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segunda-feira, 13 de maio de 2013

A insustentavel beleza do ser

Eu tinha uma relaçao de amor e odio com meu cabelo. Alias, a quem estou tentando enganar? 

Eu tinha uma relaçao de odio e odio com meu cabelo. E essa relacao vinha desde pequena. Quando eu era um filhoooteeee, eu nao sabia que as pessoas poderiam gostar dos proprios cabelos. E, mais que isso, eu nao sabia que as pessoas poderiam gostar de cabelos cacheados ou, pior, crespos. Nem da cor dos meus cabelos eu gostava, afinal, a Xuxa era mais famosa que a Mara. Angélica era mais famosa que a Mara. Alias, cadê a Mara? (Viu? Gente de cabelo escuro soh se fode). Ah, Mara, se fossemos loiras! Nossas vidas poderiam ter sido diferentes!  

Na época em que eu nem sabia ler - mas que ja compreendia que nao ia ser Paquita - minha mae tentava domar meu cabelo fazendo uns penteados que nao eram nada populares entre minhas amigas e meu cabelo sempre foi motivo de piada na minha classe. - musica triste no violino - Curiosamente, era meu irmao mais velho, um verdadeiro perito em causar traumas, quem mais me importunava com essa historia, todo dia era um apelido novo. E o que dizer da minha mae que, um dia, enquanto me penteava, ja sem paciência com aquela cabeça cheia de cabelo, disse "eu passei a vida toda fazendo alisamento no meu cabelo, mas tinha esperança de ter uma filha com cabelo bom. Aih nasce essa coisa".

Pois é.

(Ja ficaram com pena da pequena Luci? Ou devo dizer que eu chorei caladinha quando ouvi isso?)

A minha mae, meu irmao, meus colegas e Xuxa acabaram por me convencer de que eu deveria ter cabelo liso. Desafiando as leis da natureza e contrariando meus genes, passei a fazer touca no cabelo com auxilio da minha mae. Para fazer a touca, os cabelos nao podem estar molhados, nem secos. E deve-se passar algumas horas com o cabelo virado pra direita e, outras tantas, pra esquerda. Isso dava dor de cabeça. Tinha sempre algum fio que ficava esticado demais ou sempre tinha algum friso filho da puta que nao tinha mais a ponta de plastico. Apesar de toda a perseverança, os frisos nao eram magicos e, quando finalmente eu retirava a touca, minha cabeça parecia uma palmeira, entao, eu amarrava os cabelos. E minha mae fazia essa toca praticamente todas as vezes em que eu lavava os cabelos.

Mais ou menos aos 11 anos, comecei a fazer alisamento no salao. Era uma coisa fedorenta, que continha formol, causava feridas no couro cabeludo, custava super caro e que deveria ser refeita basicamente a cada três meses (na parte da raiz, onde o cabelo ruim do demônio voltava a crescer). Estou absolutamente convencida de que eu devo ter passado por quase todos os saloes de beleza de Joao Pessoa (e alguns de Campina Grande), na esperança de finalmente encontrar a Fada do Cabelo Bom. Nao encontrei.


Tarde demais!


Eu era realmente escrava dos saloes. Ja cheguei a passar mais de 10h num salao em época de festas, mas quando eu saia de la, eu flutuava e meus cabelos acompanhavam o sentido do vento. Eu ficava tao diferente que meu ex-namorado me chamava pelo meu segundo nome. Mas mesmo com o cabelo liso, eu fazia questao de prende-lo. Finalmente, eu achei o salao com o alisamento "perfeito", mas isso foi somente la pelos 18. Antes disso, eu mergulhei em varias noias e tinha tanto complexo com meu cabelo, que eu fazia parte da turma do fundao porque queria evitar os olhares dos colegas. Eu sentava na parte de tras dos ônibus pelo mesmo motivo. Um pouco antes de entrar na faculdade, consegui deixar de lado o diadema e as presilhas que ajudavam a domar meu cabelo - isso foi uns dois anos depois de eu brigar com uma amiga que, inocentemente, quis fazer uma brincadeira retirando meu diadema. 

Ninguém toca no meu cabelo.

E, finalmente, chegou o dia em que eu tive que decidir se eu amava mais meu namorado francês ou a cabeleireira. Me mudei e, na França, passei momentos dificeis vendo meu cabelo se transformar. Era como se eu fosse Cinderela e todo dia fosse 23:59h. Eu vivia a angustia de me deparar com minha realidade capilar. Na França, eu teria de vender um orgao pra pagar pelo procedimento. E eu gosto dos meus orgaos. Durante três anos, me virei como pude para disfarçar o indisfarçavel.

Foi entao que eu comecei a prestar atençao nas outras pessoas (até fiz esse post, um dos mais visualizados no blog). Vi que elas tinham rugas e cabelos crespos soltos e cicatrizes e estrias e alguns nem tinham dente direito. E vi que elas nao pareciam se importar consigo, nem comigo, mas meus amigos, sim, eles nao entendiam como eu poderia ser tao extrema quando o assunto era o meu cabelo. 

Dois anos sem ir no Brasil e meu cabelo estava em cima do muro, nao se decidia se ele era liso ou cacheado. Desesperada, pedi pra Camilo corta-lo e ele subiu até o ombro. O cabelo, nao Camilo. E, pela primeira vez na vida, meus amigos, eu vi meu cabelo natural. Foi como ver o mar pela primeira vez aos 70 anos. Meu cabelo dava voltas. Ele era... era... cacheado. Foi dificil aceita-lo. Eu preferiria ter um cabelo  prostituto à um cabelo cacheado. 

Quando me perdi na Italia, meus patroes me contaram depois que eles foram no bar onde eu estive pela ultima vez e perguntaram se ninguém ali teria visto "uma menina de cabelos cacheados". E por um milésimo de segundo, ok, dois, pensei "como eles esperavam me encontrar perguntando por alguém de cabelo cacheado?!". Essa era eu. Mas mesmo atualmente, ainda estou tentando me acostumar à ideia. Ha uns dois meses, tomei um choque ao ver um desenho de mim feito por uma coloc onde eu fui feita com... cabelos curtos e cacheados. 

Mas o estranhamento vem da simples falta de costume e nao da dificuldade em aceitar. Me aceitei. Sai do armario, resolvi me assumir. Até tive uma espécie de pesadelo outro dia em que eu acordava de cabelo liso, como antes, e ficava angustiada de ter que ver o mesmo lento processo de crescimento. E sabe, minha vida agora é tao mais simples! Me pergunto ainda hoje por que eu demorei 27 anos pra ser eu. 


Mas ainda tou trabalhando em mim a possibilidade de fazer ainda mais volume nele cortando-o. Mas enfim, vida nova. Agora eu tiro fotos - sabendo que, um ano atras, eu nao conseguia nem olhar no espelho, que dira registrar o que via.



Essa, por exemplo, sou eu me amando ♥


Agora, parem de dizer aos seus filhos que eles nao nasceram do jeito certo.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Das pequenas anedotas

Quando eu era pequena, eu dediquei (assim, por acaso) uma parte das minhas manhas assistindo ao Telecurso 2000. Nao, eu nao estava particularmente interessada nas aulas de mecânica, mas eu achava divertido ver as tecnicas usadas para construir tal ou tal coisa. Achava interessante como atores poderiam ser tao bons professores a ponto de conseguir passar o conteudo a uma ignorante como eu  (nao pela incapacidade mental, mas pela baixa idade, claro. Aos dez, eu ja era um gênio. Do mal). Lembro que, em uma aula, eles ensinavam como "limar" um objeto. Era a primeira vez que eu escutava essa palavra (ou prestava atençao a ela). Anos depois, muitos anos depois, la do outro lado do Atlântico, eu ganho, numa certa noite, esmaltes e uma lixa de unha. Uma lixa de unha tao belamente ornamentada que, à primeira vista, nem pareceu uma lixa de unha. "Ahh, mas isso é uma... é uma..." Como se chama lixa de unha em francês?! "Lime à ongles". Ahh, merci! Lime! E daih, de repente, eu voltei a Joao Pessoa, 18 anos antes, e me encontrei com cabelo assanhado e cara amassada, segurando um copo de leite na sala, na frente da televisao. Limar. O primeiro passo pra conhecer uma lingua estrangeira é conhecer a propria lingua. 

domingo, 28 de abril de 2013

Cinco anos em cinco meses (ou do amor pelo lado de lah).

Nao querendo ser monotematica, mas ja sendo, queria colocar para fora um post que martela ha alguns meses minha cabeça  sobre a França e sobre essa coisa de evoluçao - e talvez ovulaçao, porque parte desse post é oferecimento da minha tpm. 

Quando eu cheguei aqui na França (2009), me sentia uma estranha em absoluto. Eu estava convencida de que soh estava aqui por Camilo - apesar da antiga vontade de ir embora do Brasil (Brasil = Joao Pessoa. Joao Pessoa = casa dos meus pais). Até hoje, eu nao sei se fui feliz ou nao nesses anos todos em que vivi aqui. Acho que Camilo era uma boa fonte de felicidade que mascarava a solidao sentida. Eu acordava respirando Camilo, mas começava a beber às 8h da manha nos finais de semana pra ver se aguentava o tranco de estar sozinha. E eu, que gosto tanto de falar (o blog veio da vontade de falar, nao de escrever), comecei a me fechar na minha conchinha. 

Ia pro trabalho/faculdade, voltava pra casa, entrava pelas escadas exteriores que davam acesso direto ao meu quarto (para nao ter a necessidade de entrar pela sala e cruzar com meus colocs) e soh descia quando o jantar estivesse pronto. Uma vez terminada a refeiçao, eu subia e me escondia novamente. Disso, surgiram inumeras brigas ferozes com Camilo que, sei la porque, gostava de perder tempo falando merda com o pessoal la na sala. O unico momento em que eu me permitia ser social, era com um, dois, três, vinte, copos de cerveja na mao. Nao gostava de falar francês porque coloquei na minha cabeça que, por nunca ter feito um curso decente, eu nao sabia falar francês. 

E dai, mesmo estando tao longe, eu tinha uns pesadelos estranhos com meu pai. E me pegava com o coraçao acelerado pelo pensamento de um dia ter de ve-lo novamente. Mas ao mesmo tempo, eu pensava em Fabio e meu coraçao se enchia da mais fina angustia, aquela coisa negra que ia me secando por dentro - alguns a conhecem como "saudade". Mas aih a angustia ia embora e dava lugar ao medo. Eu tinha medo de falar, de contactar as pessoas, de sair, de voltar, de ficar e de ser. E, como se nao bastasse, vinha sempre, uma vez ou outra, aquela sensaçao de nao pertencer a lugar nenhum, e alguns pensamentos sempre introspectivos e pseudo filosoficos sobre a necessidade de se pertencer a algum lugar. Eu pertencia a Camilo. E ele dizia que eu era a casa dele. E parecia um bom acordo, porque a gente parecia feliz. E eu amei tanto esse homem! Eu nem lembro mais como era, mas sei que amei porque eu preferi me abandonar à abandona-lo.

Acho que meu amor se confundiu com dependência. Eu nao conseguia fazer nada sozinha. No começo, mesmo quando eu conseguia me exprimir razoavelmente em francês, eu pedia pra que ele fosse comigo ao médico. Eu fazia uma drama pra ele ir comigo resolver algo na Prefeitura. Eu entrava em pânico e fazia birra de criança pra que ele fizesse algum telefonema de meu interesse. Uma vez, a gente pegou uma briga fenomenal nos metros parisienses, porque eu queria que ele me acompanhasse a um lugar que ele nao queria ir - tudo isso porque eu achava que eu era incapaz de voltar pra casa sozinha. Ele corrigia meus trabalhos da faculdade. Eu nunca viajava sem ele. Nunca saia sem ele! Cinema. Camilo. Teatro. Camilo. Show. Camilo. Bar. Camilo. Sim, eu tenho muita vergonha de dizer isso. Eu realmente fui muito fraca. Eu achava que tentava mudar isso, eu queria que as pessoas falassem comigo, mas quando elas falavam, eu rezava pra que elas se calassem. Eu soh queria que elas soubessem que eu era mais interessante do que aquilo, mas eu nao queria fazer esforço pra isso, porque "esforço" subtendia "falar" e, isso, eu nao era capaz de fazer.

E, apesar de toda essa dependência, eu acordei e finalmente percebi que eu tava tao vazia, tao pobre, que eu nao o amava mais, que eu estava com ele, nao mais por amor, mas por medo e, nesse dia, eu realmente me senti (ainda mais) sozinha. Tentei colocar a culpa na minha extrema e fatal instabilidade. Culpei meu signo. Culpei a lua. Culpei Lula - porque todo mundo culpa o Lula. Culpei a França, o Brasil. E lembrava de Artur da Tavola (desculpa atencipada, pois citaçoes soam sempre quase esnobes) quando ele dizia que "(música é vida interior, e) quem tem vida interior jamais padecerá de solidão". Eu achava que tinha e, portanto...

Quando acabamos, eu entrei em depressao. Alias, aquilo deveria ter outro nome, porque depressao eu ja tinha sentido, mas "aquilo" era mais intenso e "aquilo" me transformou. Eu achava insuportavel viver, mas vivia porque eu sabia que fazer alguma besteira iria provocar uma tristeza semelhante na minha mae e esse pensamento me apavorava (desculpa o drama, mas foi assim que aconteceu e, apesar de eu nao entender mais aquela tristeza, eu sei que ela existiu e que foi dessa forma que ela fez parte de mim). Até que um médico me disse que aquilo tudo era, em parte, decorrência de um tumor. Fui pro Brasil desejando estar com meus pais. Sim, pai e mae. Fiz a cirurgia e, quando voltei, meus amiguinhos...

Quando eu voltei, decidi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer. Me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você. Parei de me trancar no quarto. Decidi que meu francês nao é bom para um francês, mas que é bom para uma estrangeira. Perdi quase todo o peso ganho durante a doença. Entrei no mestrado, mesmo sabendo que nao haveria ninguém pra corrigir meus trabalhos. Fui descobrindo simplesmente o que era ser eu de verdade - quando comecei minha vida sexual/amorosa, engatei nove anos no stop de namoro e era a primeira vez em que eu estava vivendo sem um cara pra me dizer o que fazer (sou feminista, mas...). Fiquei meio perdida no começo porque sou o tipico clichê de menina que nao teve a figura do pai presente e que demanda muita atençao dos namorados. Agora, gasto meu dinheiro da forma que quero - agora nao gasto mais porque, se somos livres, "nohs gatos ja nascemos pobres", nao esqueçamos. 

Aprendi a viajar sozinha - na primeira vez que viajei sem Camilo, foi pra fazer um trajeto de pouco mais de uma hora. Compro uma quiche, entro no trem, me deparo com uma cadeira vazia ao meu lado. Aguento firme, mas ao ver que nao tinha ninguém pra dividir a porra da quiche, começo a chorar. E fico assim, comendo a quiche e chorando, tendo pena de mim. Deprimente. Hoje, eu prefiro viajar sozinha, isso me da a oportunidade de passar o tempo olhando pela janela, de observar as vaquinhas no pasto ou, em dias feios, de ver macro espermatozoides de chuva se formarem na janela do trem. Aprendi a planejar coisas sozinha. Viajo e, quando volto pra Lyon, vem quase sempre uma lagriminha emocionada me socorrer quando me dou conta de que aqui é minha casa. 

Eu cortei meus cabelos! Dei um pulo dificil para fora dos padroes e agora nao sou mais a menina de cabelos longos e lisos. Sou uma mocinha de cabelos curtos e cacheados (e crespos!). Decidi usa-los como eles sao e, porra, vocês nao imaginam a liberdade que é poder ser você mesma. Fiz o primeiro Amigo francês. E o segundo e o terceiro. E agora, quando eu chego em casa, as pessoas sorriem ao me ver. Quando estou estudando no quarto, elas batem na minha porta e me mandam descer. E eu ainda nao me acostumei com isso. Porque essas eram as pessoas que eu admirava em silêncio ha uns anos e, agora, elas me dizem "eu te amo". Eu amo meus colocs. Eu aprendo com eles. Sao dez ao todo. A gente fala tudo sobre tudo e sobretudo sobre nada. E acho que, finalmente, o que me salvou foram as pessoas. Eu ja tinha falado aqui, num post antigo, que o importante nao é o lugar, mas quem te rodeia. Pra mim, vida interior, Artur, sao pessoas. Eu preciso disso. Eu preciso falar, preciso ser ouvida, mas também tenho necessidade de ouvir, de conhecer o outro. 

Nesses meses em que passei longe do blog, recebi alguns emails de leitores desconhecidos que dizam "olha, desculpa, você nao me conhece, mas eu leio seu blog e sinto como se te conhecesse", e dai, elas me perguntavam se eu ia bem e contavam um pouco a historia de vida delas. Gente, eu amo! Eu acho isso genial! Gosto de gente dada (ui), aberta (ui), que nao faz pose, que nao faz tipo. No começo de 2008, um amigo me escreveu um email depois de ler um post antigo meu num blog antigo.

(...) Desculpe o texto pseudo-sério, mas seu post realmente mexeu comigo, de alguma forma... acho que fiquei meio emocionado, de alegria e tristeza por me sentir em sua pele. Ainda assim, quero que você guarde pra sempre a forma como te admiro; bem como a forma verdadeira como você ama esse negócio de viver - que faz parecer que você não tem medo de nada, parece que nada é realmente tão grande que não possa ser alcançado.

Pois é, eu tive medo de muita coisa, mas parece que continuei conquistando-as  - pelo menos era isso que Camilo me fazia tentar enxergar. Acho que aqui, na França, eu tive a oportunidade de crescer. Sim, poderia ter sido em qualquer outro pais, mas nao foi. Foi longe de casa, longe do meu perimetro de segurança. Me fudi muito sozinha, mas percebi que tudo isso fui eu quem provocou. E, apesar de achar que fosse enlouquecer em certos momentos por nao ter ideia do que fazer com minha vida, olho pra tras e sorrio com toda a ironia que me acompanhou. A vida é irônica. E soh. Sinto como se tivessem me dado uma injeçao de vida. Decidi parar de me vitimizar, de achar que eu sou fraca. Ninguém sabe que você é fraco até que você o diga - gente, baixou o satanas da auto-ajuda? E, finalmente, acho que estou onde eu queria estar. A França me emociona ♥. Aqui é casa e vai ser casa pelos proximos nove anos - a nao ser que eu queira partir de novo, porque eu tenho a escolha. Mas tenho amado esse pais. Adorei fazer o post anterior, adorei perceber que eu faço parte disso. Nao foi pela beleza do pais que eu vim, mas foi pela beleza que eu fiquei. E, sim, pelo povo. Nao escutem os clichês que rolam por aih sobre os franceses. Os franceses sao sim um povo amavel. E quem diz o contrario, nao conhece os franceses. 

Sei que a vida vai continuar nao sendo facil. Mas eu tou bem acompanhada. Eu tenho eu. :)



sexta-feira, 19 de abril de 2013

47 coisas sobre a França que nao vao mudar sua vida



Depois do post do francês que escreveu algumas verdades sobre o Brasil, pipocaram brasileiros que vivem ou viveram na França fazendo o mesmo. Teve até uma versão gay da coisa rolando. Eu, que sigo o curso do rio, achei por bem fazer algo semelhante – vale lembrar que me apoiei em comentários ou posts de amigos e ainda dos posts supracitados. A única “originalidade” aqui vem da maneira de contar o que eu vejo/vivo na França.

1. Aqui impera o self-service : nao ha frentista, nao ha porteiro nos prédios ou empacotador nos supermercados. Ha poucas pessoas para explorar*.

2. Aqui, o salario minimo garante uma vida decente. Ganhei mais como faxineira na França do que como jamais ganharei como historiadora no Brasil. Ou historiadora na França. Ou historiadora em qualquer lugar.

3. Na França, as carteiras de identidade tem validade - como se a gente deixasse de ser a gente depois de um certo tempo. O bizarro é que o mesmo nao vale para as carteiras de motoristas, que sao vitalícias. Por isso, é comum ver velhinhos caquéticos, com uma mao no volante e outra na mascara de oxigênio.

4. Eh complexo começar uma relaçao amorosa aqui: no Brasil, você pode ser ficante de alguém durante meses até que um decida elevar a relaçao ao status de namoro. Na França, você é automaticamente namorado de alguém desde o momento em que você o beija – a nao ser, claro, que a coisa se passe numa boate, festa etc. Nesse caso, funciona-se ao contrario : melhor deixar claro desde o inicio que aquilo eh soh uma ficada – coisa que, para os brasileiros é complicado ja que "rolo" e "ficante" sao termos inexistentes por estas bandas.

5. Na mesa, o pao é rei. Ele compoe as refeiçoes de 10 entre 10 franceses, de manha, de tarde e de noite e tem multi funcoes : serve para limpar o prato depois das refeiçoes, auxilia a pessoa na hora de colocar a comida no garfo e, as vezes, é utilizado como comida mesmo.

6. Uma refeiçao festiva na França pode começar no final da manha e se estender durante toda a tarde e entrar pela madrugada. Começa com os petiscos, depois passa-se à entrada (duas ou três), em seguida, ao prato principal (quatro ou cinco); depois, come-se a salada (uns dez quilos). Quando você nao aguenta mais pensar em comida, os queijos aparecem na mesa. Finalmente, quando as lagrimas aparecem no seu rosto e a barriga incha, as sobremesas surgem. Eh por isso que o ultimo shot, logo apos as refeicoes, é chamado de vomitivo.

7.  Como normalmente, vivemos seis meses de frio e seis meses de verao, os primeiros raios solares do ano sao realmente bem aproveitados. O francês, quando vê sol, sai correndo ensandecidamente de onde quer que ele esteja e se joga em algum pedaço de grama e fica la todo aberto, feito uma lagartixa, com as calças dobradas e as mangas ajustadas para que o corpo possa aproveitar o maximo possivel daquele sol frio – aqui se diz que um dia ta bonito quando se faz sol, mesmo que faça o termômetro beire os zero graus. Achei que tivesse entendido o porquê disso apos cinco verões. Mas foi apos cinco invernos mesmo.

(esqueci quem tirou essa foto)

8. Os franceses fumam muito. Eh sabido que as mães francesas oferecem mamadeiras de tabaco para seus bebês.

9. Na franca, as pessoas pedem desculpa quando espirram.

10. Mas, bizarramente, elas assoam o nariz como se estivessem tentando expulsar os pulmões pelas narinas e, no entanto, acham o barulho que isso provoca a coisa mais normal do mundo.

11. Todo francês, independente de sexo ou idade, leva um pacote de lenço de papel no bolso.  E uma carteira de cigarro.

12. Entrando nos clichês, aqui, educaçao e gentileza nem sempre andam juntas. Eles dizem « excusez-moi » quando querem dividir o banco da praça com você, dizem « pardon » quando te triscam no metrô, dizem « bonjour » quando entram no elevador, mas dar todos esses sinais de « educaçao » sem enfeita-lo com um sorriso é bem mais do que normal. Eh esperado. Eh o que me leva ao ponto nove.

13.  Francês é bicho sincero. Franco mesmo. Ele nao leva desaforo pra casa, ele diz exatamente o que pensa (talvez nao em relacao aos seus preconceitos, mas qual é o povo que os admite?). Por isso, tive o prazer aqui de conhecer as pessoas mais sinceras da minha vida e de também escutar as verdades mais desagradaveis.

14. As mulheres curtem um top less, mas o biquini brasileiro nao tem lugar aqui, é muito ousado. A parte de baixo do biquini das francesas é grande e pode virar, dependendo da necessidade do momento, um lençol. Tenho certeza de que as francesas tem dois peitos, mas ainda aguardo sinais da existência das nadegas delas.

15. Dizem que o esporte nacional da França é a bicicleta, mas estou convencida de que é a reclamaçao. Eles reclamam quando estah ruim, eles reclamam quando estah bom, eles reclamam quando estah. Depois de alguma reclamaçao, eles enfeitam a frase com um barulho nao encontrado em qualquer outro povo ou civilizacao ja existente (observaçao de Gad Elmaleh). Trata-se de um PPPPFFFFF que, independente de qualquer frase, indica uma extrema insatisfaçao do seu interlocutor. “Vai ter sol hoje”, PFFFFF. “Vai chover” PPPFFFFF. “Vai fa...” PPPFFFF. “Mas eu nem term...” PFFFF. “Mas...” PFFFFFFFF. “Ma...” PPPPFFFF  PPFFF  PFFFFFF.

16. O "uh lala" dos franceses tem diversas versoes. Para situaçoes mais simples, como um sustinho, eles dizem "uh la !". Para uma noticia horrivel, como uma previsao de tempo para dia ruim, eles dizem "uh la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la". A duraçao do "la la" eh diretamente proporcional ao descontentamento do camarada. Pode durar dias.

17. No Brasil, falamos do tempo quando encontramos com alguém no elevador para evitar o constrangimento do silêncio. Aqui não. A previsão do tempo é um assunto abordado de maneira proposital! O único assunto que o francês evoca em qualquer parte, com qualquer pessoa, em qualquer ocasião. 

18. Adultos engravatados vao de patinete ao trabalho.

19. Você conhece a densidade demográfica de uma cidade observando o fluxo de pessoas nas saídas do metro. Se você subir em um metrô contra sua vontade ou sair antecipadamente de um metrô que o levaria ao seu destino devido à multidão que entra ou sai dele, você estah em Paris.

20. A ideia de distância do francês é distorcida:
- Tal cidade é longe daqui?
-  Muito longe!
- Quantas horas de viagem?
- Duas.

21. As vezes fico em duvida se um cara aqui é gay ou se ele é soh francês**

22. Aqui em Lyon, os bares costumam fechar à 1h da manha. No domingo, não ha comercio aberto e, durante a semana, muitas lojas abrem as 10h e fecham às 19h.

23. O calendário escolar começa em setembro, então, se alguém disser que “no próximo ano” vai fazer tal coisa, ele esta, na verdade, querendo dizer que, a partir de setembro, ele vai fazer algo.

24. Agosto estah para os franceses como o carnaval estah para os brasileiros: nada funciona. E pior que isso, praticamente toda a população francesa viaja nessa época. Quem ta no norte vai pro sul, quem ta no sul... continua no sul. Eh o lugar do sol, do céu e do sal.

25. Aqui todo mundo se exercita. Os homens sao deliciosos e as mulheres sao gostosas. Até no churrasco francês ha uma boa quantidade de salada envolvida.

26. A carne muito bem passada da França é vermelhona, faz muh e da leite. A carne mal passada aqui se chama “bleu” – azul.

27. Francês é altamente burocrático. Com os funcionarios publicos, você tem que ter senha para pegar a senha.

28. Os jovens saem de casa aos 18 anos mesmo que sua universidade se encontre na mesma cidade de seus pais. Isso é possível graças a um infindável numero de bolsas garantidas pelo Governo. E pais cansados.

29. Graças ao numero anterior, é possível se casar com homens que sabem preparar até javali.

30. Numeros de telefone aqui sao compostos por dez números. Decorei o meu no ano passado quando me inscrevi numa promoção e tive que escreve-lo 45 vezes. Não ganhei a promoção, mas aprendi meu numero.

31. Falar na França exige o domínio do francês e um pouco de matemática. 70 = 60 + 10; 80 = 4 x 20; 90 = 4 x 20 + 10. Ou seja, um numero de telefone pode sair de um 06.84.78.99.91 para um (06) + (4 x 20 + 4) + (60 + 18) + (4 x 20 + 19) + (4 x 20 + 11). Quatro anos de França e eu ainda tenho que olhar os números inscritos no caixa na hora de pagar minha feira no supermercado (e embalar sozinha).

32. Nos shows, o publico canta “seven nation army”, como uma maneira de animar o ambiente fazendo “paaaam pam pam pam pam paaaam! paaaam pam pam pam pam pam pam pam paaaam”. Toda-vez com todo-publico. O “toca Raul” deles é isso.

33. As pessoas aqui não se abraçam. Ja vi melhores amigos dando aperto de mao para felicitar o aniversariante.

34. A única coisa salgada no café da manha francês é a manteiga.

35. Um punhado de folha com uma pataca de purê sem sal pode consistir perfeitamente em uma refeição francesa. Eh pecado passível de pena de morte colocar feijão e macarrão no mesmo prato.

36. Durante as refeições, eles bebem agua – que sao servidas obrigatória e gratuitamente em uma garrafa nos restaurantes. Junto com um cestinho de pao. E um pacote de cigarro. 

37. Uma frase de texto acadêmico francês começa pelo fim, é preenchido de informações (muitas vezes) inúteis e termina pelo começo. A simples frase “O câncer de pulmão, muito comum entre os brasileiros, pode ser provocado pelo fumo” pode se tornar: “Provocado pelo fumo, o câncer, doença de pulmão (português brasileiro) ou cancro do pulmão (português europeu), caracterizada pelo crescimento celular descontrolado em tecidos do pulmão que, se não for tratado, pode se espalhar para fora do pulmão por um processo chamado de metástase, acometendo órgãos adjacentes e, eventualmente, se disseminando para outras partes do corpo, é muito comum entre os brasileiros”. 

38. Com exceção da parte do boxe, não existe ralos nos banheiros.

39. Não existe lavanderias nas casas – lava-se tênis na pia da cozinha ou do banheiro. Alias, não lava-se tênis aqui.

40. Existe cinco farmácias pra cada cidadão francês.

41. Eles não tem números nas portas dos apartamentos e sim os sobrenomes dos moradores.

42. Eh difícil fazer amizade com um francês ou de ter uma conversa intima no primeiro encontro, mas uma vez que a primeira barreira eh transposta, pode esperar ter um amiguinho em quem confiar.

43. 90% de uma verdadeira festa francesa termina em musicas dos anos 80 cantadas em coro por velhos, adultos e crianças.

44. Mulheres podem tomar a iniciativa na hora de dar em cima de um cara, mas serão julgadas por isso.

45. Quando eu falo, as pessoas simpáticas (e ignorantes) respondem em espanhol. 

46. Os franceses tem muitas vezes três nomes e somente um sobrenome. E muitos dos nomes tem referentes à nomes de velhos no Brasil. Conheço Timoteos, Sebastioes, Leopoldos. 

47. Como a prestaçao de serviço custa caro aqui, as pessoas costumam reformar suas casas ou repara-las sozinhas. Isso se chama bricolage e ha lojas gigantes destinadas aos bricoleurs.



* espero que vocês nao acreditem nisso. Foi soh licença poética.

* * no Brasil, parece que é melhor ter um filho psicopata que um filho gay. Fico feliz de ver que aqui os homens se esprimem como querem sem ter medo de que duvidem de sua sexualidade, mas ainda tenho reflexos dos tempos do Brasil. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Entao, nao é Natal...

Ontem tivemos nossa ceia de Natal. Ok, eu sei que é um pouco cedo para as  confraternizacoes natalinas, mas 05 de dezembro era o unico dia em que todos os colocs estariam em Lyon, so... 

So que a pobrezinha da Luci, coitada dela, muito provavelmente nao poderia confraternizar, gastronomicamente falando, com seus amiguinhos. Eu teria que fazer sozinha minha propria ceia. Foram dias isolada na minha imensa biblioteca culinaria composta por três livros. Dolorosas duvidas acerca de qual receita escolher. Como sobremesa, escolhi algo totalmente original: uma Boûche de Noël ("tora" ou "lenha" de Natal, segundo Wikipedia). 


Ca-la-ro que essa boûche nao veio da minha cozinha. A minha ficou mais parecendo um Graveto de Natal. Mas olha, eu fiquei tao feliz em fazê-la, vocês nao imaginam! Eu tenho sido um fracasso no preparo de sobremesas desde que comecei esse regime. Ou vocês pensam que é facil fazer sobremesa sem açucar? Tentem. Dificilmente eu consigo acertar na dose ou na escolha dos adoçantes recomendados nas receitas, o que me garante sobremesas sem gosto. Cuspi no prato a ultima torta de limao que fiz. 

Entao, coloquei todas as minhas esperanças na realizaçao dessa receita. E, com muito orgulho, admito que ela nao ficou ruim. Veja, eu nao disse que ficou boa. Mas ela estah bastante comestivel. Um amigo provou e disse que parecia uma esponja. Fiquei ofendida, mas depois de ter lido o artigo do Wikipedia sobre o que seria uma "Boûche de Noël", mudei de opiniao: A combinação mais comum é um básico bolo-esponja amarelo, congelado e recheado com chocolate e creme de manteiga. Bolo-esponja. Viram? Nao passei tao longe do que eu deveria ter feito. 

O que tem cor de esponja, gosto de esponja e nao é uma esponja?

Comecei a falar da sobremesa, mas o que fiz primeiro foi a entrada. A receita escolhida foi Bouchées de concombre aux oeufs de lump. Ou seja, pepino com ova de peixe. Nao parece apetitoso? Escolhi porque a foto era bonita. Obti sucesso total! Vejam a foto do livro de receitas: 


Agora, vejam as que eu fiz:


Convenhamos, nao ficou lindo? Veja bem, eu nao disse que ficou bom. Mas trata-se de uma receita muito elaborada, dificilima de fazer: abre-se um buraco num pepino, entala ele de queijo e enfeita com ovinho de peixe - que, diga-se de passagem, eu acho um nojo. Mas o que importa é que, com 4kg de carne, comemos feito porcos e passamos uma noite feliz. 


Luci, em pleno processo de criaçao









Notem a nossa bela arvore de Natal colada na parede. Criaçao (super) original da menina de faixa no cabelo.




segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Fome? Abra o dicionario

Fiz o bolo de iogurte do post passado e o resultado nao foi muito melhor do que o do Excelentissimo. E olha que dessa vez eu lembrei de colocar fermento. Na verdade, meu bolo ficou feiao, entao, pra compensar, vou começar a investir na apresentaçao dos pratos. O Technicolor nunca apresentaria um bolo num prato de beirada quebrada. Alias, o Technicolor nunca apresentaria um bolo desses.


Feio como o primo


Ana Maria Braga: musa
O assunto do programa de hoje, telespectador amigo é... adivinhem soh: di-e-ta. Você que estah aih no sofa, com esta pança pendurada, vai conhecer juntinho comigo alguns segredos preciosos para quem quer fazer uma dieta. Vamos lah? 

Percebi que estou obcecada por essa dieta e isso me assusta um pouco. Todas as compras que fiz no ultimo mês estao ligadas a ela: livros de receita, esteira, balança, comida light/diet/zero etc. Mas mesmo que ela nao dê certo (socorro, bate na madeira), eu vou sair dela com a consciência tranquila de uma fracassada lutadora e ao menos satisfeita com todo o aprendizado obtido durante esse periodo. Tenho lido bastante sobre culinaria e também sobre o funcionamento do nosso corpo durante o processo de digestao. 

Mas sempre surgem algumas duvidas, principalmente aquelas ligadas à questao da lingua. Meu parco vocabulario culinario me leva ao dicionario cotidianamente. "Cardamome? Que porra é essa?" Eh o primo do gengibre, minha gente. Anotem aih. Se um dia vocês vierem pra França e a fome bater no meio da rua, ja sabem. "Monsieur, est-ce que vous avez par hasard un... cardamome? J'ai faim"*. Nao tem erro. Aprendi também o que é "clou de girofle" (cravo-da-india), "arachide" (amendoim) e "avoine" (aveia). Mas de repente, me deparei com "maquereau". Eu tinha quase certeza de que maquereau era bacalhau**, mas fui no dicionario mesmo assim. Resultado:


Choquei. Pensei "meu deus, esse homem soh pode ter se enganado. Ou eu vou comer uma égua ou um cafetao". 

Luci, sua burra. Eh nois!

Depois, na coluna dos laticinios me aparece "faisselle". Beleza. Vou pro dicionario e qual minha surpresa: suvaco. Su-va-co, minha gente. 


Apos enfrentar a possibilidade real de encarar um prato de cafetao ao molho de sovaco, desci a barra de rolagem e vi que faisselle pode ser também um escorredor de queijo. Menos mal.


E as dicas, Luci? Vou dar algumas que foram retiradas do livro "O método Dukan - ilustrado". 6€ no Priceminister (valeu pela dica, Maira!).

- Vocês sabiam que 9g de sal podem reter UM LITRO de agua nos seus tecidos? Por isso, o consumo de sal é desaconselhado nessa dieta (bom, nao é surpresa pra ninguém que devemos evitar o consumo de sal). Felizmente, o Dr Vampiro (adorei, Jô!) disponibiliza nos maiores supermercados um pote de 180g de sal da sua linha de produtos por uma bagatela de 7€. O sal dele deve ser mais salgado do que o nosso. 

- Para aqueles que estao se questionanto sobre a necessidade de tomar complexos vitaminicos, Dr. Dukan aconselha o consumo de figado de bezerro duas vezes por semana e de uma colher de sopa de fermento de cerveja toda manha (é o mais perto que tenho chegado da cerveja nessa dieta). Ja garanti o figado do meu vitelinho no supermercado e aproveitei e comprei carne de cavalo. Oremos. Ah, a carne de cavalo deve ser consumida de preferência no almoço porque ela é muito... "tonifiant". Pocotoh.

- Sobre a velha questao de preferir subir escadas à usar o elevador: subir dez degraus faz queimar uma caloria. Logo, subir quatro andares duas vezes por dia resultaria, em um ano, em 1.400 kcal perdidas, o que equivale a 2 kg a menos na balança. Eu continuo preferindo o elevador, beijos. 

- Caminhar numa temperatura de 0° C faz com que consumamos 25% de calorias além do que se estivessemos numa temperatura "normal". Nao me perguntem o porquê. Estah no livro sagrado. E livro sagrado a gente nao discute! 

- O processo de saciedade soh começa 20min depois da primeira garfada. Entao, nao seja acanalhado e coma devagar para nao sair da mesa com sensaçao de fome. 

Por falar em fome, fui no supermercado outro dia e encontrei alguns dos produtos do Dr Vamp à venda. Fiquei estudando a possibilidade de comprar algum, mas todos eram caros demais e poderiam ser facilmente produzidos em casa (molho de tomate, vinagrete, barra de cereal etc). No entanto, todavia e porem, me deparei com isso:


Nutella Dukan, meu povo. Nutella. Uma lagrima rolou serena pelo rosto. Cai de joelhos. Agradeci aos céus. Olha, vou sobreviver a isso tudo e quando tudo estiver terminado, nunca mais vou passar fome, Scarlett. Ah, acabei comprando a barra de cereal também.


Pro jantar de hoje, decidi fazer um bolo de pudim (bolo normal com pudim por cima) pro pessoal que mora comigo, mesmo estando eu proibida de comê-lo. Perguntaram se tortura fazia parte do regime. Mas o problema mesmo é que coloquei um leite condensado nao açucarado e meu pudim, segundo geral, soh tinha gosto de ovo. Passei a noite ouvindo "passa a omelete aih!". Viram como eu sofro?

Força, Luci! 

* "Senhor, você nao teria por acaso um cardamome? Tou com fome".
** Bacalhau = "cabillaud" ou "morue"



domingo, 28 de agosto de 2011

Especial férias (Jonzac) - parte MCMLXXV

Depois das bicicletas e da estadia de Amanda e Chèri em Lyon, Camilo e eu fomos visitar os pais dele. Apesar deles morarem no norte da França, eles estavam em Jonzac por motivos de saude: a mae de Camilo tem um sério problema nas articulaçoes do ombro. E Jonzac, vejam soh, é conhecida pela sua estaçao de agua termal, rica em sais minerais, e que é, comprovadamente, eficaz no tratamento de problemas nos ossos e articulaçoes. Bravo! Mas o que me interessou em Jonzac mesmo é que ela ta numa regiao que tem um forte carater historico, cheia de igrejas, cemitérios, castelos e outras construçoes medievais. Pra somar, a paisagem natural nao deixa nada a desejar. Passamos cinco dias de puro amor e tempo bom na cidade. 

Minha sogra é vegetariana e meio natureba. Ela conhece todos os pós, misturas, oleos e graos que podem potencializar o valor nutricional de qualquer prato. Ela aposta em tudo. Em Jonzac, ela conheceu um cara que vendia uns sprays especiais pra combater/evitar certos males. Um dos sprays ajudava a dormir, mas ele ja tava esgotado. Entao, Camilo comprou um que se chamava... courage. Isso mesmo, "coragem". Influenciavel como sou, comprei um vidrinho de coragem pra mim também.

Quando eu era pequena, passava as férias na casa da minha melhor amiga e a mae dela nos dava diariamente uma dose de Biotônico Fontoura. A gente devia ser meio amarelo, sei la. O comercial do produto dizia que ele dava muita energia, entao, logo apos recebermos nossa dose, saiamos desgovernados pela casa da mulher, gritando e tocando o terror, influenciados pela propaganda. Acontecia o mesmo quando ela nos servia espinafre. Crianças.

Contudo, meu povo, nao senti que fiquei mais corajosa com a coragem. Pior: tenho  preguiça de toma-la. Entao, fui verificar os ingredientes pra ver se eles poderiam provocar algum estimulo psicologico em mim: vi o nome cientifico de um monte de planta medicinal. Wikipedia soh me mostrou as propriedades de três:

angelica archangelica: ação digestiva e carminativa (elimina os gases), ação sedativa, equilibradora do sistema nervoso, tem poder antiinflamatório, diurético, depurativo e no combate a enjôos;

trifolium pratense: menopausa;

rosa chinensis: menstruaçao irregular;

Ou seja, Camilo, se você estiver no climatério, vai fundo. E como assim "açao sedativa"? Agora ta tudo explicado! Era por isso que eu tinha preguiça e nao sabia. Ah, esqueci do elemento mais importante da formula: conhaque à 20%! Finalmente, esse negocio pode até nao dar coragem, mas mal nao deve fazer. 

(Mas onde mesmo é que eu estava?). Ah, as férias!

Castelo de Jonzac - séc XV

Hospital dos Peregrinos - Pons 

Eu fiquei toda pimpona ao ver esse hospital. Paguei uma disciplina cujo tema era viagem/viajantes na época Moderna (disciplina na qual fui reprovada, diga-se de passagem). E, claro, a historia dos peregrinos nao poderia ficar de fora. Li muito sobre as passagens desses desocupados dos peregrinos pela Europa e esses hospitais eram pontos de apoio essenciais na viagem deles (e abrigo pros pobres, crianças abandonadas, velhos, cachorro, doentes e toda essa gente inutil que ninguém quer ter por perto). 

A concha é o simbolo dos peregrinos que costumavam costura-las nos seus chapéus como forma de identificaçao. Reza a lenda que a familia de um certo Caio Carpo Palenciano, la pelos idos de 44, estava na beira de um rio vendo passar um majestouuuso barco que navegava calmamente. Foi quando Caio se abestalhou e o cavalo saiu desembestado pra dentro do rio, sumindo com Caio e tudo. A familia de Caio ficou naquela expectativa: morre ou nao morre?, morre ou nao morre? E eis que, de repente, surge cavalo e cavaleiro de dentro das aguas cobertos de purpurina conchas. Caio perguntou, entao, aos marinheiros quem eram eles e pra onde iam. Eles responderam que iam pra Espanha levar o corpo de Santiago que estava dentro do barco.

Ooooh!

Aquilo se tratava de um milagre, minha gente. Viram? Agora, vocês estao culturalmente mais elevados depois dessa historia. De nada.

Estatua de um soldado da 1GM erigido em frente ao Castelo de Jonzac. Taih outra coisa que você encontra em qualquer cidade da França: monumento aos mortos de guerra. Il ne faut pas les oublier.

Eglise Saint-Gervais de Jonzac - séc XII

Posto a foto da calçada da igreja porque ela me interessa mais que a fachada: tao vendo essas marcas vermelhas no chao? Eh um cemitério que data dos séculos VI e VII, cheio de objetos pessoais dos mortos. As caveirinhas fashion, cheias de anel, brinco, colar, pulseira. Lindas!

Alambique ♥

Eu: o sol cegando e a grama espetando a bunda, mas ainda assim, florida

E pra confirmar que tudo é Historia, eis aih a famosa escadaria que faz a ligaçao entre a cidade alta e a baixa de Pons, construida em 1665, com seus 124 degraus (nao, eu nao contei). Ah, na foto: as duas mulheres mais importantes da vida de Camilo. Cof. 

 Pai de Camilo, fantasiado de Trotsky, e Camiloulou

 Paisagem biita I

 Paisagem biita II

 Paisagem biita III

E rosas que, à essa altura, nao existem mais

Fomos também à Talmont, uma vila tao charmosa quanto minuscula. O defeito dela: lotada de turistas (afinal, os unicos turistas aceitaveis somos nohs).

Proibido se abaixar

Église Sainte-Radegonde de Talmont (séc XII)

Foi aih que eu descobri que eu curto muito visitar (igrejas? nao.) cemitérios. E nao precisa ser naipe Père Lachaise. Qualquer cemitério beira de estrada me deixa muito pensativa, eu gosto de calcular o tempo de vida de cada pessoa e imaginar o rosto dela, o que ela fazia, do que ela morreu, de quem gostava. Fico tentando avaliar, pela quantidade de arranjos de flores nas sepulturas, o quanto ela foi amada ou se ainda é lembrada. 

Suzanne, te ponho aqui, caso te esqueçam





E alguém que foi lembrar alguém

Mas nenhum cemitério conseguiu ser mais sombrio que a praia que fomos no dia seguinte à visita à Talmont. Taih minha cara de entusiasmo que nao me deixa mentir: 

A mae de Camilo, coitada, cheia de boa vontade, sugeriu que fossemos ver o mar. Beleza, broder. Fazia um sol lindo em Jonzac e praia ficava a uns 40min de carro. Coloquei protetor solar, enfiei os oculos escuros na bolsa e percebi que, à medida em que nos aproximavamos do mar, o sol ia desaparecendo e, à medida em que o sol ia desaparecendo, eu ia junto. Enquanto as pessoas fazem topless nas praias do sul, nas praias do oeste elas vestem casacos. Mas nada de pânico, Luciana, você trouxe seu livro, você ainda pode ser feliz nesse lugar, pensei. 

Pensei errado. 

Um bilhao de quilos de areia fina se acumularam na minha iris. As crianças, visivelmente grandes dependentes de Biotônico Fontoura, estavam loucas do cu correndo pra cima e pra baixo e pareciam ser as unicas a se divertir - é interessante como um monte de areia molhada pode causar tanta fascinaçao numa criança. Porque todo o resto da populaçao tava jogado na areia, pareciam umas tapiocas. Vento frio. Eu olhava pro mar e tinha vontade de chorar. Sogra cogitou ainda a possibilidade de um banho de mar: "vou verificar se a agua ta quentinha". Taih um exemplo de mulher otimista. Ela voltou e disse "é. A agua ta quente, mas ta cheia CHEIA de agua-viva". Pff. Fomos embora antes que o tsunami viesse. 

(Jaca Paladium mode on) Agora, preparem-se para ler a dramatica historia da jovem que quase foi morta por um espinhento pé de amora.

La estava eu, contente e feliz passeando pela floresta, quando me deparei com um pé de amora. Pensei: vou pegar somente algumas para o caminho, nao vai fazer falta

Nao vai fazer falta o caralho. Toma! - disse a Mae Natureza. 

De repente, deu um vento lateral e os ramos espinhentos da amoreira me envolveram em uma teia mortal. 

Quanto mais eu me debatia, mais presa eu ficava. Eu ja estava dando meus ultimos suspiros quando, de repente, consegui me livrar da armadilha maligna de Gaya. 

 Felizmente, sobrevivi e hoje posso usar meu testemunho para salvar outras pessoas. 


Fim.

Talvez

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