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sexta-feira, 31 de maio de 2013

E que dia é hoje, amiguinhos?

Poderia ter sido apenas mais uma sexta-feira, como qualquer outra, onde saio com meus amigos e encho a cara. Mas essa, era uma sexta-feira especial. A sua "especialidade" começou pelo fato de que eu tive que trabalhar - nao trabalho nas sextas, tenho mais tempo para diversao e nenhum dinheiro para isso. Sai do trabalho e, antes de pegar o caminho que leva ao meu quarto, telefonei para um amigo (M.) que me chamou pra sair. 

"AAEE, LULUU! BORA SAIIRR! AAAEdeHHHhhhWOOW!"

Apos a sequencia de barulhos extravagantes - que mais diziam sobre o seu estado alcoolico* que propriamente sobre sua felicidade em falar comigo - subi na minha bicicleta envenenada e me juntei a M. e seu amiguinho na casa de terceiros. Eram 22h e minha barriga nao via comida desde às 13h. Pretendia voltar pra casa cedo, entao, quis ser rapida e eficaz na bebedeira: tomei meio litro de cerveja a quase 9% e ja cheguei no barco (era uma boate-barco) vendo estrela. Segundo o quadro que se encontra abaixo, eu estava "euforica" e minha diminuiçao de julgamento iria se manifestar numa aposta com M. Eu:

- Aposto que teu xixi nao chega até a rua.
- Ele chega sim.
- Que nada, ele tem ainda a metade da calçada pra percorrer e ta perdendo força.
- Chega!
- Se ele chegar até a rua, te pago uma caipirinha.

E foi assim que eu perdi 8 €.

Etanol no sangue (gramas/litro)EstágioSintomas
0,1 a 0,5SobriedadeNenhuma influência aparente.
0,3 a 1,2EuforiaPerda de eficiência, diminuição da atenção, julgamento e controle
0,9 a 2,5ExcitaçãoInstabilidade das emoções, incoordenação muscular. Menor inibição. Perda do julgamento crítico
1,8 a 3,0ConfusãoVertigens, desequilíbrio, dificuldade na fala e distúrbios da sensação.
2,7 a 4,0EstuporApatia e inércia geral. Vômitos, incontinência urinária e fezes.
3,5 a 5,0ComaInconsciência, anestesia. Morte
Acima de 5MorteParada respiratória

Entramos na boate, fomos até o bar e no final do copo, eu ja tinha passado pra terceira etapa do nosso quadro: excitaçao. Puxei papo com duas mulheres que estavam ao lado como se tivessemos feito  faculdade juntas. Mas elas eram tao legais! Acho que eu devo ter dito isso pra elas. Quis outra caipirinha, mas os meninos ainda nao tinham terminado a deles. Comecei a saltitar, a achar a vida linda. A vida era linda. A musica acariciava meus ouvidos e eu soh pensava em dançar. Fui beber.


No segundo copo, fomos pra o terraço do barco (exatamente este que estah ao lado) e continuamos a conversar divertidamente. Eu ja nao queria mais dançar. Eu queria voar. Eu queria voar, mas meus pés estavam estranhamente pesados. A partir desse momento, eu nao lembro de muita coisa, so de ver um novo copo na minha mao. No final dele, nao tive duvidas: foi o dito que me levou a dizer, segundo testemunhas, "vou ali vomitar". Estupor. 

Eu sai chutando os pés e me locomovendo como um polvo, por propulsao. Me jogava pra frente, dava dois passos e ia pra direita. Me jogava pra frente, dava três passos e ia pra esquerda. Foi assim que cheguei no exterior do barco, sentei sei la onde, abri as pernas e, sem fazer nenhum esforço, vomitei. Nao sei direito o que vomitei, nao averiguei, mas vomitei tanto que desceram lagrimas. Quando pensei que ja tinha acabado, vomitei mais. 

Celular toca. Eh M. Olho, ignoro, vomito. Tentei escrever uma mensagem mas os dedos nao correspondiam ao comando do cérebro. Foi uma luta de Titas. Meu cerebro aos frangalhos e meus dedos aflitos. Consegui escrever "Es dtour". Deve ser algum pedido de socorro em alguma lingua alienigena, mas seja como for, desisti de me comunicar com M. Tentar aprender a escrever levou menos tempo e foi mais facil que aquilo. 

Luzes... sons ao longe... e um "Lulu" familiar. M. e seu amigo me encontram e  avaliam a situaçao:

- O que é que a gente faz?
- Nao sei, acho que ela nao pode pegar a bicicleta.
(vomito soh de me imaginar fazendo algum esforço que seja)
- Eh. 
- Bora chamar um taxi.

Eu soh queria morrer. Sentia que minha alma tinha ido embora passear. Fiquei la, dobrada em dois, olhando pros meus pés. Um taxi brotou do chao, mas eu nao tinha forças pra me levantar. Entao, eles me levaram, me jogaram no carro e tudo o que eu fazia era grunhir. Entrei no carro e dormi. Abri os olhos e, com uma emoçao nunca antes vivida, me deparei com minha casa. Fechei os olhos, abri e estava na sala. Fechei os olhos, abri e tava no banheiro vomitando. Fechei os olhos, abri e  tava na minha cama. Era 1h da manha.

No dia seguinte, acordei como uma flor. Desconfiada, vi uma garrafa de agua intocada ao lado do colchao. Me sentia bem. Minha alma tinha voltado. Sentei. Tentei lembrar da minha noite e senti uma coisa estranha. Vergonha. Cinco anos sem vomitar para acabar sendo derrotada por meio litro de cerva e três caipirinhas. Fui humilhada! Logo eu que raramente tenho ressaca. Logo eu. Mas vômitos sao uma liçao de vida. Um ensinamento. Uma das ultimas vezes que vomitei (senao a ultima), foi quando morava no Brasil. Depois de uma festa na casa de Camilo, acordo e, ao lado dele, vejo uma bacia cheia de vômito. Olho pro coitadinho e pergunto:

- Amor, você vomitou?
- Eu nao. Foi tu.

Mas agora, vendo essa tabela, acho que tive sorte com essa coisa de incontinência urinaria e fezes. 

Quatro dias depois, fui buscar minha bicicleta. Meu maior medo era de encontra-la sem a sela. Mas a sela estava la, assim como o guidao e os pneus. A unica coisa que faltava era o conteudo esperado da câmera de ar: alguém excitado, confuso ou euforico, secou meus pneus. Entao, tive que levar minha bicicleta pra passear, debaixo de chuva até a casa dos meus patroes e depois pegar dois metrôs lotados (com a bicicleta) até a minha casa. "Valeu a pena, Luciana?", indaguei-me. Valeu, pois vocês tem um poste no blog e eu tenho uma liçao: nunca mais vou beber caipirinha. De barriga vazia. 




* minha dislexia bêbada me fez escrever "alcoolitro".  Gente.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

A insustentavel beleza do ser

Eu tinha uma relaçao de amor e odio com meu cabelo. Alias, a quem estou tentando enganar? 

Eu tinha uma relaçao de odio e odio com meu cabelo. E essa relacao vinha desde pequena. Quando eu era um filhoooteeee, eu nao sabia que as pessoas poderiam gostar dos proprios cabelos. E, mais que isso, eu nao sabia que as pessoas poderiam gostar de cabelos cacheados ou, pior, crespos. Nem da cor dos meus cabelos eu gostava, afinal, a Xuxa era mais famosa que a Mara. Angélica era mais famosa que a Mara. Alias, cadê a Mara? (Viu? Gente de cabelo escuro soh se fode). Ah, Mara, se fossemos loiras! Nossas vidas poderiam ter sido diferentes!  

Na época em que eu nem sabia ler - mas que ja compreendia que nao ia ser Paquita - minha mae tentava domar meu cabelo fazendo uns penteados que nao eram nada populares entre minhas amigas e meu cabelo sempre foi motivo de piada na minha classe. - musica triste no violino - Curiosamente, era meu irmao mais velho, um verdadeiro perito em causar traumas, quem mais me importunava com essa historia, todo dia era um apelido novo. E o que dizer da minha mae que, um dia, enquanto me penteava, ja sem paciência com aquela cabeça cheia de cabelo, disse "eu passei a vida toda fazendo alisamento no meu cabelo, mas tinha esperança de ter uma filha com cabelo bom. Aih nasce essa coisa".

Pois é.

(Ja ficaram com pena da pequena Luci? Ou devo dizer que eu chorei caladinha quando ouvi isso?)

A minha mae, meu irmao, meus colegas e Xuxa acabaram por me convencer de que eu deveria ter cabelo liso. Desafiando as leis da natureza e contrariando meus genes, passei a fazer touca no cabelo com auxilio da minha mae. Para fazer a touca, os cabelos nao podem estar molhados, nem secos. E deve-se passar algumas horas com o cabelo virado pra direita e, outras tantas, pra esquerda. Isso dava dor de cabeça. Tinha sempre algum fio que ficava esticado demais ou sempre tinha algum friso filho da puta que nao tinha mais a ponta de plastico. Apesar de toda a perseverança, os frisos nao eram magicos e, quando finalmente eu retirava a touca, minha cabeça parecia uma palmeira, entao, eu amarrava os cabelos. E minha mae fazia essa toca praticamente todas as vezes em que eu lavava os cabelos.

Mais ou menos aos 11 anos, comecei a fazer alisamento no salao. Era uma coisa fedorenta, que continha formol, causava feridas no couro cabeludo, custava super caro e que deveria ser refeita basicamente a cada três meses (na parte da raiz, onde o cabelo ruim do demônio voltava a crescer). Estou absolutamente convencida de que eu devo ter passado por quase todos os saloes de beleza de Joao Pessoa (e alguns de Campina Grande), na esperança de finalmente encontrar a Fada do Cabelo Bom. Nao encontrei.


Tarde demais!


Eu era realmente escrava dos saloes. Ja cheguei a passar mais de 10h num salao em época de festas, mas quando eu saia de la, eu flutuava e meus cabelos acompanhavam o sentido do vento. Eu ficava tao diferente que meu ex-namorado me chamava pelo meu segundo nome. Mas mesmo com o cabelo liso, eu fazia questao de prende-lo. Finalmente, eu achei o salao com o alisamento "perfeito", mas isso foi somente la pelos 18. Antes disso, eu mergulhei em varias noias e tinha tanto complexo com meu cabelo, que eu fazia parte da turma do fundao porque queria evitar os olhares dos colegas. Eu sentava na parte de tras dos ônibus pelo mesmo motivo. Um pouco antes de entrar na faculdade, consegui deixar de lado o diadema e as presilhas que ajudavam a domar meu cabelo - isso foi uns dois anos depois de eu brigar com uma amiga que, inocentemente, quis fazer uma brincadeira retirando meu diadema. 

Ninguém toca no meu cabelo.

E, finalmente, chegou o dia em que eu tive que decidir se eu amava mais meu namorado francês ou a cabeleireira. Me mudei e, na França, passei momentos dificeis vendo meu cabelo se transformar. Era como se eu fosse Cinderela e todo dia fosse 23:59h. Eu vivia a angustia de me deparar com minha realidade capilar. Na França, eu teria de vender um orgao pra pagar pelo procedimento. E eu gosto dos meus orgaos. Durante três anos, me virei como pude para disfarçar o indisfarçavel.

Foi entao que eu comecei a prestar atençao nas outras pessoas (até fiz esse post, um dos mais visualizados no blog). Vi que elas tinham rugas e cabelos crespos soltos e cicatrizes e estrias e alguns nem tinham dente direito. E vi que elas nao pareciam se importar consigo, nem comigo, mas meus amigos, sim, eles nao entendiam como eu poderia ser tao extrema quando o assunto era o meu cabelo. 

Dois anos sem ir no Brasil e meu cabelo estava em cima do muro, nao se decidia se ele era liso ou cacheado. Desesperada, pedi pra Camilo corta-lo e ele subiu até o ombro. O cabelo, nao Camilo. E, pela primeira vez na vida, meus amigos, eu vi meu cabelo natural. Foi como ver o mar pela primeira vez aos 70 anos. Meu cabelo dava voltas. Ele era... era... cacheado. Foi dificil aceita-lo. Eu preferiria ter um cabelo  prostituto à um cabelo cacheado. 

Quando me perdi na Italia, meus patroes me contaram depois que eles foram no bar onde eu estive pela ultima vez e perguntaram se ninguém ali teria visto "uma menina de cabelos cacheados". E por um milésimo de segundo, ok, dois, pensei "como eles esperavam me encontrar perguntando por alguém de cabelo cacheado?!". Essa era eu. Mas mesmo atualmente, ainda estou tentando me acostumar à ideia. Ha uns dois meses, tomei um choque ao ver um desenho de mim feito por uma coloc onde eu fui feita com... cabelos curtos e cacheados. 

Mas o estranhamento vem da simples falta de costume e nao da dificuldade em aceitar. Me aceitei. Sai do armario, resolvi me assumir. Até tive uma espécie de pesadelo outro dia em que eu acordava de cabelo liso, como antes, e ficava angustiada de ter que ver o mesmo lento processo de crescimento. E sabe, minha vida agora é tao mais simples! Me pergunto ainda hoje por que eu demorei 27 anos pra ser eu. 


Mas ainda tou trabalhando em mim a possibilidade de fazer ainda mais volume nele cortando-o. Mas enfim, vida nova. Agora eu tiro fotos - sabendo que, um ano atras, eu nao conseguia nem olhar no espelho, que dira registrar o que via.



Essa, por exemplo, sou eu me amando ♥


Agora, parem de dizer aos seus filhos que eles nao nasceram do jeito certo.



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Terror durante voo França-Brasil

Senti a necessidade de retomar o blog quando me dei conta de que eu recomecei a transformar todos os fatos do meu cotidiano em uma historia pro blog. Além do fim do casamento, o Guri entrou no maternal, eu fiz amiguinhos franceses, fiz amiguinhos brasileiros, fui pro Brasil duas vezes, fui pra Inglaterra, Portugal, Espanha, recebi a visita da minha mae aqui, cortei meu cabelo curtinho, pintei meu cabelo de vermelho, de preto - nao ao mesmo tempo -, entrei no mestrado, minha patroa engravidou do terceiro moleque (moleca! ♥), minha patroa anunciou minha demissao, meu irmao se casou e, no entanto, eu nao sei sobre o que escrever. 

Pensei em olhar pra qualquer objeto a minha volta e puxar um post ninja dali, mas depois de ter a visao da minha toalha secando no aquecedor da sala, achei melhor começar do começo. Ou do meio!

Primeira ida pro Brasil do ano passado. Eu, depois de dois anos sem pisar na América, em plena crise sentimental, tendo um tumor alojado na minha barriga, os hormônio tudo doido, chorando a cada pio de passarinho, entrei no aviao com sede de descanso. Depois de mostrar a passagem, dei um deficiente sorriso a aeromoça e fui procurar meu assento.

Ouvi distraidamente o barulho das turbinas trabalhando. A medida em que fui chegando perto da minha poltrona, percebi que o barulho foi ficando cada vez mais forte, quase ensurdecedor. Pela sorte que tenho, imaginei que eu fosse viajar pendurada em uma das turbinas, tipo assim, "janela", soh que do lado de fora. Mas foi pior, meus amigos. O barulho vinha de um bebê. Mas era uma espécie de bebê-gorila, porque o choro nao era coisa de Deus. Nao. Era uma coisa meio gutural, sabe. Tipo "OOONNN OOONNNN" ao invés de um meigo "ueen ueen" sussurado. Claro que vocês ja entenderam tudo e ja imaginaram que o bebê estava pertinho de mim. Pois erraram: o bebê estava no meu assento. Como proceder? Com o bilhete na mao e um sorriso gentil, me inclinei e disse educamente:

- Com licença, senhorrrr... inho?, mas acho que esse é o meu assento.
- OOOOONNN OOOONNN!
- Por fav...
- OOOOONNNN! 

Segurando fortemente a vontade de sentar de uma vez naquela mini-cabeça, lancei um olhar maligno para os pais na esperança de alguma reaçao sensata. Foi quando descobri que nao se tratava de apenas um bebê, mas de dois. Nas quatro cadeiras do meio do aviao, estavam dispostos: (pessoa-sofredora-aleatoria) + (pai) + (mae + bebê 1) + (gorilinha). Olhei pro céu com os olhos semi-cerrados e disse "Deus, se isso é mais uma provaçao, aviso que ja aprendi muito com Godz". Dito isso, como que por magia, a mae removeu imediatamente aquela criança do meu banco e fez uma careta como se estivesse me fazendo um favor dificil. 

Revendo a cena hoje, acredito piamente que o bebê entendeu que aquilo se tratava de uma imensa injustiça porque ele dobrou a intensidade dos gritos. Firme e forte, pensei "se esse bebê estiver pensando que com isso eu vou ceder e procurar outro lugar, ele estah muito enganado". Entao, eu cedi e fui procurar outro lugar. Perguntei ao aeromoço se havia algum outro assento vago e ele, lançando um olhar de profundo desprezo em torno de si, disse "se você encontrar algum, é seu". 

Tive uma ideia genial e lembrei do vaso sanitario, unico assento disponivel no momento. Fui sorrateiramente até la mas, quando abri a porta, dei de cara com o bebê em cima do sanitario. OOOOOOONNNN OOONNNN! Fechei a porta do banheiro e sai correndo, esbarrando nas pessoas, nas malas, até que finalmente encontrei o aeromoço que estava de costas atendendo um passageiro. Toquei seu ombro e, quando ele se virou, vi que era o bebê que fez OOOOOOOONNNN! Sai correndo, tropeçando nos meus proprios pés e, antes que pudesse gritar por socorro, encontrei uma poltrona vazia. Peguei minha mochila e, assim que eu abri o cofre, o que eu vi? Nada. Entao, joguei minha mochila la dentro, sentei na poltrona e decolamos. OOOOOONNNN!

(Esse ultimo "on" nao é nada além da minha tentativa de enganar o cérebro de vocês fazendo-os pensar que o bebê também  estaria dentro do cofre. Nao estava).

Pois bem. Bunda instalada, checo vizinho da direita, direito. Checo o vizinho da esquerda e... checo de novo e choco: era um homem que vestia uma camisa onde havia uma bandeira do Brasil. Olha, minha intuiçao é foda, sabe. Nao tenho intuiçao pra ganhar na loteria, nem pra prever quando o Guri vai desmantelar a irma com um chute, mas pressinto quando algum mala vai puxar conversa comigo. Até pensei em me levantar pra sentar ao lado do baby-gorila. Foi quando senti um leve toque no meu braço.

- Oi! Tudo bom, amiguinha? De onde você vem? :D
- (Do inferno). Da França.

Daih, ele contou, sem que eu perguntasse, que ele morava em Lisboa e que estava indo ao Brasil numa "viagem de negocios" (sempre que eu ouço essa expressao, me veem à cabeça mafiosos com maletas cheias de dolares na mao). Ele tinha as orelhas esfoladas e, apesar da minha grande curiosidade, preferi brincar com os fones de ouvidos oferecidos pela companhia aerea - que estavam com defeito. O problema, é que, por mais que minha natureza de bicho-do-mato preferisse a distância dos seres humanos, resolvi seguir o exemplo de Monique que, umas duas semanas antes, me apareceu com um amiguinho que ela fez no trem Paris-Lyon. Pensei "puxa, que legal! Pessoas 'abertas' tem mais chances de fazer amigos". Entao, decidi fingir que eu era uma pessoa sociavel.

O cara era baixinho, do tipo achatado, careca, extremamente musculoso e se esforçava para "falar bonito". Numa tentativa sofrivel de impressionar, ele usava palavras pomposas para formular uma frase simples. Resultado: nao entendi nada.

- Luciana... Lu! Você como pessoa, você se sente bem na França?
- (Como pessoa, sim, mas meu lado cadela precisa de amigos). Na verdade, sinto falta de ter amigos.

Pegando-na-minha-mao ele disse:

- Pois, Lu, você pode nao ter amigos na França, mas você acaba de fazer um em Lisboa.
- (Quem?)

Meda. Sabe aqueles momentos em que você nao sabe como reagir? Tentei me emocionar, nao consegui. Tentei apenas sorrir, nao consegui. Tudo o que eu fiz foi retirar delicamente minhas maozinhas dali e me virar de volta. Mas ja era tarde demais. Quando as luzes do aviao foram desligadas, coloquei um filme qualquer, os fones e, adivinhem, o cara ficou puxando papo. Gente, eu juro! E Deus, que nesse momento ja estava bem mais perto da gente, estah de prova! Foi horrivel! La, sim, eu senti medo. Mas o pior estava por vir: ele me chamou de bebê. Be-bê!

uén

Nesse momento, voltei a me transformar em Luci e decidi nunca mais ser sociavel novamente na minha vida. Entao, pra nao dar a oportunidade de um desconhecido me chamar de bebê novamente, tive outra ideia brilhante e decidi antecipar meu cochilo. Ele nao ousaria perturbar o sono alheio. O problema é que eu nao durmo em avioes e meu cochilo durou 45 segundos. Quando minhas palpebras tentaram se abrir, ouvi o homem tomando fôlego pra recomeçar a falar entao, rapidamente, fechei os olhos e fiquei imovel. Decidi que quando o aviao pousasse, eu desembarcaria de olhos fechados.

Descemos todos em Salvador para uma escala e o cara, sem que eu perguntasse, disse que tinha um terreno pra vender no Brasil que valia um milhao (ele frisou bem esse detalhe). Mas consegui me livrar do milionario dizendo que iria encontrar um tio meu. O problema é que eu sai da area onde eu deveria ter recuperado minhas bagagens, entao, tive que ficar esperando, junto com outra menina na mesma situaçao, alguém que pudesse nos acompanhar ao tapete que faz as malas circularem.

Enquanto esperavamos, começamos a puxar conversa (sim, quebrei minha promessa). Ela perguntou porque eu estava indo pro Brasil, entao, falei do divorcio e do tumor. Ela olhou pra mim bem séria e perguntou se eu era crente. Antes que eu pudesse sair correndo responder, ela disse:


"Meu deus, é um sonho? Tarô?!" Olhei desconfiada pro lado esperarando o Pé Grande surgir, sei lah!, mas ao invés disso, ouvi uma voz familiar gritando "bebeeeê!". Eh um pesadelo. Meu "amigo" lisbonense voltou das cinzas e eu o apresentei a louca do tarô. Em dois minutos eles estavam discutindo ferozmente sobre... Chiclete com Banana.

Nao me perguntem.



Alias, o que acontece com o vocalista dessa banda? O cara tira o bigode, mas nao tira esse lenço da cabeça. Acho que no dia em que ele o tirar, o topo da cabeça dele cai podre no chao. Mas enfim. Daih que sentamos numa mesa, os três, e o cara explicou à cartomante, que ele iria vender um imovel no Brasil que valia quatro millhoes. Fiquei impressionada com a valorizacao dos imoveis no Brasil e decidi que ia vender a casa dos meus pais assim que eu chegasse nela.

De Chiclete com Banana, passamos para "violência doméstica". Foi quando ouvi a seguinte frase sair da boca do milionario (pessoas de bom coraçao, se vocês estiveram almoçando, nao leiam isso):

- Mas... bom... se é feito dentro de casa, nao tem problema.

Na minha cabeça, eu subi na mesa, dei um bicudo na cara dele e fui pro portao de embarque. Fora da minha cabeça, eu sorri, olhei pro lado e pedi pra menina tirar o tarô pra mim. Eu nao lembro direito o que ela disse, mas eram coisas bem genéricas tipo...

"Você se arrepende de algo!". Olha, eu nem tava arrependida de nada na minha vida, mas pela sugestao, eu comecei a me arrepender de muita coisa, inclusive de ter mudado de lugar no aviao. Entao, disse "sim, é verdade, me arrependo bastante de algo". E ela la, toda feliz.

Esperamos juntos pelo meu voo durante três horas. Três fucking horas! Entrei no segundo aviao com medo dos passageiros, mas... no babies, no friends. A moral? Nunca dê moral. 



terça-feira, 26 de março de 2013

Azar e a esperança equilibrista

O caminho da luz que eu e Camilo temos que seguir, também chamado divorcio, é um processo longo e doloroso. Mais por questoes de logistica que por questoes emocionais. Ontem foi o dia. Iamos fechar nossa conta conjunta e fazer um passeio pelo tribunal pra dar entrada numa ajuda do governo para o pagamento do adevogado. Estamos de comum acordo pela separaçao. Inclusive, nunca estivemos tao de acordo em alguma coisa, no entanto, estar de acordo nos custa 1,500 €. Acho que a tabela dos nao acordados deve ser calculada em relaçao a sua atitude diante do ex:

Testa franzida e olhos semicerrados: 20 €
Olhar raivoso: 30 €
Grito:
(60 - 80 decibéis): 40 €
(80 - 100 decibéis): 60 €
(100 - 150 decibéis): 80 €
(150 - 200 decibéis): no es posible.
"O Rafa vai ficar comigo": 200 €
"Nao, o Rafa fica é comigo": 300 €
"Quero pensao pro nosso gato": 800 €

Mas antes de saber se fazer carinho no ex acarretaria num desconto, imprimi todos os papeis que nosso advogado nos aconselhou, peguei minha bicicleta e sai de casa. Mal cheguei na esquina e senti que alguma coisa nao estava bem. Nao demorei muito pra descobrir que o grande esforço que fiz para chegar no final da rua provinha de um furo no pneu da bicicleta. Evocando todos os demônios em meios a palavroes e maldizendo a humanidade, voltei pra casa, calma como um anjo, para pegar outra bibicleta.

Aqui em casa, as pessoas sao realmente apaixonadas por bicicletas. Eu, que tenho uma tatuagem de uma bike nas costas, sou a menos apaixonada de todos, contando com apenas duas delas. Tem nego aqui que tem cinco. Entao, nao foi dificil estar de volta à rua com uma bicicleta de dono ignorado, encontrada no jardim. Mas das sete bicicletas que estavam à disposiçao ontem, eu escolhi justamente a que nao tinha freios - deve ser por isso que ela estava à disposiçao. Teria sido mais facil chegar ao meu destino com uma bicicleta sem pneu, mas nao uma sem freios. Mesmo percebendo que ela tinha 10% de freio de um lado e 0% do outro, continuei meu caminho, mas nao sem me perguntar, a cada dez segundos, se eu nao deveria voltar pra buscar uma outra. Cheguei no banco e ainda estava me perguntando se eu nao deveria ter voltado. 

Antes de sair de casa, limpei minha conta pela internet, mas ainda restaram três miseros centavos la. No banco, burocracia francesa:

- Senhor, o senhor quer que eu faça uma transferência para sua conta ou para a conta da madame?

(Camilo com cara de olha-tou-pouco-me-fudendo) - Err... Nao posso "doar" pro banco nao?

(Mulher com cara de cu) - Infelizmente, nohs nao temos o direito.

(Eu, me divertindo muito com tudo aquilo) - :D

E, finalmente, ela fez um recibo pela transferência de três centavos para conta de Camilo. Sou mesmo generosa. Mas se eu soubesse que haveria uma tal movimentaçao por causa de três centavos, teria deixado somente um na conta. Teria sido mais divertido. 

Ao sair do banco, a caminho do tribunal, avisei a Camilo que minha bicicleta nao tinha freio e que a gente teria que ir devagar. Mal subimos na bicicleta, ele olhou pra um semaforo que ficava a um quilômetro e disse "Luci, ja pode começar a freiar". Freei pelo costume de obedecer ao senhor meu honoravel (ex) marido, mas nao é que o conselho foi valido? Ao chegar no semaforo, eu mantinha quase a mesma velocidade de antes. 

Na entrada do tribunal, que dispoe de belissimos bancos de madeira, escolhemos umas pedras que "enfeitavam" o local e sentamos pra conversar besteira. Foi legal. Legal conversar com alguém que te conhece bem pra caralho e nao tem medo do que sabe. Nao senti o tempo passar, mas ainda tinha umas feridinhas que nao estavam cicatrizadas. Mas foi tranquilo  tipo (eu): 

- Quem tem cortado teu cabelo?
- Ninguém.
- Da pra ver.

Antes de passar pelo detector de metais que precede a entrada do tribunal, Camilo me aconselhou a deixar minhas facas e minhas bombas de gas lacrimogênio para tras, o que me fez pensar que os divorcios na França nao costumam ser nada amigaveis. Passei tranquila pelo detector de metais, mas ao tatear minha mochila, o seu puliça me disse que havia tocado "em algo duro e pesado". Até que eu gostaria de possuir algo duro e pesado naquele momento, mas o objeto nao-identificado era meu molho de chaves. Minhas chaves compoem 60% do peso que carrego na mochila, portanto, compreendi a desconfiança. 

Passeando pelo tribunal e nos deparando com pessoas de roupas curiosas, chegamos a um cartaz que dizia "Aide juridictionnelle". Depositamos nosso dossiê que, diga-se de passagem, nao foi aceito. Tinhamos todos os documentos que nao eram exigidos e nao tinhamos nenhum dos quais eles necessitavam. A burocracia francesa, meus amigos, vou explicar como funciona: nao pediram tal documento? Levem-no. Pediram? Levem cinco copias. Quase quatro anos na França e eu ainda nao entendi. Mas volto hoje com a certidao de nascimento do meu cachorro, morto na Paraiba, em 1998. Cês vao ver.

Saindo do tribunal pra recuperar nossas bicicletas, coloquei meu mp3 e Camilo perguntou surpreso: 

- Nossa, o teu ainda funciona?
- Eeeh... funciona, ué. Por que? O teu nao funciona?
- Nem sei, faz tempo que nao uso.

Nos despedimos e, no momento em que coloquei meus fones, vi que o som nao estava saindo como deveria. Gente, praga de ex é pior que praga de mae, é isso? Desconfiada, segui em direçao ao Centro Comercial. Foi quando me deparei com um semaforo. Freei, mas ao inves de sentir o freio, a unica coisa que senti foi o cabo do freio se partindo. Eu olhei pro cabo solto, olhei pra rua, olhei pro cabo solto, olhei pra rua e recorri ao método Fred Flintstone e freei com os pés. Ridiculo. Continuei o resto do percurso até o Centro a pé, levando a bicicleta pra passear, mas me perguntando como eu iria fazer pra chegar em casa (25 min de bike). 

Como ainda faltava umas duas boas horas pro encontro, me sentei em um sofazinho que recebe todos os mendigos da regiao, e eu, e continuei a leitura do meu livrinho. De repente, um cara (que passava anos-luz dos meus criterios de beleza) me pergunta as horas. Pergunta em francês, respondo em francês, mas a continuaçao da conversa é:

- Do you speak english?
- Non.
- Você é de onde?
- Brasil.
- No Brasil nao se fala inglês?
- Nao.
- E você estuda aqui?
- Sim.
- E você mora aqui?

Eu fiz a minha pior cara, a cara mais terrivel. A cara mais cruel. Aquelas que eu soh faço quando o pneu da minha bicicleta fura antes de um encontro importante. Mas mesmo assim, mesmo depois de quase enfiar o livro na minha cara pra mostrar que eu estava indisponivel para conversa, mesmo depois de quase enfiar o livro na cara dele pra ajeitar um pouco aquilo, o cara continuava me perguntando coisas e sorrindo e até mudou de posicao pra ficar mais perto de mim. Oin.

- Moro. Moro com meu marido.

Eh batata, véi. O cara te assedia atééééé o momento em que você convoca a figura (inexistente) de um outro macho. Idiotas. Sério. Vocês pensam o que? Que vocês vao chegar com esse papo mole em uma pessoa que, visivelmente, nao apresenta o menor sinal de interesse e, apos meia duzia de perguntas obvias, a gente vai montar em cima de vocês e implorar por sexo? Vao tentando... Se bem que eu tava com tanta fome que se ele tivesse me oferecido um pedaço de pao seco, eu teria emprestado meu corpo. Emprestado. 

As duas horas e a leitura avançaram. Fui encontrar minhas amigas que estavam acompanhadas de uma muçulmana. No restaurante (finalmente!), falei das minhas aventuras no tribunal e ela contou como foi seu casamento. Disse que usou sete vestidos no dia da festa e, no momento mais esperado, naquele em que ela iria aparecer usando seu primeiro vestido, o noivo dela disse, decepcionado, "ta parecendo o terminator!" 


Casa comigo? 


Eu ri! Mas nao muito que era pra nao constranger demais. Dai, pedimos a boia e, enquanto eu mastigava vacamente minha deliciosa salada, observei que tinha um pedaço de salada transparente que, apos mais alguma investigaçao, se revelou como sendo um pedaço de plastico. Achei interessante a proposta francesa de querer aproveitar até mesmo os sacos plasticos da salada para compor seus pratos, mas ainda nao adotei essa dieta. Perguntei a garçonete o que era aquilo e se eu poderia comer. Ela levou o pedaço da minha salada transparente embora sem dizer nada e nem ganhamos sobremesa gratis. Alias, eu ganhei, mas nao por mérito dela. Valeu, Aline! Pedi minha sobremesa sem plastico e a garçonete nem riu. Franceses.



quinta-feira, 7 de março de 2013

Meu filhote de leao, meu raio da manha

Acho que eu passei tanto tempo sem postar, porque nao queria contar tudo o que me aconteceu nesse ultimo ano, relembrar e cutucar a ferida, mas tambem nao queria atropelar o que eu vivi e o que eu morri (e fiz mais isto que aquilo) e continuar a postar aqui como se nada tivesse acontecido. Entao, sem enrolar e puxando o band-aid de uma vez soh pra nao doer muito, eu vos anuncio que Camilo e eu terminamos. E terminamos ha tanto tempo, que ja nem doi dizer isso. Nao disse antes porque doia, porque eu posso brincar com um tumor raro, com o fato de ter um coracao que nao funciona bem, mas finalmente achei uma coisa da qual nao poderia brincar. Acho que nao preciso enfeitar esse post e tornar essas linhas especiais pra mostrar o quanto foi linda essa relacao, nao eh? Porque, se eu precisasse fazer isso, eu diria que, apesar dos motivos que nos levaram a terminar o namoro, eu nao me arrependo. Eu nao me arrependo de nada. Eu diria ainda, que parece que passou uma vida desde que ele me provocou o ultimo sorriso, mas enquanto eu me lembrar do primeiro, eu vou saber que a gente tinha que passar uma parte da nossa vida juntos. Camilo me colocou num pedestal, cuidou de mim, funcionou no modo "injecao de auto-estima de Luci" durante cinco anos. Se esforcou pra me convencer de que eu era linda. Nao me deixou desistir da faculdade. Ele me deu tanto amor que quase me consertou... 

Mas eu nasci quebrada, amor, e cirurgia nenhuma e amor nenhum vai conseguir me consertar. Eu agradeco a devocao, o esforco e o pedestal. Espero que tu saiba que nao foi o excesso disso tudo que me fez ser fraca nesses anos todos. E eu espero que tu nao se arrependa tambem. Tu fez minha vida mudar (muito antes de eu pensar em por os pes na Franca). Tu me ensinou a nao usar saquinho plastico e a nao ter orgulho. Essa eh uma das melhores coisas que ha em mim e foi tu quem me deu, tu me libertasse de uma prisao. Espero que eu tenha te deixado alguma coisa boa, alem das lembrancas. E agora, vou parar por aqui, porque chorei demais pra quem disse que ja nao doia. 

Senhoooor, por que me fizeste de seda? 

Pelo visto, o jeito eh me fumar...

(Senhoras e senhores, eu voltei).   

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Toda cura para todo mal

- Como escrever um post de agradecimento sem ser brega ?
- E por que evitar a breguice, Luci ? Seja brega, nao se reprima.

Credo, que mensagem de
agradecimento horrivel
Esse foi o dialogo entre mim e meu eu-menudo minutos antes de escrever esse post. Porque eu até entendo que as pessoas possam se solidarizar com alguém que anuncia uma doença, mas eu nao esperava, sinceramente, pelas mensagens recebidas nas ultimas semanas. Os telefonemas, os emails, as mensagens no blog, as cobranças no FB: nao importou o tamanho, a frequência ou o meio: tudo, cada mensagem me deixou feliz, de olho marejado. Gente que nunca me viu na vida dizendo estar preocupada, oferecendo ajuda. Eh demais pro meu coraçao de banana.  Call me deslumbrada, mas eu acho isso fantastico e me emociono mesmo. Sou mole sensivel. Entao, obrigada. Obrigada mesmo. 

Mas vamos falar do meu parto. 

Assim que cheguei ao Brasil (19 de maio), fui a todos os médicos e fiz todos os exames possiveis para dar inicio ao processo cirurgico. Mas toda semana, a cirurgia era marcada e desmarcada devido à falha na aprovaçao do material da cirurgia que custava em torno de 5 mil reais. Quase escrevi à UNIMED dizendo que eu aceitaria ser operada com uma tesorinha de plastico sem ponta, desde que a operaçao fosse aprovada rapidamente. Eu era a personificaçao da ansiedade, nao via a hora de extirpar Godzilla. 

Entao, um dia, confirmaram a cirurgia. Nunca na historia desse pais uma pessoa ficou tao maravilhada com a ideia de ser aberta por um bisturi. Angela Bismarchi me entenderia. A cirurgia estava marcada para às 10h, mas maqueiro soh chegou depois do meio-dia. Sim, o "maqueiro". Nao sei vocês, mas eu desconhecia a existência desse profissional. Quando ele chegou, me perguntou: "seu coraçao acelerou quando me viu?". Poderia ter acelerado se seu nome fosse Freddy e seu sobrenome fosse Krueger, fora isso, sem chance. Ele ainda disse, com certa dose de orgulho, "o coraçao dos pacientes sempre acelera quando eles me veem". Foi aih que eu lembrei de ficar nervosa, mas nao consegui. 

Chegando na sala de cirurgia, encontrei o cirurgiao, o anestesista e mais duas figuras cuja serventia eu desconhecia. Foi quando ouvi alguém dizer "eu soh fiz duas cirurgias em supra-renal". Quase que levanto da maca no melhor estilo UEPAAAA! Para tudo! Maquistoria é essa de somente DUAS cirurgias? Eu rezei pra que fosse o maqueiro que tivesse dito isso, mas nao pude ter certeza. A anestesia ja estava fazendo efei... hudedz... hnj q;;77§ès !r fie jfgn id ufijr,f...

Limbo.

"Deixa eu ver" foi minha primeira frase (consciente) depois da cirurgia. Eu ainda estava grogue, mas queria ver aquele que me deu tanto pesadelo. Lembro de ter visto no potinho uma coisa redonda dentro de uma agua turva. Era mais ou menos assim: 

Fui levada, como previsto, pra UTI onde fiquei uma noite. Era importante que eu fosse pra UTI pra ser monitorada de perto caso minha pressao caisse (o que normalmente aconteceria devido a supressao repentina do cortisol). Na minha cabecinha inocente, a UTI deveria ser um local de paz e tranquilidade destinado à convalescença dos enfermos. A UTI que fiquei tava mais pra Feira da Sulanca: milhoes de pessoas passando pelo corredor, de maqueiro à eletricista, uma velha que gritava e um grupo de animais, digo, pessoas, que acharam bonito conversar à porta do meu quarto.

Eu ja estava ha 15h sem comer quando uma enfermeira sadica colocou uma bandeja de sopa, suco e gelatina numa mesa inalcançavel e saiu sem dizer nada. "Sera que ela espera que eu mova essa bandeja com o poder da mente, MEU DEUS?" Fixei meu olhar na bandeja acreditando que o pos-cirurgico pudesse ter me dado poderes sobrenaturais. Nao deu.

Eh soh uma mancha
Em seguida, uma dupla de enfermeiras entra no meu quarto dizendo que vai fazer minha higiene (meda). Uma delas me descobre, olha pro meu peito e pergunta horrorizada: "MEODEOS, o que é isso no seu peito?!". Eu ia responder "mamilo", mas pela cara de horror dela, ela deveria estar se referindo a outra coisa. Como meu campo de visao se limitava ao teto, eu imaginei que nao poderia ajuda-la a encontrar a resposta, apesar de eu estar igualmente preocupada.

A segunda enfermeira encarou meu peito e, de maneira passiva e precisa, diagnosticou: "é soh uma mancha". Soh uma mancha?! Em casa eu pude averiguar que nao se tratava soh de uma mancha. Parecia que eu tinha levado uma surra. Infelizmente, a pudicicia me impede de mostra-los a foto da "mancha". Mas eu posso garantir que meu corpo ta bonito. So que ao contrario. Fizeram quatro incisoes na minha barriga, cada uma tem no minimo três pontos. Eu tou parecendo um pirata.

Mas um pirata feliz. Feliz e agradecido.




sábado, 21 de abril de 2012

Tem o Giba uma giba?

Você conhece este homem?


OHMEODEOSDOCEONAOEHPOSSIVEO!

Sim, post novo no caso.me.esqueçam. Antes que Cissa Guimaraes aparecesse aqui em casa com o quadro "Por onde anda...", resolvi mostrar que estou viva e explicar (parte) do meu sumiço.

Em fevereiro, por motivos que nao me covem explicar, fiquei mal da cabeça e doente do coraçao. Tadinha. Diante do meu infeliz estado, meu bob pai e minha mamae quirida me pagaram uma passagem pro Brasil: dois anos longe de casa. 

Quem acompanha minimamente esse blog, sabe que fiz, durante meses, uma dieta pra perder os singelos 13kg que ganhei no ultimo ano. O ganho rapido de peso garantiu estrias pelo meu corpo inteiro. Mas nao eram estrias normais. Estas devem ser estrias mutantes. Nem gravidas de mamutes trigêmeos conseguiriam exemplares como os meus. Minha melhor amiga, quando viu minhas pernas, disse que achou que eu tivesse levado uma surra. Quem dera fosse. Pra vocês verem que eu nao estou exagerando, uma foto de um lado da minha barriga:

Convencidos de que o caso é sério?

Minha mae, diante do quadro, insistiu pra que eu fosse numa dermatologista pra um milagre tratamento e eu aceitei. Chegando la, a médica me olha e, em três segundos e meio, me diz: "você tem Sindrome de Cushing". Oi, pai de quem? Cushing. 

Entao, ela abre um livro que, pelo tamanho, deveria ter meu peso. Ela começa a folhea-lo e eu, curiosinha, arregalo os olhos pra ver as imagens dele. Metade das figuras eram de vaginas brancas, cheias de bolinhas esquisitas e pênis vermelhos com rachaduras. "Minha nossa, minha doença ta aih dentro?". Finalmente, ela para numa pagina onde tinha uma foto de uma pessoa gorda. Eu fico aliviada. "Ah, novidade, ela vai dizer que eu estou gorda". Nao. Entao, ela começa a ler sobre a Sindrome. Wikipedia ajuda.

A Sindrome de Cushing é provocada por altos niveis de cortisol no sangue. O cortisol pode ter origem externa ou interna: ou eu fiz tratamento prolongado com essa substância (99% dos casos, segundo meu médico) ou é minha hipofise que a esta produzindo ou ainda as glandulas supra-renais. Nesses ultimos dois casos, de qualquer forma, trata-se de um tumor. Pois é, viva eu que fui ao Brasil pra descansar e voltei com um tumor na mala. Detalhe, Sindrome de Cushing nao é uma doença comum (dois ou três casos por um milhao de habitantes). Meu médico soh a viu uma vez na vida. Viva eu de novo. 

Mas isso explica um monte de coisa. Nesses ultimos meses, meu corpo mudou muito e eu passei a desenvolver umas mazelas que, pra mim, eram resposta a dieta que eu tava fazendo. Sintomas? 

- Obesidade crônica, sobretudo na parte superior do corpo;
- Rosto gordo (dito "lua cheia") e vermelho;
- Surgimento de estrias violaceas;
- Pele fragil;
- Insônia;
- Afinamento e queda do cabelo;
- Perda de massa muscular;
- Equimose (hematomas);
- Labilidade emocional;
- Acne;
- Ganho de apetite;
- Cansaço nervoso;
- Problemas no ciclo menstrual;
- Aumento de pelos;
- Problemas psicologicos (depressao, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de atençao e memoria);
- Reduçao da libido;
- Aumento do volume urinario;

E ainda: geralmente, a Sindrome traz osteoporose, diabetes, hipertensao e/ou dificuldade na coagulaçao do sangue. Essa porra deve dar até piolho. 

As consequências de um diagnostico tardio: 

- Embolia pulmonar, trombose, diminuiçao da massa ossea (provocando fraturas), obesidade, 4-5 vezes mais chance de morrer em relaçao a alguém saudavel. Ou seja, muito amor.

Olha, com exceçao da acne e dos problemas menstruais, eu tinha, tenho, todo o resto. Eu vou no banheiro pelo menos duas vezes durante a madrugada pra fazer xixi; eu tenho roxos pelo corpo todo e nenhuma lembrança de ter me machucado; os cabelos caem aos quilos; a vermelhidao no rosto é tao aparente que uma vez cheguei em casa e perguntaram se eu voltei correndo do trabalho; nervosismo e tristeza nao precisam nem ser comentados (vide primeiro paragrafo); perda da libido?; fiz o buço pela primeira vez na vida quando o estado dos meus bigodes nunca tinha me incomodado antes - odjio; o cansaço começou a ser grande, mas eu achava que era a dieta e os guris que sugavam minha energia.

O endocrinologista que eu consultei disse que iria fazer um teste simples pra saber se eu tinha Cushing: ele segurou minhas maos, pediu pra que eu agachasse e, em seguida, tentasse me levantar. Eu soh consegui a façanha por ter me apoiado nele e jogado os quadris para tras: com a perda da massa muscular, a Sindrome te tira a força das pernas. Eu soh faltava morrer tentando subir uma escada. Tudo se explica.

Quando fiz a dieta, eu perdi 15kg, ou seja, fiquei mais magra do que estava antes de começar a ganhar peso. Mas o rosto continuou gordo e a pança nao diminuiu tanto quanto era de se esperar. Queria muito ter feito um post "antes e depois", mas com a cara gorda que eu me encontro, vocês nunca iriam notar a diferença. Eu cheguei a ir no médico aqui na França pra tentar resolver isso e ela disse que era normal, que eu iria emagrecer depois. Sei. 

A mae dos moleques é médica e me revelou essa semana que sempre desconfiou que eu estava com Cushing, mas achou indelicado dar essa sugestao na época. Indelicado é deixar a babah morrer, minha gente. Ainda assim, no ano passado, ela chegou a me aconselhar a ida a um endocrinologista caso eu fizesse uma dieta e nao perdesse peso. Acontece que eu perdi, entao logo descartei a possibilidade de estar doente. Ela perguntou por que eu ou Camilo nunca desconfiamos que eu poderia estar doente, mas como eu ja disse, as consequências de uma dieta de proteina pareciam ser uma explicaçao razoavel pra tudo o que estava acontecendo. 

Ha também acumulo de gordura na parte de tras do pescoço que os médicos chama de "giba". Gente, eu tenho uma giba que, infelizmente, nao é essa: 


(ou felizmente...)


Unxi, como é lindo!

Seja como for, diante da possibilidade de estar com diabetes, tive que suspender o chocolate e o alcool (si, pero no mucho) com muita dor no coraçao. Depois de "curtir" alguns dias a ideia de ter diabetes, fiz um exame simples que revelou que eu nao tinha porra nenhuma! - pude aproveitar ao menos a festa de despedida. 

Antes de deixar o Brasil, fiz um outro exame que revelaria onde estah meu bebê tumor (espero que seja um bebê). Havia de 80% a 90% de chance de ser na hipofise. Hipofise, pra quem nao sabe, é uma glandula que fica na cabeça e tem o tamanho de uma ervilha. Ela é responsavel pela produçao de um monte de hormônio importante como o da produçao do leite e o do crescimento. O médico explicou que ele iria "raspar" a parte da hipofise que produz o cortisol.

O que poderia acontecer seria que o cirurgiao poderia raspar além do necessario afetando a produçao dos outros hormônios (e eu teria que repo-los também pelo resto da vida) ou, pior, nao raspar o suficiente me obrigando a fazer uma segunda cirurgia - acho valido lembrar que a cirurgia nao custa dois reau. Num terceiro fracasso, "a gente 'explodiria' sua hipofise numa radioterapia". Uma pena, porque eu nasci com essa hipofise e pretendia morrer com ela. Mas nao por causa dela, entao... Entao, tinha esses 10%, 20% de chance que o tumor estivesse na glâdulas adrenais.

Hoje liguei pra minha mae pra saber o resultado do exame que fiz antes de deixar o Brasil que indicaria a localizaçao do bebê e, guess what!, na sena eu nao ganho, mas meu tumor estah na supra-renal.

djing djing djing!

Essa historia toda me deu um mal humor danado (sobretudo a parte da diabetes). Mas interessante mesmo, foi receber um email de uma professora da faculdade, no mesmo dia em que descobri que tinha Cushing, dizendo que eu estava perdendo aula e... Bom, se eu estava perdendo aula todo esse tempo, significava que eu estava reprovada por falta e que, por isso, nao poderia fazer o mestrado esse ano (e somente em setembro de 2013!). Foi aih que eu, pela milésima vez, surtei. Sinceramente, espero que o mundo acabe mesmo em 2012. Nao esta sendo facil.

Pedi pra Camilo averiguar essa historia com a secretaria e ela garantiu a ele que eu havia finalizado a graduaçao, apesar das disciplinas que cursei semestre passado terem continuidade este semestre. Como eu ja fui ludibriada por esta mulher anteriormente, irei na faculdade exigir uma declaraçao por es-cri-to que indique que eu estou, na mais absoluta certeza, formada. Motivo: minha cirurgia vai ser feita no Brasil e eu nao quero nenhum impedimento ou coisa pendente na França. 

Borboleta, tou chegando. Betty, vou ter que declinar do seu convite pro casamento - ja havia comprado as passagens e tudo mais, mas. Mas havera pic nic de blogs em Paris no mês de maio e mocinhas e mocinhos das redondezas podem se preparar porque quem me lê agora ta convidado. Pode levar marido, Luci? Podji! Pode levar filho, cachorro e periquito? Podji. Pode levar a giba, Luci? Também!


quinta-feira, 8 de março de 2012

Um passo à frente

Pais dos guris programaram passar dez dias de férias no chalé da familia da mae que fica em Montgenèvre, perto da fronteira com a Italia. Gentis como sao, resolveram levar a babah deles na mala. E entre ficar em casa coçando o saco que eu nao tenho e viajar, bom, vocês sabem. Foi uma escolha dificil. E por falar em dificil, eu vou contar uma historia para vocês. 

Para chegar em Montgenèvre, eu tinha que pegar um trem em Lyon e ir pra Uma Cidade que Eu Esqueci o Nome. Numa Cidade que eu Esqueci o Nome, eu esperaria 40 min e pegaria em seguida um segundo trem pra Oulx, na Italia. La, finalmente, eu pegaria um ônibus para Montgenèvre onde meus patroes normalmente estariam me esperando. Mas dessa forma, tudo seria muito facil e a vida exige  emoçao.

As cinco pessoas que desceram comigo do trem desapareceram nos carros aquecidos de suas familias. Entrei na estaçao, pedi um bilhete para Montgenèvre mas, devido um pequeno atraso de 30 min do meu segundo trem, acabei perdendo o ônibus. O ultimo ônibus. Eram 20h e nevava como nos filmes de Natal. Perguntei que de outra forma eu poderia chegar à Montgenèvre e o cara do guichê deu de ombros, mas depois respondeu, grosseiramente, que, talvez, de taxi. E quanto custaria esse taxi? "30 euros". Eu teria resolvido meu problema se tivesse taxi na estaçao. E se eu tivesse dinheiro comigo. 

Saquei meu celular para ligar pros patroes, mas ele nao tinha sinal: eu estava na Italia. Pensei "gente, é agora que chega um estuprador pra comer meu pipiu?" Atravessei a rua e entrei no unico estabelecimento aberto da regiao, um bar. "Est-ce que vous parlez français?" Nao, eles nao parlavam français. Ok, Luciana, nao priemos cânico, veja isso como uma boa oportunidade de por em pratica seu  inglês. 

- Eu, I... I où est-ce que... I... There's un hotel par ici? 
- Sim. Você sai do bar e ha um à esquerda, à duas portas. 

Sai do bar, dobrei à esquerda e encontrei um hotel fechado. Neve, neve, neve. Apertei a campainha e uma mensagem automatica em italiano disse me disse que "piasccia netcha di vionglorio mercredile sue pitto!". 

Eh o quê, homi?!

A mensagem, como eu viria a saber depois, dizia que o hotel fechava nas terças. Era uma terça. Voltei pro bar disposta a vender meu corpo em troca de um lugar para dormir. Com a sorte que eu estava, acho que nem o estuprador da cidade aceitaria. Mas otimismo é tudo. "Moço, tem outro hotel por aqui?" Tem. "Você vai direto, chega até o final da rua, dobra à direita, dobra à esquerda, passa pela ponte, entra no beco escuro, depois desce, depois sobe, depois desce, depois dobra. E cuidado com o lobo". 

Sai do bar e uma figura malassombrada me perguntou se estava tudo bem, se eu queria um taxi. Olhei em volta e nao havia taxi nenhum. Recusei gentilmente o taxi inexistente e fui ao encontro do desconhecido. Subi, desci, subi, desci, subi, desci (minha gente, eu minto muito, o caminho era facil) e, finalmente, encontrei o tal hotel. Fechado. Respirei fundo, mas nao pra ficar calma, mas pra pegar fôlego pra gritar. Gritei em português, em francês, em italiano e em inglês. Mas gritei com tanta desespero fé que a dona do hotel apareceu. Meu nome: Luciana Alivio Aquino. Prazer. 

So me restava esperar o dia seguinte. Fiquei imaginando o quanto os pais estariam preocupados, afinal, nao se fazem mais babas como eu, e morta, eu nao sirvo pra muita coisa. Mas eu nao tinha muito o que fazer. O pior da noite foi ver que nao havia pasta de dente no banheiro. Gente, foi horrivel.

No dia seguinte, pedi o computador da dona do hotel e mandei mensagens desesperadas a quem conhecia para que alguém pudesse contactar Camilo, que contactaria os pais, que me contactariam. Deu certo, ja vivia emoçoes demais.

A primeira pergunta que os pais me fizeram quando me encontraram: e por que tu nao ligasse do bar pra gente? Errr... Nao sei.




terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quen

De novembro à abril: Luci

Sei que passei dez dias sem postar, mas esse nao é um post para lembra-los de que estou viva. Bem pelo contrario: é um post de despedida, pois estou morrendo, caros leitores. Isso é, se catarro matar. Minha gente, esse frio é muito frio! Como ter saude quando você tem que atravessar a cidade debaixo de -15°? Eu nao estou acostumada a esse tipo de vida. Na Paraiba, a gente soh entende o conceito de gelado por causa do sorvete. Porque minha terra tem palmeiras onde frita o sabia. As aves que aqui gorjeiam também estariam fritas por la. 

Tudo começou com uma pequena irritaçao na garganta no domingo. A irritaçao foi se desenvolvendo durante esses dias a tal ponto que, ha cinco minutos, eu tossi uma coisa que, definitivamente, nao pode ser de origem humana. Tinha uma cor que nao é obtida na natureza. Gente, eu estou com medo. Faz três dias que eu nao sinto o cheiro de nada. Minha voz ta linda. Quando eu falo, os patos respondem. Mas as minhas obrigaçoes como babah desconhecem meu estado de saude e o sofrimento é imenso quando tenho que buscar os guris na creche. 

Como sou uma garota de sorte, num dos dias mais frios de Lyon, fui à creche e nao consegui armar o carrinho de bebê. Tentei de todas as maneiras, chamei duas crechetes para me ajudar e nenhuma delas conseguiu destravar aquela PORRA de carrinho - que é duplo e parece um tanque de guerra. Resultado: as crianças tiveram que voltar para casa à pé. Mas eu precisava levar o carrinho junto. O percurso creche-casa, em condiçoes normais, dura em torno de 15 min, mas iriamos acompanhar o ritmo de um bebê de um ano e meio. Visualizem. 

Peguei o carrinho com uma mao, peguei a guria com uma outra mao e o guri com uma terceira mao (nao me perguntem de onde surgiu essa terceira mao, mas leiam Darwin) e começamos a caminhar. Cinco minutos depois tinhamos avançado 67 cm. Calculei que chegariamos em casa no inverno seguinte. Olhei para o Céu e agradeci por aquele momento maravilhoso. Meia hora depois, chegamos na esquina onde deveriamos atravessar uma rua. Crianças querendo a todo custo soltar minha mao e eu com medo de quebrar ossinhos alheios. 

Quando chegamos em casa, eu estava mais suada que pano de cuscuz. Quando a mae dos guris ouviu minha historia, ela disse que eu poderia ter deixado o carrinho na creche. "Eu também poderia ter deixado seus filhos na creche". "Que nada, foi tudo super tranquilo, tao bom! Adorei! Precisamos tentar de novo". 

E quando o problema nao é desdobrar o carrinho, é dobra-lo. Eu sei que é vergonhoso que eu, como babah e Homo Sapiens, nao consiga manusear um carrinho de bebê, mas é que, normalmente, o carrinho ja estah armado, entao eu nunca lembro das instruçoes dadas ha tempos pelos pais quando preciso delas. "Para dobrar o carrinho é muito simples, Luciana: primeiro você aperta esse botao, empurra o carrinho pra baixo, puxa essa alavanca, gira o carrinho, joga ele pra cima, bate palma, entoa o hino da Tanzania (em aramaico, nao esqueça), pula três vezes, empurra e, quando você escutar um clack, c'est bon". Véi. 

Um belo dia, cheguei no prédio com a gurizada, o carrinho de um soh lugar e as compras. Dou de cara com um elevador quebrado. Agora eu tinha ali a oportunidade de ver quantos invernos seriam necessarios para chegar ao terceiro andar com as crianças. Eu poderia ter dobrado o carrinho e coloca-lo nas costas, como uma mochila, mas claro, nao consegui dobra-lo. Peguei o carrinho com uma mao, os sacos de compras com a outra e vi bravamente a guria subir as escadas, toda lindinha, segurando no corrimao. Enquanto isso, o guri ia na frente dela: dava um passo e voltava três cada vez que a luz, automatica, desligava. Aih a gente subia no escuro até encontrar o proximo interruptor no andar seguinte. "Guri, anda! Soooobee! Segura! Segura no corrimao! Que monstro o quê, menino! Sobe logo!" Essa sou, pura e calma. Entao, me digam, como nao ficar doente? 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

E teremos todo um 2012 pela frente


Três semanas de férias. Luci é feliz. Mas Luci precisa voltar ao trabalho. 

Primeiro dia de trabalho depois que Luci foi feliz:

1. Guri aponta pra minha barriga: "o que é isso que tu tem ai dentro?!" (com aquela cara de OMG!). "Gordura, guri. Gordura".

2. Crazy Creuza, meu vulcao de cocô, esta com gastroenterite. Tirei cocô do pescoço dela hoje. Juro.

3. Guri no banho pega o pinto e confessa: 

- EU VOU CORTAR MEU ZIZI! HAHAHAHA Quer meu zizi?
- Errr… Nao, guri, obrigada.
- Eu frito ele na panela e tu come.

Sem mais.



segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Espalhando fluidos ou o primeiro post de 2012

Antes de tudo: feliz 2012, leitores queridos do meu coraçao! Queria agradecer todas as mensagens desejentas de amor, paz e saude que vocês deixaram, mas da proxima vez, desejem dinheiro. Obrigada.

Nesse exato momento, Camiloulou e eu estamos em Roma. Resolvemos passar o Reveillon aqui. Ta sendo bem legal, tudo é muito curioso. Assim que chegamos, fomos ao supermercado. Vimos alguns gladiadores fazendo compras, tinha alguns imperadores levando seus cachorros pra passear... Também ja visitamos alguns monumentos importantes, mas ainda falta muito pra ver.

Demos muita sorte e ficaremos alguns dias no apartamento de uma amiga de Camilo. O apartamento, nesse momento, esta vazio, mas na noite em que chegamos (30/dez), uma das colocs da amiga de Camilo estava aqui. O quarto da amiga de Camilo é super legal, mas a porta é meio problematica. Eh uma porta de correr de madeira bem pesada que emperra o tempo todo e faz o maior barulho quando mexemos nela, o que me garantiu um certo problema: como a dieta exige que eu beba, no minimo, 1,5l de agua por dia, vivo visitando o banheiro de madrugada. 

Primeira ida ao banheiro da madrugada: levanto da cama completamente desnorteada, tento abrir a porta do quarto pra sair, mas tudo o que consigo é fazer com que ela ranja violentamente. Com medo de acordar a coloc da amiga de Camilo, resolvi tentar sair pelo pequeno espaço aberto. Fiquei de lado, sequei a barriga, parei de respirar e, enquanto passava, coloquei a lingua pra fora num movimento involuntario e acabei lambendo o vao da porta. Olha, sei nao. O importante é que eu consegui sair do quarto e que agora eu conheço o gosto do imobiliario romano. 

Mijei e voltei pro quarto (na volta, guardei bem a lingua na boca).

Até os 26 anos, eu espero
Segunda ida ao banheiro da madrugada: nao houve, mijei na cama mesmo. "Nao, Luci, você so pode estar brincando. De novo?! Você nao tem vergonha nao?". Vergonha eu tenho, o que eu nao tenho é controle sobre essa bexiga. Ha dois anos, foi na cama do cunhado. Tou começando a achar que minha uretra tem algum problema pessoal contra mim. Uretra, querida, a gente poderia resolver nossas diferenças de outra maneira. O que você acha? Porque é meio deprimente saber que a criança de dois anos e meio que eu cuido mija menos na cama do que eu.

Na verdade, pra minha sorte (ou pra sorte da dona da cama, nao sei), eu consegui levantar antes de despejar o xixi na cama e a grossa calça que eu usava pra dormir absorveu tudo. Daih que foi super legal lavar calça mijada as 5h da manha. Entao, no dia em que eu for dormir na casa de vocês (se é que alguém vai querer, diante do meu historico), podem providenciar lençois e fraldas. Pampers é moh legal. A medida é + 26, se liguem. 

E foi assim, em grande estilo, que me despedi de 2011.
2012: veinimim!


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Natal mortal

Nao me olhe assim, eu estou tao confuso quanto você


Contei como foi passar o Natal com os pais de Camilo, mas a provaçao real foi passar Natal com a familia da mae dele. No dia 26, fomos almoçar com a familia inteira e la vai Luci ter que (re)decorar todos os nomes de tios, tias e priminhos. Os bebês cabeçudos que vi no Natal de dois anos atras agora estavam andando, irreconheciveis. Chegamos às dez da manha porque Camilo seria o responsavel por acender o forno à lenha (na esperança de que os pernis ficassem prontos ao menos pro Natal de 2012). Enquanto meu querido se entretia com pernis alheios, eu esperava a vida passar sentada no sofa, com as maozinhas em cima dos joelhos. 

Fiquei assistindo com o avô de Camilo aqueles programas de auditorio. No momento, estavamos assistindo a um quadro com três casais onde o apresentador fazia perguntas às mulheres sobre a vida do casal, que haviam sido feitas anteriormente ao homem. Este deveria mostrar uma placa com a provavel resposta que a esposa daria. Fiquei tentando calcular o quanto isso poderia medir o entrosamento de um casal ao me dar conta de que, caso as perguntas fossem feitas à mim, julgariam que eu nao conheço Camilo, porque eu nao tinha idéia do que responder às perguntas feitas. Ja bastante cansada do besteirol, eu:   

- Sogra quirida, você ta precisando de alguma coisa?
- Nao, Luci, obrigada.
- Mas eu posso fazer alguma coisa.
- Nao, obrigada, querida.
- Minha senhora, entenda: eu quero fazer alguma coisa. 

Depois de uma certa pressao, ela me pediu pra descascar uma manga. Fui pra cozinha como se tivesse recebido A missao. Tipo assim, Papai Noel pedindo pra eu entregar os presentes porque ele esta impossibilitado, sabe. A manga, como eu, vinha do Brasil. Levei um papo com essa manga, mas ele durou pouco graças à minha grande eficiência e destreza no manejo de facas que permitiu que a manga estivesse descascada em um minuto. Foi o ponto alto do meu dia. 

- E agora, eu faço o que? :D
- Nada.

Voltei pro meu sofa. 

Esperei, esperei e as pessoas começaram a chegar. Cumprimentei à todos com um sorriso amarelo e esperançoso de que ninguém resolvesse ir além do cumprimento. Tipo assim, meu povo, eu sou mais do mato que Jeca Tatu e conversas sobrias com pessoas desconhecidas me deixam em estado de pânico. Alheia a este fato, uma tia de Camilo se aproxima e puxa assunto. Pensei em fingir um desmaio, mas talvez isso levasse ainda mais atençao sobre minha pessoa. "E se eu neutraliza-la com um golpe na nuca?", considerei. Melhor nao, é Natal, época de amor e paz. Luciana, que tal simplesmente responder à pergunta dela? Você é capaz, deixe de drama. E, quando vi, la estavamos nohs falando das galinhas

Camilo voltou do jardim com um cheirinho de fumaça e, a essa altura, eu ja estava com tanta fome que se tivessem colocado o casaco dele num prato, eu teria comido. Sentamos à mesa e ficamos esperando a boia. Quer dizer, o almoço. Seguindo o protocolo, depois dos aperitivos, que nao provei, tivemos a entrada. Meu coraçao se encheu de alegria quando vi camaroes em uma bandeja. E olha que eu nao como camarao. Quer dizer, nao comia. Mas com minha limitante dieta, era isso ou nada. No entanto, tive que recusar ponche, pistache, frutas, queijo, patê, pao, vinho, batata e feijao. Acho que a familia de Camilo deve ter pensado "nossa, que moça mais contida, nao é mesmo?" e eu la, quase comendo a toalha da mesa, as lombriga tudo gritando.


Como eu sou uma pessoa prevenida, preparei e levei um tomate recheado com ovo e queijo sem gordura. Parece bizarro. E era. E quem se impooortaaa? Comi e comi feliz. Logo em seguida, os pernis de Camilo apareceram no meu prato. Delicia. E pronto, essa foi a ultima coisa que pude comer. 

"Vocês nao tem idéia das coisas
que aparecem no Google quando
digitamos 'raspadinha'"
Uma prima de Camilo deu pra cada convidado uma raspadinha cujos prêmios eram de 1€, 2€, 6€, 20€, 100€, 500€ e 1000€. Tratava-se de um jogo da velha com os prêmios indicados nas linhas e colunas. Algumas pessoas chegaram a ganhar 2€, mas a grande vencedora do dia fui eu: ganhei um super prêmio de 6€! Fiquei ainda mais animada com o ganho quando vi, no verso do bilhete, que soh havia 7 mil prêmios de 6€. Alguém ainda me deu seu bilhete premiado de 2€, o que fez com que eu saisse daquele almoço 8€ mais rica. Fiquei imaginando o que eu faria com tanto dinheiro. 

Em seguida, pedi a Camilo pra darmos uma volta pelo bairro. A idade avançada do avô de Camilo (mil anos) e o fato dele estar na maioria do tempo numa cadeira de rodas esperando a morte chegar, fez com que Camilo e eu entrassemos numa discussao sobre morte, eutanasia e todas essas questoes apropriadas pra uma época de Natal. Ele disse que nao gostaria de viver em estado vegetativo e que respeitaria minha vontade caso eu quisesse partir dessa vida. Pegando o gancho e lembrando do programa de auditorio visto naquela manha, eu disse:

- Ah, olha, se um dia eu engravidar...
- Hum.
- ...e sofrer um acidente grave...
- Sim...
- ...e o médico disser "ou ela ou o bebê", você me escolhe, viu?
- Eh?
- Eh. 
- Por que?
- Porque um bebê a gente pode fazer de novo, mas outra Luci nao.
- Ta bom.

Silêncio. 

- Alias, alias! Depende. Se eu soh tiver 10% de chance de sobreviver, escolhe o bebê, ta?
- Ah, nao! Escolhe logo agora! Eu nao quero ter que escolher!

O bixinho ficou tao aflito em ter que saber o que fazer caso eu ficasse gravida e caso sofresse um acidente grave e caso o médico so pudesse salvar uma pessoa... O que importa é que, caso a gente participe de um programa de auditorio com esse jogo de casais, a gente acertaria a questao - caso ela fosse posta. 

Depois dessa conversa, voltamos pra casa e, sobre a mesa, a sobremesa. Umas pêras, calda de chocolate, uns doces que a mae de Camilo havia trazido de uma viagem à Turquia e, claro, chocolate. Eu nao sou do tipo que vende a mae por um pedaço de chocolate, mas passei momentos dificeis ao ver o pessoal se deliciando em meio a todo aquele cacao. Desejei a morte daquelas pessoas, queria que elas engasgassem e morressem entaladas. Foi um Natal tranquilo. 



Talvez

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