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domingo, 28 de abril de 2013

Cinco anos em cinco meses (ou do amor pelo lado de lah).

Nao querendo ser monotematica, mas ja sendo, queria colocar para fora um post que martela ha alguns meses minha cabeça  sobre a França e sobre essa coisa de evoluçao - e talvez ovulaçao, porque parte desse post é oferecimento da minha tpm. 

Quando eu cheguei aqui na França (2009), me sentia uma estranha em absoluto. Eu estava convencida de que soh estava aqui por Camilo - apesar da antiga vontade de ir embora do Brasil (Brasil = Joao Pessoa. Joao Pessoa = casa dos meus pais). Até hoje, eu nao sei se fui feliz ou nao nesses anos todos em que vivi aqui. Acho que Camilo era uma boa fonte de felicidade que mascarava a solidao sentida. Eu acordava respirando Camilo, mas começava a beber às 8h da manha nos finais de semana pra ver se aguentava o tranco de estar sozinha. E eu, que gosto tanto de falar (o blog veio da vontade de falar, nao de escrever), comecei a me fechar na minha conchinha. 

Ia pro trabalho/faculdade, voltava pra casa, entrava pelas escadas exteriores que davam acesso direto ao meu quarto (para nao ter a necessidade de entrar pela sala e cruzar com meus colocs) e soh descia quando o jantar estivesse pronto. Uma vez terminada a refeiçao, eu subia e me escondia novamente. Disso, surgiram inumeras brigas ferozes com Camilo que, sei la porque, gostava de perder tempo falando merda com o pessoal la na sala. O unico momento em que eu me permitia ser social, era com um, dois, três, vinte, copos de cerveja na mao. Nao gostava de falar francês porque coloquei na minha cabeça que, por nunca ter feito um curso decente, eu nao sabia falar francês. 

E dai, mesmo estando tao longe, eu tinha uns pesadelos estranhos com meu pai. E me pegava com o coraçao acelerado pelo pensamento de um dia ter de ve-lo novamente. Mas ao mesmo tempo, eu pensava em Fabio e meu coraçao se enchia da mais fina angustia, aquela coisa negra que ia me secando por dentro - alguns a conhecem como "saudade". Mas aih a angustia ia embora e dava lugar ao medo. Eu tinha medo de falar, de contactar as pessoas, de sair, de voltar, de ficar e de ser. E, como se nao bastasse, vinha sempre, uma vez ou outra, aquela sensaçao de nao pertencer a lugar nenhum, e alguns pensamentos sempre introspectivos e pseudo filosoficos sobre a necessidade de se pertencer a algum lugar. Eu pertencia a Camilo. E ele dizia que eu era a casa dele. E parecia um bom acordo, porque a gente parecia feliz. E eu amei tanto esse homem! Eu nem lembro mais como era, mas sei que amei porque eu preferi me abandonar à abandona-lo.

Acho que meu amor se confundiu com dependência. Eu nao conseguia fazer nada sozinha. No começo, mesmo quando eu conseguia me exprimir razoavelmente em francês, eu pedia pra que ele fosse comigo ao médico. Eu fazia uma drama pra ele ir comigo resolver algo na Prefeitura. Eu entrava em pânico e fazia birra de criança pra que ele fizesse algum telefonema de meu interesse. Uma vez, a gente pegou uma briga fenomenal nos metros parisienses, porque eu queria que ele me acompanhasse a um lugar que ele nao queria ir - tudo isso porque eu achava que eu era incapaz de voltar pra casa sozinha. Ele corrigia meus trabalhos da faculdade. Eu nunca viajava sem ele. Nunca saia sem ele! Cinema. Camilo. Teatro. Camilo. Show. Camilo. Bar. Camilo. Sim, eu tenho muita vergonha de dizer isso. Eu realmente fui muito fraca. Eu achava que tentava mudar isso, eu queria que as pessoas falassem comigo, mas quando elas falavam, eu rezava pra que elas se calassem. Eu soh queria que elas soubessem que eu era mais interessante do que aquilo, mas eu nao queria fazer esforço pra isso, porque "esforço" subtendia "falar" e, isso, eu nao era capaz de fazer.

E, apesar de toda essa dependência, eu acordei e finalmente percebi que eu tava tao vazia, tao pobre, que eu nao o amava mais, que eu estava com ele, nao mais por amor, mas por medo e, nesse dia, eu realmente me senti (ainda mais) sozinha. Tentei colocar a culpa na minha extrema e fatal instabilidade. Culpei meu signo. Culpei a lua. Culpei Lula - porque todo mundo culpa o Lula. Culpei a França, o Brasil. E lembrava de Artur da Tavola (desculpa atencipada, pois citaçoes soam sempre quase esnobes) quando ele dizia que "(música é vida interior, e) quem tem vida interior jamais padecerá de solidão". Eu achava que tinha e, portanto...

Quando acabamos, eu entrei em depressao. Alias, aquilo deveria ter outro nome, porque depressao eu ja tinha sentido, mas "aquilo" era mais intenso e "aquilo" me transformou. Eu achava insuportavel viver, mas vivia porque eu sabia que fazer alguma besteira iria provocar uma tristeza semelhante na minha mae e esse pensamento me apavorava (desculpa o drama, mas foi assim que aconteceu e, apesar de eu nao entender mais aquela tristeza, eu sei que ela existiu e que foi dessa forma que ela fez parte de mim). Até que um médico me disse que aquilo tudo era, em parte, decorrência de um tumor. Fui pro Brasil desejando estar com meus pais. Sim, pai e mae. Fiz a cirurgia e, quando voltei, meus amiguinhos...

Quando eu voltei, decidi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer. Me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você. Parei de me trancar no quarto. Decidi que meu francês nao é bom para um francês, mas que é bom para uma estrangeira. Perdi quase todo o peso ganho durante a doença. Entrei no mestrado, mesmo sabendo que nao haveria ninguém pra corrigir meus trabalhos. Fui descobrindo simplesmente o que era ser eu de verdade - quando comecei minha vida sexual/amorosa, engatei nove anos no stop de namoro e era a primeira vez em que eu estava vivendo sem um cara pra me dizer o que fazer (sou feminista, mas...). Fiquei meio perdida no começo porque sou o tipico clichê de menina que nao teve a figura do pai presente e que demanda muita atençao dos namorados. Agora, gasto meu dinheiro da forma que quero - agora nao gasto mais porque, se somos livres, "nohs gatos ja nascemos pobres", nao esqueçamos. 

Aprendi a viajar sozinha - na primeira vez que viajei sem Camilo, foi pra fazer um trajeto de pouco mais de uma hora. Compro uma quiche, entro no trem, me deparo com uma cadeira vazia ao meu lado. Aguento firme, mas ao ver que nao tinha ninguém pra dividir a porra da quiche, começo a chorar. E fico assim, comendo a quiche e chorando, tendo pena de mim. Deprimente. Hoje, eu prefiro viajar sozinha, isso me da a oportunidade de passar o tempo olhando pela janela, de observar as vaquinhas no pasto ou, em dias feios, de ver macro espermatozoides de chuva se formarem na janela do trem. Aprendi a planejar coisas sozinha. Viajo e, quando volto pra Lyon, vem quase sempre uma lagriminha emocionada me socorrer quando me dou conta de que aqui é minha casa. 

Eu cortei meus cabelos! Dei um pulo dificil para fora dos padroes e agora nao sou mais a menina de cabelos longos e lisos. Sou uma mocinha de cabelos curtos e cacheados (e crespos!). Decidi usa-los como eles sao e, porra, vocês nao imaginam a liberdade que é poder ser você mesma. Fiz o primeiro Amigo francês. E o segundo e o terceiro. E agora, quando eu chego em casa, as pessoas sorriem ao me ver. Quando estou estudando no quarto, elas batem na minha porta e me mandam descer. E eu ainda nao me acostumei com isso. Porque essas eram as pessoas que eu admirava em silêncio ha uns anos e, agora, elas me dizem "eu te amo". Eu amo meus colocs. Eu aprendo com eles. Sao dez ao todo. A gente fala tudo sobre tudo e sobretudo sobre nada. E acho que, finalmente, o que me salvou foram as pessoas. Eu ja tinha falado aqui, num post antigo, que o importante nao é o lugar, mas quem te rodeia. Pra mim, vida interior, Artur, sao pessoas. Eu preciso disso. Eu preciso falar, preciso ser ouvida, mas também tenho necessidade de ouvir, de conhecer o outro. 

Nesses meses em que passei longe do blog, recebi alguns emails de leitores desconhecidos que dizam "olha, desculpa, você nao me conhece, mas eu leio seu blog e sinto como se te conhecesse", e dai, elas me perguntavam se eu ia bem e contavam um pouco a historia de vida delas. Gente, eu amo! Eu acho isso genial! Gosto de gente dada (ui), aberta (ui), que nao faz pose, que nao faz tipo. No começo de 2008, um amigo me escreveu um email depois de ler um post antigo meu num blog antigo.

(...) Desculpe o texto pseudo-sério, mas seu post realmente mexeu comigo, de alguma forma... acho que fiquei meio emocionado, de alegria e tristeza por me sentir em sua pele. Ainda assim, quero que você guarde pra sempre a forma como te admiro; bem como a forma verdadeira como você ama esse negócio de viver - que faz parecer que você não tem medo de nada, parece que nada é realmente tão grande que não possa ser alcançado.

Pois é, eu tive medo de muita coisa, mas parece que continuei conquistando-as  - pelo menos era isso que Camilo me fazia tentar enxergar. Acho que aqui, na França, eu tive a oportunidade de crescer. Sim, poderia ter sido em qualquer outro pais, mas nao foi. Foi longe de casa, longe do meu perimetro de segurança. Me fudi muito sozinha, mas percebi que tudo isso fui eu quem provocou. E, apesar de achar que fosse enlouquecer em certos momentos por nao ter ideia do que fazer com minha vida, olho pra tras e sorrio com toda a ironia que me acompanhou. A vida é irônica. E soh. Sinto como se tivessem me dado uma injeçao de vida. Decidi parar de me vitimizar, de achar que eu sou fraca. Ninguém sabe que você é fraco até que você o diga - gente, baixou o satanas da auto-ajuda? E, finalmente, acho que estou onde eu queria estar. A França me emociona ♥. Aqui é casa e vai ser casa pelos proximos nove anos - a nao ser que eu queira partir de novo, porque eu tenho a escolha. Mas tenho amado esse pais. Adorei fazer o post anterior, adorei perceber que eu faço parte disso. Nao foi pela beleza do pais que eu vim, mas foi pela beleza que eu fiquei. E, sim, pelo povo. Nao escutem os clichês que rolam por aih sobre os franceses. Os franceses sao sim um povo amavel. E quem diz o contrario, nao conhece os franceses. 

Sei que a vida vai continuar nao sendo facil. Mas eu tou bem acompanhada. Eu tenho eu. :)



quarta-feira, 20 de junho de 2012

Toda cura para todo mal

- Como escrever um post de agradecimento sem ser brega ?
- E por que evitar a breguice, Luci ? Seja brega, nao se reprima.

Credo, que mensagem de
agradecimento horrivel
Esse foi o dialogo entre mim e meu eu-menudo minutos antes de escrever esse post. Porque eu até entendo que as pessoas possam se solidarizar com alguém que anuncia uma doença, mas eu nao esperava, sinceramente, pelas mensagens recebidas nas ultimas semanas. Os telefonemas, os emails, as mensagens no blog, as cobranças no FB: nao importou o tamanho, a frequência ou o meio: tudo, cada mensagem me deixou feliz, de olho marejado. Gente que nunca me viu na vida dizendo estar preocupada, oferecendo ajuda. Eh demais pro meu coraçao de banana.  Call me deslumbrada, mas eu acho isso fantastico e me emociono mesmo. Sou mole sensivel. Entao, obrigada. Obrigada mesmo. 

Mas vamos falar do meu parto. 

Assim que cheguei ao Brasil (19 de maio), fui a todos os médicos e fiz todos os exames possiveis para dar inicio ao processo cirurgico. Mas toda semana, a cirurgia era marcada e desmarcada devido à falha na aprovaçao do material da cirurgia que custava em torno de 5 mil reais. Quase escrevi à UNIMED dizendo que eu aceitaria ser operada com uma tesorinha de plastico sem ponta, desde que a operaçao fosse aprovada rapidamente. Eu era a personificaçao da ansiedade, nao via a hora de extirpar Godzilla. 

Entao, um dia, confirmaram a cirurgia. Nunca na historia desse pais uma pessoa ficou tao maravilhada com a ideia de ser aberta por um bisturi. Angela Bismarchi me entenderia. A cirurgia estava marcada para às 10h, mas maqueiro soh chegou depois do meio-dia. Sim, o "maqueiro". Nao sei vocês, mas eu desconhecia a existência desse profissional. Quando ele chegou, me perguntou: "seu coraçao acelerou quando me viu?". Poderia ter acelerado se seu nome fosse Freddy e seu sobrenome fosse Krueger, fora isso, sem chance. Ele ainda disse, com certa dose de orgulho, "o coraçao dos pacientes sempre acelera quando eles me veem". Foi aih que eu lembrei de ficar nervosa, mas nao consegui. 

Chegando na sala de cirurgia, encontrei o cirurgiao, o anestesista e mais duas figuras cuja serventia eu desconhecia. Foi quando ouvi alguém dizer "eu soh fiz duas cirurgias em supra-renal". Quase que levanto da maca no melhor estilo UEPAAAA! Para tudo! Maquistoria é essa de somente DUAS cirurgias? Eu rezei pra que fosse o maqueiro que tivesse dito isso, mas nao pude ter certeza. A anestesia ja estava fazendo efei... hudedz... hnj q;;77§ès !r fie jfgn id ufijr,f...

Limbo.

"Deixa eu ver" foi minha primeira frase (consciente) depois da cirurgia. Eu ainda estava grogue, mas queria ver aquele que me deu tanto pesadelo. Lembro de ter visto no potinho uma coisa redonda dentro de uma agua turva. Era mais ou menos assim: 

Fui levada, como previsto, pra UTI onde fiquei uma noite. Era importante que eu fosse pra UTI pra ser monitorada de perto caso minha pressao caisse (o que normalmente aconteceria devido a supressao repentina do cortisol). Na minha cabecinha inocente, a UTI deveria ser um local de paz e tranquilidade destinado à convalescença dos enfermos. A UTI que fiquei tava mais pra Feira da Sulanca: milhoes de pessoas passando pelo corredor, de maqueiro à eletricista, uma velha que gritava e um grupo de animais, digo, pessoas, que acharam bonito conversar à porta do meu quarto.

Eu ja estava ha 15h sem comer quando uma enfermeira sadica colocou uma bandeja de sopa, suco e gelatina numa mesa inalcançavel e saiu sem dizer nada. "Sera que ela espera que eu mova essa bandeja com o poder da mente, MEU DEUS?" Fixei meu olhar na bandeja acreditando que o pos-cirurgico pudesse ter me dado poderes sobrenaturais. Nao deu.

Eh soh uma mancha
Em seguida, uma dupla de enfermeiras entra no meu quarto dizendo que vai fazer minha higiene (meda). Uma delas me descobre, olha pro meu peito e pergunta horrorizada: "MEODEOS, o que é isso no seu peito?!". Eu ia responder "mamilo", mas pela cara de horror dela, ela deveria estar se referindo a outra coisa. Como meu campo de visao se limitava ao teto, eu imaginei que nao poderia ajuda-la a encontrar a resposta, apesar de eu estar igualmente preocupada.

A segunda enfermeira encarou meu peito e, de maneira passiva e precisa, diagnosticou: "é soh uma mancha". Soh uma mancha?! Em casa eu pude averiguar que nao se tratava soh de uma mancha. Parecia que eu tinha levado uma surra. Infelizmente, a pudicicia me impede de mostra-los a foto da "mancha". Mas eu posso garantir que meu corpo ta bonito. So que ao contrario. Fizeram quatro incisoes na minha barriga, cada uma tem no minimo três pontos. Eu tou parecendo um pirata.

Mas um pirata feliz. Feliz e agradecido.




sexta-feira, 8 de junho de 2012

Pequenas crônicas de um coraçao partido

(O post começa em abril e termina em junho. Sou eficiente?)

::

Incomodo e cresço rapido, quem sou eu? 


(Abril - 2012)

Alma Bondosa, também conhecido como Patrao de Luci, mexeu o pauzinho dele, alias, mexeu os pauzinhos dele (ele é médico) e marcou uma consulta para a manha de ontem com um endocrinologista chamado Professor R.  num hospital que fica a 15 min de bicicleta da minha casa.  Que frase grande.

Chegando la, mostrei a meia duzia de exames que eu tinha feito no Brasil. Um deles consistia em um exame de urina onde a coleta deve ser feita durante 24h. O médico disse "mas nao me chegue aqui com meio litrinho de xixi". Camarada! Esse homem nao sabe que eu tenho uma relaçao bastante especial com minha urina e que sou capaz de produzi-la (mas nao de contê-la) aos litros*. Voltei la com duas garrafas pet cheinhas e a sensaçao de dever cumprido.

Recipiente para amadores

Recipiente para Luci

Professor R. olhou um exame e arregalou os olhos. Fudeu, pensei. Depois ele disse a uma aluna que estava presente que ter quatro vezes mais alto o nivel de cortisol era muito e que eu o tinha 20 vezes. Fudeu, pensei de novo. Ele pediu pra ver minhas estrias, deu uma olhada de cima abaixo e perguntou se poderia fotografa-las. Gentem, virei material de pesquisa médica. Enquanto ele nao começasse a falar em lobotomia e dissecaçao, estaria tudo bem.

Entao, no intuito de ter certeza sobre a localizaçao do meu bebê, Professor R. pediu uma série de exames que deveria ser feita num hospital perto da minha casa durante... quatro dias. Fiquei hospitalizada e vou adiantar: nao foi engraçado. Me colocaram esses dois cateteres e acho que tiraram uns trinta potinhos de sangue pros exames. Tiraram pressao, recolheram amostras de saliva, espetaram meu dedo pra medir as taxas de glicose, recolheram urina. Nunca meus fluidos foram tao requisitados.

Numa radiografia, foi confirmado que Godzilla se encontra na suprarrenal direita (essa desgraça so podia ser de direita) e tem 3cm. Me espantei com o tamanho desse negocio, mas o médico disse que a preocupaçao dele era mais pelo nivel de cortisol que eu produzo do que propriamente pelo tamanho do adenoma. Ao ver as marcas deixadas no meu braço pelo torniquete do aparelho que media minha pressao, o Professor R. indicou novos exames, dessa vez, cardiacos. Ele disse que estava preocupado com a possibilidade de eu ter uma flebite durante a viagem de aviao que farei logo mais e prescreveu meias de compressao e uma injeçao anticoagulante (que tomei diariamente durante os dias de internaçao).

(Maio - 2012)

Enquanto eu ainda estava me acostumando à ideia do Cushing, tive a prova de que Deus existe, sim, e que, nao, ele nao sabe brincar: fui chamada no hospital dias depois para fazer uns exames no coraçao e foi descoberto que eu tenho uma pequena cardiopatia: uma ma formaçao no coraçao que me acompanha desde sempre. Ela se chama CIA (Comunicaçao Interatrial). Google amigo:

A comunicação interatrial é uma cardiopatia congênita caracterizada por uma abertura entre os átrios, que permite a passagem do sangue do átrio esquerdo para o átrio direito. O fluxo sanguíneo do atrio esquerdo para o atrio direito resulta em um aumento da saturação de oxigênio em atrio direito, ventriculo esquerdo e tronco pulmonar. O fluxo pulmonar aumentado leva a um aumento da resistência arteriolar pulmonar e insuficuiência cardíaca direita. Pode ser diagnosticada por ECG e seu tratamento é apenas cirúrgico. (Fonte)

Eu até tentei chorar, mas nao consegui. Na boa, pareceu mais piada que qualquer outra coisa. E, como eu ja estava sentimentalmente amaciada pela historia do Cushing, pensei "uma cirurgia a mais, uma cirurgia a menos, nao vai fazer diferença". Eh uma pena que essas coisas a gente nao possa colocar no CV.

2013 - Cirurgia de CIA - Avaliaçao: sobrevivi
2012 - Cirurgia de adenectomia - Avaliaçao: sobrevivi

Nossa, muito bom o seu curriculo. Com o salario que pagamos, seria bom ter uma sobrevivente na equipe. Inglês?

(junho - 2012)

E quem disse que pinto gosta de lixo?
Pinto gosta é de luxo! Oia pra nois!
Mas nao. Seja como for, no dia 18 de maio, eu estava prontinha pra ir pro Brasil. Tava mais feliz que pinto no lixo. Eis que de repente, nao mais que de repente, decido dar uma ultima checada nos meus emails e vejo que meu voo havia sido cancelado e remarcado somente pro dia seguinte. Onda de sorte. Frustraçao define. 

Como ja venho ha semanas fazendo esse post, e, como @s amiguinh@s andam pedindo noticias, vou postar isso aqui e logo mais (ou nao) retornarei com informaçoes mais precisas sobre a data da cirurgia - e, claro, os comentarios toscos acerca da minha viagem, que eu sei que é disso que vocês gostam. 


Here, there and everywhere

sábado, 21 de abril de 2012

Tem o Giba uma giba?

Você conhece este homem?


OHMEODEOSDOCEONAOEHPOSSIVEO!

Sim, post novo no caso.me.esqueçam. Antes que Cissa Guimaraes aparecesse aqui em casa com o quadro "Por onde anda...", resolvi mostrar que estou viva e explicar (parte) do meu sumiço.

Em fevereiro, por motivos que nao me covem explicar, fiquei mal da cabeça e doente do coraçao. Tadinha. Diante do meu infeliz estado, meu bob pai e minha mamae quirida me pagaram uma passagem pro Brasil: dois anos longe de casa. 

Quem acompanha minimamente esse blog, sabe que fiz, durante meses, uma dieta pra perder os singelos 13kg que ganhei no ultimo ano. O ganho rapido de peso garantiu estrias pelo meu corpo inteiro. Mas nao eram estrias normais. Estas devem ser estrias mutantes. Nem gravidas de mamutes trigêmeos conseguiriam exemplares como os meus. Minha melhor amiga, quando viu minhas pernas, disse que achou que eu tivesse levado uma surra. Quem dera fosse. Pra vocês verem que eu nao estou exagerando, uma foto de um lado da minha barriga:

Convencidos de que o caso é sério?

Minha mae, diante do quadro, insistiu pra que eu fosse numa dermatologista pra um milagre tratamento e eu aceitei. Chegando la, a médica me olha e, em três segundos e meio, me diz: "você tem Sindrome de Cushing". Oi, pai de quem? Cushing. 

Entao, ela abre um livro que, pelo tamanho, deveria ter meu peso. Ela começa a folhea-lo e eu, curiosinha, arregalo os olhos pra ver as imagens dele. Metade das figuras eram de vaginas brancas, cheias de bolinhas esquisitas e pênis vermelhos com rachaduras. "Minha nossa, minha doença ta aih dentro?". Finalmente, ela para numa pagina onde tinha uma foto de uma pessoa gorda. Eu fico aliviada. "Ah, novidade, ela vai dizer que eu estou gorda". Nao. Entao, ela começa a ler sobre a Sindrome. Wikipedia ajuda.

A Sindrome de Cushing é provocada por altos niveis de cortisol no sangue. O cortisol pode ter origem externa ou interna: ou eu fiz tratamento prolongado com essa substância (99% dos casos, segundo meu médico) ou é minha hipofise que a esta produzindo ou ainda as glandulas supra-renais. Nesses ultimos dois casos, de qualquer forma, trata-se de um tumor. Pois é, viva eu que fui ao Brasil pra descansar e voltei com um tumor na mala. Detalhe, Sindrome de Cushing nao é uma doença comum (dois ou três casos por um milhao de habitantes). Meu médico soh a viu uma vez na vida. Viva eu de novo. 

Mas isso explica um monte de coisa. Nesses ultimos meses, meu corpo mudou muito e eu passei a desenvolver umas mazelas que, pra mim, eram resposta a dieta que eu tava fazendo. Sintomas? 

- Obesidade crônica, sobretudo na parte superior do corpo;
- Rosto gordo (dito "lua cheia") e vermelho;
- Surgimento de estrias violaceas;
- Pele fragil;
- Insônia;
- Afinamento e queda do cabelo;
- Perda de massa muscular;
- Equimose (hematomas);
- Labilidade emocional;
- Acne;
- Ganho de apetite;
- Cansaço nervoso;
- Problemas no ciclo menstrual;
- Aumento de pelos;
- Problemas psicologicos (depressao, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de atençao e memoria);
- Reduçao da libido;
- Aumento do volume urinario;

E ainda: geralmente, a Sindrome traz osteoporose, diabetes, hipertensao e/ou dificuldade na coagulaçao do sangue. Essa porra deve dar até piolho. 

As consequências de um diagnostico tardio: 

- Embolia pulmonar, trombose, diminuiçao da massa ossea (provocando fraturas), obesidade, 4-5 vezes mais chance de morrer em relaçao a alguém saudavel. Ou seja, muito amor.

Olha, com exceçao da acne e dos problemas menstruais, eu tinha, tenho, todo o resto. Eu vou no banheiro pelo menos duas vezes durante a madrugada pra fazer xixi; eu tenho roxos pelo corpo todo e nenhuma lembrança de ter me machucado; os cabelos caem aos quilos; a vermelhidao no rosto é tao aparente que uma vez cheguei em casa e perguntaram se eu voltei correndo do trabalho; nervosismo e tristeza nao precisam nem ser comentados (vide primeiro paragrafo); perda da libido?; fiz o buço pela primeira vez na vida quando o estado dos meus bigodes nunca tinha me incomodado antes - odjio; o cansaço começou a ser grande, mas eu achava que era a dieta e os guris que sugavam minha energia.

O endocrinologista que eu consultei disse que iria fazer um teste simples pra saber se eu tinha Cushing: ele segurou minhas maos, pediu pra que eu agachasse e, em seguida, tentasse me levantar. Eu soh consegui a façanha por ter me apoiado nele e jogado os quadris para tras: com a perda da massa muscular, a Sindrome te tira a força das pernas. Eu soh faltava morrer tentando subir uma escada. Tudo se explica.

Quando fiz a dieta, eu perdi 15kg, ou seja, fiquei mais magra do que estava antes de começar a ganhar peso. Mas o rosto continuou gordo e a pança nao diminuiu tanto quanto era de se esperar. Queria muito ter feito um post "antes e depois", mas com a cara gorda que eu me encontro, vocês nunca iriam notar a diferença. Eu cheguei a ir no médico aqui na França pra tentar resolver isso e ela disse que era normal, que eu iria emagrecer depois. Sei. 

A mae dos moleques é médica e me revelou essa semana que sempre desconfiou que eu estava com Cushing, mas achou indelicado dar essa sugestao na época. Indelicado é deixar a babah morrer, minha gente. Ainda assim, no ano passado, ela chegou a me aconselhar a ida a um endocrinologista caso eu fizesse uma dieta e nao perdesse peso. Acontece que eu perdi, entao logo descartei a possibilidade de estar doente. Ela perguntou por que eu ou Camilo nunca desconfiamos que eu poderia estar doente, mas como eu ja disse, as consequências de uma dieta de proteina pareciam ser uma explicaçao razoavel pra tudo o que estava acontecendo. 

Ha também acumulo de gordura na parte de tras do pescoço que os médicos chama de "giba". Gente, eu tenho uma giba que, infelizmente, nao é essa: 


(ou felizmente...)


Unxi, como é lindo!

Seja como for, diante da possibilidade de estar com diabetes, tive que suspender o chocolate e o alcool (si, pero no mucho) com muita dor no coraçao. Depois de "curtir" alguns dias a ideia de ter diabetes, fiz um exame simples que revelou que eu nao tinha porra nenhuma! - pude aproveitar ao menos a festa de despedida. 

Antes de deixar o Brasil, fiz um outro exame que revelaria onde estah meu bebê tumor (espero que seja um bebê). Havia de 80% a 90% de chance de ser na hipofise. Hipofise, pra quem nao sabe, é uma glandula que fica na cabeça e tem o tamanho de uma ervilha. Ela é responsavel pela produçao de um monte de hormônio importante como o da produçao do leite e o do crescimento. O médico explicou que ele iria "raspar" a parte da hipofise que produz o cortisol.

O que poderia acontecer seria que o cirurgiao poderia raspar além do necessario afetando a produçao dos outros hormônios (e eu teria que repo-los também pelo resto da vida) ou, pior, nao raspar o suficiente me obrigando a fazer uma segunda cirurgia - acho valido lembrar que a cirurgia nao custa dois reau. Num terceiro fracasso, "a gente 'explodiria' sua hipofise numa radioterapia". Uma pena, porque eu nasci com essa hipofise e pretendia morrer com ela. Mas nao por causa dela, entao... Entao, tinha esses 10%, 20% de chance que o tumor estivesse na glâdulas adrenais.

Hoje liguei pra minha mae pra saber o resultado do exame que fiz antes de deixar o Brasil que indicaria a localizaçao do bebê e, guess what!, na sena eu nao ganho, mas meu tumor estah na supra-renal.

djing djing djing!

Essa historia toda me deu um mal humor danado (sobretudo a parte da diabetes). Mas interessante mesmo, foi receber um email de uma professora da faculdade, no mesmo dia em que descobri que tinha Cushing, dizendo que eu estava perdendo aula e... Bom, se eu estava perdendo aula todo esse tempo, significava que eu estava reprovada por falta e que, por isso, nao poderia fazer o mestrado esse ano (e somente em setembro de 2013!). Foi aih que eu, pela milésima vez, surtei. Sinceramente, espero que o mundo acabe mesmo em 2012. Nao esta sendo facil.

Pedi pra Camilo averiguar essa historia com a secretaria e ela garantiu a ele que eu havia finalizado a graduaçao, apesar das disciplinas que cursei semestre passado terem continuidade este semestre. Como eu ja fui ludibriada por esta mulher anteriormente, irei na faculdade exigir uma declaraçao por es-cri-to que indique que eu estou, na mais absoluta certeza, formada. Motivo: minha cirurgia vai ser feita no Brasil e eu nao quero nenhum impedimento ou coisa pendente na França. 

Borboleta, tou chegando. Betty, vou ter que declinar do seu convite pro casamento - ja havia comprado as passagens e tudo mais, mas. Mas havera pic nic de blogs em Paris no mês de maio e mocinhas e mocinhos das redondezas podem se preparar porque quem me lê agora ta convidado. Pode levar marido, Luci? Podji! Pode levar filho, cachorro e periquito? Podji. Pode levar a giba, Luci? Também!


Talvez

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