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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Para sua saude, quatro frutas diarias


oi

Seria cu doce mentira dizer que eu passei um ano sem postar porque estava sem tempo. Gente, eu trabalho 12h por semana! (Beijos, capitalismo). O que me falta é vergonha na cara mesmo. Mas eis uma boa razao pra voltar à ativa: um post comemorativo pros meus seis anos na França. Com certeza, esses foram os anos mais intensos da minha vida, algumas das melhores e piores coisas que vivi aconteceram no decorrer deles. E que bom! Mas o que fica no coraçao (e que vai pro blog) é a cachorrada do quotidiano. Salve!

Final de semana passado, tava rolando o Nuits Sonores, um famoso festival de musica eletrônica de Lyon. Pra comprar o ingresso, você precisa vender seu irmao caçula. E se sua mae reclamar, venda a mae também, porque o festival dura quatro dias. Claro que eu nao fui nos shows mais caros (lembram que eu trabalho 12h por semana?). Mas os pobres também foram agraciados com noites mais baratas. Eu, por exemplo, comprei um passe de três reau e outro de dez. Pra mesma noite.

O objetivo era começar a noite bebendo uma cerveja de leve na casa dos amigos, ir pro primeiro show e, antes da meia-noite, chegar no segundo show, porque depois desse horario, cê nao entra mais, colega. Eu tinha a noite inteira pela frente e claro que eu iria chegar à tempo. O problema é que a noite começou errada e, ao inves de cerveja, comecei bebendo um tipo de alcool que o pai de uma amiga produz utilizando pêras. "Olha, Luci, bebe. Tem gostinho de pêra". Gostinho de mooorte, minha filha! O negocio era tao forte que era eu bebendo e a lagrima escorrendo. Mas a gente ficou la de bouas, falando da vida alheia, comendo amendoim, pêra, eu chorando… Quando, de repente, 21h!

Debaixo de chuva, pegamos um ônibus com um monte de gente estranha. Eu tava super comunicativa e, quando eu estou super comunicativa com gente que eu nao conheço, pode acreditar, o nome disso é alcool. Nunca na minha vida que eu vou falar com pessoas desconhecidas de forma expontânea. Credo. Mas la estava eu falando do meu guarda-chuva pra moça do lado. Dai que a gente chegou e a unica coisa que eu vi foi a fila do bar. A musica tava uma bosta e eu nao sei onde foram parar as dez da noite, mas ja eram 23h!

Eu iria pro segundo show, no Sucre, com um amigo, Adri, que ja estava comigo. O Sucre era do outro lado do planeta, ele iria de bicicleta e eu teria que pegar um ônibus + tramway. Eu nao sabia exatamente onde ir uma vez que descesse do tramway, mas encontrei mais gente esquisita la e pensei em segui-los ja que, com certeza, eles iriam pro mesmo lugar que eu.

Nao foram.

Eu desci do tramway, toda errada, seguindo a galera que ia pra uma festa num barco. "Meu deus, o Sucre virou um barco". Entendi que nao era la, dei meia-volta e nao vi mais nada. As pessoas tinham sumido. Todas. Tinha um posto de gasolina aberto, mas os postos daqui nao tem frentista, entao foi bem solitario ver tudo iluminado, sem ninguém, parecia uma cidade abandonada. Cruzei algumas pessoas que iam pro barco… maldito… que nao tinha a menor ideia de onde eu deveria ir. Entao, finalemente liguei pra Adri pra que ele viesse me buscar. Teria sido genial se ele tivesse atendido o telefone.

E eu andei, liguei, andei, religuei, a chuva aumentou, diminuiu e eu andando. Eu ligava par Adri, nada acontecia. Comecei a ter saudade dos meus amigos, da minha casa. Vento friiio… Silêncio. Vazio. Uma musica de Djavan na cabeça. Entao, bastante resignada, como soh esses momentos te ensinam a ser, escolhi um cantinho, tirei um vira-lata do bolso, um copinho vazio da starbucks do outro e comecei a pedir esmola. Pronto. Minha mae me educou tao direitinho pra eu terminar assim, meu deus. Anos de faculdade jogados no lixo. Meu tratamento odontologico, super caro, que viria me poupar anos de terapia. Uma carreira internacional no balé. Tudo jogado fora. Eu nunca fiz balé, mas eu poderia ter feito. Aquele momento é que nao iria permitir.

Aih um cara passa, me joga uma moedinha e eu vejo que é Adri! Iupiii! Ele parou a bicicleta, a gente se abraçou, pinotou no meio da rua e eu subi na bike dele. Posicionei minha querida bunda no guidao, ja que os franceses nao tem costume de levar as visitas no quadro. La estava eu, sao e salva, com meu grande amigo (literalmente). So que, enquanto eu estava mendigando, Adri estava enchendo a cara no primeiro show. Entao, ele estava bastante empolgado com a vida, por assim dizer. No curto caminho que nos levaria ao show, tinha uns bancos, umas arvores e o cérebro de Adri viu tudo isso como obstaculos legais à transpor. Ele ficava dando voltas e desviando dos bancos no ultimos segundo. E eu la, o copo de starbucks numa mao e o cu na outra.

Ele viu uma arvore cuja as folhas iam quase até o chao e disse "a gente vai atravessar essa, Lulu, se segura". Olha, eu nem tive tempo de dizer nao. Ele acelerou e se abaixou. Mas eu, que nao tinha muita opçao, levei uma lapada de galho na cara. Eu comi folha, joaninha, casulo, macaco e toda a fauna/flora existente naquele micro mundo ecologico. A bebedeira passou num segundo. Mas o pior estava por vir. Logo depois da arvore, tinha um banco. Tinha um banco no meio do caminho, no meio do caminho tinha um banco de pedra, redondo e grande como uma nave espacial. Eu soh tive tempo de gemer. A bicicleta bateu no banco e ficou onde estava. Eu fui embora. Enquanto eu voava, pensei nos momentos felizes em que era mendiga e desejei voltar no tempo, mas era tarde demais. Felizmente, eu aterrissei como uma flor no banco. Soh machuquei o pé. E a mao. E a consciência. Sangrou um pouco, mas eu ri mais do que outra coisa.

Cheguei feliz na noite, dançando e mancando, um pouco depois da meia-noite. A noite foi linda. Eu falei com todo mundo, eu apertei o mamilo de um cara, eu subi nos ombros de outro, eu tirei os sapatos, eu fiz amigos, eu dancei e, às 7h da manha, decidimos voltar pra casa. A gente queria ser responsavel entao decidimos colocar a bicicleta dentro do tramway e voltar assim. Mas o tramway estava meio longe, entao, subi na bicicleta dele (a gente nao aprende nunca) e traçamos nosso caminho. Quando viramos a esquina, vimos o tramway de longe chegando na estaçao. Adri bateu no peito e disse "a gente vai pegar aquele ali. Se segura, Lulu". Eu segurei no guidao com minhas nadegas, entreguei nas maos de deus e fomos.

Ele pedalou como um condenado e chegamos triunfalmente à tempo de pegar o bonde. As pessoas riam da palhaçada. Mas quando colocamos a bicicleta no tramway, o motorista abriu a portinha dele e mandou a bike descer. Voltei com outros amigos e, chegando em casa, encontrei Adri todo ensanguentado. Ele me contou que a roda da frente se soltou enquanto ele pedalava. Tive uma doh! Somente no dia seguinte foi que a gente se deu conta, juntos, que, no momento em que o motorista pediu pra ele descer, Adri tentou tirar a roda da bicicleta pra mostrar que… que a gente nao ia andar de bicicleta dentro bonde? Nao sei. Soh sei que ele esqueceu de fixar a roda depois e deu no que deu. Demos boas gargalhadas. Ele, nem tanto.

E o que fica como aprendizado, crianças? Pêras sao perigosas.

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Para aventuras menos complexas,

https://www.facebook.com/casomeesquecam


domingo, 2 de fevereiro de 2014

So faltou o Rodrigo

Nunca tivemos problemas quanto à uma falta de convidados nas nossas festas. Somos nove moradores na teoria, mas doze na pratica. Entao, uma festinha com os amigos proximos, beira facilmente a centena. Por isso, com o passar dos anos e a popularidade de algumas festas, nos vimos obrigados a desenvolver certas praticas que pudessem proporcionar a loucura geral dos convidados e a tranquilidade dos vizinhos. Falhamos miseravelmente. Pelo menos quanto à segunda parte.

As primeiras festinhas tinham todo um cheiro de inocência. Cada criança trazia sua garrafa de alcool, um tira-gosto (96,5% das escolhas giram em torno de amendoins borrachudos, mas 100% dos amendoins sao devorados antes das 2h da manha) e dois ou três coleguinhas. Eles chegavam, bebiam, vomitavam e iam embora. Tranquilo. Mas as festas foram ficando mais conhecidas e começamos a nos adaptar à nova demanda: de umas três festas pra cah, começamos a disponibilizar barris de cerveja, muros de som, um dormitorio pros guerreiros (esvaziamos um grande quarto da casa e cobrimos o chao de colchoes), uma recepçao, um fumodromo com musica e alguns metros de pizza feitas num forno à lenha. Resultado: na festa do sabado, eramos quase 300. 


Aqui qué a festa?

Em festas assim, as pessoas nunca chegam em pequenos grupos, elas chegam em caravanas. De carro, metrô, jegue, bicicleta. Vi um grupo saindo de um bueiro. Eu, particularmente, sempre peço pros meus convidados trazerem amigos pra que eles nao se sintam deslocados caso eu saia de mim va dançar. Mas tem gente que nao sabe ponderar. Uma convidada, que trouxe metade da festa, foi logo se justificando na entrada: "Me disseram que era pra trazer os amigos". Quando eu vi a quantidade de pessoas que ela trouxe, quis explicar que era pra trazer os amigos mais proximos e nao todas as pessoas que ela ja conheceu na vida. A avoh dela ficou la no sofa, com um Malibu na mao. O professor de fisica do ensino médio foi dançar com a vizinha dela. O evento foi compartilhado no Feici. As pessoas ligavam chamando os amigos. "Traz todo mundo", ouvi um dizer ao telefone. Entao, a cada dez minutos, viamos uma horda ensandecida chegar e se enraizar na nossa sala. Para a ocasiao, veio gente de Marselha, veio gente de Paris. A meia-noite, eramos bastante numerosos e meus colocs ainda nao tinham se decidido se aquilo era algo a se comemorar. Encontrei um antigo coloc, mas no momento em que começamos a conversar, um grupo que pedia passagem o levou para longe e nunca mais tivemos noticias dele.

A festa se concentrava em quatro pontos: o fumodromo, a frente da casa, a sala e o subsolo. Este ultimo era o local mais procurado, ja que sediava o bar e os djs. Desci com dois amigos pra ouvir um pouco de musica, mas logo fomos engolidos pela fumaça que saia da maquina de gelo seco e, em três segundos, eu ja tava pegando na mao de pessoas que eu nao conhecia. Eu nao sabia onde meus amigos estavam. Eu nao sabia onde eu estava. Fiquei vagando sem rumo e trombando nas pessoas que brotavam na minha frente. Elas tinham uma cara tao perdida quanto a minha. Uma menina se jogou em cima de mim, me pegou pela gola e me pediu pra tira-la dali. O problema é que algum coloc de inteligência muito desenvolvida ligou a maquina e a escondeu atras de um sofa pra ninguém tropeçar nela, mas ninguém sabia exatamente em qual tomada ela estava ligada e atras de qual sofa. Taticas de guerra foram prontamente colocadas em pratica e vi um coloc se rastejar em direçao ao ponto mais denso de fumaça e desaparecer nas brumas. Mais uma grande perda. A maquina soh parou de fazer fumaça quando o conteudo se esgotou. Foi nesse momento que nos demos conta de que eramos bem mais numerosos do que pensavamos. Metade da festa foi descoberta e os reencontros foram felizes.

No fumodromo, uma menina fez uma entrada fenomenal usando um casaco de pele, herança da avoh. No instante em que bati os olhos no casaco dela, imaginei todas as cenas catastróficas possíveis e, antecipando o pior, fui preveni-la: "você é muito corajosa de vir a uma festa assim. Você nao tem medo que alguém derrube bebida em cima do seu casaco?" e ela, com ar superior, respondeu que "nao. Eu nao me importo. Eu nao gosto de me vestir de acordo com a ocasião, gosto de ser original... pra fazer esporte, ir às compras ou ir pras festas...". Meu lado cruzeta aflorou e eu tive vontade de jogar minha cerveja naquela merda de casaco e avisar que ser original é chegar nu.

Os problemas de superlotação logo apareceram. A casa tem dois banheiros, um no andar de baixo, outro no andar de cima, mas bloqueamos o acesso às escadas que levam ao primeiro andar (porque também dao acesso aos quartos) com um colchao de espuma. Puro luxo. O resultado é que a fila do banheiro saia da casa, seguia pela calçada e dava três voltas no quarteirao. Monique chegou em mim, carinha desolada: "eu segurei tanto meu xixi na fila que, mesmo agora depois de ter ido ao banheiro, minha bexiga ainda ta doendo". Tive doh. Aquela quantidade de gente tava insuportavel, entao, nao era nem 1h da manha quando decidi ir embora. Mas fui em grande estilo: subi em cima do sofa, dei um mosh na multidao e fui conduzida até a saida.

Voltei no dia seguinte, no final da tarde, rezando pra que a faxina ja tivesse sido feita. Nao tinha. Mas a casa estava inteira. A festa durou até as 9h. A cerveja acabou à 1h da manha (900 copos de cerveja consumidos), entao, os colocs empurraram pros convidados as velhas garrafas de alcool que sobram a cada festa que fazemos, aquelas que os convidados compram à 5 euros e que ninguém quer beber. Pois bem. Beberam. E ainda pagaram por isso.



Um coloc explicou porque odiou tanto a festa. Disse que, enquanto ele dormia, um casal entrou de fininho no quarto, se apoderou da cama do colega de quarto ausente e "copulou". Sim, ele usou essa palavra. Nao, ele nao tem 126 anos. A avoh da menina, que ainda se encontrava no sofa, riu do termo. "Eh trepar, meu filho. Trepar".

Uma convidada tropeçou no colchao enquanto descia as escadas e saiu bolando ladeira abaixo. Abriu o queixo, foi pro hospital às 4h da manha. O bar produziu 600 euros, mas acho que, depois de terem pago dj, caixas de som e cerveja, nao deve ter sobrado muita coisa. Também soube que um vizinho chegou às 8h da manha pedindo clemência. Disse que os vizinhos estavam cansados do barulho, mas que eles tem medo da gente entao, ninguém disse nada, nem quiseram chamar a policia. Olha, tudo bem que meu bairro parece o Bronx (gente fuzilada, carro queimado), mas é tudo exagero. Somos legais. O problema é que minha rua é uma rua de velhos de mente velha, entao preconceito rola solto. Outro dia, uma senhora chegou no emprego de um coloc (que fica no final da rua) e perguntou se as vans que ficam na frente da nossa casa, sao vans de prostitutas. Realizem. Nao sei se ela estava interessada em se candidatar à uma vaga, mas dispersamos os rumores.

Mas a proxima festinha taih: dia 15 de fevereiro, cumbia e cerveja. Vocês estao todos convidados, toda a internet. Tragam os amigos, caso eu saia da festa. Ou de mim.


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A questão do gênero na Guillotière

efeito dos ventos lioneses


Quanto eu escuto todas as portas da casa batendo por causa do vento, até as fechadas - o vento abre a porta usando o trinco e a fecha novamente -, eu sei que nao é um bom momento pra sair de casa, ainda mais de bicicleta. Mas eu tive aula e fui obrigada a sair de casa (faz uns 24 anos que eu lamento essa frase). Normalmente, o trajeto se da numa grande avenida que segue ladeira abaixo. Entao, soh tenho que ter cuidado pra nao ser atropelada pelo tramway e tudo certo, mal preciso pedalar. Soh que semana passada tava tenso. Foi a primeira vez que eu andei de ré numa bicicleta. O vento parecia um coice e, quanto mais eu fazia esforço, mais eu sentia a resistência dele. Mas enfrentei o vento, enfrentei a aula e fui contente pra Guillotière encontrar um amigo praquela cerveja de fim de tarde.

Guillotiere é um famoso bairro de Lyon, famoso sobretudo pelas cantadas dos punheteiros sedutores de plantao que te cantam com tanta convicçao que sao capazes de te engravidar soh te dando bom dia - por isso, eu fecho as pernas e os ouvidos quando ando por essas bandas. Infelizmente, nao da pra evitar o bairro porque é onde se encontra um dos lugares mais visitados na cidade: o rio Rhone. Fui enfrentando ventos e homens pra encontrar o tal amigo na beira do rio.

Comprei umas cervejas, escolhi um lugar tranquilo e sentei tensa com todas as aproximaçoes suspeitas. Um cara veio, perguntou se eu tinha um isqueiro e saiu de boa com a negativa. Mas nao tive tanta sorte com o segundo, que sentou bem do meu ladinho. 

- E aih, tudo bem?
- Ah, nao, cara. Por favor. Você nao vem pra isso, né?
- Nao, nao vou incomodar.
- Tarde demais.
- Soh quero... sei la... A vida é bonita, né?

Eu achava que conversa mais vazia que a de elevador nao existia. Mas encontramos um novo adversario, senhoras e senhores: a conversa de beira de rio. Ela começou assim, mas se dirigiu pra isso:

- Que marca roxa é essa aih no seu braço?
- Nao sei, acho que bati na porta ontem...
- Nao foi o seu namorado, né?
- Errr... nao. Mas ja essa marca aqui, oh, foi da agulha do exame de sangue que fiz ontem.
- Você tem AIDS?

Juro. O cara simplesmente perguntou se eu tinha AIDS. Tudo muito tranquilo. Oi, tudo bem, a vida é bela, você tem AIDS? Enquanto isso, ja tinha enviado mensagens de socorro ao meu amigo pra que ele viesse logo me tirar daquela situaçao. Quando o inquisidor me viu com o celular, disse que iria embora "porque seu namorado pode nao gostar que eu esteja aqui". Ou seja. Foda-se se você nao curte minha presença, o negocio é nao estar aqui quando o macho chegar. Depois apareceu dois caras vendendo dorgas. O legal é que em nenhum momento eles ofereceram pra mim, soh pro meu amigo. Alias, eles nem sequer me olharam. Eu nao ia aceitar de todo jeito, mas acho um absurdo esse machismo. Até dos traficantes! Aff.


Pelo direito de ser tomada por uma drogada!



Quando o amigo chegou, pedi pra que fossemos pra minha area preferida do Rio: entre o banheiro publico e o lugar onde vende cerveja. Estratégia, amigos. Os banheiros publicos de Lyon foram reformados e agora as cabines, que ficam espalhadas pela cidade, tem uma porta automática que se abre apos o uso para ser completamente lavadas automaticamente. O tempo de lavagem é sempre o mesmo, pouco importa a sujeira do banheiro, mas ele pode ser mais ou menos longo de acordo com o peso da sua bexiga ja que a porta se fecha por um bom minuto. Daih que eu fui pela primeira vez, naquela noite. Aguardei pacientemente o usuario sair. A porta calmamente fechou ao mesmo tempo que uma voz automatica começou a narrar as etapas da lavagem onde o banheiro tem que estar vazio. Uma vez que ele estava limpo, entrei, fiz meu pipi transparente e voltei a beber. 

Mas uma vez que fomos uma primeira vez ao banheiro, morreu, amigo, as idas serao cada vez mais frequentes. Entao, 30 min depois, la estava eu de novo, soh que dessa vez, tinha duas pessoas na minha frente. Dois caras. Fiquei branca, porque acho que eles tavam la para fazer cocô - porque, né, o cara que ta realmente se mijando nao vai ficar esperando o Galvao Bueno dos toilettes narrar como é que o banheiro sera lavado, ele vai logo é no cantinho da rua e pronto (como um animal, alias. Mas bom, diante de uma grande necessidade, somos todos animais) mas isso ainda nao da motivo de violar alguém, amiguinhos. boa noite! Entao, era cocô. E, a cada etapa, a vozinha que narrava. E abre e fecha e lava e abre e fecha e caga e abre e fecha e lava e abre. Uma eternidade. E eu la, mudando de cor. Perninha cruzada. Olhos marejados. Arrepios. Abre caceta. Para de cagar. Limpa logo essa bunda. Meu deus, nao me deixa fazer xixi aqui, por favor. Eu sou tao jovem.

E dai, a porta abre. Tudo bem que ela leva 50 seg para abrir, mas ela abre. E dai eu entro no banheiro tentando andar o mais rapido possivel abrindo minimamente as pernas. Percebam. E a voz recomeça. 

- Porta automatica, fechando em cinco segundos para lavagem.
- Vai, vai, fecha.
- Porta fechada.
- Creioemdeuspaitodopoderosocriadordoceuvailogo 
- Iniciando a lavagem.
- *suspiro
- Chuuaaaaa! Chuuuuaaaa!
- Mami.
- Você vai mijar nas calças.
- ✝
- Lavagem finalizada. Abertura de porta.

Olha. Eu nao lembro de ter passado por situaçao semelhante antes (mentira, ja mijei nas calças varias vezes depois dos meus 15 anos). Entao, quando a porta abriu, eu entrei e ja fui mijando, mesmo vendo que a porta ainda nao estava totalmente fechada. Nao sei finalmente o que poderia contribuir de maneira mais decisiva para o fim da minha dignidade: mijar nas calças à vista de todos ou mijar no banheiro à vista de todos. Mas fiz minha escolha e posso dizer que a vida ficou menos sombria de repente. A unica ma noticia é que eu tinha razao sobre o uso do banheiro pelos caras. O banheiro é lavado, mas o ar nao é purificado.

Quais as liçoes de hoje, amiguinhas? Evitem andar sozinhas na Guillotière (sobretudo se vocês tiverem um roxo no braço), nunca aceitem dorgas de estranhos (de toda forma, eles nao vao te oferecer se você tiver um pipiu) e sobretudo, jamais, em nenhum caso, entrem num banheiro publico que tenha sido utilizado por um homem. Eh cilada, Bino.



terça-feira, 4 de junho de 2013

Tom sobre tom

Um dia, enquanto eu mostrava aos meus amigos a nova cor da parede da sala da minha casa, pintada por mim mesma, a campanhia tocou. Nos entreolhamos. Estamos esperando alguém? As sobrancelhas saltaram aos pares. Gritei um "vai entrando" curioso e decidido: permitir as pessoas entrar na minha casa me possibilitou conhecê-las melhor. Foi assim com os amigos citados, por exemplo. Com varios passos feitos por duas unicas pernas, vi surgir um figura completamente desconhecida que, sem que eu soubesse, tinha por habito me espionar. Deixar cortinas e portas abertas pros vizinhos pode nao ser sempre uma boa ideia, afinal. Meu "convidado" me cumprimentou de maneira tao rude... que foi como se aquele oi em lingua estranha fosse uma maneira de insultar. E, sem que eu perguntasse, ele disse a que veio: "eu vou parar de espionar você". Nos entreolhamos. Ele esperou uma reaçao. Eu esperei entender. Ele continuou, ainda sem incentivo de minha parte: "do meu quarto, eu vi a parede da sua sala descascando. Eu vi sua tristeza, como você andava perdido. Mas também vi você tentar dar a volta por cima. Foi comprar tintas novas. Foi dificil escolher a textura. O peso das tintas comprometeu a saude da sua coluna. Você foi forte, admito, mas... Que porra de cor é essa?! Que verde é esse? Eu nao gostei desse tom. Olha, você é daltônico e nao vê problema nisso. A partir de hoje, eu nao pretendo mais espionar você". Vimos seus calcanhares se distanciarem. Meus amigos ficaram confusos. Tentei minimizar o ocorrido: "vivo bem com meu daltonismo, a nao ser que eu dirija. E eu nao dirijo nunca". E viram em mim o vermelho que nao vejo neles e sorriram. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

E que dia é hoje, amiguinhos?

Poderia ter sido apenas mais uma sexta-feira, como qualquer outra, onde saio com meus amigos e encho a cara. Mas essa, era uma sexta-feira especial. A sua "especialidade" começou pelo fato de que eu tive que trabalhar - nao trabalho nas sextas, tenho mais tempo para diversao e nenhum dinheiro para isso. Sai do trabalho e, antes de pegar o caminho que leva ao meu quarto, telefonei para um amigo (M.) que me chamou pra sair. 

"AAEE, LULUU! BORA SAIIRR! AAAEdeHHHhhhWOOW!"

Apos a sequencia de barulhos extravagantes - que mais diziam sobre o seu estado alcoolico* que propriamente sobre sua felicidade em falar comigo - subi na minha bicicleta envenenada e me juntei a M. e seu amiguinho na casa de terceiros. Eram 22h e minha barriga nao via comida desde às 13h. Pretendia voltar pra casa cedo, entao, quis ser rapida e eficaz na bebedeira: tomei meio litro de cerveja a quase 9% e ja cheguei no barco (era uma boate-barco) vendo estrela. Segundo o quadro que se encontra abaixo, eu estava "euforica" e minha diminuiçao de julgamento iria se manifestar numa aposta com M. Eu:

- Aposto que teu xixi nao chega até a rua.
- Ele chega sim.
- Que nada, ele tem ainda a metade da calçada pra percorrer e ta perdendo força.
- Chega!
- Se ele chegar até a rua, te pago uma caipirinha.

E foi assim que eu perdi 8 €.

Etanol no sangue (gramas/litro)EstágioSintomas
0,1 a 0,5SobriedadeNenhuma influência aparente.
0,3 a 1,2EuforiaPerda de eficiência, diminuição da atenção, julgamento e controle
0,9 a 2,5ExcitaçãoInstabilidade das emoções, incoordenação muscular. Menor inibição. Perda do julgamento crítico
1,8 a 3,0ConfusãoVertigens, desequilíbrio, dificuldade na fala e distúrbios da sensação.
2,7 a 4,0EstuporApatia e inércia geral. Vômitos, incontinência urinária e fezes.
3,5 a 5,0ComaInconsciência, anestesia. Morte
Acima de 5MorteParada respiratória

Entramos na boate, fomos até o bar e no final do copo, eu ja tinha passado pra terceira etapa do nosso quadro: excitaçao. Puxei papo com duas mulheres que estavam ao lado como se tivessemos feito  faculdade juntas. Mas elas eram tao legais! Acho que eu devo ter dito isso pra elas. Quis outra caipirinha, mas os meninos ainda nao tinham terminado a deles. Comecei a saltitar, a achar a vida linda. A vida era linda. A musica acariciava meus ouvidos e eu soh pensava em dançar. Fui beber.


No segundo copo, fomos pra o terraço do barco (exatamente este que estah ao lado) e continuamos a conversar divertidamente. Eu ja nao queria mais dançar. Eu queria voar. Eu queria voar, mas meus pés estavam estranhamente pesados. A partir desse momento, eu nao lembro de muita coisa, so de ver um novo copo na minha mao. No final dele, nao tive duvidas: foi o dito que me levou a dizer, segundo testemunhas, "vou ali vomitar". Estupor. 

Eu sai chutando os pés e me locomovendo como um polvo, por propulsao. Me jogava pra frente, dava dois passos e ia pra direita. Me jogava pra frente, dava três passos e ia pra esquerda. Foi assim que cheguei no exterior do barco, sentei sei la onde, abri as pernas e, sem fazer nenhum esforço, vomitei. Nao sei direito o que vomitei, nao averiguei, mas vomitei tanto que desceram lagrimas. Quando pensei que ja tinha acabado, vomitei mais. 

Celular toca. Eh M. Olho, ignoro, vomito. Tentei escrever uma mensagem mas os dedos nao correspondiam ao comando do cérebro. Foi uma luta de Titas. Meu cerebro aos frangalhos e meus dedos aflitos. Consegui escrever "Es dtour". Deve ser algum pedido de socorro em alguma lingua alienigena, mas seja como for, desisti de me comunicar com M. Tentar aprender a escrever levou menos tempo e foi mais facil que aquilo. 

Luzes... sons ao longe... e um "Lulu" familiar. M. e seu amigo me encontram e  avaliam a situaçao:

- O que é que a gente faz?
- Nao sei, acho que ela nao pode pegar a bicicleta.
(vomito soh de me imaginar fazendo algum esforço que seja)
- Eh. 
- Bora chamar um taxi.

Eu soh queria morrer. Sentia que minha alma tinha ido embora passear. Fiquei la, dobrada em dois, olhando pros meus pés. Um taxi brotou do chao, mas eu nao tinha forças pra me levantar. Entao, eles me levaram, me jogaram no carro e tudo o que eu fazia era grunhir. Entrei no carro e dormi. Abri os olhos e, com uma emoçao nunca antes vivida, me deparei com minha casa. Fechei os olhos, abri e estava na sala. Fechei os olhos, abri e tava no banheiro vomitando. Fechei os olhos, abri e  tava na minha cama. Era 1h da manha.

No dia seguinte, acordei como uma flor. Desconfiada, vi uma garrafa de agua intocada ao lado do colchao. Me sentia bem. Minha alma tinha voltado. Sentei. Tentei lembrar da minha noite e senti uma coisa estranha. Vergonha. Cinco anos sem vomitar para acabar sendo derrotada por meio litro de cerva e três caipirinhas. Fui humilhada! Logo eu que raramente tenho ressaca. Logo eu. Mas vômitos sao uma liçao de vida. Um ensinamento. Uma das ultimas vezes que vomitei (senao a ultima), foi quando morava no Brasil. Depois de uma festa na casa de Camilo, acordo e, ao lado dele, vejo uma bacia cheia de vômito. Olho pro coitadinho e pergunto:

- Amor, você vomitou?
- Eu nao. Foi tu.

Mas agora, vendo essa tabela, acho que tive sorte com essa coisa de incontinência urinaria e fezes. 

Quatro dias depois, fui buscar minha bicicleta. Meu maior medo era de encontra-la sem a sela. Mas a sela estava la, assim como o guidao e os pneus. A unica coisa que faltava era o conteudo esperado da câmera de ar: alguém excitado, confuso ou euforico, secou meus pneus. Entao, tive que levar minha bicicleta pra passear, debaixo de chuva até a casa dos meus patroes e depois pegar dois metrôs lotados (com a bicicleta) até a minha casa. "Valeu a pena, Luciana?", indaguei-me. Valeu, pois vocês tem um poste no blog e eu tenho uma liçao: nunca mais vou beber caipirinha. De barriga vazia. 




* minha dislexia bêbada me fez escrever "alcoolitro".  Gente.


domingo, 28 de abril de 2013

Cinco anos em cinco meses (ou do amor pelo lado de lah).

Nao querendo ser monotematica, mas ja sendo, queria colocar para fora um post que martela ha alguns meses minha cabeça  sobre a França e sobre essa coisa de evoluçao - e talvez ovulaçao, porque parte desse post é oferecimento da minha tpm. 

Quando eu cheguei aqui na França (2009), me sentia uma estranha em absoluto. Eu estava convencida de que soh estava aqui por Camilo - apesar da antiga vontade de ir embora do Brasil (Brasil = Joao Pessoa. Joao Pessoa = casa dos meus pais). Até hoje, eu nao sei se fui feliz ou nao nesses anos todos em que vivi aqui. Acho que Camilo era uma boa fonte de felicidade que mascarava a solidao sentida. Eu acordava respirando Camilo, mas começava a beber às 8h da manha nos finais de semana pra ver se aguentava o tranco de estar sozinha. E eu, que gosto tanto de falar (o blog veio da vontade de falar, nao de escrever), comecei a me fechar na minha conchinha. 

Ia pro trabalho/faculdade, voltava pra casa, entrava pelas escadas exteriores que davam acesso direto ao meu quarto (para nao ter a necessidade de entrar pela sala e cruzar com meus colocs) e soh descia quando o jantar estivesse pronto. Uma vez terminada a refeiçao, eu subia e me escondia novamente. Disso, surgiram inumeras brigas ferozes com Camilo que, sei la porque, gostava de perder tempo falando merda com o pessoal la na sala. O unico momento em que eu me permitia ser social, era com um, dois, três, vinte, copos de cerveja na mao. Nao gostava de falar francês porque coloquei na minha cabeça que, por nunca ter feito um curso decente, eu nao sabia falar francês. 

E dai, mesmo estando tao longe, eu tinha uns pesadelos estranhos com meu pai. E me pegava com o coraçao acelerado pelo pensamento de um dia ter de ve-lo novamente. Mas ao mesmo tempo, eu pensava em Fabio e meu coraçao se enchia da mais fina angustia, aquela coisa negra que ia me secando por dentro - alguns a conhecem como "saudade". Mas aih a angustia ia embora e dava lugar ao medo. Eu tinha medo de falar, de contactar as pessoas, de sair, de voltar, de ficar e de ser. E, como se nao bastasse, vinha sempre, uma vez ou outra, aquela sensaçao de nao pertencer a lugar nenhum, e alguns pensamentos sempre introspectivos e pseudo filosoficos sobre a necessidade de se pertencer a algum lugar. Eu pertencia a Camilo. E ele dizia que eu era a casa dele. E parecia um bom acordo, porque a gente parecia feliz. E eu amei tanto esse homem! Eu nem lembro mais como era, mas sei que amei porque eu preferi me abandonar à abandona-lo.

Acho que meu amor se confundiu com dependência. Eu nao conseguia fazer nada sozinha. No começo, mesmo quando eu conseguia me exprimir razoavelmente em francês, eu pedia pra que ele fosse comigo ao médico. Eu fazia uma drama pra ele ir comigo resolver algo na Prefeitura. Eu entrava em pânico e fazia birra de criança pra que ele fizesse algum telefonema de meu interesse. Uma vez, a gente pegou uma briga fenomenal nos metros parisienses, porque eu queria que ele me acompanhasse a um lugar que ele nao queria ir - tudo isso porque eu achava que eu era incapaz de voltar pra casa sozinha. Ele corrigia meus trabalhos da faculdade. Eu nunca viajava sem ele. Nunca saia sem ele! Cinema. Camilo. Teatro. Camilo. Show. Camilo. Bar. Camilo. Sim, eu tenho muita vergonha de dizer isso. Eu realmente fui muito fraca. Eu achava que tentava mudar isso, eu queria que as pessoas falassem comigo, mas quando elas falavam, eu rezava pra que elas se calassem. Eu soh queria que elas soubessem que eu era mais interessante do que aquilo, mas eu nao queria fazer esforço pra isso, porque "esforço" subtendia "falar" e, isso, eu nao era capaz de fazer.

E, apesar de toda essa dependência, eu acordei e finalmente percebi que eu tava tao vazia, tao pobre, que eu nao o amava mais, que eu estava com ele, nao mais por amor, mas por medo e, nesse dia, eu realmente me senti (ainda mais) sozinha. Tentei colocar a culpa na minha extrema e fatal instabilidade. Culpei meu signo. Culpei a lua. Culpei Lula - porque todo mundo culpa o Lula. Culpei a França, o Brasil. E lembrava de Artur da Tavola (desculpa atencipada, pois citaçoes soam sempre quase esnobes) quando ele dizia que "(música é vida interior, e) quem tem vida interior jamais padecerá de solidão". Eu achava que tinha e, portanto...

Quando acabamos, eu entrei em depressao. Alias, aquilo deveria ter outro nome, porque depressao eu ja tinha sentido, mas "aquilo" era mais intenso e "aquilo" me transformou. Eu achava insuportavel viver, mas vivia porque eu sabia que fazer alguma besteira iria provocar uma tristeza semelhante na minha mae e esse pensamento me apavorava (desculpa o drama, mas foi assim que aconteceu e, apesar de eu nao entender mais aquela tristeza, eu sei que ela existiu e que foi dessa forma que ela fez parte de mim). Até que um médico me disse que aquilo tudo era, em parte, decorrência de um tumor. Fui pro Brasil desejando estar com meus pais. Sim, pai e mae. Fiz a cirurgia e, quando voltei, meus amiguinhos...

Quando eu voltei, decidi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer. Me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você. Parei de me trancar no quarto. Decidi que meu francês nao é bom para um francês, mas que é bom para uma estrangeira. Perdi quase todo o peso ganho durante a doença. Entrei no mestrado, mesmo sabendo que nao haveria ninguém pra corrigir meus trabalhos. Fui descobrindo simplesmente o que era ser eu de verdade - quando comecei minha vida sexual/amorosa, engatei nove anos no stop de namoro e era a primeira vez em que eu estava vivendo sem um cara pra me dizer o que fazer (sou feminista, mas...). Fiquei meio perdida no começo porque sou o tipico clichê de menina que nao teve a figura do pai presente e que demanda muita atençao dos namorados. Agora, gasto meu dinheiro da forma que quero - agora nao gasto mais porque, se somos livres, "nohs gatos ja nascemos pobres", nao esqueçamos. 

Aprendi a viajar sozinha - na primeira vez que viajei sem Camilo, foi pra fazer um trajeto de pouco mais de uma hora. Compro uma quiche, entro no trem, me deparo com uma cadeira vazia ao meu lado. Aguento firme, mas ao ver que nao tinha ninguém pra dividir a porra da quiche, começo a chorar. E fico assim, comendo a quiche e chorando, tendo pena de mim. Deprimente. Hoje, eu prefiro viajar sozinha, isso me da a oportunidade de passar o tempo olhando pela janela, de observar as vaquinhas no pasto ou, em dias feios, de ver macro espermatozoides de chuva se formarem na janela do trem. Aprendi a planejar coisas sozinha. Viajo e, quando volto pra Lyon, vem quase sempre uma lagriminha emocionada me socorrer quando me dou conta de que aqui é minha casa. 

Eu cortei meus cabelos! Dei um pulo dificil para fora dos padroes e agora nao sou mais a menina de cabelos longos e lisos. Sou uma mocinha de cabelos curtos e cacheados (e crespos!). Decidi usa-los como eles sao e, porra, vocês nao imaginam a liberdade que é poder ser você mesma. Fiz o primeiro Amigo francês. E o segundo e o terceiro. E agora, quando eu chego em casa, as pessoas sorriem ao me ver. Quando estou estudando no quarto, elas batem na minha porta e me mandam descer. E eu ainda nao me acostumei com isso. Porque essas eram as pessoas que eu admirava em silêncio ha uns anos e, agora, elas me dizem "eu te amo". Eu amo meus colocs. Eu aprendo com eles. Sao dez ao todo. A gente fala tudo sobre tudo e sobretudo sobre nada. E acho que, finalmente, o que me salvou foram as pessoas. Eu ja tinha falado aqui, num post antigo, que o importante nao é o lugar, mas quem te rodeia. Pra mim, vida interior, Artur, sao pessoas. Eu preciso disso. Eu preciso falar, preciso ser ouvida, mas também tenho necessidade de ouvir, de conhecer o outro. 

Nesses meses em que passei longe do blog, recebi alguns emails de leitores desconhecidos que dizam "olha, desculpa, você nao me conhece, mas eu leio seu blog e sinto como se te conhecesse", e dai, elas me perguntavam se eu ia bem e contavam um pouco a historia de vida delas. Gente, eu amo! Eu acho isso genial! Gosto de gente dada (ui), aberta (ui), que nao faz pose, que nao faz tipo. No começo de 2008, um amigo me escreveu um email depois de ler um post antigo meu num blog antigo.

(...) Desculpe o texto pseudo-sério, mas seu post realmente mexeu comigo, de alguma forma... acho que fiquei meio emocionado, de alegria e tristeza por me sentir em sua pele. Ainda assim, quero que você guarde pra sempre a forma como te admiro; bem como a forma verdadeira como você ama esse negócio de viver - que faz parecer que você não tem medo de nada, parece que nada é realmente tão grande que não possa ser alcançado.

Pois é, eu tive medo de muita coisa, mas parece que continuei conquistando-as  - pelo menos era isso que Camilo me fazia tentar enxergar. Acho que aqui, na França, eu tive a oportunidade de crescer. Sim, poderia ter sido em qualquer outro pais, mas nao foi. Foi longe de casa, longe do meu perimetro de segurança. Me fudi muito sozinha, mas percebi que tudo isso fui eu quem provocou. E, apesar de achar que fosse enlouquecer em certos momentos por nao ter ideia do que fazer com minha vida, olho pra tras e sorrio com toda a ironia que me acompanhou. A vida é irônica. E soh. Sinto como se tivessem me dado uma injeçao de vida. Decidi parar de me vitimizar, de achar que eu sou fraca. Ninguém sabe que você é fraco até que você o diga - gente, baixou o satanas da auto-ajuda? E, finalmente, acho que estou onde eu queria estar. A França me emociona ♥. Aqui é casa e vai ser casa pelos proximos nove anos - a nao ser que eu queira partir de novo, porque eu tenho a escolha. Mas tenho amado esse pais. Adorei fazer o post anterior, adorei perceber que eu faço parte disso. Nao foi pela beleza do pais que eu vim, mas foi pela beleza que eu fiquei. E, sim, pelo povo. Nao escutem os clichês que rolam por aih sobre os franceses. Os franceses sao sim um povo amavel. E quem diz o contrario, nao conhece os franceses. 

Sei que a vida vai continuar nao sendo facil. Mas eu tou bem acompanhada. Eu tenho eu. :)



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Quanto vale teu vale?

Ontem foi um dia, como eu diria?, especial. Tinha tudo para ser um dia feliz ja que, além de ser aniversario de Camilo, eu iria ver amigos que estavam em Lyon. Mas os efeitos da macumba lançada por algum ser das profundezas terrestres ja começaram a se manisfestar logo pela manha: chegando na casa dos guris para trabalhar, Chefia anuncia que os guris pegaram piolho. Repentinamente, minha cabeça começa a coçar. Ele diz que lavou quase todas as roupas dos guris, os lençois das camas, as capas dos sofas e que eu deveria passar ferro em tudo "rapidamente" para garantir que os possiveis piolhos ninjas que possam ter sobrevivido à lavagem na maquina morram. 

Quando abri o quarto onde as roupas estavam estendidas, tive palpitaçoes e uma leve tontura. Minha gente, pela quantidade de roupas, ele deve ter lavado até as cuecas do vizinho. Nao tinha um soh objeto dentro do quarto que nao tivesse uma toalha, uma calça ou um lençol pendurados. Até os bichos de pelucia foram lavados e deveriam ser passados. Passei roupa nessa tarde até o braço perder o movimento, depois continuei a sessao usando o pé direito. E ainda falta.

Nessa ultima semana, ao sair pra bares com alguns amigos, eu, safadamente, tomei uma cerveja. Duas. Eu tomei algumas cervejas. Abri uma exceçao no regime, tudo em nome da sociabilidade. E, por ser aniversario de Camilo, eu iria novamente fazer o sacrificio incomensuravel de beber algumas cervejas junto a ele e aos amiguinhos citados. Mas pelo cansaço, pela preguiça e pelo peso na consciência por estar sabotando meu regime, desmarquei de ultima hora a saida ao bar. Sorry, folks. 

Ma que porra é essa, Deus? Daqui essa porra.
Mas qual é o décimo primeiro mandamento divino? Aquele que estah registrado la no finalzinho da tabuleta de Moisés? Nao fuleiraras com teus amigos. Resultado: fui castigada. Saih do trabalho e fui encontrar Camilo (que estava perto do bar) para voltarmos para casa juntos. Quando passei meu cartao de transporte, e assim que entrei na estaçao, senti algo na minha mochila. "Meu Deus, minha mochila mexeu. Estas viva, mochila?", questionei. Instintivamente, apalpei a mochila e vi que ela estava aberta. Tive palpitaçoes e uma leve tontura. Olha, eu vou largar essa vida de babah e me registrar na associaçao dos super herois anônimos porque, minha gente, eu pressinto o perigo. 

Abre parênteses.

Quando estive no Brasil da ultima vez, deixei meu passaporte em segurança na casa de um amigo. Nao quis levar para casa dos meus pais, pois o caminho entre o ponto de ônibus e a casa deles era (é.) meio tenso. Somente no dia de voltar para França, eu coloquei o passaporte na bolsa e fui para casa dos meus pais pegar minha mala. E o que foi que aconteceu, amiguinhos? Um xovem rapaz passa por mim numa bicicleta tao tranquilo quanto um passarinho que banha suas plumas na fonte da praça. Ele passou em sentido contrario ao meu e nem mesmo me olhou. Foda foi quando o passarinho se transformou em gaviao, fez meia-volta e tentou raptar minha bolsa. Por que ele nao conseguiu? Porque eu sou cobra criada (ok, parei com a metaforas de merda hihi) e segurei com todas as minhas forças a bolsa que ele tentou puxar. Mas essa é uma outra historia.

Fecha parênteses.

Quando vi que minha bolsa estava aberta, procurei minha carteira e nao encontrei. Olhei em volta, identifiquei o possivel autor do furto e, rapidamente, dei um salto e me pus diante do meliante. Puxei minha espada da bainha, ele fez o mesmo e entao travamos um duelo sangrento. Camilo chorava copiosamente no lenço de seda branco que eu havia ofertado a ele quando do nosso matrimônio. Mas no final, o bem triunfou sobre o mal! A proposito, eu sou o bem, caso vocês tenham ficado na duvida. 

Mas ha uma outra versao sobre essa historia. Quando vi que minha bolsa estava aberta, procurei minha carteira e nao encontrei. Olhei em volta, identifiquei o possivel autor do furto e... E pensei "legal, nao tenho tempo de verificar se a carteira pode estar escondida entre os outros objetos da bolsa, mas também nao posso deixar passar a oportunidade de abordar aquele homem que tem a maior cara de quem ta com minha carteira". Era um cara que parecia vir da Europa do leste. Beijos pro meu preconceito, porque quando abordei o cara, ele tinha minha carteira e a devolveu sem dizer nada. Eu agradeci e disse que "isso era importante pra mim". Happy End. Ou nao.

Este blog acaba de ganhar uma nova tag: vive la souffrancePorque continua.

Chegando em casa, Camilo abre uma garrafa de champanhe, gentil presente dos pais dos guris. Soh que minha criança aniversariante, ao tentar ver a resistência da taça, "eu sempre faço isso...", quebrou o copo e cortou um dedo. Achei que seria mais seguro para todos nohs se aquele dia acabasse logo, entao, fui dormir. 

Como presente, comprei para Camilo ingressos para uma apresentaçao do Cirque du Soleil. Na verdade, o presente foi para mim, porque, posso ser brega?, obrigada, sempre tive esse "sonho" de ver o Cirque du Soleil. Sempre. Sempre que via algum video, eu deixava escorrer uma lagriminha de emoçao. Hihi Entao, pensei, por que comprá-lo, por que não comprá-lo? Comprei-o! Aceite, é de coração, sem o menor interesse... 

Querendo dar outro presente, mas sem ter dinheiro, decidi ofertar algo que eu pudesse fazer de graça. Ui! Resultado: 

Gente, ele nem deu bola pros ingressos, mas adorou o vale. Ofereci dois, na verdade, o outro é um vale massagem, valido para o mesmo periodo. Se algum dia vocês quiserem me oferecer algum desses, eu gostaria de receber o vale dinheiro. 




segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Dieta do Cao

Como enriquecer em cima da gordura alheia? Eu explico...

Andei sumida, eu sei. Mas é que ha uma coisa que me tem absorvido completamente, a qual eu tenho dedicado bastante tempo: meu lindo processo de emagrecimento. Gente, descobri o caminho da luz. Eu acho.

Eu estava fazendo uso da minha esteira todo santo dia. Da dieta, cortei todas as porcarias que agradam o paladar e desenvolvem as banhas. O problema é que eu sou ansiosa demais pra ficar esperando longos meses até que o ponteiro da balança resolva se mexer pra esquerda.
Foi quando lembrei de uma reportagem indicada por alguém através dos tuites e facebooks da vida sobre "a gastronomia francesa" ou "o modo de comer dos franceses" (ou qualquer baboseira desse tipo). A reportagem apresentava, em certo momento, o regime da moda na França: a Dieta Dukan. Um milhao e meio de francesas desesperadas fizeram essa dieta. Gisele Bundchen, a fuinha Penelope Cruz, Jennifer Lopez e Kate Middleton também passaram pela provaçao. Nao que elas precisassem, é claro. 




Mas Luci, por que essa dieta faz tanto xuxexo? Nao sei, amiguinhos, porque eu ainda estou no começo do processo, mas deve ser porque ela combina uma rapida perda de peso à promessa de que os quilos perdidos ficarao no limbo para sempre. Para sempre... Sempre... sempr... emp... Entao, estou aqui para dar meu testemunho e anunciar que em dez dias de dieta, ja perdi quase três quilos! Perdi e nao quero encontrar.

Da balança:

Eu tinha uma balança analogica Ikea, daquelas que sao tao boas que dao o resultado da pesagem com uma margem de erro de três quilos pra mais e 20g pra menos. Nao satisfeita, comprei uma outra, toda afrescalhada: ela memoriza o peso de até quatro pessoas e o compara com o peso seguinte indicando exatamente quantos gramas o sujeito ganhou ou perdeu. Caso ele tenha perdido peso, a balança faz acender uma luz verde. Caso ele tenha ganho, uma luz vermelha satânica é acesa. No caso dele nao ganhar ou perder, uma luz laranja aparece. Admito que tenho me divertido com essa balança. A precisao dela me encanta: eu me peso quando acordo, quando vou dormir, antes de comer, depois de fazer cocô, pelada, vestida, de cabeça pra baixo... Mas o que me diverte mesmo é ver os numeros diminuirem.

Dica da Luci: é estimulante acompanhar a perda de peso, balofo amigo, mas vocês nao tem idéia do quanto seu peso pode variar depois de uma ida ao banheiro. Entao, se você é ansioso como eu, evite se pesar a cada três segundos: um eventual aumento de peso pode destruir seus sonhos. Pese-se uma vez por dia, sempre no mesmo horario.  

(Escrevi esse ultimo paragrafo ha alguns dias. Hoje de manha, fui me pesar e a balança indicou que eu havia engordado uns 8kg. Depois de ter desmaiado com o susto, me pesei varias vezes e, apos ter pesado 78,4 kg, 74,8 kg e 75,2 kg num espaço de tempo de cinco minutos, conclui que a balança estah quebrada. Jênio. Dica da Luci II: nao comprem essa balança). 

Do exercicio fisico:

Contrariando todas as expectativas, tenho usado minha esteira com uma frequência que surpreende a mim mesma! No dia em que nao a uso, compenso a falta de exercicio no dia seguinte prolongando o tempo de corrida. 

Dica da Luci: Dukan recomenda 20 min de exercicio diarios durante a dieta. Eu, no aconchego do meu lar, coloco uma série (televisiva) de 45 min enquanto corro, o que facilita absurdamente a tarefa de correr. Lost estah comigo e nada me faltarah. 

Da dieta: 

A dieta Dukan é mais uma baseada, sobretudo, no consumo de proteinas, com o diferencial de que, à medida em que a dieta avança, outros tipos de alimentos, que nao os proteicos, sao reintroduzidos na alimentaçao. Um dos elementos essenciais da dieta é o farelo de aveia. Eh um dos poucos alimentos que tem uma açao emagrecedora: ele é capaz de absorver 22 vezes seu volume de agua, entao, uma vez no estômago, ele provoca uma sensaçao de saciedade.

Ha muita informaçao sobre a dieta na internet, por isso, eu tive dificuldade em relevar certas informaçoes de carater duvidoso. Entao, como eu passei as ultimas duas semanas pesquisando sobre a dieta, vou fazer um condensado aqui sobre tudo o que li. Eh, sera um post chato para aqueles que nao estao interessados em emagrecer, sorry.

Do calvario: 

A dieta é estruturada em quatro fases: 


(Acho otimo o casal se abraçando no final da dieta. 
"Oh, meu amor, agora que você estah magra, podemos ter uma relaçao saudavel novamente"). 

1. Fase de Ataque (PP): "ataque" segundo o Dr. Dukan. Eu chamaria essa fase de Terrorista: nela so sao permitidos o consumo de alimentos à base de proteinas: carboidratos estao estritamente proibidos. Por que? Os carboidratos sao legais, mas a falta deles no corpo significa menos açucar convertido em energia. Precisando de outra fonte de energia, o corpo queima gordura, o que leva à perda de peso. Essa fase dura de um à dez dias, dependendo da quantidade de peso que o sujeito decide perder (e da motivaçao dele, é claro). Quanto maior sua duraçao, maior a perda de peso.  

O que é permitido comer nessa fase, sem limite de quantidade

- Vitela
- Ovos
- Tofu
- Carne de vaca
- Presunto e fiambre light
- Todos os peixes e mariscos
- Laticínios magros
- Carne de aves sem a pele (exceto pato e ganso)
- Chas, Coka light/zero, café, infusoes
- Vinagres, aromas, ervas, temperos
(Porco, ovelha e carneiro sao proibidos)

De forma limitada:

- Cacao sem gordura, mostarda, picles, alho e cebola

Ou seja, nada. Descobri que tofu tem gosto de agua. Sao permitidos "somente" dois ovos por dia e é altamente aconselhavel o consumo de, no minimo, dois litros de agua por dia de forma que seu intestino e rins nao sejam sobrecarregados pelas toxinas produzidas pelo alto consumo de proteina. Quantidade diaria permitida de farelo de aveia: 1,5 colher de sopa. 

2. Fase de Transiçao (PL - Proteina e Legumes): nessa fase, você vai introduzir legumes e verduras (menos os ricos em carboidratos como cereais, graos e tuberculos) alternando os dias do consumo desses produtos com dias de proteina pura da seguinte forma:

- 5/5 Cinco dias de PP e cinco dia de PL para os que tem muitos quilos a perder e/ou uma grande motivaçao;
- 1/1 Um dia de PP e outro de PL para aqueles que tem poucos quilos a perder ou/e pouca paciência;
- 2/7 Dois dias de PP e sete dias de PL pras pessoas de saude fragil, como os velhinhos;

Quanto maior forem os dias de PP, maior a facilidade da perda de peso. Bien sûr. Essa fase deve durar até que todos os quilos indesejados sejam eliminados. Quantidade diaria permitida de farelo de aveia: 2 colheres de sopa.


3. Fase de Consolidaçao: se você chegou vivo até aqui, você continuarah repetindo o cardapio da fase anterior (sem necessidade de alternância), mas poderah introduzir duas fatias de pao, uma misera fruta... repito, UMA MISERA FRUTA por dia (evitando banana, cereja e uvas) e tem direito, oh, seu abençoado!, a fazer duas refeiçoes livres por semana (que nao podem ser feitas em dias seguidos e que nao podem ser repetidas). Dukan chama essas refeiçoes de "refeiçao de gala". O que eu acho bastante irônico.

Quantidade diaria permitida de farelo de aveia: 2,5 colheres de sopa. Para saber o quanto essa fase deve durar, você deve calcular o numero de quilos perdidos na fase 2 por dez: se você perdeu quatro quilos, a fase dura quarenta dias; se você perdeu um quilo, a fase dura apenas dez dias. Eu tenho treze quilos a perder, entao, la pela menopausa, estarei magra.

Ou nao.

4. Fase de Estabilizaçao: é a fase onde você volta a comer sem restriçao, mas com uma diferença: você deve incorporar diariamente à sua alimentaçao até três colheres de sopa de farelo de aveia e fazer, em um dia da semana, o cardapio proteico da fase 1 durante toda a sua vida.

Mas aih vem os (outros) inconvenientes. Como a dieta é baseada num alto consumo de proteinas, ha uma elevada produçao de corpos cetônicos. Eu nao sei o que sao corpos cetônicos, mas pouco importa. O que importa é que esses corpos acabam contribuindo pra produçao de mal halito. Devido à falta de fibras, é comum ter-se prisao de ventre. Possibilidade também de problemas renais. Além disso, é comum que as pessoas que seguem dietas sem carboidratos terem alteraçoes de humor ficando impacientes, cansadas e irritadas. Magra, bafenta, entupida e chata. Puro glamour.

Luci
Analise pessoal: logo apos ler sobre o primeiro inconveniente, comecei a sentir um gosto de cabo de guarda-chuva e agora eu soh cago em dias alternados. Eh, eu sei que essa informaçao poderia ser evitada. Mas a verdade precisa ser dita, companheiro! Tou esperando ainda pelos problemas renais. Quanto ao humor, eu nao sei como eu poderia ficar mais impaciente, cansada e irritada do que eu ja sou, entao nao posso avaliar isso. Tou brincando, meu povo, eu sou um anjo de candura. Ok, contrariando as regras, eu me sinto bem. Algumas pessoas que moram comigo disseram que eu pareço até mais feliz, mas isso se deve ao fato de eu estar altamente empolgada com essa dieta. Alias, com a perda de peso, porque fazer dieta é um cu. Mas admito que Camilo passou perto da morte na manha em que a balança disse que eu estava com 78 kg.

Ah, nos dois primeiros dias me bateu uma leve leseira, tive nauseas e me senti fraca. Isso passou, mas agora é normal que eu tenha sono às 21h (e às 10h, e as 13h, e às 20h...). So penso em dormir. E, por favor, nao percam o tempo de vocês me alertando que essa dieta é perigosa, que pessoas que emagrecem rapidamente costumam reaver os quilos perdidos, que eu preciso de vitaminas e... zzzZZZZzzz. Por favor.
No entanto, pra mim, os maiores pontos negativos encontrados nessa dieta nao estao naqueles que listei. O que tem me incomodado é a vida social dentro da coloc: é chato cozinhar sozinha e todos os dias. Além disso, tem sido dificil sentar à mesa com o pessoal e vê-los comer uma travessa de batata e queijo quando no seu prato repousa um pedaço de peixe.

Mas o pior mesmo, meu povo, foi ter abandonado o alcool. Esse é o maior indicador do meu empenho. Teve uma festa aqui outro dia e eu soh faltei chorar quando vi as garrafas de cerveja que eu nao poderia tocar espalhadas pela sala. Foi o sentimento parecido quando fiz um tratamento depois de um acidente de bicicleta: minha cara se transfigurou, mas eu soh tive vontade de chorar quando a médica anunciou que eu ficaria alguns dias sem beber.

Outro probleminha é de ordem financeira. Carne é um troço caro na França e ela é a base dessa dieta idiota, entao, cada vez que eu vou no supermercado, fico mais perto da pobreza. Sem contar que todos os produtos tem que ser desnatados, sem gorduras, magros e toda essa especificidade custa caro. Mas mesmo que seja paradoxal, depois de eu ter dito que era chato cozinhar, eu tenho passado horas e horas em busca de receitas. Até comprei uns livrinho do proprio Dukan. Hihihihi Vou traduzir algumas receitas e postar aqui as que achei mais interessantes.

That's all, folks! 




sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Jogos mortais

Sinta o perigo

Camilo tem um casal de amigos que parte segunda-feira para fazer uma viagem de bicicleta de seis meses na Asia. Inveja define. Eu tenho deixado de ir às festas e encontros dos amigos de faculdade de Camilo, porque sempre me sinto um peixe fora d'agua: eles estao sempre tratando de assuntos pessoais/internos dos quais eu nao tenho a menor possibilidade de participar. Mas ontem, meus amiguinhos, eu estava com uma particular vontade de beber e, como estou de férias essa semana, fui à festa de despedida que eles deram ontem numa praça aqui de Lyon. 

Bebo ha mais de uma década (sou xovem) e ainda nao aprendi que barriga vazia e alcool nao sao amigos. Ha mais de oito horas sem comer, comecei a noite com uma inocente lata de cerveja, mas quando vi que na praça nao havia banheiro publico, resolvi me poupar das mijadas nas calças calçadas e passei logo pro vinho. O primeiro copo me deixou feliz. O segundo copo me deixou radiante. O terceiro copo me deixou bêbada. 

Algumas praças de Lyon nao tem nada além de terra, o que faz a alegria dos jogadores de pétanque (em português, o feio "petanca"). Esse é um esporte muito popular na França e é ela que leva quase todos os prêmios nos jogos mundiais. Nos campings franceses sempre tem uma quadra (?) de pétanque e três entre três velhinhos franceses a jogam. Mas nao somente os idosos: na praça de ontem, por exemplo, havia pelo menos quatro grupos de jovens jogando pétanque. Eu estava em um deles. 

Pra resumir o funcionamento do jogo: cada jogador tem bolas metalicas que devem ser arremessadas, diante de uma linha demarcada no chao, em uma bolinha de madeira que se encontra disposta no campo. Os pontos sao dados aos jogadores de acordo com a proximidade de suas bolas junto à bolinha. Sei que o jogo pode parecer entediante, mas... ele é. 

Como eu nao tinha muito pra fazer, fui com um copo de vinho numa mao e uma bola na outra jogar uma partida com Camilo e dois amigos. A unica vez que joguei pétanque ja data de dois anos e, como eu queria impressionar, eu me concentrava bastante antes de jogar as bolas. Algumas caiam bem longe da bolinha, mas numa jogada, eu cheguei até mesmo a conseguir afastar da bolinha uma das bolas do adversario. Viva eu! 

Quando comecei a arremessar as bolas a cinco quilômetros da praça, comecei a desconfiar de que eu havia bebido demais. A certeza veio logo em seguida. Peguei uma bola, arremessei e simplesmente... fui junto com ela. Nao sei o que houve, mas quando percebi, la estava eu no ar. Se eu tivesse aberto os braços, eu teria planado pela praça. Comentario de Camilo essa manha: "Luci, tu deve ser a unica pessoa na Terra que teve a façanha de cair num jogo onde a gente joga parado". "Eh como cair jogando xadrez".

Minha gente, é muita humilhaçao. 

Vestimenta altamente recomendavel
para o jogo de pétanque
Pois quem nunca caiu parado que atire a primeira bola de pétanque pra ver. Eh um jogo perigoso! Vocês sabiam que as bolas tem mais de meio quilo? Pois é, pois é, pois é. No que isso influencia minha queda? Nada. Mas imaginem uma pessoa bêbada arremessando bolas de meio quilo. Eh um jogo perigoso! Eu tava com um vestido cinza escuro que a terra branca fez mudar de cor. O sangue escorreu do joelho. Otimo é quando as pessoas perguntam se você esta bem. Claro que é por educaçao e agradeço muito, obrigada, mas a vontade de responder é "fora o mico, o sangue, a dor e o vestido? Tou otima". 

Mesmo depois da palhaçada, quando o alcool acabou, pedi a Camilo pra irmos ao bar da frente. Ele nao quis, mas uma singela ameaça de morte o fez mudar de ideia. Esse é meu jeitinho. A partir daih, eu tenho alguns flashes da noite. Camilo sempre me ajudando a reconstitui-la. Fomos pra um outro bar, um cara ficou dando em cima de Camilo. Eu disse ao cara que eu nao era ciumenta e ele disse que eu deveria ser. Er... Ok. Depois "tu enchesse o saco pra que a gente fosse comer". Coitada de mim, eram duas da manha. 

A volta pra casa foi aquela maravilha. Voltamos de Velov. Mas nao tinha possibilidade de eu cair, minha gente, porque havia duas pistas. As vezes até três, imaginem vocês. Chegamos em casa sao e salvos e, se vocês querem saber, fora o mico, o sangue, a dor e o vestido, eu tou otima.




domingo, 21 de agosto de 2011

Especial férias (Amandao e Chèri) - parte IV

Depois da viagem de bike, voltamos pra Lyon pra receber Mme. Amanda e M. Chèri. Foi tao lecau! Eu tava precisando conversar com alguém - alguém que nao fosse Camilo (nada contra seu papo, gato, foi ele que me ganhou, mas...). Eu acho que sou vista entre o pessoal que mora comigo como a muda da casa. Nao falo muito: prefiro ficar calada à me dar ao trabalho de participar de um dialogo onde eu vou falar o que sei falar, nao o que eu quero falar. Muito frustrante. E o primeiro passo para evitar uma frustraçao, meu amigos, é nao dar nenhum passo - é, eu sei, é brilhante como atitude, desconfio que deva ser por isso que o meu francês nao progride tanto quanto deveria. Mas como eu ia dizendo, foi muito bom ter os dois aqui. 

Tinha esquecido como era conversar com alguém à vontade, gargalhar, fofocar, fazer confidências, falar merda, fazer piada. Acho que ela ja descreveu muito bem aqui o que eu queria dizer sobre afinidade, palavra bonita essa. Camilo comentou depois "é incrivel como duas pessoas de temperamentos tao diferentes podem ter o carater tao parecido". Pois é, isso explica muita coisa. E quanta tagarelice!

Pessoas, a gente falou tanto que teve uma hora em que eu acabei perguntando quantos dentes ela tinha, e ela, assim, bem naturalmente, começou a contar os dentes com a lingua. Inclusive, a quem possa interessar, ela tem 47 dentes, ao todo. Eh meio bizarro quando ela sorri, mas ela é minha amiga e eu aceito ela assim. No dia em que eles foram embora, a gente começou a matracar às 10h da manha e foi parar às 3h da madrugada, non stop - e somente porque ela tinha que acordar às 6h, senao a gente estaria contando os dentes dela até agora.

Infelizmente (?), quase nenhuma das pessoas que mora com a gente estava em casa. Mas Amanda pareceu bem contente em conhecer Josette, Lucette e Bernadette: nossos urubus nossas galinhas. A gente pensou em fazer um churrasco. Bernadette, a mais inteligente e desconfiada das dettes, ao saber da nossa intençao, foi se esconder entre as plantas do jardim. Ela é mesmo a rainha da camuflagem. 

Alguém ta me vendo?


Felizmente, Amanda é mais inteligente que a galinha* e acabou encontrando seu esconderijo secretissimo. E a dette foi parar na grelha**.

O tempo, claro, passou voando e cada casal partiu de Lyon pra dar continuaçao às suas férias. E todos viveram felizes para sempre. The end.

* Amanda soh se fode nesse blog.
** Brincadeirinha, gente, aquilo era pimentao. Eu seria incapaz de matar um animal. Eu soh os como.


Talvez

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