Mostrando postagens com marcador casamento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador casamento. Mostrar todas as postagens

domingo, 28 de abril de 2013

Cinco anos em cinco meses (ou do amor pelo lado de lah).

Nao querendo ser monotematica, mas ja sendo, queria colocar para fora um post que martela ha alguns meses minha cabeça  sobre a França e sobre essa coisa de evoluçao - e talvez ovulaçao, porque parte desse post é oferecimento da minha tpm. 

Quando eu cheguei aqui na França (2009), me sentia uma estranha em absoluto. Eu estava convencida de que soh estava aqui por Camilo - apesar da antiga vontade de ir embora do Brasil (Brasil = Joao Pessoa. Joao Pessoa = casa dos meus pais). Até hoje, eu nao sei se fui feliz ou nao nesses anos todos em que vivi aqui. Acho que Camilo era uma boa fonte de felicidade que mascarava a solidao sentida. Eu acordava respirando Camilo, mas começava a beber às 8h da manha nos finais de semana pra ver se aguentava o tranco de estar sozinha. E eu, que gosto tanto de falar (o blog veio da vontade de falar, nao de escrever), comecei a me fechar na minha conchinha. 

Ia pro trabalho/faculdade, voltava pra casa, entrava pelas escadas exteriores que davam acesso direto ao meu quarto (para nao ter a necessidade de entrar pela sala e cruzar com meus colocs) e soh descia quando o jantar estivesse pronto. Uma vez terminada a refeiçao, eu subia e me escondia novamente. Disso, surgiram inumeras brigas ferozes com Camilo que, sei la porque, gostava de perder tempo falando merda com o pessoal la na sala. O unico momento em que eu me permitia ser social, era com um, dois, três, vinte, copos de cerveja na mao. Nao gostava de falar francês porque coloquei na minha cabeça que, por nunca ter feito um curso decente, eu nao sabia falar francês. 

E dai, mesmo estando tao longe, eu tinha uns pesadelos estranhos com meu pai. E me pegava com o coraçao acelerado pelo pensamento de um dia ter de ve-lo novamente. Mas ao mesmo tempo, eu pensava em Fabio e meu coraçao se enchia da mais fina angustia, aquela coisa negra que ia me secando por dentro - alguns a conhecem como "saudade". Mas aih a angustia ia embora e dava lugar ao medo. Eu tinha medo de falar, de contactar as pessoas, de sair, de voltar, de ficar e de ser. E, como se nao bastasse, vinha sempre, uma vez ou outra, aquela sensaçao de nao pertencer a lugar nenhum, e alguns pensamentos sempre introspectivos e pseudo filosoficos sobre a necessidade de se pertencer a algum lugar. Eu pertencia a Camilo. E ele dizia que eu era a casa dele. E parecia um bom acordo, porque a gente parecia feliz. E eu amei tanto esse homem! Eu nem lembro mais como era, mas sei que amei porque eu preferi me abandonar à abandona-lo.

Acho que meu amor se confundiu com dependência. Eu nao conseguia fazer nada sozinha. No começo, mesmo quando eu conseguia me exprimir razoavelmente em francês, eu pedia pra que ele fosse comigo ao médico. Eu fazia uma drama pra ele ir comigo resolver algo na Prefeitura. Eu entrava em pânico e fazia birra de criança pra que ele fizesse algum telefonema de meu interesse. Uma vez, a gente pegou uma briga fenomenal nos metros parisienses, porque eu queria que ele me acompanhasse a um lugar que ele nao queria ir - tudo isso porque eu achava que eu era incapaz de voltar pra casa sozinha. Ele corrigia meus trabalhos da faculdade. Eu nunca viajava sem ele. Nunca saia sem ele! Cinema. Camilo. Teatro. Camilo. Show. Camilo. Bar. Camilo. Sim, eu tenho muita vergonha de dizer isso. Eu realmente fui muito fraca. Eu achava que tentava mudar isso, eu queria que as pessoas falassem comigo, mas quando elas falavam, eu rezava pra que elas se calassem. Eu soh queria que elas soubessem que eu era mais interessante do que aquilo, mas eu nao queria fazer esforço pra isso, porque "esforço" subtendia "falar" e, isso, eu nao era capaz de fazer.

E, apesar de toda essa dependência, eu acordei e finalmente percebi que eu tava tao vazia, tao pobre, que eu nao o amava mais, que eu estava com ele, nao mais por amor, mas por medo e, nesse dia, eu realmente me senti (ainda mais) sozinha. Tentei colocar a culpa na minha extrema e fatal instabilidade. Culpei meu signo. Culpei a lua. Culpei Lula - porque todo mundo culpa o Lula. Culpei a França, o Brasil. E lembrava de Artur da Tavola (desculpa atencipada, pois citaçoes soam sempre quase esnobes) quando ele dizia que "(música é vida interior, e) quem tem vida interior jamais padecerá de solidão". Eu achava que tinha e, portanto...

Quando acabamos, eu entrei em depressao. Alias, aquilo deveria ter outro nome, porque depressao eu ja tinha sentido, mas "aquilo" era mais intenso e "aquilo" me transformou. Eu achava insuportavel viver, mas vivia porque eu sabia que fazer alguma besteira iria provocar uma tristeza semelhante na minha mae e esse pensamento me apavorava (desculpa o drama, mas foi assim que aconteceu e, apesar de eu nao entender mais aquela tristeza, eu sei que ela existiu e que foi dessa forma que ela fez parte de mim). Até que um médico me disse que aquilo tudo era, em parte, decorrência de um tumor. Fui pro Brasil desejando estar com meus pais. Sim, pai e mae. Fiz a cirurgia e, quando voltei, meus amiguinhos...

Quando eu voltei, decidi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer. Me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você. Parei de me trancar no quarto. Decidi que meu francês nao é bom para um francês, mas que é bom para uma estrangeira. Perdi quase todo o peso ganho durante a doença. Entrei no mestrado, mesmo sabendo que nao haveria ninguém pra corrigir meus trabalhos. Fui descobrindo simplesmente o que era ser eu de verdade - quando comecei minha vida sexual/amorosa, engatei nove anos no stop de namoro e era a primeira vez em que eu estava vivendo sem um cara pra me dizer o que fazer (sou feminista, mas...). Fiquei meio perdida no começo porque sou o tipico clichê de menina que nao teve a figura do pai presente e que demanda muita atençao dos namorados. Agora, gasto meu dinheiro da forma que quero - agora nao gasto mais porque, se somos livres, "nohs gatos ja nascemos pobres", nao esqueçamos. 

Aprendi a viajar sozinha - na primeira vez que viajei sem Camilo, foi pra fazer um trajeto de pouco mais de uma hora. Compro uma quiche, entro no trem, me deparo com uma cadeira vazia ao meu lado. Aguento firme, mas ao ver que nao tinha ninguém pra dividir a porra da quiche, começo a chorar. E fico assim, comendo a quiche e chorando, tendo pena de mim. Deprimente. Hoje, eu prefiro viajar sozinha, isso me da a oportunidade de passar o tempo olhando pela janela, de observar as vaquinhas no pasto ou, em dias feios, de ver macro espermatozoides de chuva se formarem na janela do trem. Aprendi a planejar coisas sozinha. Viajo e, quando volto pra Lyon, vem quase sempre uma lagriminha emocionada me socorrer quando me dou conta de que aqui é minha casa. 

Eu cortei meus cabelos! Dei um pulo dificil para fora dos padroes e agora nao sou mais a menina de cabelos longos e lisos. Sou uma mocinha de cabelos curtos e cacheados (e crespos!). Decidi usa-los como eles sao e, porra, vocês nao imaginam a liberdade que é poder ser você mesma. Fiz o primeiro Amigo francês. E o segundo e o terceiro. E agora, quando eu chego em casa, as pessoas sorriem ao me ver. Quando estou estudando no quarto, elas batem na minha porta e me mandam descer. E eu ainda nao me acostumei com isso. Porque essas eram as pessoas que eu admirava em silêncio ha uns anos e, agora, elas me dizem "eu te amo". Eu amo meus colocs. Eu aprendo com eles. Sao dez ao todo. A gente fala tudo sobre tudo e sobretudo sobre nada. E acho que, finalmente, o que me salvou foram as pessoas. Eu ja tinha falado aqui, num post antigo, que o importante nao é o lugar, mas quem te rodeia. Pra mim, vida interior, Artur, sao pessoas. Eu preciso disso. Eu preciso falar, preciso ser ouvida, mas também tenho necessidade de ouvir, de conhecer o outro. 

Nesses meses em que passei longe do blog, recebi alguns emails de leitores desconhecidos que dizam "olha, desculpa, você nao me conhece, mas eu leio seu blog e sinto como se te conhecesse", e dai, elas me perguntavam se eu ia bem e contavam um pouco a historia de vida delas. Gente, eu amo! Eu acho isso genial! Gosto de gente dada (ui), aberta (ui), que nao faz pose, que nao faz tipo. No começo de 2008, um amigo me escreveu um email depois de ler um post antigo meu num blog antigo.

(...) Desculpe o texto pseudo-sério, mas seu post realmente mexeu comigo, de alguma forma... acho que fiquei meio emocionado, de alegria e tristeza por me sentir em sua pele. Ainda assim, quero que você guarde pra sempre a forma como te admiro; bem como a forma verdadeira como você ama esse negócio de viver - que faz parecer que você não tem medo de nada, parece que nada é realmente tão grande que não possa ser alcançado.

Pois é, eu tive medo de muita coisa, mas parece que continuei conquistando-as  - pelo menos era isso que Camilo me fazia tentar enxergar. Acho que aqui, na França, eu tive a oportunidade de crescer. Sim, poderia ter sido em qualquer outro pais, mas nao foi. Foi longe de casa, longe do meu perimetro de segurança. Me fudi muito sozinha, mas percebi que tudo isso fui eu quem provocou. E, apesar de achar que fosse enlouquecer em certos momentos por nao ter ideia do que fazer com minha vida, olho pra tras e sorrio com toda a ironia que me acompanhou. A vida é irônica. E soh. Sinto como se tivessem me dado uma injeçao de vida. Decidi parar de me vitimizar, de achar que eu sou fraca. Ninguém sabe que você é fraco até que você o diga - gente, baixou o satanas da auto-ajuda? E, finalmente, acho que estou onde eu queria estar. A França me emociona ♥. Aqui é casa e vai ser casa pelos proximos nove anos - a nao ser que eu queira partir de novo, porque eu tenho a escolha. Mas tenho amado esse pais. Adorei fazer o post anterior, adorei perceber que eu faço parte disso. Nao foi pela beleza do pais que eu vim, mas foi pela beleza que eu fiquei. E, sim, pelo povo. Nao escutem os clichês que rolam por aih sobre os franceses. Os franceses sao sim um povo amavel. E quem diz o contrario, nao conhece os franceses. 

Sei que a vida vai continuar nao sendo facil. Mas eu tou bem acompanhada. Eu tenho eu. :)



sábado, 28 de maio de 2011

04. Do que é diferente - Fête des voisins

Na ultima semana de cada mês de maio, a França comemora a Festa dos vizinhos. A idéia surgiu em 1999 com o proposito de estimular as relacoes entre os moradores dos bairros. Eu nunca tinha ouvido falar na festa até um dos meus colocs resolver organizar uma aqui em casa, ontem. Pro caso francês, isso é fantastico, porque as pessoas aqui nao moram, se escondem. No Brasil, eu pensaria mais numa campanha pra que os vizinhos nao participassem tanto da vida alheia.

"Bom dia, eu sou o babaca do quinto andar!"
"Oi, eu sou a puta do terceiro!"
Apesar de existir ha pouco tempo, a festa parece ser bem popular. Meu coloc foi na sub-prefeitura e pegou o material que ela disponibiliza pra festa: cartazes, baloes, convites, camisas e adesivos pra colar na blusa onde os vizinhos escrevem seus nomes pra facilitar o reconhecimento durante a festa. 

Eu moro ha quase dois anos aqui e o unico rosto de vizinho que eu conheço é o da vizinha da frente, e somente porque ela sai de casa pra fazer feira no mesmo momento em que saimos. Mas desconheço os moradores de toda a rua - que consistem basicamente em velhos solitarios e ranzinzas. A vizinha do lado, um amor de pessoa, ameaça denunciar a gente por uma construçao que fizemos sem permissao da prefeitura. Nao, a construçao nao foi no jardim dela, foi no nosso, mas ela nao gostou e pronto. 

A perdiçao das crianças. E a minha
Pra festa, pensei em fazer um prato brasileiro, algo bem elaborado. Entao, fiz brigadeiro. Foi dificil. Mas dificil mesmo foi explicar às pessoas que aquela sobremesa nao tinha nada além de leite condensado como ingrediente. Eh que francês nao curte muito doce. O leite condensado daqui, por exemplo, é diferente, é menos doce! 

Mas o primeiro desafio da festa foi o de convencer as pessoas a participarem dela. Depositamos convites nas caixas de correspondência, mas como a vizinha da frente é especial, uma coloc foi falar com ela pessoalmente na vespera da festa e a convidou pra conhecer nosso jardim. Minha gente, que desgraça. Nosso jardim é a ultima coisa apresentavel desse mundo. Temos um bom espaço na area externa da casa onde cada coloc poe em pratica seus projetos: temos uma estufa onde plantamos tomate; a construçao da discordia, ja citada, em madeira, pra guardar nossas bicicletas; temos um forno à lenha; um grande espaço pro composto e, em breve, teremos um... galinheiro.


Pessoas de boca cheia 


Da esquerda pra direita, vos apresento: torta de chocolate, quiche, brigadeiros, cerejas,  purê de lentilhas, mais torta, paes e pessoas sem importância ao fundo


Vizinho faminto e eu 

 Mas tudo isso é assunto pra um outro post. O que importa neste é que, pra fazer o fogo do forno à lenha, precisamos de que, amiguinhos? De leeenha. Entao, o pessoal passou a juntar todos os restos de madeira e pau que viam pela frente e o resultado é que parece que toda a madeira do universo se encontra no nosso jardim: resto de cadeira, tabua de mesa, galho de arvore, bau, sequoia etc. O monte de galho fica bem na entrada do bêco que da acesso aos fundos da casa, e sempre que eu passo por la, eu prendo meu vestido, minha saia... Eh perigoso se aproximar, ja perdemos dois gatos, uma criança e um vizinho que tentaram passar por essa area. Eles tao la até hoje se debatendo.

Eh sério.

A vizinha, quando viu nosso jardim, ficou impressionada com nossas plantaçoes, mas quando viu o tanto de madeira amontoada disse chocada "mais ça fait un peu de bordel quand même!" que em traduçao livre (livre de certeza) quer dizer "puta que pariu, que bagunça do carai". Inclusive, acho que ela nao veio pra festa com medo de ficar engalhada.

Como nao recebemos confirmaçao de nenhum vizinho, ficou aquela tensao no ar se teriamos uma festa de vizinhos sem vizinhos. Pouco a pouco, as pessoas foram chegando. A primeira, foi uma vizinha ja conhecida que é freguesa da nossa lojinha - temos uma micro-loja na garagem de produtos bio em processo de desenvolvimento: igualmente assunto pra outro post. Ela veio com a familia. Depois chegou um velhinho solitario que encheu a cara e contou a historia da nossa rua. Finalmente, chegaram mais duas familias. Uma delas era composta por um guri que tocava violao e uma menina que tocava flauta. O guri conseguia dedilhar alguma coisa sem fazer o ouvido doer, mas a menina... Aplaudi por educaçao, mas a vontade mesmo era arremessa-la no monte de galhos. A flauta dela e meus pensamentos:

- Fi-foooom fiii-foooom!
- Eu podia ta roubando. Eu podia ta matando.
- FI-FOOM FI-FOMM...
- Mas nao... Estou aqui escutando essa...
- Fiiiiiiiii... Fooooooommm...
- ...pessoa. 

Quando ela acabou, eu fui a primeira a aplaudir: aplaudi o silêncio.

Mas a festa foi otima! Nao serviu muito pra mim no proposito de conhecê-los, ja que eu sigo sem saber o nome das pessoas ou a casa onde eles moram. Mas é bom guardar boas relaçoes com os vizinhos, dificilmente estes vao chamar a policia quando das nossas festinhas barulhentas.

Por falar nisso... hoje é o meu aniversario! *dancinha

Taih, nao curto envelhecer, mas esse é o unico dia em que eu sou babada e mimada ao extremo, entao, aproveito! O dia nem acabou e ja foi lindo! Fomos a um restaurante indiano na parte antiga da cidade (Vieux Lyon). Depois compramos uma cerveja e fomos dar uma voltinha. Vieux Lyon é a parte mais turistica da cidade e hoje tava tendo uma feira onde as pessoas da organizacao estavam vestidas em trajes medievais. Louco! Tinha uma tenda com tiro ao alvo onde a arma era uma besta. Lembrando que a besta da qual eu tou falando é mais parecido com isso,


do que com isso:

    
E por falar em animais (tou parecendo o wikipedia e seus hyperlinks), as galinhas acabaram de chegar! Acreditem ou nao, elas sao presente de aniversario de uma das colocs. Ela faz aniversario amanha, entao, faremos uma festinha hoje aqui em casa. Por conta disso, vou me recolher aos meus aposentos e descansar um pouco pra estar disposta hoje à noite.



terça-feira, 24 de maio de 2011

De como um anel (nao) legitima relaçoes amorosas

Ontem tava rolando uma discussao no twitter sobre o uso de alianças. Alianças, aquelas coisas que as pessoas costumam colocar no dedo quando se casam. @AmandaLourenco disse que nao reparava nas pessoas que a usavam e que nao sabia nem mesmo qual era a serventia de uma aliança. Eu desconfio que tem algo a ver com dominio. Eu juro que posso entender que algumas pessoas se sintam bem usando alianças sem que isso tenha alguma coisa a ver com minha explicaçao. 

@adelialund disse que usava aliança, mas que seu marido nao usa e que ela nao se importa com isso. Tenho um casal de amigos que, nem sei se usam aliança, mas fizeram cada uma tatuagem igual. Taih, acho uma forma muito mais criativa (e até mais séria) de mostrar uniao e comprometimento com o outro. Mas a grande maioria costuma usar aliança pra mostrar à sociedade que nao esta disponivel ou exige do parceiro o uso da aliança pra esse fim. E é isso que eu acho muito tosco. Acharia muito tosco se Camilo me pedisse pra usar aliança. Sinal claro de que ele nao confia em mim. Mas essa é minha opiniao, claro. 

Usar uma aliança como soluçao pra manter possiveis paqueras longe é a saida mais inocente do mundo pra mim. Porque, primeiro, existem as pessoas como Amanda, que sequer percebem esse detalhe na mao do cidadao. Segundo, porque existem pessoas que nao estao muito preocupadas no status amoroso de alguém que elas estejam afim. E, terceiro, se você estiver disposto a trair, nao vai ser um anel que vai te impedir de fazer isso, certo? Ja trai e ja fui traida suficientemente pra saber que essa questao nao se resolve através do uso de um anel. 

Tenho um amigo que namora ha dez anos uma menina e que estava sendo paquerado no trabalho por uma amiga. Perguntei se essa menina sabia que ele tinha namorada e ele respondeu "ela deve saber, eu uso um anel prateado de 1cm". Oh, meu deus! Se eu visse um anel prateado de 1cm na mao de um homem, eu ia pensar que se trata de... um anel prateado de 1cm na mao de um homem, e nao que ele namora sei la quem ha uma década. 

No começo de 2010, eu tava no Brasil e fui curtir meu carnaval em Olinda (Camilo ficou na França porque tava trabalhando). Fomos (uma amiga, um amigo e eu) pra Olinda de carona com um cara que conhecia as pessoas da casa em que iamos nos hospedar - ele ficaria igualmente hospedado lah. Na viagem de ida, notei que o cara ficava me sacando de uma forma esquisita, mas ignorei. Quando chegamos em Olinda, nao sei como, a conversa que vinhamos tendo acabou tendo como tema meu casamento e o cara sugeriu que eu tava ali pra trair Camilo. Eu disse que nao, que nao era porque eu tava em Olinda que eu nao respeitava (ou nao poderia respeitar) meu marido. Entao, todo indignado, ele lembrou que eu estava sem aliança e sem marido. Porque é isso: a gente so respeita o macho se ele tiver colado do lado. Nesse caso, eu soh poderia ser respeitada se tivesse uma aliança. A noite, o cara continuou investindo e chegou ao ponto de sentar ao meu lado e roçar as pernas cabeludas dele nas minhas pernoquinhas lindas de meu deus. Tomah-no-cu! Fiquei muito puta!* O cara sabia que eu era casada, mas continuou dando em cima. Agora pergunto: se eu tivesse uma aliança ele teria me respeitado? Algo me diz que nao. O pior dessa palhaçada é que fiquei com sentimento de culpa. Alias, como ficamos sempre, é de praxe. 

Chegando em Joao Pessoa, comentei o caso com minha mae que, contrariadissima com a historia, perguntou por que diabos eu nao usava uma aliança. (suspiro) Nem preciso dizer que Camilo, ao saber da historia, nao exigiu que eu começasse a usar uma coleira aliança, nao é? De vez em quando, minha mae chegava pra mim "ô, minha filha, por que você nao usa uma aliançazinha, hein? Pode ser uma bem discretazinha". Naozinho, maezinha, obrigadinha. Soh usaria uma aliança se ela viesse com um raio-laser capaz de abrir no meio gente sem noçao. Aih valeria a pena. 

- Como é você quer que eu respeite você, se você vem sem aliança e...
- ZEEEEEUUM! 

Cabou-se. 

* Antes que eu alguém pense que eu tou me fazendo passar de ultimo bastiao da honra em pleno carnaval, adianto que eu nao tenho problemas em ser paquerada. A minha indignaçao nesse caso foi (também) a de ter que aguentar as investidas de um babaca machista que achava que poderia dar em cima de mim pelo fato de eu nao usar aliança em pleno carnaval. Contexto é tudo nessa vida, nao é mesmo?


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Feliz Pascoa!



Todo dia 16, Camilo e eu disputamos mongamente pra ver quem da os parabens primeiro ao outro pelo aniversario de namoro da gente. Ja cheguei a colocar um alarme à meia-noite pra parabeniza-lo primeiro (hihihi). Mas a verdade é que, apesar de gostar de datas, eu sou um fracasso! Essa semana:

- Olha, amor, dia 19! A gente faz tantos meses de casamento hoje! 
- Na verdade, a gente casou dia 09.
- ...

Ha uns meses:

- Luci, qual a senha que tu colocasse pra acessar tal site?
- Eh a data do teu aniversario.
- Nao tou conseguindo.
- Oxe, menino. Vai: dia trinta e um do...
- Meu aniversario é dia 30.
- ...

Desconfiei desde o principio. 

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Cabaret

Se ha uma coisa que nohs estrangeiros aqui na França adoramos fazer é buscar nosso titre de séjour na Prefeitura. Nossa, adoramos! Afinal, nada mais gostoso do que passar um dia inteiro numa fila cheia de gente tensa e mal humorada na esperança de obter um documento que pode simplesmente nao existir ainda. 

Meu tipo de visto é o Vie Privée et Familiale, o que significa, basicamente, que eu tou pegando um francês e que, por isso, eu tenho direito de morar na França. Entao, a cada ano, durante três, quatro ou cem anos (depende do bom humor do funcionario que analisa os papéis), eu tenho que ir na Prefeitura pra renovar meu titre. Mas como eu ja falei aqui, essa nao é uma tarefa facil. O governo francês faz de tudo pra você desistir de morar aqui. Quando nao te expulsam descaradamente (caso dos Roms), eles criam leis hipocritas pra dificultar a sua vida (caso da proibiçao das burcas). Como eu nao tenho origem cigana, nem uso véu, o governo tenta me vencer pelo cansaço. O titre me da direito a trabalhar aqui, e eu soh posso sair do pais por até três meses. Depois de cinco anos, recebo, teoricamente, um titre de validade de dez anos e posso dar entrada no processo de obtençao de cidadania.


A troca do titre é anual, mas isso nao significa que eu vou somente uma vez ao ano na Prefeitura. Você vai uma primeira vez, munida de todos os papéis que você conseguir carregar: certidao de casamento, de nascimento, conta conjunta, passaporte, foto 3x4, comprovante de residência, cartao telefônico, bilhete de cinema, papel higiênico cagado, tu-do. Aih, você acorda as 6h da manha, corre pra fila e encontra um acampamento montado na calçada da Prefeitura. Somente as 9h da manha as portas da Casa se abrem, mas isso nao quer dizer que você vai entrar. A policia fica por perto. La pro meio-dia, você bota os pés no prédio e recebe uma senha. Numero um bilhao. Você tem medo de olhar pra tela das senhas. Você hesita. Mas você olha. Numero 08.

Obvio que os assentos nao sao suficientes pra todos - se um dia eu tiver varizes, vou saber o motivo. Dai, quando a tarde ja vai alta e você começa a babar de cansaço, seu numero é chamado. No guichê, a moça te diz "desculpe, mas esse papel nao esta cagado o suficiente. Volte outro dia com a documentaçao completa". Derrotado, você volta pra casa, assim, de maos vazias, pra refazer todo o processo num outro dia.

Da penultima vez que fui à Prefeitura, eu estava com todos os documentos em maos. Camilo verificou tudo comigo. Estava tudo nos conformes. Acordei cedo, fui pra fila e, quando ja estava plantada la ha pelo menos uma hora, um policial avisa à mulher que estava na minha frente que ela nao poderia resolver nada pois seu marido nao estava com ela - meu caso. Como eu nao posso pedir pra que Camilo perca um dia de trabalho, ele costuma me encontrar quando ha somente dez pessoas na minha frente. Mas pra complicar, a Prefeitura inventou que o marido faz parte dos documentos e, se ele nao esta com você na fila (que é fechada com grades de ferro pela policia as 9h), você nao pode renovar o titulo -  mesmo que ele chegue as 9:05h e você esteja la ainda, do lado de fora da prefeitura, NA FILA, com TODOS os documentos na maos.

Nesse dia, liguei pra Camilo desesperada, ele chegou 20min depois. Quando o policial deu as costas, ele pulou a grade e fingiu que estava comigo desde o começo. O curioso é que o policial deu uma dica a mulher de como o marido dela poderia entrar na fila sem ser notado (se passando por alguém que ia resolver outro assunto, mas a idéia nao funcionou). Nesse dia, entramos no prédio as 12h. E saimos as 16h. Isso tudo somente pra pegar o récépissé, o papel que substitui provisoriamente o titre.

(três meses depois)

Fui pegar meu titre hoje e, depois de passar somente duas horas na fila, a moça me disse que ele nao estava pronto, que eu devo voltar dentro de dez dias. Acho digno.

- Você pode vir busca-lo em dez dias?
- Na verdade, eu trabalho e estudo todo dia.
- Ah, mas você nao tem escolha.
- Ah, desculpa, mas quando você me perguntou parecia que eu tinha.

Adoro essas questoes, sabe. Quanto custam as vacas? Depende. Depende do que? A vaca preta vale cem. E a branca? Também.

- Ok, volto aqui dia 10.

Nesse dia em que passei nove horas na fila, a policia expulsou uma japonesa que ficou histérica depois de receber um nao. Ela começou a gritar em inglês explicando a situaçao dela. O policial chegou, pegou ela pelo braço e disse "se todo mundo aqui começar a gritar assim, isso aqui vai se tornar uma 'feira'" (foi assim que eu aprendi o que era foiré). Também expulsaram um cara. Mas Sarkozy vai ter que se esforçar mais pra me fazer ficar histérica. E eu sei que ele vai.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Chega de maças!


Gente, resolvi participar, depois de encerrado, do 4o concurso de blogueiras promovido pela Lola. Nao gosto muito da idéia de "concurso", porque isso me da a sensaçao de competição e eu sou daquelas que prefere nao jogar com medo de nao ganhar, pela pressão etc. Mas a idéia defendida pela Lola, é que os blogs sejam divulgados e que as pessoas possam se conhecer. E, como eu conheci muito blog legal através dos concursos anteriores, resolvi participar deste sem maiores frescuras. O concurso foi dividido em três partes e, caso eu entre, sera somente na terceira, mas vocês ja podem ler e votar pra primeira etapa. Entao, um, dois, três, la vai: A origem do meu feminismo.

::

Estava eu lendo um livro à sombra de uma arvore quando, de repente, uma jaca caiu na minha cabeça. Aquele caso curioso provocou em mim um lampejo de auto-observação e, depois de assistir a um rápido filme que se passava pela minha cabeça sobre minha vida, me veio uma revelação extraordinária: "eu sou feminista!" - talvez o caso se torne ainda mais insolito pelo fato de que a arvore era uma macieira. Mas isso nao importa. O que importa é que minha vida mudou a partir dali. 

Ok, as coisas nao aconteceram assim. Na verdade, o processo foi menos romântico e levou mais tempo do que eu gostaria. Ironicamente, me tornei feminista graças a convivência com machistas. Afinal, leitor, sabe você o que significa crescer num dos estados mais machistas do Brasil? Pois eu vou te contar o que é. 

Meus pais nasceram em Campina Grande, interior da Paraíba e, meus avos, nasceram num interior ainda mais interior - tao interior que eu nem sei aonde fica. Nao fui um primor de inteligência, nem dispunha de um senso critico aguçado: sempre fui muito feliz com minhas Barbies, os carrinhos de bebês e as vassourinhas de brinquedo. Também aproveitei bem das "brincadeiras de menino" por ter dois irmaos. Era a única menina na minha escola que sabia fazer uma pipa ou lançar um peão sem perder um olho. Mas nossa irma nasceu e, como eu já tinha nove anos de idade, poderia me ocupar, além das tarefas domésticas, das fraldas cagadas da pequena. Questionada pela razao daquela injustiça, minha mae respondia com naturalidade e inocência: "porque você é mulher. Ou você quer que seus irmaos limpem a bunda da sua irma?" (Bom, na verdade, eu queria). "Prefiro que você lave os pratos, porque seus irmaos nao sabem fazer direito". Eh que se podia ler nos meus cromossomos algo como "Born to be dishwasher". 

Eu, como uma lady que sou, esperneava e gritava. Nao adiantava: centenas de anos de tradiçao estavam contra mim. Minha boa mae, que tinha aquele machismo cravado na pele, nem se dava conta do que estava falando quando dizia que eu deveria aprender a cozinhar porque, do contrario, no dia em que eu casasse, o marido morreria de fome. Meu irmão tinha liberdade pra dizer que ia dormir na casa da namorada. Se eu fizesse o mesmo, eu nao teria os 24 dentes na boca. Meu pai disse que ia escolher meus namorados. Minha mae dizia que falar palavrao nao ficava bem em uma mulher. Um inferno.

A vida de certas amigas igualmente me davam arrepio. Tinha aquela que fechava os livros, em plena época de vestibular, pra fazer o jantar do irmão (que ficava na sala com as pernas pro ar, gritando a fome e devolvendo o prato de comida caso este nao estivesse bom o suficiente pro seu paladar). E aquela outra que me revelou que nao iria perder a virgindade antes do casamento porque nao saberia com que cara olharia pro pai quando chegasse em casa. Ora, cara de quem deu, ué.

Anos depois, conheci o amado e resolvemos nos casar por meras questoes burocraticas (facilitar minha entrada e estadia no pais em que ele nasceu). O casamento era coisa simples (casei de jeans e All Star), mas minha avoh, temendo pela minha honra, me preveniu pra tirar fotos com o juiz, do contrario, eu ficaria mal falada, as pessoas iam pensar que eu tinha apenas me amancebado*. E contou historias de meninas do interior que, nao podendo casar como gostariam, se vestiam de noivas e tiravam fotos pra mostrar a sociedade que mereciam respeito. E nao ha nada pior pra uma mulher que a perda de seu himen sua honra. Minha prima, por exemplo, antes de casar, foi obrigada pelo meu tio a ir no ginecologista pra comprovar sua virgindade. 

*Viver como casada sem o ser

Eh natural que meus pais tenham reproduzido a educação machista que receberam da sociedade e dos meus avos. Por isso, me indago sobre o que me levou a me distanciar da cultura machista da minha família, do meu estado, do meu pais. O que faltou pra prima que cresceu comigo tornar-se feminista? Qual foi o momento que permitiu que eu tivesse esse comportamento quase fobico em relação ao machismo? Sinceramente, soh tenho uma explicação plausivel: foi a jaca. 

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Meu lado viking

Esse é um daqueles posts que vão começar num ponto e terminar noutro, afinal, minha linha de raciocinio eh desalinhada.

Hoje, enquando eu estava indo pro metrô, vi uma figura sombria andando à minha frente. Era uma menina vestida de preto, com um vestido que deveria ter sido da tataravoh dela e que era tão bizarro que soh poderia ter sido comprado numa loja de fantasias. Deu um noh na minha cabeça ver uma camponesa do seculo XVIII pegando metrô. Essa é uma das coisas das quais eu adoro aqui. O fato de poder ser camponesa do século XVIII e pegar metrô? Não, querido leitor, é o fato de que você poder andar como quiser sem que ninguém se importe/olhe/aponte/ria. Impagavel.

Isso me fez refletir um pouco sobre a forma com a qual eu me visto na França. Em João Pessoa, nada passa despercebido aos olhos dos outros. Nada. Aqui, eu tenho mais liberdade pra ser quem eu quiser porque:

a) na França, ninguém me conhece;
b) Camilo não cobra que eu funcione no modo princesa;
c) as pessoas aqui não fazem alarde sobre a forma com a qual você se veste;

Por esses três motivos, eu me peguei indo pra padaria outro dia com o cabelo do jeitinho que ele estava quando acordei de manhã. E alias, vestida numas calças que eu uso pra dormir no inverno que, além de tudo, estavam manchadas. E, na verdade, noto que minha vaidade em geral tem arrefecido e isso, ao contrario do que possa parecer pra maioria, é muito bom.

Acho que eu tenho uma sorte muito grande de ter Camilo como namorado. Porque, sinceramente, não é todo namorado que briga com você por você ter se depilado cedo demais. "Deixa esses pelos crescerem! Cadê teu feminismo?", ele pergunta. E ninguém aqui pensa que sinônimo de feminismo é cultivar pêlo. Mas ninguém pode negar que gilete/cera é uma tortura, e é uma tortura pela qual os homens não passam - não esqueci de vocês, nadadores, beijos! - e que a gente passa... por que mesmo?

No meu caso, se eu não devo satisfação aos desconhecidos do metrô, se eu gostaria de aumentar o espaço entre uma depilação e outra e se meu proprio namorado ta pouco se fudendo pro caso, por que eu continuo me torturando? Resposta: eu continuo me torturando por causa do segundo tipo de pessoas que leem esse blog. O primeiro tipo vai pensar "é verdade, depilação, vaidade em excesso, pressão sobre a mulher estar sempre bela é uma merda". O segundo tipo vai dizer "sebosa. Casou e agora ficou desleixada. Pobre Camilo".

Graças aos anjos de Jesus Cristinho, tudo nessa vida tudo é questão de equilibrio.

Não, você não vai ver minhas axilas nesse estado. Jamais. Eu soh não uso brincos quando vou dormir. Eu uso creme hidratante todo dia. E, se pudesse, continuaria indo pro cabeleireiro a cada três meses, como fazia no Brasil. Por outro lado, não perco o sono quando vejo minhas celulites e estrias. E tampouco faço dietas agressivas pro meu corpo pra deixa-lo mais Gisele. Não suporto maquiagem (outra droga que Camilo me encorajou a largar de vez). Não uso salto. E, melhor de tudo: sei que eu poderia ser diferente em muitos sentidos em relação ao padrão de beleza e de comportamento imposto pras mulheres porque tenho o ambiente ideal pra trabalhar isso. Admito que é triste que eu não tenha me dado conta disso tudo sozinha e que precisei de ter um homem compreensivo ao meu lado pra me fazer enxergar estas coisas. Mas eu não lamento, eu comemoro.

Comemoro também o fato de eu poder, com ele, chamar palavrão pelos cotovelos e não escutar nenhuma frase do tipo "isso não é coisa pra mulher", sentença que me atinge ainda mais fundo quando é falada por mulheres, porque vejo isso como um tiro no pé. Uma francesa outro dia disse que eu falava demais "putain", mas nunca a vi censurar o namorado que faz a mesma coisa, e olha que ja morei com os dois. E ha umas semanas, foi uma brasileira no Orkut que disse que meu blog era de mal gosto, que tinha palavrão. Muito triste. Eu entendo que minha avoh pense parecido, mas meninas de 30 aninhos? Enfim, infelizmente, pega mal pra mulher ser agressiva. E no quesito comportamento, eu tou muito mais dentro daquele campo tido pelo senso comum como sendo o campo masculino: beber cerveja, sentar de perna aberta, falar palavrão, arrotar. Sou praticamente Hagar, o Horrivel! Grrrau!

Ok, voltando...

Seja como for, falta muito pra que eu me sinta realmente livre com meu corpo, minhas roupas e meu comportamento. O objetivo não é virar uma mendiga, é somente alcançar um nivel de esclarecimento sobre as coisas que me impeça de sofrer por causa da minha (falta de) feminilidade. Como também não julgar quem ainda não conseguiu enxergar essas coisas. Afinal, eu ainda não cheguei la e não quero ser julgada.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A gravata do meu namorado

Não é de hoje que eu sei que Camilo tem um sono esquisito. No começo do nosso namoro, ele acordou um dia, no meio da noite e, de joelhos em cima do colchão, começou a gritar apontando pro meio do quarto:

- O que é que esse carro tah fazendo aqui?! Olha esse carro!
- Que carro, Camilo?
- Esse carro! Esse!

O menino tava tão seguro de si que eu realmente fiquei com medo de encontrar um carro no meio do quarto. Mal sabia eu que minhas noites deixariam de ser tranquilas a partir dali. Eu ja perdi as contas de quantas vezes ele fez isso. Geralmente ele senta ou fica de joelho - nessas ocasiões, eu tenho que dar um ippon pra ele voltar pra cama. E existem as fases.

Fase amorosa:

Aconteceu quando moravamos no Brasil. Ele costuma passar a mão em volta da minha cintura quando dormimos. O problema é que quando dormiamos com amigos, ele fazia a mesma coisa. Deu um beijo uma vez no cotovelo de um amigo e passou a mão na bunda de uma amiga - por isso, esse disturbio também é chamado por mim de sono conveniente.

Fase intelectual:

Eh quando ele acorda a fim de conversar. Eh a que eu mais gosto, porque eu não acordo assustada com os gritos dele. Nessa, ele começa a falar sobre qualquer coisa. As vezes ele ri, é lindo! Ele:

- Tu viu o que aconteceu?
- Hmm, vi. Legal, né, amor? (Hihihi)
- (ruidos estranhos) Eh mesmo. Eu acho até que zzZZzz...
- (...) Lindo?

Fase protecionista

Eh quando eu acordo com ele abraçando meu crânio e dizendo "corre", "não vai pra aih", com uma voz muito desesperada. Quando acorda, ele explica que teve um pesadelo e que tava tentando me proteger de alguém. Acho bonitinho... quando eu posso respirar. Ele tem esses sonhos geralmente quando tah estressado com o trabalho.

Infelizmente, acho que a fase protecionista esta com seus dias contados. Temo que venha por aih a fase homicida. Porque ontem Camilo tentou me matar. Sério. Eu ja tava tendo um dos meus famosos pesadelos quando fui acordada pelas mãos de Camilo: uma no ombro, outra no pescoço, me apertando. E ele começou a gritar e eu, claro, também! "Para, tah doendo! Acorda!" Aih ele acordou, pediu desculpa três vezes, se virou e dormiu. Eu verifiquei se minha traquéia ainda tava onde eu gostaria que tivesse e tentei dormir, mas foi dificil.

Lembrei de uma matéria que li ha umas semanas de um cara que tinha matado sua mulher dessa forma. Ele era sonâmbulo e, um dia, quando acordou, encontrou a esposa morta do lado dele, estrangulada. Chamou a ambulância, mas não teve jeito. O marido disse que tinha sonhado que um ladrão tinha entrado na casa e aih deu no que deu. Eles eram casados ha trinta anos.

- Camilo, tu lembra que tu tentou me matar ontem?
- Foi?
- Foi.
- Eita, foi mal.

Algo me diz que eu prefiro Camilo consciente.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Eu fico com o balanço

Sera que algum blogueiro vai fugir à regra de escrever sobre o Natal ou de fazer um balanço de como foi seu ano? Ou melhor, fazer listinhas de coisas a se fazer no proximo ano? Eu fico com o balanço, ja que acho que meu 2009 foi bem movimentado, onde de tudo aconteceu.

1. Adeus, solteirice (09/jan)

Ja no nono dia do ano, Camilo e eu nos casamos. Claro que foi mais uma medida que visava facilitar minha entrada na França do que qualquer outra coisa. Mas nem por isso eu deixaria de comemorar o fato de poder ficar ao lado dele, da forma que nos escolhemos. Mais sorte da proxima vez, Sarko.

2. Adeus, vida pedestre (28/abr)

Sabendo que na França o custo pra se tirar uma carteira de motorista é exorbitante, ai meu deus, eu fiz aos 23 o que deveria ter feito ha muitos anos: aprendi a dirigir. Pra falar a verdade, nunca tive muito desejo de aprender a dirigir (o tempo que levei pra fazer isso prova o que tou dizendo), mas minha mãe disse que é util, e se mãe diz, então é verdade. Espero que eu me saia melhor com o carro do que com a bicicleta.

3. Adeus, Brasil (21/mai)

Dei adeus ao mar e me instalei em Lyon. E, parafraseando um amigo: foi melhor e pior do que eu pensei. Arabes, segurança, burocracia, frio, quedas de bicicleta (muitas), queijos, liberdade, solidão. Independência.

4. Adeus, graduação (17/ago)

O segundo dia mais feliz do ano! Tudo o que sinto quando penso nessa data é "alivio". Acabou! Foram sofridos os ultimos momentos. Espero que tenha sido a primeira e a ultima vez em que estudei algo que não gostasse (me refiro somente à monografia, ja que o curso em si deveria ser obrigatorio pra qualquer ser humano que se preze). De qualquer forma, sou uma pessoa formada. Alias, eu e o namorado, que se formou no mês seguinte.

5. Adeus, desemprego (17/set)

Trabalhar como faxineira não faz parte dos meus sonhos mais ambiciosos, mas tem pago minhas contas e minhas cervejas. E, mais do que significar uma simples mudança de status empregaticio, esse emprego assinalou uma "profunda mudança no meu ser". Ha três meses, eu era uma meninota chorona e ansiosa, que ciscava antes de dar qualquer passo. Agora eu soh sou ansiosa. Esse emprego foi o inicio da verdadeira adaptação, é o que me da, até hoje, a sensação de que eu tenho dominado o espaço, de que eu tenho abarcado o ambiente. Eh o que faz com que eu sinta que pertenço um pouco a esse lugar.

6. Adeus, ignorância (?)

A cada dia que passa, eu fico mais feliz e empolgada com minha compreensão em relação ao francês. Ainda falta uns meses e um bocado de esforço até que eu possa dizer que "eu sei falar francês", ja que eu nem mesmo consigo conjugar os verbos corretamente, mas o medo de sair de casa ja passou e a sensação de liberdade soh cresce.

7. Oi, Paul! (10/dez)

Mwwhahaha! Esse foi o melhor dia do ano! Nem vou mais comentar, que é pra não afugentar os leitores, mas fica aqui o (milésimo) registro! Ano lin-do [foto de Priscila Tanaami - obrigada!].

Bom, é isso. Acho que foi um ano proveitoso, não? Mas soh aproveitando que tou falando de coisas boas, queria dividir com vocês a grande felicidade que eu sinto, que eu tou sentindo, em ter Camilo do lado. Hihi. (ele não lê meu blog, logo, a contemplação é gratuita). No final das contas, é ele que faz com que os momentos que não são assim, dignos de topicos de blog, sejam fodas. Em cada ponto desse, ele esteve colocando minha moral la em cima. Minha auto-estima deve muito a ele. Tenho sentido que eu posso muito mais do que eu poderia imaginar. Ele me faz respirar muito melhor e é por isso que, apesar de toda dor que eu sinto aqui nesse peito dilacerado de saudade, vale a pena ficar aqui. Eh como ele mesmo diz: "tu é minha casa". Então, àqueles que realmente gostam de mim, vai o recado: porra, eu tou feliz!

E que ano bom!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A culpa é do sistema, mano

Nas terças, eu trabalho na casa de mme Goujat. Nas quintas, na casa de mme Forfait. O que essas mulheres tem em comum, alem das suas faxineiras, é que elas acabaram de ter filhos. Goujat teve gêmeas, suas primeiras filhas. Forfait, teve seu terceiro filho (os outros dois tem quatro e dois anos apenas).

Como tou ha quase três meses trabalhando semanalmente na casa delas, é impossivel que o modo de vida de cada uma nao me provoque uma reflexao sobre o fato de ser mae. De ser mae e mulher. De ser mae, mulher e casada. De ser mae, mulher, casada e dona de casa. Tudo ao mesmo tempo e em tempo integral.

Mme Forfait conversa com seus dois pequenos como se eles fossem adultos. Eu gosto muito dela, gostei desde o primeiro dia. Acho que ela tem uma cabeça aberta, é total relax e conversa comigo sem me julgar, sem fazer caras e bocas. Na ultima faxina, o bebê dela chorou muito, mamou e dormiu. E dormiu justamente no quarto em que eu deveria fazer faxina com o aspirador. Timidamente, perguntei à mae se eu poderia ligar mesmo assim o trambolho. Ela disse sem pestanejar: "sim, ele tem que se acostumar". Detalhe, o pirralho tem um mês de vida. Quando liguei o troço, o guri deu um pulo no berço tamanho foi o susto, coitado! Quando ela tem que sair de casa, nao conta historia: mesmo com o inverno chegando, ela mete o recem-nascido na bolsa-canguru (sei la como se chama aquela porra) e vai embora com ele. A casa, pro meu desespero, é repleta de brinquedo, de lapis, de papel colorido, quebra-cabeça, bola, casinha. Tem até uma pia e um aspirador de po de brinquedo. Acho o maximo ela nao se limitar aos "brinquedos de homem". Ah, e nenhuma televisao à vista!

Mme Goujat é o extremo oposto. A palavra que define bem ela é "neurotica". Creio fortemente que o nome dela deveria estar como sinônimo pra esse adjetivo no dicionario. Ela tem uma risada nervosa e mania de limpeza. Quando tava gravida, passava o dia todo feito um parasita dentro de casa. A ordem é a de sempre: mulher embucha, marido trabalha. Agora que ela pariu, esta pior: ela nao sai de casa de forma alguma. Eu vou ao correio pra ela, vou à lavanderia, vou pegar as suas cartas "porque os bebês nao podem sair! Elas nao podem sair! A gripe! O frio! O inverno, Luciana!" E agora a coitada tah com uma cara cada vez mais de louca. Quando as bebês choram ao mesmo tempo, eu a vejo correr pra todo lado e dizer "que maratona!". Ela me mandou, excepcionalmente, na ultima faxina, passar as camisas do marido porque "nao aguento mais! Ja disse ao meu marido que ele nao vai usar camisa de botao no fim de semana!" Eh, minha senhora, coloque o seu marido pra passar as camisas dele e ele vai entender que seria melhor evitar as camisas dificeis de se passar.

E, na ultima faxina, mme Louca me perguntou se eu conhecia alguém que tem bebê. Pensei em mme Forfait e disse que sim. Entao, ela veio a mim com uma sacola repleta de roupas e brinquedos pra bebês e disse: "ta tudo novo, tou dando porque as coisas sao laranja e o tema do quarto das meninas é rosa" (ui). E os brinquedos? "Ah, eles fazem barulho e criança nao gosta de brinquedo que faz barulho" (ai).

Comentario 1: que feio! Se desfazer de presentes alheios!
Comentario 2: vocês também acham que se as filhas dela usassem a cor laranja elas iriam provocar o fim do mundo?
Comentario 3: ao oito de dezembro de 2009 foi decretado: criança nao gosta de brinquedo que faz barulho.

Sinceramente, até agora, o estilo de educaçao que eu venho apreciando é o pânico do aspirador. Depois de me dizer que criança nao gosta de brinquedo que parece brinquedo, Goujat me mostrou uma casinha feita de feltro, totalmente bizarra e sem graça e disse que era aquilo que era legal. Espero que ela nao seja o tipo da mae que da roupa de presente no Natal. Cruzes. E quanto ao marido, o Y da questao, eu ainda tou preferindo o meu.

::

E por falar em maternidade, divulgo aqui o Terceiro Concurso de Blogueiras. Otima oportunidade pra conhecer novos blogs. No meu caso, foi uma otima oportunidade pra repensar se eu quero mesmo ter filhos...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O presente

Numa passagem rapida pelas coisas que aconteceram nesses ultimos tempos, me parece que tenho coisas legais pra contar. Legais pra mim, claro. Mas vamos por partes.

Dia 08 desse mês, fomos de novo à Chateaubriant. Dessa vez, para a festa que a mãe de Camilo estava planejando havia meses. O motivo, como eu acho que ja disse, era os 50 anos da mãe dele, os 20 anos do irmão e a comemoração do nosso casamento. Tivemos uma festa entre os amigos (de Camilo) no dia em que nos casamos, 09 de janeiro, mas essa nova festa seria para a familia (de Camilo) se inteirar dos acontecimentos. Bolamos até um diaporama pra apresentar nossa historia as pessoas. Quando puder, posto aqui.

Não nego que eu estava um pouco (MUITO!) nervosa, porque eu ia conhecer familiares que o proprio Camilo não via ha mais de 10 anos. Se seria estranho/novidade pra ele, imagina pra mim! A primeira pessoa que conheci foi Tia Renne, a tia-avô de Camilo, irmã da "mulher-maravilha" do post passado. Gostei dela. O engraçado é que Amanda, em um dos posts passado, comentou que os avos de Camilo deviam ter muita historia pra contar sobre a II Guerra ("ainda mais morando no Norte da França", ou coisa que o valha). Pois bem, Amanda, Tia Renne contou sobre um episodio que aconteceu durante a Segunda Guerra em que ela estava numa igreja no momento em que os Alemães invadiram a cidade dela e começaram a atirar "em tudo que se mexia". Ela disse que as balas passavam zunindo pelo ouvido dela, mas que ela conseguiu se salvar. Não teve a mesma sorte o namorado da irmã.

Eu fiquei me contorcendo de curiosidade! A vontade era de sentar no colo da velha e metralha-la, finalmente, de perguntas. Fiquei revoltada quando mudaram de assunto, como se aquele fosse qualquer um. Eu fico muito triste de pensar que, dos meus avos, eu nunca saberei nenhuma historia legal porque, quando eu finalmente atingi a maturidade pra conversar com meus avôs, eles morreram. Falta a avô materna. Mas creio que, pela distância que nos separa atualmente, a unica coisa que eu vou saber sobre ela é a noticia do obito.

Conheci as tias e maridos das tias de Camilo. Conheci os primos, os filhos dos primos, os amigos do colégio, as namoradas dos amigos do colégio, os amigos da mãe, os filhos dos amigos da mãe, a tia-avo. Isso me proporcionou a oportunidade incrivel de decorar em torno de quarenta nomes franceses. Isso me deu a oportunidade de conhecer Anette.

Ah, Anette!

Anette é um ser que, provalmente, não tem mais de três anos de idade e, assim como eu, Anette não domina o francês. Assim como eu, Anette não conhecia ninguém na festa. Vocês estão vendo que situação perfeita para nascer uma linda amizade? Anette jogou o seu elefantinho de pelucia na minha cabeça e assim começamos um joguinho saudavel onde ela procurava arremessar o bicho em mim (pela força não era para mim, era em mim mesmo). No entanto, percebi que Anette não poderia ser minha amiga quando ela quis ir ao banheiro e eu tive que limpar a bunda dela. Eh estranho ter uma amiga da qual você limpa a bunda. Mas tudo bem. Momentos depois, um primo de Camilo queimou a pobrezinha com o cigarro sem querer e eu fui lavar o braço dela. Diante dessa bonita historia de amor, a mãe pediu pra Anette tirar uma foto comigo.

A maior parte da festa foi somente constrangedora. Quando as pessoas perguntavam se eu sabia falar francês, a mãe de Camilo se adiantava e dizia, numa tentativa de me estimular e dar apoio, que sim. Mas a festa não foi de todo ruim, afinal, uma festa de casamento que se preze tem presentes. E os presentes que escolhemos foi dinheiro: para esse atual momento-liseu não poderiamos ganhar nada melhor. Ganhamos uns patês (que eu não vou comer), ganhamos umas orquidias (que deixamos no trem), uns porta-retratos (que esquecemos em Chateaubriant) e uns pratos LINDOS (que tivemos que deixar la por ja estarmos carregando peso demais). Tou feliz.


Anette é boa gente.

sábado, 2 de maio de 2009

Bubamara

Quarta descoberta: casar é bom (mas há que se levar em conta que...)

No dia seguinte houve aquela comoção na casa, todos queriam saber se o "noivo" estava vivo. O interessante é que ele nem teve ressaca e já acordou lindo. Olhou o sol, que não aparecia há dias e disse "olha, amor, eu encomendei o sol pra tu!" e eu me desfiz num sorriso. Hihihi

Bateram a porta e já entraram rindo. Preparamos o almoço, pegamos nossa bicicleta e fomos à prefeitura. Casar. Os amigos de Camilo foram chegando. Meus amigos, só na lembrança. Todos nos seus lugares. Daí, uma mulher muito loira e muito vesga começou a falar. Ela tinha uma faixa com as cores da França. Que legal! E a tradutora era portuguesa. Até aí, só motivo pra rir.

- Lucciana Milená Aqüino
- do jeito que minha mãe quis que fosse pronunciado...
- ...aceita se casar com Camilô Errrnestô Martí Salguerro?
- Sim.

Mas antes falaram de amor. E de filhos. E de futuro. E aquilo tudo foi me tomando, me fazendo ficar pensantiva. Eu ia casar, aquilo era sério. Apesar da mulher vesga.

Quando tudo terminou, ficamos conversando besteira por ali e os amigos de Camilo foram pra entrada. Ao sair da prefeitura, uma chuva de arroz e um batalhão de bolhas de sabão tomaram o ar e dançaram a música que começou a sair do violão. As pessoas gritaram e aplaudiram e gritaram mais. E então começaram a cantarolar o refrão de Bubamara. Não conhecia a música, mas aquele coro me fez chorar. Eu queria bater em todas aquelas pessoas, foi lindo.

Como temos convivido diariamente desde a primeira semana de namoro, aquelas descobertas infelizes já foram descobertas. E aceitas. Não sei, não sei até quando a gente vai dormir de mãos dadas, nem até quando vai tentar resolver as brigas em menos de três minutos, mas eu tenho certeza de que não vai durar depois de terminar.

Casar é bom, mas há que se levar em conta que o marido é Camilo! :D

Talvez

Related Posts with Thumbnails