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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Disque L para lesar

Vocês devem nao andar se perguntando onde foram parar as historias da casa em que eu morava com mais dez pessoas. Pois bem, ha mais de três anos, eu mudei de casa e de bairro. Agora, eu moro no bairro mais popular de Lyon: a Guillotière. Esse bairro tem tanto macho assediador de beira de calçada, que eu ja dediquei um post sobre o assunto ha quatro anos, antes mesmo de morar no bairro. "Luci, se o bairro é tao foda assim, por que você escolheu morar la?" Gente, deixa eu escolher pelo menos o bairro onde eu vou morar! "Ah, entao nao reclama". Olha, o blog é meu, eu reclamo se eu quiser. Alias, eu nem sei com quem eu tou discutindo... Entao, continuando. 

Tem um bando de desocupado pelas calçadas. Eles passam o dia todo la, vendendo haxixe e marlboro falsificado. Alias, esses sao os menos desocupados. Os desocupados profissionais, te cantam quando você passa. Mas atençao, nao é aquela "cantada" de brasileiro quero-te-colocar-de-quatro-e-ripa-na-chulipa. A cantada é mais estilo "você é muito charmosa", "bom dia, hmm", o que leva muito macho a achar que estamos exagerando quando nos indignamos com esses tratamentos. Mas creiam-me: quando você escuta isso com frequência, você ja sai de casa botando sangue pelos olhos! Ou soh sou eu que reajo assim? Siiiim, soh você, Virgem Maria dos anos 90.

Diferentona

Alias, quando eu era criança, eu morria de medo dessas historias de Virgem que chora, de colchao que pega fogo sozinho. Um dia minha mae saiu de casa e eu fiquei vendo Gugu com meu irmao mais velho. O programa falava sobre uma estatua da Virgem que chorava sangue. Olha, eu tava tao tensa, que se meu irmao tivesse espirrado na hora, eu nao estaria aqui agora escrevendo besteira pra vocês, teria passado dessa pra melhor, morta de susto. Enfim, divago. O caso é que eu passei a reagir com certa frequencia às cantadas, à medida em que os anos foram passando. 

Entao, ha duas semanas, la estava eu tranquilamente andando na calçada com a criança tranquila que tomo conta, numa tarde muito tranquila. Estavamos voltando pra casa quando, de repente, um homem que estava dentro de um carro estacionado me chamou pra pedir uma informaçao. Eu fui com certa cautela, sem me aproximar muito. Por que? Porque quando eu era pequena, eu lembro de estar brincando na rua com meus irmaos/amigos e de um cara ter parado num carro pedindo informaçao. Ele queria saber onde tinha uma farmacia no bairro, porque ele tinha levado uma picada de abelha. Eu deixo vocês imaginarem onde ele tinha levado a picada. Pois é. Os anos 90 foram recheados de Caverna do Dragao e trauma. Inclusive, la vai mais um sobre o tema. 

(Aquele momento em que você usa seu blog como terapia) 

Eu tava andando pelo bairro com uma amiga e a prima dela. A gente devia ter uns 9/10 anos, no maximo. De repente, numa tarde muito intranquila, um bigodudo de boné passa de bicicleta pela gente mostrando as vergonhas dele. A vista daquele bigode pendurado me chocou bastante. Os bigodes eram muito comuns nos anos 90. Tinha até na televisao, assim, no domingo à tarde, pra qualquer criança ver. 

Mas voltando pra semana passada, eu fui andando com cautela até o carro do cara que queria a tal informaçao. Peguei a criança pela mao e fiquei ha uma distância de pelo menos dois metros dele. O cara pediu a informaçao aos cochichos achando que eu iria me aproximar. 

- Shhhffftiijjjj?
- EH O QUE, OMI?
- Eh... Onde fica o Sixième?
- Fica praquele lado la, oh.
- Ah ok. (...) Você é muito charmosa!



Coroi. Ele disse essa, acelerou e foi embora. Eu queria ter tido alguma coisa pra arremessar naquele carro, mas eu soh tinha a criança comigo, achei melhor nao. Eu voltei pra casa bufando, passei um péssimo dia. Dois dias depois, às 8h30 da manha, fui trabalhar e, quando tava entrando pela porta do prédio da guria, um cara passa por mim dizendo algo e fazendo cara de quem nunca viu mulher na vida. Claro que eu mandei ele calar a boca e claro que ele veio atras de mim. 

(Insira meu pânico aqui)

Entrei no prédio rapidamente, fechei a porta de madeira maciça, passei pela segunda porta, de vidro. Ele abriu a porta de madeira com um chute, eu abri a porta do elevador e paramos ali. Ele abriu a boca, mostrou os dentes e, com os olhos, gritou: "Sua promiscua! Putéfia!" (Optei pela traduçao que iria choca-los menos). "Zoupeira, croia!" Sem esperar que ele descobrisse que a porta de vidro nao tranca, eu peguei o elevador, toda cagadinha.

No dia seguinte, eu começaria o trabalho no mesmo horario. Fiquei com medo do insano estar me esperando no mesmo lugar, mas o Céu foi clemente e era dia de chuva. Chuva = guarda-chuva = Luci-dissimulando-o-rosto-com-guarda-chuva. Dai la estava eu na minha cautela tao caracteristica, andando e escondendo a cara, andando e colocando o guarda-chuva entre mim e os passantes, qualquer um, pra evitar antigas e novas confusoes. Dois caras vinham se aproximando no sentido oposto. Eu fui avançando em direçao a eles e, quando iamos nos cruzando, eu coloquei discretamente a umbrela entre a gente pra evitar qualquer contato. Foi quando um deles se jogou na minha frente, se agachou, avaliou meu rosto, sorriu e disse "ah sim ! Ela é linda!" e foi embora com o amigo sorrindo. Aih meus olhos foram chuvendo até o trabalho.

A verdade é que no dia em que o doido entrou no prédio, eu decidi me inscrever nas aulas de Krav Maga PORQUE VIOLENCIA A GENTE RESOLVE COM VIOLENCIA porque eu queria ter um pouco mais de auto-controle. Pra isso, eu tinha que ter um certificado médico provando que eu era apta pra atividades fisicas. Fui no médico, aquele mesmo que diagnosticou minha tosse de louco, e tivemos o seguinte dialogo:

- Dotô, eu queria um certificado médico.
- (escrevendo de cabeça baixa) Pra quê?
- Pra praticar uma atividade fisica...
- (escrevendo de cabeça baixa) Qual?
- Krav Maga.
- (cabeça baixa) Por que?
- Porque eu fui agredida na rua por um cara e...
- (para de escrever e levanta a cabeça com um sorriso) Aaah! Entao você quer bater nos homens?!

Pra falar a verdade, eu gostaria muito de estripar uns dois ou três, mas poder me defender em caso de ataque ja ta bem bom! Aih ele perguntou o que os caras me diziam. E é foda contar, né, porque, primeiro, isso nao vem ao caso, segundo, isso nao vem ao caso mesmo. Mas como eu falo pra caralho, eu disse que os caras soltam uns clichês e/ou fazem uns barulhos com a boca.

- Que tipo de barulhos?
- Ah, sei la!
- (assoviando) Fiu-fiu? 

Haha Meu filho, nin-guém faz fiu-fiu hoje em dia! A gente soh vê isso em propaganda de creme solar ou de cerveja. Na vida real os caras trincam os dentes e chupam a saliva. Arfam com a lingua do lado de fora.

- Nhé... eles dizem fiu-fiu... é... isso mesmo.
- Ta bom. Entao, vamos pra sala de exame. Tire somente a blusa e o sutia.
- Certo.
- Fiu-fiu! he-he-he

Juro. A pessoa tem que jurar no caralho desse blog, mas é verdade. O cara simplesmente assoviou. Bom, ele fez isso assim que eu levantei, antes que eu me despisse, mas ainda assim: achando que essa seria uma PIADA MUTCHO LOKA! Selo Gentili de aprovaçao. E depois ele ainda disse que era loucura se "inflamar" porque "homem é assim mesmo, sempre foi". Magina, broder! A mulher vai no seu consultorio traumatizada pelo pedofilo que tem ataque anafilatico peniano, pelo homem de bigode na bicicleta, pelos insanos da Guillotière e dezenas de outros ainda. Ela ta traumatizada a ponto de resolver fazer um esporte de combate pra se defender no caminho da propria casa e você, seu médico pessoal, depois de ouvir tudo, decide o quê? O quê? Fazer uma piada com assédio e ainda justifica-lo. Claro. Pensando bem, era bem inofensivo essa Virgem que menstrua pelos olhos. Sdds. 


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E pra quem é de feici:

.caso.me.esqueçam.




sexta-feira, 22 de maio de 2015

Para sua saude, quatro frutas diarias


oi

Seria cu doce mentira dizer que eu passei um ano sem postar porque estava sem tempo. Gente, eu trabalho 12h por semana! (Beijos, capitalismo). O que me falta é vergonha na cara mesmo. Mas eis uma boa razao pra voltar à ativa: um post comemorativo pros meus seis anos na França. Com certeza, esses foram os anos mais intensos da minha vida, algumas das melhores e piores coisas que vivi aconteceram no decorrer deles. E que bom! Mas o que fica no coraçao (e que vai pro blog) é a cachorrada do quotidiano. Salve!

Final de semana passado, tava rolando o Nuits Sonores, um famoso festival de musica eletrônica de Lyon. Pra comprar o ingresso, você precisa vender seu irmao caçula. E se sua mae reclamar, venda a mae também, porque o festival dura quatro dias. Claro que eu nao fui nos shows mais caros (lembram que eu trabalho 12h por semana?). Mas os pobres também foram agraciados com noites mais baratas. Eu, por exemplo, comprei um passe de três reau e outro de dez. Pra mesma noite.

O objetivo era começar a noite bebendo uma cerveja de leve na casa dos amigos, ir pro primeiro show e, antes da meia-noite, chegar no segundo show, porque depois desse horario, cê nao entra mais, colega. Eu tinha a noite inteira pela frente e claro que eu iria chegar à tempo. O problema é que a noite começou errada e, ao inves de cerveja, comecei bebendo um tipo de alcool que o pai de uma amiga produz utilizando pêras. "Olha, Luci, bebe. Tem gostinho de pêra". Gostinho de mooorte, minha filha! O negocio era tao forte que era eu bebendo e a lagrima escorrendo. Mas a gente ficou la de bouas, falando da vida alheia, comendo amendoim, pêra, eu chorando… Quando, de repente, 21h!

Debaixo de chuva, pegamos um ônibus com um monte de gente estranha. Eu tava super comunicativa e, quando eu estou super comunicativa com gente que eu nao conheço, pode acreditar, o nome disso é alcool. Nunca na minha vida que eu vou falar com pessoas desconhecidas de forma expontânea. Credo. Mas la estava eu falando do meu guarda-chuva pra moça do lado. Dai que a gente chegou e a unica coisa que eu vi foi a fila do bar. A musica tava uma bosta e eu nao sei onde foram parar as dez da noite, mas ja eram 23h!

Eu iria pro segundo show, no Sucre, com um amigo, Adri, que ja estava comigo. O Sucre era do outro lado do planeta, ele iria de bicicleta e eu teria que pegar um ônibus + tramway. Eu nao sabia exatamente onde ir uma vez que descesse do tramway, mas encontrei mais gente esquisita la e pensei em segui-los ja que, com certeza, eles iriam pro mesmo lugar que eu.

Nao foram.

Eu desci do tramway, toda errada, seguindo a galera que ia pra uma festa num barco. "Meu deus, o Sucre virou um barco". Entendi que nao era la, dei meia-volta e nao vi mais nada. As pessoas tinham sumido. Todas. Tinha um posto de gasolina aberto, mas os postos daqui nao tem frentista, entao foi bem solitario ver tudo iluminado, sem ninguém, parecia uma cidade abandonada. Cruzei algumas pessoas que iam pro barco… maldito… que nao tinha a menor ideia de onde eu deveria ir. Entao, finalemente liguei pra Adri pra que ele viesse me buscar. Teria sido genial se ele tivesse atendido o telefone.

E eu andei, liguei, andei, religuei, a chuva aumentou, diminuiu e eu andando. Eu ligava par Adri, nada acontecia. Comecei a ter saudade dos meus amigos, da minha casa. Vento friiio… Silêncio. Vazio. Uma musica de Djavan na cabeça. Entao, bastante resignada, como soh esses momentos te ensinam a ser, escolhi um cantinho, tirei um vira-lata do bolso, um copinho vazio da starbucks do outro e comecei a pedir esmola. Pronto. Minha mae me educou tao direitinho pra eu terminar assim, meu deus. Anos de faculdade jogados no lixo. Meu tratamento odontologico, super caro, que viria me poupar anos de terapia. Uma carreira internacional no balé. Tudo jogado fora. Eu nunca fiz balé, mas eu poderia ter feito. Aquele momento é que nao iria permitir.

Aih um cara passa, me joga uma moedinha e eu vejo que é Adri! Iupiii! Ele parou a bicicleta, a gente se abraçou, pinotou no meio da rua e eu subi na bike dele. Posicionei minha querida bunda no guidao, ja que os franceses nao tem costume de levar as visitas no quadro. La estava eu, sao e salva, com meu grande amigo (literalmente). So que, enquanto eu estava mendigando, Adri estava enchendo a cara no primeiro show. Entao, ele estava bastante empolgado com a vida, por assim dizer. No curto caminho que nos levaria ao show, tinha uns bancos, umas arvores e o cérebro de Adri viu tudo isso como obstaculos legais à transpor. Ele ficava dando voltas e desviando dos bancos no ultimos segundo. E eu la, o copo de starbucks numa mao e o cu na outra.

Ele viu uma arvore cuja as folhas iam quase até o chao e disse "a gente vai atravessar essa, Lulu, se segura". Olha, eu nem tive tempo de dizer nao. Ele acelerou e se abaixou. Mas eu, que nao tinha muita opçao, levei uma lapada de galho na cara. Eu comi folha, joaninha, casulo, macaco e toda a fauna/flora existente naquele micro mundo ecologico. A bebedeira passou num segundo. Mas o pior estava por vir. Logo depois da arvore, tinha um banco. Tinha um banco no meio do caminho, no meio do caminho tinha um banco de pedra, redondo e grande como uma nave espacial. Eu soh tive tempo de gemer. A bicicleta bateu no banco e ficou onde estava. Eu fui embora. Enquanto eu voava, pensei nos momentos felizes em que era mendiga e desejei voltar no tempo, mas era tarde demais. Felizmente, eu aterrissei como uma flor no banco. Soh machuquei o pé. E a mao. E a consciência. Sangrou um pouco, mas eu ri mais do que outra coisa.

Cheguei feliz na noite, dançando e mancando, um pouco depois da meia-noite. A noite foi linda. Eu falei com todo mundo, eu apertei o mamilo de um cara, eu subi nos ombros de outro, eu tirei os sapatos, eu fiz amigos, eu dancei e, às 7h da manha, decidimos voltar pra casa. A gente queria ser responsavel entao decidimos colocar a bicicleta dentro do tramway e voltar assim. Mas o tramway estava meio longe, entao, subi na bicicleta dele (a gente nao aprende nunca) e traçamos nosso caminho. Quando viramos a esquina, vimos o tramway de longe chegando na estaçao. Adri bateu no peito e disse "a gente vai pegar aquele ali. Se segura, Lulu". Eu segurei no guidao com minhas nadegas, entreguei nas maos de deus e fomos.

Ele pedalou como um condenado e chegamos triunfalmente à tempo de pegar o bonde. As pessoas riam da palhaçada. Mas quando colocamos a bicicleta no tramway, o motorista abriu a portinha dele e mandou a bike descer. Voltei com outros amigos e, chegando em casa, encontrei Adri todo ensanguentado. Ele me contou que a roda da frente se soltou enquanto ele pedalava. Tive uma doh! Somente no dia seguinte foi que a gente se deu conta, juntos, que, no momento em que o motorista pediu pra ele descer, Adri tentou tirar a roda da bicicleta pra mostrar que… que a gente nao ia andar de bicicleta dentro bonde? Nao sei. Soh sei que ele esqueceu de fixar a roda depois e deu no que deu. Demos boas gargalhadas. Ele, nem tanto.

E o que fica como aprendizado, crianças? Pêras sao perigosas.

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Para aventuras menos complexas,

https://www.facebook.com/casomeesquecam


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A questão do gênero na Guillotière

efeito dos ventos lioneses


Quanto eu escuto todas as portas da casa batendo por causa do vento, até as fechadas - o vento abre a porta usando o trinco e a fecha novamente -, eu sei que nao é um bom momento pra sair de casa, ainda mais de bicicleta. Mas eu tive aula e fui obrigada a sair de casa (faz uns 24 anos que eu lamento essa frase). Normalmente, o trajeto se da numa grande avenida que segue ladeira abaixo. Entao, soh tenho que ter cuidado pra nao ser atropelada pelo tramway e tudo certo, mal preciso pedalar. Soh que semana passada tava tenso. Foi a primeira vez que eu andei de ré numa bicicleta. O vento parecia um coice e, quanto mais eu fazia esforço, mais eu sentia a resistência dele. Mas enfrentei o vento, enfrentei a aula e fui contente pra Guillotière encontrar um amigo praquela cerveja de fim de tarde.

Guillotiere é um famoso bairro de Lyon, famoso sobretudo pelas cantadas dos punheteiros sedutores de plantao que te cantam com tanta convicçao que sao capazes de te engravidar soh te dando bom dia - por isso, eu fecho as pernas e os ouvidos quando ando por essas bandas. Infelizmente, nao da pra evitar o bairro porque é onde se encontra um dos lugares mais visitados na cidade: o rio Rhone. Fui enfrentando ventos e homens pra encontrar o tal amigo na beira do rio.

Comprei umas cervejas, escolhi um lugar tranquilo e sentei tensa com todas as aproximaçoes suspeitas. Um cara veio, perguntou se eu tinha um isqueiro e saiu de boa com a negativa. Mas nao tive tanta sorte com o segundo, que sentou bem do meu ladinho. 

- E aih, tudo bem?
- Ah, nao, cara. Por favor. Você nao vem pra isso, né?
- Nao, nao vou incomodar.
- Tarde demais.
- Soh quero... sei la... A vida é bonita, né?

Eu achava que conversa mais vazia que a de elevador nao existia. Mas encontramos um novo adversario, senhoras e senhores: a conversa de beira de rio. Ela começou assim, mas se dirigiu pra isso:

- Que marca roxa é essa aih no seu braço?
- Nao sei, acho que bati na porta ontem...
- Nao foi o seu namorado, né?
- Errr... nao. Mas ja essa marca aqui, oh, foi da agulha do exame de sangue que fiz ontem.
- Você tem AIDS?

Juro. O cara simplesmente perguntou se eu tinha AIDS. Tudo muito tranquilo. Oi, tudo bem, a vida é bela, você tem AIDS? Enquanto isso, ja tinha enviado mensagens de socorro ao meu amigo pra que ele viesse logo me tirar daquela situaçao. Quando o inquisidor me viu com o celular, disse que iria embora "porque seu namorado pode nao gostar que eu esteja aqui". Ou seja. Foda-se se você nao curte minha presença, o negocio é nao estar aqui quando o macho chegar. Depois apareceu dois caras vendendo dorgas. O legal é que em nenhum momento eles ofereceram pra mim, soh pro meu amigo. Alias, eles nem sequer me olharam. Eu nao ia aceitar de todo jeito, mas acho um absurdo esse machismo. Até dos traficantes! Aff.


Pelo direito de ser tomada por uma drogada!



Quando o amigo chegou, pedi pra que fossemos pra minha area preferida do Rio: entre o banheiro publico e o lugar onde vende cerveja. Estratégia, amigos. Os banheiros publicos de Lyon foram reformados e agora as cabines, que ficam espalhadas pela cidade, tem uma porta automática que se abre apos o uso para ser completamente lavadas automaticamente. O tempo de lavagem é sempre o mesmo, pouco importa a sujeira do banheiro, mas ele pode ser mais ou menos longo de acordo com o peso da sua bexiga ja que a porta se fecha por um bom minuto. Daih que eu fui pela primeira vez, naquela noite. Aguardei pacientemente o usuario sair. A porta calmamente fechou ao mesmo tempo que uma voz automatica começou a narrar as etapas da lavagem onde o banheiro tem que estar vazio. Uma vez que ele estava limpo, entrei, fiz meu pipi transparente e voltei a beber. 

Mas uma vez que fomos uma primeira vez ao banheiro, morreu, amigo, as idas serao cada vez mais frequentes. Entao, 30 min depois, la estava eu de novo, soh que dessa vez, tinha duas pessoas na minha frente. Dois caras. Fiquei branca, porque acho que eles tavam la para fazer cocô - porque, né, o cara que ta realmente se mijando nao vai ficar esperando o Galvao Bueno dos toilettes narrar como é que o banheiro sera lavado, ele vai logo é no cantinho da rua e pronto (como um animal, alias. Mas bom, diante de uma grande necessidade, somos todos animais) mas isso ainda nao da motivo de violar alguém, amiguinhos. boa noite! Entao, era cocô. E, a cada etapa, a vozinha que narrava. E abre e fecha e lava e abre e fecha e caga e abre e fecha e lava e abre. Uma eternidade. E eu la, mudando de cor. Perninha cruzada. Olhos marejados. Arrepios. Abre caceta. Para de cagar. Limpa logo essa bunda. Meu deus, nao me deixa fazer xixi aqui, por favor. Eu sou tao jovem.

E dai, a porta abre. Tudo bem que ela leva 50 seg para abrir, mas ela abre. E dai eu entro no banheiro tentando andar o mais rapido possivel abrindo minimamente as pernas. Percebam. E a voz recomeça. 

- Porta automatica, fechando em cinco segundos para lavagem.
- Vai, vai, fecha.
- Porta fechada.
- Creioemdeuspaitodopoderosocriadordoceuvailogo 
- Iniciando a lavagem.
- *suspiro
- Chuuaaaaa! Chuuuuaaaa!
- Mami.
- Você vai mijar nas calças.
- ✝
- Lavagem finalizada. Abertura de porta.

Olha. Eu nao lembro de ter passado por situaçao semelhante antes (mentira, ja mijei nas calças varias vezes depois dos meus 15 anos). Entao, quando a porta abriu, eu entrei e ja fui mijando, mesmo vendo que a porta ainda nao estava totalmente fechada. Nao sei finalmente o que poderia contribuir de maneira mais decisiva para o fim da minha dignidade: mijar nas calças à vista de todos ou mijar no banheiro à vista de todos. Mas fiz minha escolha e posso dizer que a vida ficou menos sombria de repente. A unica ma noticia é que eu tinha razao sobre o uso do banheiro pelos caras. O banheiro é lavado, mas o ar nao é purificado.

Quais as liçoes de hoje, amiguinhas? Evitem andar sozinhas na Guillotière (sobretudo se vocês tiverem um roxo no braço), nunca aceitem dorgas de estranhos (de toda forma, eles nao vao te oferecer se você tiver um pipiu) e sobretudo, jamais, em nenhum caso, entrem num banheiro publico que tenha sido utilizado por um homem. Eh cilada, Bino.



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Perigo alado mora ao lado

Um perigo


Descobri recentemente que França e Brasil tem diferenças bem mais flagrantes nos seus costumes do que eu ousava imaginar. E eu nao me refiro ao fato de que a cor do McDonalds aqui seja verde. Tou falando de algo bem mais desconfortante. De assalto. Enquanto algumas das capitais brasileiras galopam rumo às primeiras posiçoes no raking de violência mundial, os assaltos na França seriam o sonho de qualquer paraibano. 

Pra quem nao sabe, eu moro numa casa com outras oito pessoas e, no final de semana passado, viajamos todos juntos, como uma grande familia, para a fazenda de um amigo. O final de semana tinha tudo para ser perfeito, mas duas coisas atrapalharam. A primeira foram as vespas. As pobrecitas foram desalojadas à força (e la nem vai ter Copa), alguém derrubou a casa delas por medida de segurança, entao, elas ficaram vagando doidonas por aih, sem saber o que fazer da vida - como eu, inclusive, nesse exato momento pos-hospital. Daih que elas infestaram o ambiente e, sempre que deixavamos à vista alguma comida ou bebida doce, elas se aproximavam. Algumas, incapazes de suportar o fato de serem sem-teto, se jogavam dentro de copos de suco de laranja e se afogavam. Familias inteiras pereceram dessa forma. Mas as bravas continuavam a vespar entre nohs humanos, sobretudo em torno de mim, certamente a mais doce. Mas eu nao fui uma das duas pessoas picadas porque ja tive uma experiência com vespas ha alguns meses que me serviu de liçao e me ensinou a respeita-las. Tinha um ninho de vespas perto da porta da casa e era comum vê-las voando pertinho da gente. Um dia, enquanto aguava o jardim, tive a brilhante ideia de molhar as vespas. Nao preciso contar que fui picada, eu espero. Que liçao aprendemos, amiguinhos? Vespas nao gostam de chuva.

Mas as vespas nao foram a pior parte do final de semana. Na noite do sabado, recebemos uma mensagem da unica pessoa que ficou na casa dizendo que haviamos sido assaltados. Apesar da nossa casa ser grande, ela esconde um fato bastante contraditorio no tocante ao nosso nivel de vida: somos pobres. Na verdade, nossa pobreza é mais uma questao ideologica do que propriamente econômica (pra que vocês vejam, eu sou tao privilegiada que até quando eu sou pobre, é por escolha): recuperamos tudo, nao compramos quase nada (e, quando compramos, é na loja de usados) e o preço que pagamos é outro: o principal sofa da sala tem um rasgao enorme. Cabe mais pessoas no rasgao que no sofah. E, pra avacalhar ainda mais, desenhei no estofado um pênis gigante (porque tenho 12 anos) que foi mascarado por um desenho subsequente de um Bart Simpson (de olhos bem bem grandes). As cadeiras sao completamente diferentes em tamanho e conforto e... nao se trata de estilo. Ou seja, o ladrao deve ter ficado bem decepcionado ao ver o estado da casa.

No entanto, temos nossa vaidade tecnologica e, quando soube que tinhamos sido assaltados, pensei logo nos computadores, maquinas fotograficas etc. Na verdade, foi tao duro saber que meu computador nao estava mais no meu quarto, que a unica coisa que pensei foi "tudo bem, você ja entregou sua monografia". Desapego de emergência. Mas pouco a pouco as informaçoes foram chegando: "nao roubaram nenhum computador". Imediatamente, lembrei de um casal conhecido que teve a casa assaltada em Paris. Levaram correntes de ouro, mas deixaram o notebook. E deram uma cagadinha no meio da sala deles. Acho que deve ser uma marca da gangue. Apos um breve momento de reflexao, comecei a avaliar se seria preferivel encontrar meu computador e um pedaço de cocô no meio do meu quarto ou minha mesa vazia e um chao limpo. Encontraram um cocô na cama de um coloc, mas tinha sido obra de um dos gatos da casa. E alias, ainda resta duvidas se se trata mesmo de um cocô ou de um vômito...

No final das contas, eles soh levaram o cartao de credito da conta bancaria da coloc, mas deixaram computadores, tabletes, mp3, maquinas fotograficas, bicicletas e minha corrente de ouro. Entrando no meu quarto, encontrei metade das minhas roupas no chao. O que podemos concluir? A especialidade dos ladroes franceses é fazer bagunça. Eles entram nas casas alheias na calada da noite e bagunçam a casa toda. Mas nossa casa ja é tao bagunçada que o ladrao deve ter pensado "nossa, essa casa ja foi assaltada. Vou dar uma arrumadinha". Até torcemos para que o ladrao tivesse roubado o sofa, mas ao voltarmos, o sofa ainda estava la, com pênis e tudo. Os policiais vieram pra tirar as impressoes digitais, mas tinham tantas que eles desistiram - conhecendo o fluxo de pessoas na casa, da pra entender porque. Inclusive, minha memoria nao permite saber se ja contei isso aqui, mas uma vez, um dos colocs tava no terraço fumando quando escutou o carteiro, da calçada, falando baixinho pro colega em treinamento: "olha, quando você tiver uma carta destinada a essa rua e nao souber em qual casa entregar, pode entregar nessa aqui". 

Pensando bem, eu até que tenho sorte com assaltos. Ano passado, quando eu tava no Brasil, mais especificamente no hospital, minha irma foi assaltada enquanto trazia dois computadores na mao, o meu e o dela. O ladrao chegou, puxou o computador dela e deixou o meu - como vocês podem ver, minha sorte soh perde pra minha solidariedade. Minha outra experiência com (quase) assaltos, data do começo da minha adolescência. La estava eu em Joao Pessoa, indo pro shopping com uma amiga. 19h, aparelho nos dentes, parada de ônibus vazia, chegam dois meliantes de alta periculosidade, um deles, com uma arma na mao. Eu poderia ter chorado, desmaiado, corrido, dado cambalhota, mas nao. Eu comecei a falar. Falar, falar... Puxei altos papos com o ladrao até ele reclamar que eu tava olhando demais pra cara dele. Lembro que tive medinho, mas lembro mais ainda de como o cara era desajeitado. Em um momento, ele colocou a arma debaixo do braço e ficou filosofando sobre o bem e o mal. Realizem. Balanço do assalto: um ticket de ônibus.

Finalmente, o nosso "assalto" teve seu lado positivo: a seguradora vai repor a porta arrombada - que ja estava meio defeituosa. Tou vendo que a maior ameaça na França sao as vespas.

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sexta-feira, 31 de maio de 2013

E que dia é hoje, amiguinhos?

Poderia ter sido apenas mais uma sexta-feira, como qualquer outra, onde saio com meus amigos e encho a cara. Mas essa, era uma sexta-feira especial. A sua "especialidade" começou pelo fato de que eu tive que trabalhar - nao trabalho nas sextas, tenho mais tempo para diversao e nenhum dinheiro para isso. Sai do trabalho e, antes de pegar o caminho que leva ao meu quarto, telefonei para um amigo (M.) que me chamou pra sair. 

"AAEE, LULUU! BORA SAIIRR! AAAEdeHHHhhhWOOW!"

Apos a sequencia de barulhos extravagantes - que mais diziam sobre o seu estado alcoolico* que propriamente sobre sua felicidade em falar comigo - subi na minha bicicleta envenenada e me juntei a M. e seu amiguinho na casa de terceiros. Eram 22h e minha barriga nao via comida desde às 13h. Pretendia voltar pra casa cedo, entao, quis ser rapida e eficaz na bebedeira: tomei meio litro de cerveja a quase 9% e ja cheguei no barco (era uma boate-barco) vendo estrela. Segundo o quadro que se encontra abaixo, eu estava "euforica" e minha diminuiçao de julgamento iria se manifestar numa aposta com M. Eu:

- Aposto que teu xixi nao chega até a rua.
- Ele chega sim.
- Que nada, ele tem ainda a metade da calçada pra percorrer e ta perdendo força.
- Chega!
- Se ele chegar até a rua, te pago uma caipirinha.

E foi assim que eu perdi 8 €.

Etanol no sangue (gramas/litro)EstágioSintomas
0,1 a 0,5SobriedadeNenhuma influência aparente.
0,3 a 1,2EuforiaPerda de eficiência, diminuição da atenção, julgamento e controle
0,9 a 2,5ExcitaçãoInstabilidade das emoções, incoordenação muscular. Menor inibição. Perda do julgamento crítico
1,8 a 3,0ConfusãoVertigens, desequilíbrio, dificuldade na fala e distúrbios da sensação.
2,7 a 4,0EstuporApatia e inércia geral. Vômitos, incontinência urinária e fezes.
3,5 a 5,0ComaInconsciência, anestesia. Morte
Acima de 5MorteParada respiratória

Entramos na boate, fomos até o bar e no final do copo, eu ja tinha passado pra terceira etapa do nosso quadro: excitaçao. Puxei papo com duas mulheres que estavam ao lado como se tivessemos feito  faculdade juntas. Mas elas eram tao legais! Acho que eu devo ter dito isso pra elas. Quis outra caipirinha, mas os meninos ainda nao tinham terminado a deles. Comecei a saltitar, a achar a vida linda. A vida era linda. A musica acariciava meus ouvidos e eu soh pensava em dançar. Fui beber.


No segundo copo, fomos pra o terraço do barco (exatamente este que estah ao lado) e continuamos a conversar divertidamente. Eu ja nao queria mais dançar. Eu queria voar. Eu queria voar, mas meus pés estavam estranhamente pesados. A partir desse momento, eu nao lembro de muita coisa, so de ver um novo copo na minha mao. No final dele, nao tive duvidas: foi o dito que me levou a dizer, segundo testemunhas, "vou ali vomitar". Estupor. 

Eu sai chutando os pés e me locomovendo como um polvo, por propulsao. Me jogava pra frente, dava dois passos e ia pra direita. Me jogava pra frente, dava três passos e ia pra esquerda. Foi assim que cheguei no exterior do barco, sentei sei la onde, abri as pernas e, sem fazer nenhum esforço, vomitei. Nao sei direito o que vomitei, nao averiguei, mas vomitei tanto que desceram lagrimas. Quando pensei que ja tinha acabado, vomitei mais. 

Celular toca. Eh M. Olho, ignoro, vomito. Tentei escrever uma mensagem mas os dedos nao correspondiam ao comando do cérebro. Foi uma luta de Titas. Meu cerebro aos frangalhos e meus dedos aflitos. Consegui escrever "Es dtour". Deve ser algum pedido de socorro em alguma lingua alienigena, mas seja como for, desisti de me comunicar com M. Tentar aprender a escrever levou menos tempo e foi mais facil que aquilo. 

Luzes... sons ao longe... e um "Lulu" familiar. M. e seu amigo me encontram e  avaliam a situaçao:

- O que é que a gente faz?
- Nao sei, acho que ela nao pode pegar a bicicleta.
(vomito soh de me imaginar fazendo algum esforço que seja)
- Eh. 
- Bora chamar um taxi.

Eu soh queria morrer. Sentia que minha alma tinha ido embora passear. Fiquei la, dobrada em dois, olhando pros meus pés. Um taxi brotou do chao, mas eu nao tinha forças pra me levantar. Entao, eles me levaram, me jogaram no carro e tudo o que eu fazia era grunhir. Entrei no carro e dormi. Abri os olhos e, com uma emoçao nunca antes vivida, me deparei com minha casa. Fechei os olhos, abri e estava na sala. Fechei os olhos, abri e tava no banheiro vomitando. Fechei os olhos, abri e  tava na minha cama. Era 1h da manha.

No dia seguinte, acordei como uma flor. Desconfiada, vi uma garrafa de agua intocada ao lado do colchao. Me sentia bem. Minha alma tinha voltado. Sentei. Tentei lembrar da minha noite e senti uma coisa estranha. Vergonha. Cinco anos sem vomitar para acabar sendo derrotada por meio litro de cerva e três caipirinhas. Fui humilhada! Logo eu que raramente tenho ressaca. Logo eu. Mas vômitos sao uma liçao de vida. Um ensinamento. Uma das ultimas vezes que vomitei (senao a ultima), foi quando morava no Brasil. Depois de uma festa na casa de Camilo, acordo e, ao lado dele, vejo uma bacia cheia de vômito. Olho pro coitadinho e pergunto:

- Amor, você vomitou?
- Eu nao. Foi tu.

Mas agora, vendo essa tabela, acho que tive sorte com essa coisa de incontinência urinaria e fezes. 

Quatro dias depois, fui buscar minha bicicleta. Meu maior medo era de encontra-la sem a sela. Mas a sela estava la, assim como o guidao e os pneus. A unica coisa que faltava era o conteudo esperado da câmera de ar: alguém excitado, confuso ou euforico, secou meus pneus. Entao, tive que levar minha bicicleta pra passear, debaixo de chuva até a casa dos meus patroes e depois pegar dois metrôs lotados (com a bicicleta) até a minha casa. "Valeu a pena, Luciana?", indaguei-me. Valeu, pois vocês tem um poste no blog e eu tenho uma liçao: nunca mais vou beber caipirinha. De barriga vazia. 




* minha dislexia bêbada me fez escrever "alcoolitro".  Gente.


quinta-feira, 8 de março de 2012

Um passo à frente

Pais dos guris programaram passar dez dias de férias no chalé da familia da mae que fica em Montgenèvre, perto da fronteira com a Italia. Gentis como sao, resolveram levar a babah deles na mala. E entre ficar em casa coçando o saco que eu nao tenho e viajar, bom, vocês sabem. Foi uma escolha dificil. E por falar em dificil, eu vou contar uma historia para vocês. 

Para chegar em Montgenèvre, eu tinha que pegar um trem em Lyon e ir pra Uma Cidade que Eu Esqueci o Nome. Numa Cidade que eu Esqueci o Nome, eu esperaria 40 min e pegaria em seguida um segundo trem pra Oulx, na Italia. La, finalmente, eu pegaria um ônibus para Montgenèvre onde meus patroes normalmente estariam me esperando. Mas dessa forma, tudo seria muito facil e a vida exige  emoçao.

As cinco pessoas que desceram comigo do trem desapareceram nos carros aquecidos de suas familias. Entrei na estaçao, pedi um bilhete para Montgenèvre mas, devido um pequeno atraso de 30 min do meu segundo trem, acabei perdendo o ônibus. O ultimo ônibus. Eram 20h e nevava como nos filmes de Natal. Perguntei que de outra forma eu poderia chegar à Montgenèvre e o cara do guichê deu de ombros, mas depois respondeu, grosseiramente, que, talvez, de taxi. E quanto custaria esse taxi? "30 euros". Eu teria resolvido meu problema se tivesse taxi na estaçao. E se eu tivesse dinheiro comigo. 

Saquei meu celular para ligar pros patroes, mas ele nao tinha sinal: eu estava na Italia. Pensei "gente, é agora que chega um estuprador pra comer meu pipiu?" Atravessei a rua e entrei no unico estabelecimento aberto da regiao, um bar. "Est-ce que vous parlez français?" Nao, eles nao parlavam français. Ok, Luciana, nao priemos cânico, veja isso como uma boa oportunidade de por em pratica seu  inglês. 

- Eu, I... I où est-ce que... I... There's un hotel par ici? 
- Sim. Você sai do bar e ha um à esquerda, à duas portas. 

Sai do bar, dobrei à esquerda e encontrei um hotel fechado. Neve, neve, neve. Apertei a campainha e uma mensagem automatica em italiano disse me disse que "piasccia netcha di vionglorio mercredile sue pitto!". 

Eh o quê, homi?!

A mensagem, como eu viria a saber depois, dizia que o hotel fechava nas terças. Era uma terça. Voltei pro bar disposta a vender meu corpo em troca de um lugar para dormir. Com a sorte que eu estava, acho que nem o estuprador da cidade aceitaria. Mas otimismo é tudo. "Moço, tem outro hotel por aqui?" Tem. "Você vai direto, chega até o final da rua, dobra à direita, dobra à esquerda, passa pela ponte, entra no beco escuro, depois desce, depois sobe, depois desce, depois dobra. E cuidado com o lobo". 

Sai do bar e uma figura malassombrada me perguntou se estava tudo bem, se eu queria um taxi. Olhei em volta e nao havia taxi nenhum. Recusei gentilmente o taxi inexistente e fui ao encontro do desconhecido. Subi, desci, subi, desci, subi, desci (minha gente, eu minto muito, o caminho era facil) e, finalmente, encontrei o tal hotel. Fechado. Respirei fundo, mas nao pra ficar calma, mas pra pegar fôlego pra gritar. Gritei em português, em francês, em italiano e em inglês. Mas gritei com tanta desespero fé que a dona do hotel apareceu. Meu nome: Luciana Alivio Aquino. Prazer. 

So me restava esperar o dia seguinte. Fiquei imaginando o quanto os pais estariam preocupados, afinal, nao se fazem mais babas como eu, e morta, eu nao sirvo pra muita coisa. Mas eu nao tinha muito o que fazer. O pior da noite foi ver que nao havia pasta de dente no banheiro. Gente, foi horrivel.

No dia seguinte, pedi o computador da dona do hotel e mandei mensagens desesperadas a quem conhecia para que alguém pudesse contactar Camilo, que contactaria os pais, que me contactariam. Deu certo, ja vivia emoçoes demais.

A primeira pergunta que os pais me fizeram quando me encontraram: e por que tu nao ligasse do bar pra gente? Errr... Nao sei.




terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quen

De novembro à abril: Luci

Sei que passei dez dias sem postar, mas esse nao é um post para lembra-los de que estou viva. Bem pelo contrario: é um post de despedida, pois estou morrendo, caros leitores. Isso é, se catarro matar. Minha gente, esse frio é muito frio! Como ter saude quando você tem que atravessar a cidade debaixo de -15°? Eu nao estou acostumada a esse tipo de vida. Na Paraiba, a gente soh entende o conceito de gelado por causa do sorvete. Porque minha terra tem palmeiras onde frita o sabia. As aves que aqui gorjeiam também estariam fritas por la. 

Tudo começou com uma pequena irritaçao na garganta no domingo. A irritaçao foi se desenvolvendo durante esses dias a tal ponto que, ha cinco minutos, eu tossi uma coisa que, definitivamente, nao pode ser de origem humana. Tinha uma cor que nao é obtida na natureza. Gente, eu estou com medo. Faz três dias que eu nao sinto o cheiro de nada. Minha voz ta linda. Quando eu falo, os patos respondem. Mas as minhas obrigaçoes como babah desconhecem meu estado de saude e o sofrimento é imenso quando tenho que buscar os guris na creche. 

Como sou uma garota de sorte, num dos dias mais frios de Lyon, fui à creche e nao consegui armar o carrinho de bebê. Tentei de todas as maneiras, chamei duas crechetes para me ajudar e nenhuma delas conseguiu destravar aquela PORRA de carrinho - que é duplo e parece um tanque de guerra. Resultado: as crianças tiveram que voltar para casa à pé. Mas eu precisava levar o carrinho junto. O percurso creche-casa, em condiçoes normais, dura em torno de 15 min, mas iriamos acompanhar o ritmo de um bebê de um ano e meio. Visualizem. 

Peguei o carrinho com uma mao, peguei a guria com uma outra mao e o guri com uma terceira mao (nao me perguntem de onde surgiu essa terceira mao, mas leiam Darwin) e começamos a caminhar. Cinco minutos depois tinhamos avançado 67 cm. Calculei que chegariamos em casa no inverno seguinte. Olhei para o Céu e agradeci por aquele momento maravilhoso. Meia hora depois, chegamos na esquina onde deveriamos atravessar uma rua. Crianças querendo a todo custo soltar minha mao e eu com medo de quebrar ossinhos alheios. 

Quando chegamos em casa, eu estava mais suada que pano de cuscuz. Quando a mae dos guris ouviu minha historia, ela disse que eu poderia ter deixado o carrinho na creche. "Eu também poderia ter deixado seus filhos na creche". "Que nada, foi tudo super tranquilo, tao bom! Adorei! Precisamos tentar de novo". 

E quando o problema nao é desdobrar o carrinho, é dobra-lo. Eu sei que é vergonhoso que eu, como babah e Homo Sapiens, nao consiga manusear um carrinho de bebê, mas é que, normalmente, o carrinho ja estah armado, entao eu nunca lembro das instruçoes dadas ha tempos pelos pais quando preciso delas. "Para dobrar o carrinho é muito simples, Luciana: primeiro você aperta esse botao, empurra o carrinho pra baixo, puxa essa alavanca, gira o carrinho, joga ele pra cima, bate palma, entoa o hino da Tanzania (em aramaico, nao esqueça), pula três vezes, empurra e, quando você escutar um clack, c'est bon". Véi. 

Um belo dia, cheguei no prédio com a gurizada, o carrinho de um soh lugar e as compras. Dou de cara com um elevador quebrado. Agora eu tinha ali a oportunidade de ver quantos invernos seriam necessarios para chegar ao terceiro andar com as crianças. Eu poderia ter dobrado o carrinho e coloca-lo nas costas, como uma mochila, mas claro, nao consegui dobra-lo. Peguei o carrinho com uma mao, os sacos de compras com a outra e vi bravamente a guria subir as escadas, toda lindinha, segurando no corrimao. Enquanto isso, o guri ia na frente dela: dava um passo e voltava três cada vez que a luz, automatica, desligava. Aih a gente subia no escuro até encontrar o proximo interruptor no andar seguinte. "Guri, anda! Soooobee! Segura! Segura no corrimao! Que monstro o quê, menino! Sobe logo!" Essa sou, pura e calma. Entao, me digam, como nao ficar doente? 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Quanto vale teu vale?

Ontem foi um dia, como eu diria?, especial. Tinha tudo para ser um dia feliz ja que, além de ser aniversario de Camilo, eu iria ver amigos que estavam em Lyon. Mas os efeitos da macumba lançada por algum ser das profundezas terrestres ja começaram a se manisfestar logo pela manha: chegando na casa dos guris para trabalhar, Chefia anuncia que os guris pegaram piolho. Repentinamente, minha cabeça começa a coçar. Ele diz que lavou quase todas as roupas dos guris, os lençois das camas, as capas dos sofas e que eu deveria passar ferro em tudo "rapidamente" para garantir que os possiveis piolhos ninjas que possam ter sobrevivido à lavagem na maquina morram. 

Quando abri o quarto onde as roupas estavam estendidas, tive palpitaçoes e uma leve tontura. Minha gente, pela quantidade de roupas, ele deve ter lavado até as cuecas do vizinho. Nao tinha um soh objeto dentro do quarto que nao tivesse uma toalha, uma calça ou um lençol pendurados. Até os bichos de pelucia foram lavados e deveriam ser passados. Passei roupa nessa tarde até o braço perder o movimento, depois continuei a sessao usando o pé direito. E ainda falta.

Nessa ultima semana, ao sair pra bares com alguns amigos, eu, safadamente, tomei uma cerveja. Duas. Eu tomei algumas cervejas. Abri uma exceçao no regime, tudo em nome da sociabilidade. E, por ser aniversario de Camilo, eu iria novamente fazer o sacrificio incomensuravel de beber algumas cervejas junto a ele e aos amiguinhos citados. Mas pelo cansaço, pela preguiça e pelo peso na consciência por estar sabotando meu regime, desmarquei de ultima hora a saida ao bar. Sorry, folks. 

Ma que porra é essa, Deus? Daqui essa porra.
Mas qual é o décimo primeiro mandamento divino? Aquele que estah registrado la no finalzinho da tabuleta de Moisés? Nao fuleiraras com teus amigos. Resultado: fui castigada. Saih do trabalho e fui encontrar Camilo (que estava perto do bar) para voltarmos para casa juntos. Quando passei meu cartao de transporte, e assim que entrei na estaçao, senti algo na minha mochila. "Meu Deus, minha mochila mexeu. Estas viva, mochila?", questionei. Instintivamente, apalpei a mochila e vi que ela estava aberta. Tive palpitaçoes e uma leve tontura. Olha, eu vou largar essa vida de babah e me registrar na associaçao dos super herois anônimos porque, minha gente, eu pressinto o perigo. 

Abre parênteses.

Quando estive no Brasil da ultima vez, deixei meu passaporte em segurança na casa de um amigo. Nao quis levar para casa dos meus pais, pois o caminho entre o ponto de ônibus e a casa deles era (é.) meio tenso. Somente no dia de voltar para França, eu coloquei o passaporte na bolsa e fui para casa dos meus pais pegar minha mala. E o que foi que aconteceu, amiguinhos? Um xovem rapaz passa por mim numa bicicleta tao tranquilo quanto um passarinho que banha suas plumas na fonte da praça. Ele passou em sentido contrario ao meu e nem mesmo me olhou. Foda foi quando o passarinho se transformou em gaviao, fez meia-volta e tentou raptar minha bolsa. Por que ele nao conseguiu? Porque eu sou cobra criada (ok, parei com a metaforas de merda hihi) e segurei com todas as minhas forças a bolsa que ele tentou puxar. Mas essa é uma outra historia.

Fecha parênteses.

Quando vi que minha bolsa estava aberta, procurei minha carteira e nao encontrei. Olhei em volta, identifiquei o possivel autor do furto e, rapidamente, dei um salto e me pus diante do meliante. Puxei minha espada da bainha, ele fez o mesmo e entao travamos um duelo sangrento. Camilo chorava copiosamente no lenço de seda branco que eu havia ofertado a ele quando do nosso matrimônio. Mas no final, o bem triunfou sobre o mal! A proposito, eu sou o bem, caso vocês tenham ficado na duvida. 

Mas ha uma outra versao sobre essa historia. Quando vi que minha bolsa estava aberta, procurei minha carteira e nao encontrei. Olhei em volta, identifiquei o possivel autor do furto e... E pensei "legal, nao tenho tempo de verificar se a carteira pode estar escondida entre os outros objetos da bolsa, mas também nao posso deixar passar a oportunidade de abordar aquele homem que tem a maior cara de quem ta com minha carteira". Era um cara que parecia vir da Europa do leste. Beijos pro meu preconceito, porque quando abordei o cara, ele tinha minha carteira e a devolveu sem dizer nada. Eu agradeci e disse que "isso era importante pra mim". Happy End. Ou nao.

Este blog acaba de ganhar uma nova tag: vive la souffrancePorque continua.

Chegando em casa, Camilo abre uma garrafa de champanhe, gentil presente dos pais dos guris. Soh que minha criança aniversariante, ao tentar ver a resistência da taça, "eu sempre faço isso...", quebrou o copo e cortou um dedo. Achei que seria mais seguro para todos nohs se aquele dia acabasse logo, entao, fui dormir. 

Como presente, comprei para Camilo ingressos para uma apresentaçao do Cirque du Soleil. Na verdade, o presente foi para mim, porque, posso ser brega?, obrigada, sempre tive esse "sonho" de ver o Cirque du Soleil. Sempre. Sempre que via algum video, eu deixava escorrer uma lagriminha de emoçao. Hihi Entao, pensei, por que comprá-lo, por que não comprá-lo? Comprei-o! Aceite, é de coração, sem o menor interesse... 

Querendo dar outro presente, mas sem ter dinheiro, decidi ofertar algo que eu pudesse fazer de graça. Ui! Resultado: 

Gente, ele nem deu bola pros ingressos, mas adorou o vale. Ofereci dois, na verdade, o outro é um vale massagem, valido para o mesmo periodo. Se algum dia vocês quiserem me oferecer algum desses, eu gostaria de receber o vale dinheiro. 




segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Espalhando fluidos ou o primeiro post de 2012

Antes de tudo: feliz 2012, leitores queridos do meu coraçao! Queria agradecer todas as mensagens desejentas de amor, paz e saude que vocês deixaram, mas da proxima vez, desejem dinheiro. Obrigada.

Nesse exato momento, Camiloulou e eu estamos em Roma. Resolvemos passar o Reveillon aqui. Ta sendo bem legal, tudo é muito curioso. Assim que chegamos, fomos ao supermercado. Vimos alguns gladiadores fazendo compras, tinha alguns imperadores levando seus cachorros pra passear... Também ja visitamos alguns monumentos importantes, mas ainda falta muito pra ver.

Demos muita sorte e ficaremos alguns dias no apartamento de uma amiga de Camilo. O apartamento, nesse momento, esta vazio, mas na noite em que chegamos (30/dez), uma das colocs da amiga de Camilo estava aqui. O quarto da amiga de Camilo é super legal, mas a porta é meio problematica. Eh uma porta de correr de madeira bem pesada que emperra o tempo todo e faz o maior barulho quando mexemos nela, o que me garantiu um certo problema: como a dieta exige que eu beba, no minimo, 1,5l de agua por dia, vivo visitando o banheiro de madrugada. 

Primeira ida ao banheiro da madrugada: levanto da cama completamente desnorteada, tento abrir a porta do quarto pra sair, mas tudo o que consigo é fazer com que ela ranja violentamente. Com medo de acordar a coloc da amiga de Camilo, resolvi tentar sair pelo pequeno espaço aberto. Fiquei de lado, sequei a barriga, parei de respirar e, enquanto passava, coloquei a lingua pra fora num movimento involuntario e acabei lambendo o vao da porta. Olha, sei nao. O importante é que eu consegui sair do quarto e que agora eu conheço o gosto do imobiliario romano. 

Mijei e voltei pro quarto (na volta, guardei bem a lingua na boca).

Até os 26 anos, eu espero
Segunda ida ao banheiro da madrugada: nao houve, mijei na cama mesmo. "Nao, Luci, você so pode estar brincando. De novo?! Você nao tem vergonha nao?". Vergonha eu tenho, o que eu nao tenho é controle sobre essa bexiga. Ha dois anos, foi na cama do cunhado. Tou começando a achar que minha uretra tem algum problema pessoal contra mim. Uretra, querida, a gente poderia resolver nossas diferenças de outra maneira. O que você acha? Porque é meio deprimente saber que a criança de dois anos e meio que eu cuido mija menos na cama do que eu.

Na verdade, pra minha sorte (ou pra sorte da dona da cama, nao sei), eu consegui levantar antes de despejar o xixi na cama e a grossa calça que eu usava pra dormir absorveu tudo. Daih que foi super legal lavar calça mijada as 5h da manha. Entao, no dia em que eu for dormir na casa de vocês (se é que alguém vai querer, diante do meu historico), podem providenciar lençois e fraldas. Pampers é moh legal. A medida é + 26, se liguem. 

E foi assim, em grande estilo, que me despedi de 2011.
2012: veinimim!


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Natal mortal

Nao me olhe assim, eu estou tao confuso quanto você


Contei como foi passar o Natal com os pais de Camilo, mas a provaçao real foi passar Natal com a familia da mae dele. No dia 26, fomos almoçar com a familia inteira e la vai Luci ter que (re)decorar todos os nomes de tios, tias e priminhos. Os bebês cabeçudos que vi no Natal de dois anos atras agora estavam andando, irreconheciveis. Chegamos às dez da manha porque Camilo seria o responsavel por acender o forno à lenha (na esperança de que os pernis ficassem prontos ao menos pro Natal de 2012). Enquanto meu querido se entretia com pernis alheios, eu esperava a vida passar sentada no sofa, com as maozinhas em cima dos joelhos. 

Fiquei assistindo com o avô de Camilo aqueles programas de auditorio. No momento, estavamos assistindo a um quadro com três casais onde o apresentador fazia perguntas às mulheres sobre a vida do casal, que haviam sido feitas anteriormente ao homem. Este deveria mostrar uma placa com a provavel resposta que a esposa daria. Fiquei tentando calcular o quanto isso poderia medir o entrosamento de um casal ao me dar conta de que, caso as perguntas fossem feitas à mim, julgariam que eu nao conheço Camilo, porque eu nao tinha idéia do que responder às perguntas feitas. Ja bastante cansada do besteirol, eu:   

- Sogra quirida, você ta precisando de alguma coisa?
- Nao, Luci, obrigada.
- Mas eu posso fazer alguma coisa.
- Nao, obrigada, querida.
- Minha senhora, entenda: eu quero fazer alguma coisa. 

Depois de uma certa pressao, ela me pediu pra descascar uma manga. Fui pra cozinha como se tivesse recebido A missao. Tipo assim, Papai Noel pedindo pra eu entregar os presentes porque ele esta impossibilitado, sabe. A manga, como eu, vinha do Brasil. Levei um papo com essa manga, mas ele durou pouco graças à minha grande eficiência e destreza no manejo de facas que permitiu que a manga estivesse descascada em um minuto. Foi o ponto alto do meu dia. 

- E agora, eu faço o que? :D
- Nada.

Voltei pro meu sofa. 

Esperei, esperei e as pessoas começaram a chegar. Cumprimentei à todos com um sorriso amarelo e esperançoso de que ninguém resolvesse ir além do cumprimento. Tipo assim, meu povo, eu sou mais do mato que Jeca Tatu e conversas sobrias com pessoas desconhecidas me deixam em estado de pânico. Alheia a este fato, uma tia de Camilo se aproxima e puxa assunto. Pensei em fingir um desmaio, mas talvez isso levasse ainda mais atençao sobre minha pessoa. "E se eu neutraliza-la com um golpe na nuca?", considerei. Melhor nao, é Natal, época de amor e paz. Luciana, que tal simplesmente responder à pergunta dela? Você é capaz, deixe de drama. E, quando vi, la estavamos nohs falando das galinhas

Camilo voltou do jardim com um cheirinho de fumaça e, a essa altura, eu ja estava com tanta fome que se tivessem colocado o casaco dele num prato, eu teria comido. Sentamos à mesa e ficamos esperando a boia. Quer dizer, o almoço. Seguindo o protocolo, depois dos aperitivos, que nao provei, tivemos a entrada. Meu coraçao se encheu de alegria quando vi camaroes em uma bandeja. E olha que eu nao como camarao. Quer dizer, nao comia. Mas com minha limitante dieta, era isso ou nada. No entanto, tive que recusar ponche, pistache, frutas, queijo, patê, pao, vinho, batata e feijao. Acho que a familia de Camilo deve ter pensado "nossa, que moça mais contida, nao é mesmo?" e eu la, quase comendo a toalha da mesa, as lombriga tudo gritando.


Como eu sou uma pessoa prevenida, preparei e levei um tomate recheado com ovo e queijo sem gordura. Parece bizarro. E era. E quem se impooortaaa? Comi e comi feliz. Logo em seguida, os pernis de Camilo apareceram no meu prato. Delicia. E pronto, essa foi a ultima coisa que pude comer. 

"Vocês nao tem idéia das coisas
que aparecem no Google quando
digitamos 'raspadinha'"
Uma prima de Camilo deu pra cada convidado uma raspadinha cujos prêmios eram de 1€, 2€, 6€, 20€, 100€, 500€ e 1000€. Tratava-se de um jogo da velha com os prêmios indicados nas linhas e colunas. Algumas pessoas chegaram a ganhar 2€, mas a grande vencedora do dia fui eu: ganhei um super prêmio de 6€! Fiquei ainda mais animada com o ganho quando vi, no verso do bilhete, que soh havia 7 mil prêmios de 6€. Alguém ainda me deu seu bilhete premiado de 2€, o que fez com que eu saisse daquele almoço 8€ mais rica. Fiquei imaginando o que eu faria com tanto dinheiro. 

Em seguida, pedi a Camilo pra darmos uma volta pelo bairro. A idade avançada do avô de Camilo (mil anos) e o fato dele estar na maioria do tempo numa cadeira de rodas esperando a morte chegar, fez com que Camilo e eu entrassemos numa discussao sobre morte, eutanasia e todas essas questoes apropriadas pra uma época de Natal. Ele disse que nao gostaria de viver em estado vegetativo e que respeitaria minha vontade caso eu quisesse partir dessa vida. Pegando o gancho e lembrando do programa de auditorio visto naquela manha, eu disse:

- Ah, olha, se um dia eu engravidar...
- Hum.
- ...e sofrer um acidente grave...
- Sim...
- ...e o médico disser "ou ela ou o bebê", você me escolhe, viu?
- Eh?
- Eh. 
- Por que?
- Porque um bebê a gente pode fazer de novo, mas outra Luci nao.
- Ta bom.

Silêncio. 

- Alias, alias! Depende. Se eu soh tiver 10% de chance de sobreviver, escolhe o bebê, ta?
- Ah, nao! Escolhe logo agora! Eu nao quero ter que escolher!

O bixinho ficou tao aflito em ter que saber o que fazer caso eu ficasse gravida e caso sofresse um acidente grave e caso o médico so pudesse salvar uma pessoa... O que importa é que, caso a gente participe de um programa de auditorio com esse jogo de casais, a gente acertaria a questao - caso ela fosse posta. 

Depois dessa conversa, voltamos pra casa e, sobre a mesa, a sobremesa. Umas pêras, calda de chocolate, uns doces que a mae de Camilo havia trazido de uma viagem à Turquia e, claro, chocolate. Eu nao sou do tipo que vende a mae por um pedaço de chocolate, mas passei momentos dificeis ao ver o pessoal se deliciando em meio a todo aquele cacao. Desejei a morte daquelas pessoas, queria que elas engasgassem e morressem entaladas. Foi um Natal tranquilo. 



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Entao, nao é Natal...

Ontem tivemos nossa ceia de Natal. Ok, eu sei que é um pouco cedo para as  confraternizacoes natalinas, mas 05 de dezembro era o unico dia em que todos os colocs estariam em Lyon, so... 

So que a pobrezinha da Luci, coitada dela, muito provavelmente nao poderia confraternizar, gastronomicamente falando, com seus amiguinhos. Eu teria que fazer sozinha minha propria ceia. Foram dias isolada na minha imensa biblioteca culinaria composta por três livros. Dolorosas duvidas acerca de qual receita escolher. Como sobremesa, escolhi algo totalmente original: uma Boûche de Noël ("tora" ou "lenha" de Natal, segundo Wikipedia). 


Ca-la-ro que essa boûche nao veio da minha cozinha. A minha ficou mais parecendo um Graveto de Natal. Mas olha, eu fiquei tao feliz em fazê-la, vocês nao imaginam! Eu tenho sido um fracasso no preparo de sobremesas desde que comecei esse regime. Ou vocês pensam que é facil fazer sobremesa sem açucar? Tentem. Dificilmente eu consigo acertar na dose ou na escolha dos adoçantes recomendados nas receitas, o que me garante sobremesas sem gosto. Cuspi no prato a ultima torta de limao que fiz. 

Entao, coloquei todas as minhas esperanças na realizaçao dessa receita. E, com muito orgulho, admito que ela nao ficou ruim. Veja, eu nao disse que ficou boa. Mas ela estah bastante comestivel. Um amigo provou e disse que parecia uma esponja. Fiquei ofendida, mas depois de ter lido o artigo do Wikipedia sobre o que seria uma "Boûche de Noël", mudei de opiniao: A combinação mais comum é um básico bolo-esponja amarelo, congelado e recheado com chocolate e creme de manteiga. Bolo-esponja. Viram? Nao passei tao longe do que eu deveria ter feito. 

O que tem cor de esponja, gosto de esponja e nao é uma esponja?

Comecei a falar da sobremesa, mas o que fiz primeiro foi a entrada. A receita escolhida foi Bouchées de concombre aux oeufs de lump. Ou seja, pepino com ova de peixe. Nao parece apetitoso? Escolhi porque a foto era bonita. Obti sucesso total! Vejam a foto do livro de receitas: 


Agora, vejam as que eu fiz:


Convenhamos, nao ficou lindo? Veja bem, eu nao disse que ficou bom. Mas trata-se de uma receita muito elaborada, dificilima de fazer: abre-se um buraco num pepino, entala ele de queijo e enfeita com ovinho de peixe - que, diga-se de passagem, eu acho um nojo. Mas o que importa é que, com 4kg de carne, comemos feito porcos e passamos uma noite feliz. 


Luci, em pleno processo de criaçao









Notem a nossa bela arvore de Natal colada na parede. Criaçao (super) original da menina de faixa no cabelo.




Talvez

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