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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Cara de 30, corpinho de 87

Check!

Quem me conhece sabe que minha saude é algo mais instavel que a lealdade do Temer. Tenho longos relatos nesse blog sobre minhas passagens por hospitais lioneses. Reconheço cada um pelo cheirinho do banheiro. Fiz uma cesareana pra retirada de um tumor em 2012. Em 2013, fui operada do coraçao. Recentemente, descobri que meus joelhos tem uma pequena ma-formaçao, o que faz com que as rotulas escolham qual caminho seguir quando dobro os joelhos. Por isso, semanalmente, faço uma sessao de fisioterapia. Em sete anos de Lyon, dei entrada no Hôpital Femme Mère Enfant (ala endocronologica e ala cardiaca), no Edouard Herriot, no Hospital Militar e, recentemente, no Saint Joseph Saint Luc. Esse recentemente guarda a historia de hoje. 

Ha duas semanas, eu estava de bouas no meu quarto tentando me lembrar no Netflix do ultimo episodio de HIMYM assistido. Faz uns dois anos que eu tento terminar essa série. Eu tou na segunda temporada. Tem muita coisa na vida pra se ver, minha gente. E o Netflix nao veio ao mundo pra trazer paz de espirito à gente indecisa e sem foco. Eu sou de gêmeos. Gê-me-os. A gente sai de casa pra comprar pao e volta inscrita na faculdade de musica. Com um sorvete na mao. Mas a questao é que eu comecei a sentir uma dor no peito. Assim, tao de repente. E a dor foi aumentando, aquele aperto no coraçao. Nao era uma dor de pressentimento porque lembrei que meus filhos nao estavam viajando de carro e que meu marido nao estava na guerra. Lembrei ainda que eu nao tenho filhos. "Meu deus, por que essa dor? Seria amor?" 

Nao era.

Entao, me apoiei na mesa e comecei a chamar pelo nome da minha esposa Gertrudes, porque essa se parecia, em muito, com uma dor que somente uma pessoa com uma esposa de nome Gertrudes tem. Mas ninguém respondeu ao meu chamado. Ainda bem, diga-se de passagem. 

A dor foi tao abrupta, que pensei que poderiam estar fazendo vudu comigo. Mas, como sabiamente disse o Pica-Pau, "vudu é pra jacu". Qualquer que fosse a origem, o importante é que, quando eu me debruçava, doia. Quando eu respirava, doia. Foi aih que descobri que meu recorde em apneia, num momento de desespero, é de quinze segundos. Imaginando que praticar apneia nao iria necessariamente ajudar, tomei um paracetamol. Acho que se eu tivesse comido um amendoim, eu teria tido o mesmo alivio. Foi entao que decidi fazer minha visita anual ao hospital. 

Minha coloc foi comigo. Enquanto eu era atendida por um enfermeiro, ela fazia minha ficha na recepçao. Perguntaram a ela o que eu fazia na França, porque eu me mudei, se eu estava legal no paihs. Vocês sabem, essas informaçoes super uteis pra quem esta dando entrada num hospital. Eles alegaram que as perguntas eram necessarias para saber se ela me conhecia bem. Sério? "Nao, querida, ela me achou na rua, me deu um golpe de clava e me arrastou pro hospital".

E aih começou aquele procedimento de praxe: questoes sobre o historico de saude familiar. Meus pais tem problemas cardiacos? Na familia temos problemas de pressao alta? Eu sei que o intuito é de guiar um pouco os medicos, mas eu tenho trauma de diagnosticos equivocados. Como por exemplo, da medica que me receitou vitaminas quando eu disse que estava perdendo os cabelos devido ao tumor. Entao, pra que eles nao se baseiem em uma pista falsa, respondo 

- Adotados. Todos. 
- Seus pais sao adotados?
- Todo mundo. Meu pais e os pais dos meus pais antes deles. E os pais dos pais dos meus pais antes deles também. Ninguém sabe de historico familiar, é uma coisa louco, doutor. Qualquer um pode ter uma doença hereditaria. Ou nao. Acho que até eu sou adotada. E quem sabe eu sou sua filha. Pai, me cura.

Assim, ele teve que fazer radiografias dos meus pulmoes de baixa capacidade apineica e um exame de sangue completo. Enquanto isso, eu tava tao branca que estava desaparecendo aos poucos na maca. Quando a enfermeira voltou, soh tinha a pulseirinha com meu nome em cima do lençol. Mas ela me encontrou e começou com outra sessão de perguntas:

- De zero a dez, qual a intensidade da sua dor?
- Sei la, oito. 
- Oito?! Mas entao é uma dor quase insuportavel!
- Ah nao, pera, moça! Seis entao.
- Seis?! Mas entao nao é tao forte assim.
- Nao, ah meu deus! Seis e meio? Seis ponto oito? Sete?

Eu morrendo aos poucos e a mulher querendo que eu desse conta de dar nota pra dor.  

- Olha, eu nao sei. Quando eu nao respiro, a dor é seis. Mas quando eu respiro é oito e, quando eu respiro profundamente, é nove. Entao, como eu nao posso parar de respirar...
- Claro, né!
- Mingula! Claro o que? Fale direito que eu tenho o coraçao que poderia ser o da sua avoh!

Eu passei a noite dando nota pra essa dor. So que eu estagnei no sete. A dor ja estava mais suportavel e eu podia até bocejar, vejam soh que sorte a minha, mas eu tive medo que eles me mandassem pra casa ainda com dor, entao fiquei la por mais algum tempo, até eles descobrirem o que eu tinha. 


um figo com pericardite
La pras 3h da manha, o médico do hospital trouxe o veredicto: pericardite. Isto nada mais é que uma inflamaçao na membrana que envolve o coraçao. Três meses de tratamento, um mês longe do trabalho e repouso absoluto sob risco da coisa voltar. 

Uma semana depois, fui consultar um cardiologista pra fazer um electrocardiograma. 

- Por que você estah aqui?
- Eu tive uma pericardite.
- Sua familia tem historico de problemas cardiacos?
- A sua tem?
- A minha? Tem.
- Papai?


::

E pra quem é de feici:

.caso.me.esqueçam.

domingo, 15 de setembro de 2013

Pequenas crônicas de um coraçao partido - parte II


Ah, se tivesse sido tao romântico assim...


Depois de um post mela-cueca, alias, mela-calcinha (alguém me explica porque 95% das pessoas que leem meu blog é formada por mulheres? Nada contra as mulheres, eu até sou uma, mas...), vou mostrar a dura realidade de uma cirurgia no coraçao. Atençao! Os relatos a seguir serao fortes. Pessoas com problemas no coraçao (sobretudo vocês, hahaha), crianças e amigos sensiveis, evitem a leitura das linhas que se seguem. 

(Pros que acabaram de desembarcar no blog...) Ano passado, descobriu-se que eu tinha um tumor de 3 cm na supra-renal direita. Foi descoberto assim, por acaso, apesar dos efeitos provocados serem ja bem evidentes. Enquanto os médicos faziam os exames necessarios para a operaçao de retirada do tumor, descobriu-se ainda que eu tinha uma abertura de 3 cm no lado direito do coraçao. Percebe-se que meu corpo tem alguma implicância com "3" e lado direito. Mas poderia ser pior. Eu poderia ter três maos direitas. Ou um pênis de três centimetros na coxa direita. Ou três olhos direitos. Ou, pior ainda, eu poderia ser de direita até a terceira idade.

O tumor foi pro lixo numa operaçao bem sucedida e, 417 dias depois, chegara a vez do coraçao. O meu problema, nao era assim tao grave. Um pequeno sopro. Pra quem ignora o que seja, uma foto pra ilustrar o problema.


Uma pequena abertura que provocava um desvio no curso normal do sangue que, por sua vez, provoca um monte de coisa ruim que eu nunca procurei saber o que era porque o importante eu ja sabia: eu nao tinha escolha. A cirurgia foi marcada para o dia, adivinhem, 03, mas eu tinha que entrar no hospital no dia anterior. Como a vida costuma conspirar quando você ja ta toda lascada, minha orientadora deu como prazo o dia 02 para a entrega do trabalho de conclusao da primeira parte do mestrado: eu tinha 15 dias para redigir 40 paginas em francês. Na verdade, eu tive alguns meses para fazer isso, mas soh tomei tino duas semanas antes, de modo que, horas antes de entrar no hospital, eu ainda estava preparando a conclusao. Porque a vida precisa de emoçao.

No hospital, dividi o quarto com uma senhorinha de 83 que tinha acabado de fazer uma cirurgia no coraçao. Ela perguntou: 

- Você vai fazer uma cirurgia de quê?
- Do coraçao.
- Sim. Claro. Mas de quê?

Aih eu lembrei envergonhada de que a gente tava no... Hopital Cardiologique. Apos corar levemente, tentei disfarçar, expliquei meu problema sem muito entusiasmo e ela se danou a falar da sopa que tava tomando. "Porque quando a gente vive uma guerra e passa fome, qualquer refeiçao é deliciosa". Eu tava de costas pra ela e, quando ouvi aquilo, meu olhos brilharam, minha cabeça fez uma volta de 180° e eu perguntei "gue-guerra? Que guerra?". A Segunda, meu povo. 

E daih ela começou a contar como foi, dos amigos que perdeu, do tanque de guerra estacionado na calçada dela que bombardeava o bairro e eu la, achando tudo lindo. Foi dificil imaginar o sofrimento vivido e os barulhos até ela começar a peidar. Sim, peidar. O primeiro peido durou tempo suficiente para que lagartas se transformassem em borboletas. Ela tava sentada num tipo de troninho instalado numa poltrona e sua missao do dia era fazer cocô. OU SEJA, eu estava confinada num quarto com uma mulher desconhecida que deveria cagar. E, à isso, eu preciso adicionar o fato de que... ela tentou. Ela peidou o mundo naquele quarto de hora. O cheiro subiu e eu, pobre coitada, com os olhos marejados de nausea, continuei impassivel para nao constrange-la.

- Um casal de amigos, que tinha pouco mais de 18 anos, foi levado pra um campo de concentraçao.
- Eles eram judeus?
- Eram nada. Mas foram levados assim VRRRRAAAAA mesmo. Eles estavam conversando na calçada.
- Eles foram levados pra onde?
- Primeiro, VRRRRAAA pra Alemanha, mas depois, VRA VRAAAA, eu perdi o paradeiro deles.

Gente. Eu me perguntava o que ainda restava dentro dessa mulher para que ela ainda continuasse cagando, mas quando a enfermeira entrou no quarto e perguntou se ela ja tinha terminado, ela disse que nao tinha conseguido fazer nada! Quis dizer que ela estava errada e que ela tinha conseguido me fazer perder o apetite, mas me limitei a comemorar internamente o fato de que a porta estava aberta.

No dia seguinte, às 13h, o maqueiro veio me buscar pra me levar pro bloco cirurgico. O cara era tao bonito quanto Brad Pitt e tao gay quanto Elton John. Sem problema, eu nao estava em condiçoes de exibir meu chalme naquele momento: depois dos remedios que me deram pra que eu chapasse relaxasse e aquela camisolinha de hospital, eu nao ia conseguir chamar a atençao dele nem se eu fosse o mais divino dos gays. A velha também elogiou a beleza do homem.

Cheguei na sala de cirurgia meio drogada e ja nessa hora, eu nao lembro de quase nada. E eh a partir desse momento que o drama se acentua. Abro os olhos, apos ter passado um longo momento passeando no limbo, e começo a sentir todos os invasores do meu corpo: um tubo na goela, outro entre as pernas, no nariz e, os mais incômodos, no peito. O médico, ao ver meus olhinhos abertos, vem e retira o tubo da garganta. Fez cocegas, mas nao as do tipo que te fazem rir. Meus olhos se encheram de lagrimas (reaçao normal apos compressao de algum nervinho local) e eu fiquei la, estatica. Vi as horas passarem com rapidez. Nao porque eu estava distraida, mas porque eu voltava a dormir por longos periodos.

No dia seguinte, fui levada a um quarto com duas camas. Ocupei a primeira e dormi. Meus amigos foram chegando, dei um oi drogado e dormi. Recebi presentinhos e dormi. A gente conversou e eu dormi. Eu tava bem louca. Eu nao queria falar, nem abrir os olhos. Na verdade, eu nao queria nem respirar, mas meus pulmoes eram teimosos. Mas o melhor momento foi sem duvida aquele em que ha a troca da roupa de cama. A troca se faz com o paciente na cama. Realizem. Eles levantam meus pés ao mesmo tempo em que vao retirando o lençol, me suspendem os quadris enquanto uma outra figura vai projetando o lençol limpo no colchao, até que todo o meu corpo tenha sido levantado, por partes, e um novo lençol tenha tomado o lugar do sujo. Falar sobre essa experiência nao me perturbou e me tomou somente alguns segundos do meu tempo. Viver a experiência me fez querer chutar aquelas mulheres e sentir dores em lugares cuja existência eu ignorava.

Quando nao eram visitas de trocas de lençol, eu recebia no quarto as responsaveis por me dar banho. "Banho". Elas tinham que passar uma esponja com sabao e depois agua no corpo todo. Esse momento era até relaxante. O problema é quando elas queriam lavar as costas e dai eu tinha que sentar. Soh que, quando você tem que sentar tenho uma abertura de um palmo recem-fechada no peito, sentar significa sentir dor. Muita dor. Tentei explicar que no Brasil as pessoas nao lavam as costas, um costume ancestral, praticado pelo povo local antes mesmo da vinda dos portugueses, mas elas me ignoraram e, quando dei por mim, tava sentada, choramingando e sendo lavada.

Quando nao eram as visitas de troca de lençol ou as de banho... o pessoal da radiologia chegava pra bater foto dos meus pulmoes. E dai eu tinha que levantar as costas da cama pra posicionar a placa na altura dos pulmoes. Dor. Muita dor. Minha vida, Brasil.


Mas nada era comparado à dor provocada pelas duas mangueiras enfiadas na lateral do meu peito. Eu nao tinha ideia de como exatamente elas estavam instaladas e fazia menos ideia ainda de como elas seriam retiradas. Por causa delas, era dificil mexer o braço direito. Eu não poderia fazer uma saudação nazista nem se eu quisesse. Mas isso me fez perceber algo obvio e pavoroso: o corte da cirurgia foi realizado no peito direito. “Misericordia... O que foi que eles operaram ?” Ja estava me preparando psicologicamente com a ideia de portar somente um pulmão, mas eu realmente estava na ala de cardiologia. Tudo certo. Ou quase.

Novo quarto apos a cirurgia, nova companheira de quarto. Esta compartilhava duas coincidências em relaçao à anterior: foi criança durante as Cruzadas a Segunda Guerra e peidava com vigor. Anna e Paula estao de prova ! Mas ela tinha um plus... Ela roncava.

Leitores queridos. Eu ignorava que um ser humano, tao pequeno e, aparentemente, tao frágil, pudesse emitir um som tao potente. Não deveria haver um soh musculo naquela garganta que prestasse pra alguma coisa. Dormi duas noites com meus fones de ouvido – sem musica. Numa delas, dormi três horas. Privada de sono, passei pelo menos uma hora ouvindo a melodia do ronco dela antes de decidir me entregar à televisão (em silêncio, usando os fones de ouvido). No dia seguinte, madame acorda e pergunta com um fio de indignação: “você assistiu televisão tarde da noite, não foi?” Fiquei calada porque sou lesa não queria contraria-la, mas admito que ja tava cansada dos pitacos e reclamações da véia.

Mais cansada ainda eu tava do cheiro que emanava do meu couro cabeludo. O banho de esponja que as enfermeiras me davam não se estendia à cabeça e, como em Lyon estava fazendo 78 graus, na sombra, e a véia tinha decidido fechar as persianas pra evitar a entrada de sol e oxigênio no quarto, eu transpirava por cada poro e mangueira do meu corpo. “Não morri com a cirurgia, vou morrer de calor. Que lindo”. A partir do segundo dia, comecei a sentir um cheiro de macaco velho. Era eu. Minhas lindas madeixas encaracoladas, ao termo de três dias roçando no travesseiro, tinham virado um ninho de rato. Uma enfermeira se apiedou da minha situação e com grande bravura se apresentou para pentear meu cabelo. Eu ri. Expliquei que ela poderia ainda encontrar na minha cabeça as mãos das pessoas que tentaram tocar no meu cabelo. E eu continuei la, na cama, parecendo a doida dos gatos. 

Gostaria de ter mais registros desses momentos. Eu deveria estar realmente um primor. Cabelo em pane, entubada, suada, cansada e fedida. Beth disse que eu dormia no meio das conversas e acordava respondendo à perguntas feitas dez minutos antes. Mas eu não dormia. Eu piscava o olho lentamente. Os primeiros dias foram bem dificeis. Eu tinha uma bombinha de morfina que eu podia acionar quando eu sentisse dor, mas ela soh liberava morfina a cada dez minutos e, na boa, eu nao via diferença nenhuma entre antes e depois. Eu nao, mas a velhinha do meu lado sim. Ela disse que a ultima vez que deram morfina a ela, depois de uma cirurgia no fêmur, ela teve visoes e caiu da cama! "Tinham coisas andando no meu quarto! Eu vi. E nao quero tomar morfina dessa vez". Pensei "nem eu quero que a senhora tome". Credo.

 Com o passar dos dias, foram me desentubando. Assim, ganhei uma mobilidade importante e a permissao de tomar banho! Eu sentia como se tivesse ganho na loteria. Eu podia me levantar, andar (andei cinco metros no quarto dia e senti que esses passos foram tao importantes quanto os de Armstrong em 69). Eu poderia ir sozinha no banheiro. E eu até deveria, senao a enfermeira teria que recolar a sonda na uretra. Horas depois, a enfermeira me perguntou com a mao na cintura:

- Você ja fez xixi?
- Nao... :D
- Mas voce nao esta bebendo agua suficiente?!
- Na-nao... :/
- Ah é? Você quer que eu coloque a sonda de volta?
- Nao :(

Aih eu sai correndo pra mijar. As enfermeiras pareciam minha mae, aff. Como vocês podem ver, fui bem cuidada. Voltei pra casa e tou sendo assistida por minha coloc que, olha que sorte, é enfermeira! Pra finalizar as boas noticias, minha orientadora disse que tinha gostado do meu trabalho. Agora, hora de descansar: muita informaçao pro meu coraçao.




domingo, 8 de setembro de 2013

E a mae, joana.


broder, e essa força?

por aqui, tudo bem. posso começar a falar do tempo, ja que a senhora sempre pergunta se aqui ta frio ou quente. é verdade que o clima pode influenciar bastante nosso humor, mas ultimamente tenho me sentindo tao bem, que deixei de ir à janela checar o rumo dos ventos pra decidir se ponho um sorriso ou se o guardo no bolso. gostaria de explicar porque me sinto bem, mas pra sua decepçao, é sem motivo aparente, mais ligado às minhas drasticas mudanças de humor do que propriamente à um emprego novo. ou esse bem-estar seja talvez porque eu tenha me dado conta de que um emprego, ainda que novo, nao vai contar em nada à minha felicidade. talvez conte à minha conta. mas nao conto com isso. mas te conto que (parei) estou bem simplesmente porque, aqui, ja sofri demais. mas nao era um sofrimento sabido. eu soh soube que fui triste porque agora eu sorrio. ainda que sem motivo. desculpa. na verdade, tem um motivo. ou varios. mas nao sao aqueles motivos-clichês: estabilidade, labrador no jardim ou carro na garagem. e ja me adianto que nao ando feliz porque descobri que o grande segredo da felicidade é mudar de carreira do nada, trabalhar menos, se ocupar mais dos filhos, seguir seus sonhos ou começar a procurar beleza nas pequenas coisas da vida, como o caminhar de uma joaninha no nosso joelho. eu sempre soube que joaninhas eram indicadoras supremas de gente feliz. ou sensivel. joaninhas ja me fizeram muito feliz. a ultima, inclusive, me fez feliz ha umas três semanas, quando eu tava colhendo damasco la em larnage. o sentimento provocado nesta mulher de 28 anos, foi provavelmente o mesmo produzido em qualquer outra criança que vê uma joaninha pela primeira vez na vida. o mundo todo para de mexer. e aquela joaninha se torna imensa. e vai dançando desajeitada na nossa pele. e vai deixando, em cada passo, um carinho. e, de repente, o nosso coraçao começa a queimar e o sorriso começa a sorrir e, sei la porque, a desgraçada da joaninha voa no apice do momento. e a realidade volta, os carros buzinam, você levanta o rosto e o mundo ta ali de novo, como era antes da joaninha decidir dançar. decidi parar de procurar felicidade em coisas tao efêmeras, mas nao pretendo afastar a possibilidade. 

mas mainha, nao tou escrevendo pra falar de joaninhas, ainda que eu saiba que a senhora poderia me escutar falar durante horas sobre um assunto tao banal. (...) desculpa, joaninha. tao "banal". eu tou te escrevendo pra dizer que eu ja fiz a cirurgia do coraçao e, por favor, maezinha, nao se sinta traida. eu nao vi nenhum interesse em amargurar esse seu coraçao falando da data ainda que ele seja bem saudavel (apesar dele estar batendo ao dobro do tempo que o meu). nao disse nada porque eu sabia que, enquanto meu coraçao estivesse sendo consertado, o seu estaria paralisado. mas pra te acalmar: tou bem. de novo. os detalhes eu conto em casa, ao telefone, porque ainda tou no hospital. mas tou aqui de boa, sem absolutamente nenhum cateter ou soro ou sonda ou dor, onde as recomendaçoes se limitam basicamente a "nao dar bunda canastica" ou "nao dançar a macarena bêbada". mas de qualquer jeito, eu nao faço mais isso – nao danço a macarena. sigo à risca as recomendaçoes do médico e as enfermeiras estao derretidas por mim. acho que ainda nao sou a queridinha de todas elas, mas pretendo me transformar deixando (comida e) um bilhetinho agradecido em cima da cama antes de ir embora. sou absolutamente a favor de bilhetinhos. dentro do bolso do amigo, na carteira do amado, na cama - ainda que seja na de um hospital e pra uma mulher. mas quando falei de traiçao, nao me referi propriamente ao fato de nao ter revelado a data. falo na verdade, da escolha de ter feito a cirurgia aqui, tao longe da senhora. mas segui meu coraçaozinho fudido e apostei que teria aqui o suporte necessario (nao o melhor) pra realizar a cirurgia. 

quando acordei sozinha na sala de reanimaçao, me senti infinitamente sozinha. eu tive um sonho quando era criança, provavelmente o sonho mais bizarro que ja tive na vida (eu sei, sonho bizarro = pleonasmo, mas). eu, numa piscina profunda, me deparo com uma vaca amarrada em cima de uma cama, as quatro patas atadas em cada ponta dela. e nesse momento do sonho, nao havia barulho. eu sentia uma angustia enorme de ver aquele bicho que, ainda que vivo, nao se debatia debaixo da agua. eu queria procurar a superficie, mas nao me mexia. ficava ali, vendo a porra da vaca turva e aquele silêncio ensurdecedor, aquela solidão azul. quando acordei sozinha na sala de reanimaçao, eu tava presa à cama, anestesiada. tinha pelo menos um tubo saindo de cada buraco do meu corpo, dois que saiam grotescamente da lateral do meu peito direito diretamente pra uma caixa de plastico e outras tantas agulhas presas às maos e aos braços. e naquele silêncio, soh me limitei a seguir o medico com os olhos. e toda vez que eu me sinto sozinha, eu lembro desse sonho, desse vazio. e nessa hora, eu me senti realmente sozinha, solidoes que soh uma doença é capaz de proporcionar. mas dessa vez, eu decidi me mexer. e fui la pra superficie tomar fôlego, deixei o silêncio, a agua e a vaca pra la. enfrentei quatro dias de claustrofobia em cima de uma cama porque nao podia me mexer e o que me enclausurava era meu proprio corpo. mas olha. tou aqui escrevendo esse email. tirei os tubos. guardei os buracos.

e sabe, no primeiro dia no quarto, recebi tanta gente, que fiquei de saco cheio (nada pessoal, pessoal): nao podia falar direito. e eles trouxeram porcos de pelucia, chocolates, paes, cookies, livros, bombons e até vieram, num dia de tempestade, me ajudar na correçao final da minha monografia (inclusive, a entreguei hoje). eles se revezaram pra corrigir os erros de ortografia e fizeram uma tabela com os dias de visita, pra que eu nao passasse nenhum dia sozinha no hospital. nico me abraçou tao forte quando voltou de viagem que eu senti o coraçao dele bater contra meu peito. e priscilla, quando se despediu hoje, pegou meu rosto com as duas maos, deu um beijo bem longo e, quando pensou em largar meu rosto, voltou a beijar a bochecha e rimos juntas como um belo casal de lesbica que nao somos. e eu soh pude ter vivido essas coisas, porque eu apostei que aqui daria tudo certo. era garantido que com a senhora eu nao passaria nenhuma privaçao, mas eu decidi arriscar. e ganhei. é por isso que eu tenho me preocupado menos com o tempo. essas pessoas sao minhas joaninhas de felicidades não-efêmeras. pode sorrir.


com amor, da filha querida


luciana

(é bom especificar, ela tem duas).

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Toda cura para todo mal

- Como escrever um post de agradecimento sem ser brega ?
- E por que evitar a breguice, Luci ? Seja brega, nao se reprima.

Credo, que mensagem de
agradecimento horrivel
Esse foi o dialogo entre mim e meu eu-menudo minutos antes de escrever esse post. Porque eu até entendo que as pessoas possam se solidarizar com alguém que anuncia uma doença, mas eu nao esperava, sinceramente, pelas mensagens recebidas nas ultimas semanas. Os telefonemas, os emails, as mensagens no blog, as cobranças no FB: nao importou o tamanho, a frequência ou o meio: tudo, cada mensagem me deixou feliz, de olho marejado. Gente que nunca me viu na vida dizendo estar preocupada, oferecendo ajuda. Eh demais pro meu coraçao de banana.  Call me deslumbrada, mas eu acho isso fantastico e me emociono mesmo. Sou mole sensivel. Entao, obrigada. Obrigada mesmo. 

Mas vamos falar do meu parto. 

Assim que cheguei ao Brasil (19 de maio), fui a todos os médicos e fiz todos os exames possiveis para dar inicio ao processo cirurgico. Mas toda semana, a cirurgia era marcada e desmarcada devido à falha na aprovaçao do material da cirurgia que custava em torno de 5 mil reais. Quase escrevi à UNIMED dizendo que eu aceitaria ser operada com uma tesorinha de plastico sem ponta, desde que a operaçao fosse aprovada rapidamente. Eu era a personificaçao da ansiedade, nao via a hora de extirpar Godzilla. 

Entao, um dia, confirmaram a cirurgia. Nunca na historia desse pais uma pessoa ficou tao maravilhada com a ideia de ser aberta por um bisturi. Angela Bismarchi me entenderia. A cirurgia estava marcada para às 10h, mas maqueiro soh chegou depois do meio-dia. Sim, o "maqueiro". Nao sei vocês, mas eu desconhecia a existência desse profissional. Quando ele chegou, me perguntou: "seu coraçao acelerou quando me viu?". Poderia ter acelerado se seu nome fosse Freddy e seu sobrenome fosse Krueger, fora isso, sem chance. Ele ainda disse, com certa dose de orgulho, "o coraçao dos pacientes sempre acelera quando eles me veem". Foi aih que eu lembrei de ficar nervosa, mas nao consegui. 

Chegando na sala de cirurgia, encontrei o cirurgiao, o anestesista e mais duas figuras cuja serventia eu desconhecia. Foi quando ouvi alguém dizer "eu soh fiz duas cirurgias em supra-renal". Quase que levanto da maca no melhor estilo UEPAAAA! Para tudo! Maquistoria é essa de somente DUAS cirurgias? Eu rezei pra que fosse o maqueiro que tivesse dito isso, mas nao pude ter certeza. A anestesia ja estava fazendo efei... hudedz... hnj q;;77§ès !r fie jfgn id ufijr,f...

Limbo.

"Deixa eu ver" foi minha primeira frase (consciente) depois da cirurgia. Eu ainda estava grogue, mas queria ver aquele que me deu tanto pesadelo. Lembro de ter visto no potinho uma coisa redonda dentro de uma agua turva. Era mais ou menos assim: 

Fui levada, como previsto, pra UTI onde fiquei uma noite. Era importante que eu fosse pra UTI pra ser monitorada de perto caso minha pressao caisse (o que normalmente aconteceria devido a supressao repentina do cortisol). Na minha cabecinha inocente, a UTI deveria ser um local de paz e tranquilidade destinado à convalescença dos enfermos. A UTI que fiquei tava mais pra Feira da Sulanca: milhoes de pessoas passando pelo corredor, de maqueiro à eletricista, uma velha que gritava e um grupo de animais, digo, pessoas, que acharam bonito conversar à porta do meu quarto.

Eu ja estava ha 15h sem comer quando uma enfermeira sadica colocou uma bandeja de sopa, suco e gelatina numa mesa inalcançavel e saiu sem dizer nada. "Sera que ela espera que eu mova essa bandeja com o poder da mente, MEU DEUS?" Fixei meu olhar na bandeja acreditando que o pos-cirurgico pudesse ter me dado poderes sobrenaturais. Nao deu.

Eh soh uma mancha
Em seguida, uma dupla de enfermeiras entra no meu quarto dizendo que vai fazer minha higiene (meda). Uma delas me descobre, olha pro meu peito e pergunta horrorizada: "MEODEOS, o que é isso no seu peito?!". Eu ia responder "mamilo", mas pela cara de horror dela, ela deveria estar se referindo a outra coisa. Como meu campo de visao se limitava ao teto, eu imaginei que nao poderia ajuda-la a encontrar a resposta, apesar de eu estar igualmente preocupada.

A segunda enfermeira encarou meu peito e, de maneira passiva e precisa, diagnosticou: "é soh uma mancha". Soh uma mancha?! Em casa eu pude averiguar que nao se tratava soh de uma mancha. Parecia que eu tinha levado uma surra. Infelizmente, a pudicicia me impede de mostra-los a foto da "mancha". Mas eu posso garantir que meu corpo ta bonito. So que ao contrario. Fizeram quatro incisoes na minha barriga, cada uma tem no minimo três pontos. Eu tou parecendo um pirata.

Mas um pirata feliz. Feliz e agradecido.




domingo, 26 de setembro de 2010

Figo de uma figa!

Camilo mostrou toda sua indignaçao pra mim, outro dia, apos ter lido esse post. "Mimimi, eu nao sou desastrado, mimimi, eu sou azarado". Aih, me chega hoje com cara de bezerro desmamado.

Eu: - O que foi, amor?
BD: - Caramba, eu soh faço merda.
Eu: - La vem...
BD: - Quebrei o pote com a geléia de figo que Cecilia havia feito.

Mas quando eu falo que é desastrado...*

::

Diana partiu, mas no lugar dela, restou outra mexicana, Victoria. Eh o quarto mexicano que passa pela casa. Em todos os quatro pude notar uma certa semelhança que vai além da fisica: mexicanos sabem fazer barulho. Hoje, Victoria preparou uma pequena festa aqui em casa com seus amigos da faculdade. Passei a tarde toda escutando "shot! shot! shot! shot!" e musica de mariachi. No começo da noite, a menina começa a gritar debaixo da minha janela. Fiquei emocionada, achei que fosse uma serenata em minha homenagem. Camilo foi verificar do que se tratava e a viu no chao, deitada, aos prantos, gritando "pinche figo!" O causo: escorregou num figo e arrombou o joelho que ja tinha passado por duas cirurgias nos ligamentos. As frutas de hoje estao cada vez mais perigosas.  O Samu foi chamado, ela foi pro hospital e passa bem.

::

Ainda em tempo:

1. Camilo leu o post e tah aqui dando chilique, exigindo justiça: tu distorce tudo! Eu cheguei pra tu e disse 'acho que tu tem razao, eu sou mesmo desastrado' justamente pra nao ouvir 'eu nao avisei?'. Justiça seja feita, amor!

2. Enquanto eu escrevia o paragrafo anterior, Camilo vira pra mim, meio indignado, meio desconfiado e pergunta: e o que é um bezerro?

Coisa linda!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Nuits Sonores

Post super rapido (vou tentar) soh pra anunciar a maior das tragedias: estou sem internet. Estou fazendo terapia intensiva pra ver se atravesso esse momento complicado sem enlouquecer. Tem dado certo.

Bzzzz!

Babaquices a parte (e um teclado desconfigurado como parceiro), estou pensando seriamente em comprar um computador ja que agora eu sou uma mulher trabalhadora e vou enriquecer dentro de alguns meses, eh claro. Mais bon... Estou muito satisfeita de toda forma porque amanha vai comecar um festival SUPER esperado pela minha pessoa, o Nuits Sonores. Eh a oitava edicao do festival esse ano que vai ate domingo. Eh um festivalzinho de musica eletronica que me apetece mais por ser numa epoca do ano que eu amo (Primavera) do que propriamente por ser de musica eletronica.

Na primeira foto, jovens felizes e satisfesitos. E bebados. Na segunda foto, eu superfeliz com um chapeu pra proteger minhas perebas. Eh, eu tinha acabado de cair da bicicleta e, dentro de algumas horas, eu estaria indo pro hospital pelas complicacoes que os remedios me trariam. Espero que esse ano eu nao precise ir ao medico. Malgrado a falta de internet.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Do desintupimento da pia (ou da ressuscitação da filha)

Gente, eu fiquei tão curiosa pra saber que historia foi essa da minha "morte", que enviei um email pra minha mãe. Dai, descobri que menti pra vocês. Eu não morri, eu iiiiaaaa morrendo. Mas escondam a historia verdadeira que é legal contar às pessoas que você morreu, é mais emocionante. Ok, eu publiquei a historia verdadeira no blog, mas como meu blog não tem muitos leitores, poderia manter intacta a historia mais... mortal (?) da minha vida.

Seguem os e-mails com alguns reparos:

Eu:

Mainha, eu vou pedir uma coisa bizarra, mas responde aih: como foi aquela historia de que eu "morri" aos 4 anos? hehehe O que aconteceu? A senhora sabe o que foi? Conte os detalhes aê!

Ela:


KKKKKKKK, só você mesma, criatura!

Foi o seguinte... Em maio de 1988, precisamente em um domingo dia das mães, você dormia no seu quarto com uma empregada, que se chamava Creuza. Ela saíra logo pela manhã, pra visitar uma tal irmã que morava no bairro do Grotão (Campina Grande), então ao sair do quarto, ela teve a infeliz idéia de fechar a janela e a porta do quarto enquanto você ainda dormia.

Acho que em seguida, eu acordei e, quando entrei no seu quarto, vi que você ainda dormia, mas estava completamente "banhada" de suor. Tirei você imediatamente de dentro do quarto, te coloquei na minha cama e lembro que você tinha muitas bolinhas de suor pelo rosto inteiro e pelo corpo também. Era como se alguém tivesse respingado, com uma mangueira, todo seu corpo. Em seguida notei, que você tava muito pálida e os lábios um pouco arroxiados. Fiquei bastante preocupada, claro, mas seu pai disse que era devido ao calor e te levou pro banheiro social pra tomar um banho junto com ele.

Então percebi, que apesar do seu pai tentar brincar com você e anima-la, você começou a ficar com os lábios bem mais roxos e suas pernas não tinham forças pra sustentar o corpo. Te levei rapidamente pra minha cama, e ai você já tava completamente pálida e quase sem pulsação. Apavorada, mas ciente que soh eu poderia fazer alguma coisa urgentíssima, comecei uma massagem no teu coração e a soprar no teu nariz, tipo ressuscitação, sabe? Graças a Deus, que é bom e misericordioso, você começou a "voltar". Abriu os olhinhos de jaboticaba e sorriu pra mim, como tivesse acabado de acordar e eu não sabia se chorava ou se sorria.

Detalhe: enquanto eu fazia a massagem cardíaca, ouvia um som do tipo desentupidor de pia saindo do seu peito cada vez que pressionava seu coração. No minimo esquisito, mas foi o que te salvou. Depois dessa "ressussitação", nós te levamos, imediatamente, pra a clínica de hidratação infantil, que na época, funcionava na av. Epitácio Pessoa. Quando a médica te examinou, não constatou absolutamente nada. Disse que não tinha idéia do que tinha ocorrido e que parecia que tudo estava bem com você.

A partir daí, ficamos te observando constantemente. Qualquer principio de suor, ficavamos alerta, com medo que o fato se repetisse. Felizmente, não aconteceu de novo. Mas, por muito tempo, você teve esse problema de transpirar além do normal, sempre ficava com o rosto cheio de bolhinhas d'agua, só na adolescência é que você melhorou. Nunca soube que fenômeno era esse. Enfim, você tá bem agora.

E ai, gostou do meu relato? Tenho até uma foto sua que seu pai tirou no dia do ocorrido. Você tava com uma cara bem triste e desconfiada. Quando eu acha-la, mando pra tu. Muitos beijinhos pra você, te cuida, garota. Depois te mando mais notícias. Beeeeeeeijo!

Agora, claro, meus comentarios:

1. Então eu não tinha quatro anos, tinha 2 anos, 11 meses e duas semanas de vida;
2. Valeeeu, Creuza! Massa!
3. Eu realmente era um ser muito sadico: tentar morrer no dia das mães e ainda "voltar" sorrindo!
4. Cabelo e Benzina, estou esperando as piadas envolvendo o banho com meu pai, quando ele tenta "brincar" comigo e todas as outras merdas tipicas de vocês...
5. Apavorada, mas ciente que soh eu poderia fazer alguma coisa... Mãe é um bicho solitario.
6. Abriu os olhinhos de jaboticaba e sorriu pra mim, como tivesse acabado de acordar e eu não sabia se chorava ou se sorria ;~
7. Ai, na frase seguinte... eu viro uma pia entupida!
8. Tenho até uma foto sua que seu pai tirou no dia do ocorrido. Você tava com uma cara bem triste e desconfiada. Gente, eu tava... morrendo? O minimo que eu poderia ter era uma cara triste! E melhor ter uma cara de desconfiada que uma de defunta...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Parabéns

Meus dias na França têm sido de aflição pura. No post passado, eu disse que o médico havia cogitado a idéia de eu piorar e ter de ir ao hospital. Mal escrevi o post e Camilo, depois de dar uma bela olhada na minha cara bela, disse que seria melhor irmos ao hospital. Da minha cara escorria um líquido verde. Mas isso era o gostoso da história. Meu rosto começou a inchar, a inchar e a inchar, e, quando fui atendida no hospital, meu rosto já tinha mudado. Não se tratava mais do rosto de Luci, mas de algum ser maligno que havia se apoderado da minha face. E eu tenho fotos pra provar.

Dei entrada no hospital às 23h da segunda-feira, 25, e fui atendida às 3h. Conheci profundamente o sistema de saúde público francês. A enfermeira mão-de-ferro me enfiou uma agulha na mão e por ali eu tomei antibiótico. Depois, fui delicadamente jogada num corredor e permaneci ali até o outro dia, quando fui acordada por um médico brasileiro. Porra, quanta diferença! A gente falou de feijoada, da saúde pública, dos nossos relacionamentos amorosos, do idioma, da amabilidade do francês, de imposto de renda, de orkut e de tantas outras merdas que se possa imaginar. Até tinha esquecido que estava num hospital, até tinha esquecido que eu estava falando com um médico (que eu tinha conhecido ha 10min). Mas afinal, aquela já não era eu, era compreensível tanta desenvoltura com um estranho.

Meu rosto inchou tanto que, a essa altura, meu olho esquerdo estava completamente fechado. Meu pobre rosto inchou tanto que eu não conseguia ver meu ombro esquerdo! Imaginem, uma maravilha. Fizeram uma tomografia, mas ninguém conseguia nos dizer o que eu tinha.

O banheiro do hospital fedia fortemente a mijo. Impressionante. E as pessoas insistiam em falar comigo em francês mesmo depois de eu dizer que eu não falava a língua.

- Você fala francês?
- Não.
- Você fala inglês?
- Falo!
- Ah, je ne parle pas anglais...

Fui transferida pra outro hospital. Andei de ambulância, foi super divertido, espero que tenha sido a última vez. No novo hospital, os médicos vinham me examinar em grupo. Eu me sentia um bicho exótico. Como todos eram jovens internos, ainda deixavam transparecer o nojo que a cena provocava. Não era por menos, eu imagino. Depois de mais algumas horas nesse hospital, os competentes jovens médicos me transferiram novamente pra um outro. As perguntas eram as mesmas: dói? Arde? Coça? Os dentes estão no lugar? Secreções? Não. Só alguns pesadelos e uma terrível crise de auto-estima.

No terceiro hospital, finalmente eu chorei. Chorei porque não agüentava mais ver a cara de pena de Camilo, chorei porque eu estava realmente parecendo um monstrinho. Chorei porque ninguém sabia o que porra eu tinha e porque eu não sabia falar a porra da língua e tinha que depender totalmente de Camilo que, aliás, estava perdendo trabalho desde que essa historinha havia começado.

Mas eis que chega uma luz em forma de mulher e diz: "querida, você sofreu uma reação alérgica a algum medicamento que estava usando. Esse inchaço no seu pescoço é apenas retenção de água. Entendo que você esteja mal, mas não estamos preocupados com a sua aparência, isso se resolverá (tipo, "isso é o de menos"). Você tomará antibióticos via oral e usará pomadas. Ficará dois dias interna. Até logo". Pronto. Ouviram? Era só isso! E, como se não bastasse, o hospital era lindo e limpo. Havia sido inaugurado há três semanas.

As enfermeiras eram ótimas! Sabiam que eu não falava francês e se arranjavam como podiam pra me passar as informações. Havia uma em particular que confundia minha ignorância no francês com surdez:

- MADAME, AGORA EU VOU PASSAR A SUA POMADA. OK?
- Errr... Ok.
- TRES BIEN!

No dia seguinte, chegou uma mulher muito legal que estava com câncer de pele pra dividir o quarto comigo. Ela sabia falar inglês e, de vez em quando, quando as palavras-chave em francês não me auxiliavam, ela traduzia o diálogo entre mim e os médicos. E, é claro, ela me fez pensar que uma carinha torta não significava nada perto de um câncer.

Hoje, finalmente, sai do hospital. Foi presente de aniversário. Sim, porque hoje é 28 de maio e agora sei que os 24 anos de idade me chegarão com bastante aprendizado: se for beber, minha filha, pelo amor de deus, use capacete.
Foto 1. Tirada no segundo dia de internação, o olho começando a abrir. Uma beleza!

Foto 2. Ok, eu tinha acabado de acordar, por isso não há muita diferença entre o lado esquerdo e o direito...

Foto 3. Terceiro dia de internação. O que são os antibióticos, não é mesmo? (notem o queixo meio torto...)

Foto 4. Praticamente um brotinho...



Ainda em tempo, palavras de Cabelo (isso é uma pessoa):

KbLo diz:
vc poderia ministrar um curso "como se fuder completamente sem morrer com eficiÊncia em menos de 12 horas e estragar sua viagem à Europa"
KbLo diz:
caralho
KbLo diz:
vc tá parecendo o satanás de rabo!
o sol tá massa diz:
ahuahuahuahahhahuahuahuahuahua
KbLo diz:
puta que pariu
KbLo diz:
use uma máscara
o sol tá massa diz:
cabelo, eu JURO, estava pior do que isso
KbLo diz:
naipe michael jackson
KbLo diz:
e nos poupe dessa feiura
o sol tá massa diz:
estava pior, eu nao abria nem o olho, imagino isso
KbLo diz:
mermão
KbLo diz:
pobre camilo
KbLo diz:
num rato do caralho
KbLo diz:
e agora tem uma chewbacca em casa pra comer

Obrigada pelo conforto...
Amigos, pra que servem, afinal?

Talvez

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