sábado, 26 de dezembro de 2009

Eu fico com o balanço

Sera que algum blogueiro vai fugir à regra de escrever sobre o Natal ou de fazer um balanço de como foi seu ano? Ou melhor, fazer listinhas de coisas a se fazer no proximo ano? Eu fico com o balanço, ja que acho que meu 2009 foi bem movimentado, onde de tudo aconteceu.

1. Adeus, solteirice (09/jan)

Ja no nono dia do ano, Camilo e eu nos casamos. Claro que foi mais uma medida que visava facilitar minha entrada na França do que qualquer outra coisa. Mas nem por isso eu deixaria de comemorar o fato de poder ficar ao lado dele, da forma que nos escolhemos. Mais sorte da proxima vez, Sarko.

2. Adeus, vida pedestre (28/abr)

Sabendo que na França o custo pra se tirar uma carteira de motorista é exorbitante, ai meu deus, eu fiz aos 23 o que deveria ter feito ha muitos anos: aprendi a dirigir. Pra falar a verdade, nunca tive muito desejo de aprender a dirigir (o tempo que levei pra fazer isso prova o que tou dizendo), mas minha mãe disse que é util, e se mãe diz, então é verdade. Espero que eu me saia melhor com o carro do que com a bicicleta.

3. Adeus, Brasil (21/mai)

Dei adeus ao mar e me instalei em Lyon. E, parafraseando um amigo: foi melhor e pior do que eu pensei. Arabes, segurança, burocracia, frio, quedas de bicicleta (muitas), queijos, liberdade, solidão. Independência.

4. Adeus, graduação (17/ago)

O segundo dia mais feliz do ano! Tudo o que sinto quando penso nessa data é "alivio". Acabou! Foram sofridos os ultimos momentos. Espero que tenha sido a primeira e a ultima vez em que estudei algo que não gostasse (me refiro somente à monografia, ja que o curso em si deveria ser obrigatorio pra qualquer ser humano que se preze). De qualquer forma, sou uma pessoa formada. Alias, eu e o namorado, que se formou no mês seguinte.

5. Adeus, desemprego (17/set)

Trabalhar como faxineira não faz parte dos meus sonhos mais ambiciosos, mas tem pago minhas contas e minhas cervejas. E, mais do que significar uma simples mudança de status empregaticio, esse emprego assinalou uma "profunda mudança no meu ser". Ha três meses, eu era uma meninota chorona e ansiosa, que ciscava antes de dar qualquer passo. Agora eu soh sou ansiosa. Esse emprego foi o inicio da verdadeira adaptação, é o que me da, até hoje, a sensação de que eu tenho dominado o espaço, de que eu tenho abarcado o ambiente. Eh o que faz com que eu sinta que pertenço um pouco a esse lugar.

6. Adeus, ignorância (?)

A cada dia que passa, eu fico mais feliz e empolgada com minha compreensão em relação ao francês. Ainda falta uns meses e um bocado de esforço até que eu possa dizer que "eu sei falar francês", ja que eu nem mesmo consigo conjugar os verbos corretamente, mas o medo de sair de casa ja passou e a sensação de liberdade soh cresce.

7. Oi, Paul! (10/dez)

Mwwhahaha! Esse foi o melhor dia do ano! Nem vou mais comentar, que é pra não afugentar os leitores, mas fica aqui o (milésimo) registro! Ano lin-do [foto de Priscila Tanaami - obrigada!].

Bom, é isso. Acho que foi um ano proveitoso, não? Mas soh aproveitando que tou falando de coisas boas, queria dividir com vocês a grande felicidade que eu sinto, que eu tou sentindo, em ter Camilo do lado. Hihi. (ele não lê meu blog, logo, a contemplação é gratuita). No final das contas, é ele que faz com que os momentos que não são assim, dignos de topicos de blog, sejam fodas. Em cada ponto desse, ele esteve colocando minha moral la em cima. Minha auto-estima deve muito a ele. Tenho sentido que eu posso muito mais do que eu poderia imaginar. Ele me faz respirar muito melhor e é por isso que, apesar de toda dor que eu sinto aqui nesse peito dilacerado de saudade, vale a pena ficar aqui. Eh como ele mesmo diz: "tu é minha casa". Então, àqueles que realmente gostam de mim, vai o recado: porra, eu tou feliz!

E que ano bom!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Cevando a faxineira

Trabalhar pra madame tem la suas vantagens (soh vi essa até agora): quarta-feira passada, cheguei na casa de mme Trognon e vi uma super caixa de Ferrero em cima da mesa com um bilhetinho: "boas festas!" Meus olhos brilharam! Se ela tivesse deixado uma caixa de cerveja, eu teria feito a faxina de graça. Na quinta-feira, mme Forfait me deu outra caixa de chocolate, também uma de Ferrero (foi ai que eu lembrei que o chocolate tava em promoção no Carrefour, mas o que vale é a intenção e ela foi muito bem apreciada). Na sexta-feira, mme Blague uma velhinha super simpatica, que provavelmente não havia ido ao Carrefour naquela semana, me deu um singelo envelope com 40€! Gente, soh não sentei no colo dela e a chamei de vovoh porque o povo na França é formal demais. Mas eu mal pude passar pela porta tamanho o sorriso! Ah, e ela disse, com toda a sinceridade dela, que eu soh não recebi mais porque faz pouco tempo que eu trabalho la, mas que no proximo Natal... (huhuhu) Pensei até em trabalhar mais um ano de piniqueira, mas desisti porque ela tah tão velhinha que é possivel que ela morra antes do proximo Natal. Esperamos que não.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Puoh

Como o post passado foi sobre briga e o antipenultimo foi sobre mme Goujat, lembrei de uma historia. Gente, quando chamei a mme Goujat de mme Louca, não foi à toa. Ha duas semanas, eu cheguei na casa dela no horario de sempre pra fazer a faxina e a encontrei completamente surpresa com minha visita dizendo que ela não tinha marcado comigo naquela semana. Eu repassei mentalmente todos os palavrões que eu conhecia e me xinguei por pensar que eu tinha me enganado de horario/dia e que talvez não tivesse entendido bem quando mme Cler* cancelou a faxina. Sei la (não seria a primeira vez que eu teria me enganado de horario). Então, pedi desculpas a mme Goujat, disse que eu deveria ter me enganado e fui embora.

Cinco minutos depois, mme Cler me liga dizendo que eu não tinha me enganado coisissima nenhuma e que queria me ver no escritoria agora. Fui sem entender nada. E la encontrei mme Cler:

"Luciana, você estava certa. Então, ao telefone, disse a mme Goujat que o erro não era seu e que ela deveria pagar seus tickets de metrô e pelo menos uma hora do seu salario. Ela se recusou e gritou comigo! Disse que soh pagaria os tickets e eu disse 'mme Goujat, o pagamento não é para mim, é pra Luciana', mas eu nunca a vi gritar daquele jeito, dizendo que estava cansada e que não sabia de nada. Então, ela encerrou seu contrato".

Brother, que situação! Mas sinceramente? Eu tenho um cartão de metrô que me permite pegar quantos metrôs, ônibus e tramways eu quiser por dia a um custo de 40€ por mês. Ou seja, o fato de eu não ser paga pelo transporte dessa faxina não representa realmente um rombo no meu salario no final do mês. E a "decepção" de ter a faxina cancelada é transformada na alegria de ter uma tarde livre! E de repente, eu vejo as duas madames se estressando no telefone por minha causa (hihi). De qualquer forma, eu ri muito da descrição que mme Cler fez da ligação entre as duas. E ela completou "Luciana, acho que ela vai reclamar com você na semana que vem".

Que legal!

Com o cu na mão, fui pra casa de mme Goujat, na semana seguinte, esperando que ela me recebesse com uma vassourada. Ela abriu a porta e eu não sei qual das duas estava mais desconfiada. Mas ela logo perguntou com voz meiga:

- Luciana, você ficou sabendo?
- Fiquei. Que a senhora, murrinha, não queria me pagar? Não, o quê?
- A briga que eu tive com mme Cler!
- Ah, não sabia...
- Pois bem. Ela me gritou Luciana! Ela me gritou tanto!
- Nossa, foi mesmo?!
- Foi (com ar consternado). Ela me tratou como se eu fosse uma criança!
- Por que sera? Ah, que pena!
- Mas Luciana, eu vou lhe pagar! Vou lhe pagar duas horas! E os tickets!
- Madame, me desculpa, mas não precisa, pra mim tan...
- Não, eu vou sim :)

Apesar de saber que ela, mesmo sendo rica, não queria me pagar, e ainda veio com essa historia de boa samaritana pro meu lado querendo pagar até as horas que não precisava, não da pra ficar chateada com mme Goujat. Nenhum pouquinho. Grande parte do que eu sinto por ela é pena. Ela cuida sozinha de dois bebês recém-nascidos, não sai de casa por causa deles e, quando as gêmeas param de encher o saco, ela vai passar as camisas do marido. E detalhe: no dia em que houve a discussão, ela tava fazendo faxina quando eu cheguei. Juntou o cansaço com a indignação de ter que pagar quase 50€** pra outra pessoa por uma faxina que ela mesma fez e deu no que deu...

Comigo ela é supertagalera. Não perde a oportunidade de comentar algo, de falar das filhas, de mostrar cada roupa que ela comprou pra elas, o nome da loja e o quanto custou (não se exibe, ela compra baratinho). Fala do peso das filhas e a quantidade de dias que elas ja existem sob a Terra. Comenta sobre quantas horas elas dormiram naquele dia. E conta sobre as férias que vai passar na Russia e como se fala "bom dia" la. Me oferece doce e café de cinco em cinco minutos e pediu varias vezes que eu fosse visita-la. Da pena.

* Pro leitor recém-chegado: mme Cler é dona da empresa de faxina pra qual eu trabalho. Mme Goujat é (era) uma de suas clientes. Eu sou a escrava.
** Uma vez vi um quadro na empresa e, se o li bem, cada hora de faxina custa 21€ por cliente + 2,60€ por faxina (o transporte pro escravo). Desses 21€, pagos a mme Cler, eu ganho 7€. Por isso, calculei que mme. Goujat pagaria quase 50€ pela faxina perdida.

Defenda-se: você não esta sendo atacado!

Não sei se as brasileiras que moram na França e leem este blog vão concordar comigo, mas o povo francês é tão briguento! Seis meses aqui e eu ainda me impressiono. E por briguentos eu não quero dizer "lutadores", tipo assim, estilo Street Fighter. Eh uma coisa mais simples mas que me assusta igualmente. Eh o fato de você estar sempre inflamado e armado (não no sentido literal) pra se defender. Se defender mesmo que não estejam te atacando! Voila! Esta é a descrição!

Eh extremamente comum ver as pessoas se gritando no meio da rua. Mas eu vou ficar na coisa mais gratuita, que são as pequenas ações chatas do cotidiano. Por exemplo. Quando você vai pegar o metrô, a educação (e o bom senso) faz você deixar todas as pessoas sairem antes de você entrar. Mas semana passada, no metrô, eu vi que não tinha ninguém saindo, entrei, mas dei de cara com uma velha tentando sair. A porta do metrô é enorme e dava pra passar as duas tranquilamente sem mesmo haver necessidade de nos tocarmos. Mas ela precisava garantir seus direitos. E precisava garantir seus direitos gritando e sendo chata. "Minha filha, deixe eu sair primeiro!" E resmungou até eu perder ela de vista.

Ainda recentemente, sentei ao lado de uma loira no metrô. O metrô ia em silêncio, completamente tranquilo. De repente, essa mulher, DO NADA, olha pro outro lado (acho que foi pra um homem) e da um grito bem alto, que eu interpretei como "tah olhando o que, filho da puta?" Interpretei isso tudo porque um homem começou a rir dela. Mas é assim o tempo todo. As pessoas se gritam no metrô, na fila do banco. As pessoas ficam putas e são grossas por muito pouco. Basta trocar o "vous" pelo "tu" e sua vida corre risco. Tenho na cabeça muitos outros exemplos que me fogem agora porque muitos deles ja foram pro arquivo de coisas comuns que vivo na França.

Discutindo sobre isso com Camilo, vi que os dois estavam de acordo que isso é herança de um povo que sempre lutou pelos seus direitos. Eu nunca vi um pais fazer tanta greve, por exemplo. Aqui, qualquer suspiro mal dado por um politico gera uma passeata, uma reinvidicação. Inclusive, eu disse a Camilo que achava que o caso da briga com a arabe do carro do outro dia, poderia ter sido influenciada por esse clima de tensão que os franceses vivem. Não vou dizer que me sinto bem com isso, mas se for pra viver num pais onde as coisas funcionam, eu até aguento as velhas do metrô.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O dia em que vi Paul McCartney!

Finalmente aconteceu! E, se é que isso é possivel, foi melhor do que eu previa. O estadio não era a céu aberto, não era tão grande e, das 35 musicas do set list, 23 eram dos Beatles! Tento colocar em palavras as sensações da noite porque historiador tem essa mania besta de querer registrar as coisas. Mas, desde ja, prevejo meu fracasso. Afinal, aqui fala um fã dos Beatles sobre... o show de Paul McCartney!

Acordei na manhã do show como quem acorda pra ir à feira: era um dia qualquer. Apos dois minutos de reflexão sobre o que iria se passar no meu dia, as lagrimas chegaram rapidinho. Tudo o que eu vou (tentar) evitar falar seria brega demais praqueles que apenas simpatizam com a banda. Mas acreditem, nenhum show sera o mesmo depois deste. Morreram os covers, morreram os iniciantes, morreram os grandes concertos! Eu vi Paul McCartney! Nada sera como antes.

Vi aquela pequena figura (eu tava meio longe) dar o ar de sua graça as 21h do dia 10 deste mês. À sua entrada, a iluminação se foi completamente, restando as pequenas luzes do celulares e câmeras de video, o que, ao meu ver, lembravam pequenas estrelas e davam a perfeita impressão (que durou quatro segundos) de que eu tinha o céu debaixo dos meus pés. Para minha maior emoção, ele é extremamente simpatico, daqueles que tira gracinha o tempo todo e faz rir. E, apesar dos seus quase 70 anos, pulou e enlouqueceu os milhares ao seu redor por incriveis três horas de show! Quem não enlouqueceria, meu deus?

Quando ele começou a tocar Blackbird, sei la porquê, pensei em Fabinho, virei a câmera pra minha cara chorona e me deixei filmar. Sim, grande, grande amor meu, você esteve comigo numa das noites mais especiais e lindas dos meus curtos 24 anos. E chorei durante toda essa musica pensando em tu e pensando no quanto tu ficaria feliz ao saber da minha felicidade. Coincidentemente, a musica seguinte falava de amizade. E de uma amizade que mudou a historia da musica:

[tradução tosca por conta do meu inglês de colégio] "As vezes você não diz as pessoas o que você quer dizer. As vezes você quer dizer a uma pessoa que a ama e você pensa 'não, talvez uma outra hora'. E talvez você perca a oportunidade, deixe ela passar. E então você pensa 'eu gostaria de ter dito isso'. De qualquer forma, eu dedico essa proxima canção ao meu amigo John". Pois é, sabe aquele John? O John Lennon? Pronto. Agora você estah entendendo as proporções desse espetaculo: um tal de Paul McCartney dedicando, NA MINHA FRENTE, uma musica a um tal de John Lennon. Brother, é demais pro meu coração chorão. E então, ele toca Here today. E eu? Eu choro!

Setlist - Paul McCartney live - Paris - Bercy:

01. Magical Mystery Tour
02. Drive my car
03. Jet
04. Only Mama Knows
05. Flaming Pie
06. Got to get you into my life
07. Let Me roll it
08. Foxy Lady
09. Highway
10. The Long and winding road
11. I want to Come Home
12. My Love
13. Blackbird
14. Here Today
15. Dance tonight
16. And I love Her
17. Mrs Vanderbilt
18. Eleanor Rigby
19. Band on the run
20. Ob-la-di, ob-la-da
21. Sing the changes
22. Back in the USSR
23. Something
24. I've got a feeling
25. I've got a feeling extended jam
26. Paperback Writer
27.Paperback Writer extended jam
28. A Day in the Life
29.Give Peace a chance
30. Let it Be
31. Live and let Die
32. Hey Jude

33. Day Tripper
34. Lady Madonna
35. Get back

36. Yesterday
37. Helter Skelter
38. Sgt Pepper's Reprise
39. The End


Os outros fãs estarão de acordo comigo: uma coisa é escutar Hey Jude no seu sonzinho/mp3/computador. Outra coisa é ouvir o autor da musica tocar ao vivo e você poder cantar junto, desafinadamente, "na na na na na na na na, na na na, hey Jude!" E eu cantei e gritei alto! E descobri, pelo video, que minha voz não é nada sereia. E que se eu tivesse que incitar alguém a lutar pela paz mundial cantando Give peace a chance, o mundo afundaria em fome e guerra. Em voz de gralha com tosse, eu cantava: "all we are saaaaying, is give peace a chaaaance. Gaaah!"

Depois, o pobre rapaz de 67 anos, nos chega com um pequeno violãozinho encarnado (duplo sentido), que a ignorância não me permite discernir se é pareia de banjo ou de cavaquinho, e diz que aquilo foi presente de, vocês sabem, George Harrison. "Ele sabia tocar muito bem isso". E, enquanto Paul tocava Something no seu Ukulele (lê-se Iuculelê), imagens do finado apareciam ao fundo e, à frente do "pobre rapaz de 67 anos", eu chorava (alguma surpresa?).

Os franceses foram à loucura com Michelle. Et moi aussi! A day in life, na minha opinião, foi uma das mais bonitas! Toda aquela loucura psicodélica da musica afirmada pelos holofotes coloridos e gente doida gritando no ar. Lindo! Lindo!

Ah, uma coisa besta a se comentar. Se ha uma coisa que eu odeio é a tal da intereção publico-palco. Eh tipo quando o cantor diz "eueueueue" e você responde "eueueueue". Odeio. Mas em Bercy, ontem, eu fui além das minhas tolerâncias. Paul me fez latir! Quando gritou "rouf" e todo mundo respondeu "rouf", ele riu. Tão lindo!

Apos duas fingidas despedidas, Paul finalizou o show com Yesterday (a musica mais regravada de todos os tempos), Helter Skelter (Charles Manson teria curtido), Sgt. Peppers e The end! A esse momento, o torpor me tomava da cabeça aos pés. "Eu vi, eu vi!" E aquela alegria de estar ali, entre os três grandes homens da minha vida, não me deixara nunca ser triste outra vez. Eu me sinto completa e feliz. Eu vi! Eu vi!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A culpa é do sistema, mano

Nas terças, eu trabalho na casa de mme Goujat. Nas quintas, na casa de mme Forfait. O que essas mulheres tem em comum, alem das suas faxineiras, é que elas acabaram de ter filhos. Goujat teve gêmeas, suas primeiras filhas. Forfait, teve seu terceiro filho (os outros dois tem quatro e dois anos apenas).

Como tou ha quase três meses trabalhando semanalmente na casa delas, é impossivel que o modo de vida de cada uma nao me provoque uma reflexao sobre o fato de ser mae. De ser mae e mulher. De ser mae, mulher e casada. De ser mae, mulher, casada e dona de casa. Tudo ao mesmo tempo e em tempo integral.

Mme Forfait conversa com seus dois pequenos como se eles fossem adultos. Eu gosto muito dela, gostei desde o primeiro dia. Acho que ela tem uma cabeça aberta, é total relax e conversa comigo sem me julgar, sem fazer caras e bocas. Na ultima faxina, o bebê dela chorou muito, mamou e dormiu. E dormiu justamente no quarto em que eu deveria fazer faxina com o aspirador. Timidamente, perguntei à mae se eu poderia ligar mesmo assim o trambolho. Ela disse sem pestanejar: "sim, ele tem que se acostumar". Detalhe, o pirralho tem um mês de vida. Quando liguei o troço, o guri deu um pulo no berço tamanho foi o susto, coitado! Quando ela tem que sair de casa, nao conta historia: mesmo com o inverno chegando, ela mete o recem-nascido na bolsa-canguru (sei la como se chama aquela porra) e vai embora com ele. A casa, pro meu desespero, é repleta de brinquedo, de lapis, de papel colorido, quebra-cabeça, bola, casinha. Tem até uma pia e um aspirador de po de brinquedo. Acho o maximo ela nao se limitar aos "brinquedos de homem". Ah, e nenhuma televisao à vista!

Mme Goujat é o extremo oposto. A palavra que define bem ela é "neurotica". Creio fortemente que o nome dela deveria estar como sinônimo pra esse adjetivo no dicionario. Ela tem uma risada nervosa e mania de limpeza. Quando tava gravida, passava o dia todo feito um parasita dentro de casa. A ordem é a de sempre: mulher embucha, marido trabalha. Agora que ela pariu, esta pior: ela nao sai de casa de forma alguma. Eu vou ao correio pra ela, vou à lavanderia, vou pegar as suas cartas "porque os bebês nao podem sair! Elas nao podem sair! A gripe! O frio! O inverno, Luciana!" E agora a coitada tah com uma cara cada vez mais de louca. Quando as bebês choram ao mesmo tempo, eu a vejo correr pra todo lado e dizer "que maratona!". Ela me mandou, excepcionalmente, na ultima faxina, passar as camisas do marido porque "nao aguento mais! Ja disse ao meu marido que ele nao vai usar camisa de botao no fim de semana!" Eh, minha senhora, coloque o seu marido pra passar as camisas dele e ele vai entender que seria melhor evitar as camisas dificeis de se passar.

E, na ultima faxina, mme Louca me perguntou se eu conhecia alguém que tem bebê. Pensei em mme Forfait e disse que sim. Entao, ela veio a mim com uma sacola repleta de roupas e brinquedos pra bebês e disse: "ta tudo novo, tou dando porque as coisas sao laranja e o tema do quarto das meninas é rosa" (ui). E os brinquedos? "Ah, eles fazem barulho e criança nao gosta de brinquedo que faz barulho" (ai).

Comentario 1: que feio! Se desfazer de presentes alheios!
Comentario 2: vocês também acham que se as filhas dela usassem a cor laranja elas iriam provocar o fim do mundo?
Comentario 3: ao oito de dezembro de 2009 foi decretado: criança nao gosta de brinquedo que faz barulho.

Sinceramente, até agora, o estilo de educaçao que eu venho apreciando é o pânico do aspirador. Depois de me dizer que criança nao gosta de brinquedo que parece brinquedo, Goujat me mostrou uma casinha feita de feltro, totalmente bizarra e sem graça e disse que era aquilo que era legal. Espero que ela nao seja o tipo da mae que da roupa de presente no Natal. Cruzes. E quanto ao marido, o Y da questao, eu ainda tou preferindo o meu.

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E por falar em maternidade, divulgo aqui o Terceiro Concurso de Blogueiras. Otima oportunidade pra conhecer novos blogs. No meu caso, foi uma otima oportunidade pra repensar se eu quero mesmo ter filhos...

Eu também nao...

De vez em quando, bem de vez em quando, eu saio de Lyon pra fazer uma faxina em St Didier. Eh uma commune bem longe de Lyon, ao norte, onde soh moram ricos. Quanto mais afastada de Lyon esta a commune, mais rica ela é. Eh em St Didier, por exemplo, que moram mme Cler e um dos chefes de Camilo. Fui a St Didier duas vezes pra fazer uma faxina na casa da vizinha e amiga de mme Cler, mme Liseron, uma velhinha viuva. Na saida da primeira faxina, pude averiguar que St Didier foi feita pra ricos porque existem ruas sem calçadas. Ora, calçadas servem pra pedestres, os mortais que andam a pé. E andar a pé? Em St Didier? Jamais.

Quando sai da casa de mme Liseron, procurei, sem sucesso, alguma alma viva que pudesse me informar onde eu poderia pegar o ônibus 84. O maximo que consegui foi avistar ao longe um jardineiro dentro de uma propriedade que era tao grande, que nem valia a pena me esgoelar pra chamar atencao do trabalhador. Outra conclusao de que St Didier é rica é que o ônibus, que eu finalmente peguei, soh tinha três pessoas: eu, uma velhinha e o motorista.

Mas St Didier me lembra coisas boas. Lembra um bom festival que fui assim que cheguei à Lyon e também mme Liseron, que é muito gentil. Hoje, fui pela segunda vez na casa dela. Ela fala bem-pau-sa-da-men-te. Bem pausadamente. Porque eu sou estrangeira. Mas é melhor pau-sa-da-men-te do que GRITANDO, como fazia a enfermeira que me cuidou de mim na ocasiao da Queda de Bicicleta. Ela gritava o francês, como se meu problema fosse surdez e nao o desconhecimento da lingua. Bom, de qualquer forma, mme Liseron tem um gato. E ela disse que ela adotou esse gato. Mas, pela solidao dela, acho que foi o gato que resolveu ficar com a mulher.

Quase ao final da faxina, ela me mostrou uma planta morta e disse: "é marijuana". Como mme Liseron tem uma mao inutilizada por alguma doenca, pensei "ah, pobrezinha, ela utiliza a erva pra diminuir a dor". Mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela se adiantou. "Ah, mas eu nao consumo. Nao mais". Acho que a velhinha da historia sou eu.

sábado, 5 de dezembro de 2009

13

Gostaria muito de dividir essa leitura com vocês. Fala do periodo da historia do Brasil que mais me interessa. E das pessoas mais interessantes, ao meu ver, que lutaram pra que esse periodo da historia, que eu tanto gosto, acabasse.

Dilma 13 - parte I

Dilma 13 - parte II



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dando rosto aos nomes e chifre aos donos

Enquanto eu procurava a foto da despedida de Simone na maquina, achei muitas outras que tirei ha meses e que ainda não havia visto. Como eu nunca posto fotos aqui, achei que fosse o momento ideal pra começar. Fiquei até feliz depois das fotos (é, eu fico feliz e triste com pouco...)

"Finalmente alguém tem o chifre maior que o meu".


Aonde esta o brasileiro?


Eu, com cara de virgem em Megève, nov/09.
Ao fundo o Mont Blanc, a montanha mais alta da Europa.


Aqui, o resto do pessoal: [em pé] Noemi, Seb, Raphe, Pierre (namorado de Raphe), Laure (namorada de Seb) e Julia. [agachados] Moi, Kevin (namorado de Julia) e Lou (namorado de Noemi). Como se pode ver, um fim de semana entre casais. Ah, e finalmente uma foto pra mostrar minha antiga coloc: Seb, Raphe e Pierre: foi com eles (+ Camilo) que morei assim que cheguei na França. Gente boa.

Chega de saudade!

Eu odeio falar aqui no blog sobre meus momentos de tristeza. Evito mesmo. Fiz um blog soh pra isso e, quando eu tou afim de expor minhas angustias, eu exponho no outro... (na verdade, eu exponho", ja que o blog é fechado). Ah, mas eu preciso falar desses dias. Aqui.

Ha uns dias, eu recebi uma otima noticia que me deixou triste: o fato dos meus amigos de universidade terem passado no mestrado. Isso me deixou feliz, claro! Mas ao mesmo tempo, essa situação logo me questionou sobre o que EU tou fazendo da vida. Bom, eu? Eu faço faxina. O fato de eu ter estudado com esse pessoal faz com que eu pense que eu fiquei "pra tras", ja que eu não tou acompanhando a maré junto a eles. Aih, tome tristeza!

Somado a isso, veio a saudade. Nem sei falar sobre saudade. Nem sei dizer como começa, mas termina sempre em tristeza. E o sentimento de abandono é muito forte. Então, adorei quando Amanda me deu uma sacudida nos ombros dizendo que quem abandonou os amigos fui eu. Bom, isso não melhora minha tristeza, mas ao menos livra meus pobres amigos de serem responsaveis pelo abandono. E por falar nisso, mais um cravo: a despedida de Simone.

Ha muitos meses eu falei de Simone aqui. A amizade soh tava começando, mas eu ja sentia que ia ficar muito amiga dele e acertei. Simone é foda. Simplesmente. O que ele conseguiu despertar na minha pessoa beira mesmo o amor. Quando eu falava, Simone era soh ouvidos. E quando Simone abria a boca, eu soh conseguia escutar. Eu jamais, jamais conheci alguém assim e é facil saber porque todo mundo aqui na França gosta dele. Falar dele aqui soh vai me deixar em crise, porque eu nem mesmo conseguirei descrever a figura imensa que ele é. Mas vale a pena registrar que eu tive por quatro meses um superamigo que tornou esses meses na França totalmente felizes. Mas Simone teve que voltar pra Argentina. Ele vai ser pai.

E a vida continua...

Mas, pra resolver aquilo que pode ser resolvido: fui pesquisar meu mestrado. Pensei em trabalhar com feminismo, mas não consegui ir além disso. Assim, sem imaginação, fica dificil bolar um projeto. Mas dizem que vouloir c'est pouvoir... Por enquanto, a possibilidade de um mestrado, ainda que distante, me deixa mais tranquila. E aproveito pra pedir às leitoras brasileiras que estão fazendo mestrado na França que me contem um pouco como foi o processo pra chegar ao mestrado: equivalência de diploma, tema, dificuldades iniciais (pré-curso). Por favor, uma luz! E prometo que os proximos posts vão refletir uma Luci menos desconsolada. Mas por enquanto...

Dois minutos depois, ele tava no ônibus e eu tava aos prantos.
Chega de saudade!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

[religião II] Acredito que...

Mãe: ja minha mãe é uma pessoa mais controlada. Bom, qualquer pessoa perto do meu pai seria mais controlada. A médica do aeroporto de Aracaju é um poço de controle perto do meu pai. Apesar disso, minha mãe casou com meu pai e nos deu uma educação bem livre em relação à religião. Sinceramente, eu ignoro completamente qual foi a vida religiosa da minha mãe até então! Ela nunca falou de cadarço amarrado, enguiçamento, cruz, ou imagens cristãs. Quando insistiram pra gente fazer a Primeira Comunhão na escola de freira, ela não manifestou opinião. Acho otimo!

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Eu: O que poderia eu me tornar com um pai tão "religioso-supersticioso" e uma mãe neutra? Uma agnostica! Tcharam!

(Ai vem a parte em que as pessoas me chama de autista, mas... vou contar assim mesmo)

Quando eu fiz seis anos, eu ganhei minha primeira cama de gente grande e migrei pro quarto do lado e comecei a dormir sem meus irmãos. Com isso, obviamente, veio o medo de ficar sozinha e da escuridão. Como eu sempre acreditei em espiritos, toda noite eu entrava em pânico na hora de dormir. Por isso, como forma de autoproteção, eu simplesmente fiz amizade com os espiritos do mal. Sim, se meu pai manda Deus tomar no cu, por que eu não posso fazer amizade com os enviados do Santanas? Eu conversava horrores com todos.

Até os 15 anos, eu acreditava em Deus, até porque eu não tinha opção mesmo! Se eu dissesse em casa à meu pai que Deus não existe, ele ia fazer desaparecer também meus dentes. Melhor não arriscar. Depois disso a gente vai crescendo, né, gente? Mas mesmo depois do curso de Historia, eu ainda guardo um "espiritual independente de religião". E me sinto bem assim. Sinto que não falta nem sobra nada. Na verdade, eu não conseguiria acreditar que não existe nada além das paredes, da cadeira e das arvores da minha casa. Eu sou muito bestinha, acredito em tudo o que me dizem e Camilo se utiliza disso pra infernizar minha vida. Acredito em Amor, em espirito, acredito que os anões de jardim do pai da Amelie viajaram por ai... Acredito. Acredito também que, como Camilo é ateu, e como eu não quero meu filho fazendo pacto com o demônio pra dormir de noite, o bichinho crescera longe de igreja.

[religião I] Meu pai pode

Nossa! Acho que nunca vi tantos posts sobre religião/Deus/Biblia em tão curto espaço de tempo. Um, dois, três, quatro, cinco. E, como tenho algumas coisas a comentar, seis. Na verdade, o que eu tinha pra comentar, ja comentei no espaço dado a isso em cada blog. O que me leva a fazer esse post é simplesmente o fato de eu estar meio triste (depois explico o porquê. Ou não) e não estar com saco de enfrentar esse assunto via blog. Gostaria de ter capacidade intelectual e moral pra fazer um post como fizeram as meninas. Na falta disso, escrevo um texto mais leve, contando das minhas experiências com a religião.

Pois vamos contar uma historia. Adoro contar historia!

Meus pais são de Campina Grande, interior da Paraiba, assim como eu e meus irmãos. Quando nos mudamos pra João Pessoa, eu tinha dois anos, por isso, passei toda a minha infância e começo da adolescência viajando bastante com minha familia nos fins de semana pra Campina Grande. No domingo, sempre havia uma igreja pra eu ir, ja que meu pai veio de uma familia supercatolica e minha mãe, de uma familia protestante.

Minha avoh materna ria da minha avoh paterna dizendo que ela soh saia de casa pra visitar três lugares: cemitério, hospital e igreja (e era verdade!). E la ia eu, ora enfiada numa superigreja velha, cheia de canto triste (Igreja Catolica) ou enfurnada numa igreja clara e cheia de gente jovem cantando musicas mais felizes, a Igreja Protestante.

Um dia, eu tava na casa da familia protestante (materna) quando vi, la no final da rua, minha avoh catolica se aproximando. Eu devia ter uns oito anos, mas sabia perfeitamente que o encontro entre minhas duas avos ia dar em briga, porque elas sempre brigavam e eu achava que era porque minhas avos não gostavam de seus respectivos genro e nora. Que nada!

La vem vovoh subindo a rua (se arrastando). Ela chega. Minha avoh protestante da boa tarde desconfiada e a "conversa" começa. Eu nem faço idéia do conteudo da conversa, não lembro mais, mas nunca vou esquecer da frase que fechou o dialogo:

- ...porque protestante é uma merda!
- E catolico é uma bosta!

E nesse momento, as duas velhinhas religiosas se deram as costas e foram embora. Essa foi minha formação cristã. Depois disso, enfrentei dois anos de colégio de freira e um ano num colégio de padres que não acrescentaram em nada na minha formação religiosa. No colégio de freira (que faliu), eu ficava falando sobre Cavaleiros do Zodiaco com minhas amigas e no colégio de padre (que faliu), eu batia nos meninos.

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Pai: além de catolica, a familia do meu pai é muito supersticiosa. Muito. Uma vez, eu disse a minha avoh que eu tava com dor de barriga. Ela me puxou pra cozinha, colocou uma cadeira na frente do fogão, me fez subir na cadeira, verificou se as bocas do fogão estavam frias e, como viu que estavam, pegou meu pé direito e, rezando qualquer coisa, colocou meu pé em cada uma das bocas. Eu adorei! No final da sessão, eu fiquei supercurada! Uma vez eu varri o pé dela sem querer e ela soltou um grito dizendo que eu não podia fazer aquilo senão eu não arrumaria marido (acho que eu devo ter varrido mal o pé dela).

#1 Meu pai soh faltava trucidar a gente quando tiravamos o tênis do colégio sem desamarrar os cadarços. A explicação razoavel era de que os nohs deixados no sapato prejudicavam a saude dele. Como? Não sei. #2 Passar por cima do irmão que tava deitado no chão (enguiçar) também era erro grave: isso comprometia o crescimento do individuo enguiçado. Por algum motivo meus dois irmãos tem mais de 1,80m. #3 Sempre que meu pai passa por uma igreja catolica, ele faz o sinal da cruz. E ai de quem estiver no carro com ele e não o fizer! Ele grita, berra e amaldiçoa! #4 Ele tem uma corrente de ouro pendurada no pescoço com a imagem de Jesus Cristo. Desde que eu me entendo por gente que essa corrente tah pendurada no pescoço do meu pai. Um dia, ele tirou a corrente pra jogar futebol e colocou debaixo do banco do motorista do carro dele. O frentista de um posto em que ele abasteceu o carro viu a corrente, sei la como, e a pegou. Meu pai, quando chegou em casa, deu pela falta da corrente, sacou que tinha sido o frentista que havia pego e simplesmente voltou ao posto de gasolina com uma faca na mão, uma faca do tipo Crocodilo Dundee que ele tinha. Jesus deve ter ficado hiperorgulhoso. #5 Nos ultimos anos, a situação financeira la de casa (e da de todo brasileiro médio) se complicou e, com isso, vieram os xingamentos à Cristo. Cada vez que minha mãe tentava consolar meu pai dizendo que Deus era justo e que ia ajud... "Porra de Deus! Deus não existe não! [olha pro céu e...] Deus, vai tomar no cu!" Meu pai pode.

*As duas imagens deste post são de Santa Luzia e São Sebastião. Ambas enfeitavam a sala de estar da minha avoh paterna.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Oinc

Passei o ultimo domingo em frente ao computador curtindo uma insistente ressaca da bebedeira do dia anterior. No final do dia, comecei a sentir uma cansaço extremo, dores nas costas, na cabeça e uma sensação de febre. Pensei que ressaca tava indo longe demais. Fui dormir e acordei as 4:30h da madrugada com a cabeça estourando e uma febre alta. Depois de me dar remédio e procurar (em vão) o termômetro, Camilo foi pro Google pra saber o que eu tinha.

- Acho que tu ta com gripe.
- Mas eu não tou espirrando.
- E dai?

Sei la, pra mim gripe = espirro.

Como eu não queria esperar que meus pulmões se desfizessem em catarro pra procurar um médico, pedi pra Camilo marcar, na primeira hora util do dia, uma consulta pra mim. As 14h fomos visitar uma francesa de sobrenome arabe (Camilo escolheu ela pelo sobrenome. Preconceito?). Ela confirmou que eu tava com gripe. Não com a gripe, mas que, em todo caso, ia me tratar com o tal do Tamiflu. Bom, depois ela disse que eu tava com uma versão light da Gripe e eu não entendi mais nada. So que eu deveria ficar, obrigatoriamente, cinco dias em casa. Essa é a parte boa. Quer dizer, essa é a parte ruim. Não sei.

Fiquei pensando se a vacina ou o Tamiflu teriam efeitos colaterais complicados e acabei achando isso aqui na internet:

Existem preocupações de que o oseltamivir (Tamiflu) pode causar perigosos efeitos colaterais psicológicos, neuropsiquiátricos, incluindo automutilação em alguns usuários.

Lim-pe-za. Chegar pra Camilo com meia perna e dizer que foi culpa da gripe. Bom, de qualquer forma, liguei pra mme. Cler pra avisar que eu soh voltarei a trabalhar segunda e ela pareceu bem compreensiva. Mas agora é bom que todo mundo seja compreensivo comigo: agora eu sou uma pessoa perigosa. Então, se vocês tiveram algum amigo do qual não gostem, eu posso tossir na cara dele, sem problemas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ai, se sêsse...

Hoje foi o segundo e ultimo dia de palestra da Prefeitura. Se ontem eu achei que tinha visto muito preconceito, é porque não esperei pra ver a sequência cômica de hoje.

Antes de tudo, lembrei que M. disse ontem que ele pensava em ir pra Strasbourg (cidade colada com a Alemanha) porque ele achava que la tinha menos desse povo. Ta bom, meu filho. Strasbourg é o recanto perdido dos ultimos franceses puros deste pais. Hoje a sala de aula tinha menos arabes. A maioria era de um outro pais que ficava no sul de sei la onde (veja como eu presto atençao nas informações). Comentario de M.: "hoje tem menos dessa porra desse povo!". Com todas essas letras. Gentil.

Mas M. não teve o privilegio de ser a unica figura intolerante por ali. A palestra de hoje girava em torno da historia da França e dos direitos dos cidadãos. Falava bastante de 1789 e do quanto esse povo (dessas vez, "esse povo" são os franceses) repudia as diferenças e trata seus filhos e seus imigrantes como iguais. Eu fiquei emocionada. No final da palestra, a mulé passou um questionario pra gente com questões do tipo:

- A mulher tem os mesmos direitos que o homem na França? ( ) sim ( ) não
- Um homem pode se casar com outra mulher mesmo estando casado? ( ) sim ( ) não
- O chefe da familia é o homem? ( ) sim ( ) não
- As mulheres devem pedir autorização do marido para utilizar metodos anticoncepcionais? ( ) sim ( ) não

Ao final, fomos corrigir as questões. Eu sabia que muita gente ali achava que o homem é o rei do lar, mas eu não imaginava que eles iam gritar isso dentro da sala pra todo mundo ouvir. Em relação à ultima questão, um dos caras respondeu "eu não concordo!". E a palestrante rebateu "é, mas não funciona assim".

A mulher que tava sentada na minha frente, devia tah se achando A pensadora liberal, racional, evoluida, porque, toda vez que a palestrante dizia que, por exemplo, a mulher na França tinha direito de escolher com quem queria se casar, ela dizia "ah, mas isso é obvio, em todo pais é assim". Eu ja tava ficando puta! Porque, ô, criatura, ou tu é muito ingênua/ignorante pra achar que isso é muito obvio e que a realidade da mulher em todos paises é assim (livre-arbitrio) ou tu ta dando uma de doida. Finalmente a palestrante respondeu à essa também dizendo que, não, coração, não é assim em todos os paises. Ai, se sêsse...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

T-o-l-e-r-â-n-c-i-a

Uma das minhas obrigações perante o Estado francês para permanecer no pais estah em assistir dois dias de palestra sobre a cultura francesa, como os direitos trabalhistas, o sistema de saude, o funcionamento escolar, os direitos e deveres do imigrante etc. Para esse evento, realizado hoje e amanhã, foi contratato um tradutor português especialmente para minha pessoa. O nome dele é M. e eu o conheci no dia em que fui assinar o Contrato de Integração e Acolhimento. Ele foi meu intérprete na ocasião. Agora, meses depois, nos encontramos de novo. Ele é pernambucano e, de cara, nos demos muito bem porque... Bom, ele é pernambucano.

Apesar de M. ser legal e da gente se dar bem e de conversar bastante sobre qualquer assunto e de até nem ficarmos constrangidos no silêncio, desconfio gravemente que não seriamos assim, chegados, se tivessemos nos encontrado em outra situação que não a do estrangeiro. Seguinte: a sala da palestra era composta de arabes, arabes e arabes. E eu (das 25 pessoas na sala, eu era a unica não-arabe). Aos dois minutos do primeiro tempo, M., quando foi se referir aos arabes, soletrou a palavra: "os a-r-a-b-e-s..." e eu fiquei sem entender o porquê de tanto segredo. Na segunda, na terceira e na quarta vez, ele usou "esse povo" pra se referir aos, err... a-r-a-b-e-s. (Shhhi!) Comecei a achar que ele tinha problemas com os arabes quando a expressão foi mudando de cor e de tom, quando "esse povo" se transformou em "ESSE POVO!" com direito a entortada de nariz. E, obviamente, eram sempre frases negativas e, as vezes, desconexas. Eu:

- Tu acha que todo mundo aqui (olhando pros arabes) é casado com francês? Ou eles assinam o Contrato porque trabalham na França?
- Menina, esse povo não é casado com francês não! Err, teu marido é francês-francês? Hum! Então, esse povo casa com francês e traz a cultura deles pra cah e depois enchem a boca pra dizer que são casados com franceses!
- (Eh o que, homi?)
- Eles casam com um francês que passou a vida toda lah. Eles passam a vida toda lah e depois vem pra cah com a cultura deles e não se adaptam! Entendeu?

Não.

Depois de uma certa confiança, M. foi rebaixando os arabes e dizendo que era dificil competir com eles porque essa gente soh da emprego pro povo deles. E era um tal de essa gente! pra cah e esse povo! pra lah e eu comecei a achar que os arabes pro M. eram assim, gente de outro mundo, de outro universo, quem sabe nem eram gente.

Eh incrivel como francês e arabe aqui não se mistura. E a resistência, a meu ver, vem de ambos os lados. Outro dia, quase tive um ataque cardiaco ao acompanhar um topico 100% brasileiro no Orkut sobre a presença arabe na França. A questão era sobre adaptação e, à certa altura, uma fulana comentou que ela fazia o maior esforço pra se adaptar à cultura francesa e achava que, se os arabes não conseguiam se adaptar aqui, eles deviam voltar pra terra deles!

Sabe, por exemplo, essa terra?

A fulana falou que ela teve que se adaptar às formas de redigir um trabalho no computador (por exemplo, ao escrever em francês, a gente deixa um espaço entre a ultima palavra e o ponto de interrogação. O mesmo serve para o sinal de dois pontos). Ela também teve que se acostumar com a agua daqui, que é diferente. Ela teve que se acostumar a um bocado de coisa, minha gente. Eu fiquei com pena dela, quase não consegui dormir naquela noite pensando o quanto deve ser duro pra ela apertar a barra de espaço toda vez que precisa colocar o ponto de interrogação. Deve ser horrivel.

COMO eu posso comparar minha adaptação na França com a adaptação de um arabe aqui? Pra mim, a coisa mais dificil de assimilar até agora na França é o fato de que minhas chances de ser estuprada ou assaltada aqui são quase inexistentes. Foi o maior choque cultural. Eu não precisei deixar minha religião fora do meu lugar de trabalho, de estudo, eu não precisei aprender outros codigos linguisticos, outros codigos juridicos, outros codigos... sociais. Não, não defendo a isolação do arabe na França. Até porque deu uma peninha tão grande quando aquela mulher de 50 anos me parou no Leader Price pra saber qual o produto era mais barato, se aquele de 85 centavos ou o de 92!

Tah dificil. Se um imigrante não pode compreender a situação de outro imigrante, o que porra eu posso esperar dos franceses?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Construindo clichês

Agora que eu escrevi a introdução, hihi, vamos à coisa curiosa que me aconteceu. Não fiquem curiosos, não é tão curioso assim. Eh tosco.

Ha algumas semanas, antes mesmo de eu entrar no curso de francês, os alunos da minha turma estavam trabalhando numa pesquisa sobre seus proprios paises a fim de apresenta-los durante as aulas da sexta-feira. Peguei o bonde andando, mas como o trabalho não é assim, acadêmico, fiz meu cartaz sobre o Brasil e fui convidada a abrir as apresentações na sexta passada.

No começo, fiquei um pouco nervosa e tive que me conter pra não quebrar os dedos da mão no estalar sem fim. Isso durou três minutos. Depois fiquei toda empolgadinha e sai falando sem parar sobre os portugueses, os indios, o presidente Lula, o dedinho que lhe falta, a feijoada, o Nordeste, o Real, o povo "catolico" do Brasil etc. Falei até dos filmes de pornochanchada dos anos 70. Não falei de caipirinha, nem de futebol, mas falei do carnaval! Disse que existia dois carnavais super tradicionais no Brasil: o do Rio de Janeiro e o de Olinda. Claro que eu puxei a brasa pra sardinha daquele que eu adoro! No final, depois de uns 20min de apresentação, sentei no meu lugar razoavelmente satisfeita, me perguntando quais as conclusões que as pessoas tiraram do Brasil depois do meu seminario.

Foi quando a professora se virou e disse que estava curiosa e que tinha uma ultima questão: "como é o carnaval de Olinda, o que vocês fazem?" Soltei um risinho porque pensei no quanto seria complicado descrever aquele suplicio nas ruas de Olinda como sendo bom, mas tentei resumir: "Ha muita gente por todo lugar. Eh preciso alugar seu alojamento muitos meses antes. Dai a gente sai nas ruas... E fica todo mundo por aih, dançando. A toda hora passam as bandas de fanfarra... tocando musicas de... carnaval... e... as pess... buuaaaaaaaaaaaaa!"

Sim, eu chorei!

Hahahahahaha! Eu chorei! Eu chorei muito! Minha gente, vocês não estão entendendo: eu chorei na sala de aula falando sobre o carnaval! Nossa! Eu rio toda vez que lembro dessa palhaçada, mas é porque foi muito cômico (ridiculo). Acho que eu fiquei emocionada quando lembrei do loloh. Vocês deveriam ter visto: as sete pessoas na sala pararam todas de respirar e olharam pros seus pés, completamente mudas, sem saber o que dizer. A professora saiu pra buscar agua e, quando voltou, eu ja tava rindo, morta de vergonha.

Mas uma coisa é flagrante: a ultima coisa que eu disse antes de parar de chorar (quando eu consegui dizer alguma coisa) foi "é porque aqui é muito diferente" e segurei com todas as forças a nova demanda de lagrimas. Falei por 20min do meu pais. Da musica, do cinema, de politica, das praias, mas quando lembrei do carnaval, da festa, das pessoas loucas que aquele pais tem, sim, eu chorei. Não acredito no clichezão de que os franceses são frios. Não, não são. Ja me diverti muito com os franceses que conheci, mas lembrando dos brasileiros, a diferença é do tamanho da distância que separa os paises em questão. Agora acho que ajudei a consolidar mais um clichê nesse mundo: no final das contas, acho que o pessoal da sala concluiu que brasileiro gosta mesmo é de carnaval.

Conclusões da introdução

Na ultima sexta-feira aconteceu uma coisa curiosa comigo. Calma, não tem nada a ver com arabes, policiais ou quedas de bicicleta. Mas antes de falar sobre o caso, uma pequena introdução - que pode durar até o ultimo paragrafo.

Sempre me perguntei como seria a minha adaptação na França, mas toda vez, antes mesmo de raciocinar e colocar os pontos positivos e negativos sobre a mesa pra analise, eu me desesperava e começava a choramingar. E a chorar. E a berrar. No entanto, pra minha surpresa, uma vez aqui, eu nunca me peguei roendo, desejando voltar, tomada pelo banzo. Inclusive, quando as pessoas me perguntam, com uma voz meio "solidaria", se eu gostaria de voltar pro Brasil, se espantam quando eu digo um espontâneo "não".

- Eh melhor aqui ou la?
- Aqui.

- Você pretende voltar?
- Pras férias.

- Você telefona muito pros seus pais?
- Eh, telefonei uma vez...

E assim por diante. E antes que vocês tirem suas conclusões, não, a França não me deixou "fria" e muito menos eu fiquei maravilhada pela "civilidade" (cof cof) francesa. Acho que as pistas pra encontrar o motivo dessa "dureza" repentina são questão de auto-sobreviência e rancor. Vamos apresentar nossos candidatos:

Questão de auto-sobrevivência: apesar de pequena, a minha cidade abriga todas as maiores felicidades que eu tive na minha vida, seja em forma de pessoas, de comidas, de bichos ou de lugares. De infeliz, João Pessoa soh tem o nome. Estar longe dela não é uma tarefa facil, por isso, não basta estar aqui, tem que estar desconectada de lah. Eu evito pensar na cidade, nas pessoas, nos cheiros, nas sensações e, na maioria das vezes, obtenho sucesso. De outra forma, minha permanência aqui seria, no minimo, impossivel.

Rancor: soh depois de sair de casa é que realmente me dei conta de que era um inferno viver dentro dela. Eu tinha consciência de que eu nunca tive, e de que eu nunca teria, o que as pessoas chamam de "lar doce lar". A convivência com meu pai era insuportavel e o sofrimento da minha mãe me consumia o figado. Eu aguentava porque aquela era a unica forma de "viver" que eu conhecia e, principalmente, porque eu nunca tive condições financeiras pra sair daquela situação. Hoje eu trabalho, não dependo de ninguém (ouviu bem, otario? ninguém!), moro com gente mentalmente saudavel e equilibrada, então... Eh, eu acho melhor morar aqui, obrigada.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Yes, o Brasil tem bananas!

Sempre que eu volto pra casa do trabalho ou do curso de francês, tenho que passar pela rua do acidente da moto. Agora, eu pedalo pela rua como uma boa cidadã. Uma boa cidadã que se fudeu e que aprendeu na marra. Como eu disse no post linkado, não da pra uma bicicleta e um carro trafegarem nessa rua ao mesmo tempo. De qualquer forma, pra minha supresa, enquanto eu pedalava na rua semana passada, um carro passou por mim e a passageira me gritou por algum motivo. Fiquei em duvida se era comigo até perceber que eu era a unica alma na rua. E não soh o grito foi pra mim, como o motivo era o fato de eu estar atrapalhando a passagem da donzela!

Eu fiquei puta.

Quando eu tou errada, eu sofro acidentes, e, quando finalmente tou certa, chega alguém e me grita? Isso não podia ficar assim! Eu subi em cima da calçada e sai correndo até alcançar o carro dela que ficou parado no semaforo (eu poderia ter continuado na rua se não fossem os outros carros que tivessem me fechado a passagem). Ai parei do lado do carro e lancei a ja usada questão-afronta: qu'est-ce qu'il y a? Ela baixou o vidro e, tanto a motorista, quanto a passageira, começaram a me gritar e eu comecei a gritar também! Eu duvido muito que eu tivesse falando corretamente, mas o importante era me defender. Comecei a dizer que eu tinha o direito de andar na rua e ela rebateu que ali não tinha ciclovia e eu disse que bicicleta não soh anda por ciclovia e que eu não poderia andar na calçada (nesse momento, o tempo congelou e, ao fundo, se viu uma imagem minha, de um mês atras, na qual se podia ver eu pedalando e atropelando um motociclista na calçada. A cena terminou, o tempo real foi descongelado e eu continuei gritando com a arabe estressada. Eramos duas).

Depois de dizer o que eu tinha pra falar, virei as costas e procurei o primeiro espaço na rua pra mim e pra minha bicicleta, soh pra contrariar. E fiquei la, puta da vida, esperando a arabe passar por cima de mim. Em casa, fiquei me questionando sobre o caso. Acho que eu era uma pessoa mais pacifica no Brasil, pra não dizer menos banana. Acho que isso de deve ao fato de eu sentir que agora eu tenho que me virar sozinha aqui, tenho que resolver meus proprios problemas. Por isso, fico feliz da motorista não ter uma cimitarra. De afiada, bastava a lingua.

domingo, 8 de novembro de 2009

Queda pra inglês sofrer

Queda de bicicleta, infelizmente (para os outros), não é privilégio meu. Hoje de manhã, depois de trocar os freios da minha bicicleta, que se romperam com o ultimo acidente, dei de cara com a inglesa que mora a gente, Cecilia. Por um segundo, eu não pude acreditar: a coitada tava toda arrebentada. Os dedos, o queixo e as palmas das mãos cheias de curativos. O labio superior completamente inchado e meio aberto. E, finalmente, lhe faltava um dente. Não precisei pensar muito pra deduzir que aquilo tinha sido resultado de uma queda de bicicleta. E, quando ela entrou no banheiro e tentou induzir o proprio vômito, não foi dificil, tampouco, imaginar que a queda foi durante um porre. Coitada.

Segue dialogo entre mim e Camilo ao som do vômito de Cecilia:

- Nossa, quantas quedas de bicicleta esse ano!
- Pois é...
- Tu caisse, Camille, Cecilia...
- Sophie...
- Quem mais? Falta uma pessoa!
- Não sei.
- ...
- ...
- Ah, eu...

O proprio se arrebentou no oitavo dia do ano, na vespera do nosso casamento. A presepada pode ser relida aqui. Camilo tava bêbado. Sophie caiu na mesma semana em que eu cai da primeira vez: bêbada. Camille caiu ha menos de um mês e também arrebentou o rosto: bêbada. Cecilia caiu ontem. Acabou de sair com Camilo pra procurar o pedaço do dente que lhe falta. Acho que ela não vai encontrar. Mas a boa noticia é que o ano ainda não acabou. Quem sera o proximo?

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Meu quartinho

Não sei, talvez vocês não entendam. Pode ser um pouco complicado. Mas eu, por exemplo, me impressionei quando Camilo perguntou qual era o Beatle que havia morrido. Ou sera que ele apontou pra John e perguntou quem era esse? Enfim... Eu sei que eu sou uma pessoa extremamente dramatica e tudo que eu descrevo é pessimo ou otimo, é maravilhoso ou é terrivel. E, ou eu choro, ou eu tou rindo abestalhadamente. Mas eu não poderia descrever minha relação com os Beatles de maneira branda. Eu tou à anos-luz de ser uma super fã dos Beatles. Anos-luz. Mas o problema é que eu sou completamente apaixonada por eles. Completamente.

Faz somente uma década que comecei a emprestar meus ouvidos a eles e, até hoje, apesar do esforço, nunca encontrei um album como a força hipnotizadora do Abbey Road. Centenas de vezes ouvindo e centenas de vezes enlouquecendo. A verdade é que ha muito tempo eles despertam minha curiosidade. Quando eu era bem guria, ia na despensa de casa pra revirar os baus velhos dos meus pais e meu pai tinha um album de figurinha (dos anos 70) de temas variados e, em meio à dinossauros, jogadores de futebol e comidas tipicas do Brasil, havia uma pagina dedicada aos Beatles. Faltava John Lennon. A coisa se desenrolou nos anos seguidos, de tal modo, que me flagrei varias vezes chorando ridiculamente depois de examinar uma sequência de fotos dos Beatles, desconsolada por ter nascido tarde e longe demais.

Seja como for, foi depositado no meu colo a oportunidade de ver 1/4 do meu sonho. A possibilidade era real: Paul Mccartney iria tocar no dia 10 de dezembro, as 20h, na capital francesa. Tudo que eu precisaria fazer era estar as 10h do dia 06 de novembro na frente do computador com um cartão de crédito na mão. O meu medo de não conseguir comprar o ingresso era real: eu sabia que Paul Mccartney estava no Guinness pela vendagem de ingressos mais rapida, mas não sabia que o recorde era esse. E meu medo se mostrou razoavel quando eu soube que os ingressos se esgotaram antes das 11h. Bom, recorde é com ele mesmo.

Camilo tentou me manter calma durante os dias que antecederam a venda e foi bastante firme quando disse "você vai pra esse show, tenha calma". Isso evitou que eu tivesse um derrame. Mas la estah de novo minha negatividade preocupada com o horario do trem pra Paris (a gente parte de Lyon três horas antes do show), com medo das greves doidas que acontecem aqui nos transportes. Com medo de uma queda de bicicleta, de uma ida ao hospital, com medo de mau olhado, com medo de que o homem, nos seus 67 anos, morra. Com medo. Com medo, mas ABSURDAMENTE FELIZ!

*agradecimentos especiais à Aline (que também vai ao show, uh ruh!) que foi quem me avisou do show e suportou meus emails aflitos. E ao meu amado, salve salve, que foi quem comprou os ingressos. Ele confessou que suou nao na frente do computador. "Se eu perder esses ingressos, Luci me mata". Matava. Agora Luci é soh beijinho e ansiedade. De qualquer forma, obrigada!

Oh, boy!

Este aqui o post mais delicioso que ja escrevi na vida. Sabe todas as empolgações, todas as felicidades e todas as ansiedades que ja tive na vida? Não são nada diante do que eu estou vivendo agora. Vou falar um pouco mais sobre isso quando tiver tempo, mas por hora, eu queria anunciar que... eu tenho dois ingressos pra um show em Paris daqui a um mês. Show de quem?































Paul Mccartney.

(poft).

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Deixa que digam, que pensem, que falem...

Uma vez, um conhecido de João Pessoa me perguntou, abismado, o porquê de eu ter um blog onde eu expunha toda minha vida (ele falava do Circo sem Futuro ainda). Eu não soube responder. João Pessoa é uma cidade ridiculamente pequena, mas eu sempre me surpreendia quando eu ficava sabendo que alguém, que eu jamais falei na minha vida, lia meu blog sempre. Tem uma fofoqueira em João Pessoa que espalhava historias alheias, falsas ou verdadeiras, aos quatros ventos. A Fofoqueira chegou uma vez a dizer que eu pegava Camilo e meu ex (nunca soube se ela quis dizer que os três faziam suruba ou se eu "somente" traia Camilo com o ex, mas... pouco importa) e que me conhecia. "Ah, conheço demais, eu leio o blog dela". Eu nunca disse um oi à figura, mas ela me conhece: ela lê meu blog.

São pessoas como essa que me mostram que eu não devo me importar com o que eu penso, falo ou escrevo. Porque, primeiro: a divulgação do que eu falo e escrevo não sera feita à semelhança do que eu disse. Segundo, serão espalhadas coisas que eu nunca disse, que eu sequer fiz, independente da minha escolha, dos meus registros. Então, do que adianta ficar se preocupando? Eh obvio que se eu escrevo, eu dou material pra fofoca, mas o pior que pode acontecer é as pessoas falarem sobre minha vida.

Bom, uma vez eu escrevi no Circo que a chefe do meu estagio era assustadora e que tinha olhos de tubarão (entre outros). Meses depois, enquanto eu trabalhava, vi, em tempo real, ela lendo meu blog. Pelo contador, soube depois que a maldita tinha procurado o proprio nome no Google e encontrado meu blog (o nome dela é tão bizarro que ela soh precisou digitar o nome). Eu fiquei gelada, mas não aconteceu absolutamente nada.

Eu sempre gostei de escrever, mas o Blog em si é uma espécie de terapia onde eu, bizarramente, me liberto, graças aos olhos de desconhecidos, dos problemas que me afligem. Eu escrevo cartas, emails, mas eu sinto que preciso falar aqui. Quando acontece alguma coisa no meu dia, mesmo que ela não seja especial, é muito normal que eu pense em relatar no blog. E, atualmente, duas coisas fazem com que eu me sinta mais ansiosa por escrever: a solidão e as descobertas francesas.

Esse post inteirinho, na realidade, não pretendia tratar de fofoca ou do alcance dela. Tinha a unica intenção de dizer que é provavel que eu escreva posts sem sentido daqui pra frente. "Sem sentido", no meu dicionario, é "sem um objetivo especifico". As vezes eu sinto somente vontade de dizer como eu me sinto, das sensações que o mundo me provoca e não quero me privar disso, ainda mais aqui, no meu espaço. Bom, acho que esse post é um começo de qualquer coisa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A décima terceira que da sorte

E, partindo pra assuntos que me deixam menos estressada...

Pouco a pouco, o desespero que eu sentia aqui na França vai se dissipando. Eu sinto a mudança. Eu poderia esperar um pouco mais antes de escrever um post falando sobre os progressos que tenho feito aqui, ja que sei que ainda falta muito a ser alcançado, mas... por que não?

Ontem eu fui, pela segunda vez, no restaurante em que almocei no dia em que tive que ligar, pela primeira vez, pra Mme. Cler. Faz algumas semanas ja e eu falei disso aqui. Camilo havia viajado por uma semana e eu havia ficado em Lyon pra resolver assuntos importantes. Um deles era ligar pra duas propostas de emprego. Se hoje meu francês é tosco, ha algumas semanas, ele era mais que bizarro. Quem me deu forças (me obrigou) a telefonar foi Audrey (uma menina que mora comigo). Foram minutos de sofrimento, mas eu consegui um contrato.

Ontem, quando voltei ao restaurante, eu tive uma sensação ruim, justamente as lembranças desagradaveis daquela tarde chuvosa, cinza e feia em que eu estava ensopada de medo. A diferença é que ontem eu voltei com Camilo e Co, o namorado de Audrey, e passamos quase duas horas conversando sobre nosso futuro (assunto pra um post que levara meses pra ser escrito). Quando eu digo "conversando" não é mais "eu ouvindo calada, sem entender nada". Quando eu digo conversando, me refiro a uma Luci falante. Gaguejei, consultei meu dicionario (Camilo) uma porção de vezes, mas pude ouvir e ser ouvida. Em francês. Mas o barato veio uma hora depois: uma assistente de Mme. Cler, até então desconhecida por mim, me telefonou e eu pude falar e perguntar determinadas coisas e chegar ao fim da conversa sem pensar em desligar o telefone, tomada por um ataque de pânico (como é bem meu estilo).

Pode parecer uma bobagem isso tudo, e eu até penso duas vezes quando vou falar dos meus avanços pros amigos franceses, mas a verdade é que é mais do que sufocante ver seu celular tocar e não ter a coragem necessaria pra atendê-lo. Eh sufocante saber que você não pode jamais se perder na cidade porque, ah, você não saberia pedir informação a ninguém. E hoje, na minha terceira ida ao restaurante, fui sozinha. Fui sozinha e fiquei bem feliz de entender tudo, de poder pedir o prato, de até aceitar a sugestão de sobremesa (torta de limão gostosa) e, no fim, pagar tudo com o meu dinheiro, que ganhei com o meu trabalho. São essas pequenas coisas, aparentemente tão estupidas, que tem me deixado mais tranquila.

Uma outra coisa boa, é que andei me aproximando da mexicana que mora com a gente. Nossa, preciso apresentar com calma as pessoas que moram com a gente! Agora somos onze na teoria e treze na pratica. E uma dessas treze pessoas se chama Diana. Diana chegou por um total acaso aqui. Quando a gente tava entrevistando os candidatos pra morar aqui, idos de agosto, conhecemos um mexicano e ele tava bem cotado pra morar conosco. Um dia, ele trouxe uma amiga e ela jantou aqui. Gostamos tanto dela que, um tempo depois, dispensamos o mexicano e a convidamos pra morar com a gente definitivamente.

Tem um monte de coisa que me faz gostar de morar com Diana. Me sinto um pouco mais confortada por poder dividir a França com alguém que estah na mesma situação que eu: sem amigos, sem seu idioma, sem sua familia etc. Mas minha empolgação com ela vai além dessa felicidade egoista. Diana é muito legal! Sabe quando você encontra aquelas pessoas que você sabe que tem bom coração? Pronto, eu moro com uma dessas. Eu me divirto muito conversando com ela porque ela é engraçada e bem humorada. E parece que o nosso grau de francês é o mesmo. Dai, eu sinto que posso falar qualquer coisa sem a pressão de ter que falar perfeitamente. Quando não da mesmo, ela diz a palavra que não conhece em espanhol, e eu, em português. E a gente se entende. A primeira conversa foi uma troca de figurinha sobre menstruação. Depois disso, ficou claro que nos dariamos bem. Ontem fofocamos, sem pudor algum, sobre o mexicano. E eu e Camilo temos convidado ela pra tudo que é canto. Hoje a gente vai ver Mary and Max.

Obviamente que ainda falta um bocado. Se eu tivesse metade da amizade que tenho com Diana com o resto da casa, a coisa estaria linda. Mas não é o caso. Falta aprender a falar no passado e no futuro e também de uma forma hipotética. Eh dificil. Mas ao menos eu ja posso me perder na cidade!

domingo, 1 de novembro de 2009

Garotos nunca dizem não

Pequenos adendos em forma de post. EU PRECISO!

Os comentarios do post passado feitos pelos homens são a prova concreta de que vocês, definitivamente, não entendem o que é ser uma mulher. Digo, não entendem o quanto é dificil ser uma mulher. Fazem idéia, mas não entendem. Tem o comentario de Mythus onde ele diz que ja sofreu cantadas ("sofreu" é expressão minha, ja que homem não sofre cantada, ele recebe) de mulheres nas ruas e ficou constrangido. Pra mim, isso é novidade. Acredito nisso, mas eu duvido muito que algum desses comentarios tenham deixado você "amedrontado" ou "emputecido", tipo assim, como acontece com a gente.

Quanto aos comentarios de Luis, não, caro amigo, nossa reação não foi desproporcional. Desproporcional foi a reação de centenas de estudantes de uma universidade ao verem uma menina usando uma minissaia.

E quanto ao comentario de Ailton... Ufa! Ainda bem que você veio nos iluminar com sua opinião. "Luis tem razão mesmo. Queiram ou não". Vou repetir: queiram-ou-não. Ponto. Afinal, ninguém melhor do que um homem pra entender a realidade de uma mulher num pais latino-americano, altamente machista/moralista. As mulheres não devem sofrer nenhum tipo de preconceito no meio da rua. Mas (e o "mas" da discordia aparece novamente!) se ela usa uma roupa provocativa, ela estah pedindo pra ser abordada. Eh como usar uma tatuagem. Ninguém usa uma tatuagem pra se enfeitar. As pessoas usam tatuagens porque gostam de sofrer preconceito, porque gostam de serem olhadas de viés. A verdade é essa. Queiram ou não.

Nos meus pobres 24 anos de vida, soh conheci dois homens feministas. Não por acaso, eles foram meus namorados. Camilo Marti e Fabio Viana. Não por acaso, eu me apaixonei perdidamente pelos dois porque eles nunca, JAMAIS me disseram o que eu podia e não podia fazer por ser mulher. Fabio nunca discutiu o tamanho da minha roupa, Camilo me incentivou a casar (e casei) de decote (isso, pra ficar soh no topico "vestimenta"). O tipo de homem que diz que é liberal mas castra a namorada pra mim é um bosta. Eh como aquele povo que diz que não tem preconceito com gay, mas se arrepia de nojo quando tem que apertar a mão de um. Pior que isso é o "não tenho preconceito, desde que fique longe de mim". Claro. Não sou machista, mas namorada minha anda na linha. Que linha mermo?

Pra finalizar, a pergunta que Mythus me fez post passado (espero que tenha respondido):

Qual a reação que a senhorita gostaria de provocar ou ver naqueles que se deslumbrarem contigo?

Sendo bem direta: quando quero impressionar alguém, seja um homem, seja uma mulher, eu prefiro usar a cabeça a usar minhas coxas. Mas se eu fico sabendo que alguém se impressionou com alguma parte do meu corpo, definitivamente, isso não vai tirar meu sono. Otimo! A questão não é absolutamente o que as pessoas possam sentir por mim, mas a forma delas externarem isso. Eu não me importo se eu provoco masturbações, pesadelos, simpatia ou sorrisos falsos. Eu não me importo. O que eu acho grosseiro são as reações. Não preciso ninguém babando em cima dos meus peitos, nem pegando na minha bunda como se eu estivesse dormente. Não quero ninguém me chamando de puta ou soltando gracinhas pelo decote, pela minissaia, por mais que eu esteja "provocativa" ou "chamando a atenção", seja la o que for isso. Finalmente, o problema não esta na minha provocação, esta na reação alheia. Quer a gente queira, quer não. Infelizmente.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

00,01%: eu gostchio!

Eh quase meia-noite, estou caindo de sono e, dentro de poucas horas, terei que estar pronta pra aproveitar mais um maravilhoso dia de faxina. No entanto, um assunto pede urgência.

Luluis, meu querido, desculpe, mas seu comentario no meu post passado foi extremamente infeliz (pra usar um termo decente). Vamos discuti-lo, amiguinhos?

"99,99% das meninas odeiam esses 'psiu' e 'vem cah', isso é óbvio, mas se uma menina anda quase nua na rua (oq não é o caso de vcs, moças de bom gosto) é pq tá querendo se exibir. E mesmo q ela seja boboca o suficiente pra não ter essa intenção, a galera vai cair em cima, aí não tem pra onde. Se elas não têm bom-senso, não vão ser os caras q vão ter".

Obviamente que um paragrafo machista como esse renderia um livro feminista. Como eu sou escritora de blogs fajutos, não de livros exemplares, deixo aqui apenas minha indignação. Não contra sua pessoa, cuja figura me é valiosissima! Mas ha de se lamentar o deslize, oh, se ha!

Luis, eu gosto dos meus peitos. E acho que não sou a unica. Entendesse? Eu gosto dos meus peitos e gosto dos meus olhos. Pros peitos, eu usava decote, porque gostava de realça-los. Pros olhos, eu usava rimel, pelo mesmo motivo: pra realça-los. Quando percebi que era mais perigoso usar decote do que rimel, parei de usar decote. Me pergunto: é justo?

Leitura obrigatoria:
Sindrome
Lola

Meninas, o que vocês acham?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Homens são diferentes, machos, iguais

Uma coisa que vai ser obvia pros brasileiros que moram na França (ou na Europa, em geral), mas que pode ser uma novidade pros amigos brasileiros: a França é cheia de arabe. Cheia, cheinha. Ja li que é o pais com o maior numero de arabes na Europa, cerca de 10% da população francesa. No começo da minha estadia na França, lembro que eu ficava super impressionada (SUPER!) quando uma mulher passava por mim com um véu. Quando vi uma mulher usando uma burca, quase que caio pra tras! O choque visual foi extraordinario. Foi alguma coisa do tipo "nossa, elas realmente usam isso". Eh, Luciana, não foi Jade quem inventou a burca.

Mas antes de continuar o post, tenho que admitir minha completa e vergonhosa ignorância acerca dos costumes arabes. Não ha Wikipedia que baste. Morro de vontade de conversar com uma arabe, mas tenho receio de cair nas perguntas-clichê que seriam totalmente voltadas pro bem estar dela dentro de casa, pra religião e pro machismo. Por mais que se diga que algumas mulheres gostam de usar o véu, e não o fazem soh por questões religiosas, eu acho que sempre olharei pra elas com um pouco de pena*. Mas o que tem me incomodado mesmo são os homens arabes. Alguns, obviamente.

Eu percebi, e comentei com Camilo, que todas as vezes em que fui chateada na rua por homens, foi pelos arabes. Sério, todas as vezes. Eh logico que esse post tem tudo pra ser interpretado como um post de uma pessoa preconceituosa e eu não vou ser tão simploria em me defender repetindo o discurso do povo que se julga desprovido de preconceito do tipo: minha vizinha é arabe e meu tataravo também e eu estudo com uma ruma de arabe, logo, não posso ser uma pessoa preconceituosa. Sinto muito. O que eu tenho que admitir é que eu não me sinto bem entre os arabes jovens. Se isso é preconceito, eu aceito o dedo em riste, mas a verdade é essa: eu não me sinto bem entre arabes jovens do sexo masculino. E é bem especifico, assim mesmo!

Os arabes (sempre lembrando que estou falando dos "arabes jovens do sexo masculino") andam sempre juntos, com seus tênis brancos, seus mp3 às alturas e as calças esportivas com elasticos nos tornozelos. Eh facil reconhecer. O meu mal estar e insegurança chegaram depois de sucessivos acontecimentos infelizes entre mim e os AJSM.

Uma vez, eu tava andando de bicicleta com Camilo. Vocês sabem o quanto eu sou perigosa sob duas rodas, não sabem? Pois, nesse dia, resolvi atravessar justamente o caminho de um AJSM que também vinha de bicicleta. Quando notei o cara, freei à tempo, mas isso não impediu que ele, ao passar por mim, me xingasse. Ele GRITOU na minha cara. Perguntei a Camilo o que ele tinha dito e Camilo ficou calado. Perguntei de novo e ele disse que foi qualquer coisa sobre minha irmã (?). Camilo queria me poupar da raiva.

Ai vocês pensam que eu tou sendo dramatica e eu digo que não. No Brasil, eu ja fui abusada na rua diversas vezes, não gosto disso, mas duvido que alguém diria que eu tenho preconceito com brasileiro, não é mesmo? O problema é que, do mesmo jeito que eu não gosto de passar perto de grupos de homens brasileiros (aih, a idade não importa), eu também me sinto incomodada com os AJSM. Se isso é ter preonceito, então tenho preconceitos com brasileiros e AJSM.

Fora as cinco ou seis vezes em que tive a atenção chamada por algum grupo de AJSM ("vem cah", "psiu" e coisas do tipo), vou citar outro exemplo. Uma vez eu tava com Camilo, tinhamos acabado de comer um Kebab (de Kebab eu gosto...) e estavamos sentados numa praça. Tava cheio de AJSM em volta e eu tava atenta à movimentação deles. Noto que um vem se aproximando da gente, olho pra ele, ele olha pra mim e, ao passar pela gente, me diz: "salope!" Salope significa nada mais, nada menos, do que "vadia". Velho, eu fiquei paralisada. Perguntei a Camilo se ele tinha escutado, se aquilo tinha mesmo sido comigo e a gente viu que sim! O cara olhou nos meus olhos e me chamou de puta! Assim, de graça.

E ha umas duas semanas, eu tava num restaurante arabe (num bairro arabe) com Camilo e o pessoal do trabalho dele. Era horario de almoço e, como eu ja tinha terminado o meu e precisava voltar ao trabalho, me despedi dos que ficaram na mesa e sai do restaurante. Dei dois passos fora e um AJSM passa por mim e me da alguma cantada altamente sebosa a julgar pelo tom de voz dele e a forma que ele me olhou. Eca, é aquilo que eu chamo de sexo oral! Fiquei tão puta que arremedei o que ele falou fazendo "nhem nhem nhem" com a lingua pra fora. E passei. Ai ele disse algo do tipo "ah, você não é tal coisa não?" mas eu ignorei. Qual foi minha supresa quando, ao me virar pra tentar desamarrar minha bicicleta, vi que o cara tinha parado e tava me olhando. Ai eu, MAIS PUTA AINDA, olhei pra ele e disse "o que é?". Na hora ele arregalou os olhos, acho que ele não esperava que eu fosse confronta-lo, mas eu repeti "qu'est ce qu'il y a?" umas três vezes olhando pra ele e depois fui embora. O otario soh ficou repetindo meu qu'est ce qu'il y a? Cadê a macheza de dez segundos atras?

Saindo um pouco do tema arabe, ja que isso não é ação soh deles... Acho foda quando sou tratada dessa forma. A Lola morre de falar sobre isso e a gente morre de concordar, mas sempre vai ter cara que acha que essa é uma pratica supernormal, que mulher foi feita pra isso mesmo: pra ser humilhada na rua, abordada, comida com os olhos (quando não pela propria ação). E a gente sempre acanhada. Depois que percebi que boa parte desses otarios soh faz isso porque sabe que a gente não tem coragem de enfrenta-los, é que comecei a fazer isso. Claro que eu não aconselho ninguém a peitar um cara numa rua esquisita. Mas, por exemplo, coisas saudaveis: toda vez que eu voltava da casa do meu ex-namorado, de noite, pegava um ônibus bem vazio com um babaca que sentava la na frente, se virava e ficava me encarado. Tipo assim, colocava o cotovelo no encosto da propria cadeira e ficava apreciando minha estonteante beleza loura. No dia em que eu cansei de me acanhar e mostrei o tamanho do meu dedo a ele, ele soh olhou mais uma vez e parou.

E agora, a moral da historia: nenhuma. Apesar de ter falado durante boa parte do post sobre minha indignação com certos arabes, essas cantadas baratas são coisa universal e acho que, aonde quer que eu vah, vou escutar piada babaca. Afinal, tem alguma mulher que esta me lendo nesse momento que NUNCA teve que escutar piadinha de merda? Seja de AJSM, seja GHRE, seja de BDSZ, KGFV, WXSZJHI... e a puta que pariu?

Como eu imaginei.

*Update (19 de maio de 2010): apesar de nao fazer muito tempo que escrevi isso, me surpreendi com essa minha "pena" em relacao as mulheres que usam veu e sao submetidas a outras formas de (do que eu julgo ser) opressao. Eh facil criticar o veu, mas a gente esquece que, desse lado do mundo, as mulheres sao tao oprimidas quanto, cotidianamente, atraves de pequenos atos que ja foram absorvidos por nossa cultura machista e a gente nem se dah conta! Nao retiro o que eu disse, retifico: tenho pena das mulheres desse mundo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Express II

Me senti confortada por ver tanta gente revoltada com a situação que fez nascer esse post aqui (Amanda, Mythus, Calcinhas, Helena e todos os demais, obrigada pelos conselhos!). Por isso que agora eu trago novas noticias. Novamente no sabado, recebi outra carta do senhor Gayet (não tou tirando onda, o sobrenome é esse mermo), o motociclista. Nessa carta, ele foi um pouco mais razoavel em relação ao orçamento e disse que encontrou um lugar que cobrava 1OO€ e pouco pra refazer a pintura da frente da moto (o local do arranhão) + o conserto do retrovisor. E, como eu ja tinha dado 20€, eu pagaria ao final "somente" 135€.

De 270€ pra 135€: quanta diferença, senhor Gaynor!

A minha aflição em relação a essa historia tem diminuido, não soh porque o preço diminuiu, mas porque Camilo fez um seguro pra gente que cobre esse tipo de problema, apesar do senhor Gaytorade ter dito que não. A mulher da seguradora disse que se, por exemplo, você vai à casa de um amigo e, sem querer, quebra o computador dele, você pode ser assegurado nesse caso. Legal, né? Mas com a minha sorte, acho que deve ter uma clausula no contrato do seguro que diz "exceto para os casos de arranhão de quatro centimetros em motos BMW verdes".

sábado, 24 de outubro de 2009

Musica francesa: Tryo


Hoje eu tenho uma coisa muito boa pra dividir com vocês. Muito boa pra mim. Ha uns dois posts, eu comentei que havia ido ao Centro Comercial e saido de la com uma compra feliz. Essa compra feliz nada mais foi que um CD. Eh, eu sei que é besteira comprar CD hoje em dia quando existem tantos sites de download de musica, mas vocês vão entender a necessidade da compra depois.

Quando Camilo foi pro Brasil, ele levou na mala as musicas de uma banda francesa chamada Tryo. Foi amor à quarta ou quinta vista. Tryo é um quarteto muito popular aqui na França (pelo menos entre os jovens) que toca musicas "socialmente engajadas": criticam politicos corruptos, a TF1 (a Rede Globo francesa), veneram o Greenpeace, defendem o uso da maconha, cantam as dores da Palestina etc. O estilo é indefinido, vai do reggae ao pop pegajoso. Comecei a adorar a banda (não por seu "engajamento" que, na realidade, me da um pouco nos nervos, ja que a banda critica o capitalismo, mas não disponibiliza nem 15seg de musica do novo album na net e os shows são super caros). E eles tem uma musica que eu adoro (Serre moi), que toda vez que toca, eu penso em Camilo e choro. Hihi

A coisa chegou ao ponto de eu programar minha vinda à França de acordo com um show da banda que iria rolar em Lyon, no 23 de maio (eu cheguei no dia 21). Infelizmente, eu perdi o show porque os ingressos esgotaram muitas semanas antes do evento. Mas no fim de semana passado, eu tava andando com Camilo pelas ruas de Lyon quando, de repente, ele aponta pra um cartaz: era Tryo e o anuncio de um outro show aqui no final de novembro. Duas horas depois, estavamos comprando o ingresso pela internet.

Vocês não imaginam o quanto eu tou feliz de pensar que vou ao show da banda. A empolgação é maior do que foi com o show das Puppini. Gah! Ah, mas esse post vem com a idéia de que eu, a partir de hoje, quando me convir, vou apresentar algumas bandas francesas (ou que cantam em francês) que eu gosto bastante.

Então, ai vai: Tryo

Discografia:
  • 1998: Mamagubida
  • 2000: Faut qu'ils s'activent
  • 2003: Grain de Sable
  • 2004: De bouches à Oreilles (live)
  • 2008: Ce que l'on sème
E aqui, o album que me introduziu à banda: [Grain de Sable - 2003 - download]

Talvez

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