibilitou conhecê-las melhor. Foi assim com os amigos citados, por exemplo. Com varios passos feitos por duas unicas pernas, vi surgir um figura completamente desconhecida que, sem que eu soubesse, tinha por habito me espionar. Deixar cortinas e portas abertas pros vizinhos pode nao ser sempre uma boa ideia, afinal. Meu "convidado" me cumprimentou de maneira tao rude... que foi como se aquele oi em lingua estranha fosse uma maneira de insultar. E, sem que eu perguntasse, ele disse a que veio: "eu vou parar de espionar você". Nos entreolhamos. Ele esperou uma reaçao. Eu esperei entender. Ele continuou, ainda sem incentivo de minha parte: "do meu quarto, eu vi a parede da sua sala descascando. Eu vi sua tristeza, como você andava perdido. Mas também vi você tentar dar a volta por cima. Foi comprar tintas novas. Foi dificil escolher a textura. O peso das tintas comprometeu a saude da sua coluna. Você foi forte, admito, mas... Que porra de cor é essa?! Que verde é esse? Eu nao gostei desse tom. Olha, você é daltônico e nao vê problema nisso. A partir de hoje, eu nao pretendo mais espionar você". Vimos seus calcanhares se distanciarem. Meus amigos ficaram confusos. Tentei minimizar o ocorrido: "vivo bem com meu daltonismo, a nao ser que eu dirija. E eu nao dirijo nunca". E viram em mim o vermelho que nao vejo neles e sorriram. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

E que dia é hoje, amiguinhos?

Poderia ter sido apenas mais uma sexta-feira, como qualquer outra, onde saio com meus amigos e encho a cara. Mas essa, era uma sexta-feira especial. A sua "especialidade" começou pelo fato de que eu tive que trabalhar - nao trabalho nas sextas, tenho mais tempo para diversao e nenhum dinheiro para isso. Sai do trabalho e, antes de pegar o caminho que leva ao meu quarto, telefonei para um amigo (M.) que me chamou pra sair. 

"AAEE, LULUU! BORA SAIIRR! AAAEdeHHHhhhWOOW!"

Apos a sequencia de barulhos extravagantes - que mais diziam sobre o seu estado alcoolico* que propriamente sobre sua felicidade em falar comigo - subi na minha bicicleta envenenada e me juntei a M. e seu amiguinho na casa de terceiros. Eram 22h e minha barriga nao via comida desde às 13h. Pretendia voltar pra casa cedo, entao, quis ser rapida e eficaz na bebedeira: tomei meio litro de cerveja a quase 9% e ja cheguei no barco (era uma boate-barco) vendo estrela. Segundo o quadro que se encontra abaixo, eu estava "euforica" e minha diminuiçao de julgamento iria se manifestar numa aposta com M. Eu:

- Aposto que teu xixi nao chega até a rua.
- Ele chega sim.
- Que nada, ele tem ainda a metade da calçada pra percorrer e ta perdendo força.
- Chega!
- Se ele chegar até a rua, te pago uma caipirinha.

E foi assim que eu perdi 8 €.

Etanol no sangue (gramas/litro)EstágioSintomas
0,1 a 0,5SobriedadeNenhuma influência aparente.
0,3 a 1,2EuforiaPerda de eficiência, diminuição da atenção, julgamento e controle
0,9 a 2,5ExcitaçãoInstabilidade das emoções, incoordenação muscular. Menor inibição. Perda do julgamento crítico
1,8 a 3,0ConfusãoVertigens, desequilíbrio, dificuldade na fala e distúrbios da sensação.
2,7 a 4,0EstuporApatia e inércia geral. Vômitos, incontinência urinária e fezes.
3,5 a 5,0ComaInconsciência, anestesia. Morte
Acima de 5MorteParada respiratória

Entramos na boate, fomos até o bar e no final do copo, eu ja tinha passado pra terceira etapa do nosso quadro: excitaçao. Puxei papo com duas mulheres que estavam ao lado como se tivessemos feito  faculdade juntas. Mas elas eram tao legais! Acho que eu devo ter dito isso pra elas. Quis outra caipirinha, mas os meninos ainda nao tinham terminado a deles. Comecei a saltitar, a achar a vida linda. A vida era linda. A musica acariciava meus ouvidos e eu soh pensava em dançar. Fui beber.


No segundo copo, fomos pra o terraço do barco (exatamente este que estah ao lado) e continuamos a conversar divertidamente. Eu ja nao queria mais dançar. Eu queria voar. Eu queria voar, mas meus pés estavam estranhamente pesados. A partir desse momento, eu nao lembro de muita coisa, so de ver um novo copo na minha mao. No final dele, nao tive duvidas: foi o dito que me levou a dizer, segundo testemunhas, "vou ali vomitar". Estupor. 

Eu sai chutando os pés e me locomovendo como um polvo, por propulsao. Me jogava pra frente, dava dois passos e ia pra direita. Me jogava pra frente, dava três passos e ia pra esquerda. Foi assim que cheguei no exterior do barco, sentei sei la onde, abri as pernas e, sem fazer nenhum esforço, vomitei. Nao sei direito o que vomitei, nao averiguei, mas vomitei tanto que desceram lagrimas. Quando pensei que ja tinha acabado, vomitei mais. 

Celular toca. Eh M. Olho, ignoro, vomito. Tentei escrever uma mensagem mas os dedos nao correspondiam ao comando do cérebro. Foi uma luta de Titas. Meu cerebro aos frangalhos e meus dedos aflitos. Consegui escrever "Es dtour". Deve ser algum pedido de socorro em alguma lingua alienigena, mas seja como for, desisti de me comunicar com M. Tentar aprender a escrever levou menos tempo e foi mais facil que aquilo. 

Luzes... sons ao longe... e um "Lulu" familiar. M. e seu amigo me encontram e  avaliam a situaçao:

- O que é que a gente faz?
- Nao sei, acho que ela nao pode pegar a bicicleta.
(vomito soh de me imaginar fazendo algum esforço que seja)
- Eh. 
- Bora chamar um taxi.

Eu soh queria morrer. Sentia que minha alma tinha ido embora passear. Fiquei la, dobrada em dois, olhando pros meus pés. Um taxi brotou do chao, mas eu nao tinha forças pra me levantar. Entao, eles me levaram, me jogaram no carro e tudo o que eu fazia era grunhir. Entrei no carro e dormi. Abri os olhos e, com uma emoçao nunca antes vivida, me deparei com minha casa. Fechei os olhos, abri e estava na sala. Fechei os olhos, abri e tava no banheiro vomitando. Fechei os olhos, abri e  tava na minha cama. Era 1h da manha.

No dia seguinte, acordei como uma flor. Desconfiada, vi uma garrafa de agua intocada ao lado do colchao. Me sentia bem. Minha alma tinha voltado. Sentei. Tentei lembrar da minha noite e senti uma coisa estranha. Vergonha. Cinco anos sem vomitar para acabar sendo derrotada por meio litro de cerva e três caipirinhas. Fui humilhada! Logo eu que raramente tenho ressaca. Logo eu. Mas vômitos sao uma liçao de vida. Um ensinamento. Uma das ultimas vezes que vomitei (senao a ultima), foi quando morava no Brasil. Depois de uma festa na casa de Camilo, acordo e, ao lado dele, vejo uma bacia cheia de vômito. Olho pro coitadinho e pergunto:

- Amor, você vomitou?
- Eu nao. Foi tu.

Mas agora, vendo essa tabela, acho que tive sorte com essa coisa de incontinência urinaria e fezes. 

Quatro dias depois, fui buscar minha bicicleta. Meu maior medo era de encontra-la sem a sela. Mas a sela estava la, assim como o guidao e os pneus. A unica coisa que faltava era o conteudo esperado da câmera de ar: alguém excitado, confuso ou euforico, secou meus pneus. Entao, tive que levar minha bicicleta pra passear, debaixo de chuva até a casa dos meus patroes e depois pegar dois metrôs lotados (com a bicicleta) até a minha casa. "Valeu a pena, Luciana?", indaguei-me. Valeu, pois vocês tem um poste no blog e eu tenho uma liçao: nunca mais vou beber caipirinha. De barriga vazia. 




* minha dislexia bêbada me fez escrever "alcoolitro".  Gente.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Zoufris Maracas

Dia 21 de maio fez quatro anos que cheguei na França. O tempo passa rapido. Parece que foi ha quatro anos. Um amigo me perguntou, meio de onda, "e aih, ta gostando?". Pensei no frio, na musica, nas pessoas, nos lugares, nos festivais, ponderei e ele teve um sorriso como resposta. 




Por falar em musica francesa, ha algumas semanas fui apresentada à um grupo de Marselha que se chama Zoufris Maracas. Amei de cara e sigo amando loucamente. Primeiro, porque o sotaque do sul da França é um tesao. Depois, porque o vocalista é um tesao. E, terceiro, porque as letras e as melodias sao lindas. 


Esse é o vocalista. Eh, eu sei, eu sei. 
Nao agrada à tod@s, mas eu amo homen com cara de bêbado mais velho. 

Tem duas musicas onde eles fazem referência a nois. Uma se chama Bahia e a outra, Feijaon. Um dia, fiquei de ouvido ligado pra entender a letra de Bahia. O cara conta que tava numa praia na Bahia, quando ele conhece uma menina. "Uma menina a cada estaçao". E dai, ele a leva pra casa, eles se pegam, ele "acarecia os peitos" dela e ela vai tomar um banho de banheira. Ao sair, ele nota que ela, na verdade, é ele. E dai ele diz "nao tem chance!", mas dai "a menina" pega o cara, encosta ele no espelho e, finalmente, eles... bom. "Eu vou poupa-los do fim", eles diz. Entao, ele termina a musica dizendo "mas se isso te convem, que as coisas nao estejam sempre certinhas, nao hesite em te dar prazer". Gente. Vocês ouviram quantas musicas sobre homens que terminam com um travesti? A ultima frase é "Bahia, um cara a cada estaçao"*. 

Na verdade, gosto da maioria das letras. Umas, apesar de falarem de meio-ambiente, nao entram no clichê, de tao bem feitas que sao. Elas falam sobre como trabalho é perda de tempo, sobre liberdade, sobre o prazer das pequenas coisas. Infelizmente, a traduçao faz perder um pouco o brilho do original, entao, aconselho aos amiguinhos que desenrolam francês a procurarem as letras. E, no mais, à todos que tem ouvidos, Zoufris Maracas

Pour moi musique est comme l'amour
Il faudrait faire ça tous les jours
Et puis surtout recommencer

Pour moi musique n'as pas de prix
Musique connecte les esprits
Musique pimente l'existence


* Sim, sei que o Brasil é conhecido pelos seus travestis, mas pela sagacidade das outras letras, deduzo que  trata-se de uma homenagem e nao de uma tiraçao de onda. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A insustentavel beleza do ser

Eu tinha uma relaçao de amor e odio com meu cabelo. Alias, a quem estou tentando enganar? 

Eu tinha uma relaçao de odio e odio com meu cabelo. E essa relacao vinha desde pequena. Quando eu era um filhoooteeee, eu nao sabia que as pessoas poderiam gostar dos proprios cabelos. E, mais que isso, eu nao sabia que as pessoas poderiam gostar de cabelos cacheados ou, pior, crespos. Nem da cor dos meus cabelos eu gostava, afinal, a Xuxa era mais famosa que a Mara. Angélica era mais famosa que a Mara. Alias, cadê a Mara? (Viu? Gente de cabelo escuro soh se fode). Ah, Mara, se fossemos loiras! Nossas vidas poderiam ter sido diferentes!  

Na época em que eu nem sabia ler - mas que ja compreendia que nao ia ser Paquita - minha mae tentava domar meu cabelo fazendo uns penteados que nao eram nada populares entre minhas amigas e meu cabelo sempre foi motivo de piada na minha classe. - musica triste no violino - Curiosamente, era meu irmao mais velho, um verdadeiro perito em causar traumas, quem mais me importunava com essa historia, todo dia era um apelido novo. E o que dizer da minha mae que, um dia, enquanto me penteava, ja sem paciência com aquela cabeça cheia de cabelo, disse "eu passei a vida toda fazendo alisamento no meu cabelo, mas tinha esperança de ter uma filha com cabelo bom. Aih nasce essa coisa".

Pois é.

(Ja ficaram com pena da pequena Luci? Ou devo dizer que eu chorei caladinha quando ouvi isso?)

A minha mae, meu irmao, meus colegas e Xuxa acabaram por me convencer de que eu deveria ter cabelo liso. Desafiando as leis da natureza e contrariando meus genes, passei a fazer touca no cabelo com auxilio da minha mae. Para fazer a touca, os cabelos nao podem estar molhados, nem secos. E deve-se passar algumas horas com o cabelo virado pra direita e, outras tantas, pra esquerda. Isso dava dor de cabeça. Tinha sempre algum fio que ficava esticado demais ou sempre tinha algum friso filho da puta que nao tinha mais a ponta de plastico. Apesar de toda a perseverança, os frisos nao eram magicos e, quando finalmente eu retirava a touca, minha cabeça parecia uma palmeira, entao, eu amarrava os cabelos. E minha mae fazia essa toca praticamente todas as vezes em que eu lavava os cabelos.

Mais ou menos aos 11 anos, comecei a fazer alisamento no salao. Era uma coisa fedorenta, que continha formol, causava feridas no couro cabeludo, custava super caro e que deveria ser refeita basicamente a cada três meses (na parte da raiz, onde o cabelo ruim do demônio voltava a crescer). Estou absolutamente convencida de que eu devo ter passado por quase todos os saloes de beleza de Joao Pessoa (e alguns de Campina Grande), na esperança de finalmente encontrar a Fada do Cabelo Bom. Nao encontrei.


Tarde demais!


Eu era realmente escrava dos saloes. Ja cheguei a passar mais de 10h num salao em época de festas, mas quando eu saia de la, eu flutuava e meus cabelos acompanhavam o sentido do vento. Eu ficava tao diferente que meu ex-namorado me chamava pelo meu segundo nome. Mas mesmo com o cabelo liso, eu fazia questao de prende-lo. Finalmente, eu achei o salao com o alisamento "perfeito", mas isso foi somente la pelos 18. Antes disso, eu mergulhei em varias noias e tinha tanto complexo com meu cabelo, que eu fazia parte da turma do fundao porque queria evitar os olhares dos colegas. Eu sentava na parte de tras dos ônibus pelo mesmo motivo. Um pouco antes de entrar na faculdade, consegui deixar de lado o diadema e as presilhas que ajudavam a domar meu cabelo - isso foi uns dois anos depois de eu brigar com uma amiga que, inocentemente, quis fazer uma brincadeira retirando meu diadema. 

Ninguém toca no meu cabelo.

E, finalmente, chegou o dia em que eu tive que decidir se eu amava mais meu namorado francês ou a cabeleireira. Me mudei e, na França, passei momentos dificeis vendo meu cabelo se transformar. Era como se eu fosse Cinderela e todo dia fosse 23:59h. Eu vivia a angustia de me deparar com minha realidade capilar. Na França, eu teria de vender um orgao pra pagar pelo procedimento. E eu gosto dos meus orgaos. Durante três anos, me virei como pude para disfarçar o indisfarçavel.

Foi entao que eu comecei a prestar atençao nas outras pessoas (até fiz esse post, um dos mais visualizados no blog). Vi que elas tinham rugas e cabelos crespos soltos e cicatrizes e estrias e alguns nem tinham dente direito. E vi que elas nao pareciam se importar consigo, nem comigo, mas meus amigos, sim, eles nao entendiam como eu poderia ser tao extrema quando o assunto era o meu cabelo. 

Dois anos sem ir no Brasil e meu cabelo estava em cima do muro, nao se decidia se ele era liso ou cacheado. Desesperada, pedi pra Camilo corta-lo e ele subiu até o ombro. O cabelo, nao Camilo. E, pela primeira vez na vida, meus amigos, eu vi meu cabelo natural. Foi como ver o mar pela primeira vez aos 70 anos. Meu cabelo dava voltas. Ele era... era... cacheado. Foi dificil aceita-lo. Eu preferiria ter um cabelo  prostituto à um cabelo cacheado. 

Quando me perdi na Italia, meus patroes me contaram depois que eles foram no bar onde eu estive pela ultima vez e perguntaram se ninguém ali teria visto "uma menina de cabelos cacheados". E por um milésimo de segundo, ok, dois, pensei "como eles esperavam me encontrar perguntando por alguém de cabelo cacheado?!". Essa era eu. Mas mesmo atualmente, ainda estou tentando me acostumar à ideia. Ha uns dois meses, tomei um choque ao ver um desenho de mim feito por uma coloc onde eu fui feita com... cabelos curtos e cacheados. 

Mas o estranhamento vem da simples falta de costume e nao da dificuldade em aceitar. Me aceitei. Sai do armario, resolvi me assumir. Até tive uma espécie de pesadelo outro dia em que eu acordava de cabelo liso, como antes, e ficava angustiada de ter que ver o mesmo lento processo de crescimento. E sabe, minha vida agora é tao mais simples! Me pergunto ainda hoje por que eu demorei 27 anos pra ser eu. 


Mas ainda tou trabalhando em mim a possibilidade de fazer ainda mais volume nele cortando-o. Mas enfim, vida nova. Agora eu tiro fotos - sabendo que, um ano atras, eu nao conseguia nem olhar no espelho, que dira registrar o que via.



Essa, por exemplo, sou eu me amando ♥


Agora, parem de dizer aos seus filhos que eles nao nasceram do jeito certo.



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Terror durante voo França-Brasil

Senti a necessidade de retomar o blog quando me dei conta de que eu recomecei a transformar todos os fatos do meu cotidiano em uma historia pro blog. Além do fim do casamento, o Guri entrou no maternal, eu fiz amiguinhos franceses, fiz amiguinhos brasileiros, fui pro Brasil duas vezes, fui pra Inglaterra, Portugal, Espanha, recebi a visita da minha mae aqui, cortei meu cabelo curtinho, pintei meu cabelo de vermelho, de preto - nao ao mesmo tempo -, entrei no mestrado, minha patroa engravidou do terceiro moleque (moleca! ♥), minha patroa anunciou minha demissao, meu irmao se casou e, no entanto, eu nao sei sobre o que escrever. 

Pensei em olhar pra qualquer objeto a minha volta e puxar um post ninja dali, mas depois de ter a visao da minha toalha secando no aquecedor da sala, achei melhor começar do começo. Ou do meio!

Primeira ida pro Brasil do ano passado. Eu, depois de dois anos sem pisar na América, em plena crise sentimental, tendo um tumor alojado na minha barriga, os hormônio tudo doido, chorando a cada pio de passarinho, entrei no aviao com sede de descanso. Depois de mostrar a passagem, dei um deficiente sorriso a aeromoça e fui procurar meu assento.

Ouvi distraidamente o barulho das turbinas trabalhando. A medida em que fui chegando perto da minha poltrona, percebi que o barulho foi ficando cada vez mais forte, quase ensurdecedor. Pela sorte que tenho, imaginei que eu fosse viajar pendurada em uma das turbinas, tipo assim, "janela", soh que do lado de fora. Mas foi pior, meus amigos. O barulho vinha de um bebê. Mas era uma espécie de bebê-gorila, porque o choro nao era coisa de Deus. Nao. Era uma coisa meio gutural, sabe. Tipo "OOONNN OOONNNN" ao invés de um meigo "ueen ueen" sussurado. Claro que vocês ja entenderam tudo e ja imaginaram que o bebê estava pertinho de mim. Pois erraram: o bebê estava no meu assento. Como proceder? Com o bilhete na mao e um sorriso gentil, me inclinei e disse educamente:

- Com licença, senhorrrr... inho?, mas acho que esse é o meu assento.
- OOOOONNN OOOONNN!
- Por fav...
- OOOOONNNN! 

Segurando fortemente a vontade de sentar de uma vez naquela mini-cabeça, lancei um olhar maligno para os pais na esperança de alguma reaçao sensata. Foi quando descobri que nao se tratava de apenas um bebê, mas de dois. Nas quatro cadeiras do meio do aviao, estavam dispostos: (pessoa-sofredora-aleatoria) + (pai) + (mae + bebê 1) + (gorilinha). Olhei pro céu com os olhos semi-cerrados e disse "Deus, se isso é mais uma provaçao, aviso que ja aprendi muito com Godz". Dito isso, como que por magia, a mae removeu imediatamente aquela criança do meu banco e fez uma careta como se estivesse me fazendo um favor dificil. 

Revendo a cena hoje, acredito piamente que o bebê entendeu que aquilo se tratava de uma imensa injustiça porque ele dobrou a intensidade dos gritos. Firme e forte, pensei "se esse bebê estiver pensando que com isso eu vou ceder e procurar outro lugar, ele estah muito enganado". Entao, eu cedi e fui procurar outro lugar. Perguntei ao aeromoço se havia algum outro assento vago e ele, lançando um olhar de profundo desprezo em torno de si, disse "se você encontrar algum, é seu". 

Tive uma ideia genial e lembrei do vaso sanitario, unico assento disponivel no momento. Fui sorrateiramente até la mas, quando abri a porta, dei de cara com o bebê em cima do sanitario. OOOOOOONNNN OOONNNN! Fechei a porta do banheiro e sai correndo, esbarrando nas pessoas, nas malas, até que finalmente encontrei o aeromoço que estava de costas atendendo um passageiro. Toquei seu ombro e, quando ele se virou, vi que era o bebê que fez OOOOOOOONNNN! Sai correndo, tropeçando nos meus proprios pés e, antes que pudesse gritar por socorro, encontrei uma poltrona vazia. Peguei minha mochila e, assim que eu abri o cofre, o que eu vi? Nada. Entao, joguei minha mochila la dentro, sentei na poltrona e decolamos. OOOOOONNNN!

(Esse ultimo "on" nao é nada além da minha tentativa de enganar o cérebro de vocês fazendo-os pensar que o bebê também  estaria dentro do cofre. Nao estava).

Pois bem. Bunda instalada, checo vizinho da direita, direito. Checo o vizinho da esquerda e... checo de novo e choco: era um homem que vestia uma camisa onde havia uma bandeira do Brasil. Olha, minha intuiçao é foda, sabe. Nao tenho intuiçao pra ganhar na loteria, nem pra prever quando o Guri vai desmantelar a irma com um chute, mas pressinto quando algum mala vai puxar conversa comigo. Até pensei em me levantar pra sentar ao lado do baby-gorila. Foi quando senti um leve toque no meu braço.

- Oi! Tudo bom, amiguinha? De onde você vem? :D
- (Do inferno). Da França.

Daih, ele contou, sem que eu perguntasse, que ele morava em Lisboa e que estava indo ao Brasil numa "viagem de negocios" (sempre que eu ouço essa expressao, me veem à cabeça mafiosos com maletas cheias de dolares na mao). Ele tinha as orelhas esfoladas e, apesar da minha grande curiosidade, preferi brincar com os fones de ouvidos oferecidos pela companhia aerea - que estavam com defeito. O problema, é que, por mais que minha natureza de bicho-do-mato preferisse a distância dos seres humanos, resolvi seguir o exemplo de Monique que, umas duas semanas antes, me apareceu com um amiguinho que ela fez no trem Paris-Lyon. Pensei "puxa, que legal! Pessoas 'abertas' tem mais chances de fazer amigos". Entao, decidi fingir que eu era uma pessoa sociavel.

O cara era baixinho, do tipo achatado, careca, extremamente musculoso e se esforçava para "falar bonito". Numa tentativa sofrivel de impressionar, ele usava palavras pomposas para formular uma frase simples. Resultado: nao entendi nada.

- Luciana... Lu! Você como pessoa, você se sente bem na França?
- (Como pessoa, sim, mas meu lado cadela precisa de amigos). Na verdade, sinto falta de ter amigos.

Pegando-na-minha-mao ele disse:

- Pois, Lu, você pode nao ter amigos na França, mas você acaba de fazer um em Lisboa.
- (Quem?)

Meda. Sabe aqueles momentos em que você nao sabe como reagir? Tentei me emocionar, nao consegui. Tentei apenas sorrir, nao consegui. Tudo o que eu fiz foi retirar delicamente minhas maozinhas dali e me virar de volta. Mas ja era tarde demais. Quando as luzes do aviao foram desligadas, coloquei um filme qualquer, os fones e, adivinhem, o cara ficou puxando papo. Gente, eu juro! E Deus, que nesse momento ja estava bem mais perto da gente, estah de prova! Foi horrivel! La, sim, eu senti medo. Mas o pior estava por vir: ele me chamou de bebê. Be-bê!

uén

Nesse momento, voltei a me transformar em Luci e decidi nunca mais ser sociavel novamente na minha vida. Entao, pra nao dar a oportunidade de um desconhecido me chamar de bebê novamente, tive outra ideia brilhante e decidi antecipar meu cochilo. Ele nao ousaria perturbar o sono alheio. O problema é que eu nao durmo em avioes e meu cochilo durou 45 segundos. Quando minhas palpebras tentaram se abrir, ouvi o homem tomando fôlego pra recomeçar a falar entao, rapidamente, fechei os olhos e fiquei imovel. Decidi que quando o aviao pousasse, eu desembarcaria de olhos fechados.

Descemos todos em Salvador para uma escala e o cara, sem que eu perguntasse, disse que tinha um terreno pra vender no Brasil que valia um milhao (ele frisou bem esse detalhe). Mas consegui me livrar do milionario dizendo que iria encontrar um tio meu. O problema é que eu sai da area onde eu deveria ter recuperado minhas bagagens, entao, tive que ficar esperando, junto com outra menina na mesma situaçao, alguém que pudesse nos acompanhar ao tapete que faz as malas circularem.

Enquanto esperavamos, começamos a puxar conversa (sim, quebrei minha promessa). Ela perguntou porque eu estava indo pro Brasil, entao, falei do divorcio e do tumor. Ela olhou pra mim bem séria e perguntou se eu era crente. Antes que eu pudesse sair correndo responder, ela disse:


"Meu deus, é um sonho? Tarô?!" Olhei desconfiada pro lado esperarando o Pé Grande surgir, sei lah!, mas ao invés disso, ouvi uma voz familiar gritando "bebeeeê!". Eh um pesadelo. Meu "amigo" lisbonense voltou das cinzas e eu o apresentei a louca do tarô. Em dois minutos eles estavam discutindo ferozmente sobre... Chiclete com Banana.

Nao me perguntem.



Alias, o que acontece com o vocalista dessa banda? O cara tira o bigode, mas nao tira esse lenço da cabeça. Acho que no dia em que ele o tirar, o topo da cabeça dele cai podre no chao. Mas enfim. Daih que sentamos numa mesa, os três, e o cara explicou à cartomante, que ele iria vender um imovel no Brasil que valia quatro millhoes. Fiquei impressionada com a valorizacao dos imoveis no Brasil e decidi que ia vender a casa dos meus pais assim que eu chegasse nela.

De Chiclete com Banana, passamos para "violência doméstica". Foi quando ouvi a seguinte frase sair da boca do milionario (pessoas de bom coraçao, se vocês estiveram almoçando, nao leiam isso):

- Mas... bom... se é feito dentro de casa, nao tem problema.

Na minha cabeça, eu subi na mesa, dei um bicudo na cara dele e fui pro portao de embarque. Fora da minha cabeça, eu sorri, olhei pro lado e pedi pra menina tirar o tarô pra mim. Eu nao lembro direito o que ela disse, mas eram coisas bem genéricas tipo...

"Você se arrepende de algo!". Olha, eu nem tava arrependida de nada na minha vida, mas pela sugestao, eu comecei a me arrepender de muita coisa, inclusive de ter mudado de lugar no aviao. Entao, disse "sim, é verdade, me arrependo bastante de algo". E ela la, toda feliz.

Esperamos juntos pelo meu voo durante três horas. Três fucking horas! Entrei no segundo aviao com medo dos passageiros, mas... no babies, no friends. A moral? Nunca dê moral. 



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Das pequenas anedotas

Quando eu era pequena, eu dediquei (assim, por acaso) uma parte das minhas manhas assistindo ao Telecurso 2000. Nao, eu nao estava particularmente interessada nas aulas de mecânica, mas eu achava divertido ver as tecnicas usadas para construir tal ou tal coisa. Achava interessante como atores poderiam ser tao bons professores a ponto de conseguir passar o conteudo a uma ignorante como eu  (nao pela incapacidade mental, mas pela baixa idade, claro. Aos dez, eu ja era um gênio. Do mal). Lembro que, em uma aula, eles ensinavam como "limar" um objeto. Era a primeira vez que eu escutava essa palavra (ou prestava atençao a ela). Anos depois, muitos anos depois, la do outro lado do Atlântico, eu ganho, numa certa noite, esmaltes e uma lixa de unha. Uma lixa de unha tao belamente ornamentada que, à primeira vista, nem pareceu uma lixa de unha. "Ahh, mas isso é uma... é uma..." Como se chama lixa de unha em francês?! "Lime à ongles". Ahh, merci! Lime! E daih, de repente, eu voltei a Joao Pessoa, 18 anos antes, e me encontrei com cabelo assanhado e cara amassada, segurando um copo de leite na sala, na frente da televisao. Limar. O primeiro passo pra conhecer uma lingua estrangeira é conhecer a propria lingua. 

domingo, 28 de abril de 2013

Cinco anos em cinco meses (ou do amor pelo lado de lah).

Nao querendo ser monotematica, mas ja sendo, queria colocar para fora um post que martela ha alguns meses minha cabeça  sobre a França e sobre essa coisa de evoluçao - e talvez ovulaçao, porque parte desse post é oferecimento da minha tpm. 

Quando eu cheguei aqui na França (2009), me sentia uma estranha em absoluto. Eu estava convencida de que soh estava aqui por Camilo - apesar da antiga vontade de ir embora do Brasil (Brasil = Joao Pessoa. Joao Pessoa = casa dos meus pais). Até hoje, eu nao sei se fui feliz ou nao nesses anos todos em que vivi aqui. Acho que Camilo era uma boa fonte de felicidade que mascarava a solidao sentida. Eu acordava respirando Camilo, mas começava a beber às 8h da manha nos finais de semana pra ver se aguentava o tranco de estar sozinha. E eu, que gosto tanto de falar (o blog veio da vontade de falar, nao de escrever), comecei a me fechar na minha conchinha. 

Ia pro trabalho/faculdade, voltava pra casa, entrava pelas escadas exteriores que davam acesso direto ao meu quarto (para nao ter a necessidade de entrar pela sala e cruzar com meus colocs) e soh descia quando o jantar estivesse pronto. Uma vez terminada a refeiçao, eu subia e me escondia novamente. Disso, surgiram inumeras brigas ferozes com Camilo que, sei la porque, gostava de perder tempo falando merda com o pessoal la na sala. O unico momento em que eu me permitia ser social, era com um, dois, três, vinte, copos de cerveja na mao. Nao gostava de falar francês porque coloquei na minha cabeça que, por nunca ter feito um curso decente, eu nao sabia falar francês. 

E dai, mesmo estando tao longe, eu tinha uns pesadelos estranhos com meu pai. E me pegava com o coraçao acelerado pelo pensamento de um dia ter de ve-lo novamente. Mas ao mesmo tempo, eu pensava em Fabio e meu coraçao se enchia da mais fina angustia, aquela coisa negra que ia me secando por dentro - alguns a conhecem como "saudade". Mas aih a angustia ia embora e dava lugar ao medo. Eu tinha medo de falar, de contactar as pessoas, de sair, de voltar, de ficar e de ser. E, como se nao bastasse, vinha sempre, uma vez ou outra, aquela sensaçao de nao pertencer a lugar nenhum, e alguns pensamentos sempre introspectivos e pseudo filosoficos sobre a necessidade de se pertencer a algum lugar. Eu pertencia a Camilo. E ele dizia que eu era a casa dele. E parecia um bom acordo, porque a gente parecia feliz. E eu amei tanto esse homem! Eu nem lembro mais como era, mas sei que amei porque eu preferi me abandonar à abandona-lo.

Acho que meu amor se confundiu com dependência. Eu nao conseguia fazer nada sozinha. No começo, mesmo quando eu conseguia me exprimir razoavelmente em francês, eu pedia pra que ele fosse comigo ao médico. Eu fazia uma drama pra ele ir comigo resolver algo na Prefeitura. Eu entrava em pânico e fazia birra de criança pra que ele fizesse algum telefonema de meu interesse. Uma vez, a gente pegou uma briga fenomenal nos metros parisienses, porque eu queria que ele me acompanhasse a um lugar que ele nao queria ir - tudo isso porque eu achava que eu era incapaz de voltar pra casa sozinha. Ele corrigia meus trabalhos da faculdade. Eu nunca viajava sem ele. Nunca saia sem ele! Cinema. Camilo. Teatro. Camilo. Show. Camilo. Bar. Camilo. Sim, eu tenho muita vergonha de dizer isso. Eu realmente fui muito fraca. Eu achava que tentava mudar isso, eu queria que as pessoas falassem comigo, mas quando elas falavam, eu rezava pra que elas se calassem. Eu soh queria que elas soubessem que eu era mais interessante do que aquilo, mas eu nao queria fazer esforço pra isso, porque "esforço" subtendia "falar" e, isso, eu nao era capaz de fazer.

E, apesar de toda essa dependência, eu acordei e finalmente percebi que eu tava tao vazia, tao pobre, que eu nao o amava mais, que eu estava com ele, nao mais por amor, mas por medo e, nesse dia, eu realmente me senti (ainda mais) sozinha. Tentei colocar a culpa na minha extrema e fatal instabilidade. Culpei meu signo. Culpei a lua. Culpei Lula - porque todo mundo culpa o Lula. Culpei a França, o Brasil. E lembrava de Artur da Tavola (desculpa atencipada, pois citaçoes soam sempre quase esnobes) quando ele dizia que "(música é vida interior, e) quem tem vida interior jamais padecerá de solidão". Eu achava que tinha e, portanto...

Quando acabamos, eu entrei em depressao. Alias, aquilo deveria ter outro nome, porque depressao eu ja tinha sentido, mas "aquilo" era mais intenso e "aquilo" me transformou. Eu achava insuportavel viver, mas vivia porque eu sabia que fazer alguma besteira iria provocar uma tristeza semelhante na minha mae e esse pensamento me apavorava (desculpa o drama, mas foi assim que aconteceu e, apesar de eu nao entender mais aquela tristeza, eu sei que ela existiu e que foi dessa forma que ela fez parte de mim). Até que um médico me disse que aquilo tudo era, em parte, decorrência de um tumor. Fui pro Brasil desejando estar com meus pais. Sim, pai e mae. Fiz a cirurgia e, quando voltei, meus amiguinhos...

Quando eu voltei, decidi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer. Me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você. Parei de me trancar no quarto. Decidi que meu francês nao é bom para um francês, mas que é bom para uma estrangeira. Perdi quase todo o peso ganho durante a doença. Entrei no mestrado, mesmo sabendo que nao haveria ninguém pra corrigir meus trabalhos. Fui descobrindo simplesmente o que era ser eu de verdade - quando comecei minha vida sexual/amorosa, engatei nove anos no stop de namoro e era a primeira vez em que eu estava vivendo sem um cara pra me dizer o que fazer (sou feminista, mas...). Fiquei meio perdida no começo porque sou o tipico clichê de menina que nao teve a figura do pai presente e que demanda muita atençao dos namorados. Agora, gasto meu dinheiro da forma que quero - agora nao gasto mais porque, se somos livres, "nohs gatos ja nascemos pobres", nao esqueçamos. 

Aprendi a viajar sozinha - na primeira vez que viajei sem Camilo, foi pra fazer um trajeto de pouco mais de uma hora. Compro uma quiche, entro no trem, me deparo com uma cadeira vazia ao meu lado. Aguento firme, mas ao ver que nao tinha ninguém pra dividir a porra da quiche, começo a chorar. E fico assim, comendo a quiche e chorando, tendo pena de mim. Deprimente. Hoje, eu prefiro viajar sozinha, isso me da a oportunidade de passar o tempo olhando pela janela, de observar as vaquinhas no pasto ou, em dias feios, de ver macro espermatozoides de chuva se formarem na janela do trem. Aprendi a planejar coisas sozinha. Viajo e, quando volto pra Lyon, vem quase sempre uma lagriminha emocionada me socorrer quando me dou conta de que aqui é minha casa. 

Eu cortei meus cabelos! Dei um pulo dificil para fora dos padroes e agora nao sou mais a menina de cabelos longos e lisos. Sou uma mocinha de cabelos curtos e cacheados (e crespos!). Decidi usa-los como eles sao e, porra, vocês nao imaginam a liberdade que é poder ser você mesma. Fiz o primeiro Amigo francês. E o segundo e o terceiro. E agora, quando eu chego em casa, as pessoas sorriem ao me ver. Quando estou estudando no quarto, elas batem na minha porta e me mandam descer. E eu ainda nao me acostumei com isso. Porque essas eram as pessoas que eu admirava em silêncio ha uns anos e, agora, elas me dizem "eu te amo". Eu amo meus colocs. Eu aprendo com eles. Sao dez ao todo. A gente fala tudo sobre tudo e sobretudo sobre nada. E acho que, finalmente, o que me salvou foram as pessoas. Eu ja tinha falado aqui, num post antigo, que o importante nao é o lugar, mas quem te rodeia. Pra mim, vida interior, Artur, sao pessoas. Eu preciso disso. Eu preciso falar, preciso ser ouvida, mas também tenho necessidade de ouvir, de conhecer o outro. 

Nesses meses em que passei longe do blog, recebi alguns emails de leitores desconhecidos que dizam "olha, desculpa, você nao me conhece, mas eu leio seu blog e sinto como se te conhecesse", e dai, elas me perguntavam se eu ia bem e contavam um pouco a historia de vida delas. Gente, eu amo! Eu acho isso genial! Gosto de gente dada (ui), aberta (ui), que nao faz pose, que nao faz tipo. No começo de 2008, um amigo me escreveu um email depois de ler um post antigo meu num blog antigo.

(...) Desculpe o texto pseudo-sério, mas seu post realmente mexeu comigo, de alguma forma... acho que fiquei meio emocionado, de alegria e tristeza por me sentir em sua pele. Ainda assim, quero que você guarde pra sempre a forma como te admiro; bem como a forma verdadeira como você ama esse negócio de viver - que faz parecer que você não tem medo de nada, parece que nada é realmente tão grande que não possa ser alcançado.

Pois é, eu tive medo de muita coisa, mas parece que continuei conquistando-as  - pelo menos era isso que Camilo me fazia tentar enxergar. Acho que aqui, na França, eu tive a oportunidade de crescer. Sim, poderia ter sido em qualquer outro pais, mas nao foi. Foi longe de casa, longe do meu perimetro de segurança. Me fudi muito sozinha, mas percebi que tudo isso fui eu quem provocou. E, apesar de achar que fosse enlouquecer em certos momentos por nao ter ideia do que fazer com minha vida, olho pra tras e sorrio com toda a ironia que me acompanhou. A vida é irônica. E soh. Sinto como se tivessem me dado uma injeçao de vida. Decidi parar de me vitimizar, de achar que eu sou fraca. Ninguém sabe que você é fraco até que você o diga - gente, baixou o satanas da auto-ajuda? E, finalmente, acho que estou onde eu queria estar. A França me emociona ♥. Aqui é casa e vai ser casa pelos proximos nove anos - a nao ser que eu queira partir de novo, porque eu tenho a escolha. Mas tenho amado esse pais. Adorei fazer o post anterior, adorei perceber que eu faço parte disso. Nao foi pela beleza do pais que eu vim, mas foi pela beleza que eu fiquei. E, sim, pelo povo. Nao escutem os clichês que rolam por aih sobre os franceses. Os franceses sao sim um povo amavel. E quem diz o contrario, nao conhece os franceses. 

Sei que a vida vai continuar nao sendo facil. Mas eu tou bem acompanhada. Eu tenho eu. :)



Talvez

Related Posts with Thumbnails