domingo, 8 de setembro de 2013

E a mae, joana.


broder, e essa força?

por aqui, tudo bem. posso começar a falar do tempo, ja que a senhora sempre pergunta se aqui ta frio ou quente. é verdade que o clima pode influenciar bastante nosso humor, mas ultimamente tenho me sentindo tao bem, que deixei de ir à janela checar o rumo dos ventos pra decidir se ponho um sorriso ou se o guardo no bolso. gostaria de explicar porque me sinto bem, mas pra sua decepçao, é sem motivo aparente, mais ligado às minhas drasticas mudanças de humor do que propriamente à um emprego novo. ou esse bem-estar seja talvez porque eu tenha me dado conta de que um emprego, ainda que novo, nao vai contar em nada à minha felicidade. talvez conte à minha conta. mas nao conto com isso. mas te conto que (parei) estou bem simplesmente porque, aqui, ja sofri demais. mas nao era um sofrimento sabido. eu soh soube que fui triste porque agora eu sorrio. ainda que sem motivo. desculpa. na verdade, tem um motivo. ou varios. mas nao sao aqueles motivos-clichês: estabilidade, labrador no jardim ou carro na garagem. e ja me adianto que nao ando feliz porque descobri que o grande segredo da felicidade é mudar de carreira do nada, trabalhar menos, se ocupar mais dos filhos, seguir seus sonhos ou começar a procurar beleza nas pequenas coisas da vida, como o caminhar de uma joaninha no nosso joelho. eu sempre soube que joaninhas eram indicadoras supremas de gente feliz. ou sensivel. joaninhas ja me fizeram muito feliz. a ultima, inclusive, me fez feliz ha umas três semanas, quando eu tava colhendo damasco la em larnage. o sentimento provocado nesta mulher de 28 anos, foi provavelmente o mesmo produzido em qualquer outra criança que vê uma joaninha pela primeira vez na vida. o mundo todo para de mexer. e aquela joaninha se torna imensa. e vai dançando desajeitada na nossa pele. e vai deixando, em cada passo, um carinho. e, de repente, o nosso coraçao começa a queimar e o sorriso começa a sorrir e, sei la porque, a desgraçada da joaninha voa no apice do momento. e a realidade volta, os carros buzinam, você levanta o rosto e o mundo ta ali de novo, como era antes da joaninha decidir dançar. decidi parar de procurar felicidade em coisas tao efêmeras, mas nao pretendo afastar a possibilidade. 

mas mainha, nao tou escrevendo pra falar de joaninhas, ainda que eu saiba que a senhora poderia me escutar falar durante horas sobre um assunto tao banal. (...) desculpa, joaninha. tao "banal". eu tou te escrevendo pra dizer que eu ja fiz a cirurgia do coraçao e, por favor, maezinha, nao se sinta traida. eu nao vi nenhum interesse em amargurar esse seu coraçao falando da data ainda que ele seja bem saudavel (apesar dele estar batendo ao dobro do tempo que o meu). nao disse nada porque eu sabia que, enquanto meu coraçao estivesse sendo consertado, o seu estaria paralisado. mas pra te acalmar: tou bem. de novo. os detalhes eu conto em casa, ao telefone, porque ainda tou no hospital. mas tou aqui de boa, sem absolutamente nenhum cateter ou soro ou sonda ou dor, onde as recomendaçoes se limitam basicamente a "nao dar bunda canastica" ou "nao dançar a macarena bêbada". mas de qualquer jeito, eu nao faço mais isso – nao danço a macarena. sigo à risca as recomendaçoes do médico e as enfermeiras estao derretidas por mim. acho que ainda nao sou a queridinha de todas elas, mas pretendo me transformar deixando (comida e) um bilhetinho agradecido em cima da cama antes de ir embora. sou absolutamente a favor de bilhetinhos. dentro do bolso do amigo, na carteira do amado, na cama - ainda que seja na de um hospital e pra uma mulher. mas quando falei de traiçao, nao me referi propriamente ao fato de nao ter revelado a data. falo na verdade, da escolha de ter feito a cirurgia aqui, tao longe da senhora. mas segui meu coraçaozinho fudido e apostei que teria aqui o suporte necessario (nao o melhor) pra realizar a cirurgia. 

quando acordei sozinha na sala de reanimaçao, me senti infinitamente sozinha. eu tive um sonho quando era criança, provavelmente o sonho mais bizarro que ja tive na vida (eu sei, sonho bizarro = pleonasmo, mas). eu, numa piscina profunda, me deparo com uma vaca amarrada em cima de uma cama, as quatro patas atadas em cada ponta dela. e nesse momento do sonho, nao havia barulho. eu sentia uma angustia enorme de ver aquele bicho que, ainda que vivo, nao se debatia debaixo da agua. eu queria procurar a superficie, mas nao me mexia. ficava ali, vendo a porra da vaca turva e aquele silêncio ensurdecedor, aquela solidão azul. quando acordei sozinha na sala de reanimaçao, eu tava presa à cama, anestesiada. tinha pelo menos um tubo saindo de cada buraco do meu corpo, dois que saiam grotescamente da lateral do meu peito direito diretamente pra uma caixa de plastico e outras tantas agulhas presas às maos e aos braços. e naquele silêncio, soh me limitei a seguir o medico com os olhos. e toda vez que eu me sinto sozinha, eu lembro desse sonho, desse vazio. e nessa hora, eu me senti realmente sozinha, solidoes que soh uma doença é capaz de proporcionar. mas dessa vez, eu decidi me mexer. e fui la pra superficie tomar fôlego, deixei o silêncio, a agua e a vaca pra la. enfrentei quatro dias de claustrofobia em cima de uma cama porque nao podia me mexer e o que me enclausurava era meu proprio corpo. mas olha. tou aqui escrevendo esse email. tirei os tubos. guardei os buracos.

e sabe, no primeiro dia no quarto, recebi tanta gente, que fiquei de saco cheio (nada pessoal, pessoal): nao podia falar direito. e eles trouxeram porcos de pelucia, chocolates, paes, cookies, livros, bombons e até vieram, num dia de tempestade, me ajudar na correçao final da minha monografia (inclusive, a entreguei hoje). eles se revezaram pra corrigir os erros de ortografia e fizeram uma tabela com os dias de visita, pra que eu nao passasse nenhum dia sozinha no hospital. nico me abraçou tao forte quando voltou de viagem que eu senti o coraçao dele bater contra meu peito. e priscilla, quando se despediu hoje, pegou meu rosto com as duas maos, deu um beijo bem longo e, quando pensou em largar meu rosto, voltou a beijar a bochecha e rimos juntas como um belo casal de lesbica que nao somos. e eu soh pude ter vivido essas coisas, porque eu apostei que aqui daria tudo certo. era garantido que com a senhora eu nao passaria nenhuma privaçao, mas eu decidi arriscar. e ganhei. é por isso que eu tenho me preocupado menos com o tempo. essas pessoas sao minhas joaninhas de felicidades não-efêmeras. pode sorrir.


com amor, da filha querida


luciana

(é bom especificar, ela tem duas).

25 comentários:

Iara disse...

Ô, gata. Que felicidade. E que alívio. E bom demais saber que você tá recebendo amor e cuidado. <3

Renata Lins disse...

Lulu, aos prantos aqui. De alívio, de alegria por ter notícias, de alegria pela joaninha.
Viva você, mulher. Viva você, muito. Que tem muita joaninha pelo caminho ainda. Um abraço muito apertado, que inda dou pessoalmente. Ah, se dou.

monique disse...

minha a-mi-ga.

estava eu aqui lendo teu texto quando uma joaninha pousa no meu braço (eu estou dentro do quarto às 2h da manhã com as janelas fechadas). ainda tava no começo do texto, duas linhas antes de tu falar sobre joaninhas... e parei de ler pra mostrar a Co: "olha Co" (interrompendo a concentração dele, como sempre), "que linda! ela tem aquelas bolinhas que nem nos desenhos!" aí ela voou e foi mais linda ainda... e mais lindo foi quando, duas linhas depois, tu falava sobre a felicidade efêmera de ter uma joaninha pousada em sua pele. vei. sem condições. felicidade é isso e passar todo esse tempo alimentando nossa amizade ao vivo. hihi. tô feliz!

e foi mal a visita. nunca mais passo aí no hospital pra te ver. humpf. (pior que não passo mesmo não hehehe). =*

Amanda disse...

É tanto talento que chega a ser impróprio para um blog.

Anônimo disse...

O seu texto é simplesmente
SENSACIONALLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

Saúde e Sucesso

Beijos

A Fã

Anônimo disse...

Faço coro com Amanda: "É tanto talento que chega a ser impróprio para um blog."

beijo, Germana

Marissa Rangel-Biddle disse...

Amora, que trem mais lindo esse seu texto! Fiquei emocionada. <3 <3

Anônimo disse...

parabens muitos parabens por tanta coragem e por tudo ter corrido bem

Suely disse...

Que notícia boa, você é muito corajosa e escreve muito bem, porque não escreve um livro? Fico feliz com a sua felicidade...bjs

Rafaella Machado disse...

ai que delícia esse post! saber que tu tá bem e que mais uma cirurgia foi vencida e uma joaninha acompanhou teus pensamentos! <3
(eu tenho uma tattoo com 2 joaninhas, nas costas, tatuei junto com a minha mamis, ela tem uma joaninha eu tenho duas... e significa proteção, por isso sempre vai tá lokking my back e me protegendo)

é bom sentir que pode contar com bastante gente e ver que isso tudo foi conquista tua... saber que mesmo esse nosso jeito grossa e louca de ser, de falar as coisas na lata e ficar pensando aleatoriedades fez muita gente gostar da gente, né?

esses dias eu me inscrevi numa aula de italiano, mas me mandaram e-mail dizendo que eu tava inscrita em francês (???) aí meu pai perguntou pq escolhi italiano e disse "sei lá, queria ir pra Itália", e logo me veio na cabeça "mas se eu fosse pra França, também seria legal, conheço gente lá..." (tu, no caso)... e achei legal pensar nisso que pessoas distantes podem se aproximar, mesmo sendo na desgraça, mas na verdade a gente olha mais pro lado da superação e não de ficar se lamentando tipo vários outros blogs e gente depressiva chata...
nossa depressão é engraçada, pelo menos... faz a gente rir depois, né?
o que não seria da nossa vida sem olhar pra um pingo de chuva e sorrir, sem mais nem menos?

é bom colocar pra fora e ter várias pessoas do nosso lado.. aliás, por todos os lados do mundo!

"viva a vida!" como diz meu avô de 87 anos! :)

Rafaella Machado disse...

looking my back**

fuck. ¬¬

Mari disse...

pensei muito em ti amada loulou. pensei na tua solidão. agora penso que daqui pra frente tudo vai melhorar porque não tem rocha mais solida nesse mundo do que tu mesma. e que bom que tanta gente te ama, en plus!

love you loulou!
te cuida!

Paola disse...

ótimas notícias. lindo texto. equilibrando lirismo e sarcasmo com muito talento. parabéns pela força de enfrentar essa jornada sozinha.
um beijo,
leitora desconhecida Paola

Mari Bento disse...

Meu, fiquei super contente em ler seu post agora, pois to aqui tentando pegar no sono, mas voilà, fiquei mais feliz ainda por saber q vc esta bem e q vc foi super bem cuidada/mimada por seus/suas amigos/as e pessoalndo hospital. Seu post ficou lindo. E espero que logo menos possamos brindar e festejar o conserto do seu coracao. Abracao.

Palavras Vagabundas disse...

Depois desse lindo texto´... um abraço apertado!
bjs
Jussata

Lúcia Aquino disse...

Lágrimas rolando na face, mas não poderia ser diferente, afinal não é todo dia q recebemos a notícia:"mãe, já fiz a cirurgia do coração,desculpa não ter te comunicado".Quase morri!Agradeço a todas as "joaninhas" q te deram assistência e, agradeça, por mim, a essas enfermeiras tão carismáticas.
Ao mesmo tempo q me desesperei com a notícia, agora sinto um grande alívio por saber q ocorreu tudo bem, q vc tá obedecendo as recomendações médicas e que tá passando bem.
Queria muita tá com vc, pois é muito desconfortável essa distância,mas meu pensamento, meu coração e meu amor está aí contigo.
Fica bem, siga à risca as recomendações médicas, por favor!Não me deixa sem notícias!Espero q tenha outras joaninhas, prá ficar com vc, qdo sair do hospital.
Te amo muito! Tenha cuidado com o bem mais precioso q tenho na França:VOCÊ. bjo

Rita disse...

Ah, Lu, que boas notícias. Torcemos muito daqui, viu. E nem sei falar da carga emocional e poética desse texto. Estou muito feliz pelo sucesso da cirurgia e espero um dia fazer aquele brinde atrasado. Beijo grande, flor.

Eliana disse...

Nossa, pensei tanto em vc estes dias! Menina...que bom que vc pode escolher e que vc tenha escolhido, ou melhor, decidido pela felicidade intensa da simplicidade! Se cuida direitinho e melhoras pra vc!Bjs

Jak disse...

Que lindo Lu!

Mundo da Lu Roque disse...

Meu, que alívio! Que bom que tudo deu super certo. E que texto porreta que mexe com a gente e faz aumentar a vontade de conhecê-la pessoalmente. Grande beijo e tenha uma ótima recuperação.

Silvia disse...

Olá! Gosto muito de tudo o que escreve, e quantas vezes mesmo sem vontade de sorrir, acabo por sorrir com os seus textos. Fico muito feliz que tudo tenha corrido bem, mesmo sem a conhecer desejo-lhe o melhor.

desenhosnacalcada disse...

Oi Luci!
Há tempos leio teu blog, você é uma mulher e tanto e escreve coisas tão profundas ...
Eu quis comentar outras vezes, mas nunca sei muito bem por onde começo. Te enviei um e-mail uma vez, não sei se você lembra. Quero te dizer que gosto do teu blog e por isso te indiquei para um selo. Espero que goste. Bjs e fica bem tá?
Lana

Maite disse...

❤️
ai, chorei.
você é muito linda e queria te dar um abração.
ainda bem que o fim do ano tá chegando pra eu poder fazê-lo!!!!!

Fatima Siqueira disse...

Que lindo, que lindo, que lindo!

Luciana Nepomuceno disse...

Eu partilhei esse post no meu FB mas não comentei nada na época. Não tinha as palavras certas, no ritmo certo, não conseguia digitar meio soluço meio riso, não sei. Sei que não escrevi. Voltei aqui hoje procurando quem eu era ao te amar naquele tempo e não achei. Mas achei um pouco de quem eu tento ser, espremida entre uma linha e outra do seu relato, tão seu, tão pessoal e, ao mesmo tempo, tão espelho. Ou ainda, tão o que pelejop ser.

Uma saudade doida de rir com você. Muito amor.

Talvez

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