segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A mulher nao vitruviana

Acalento 


As lembranças do feici me mostraram esse post de 2011 sobre uma das minhas milhares de idas ao médico. Esse post me divertiu bastante porque, se minhas acnes nadegueiras desapareceram, minha peleja por um médico continua firme e forte. 

Da médica maluca que dava o diagnostico com um mega-fone, eu migrei pra uma que atendia la perto de casa. Além de medica generalista, ela também atuava na ginecologia, o que era bem pratico, ja que isso me poupava de ver dois médicos caso eu também precisasse de um especialista nesta area. Além do mais, eu preferia me consultar com alguém que soubesse realmente o quao violenta pode ser uma colica menstrual. Entao, eu ia sempre no consultorio dela até que um dia ela me receitou vitaminas pra tratar de queda de cabelo. Teria sido maravilhoso se ela tivesse pedido exames e descoberto que, na verdade, eu tinha um tumor. Mas eu nao guardo rancor dessa maldita incompetente. A prova disso é que fui consulta-la uma ultima vez.

- Doutora, eu tou com uma micose vaginal.
- (olhos condescendentes) E como você tem tanta certeza?
- Porque nas crises de coceira eu tenho vontade de extirpar minha vulva com um ralador de legumes. Pura intuição.
- Vamos dar uma olhada então.

(uma olhada depois...)

- Nao, nao é micose nao. 
- Como assim nao é micose?
- Na verdade, sua anatomia faz com que você sinta esse desconforto, mas na verdade, você soh precisa mudar de posiçao nas suas relaçoes sexuais.

Juro pela minha mae mortinha. 
(Oi, mae! Nao se preocupa que essa historia é verdade!)

Eu fiquei assim, olhando pra cara dela, olhando praquele diploma emoldurado na parede, olhando pra cara dela, olhando praquele diploma... E fui embora. Desiludida com o fato de que uma especialista em vaginas & cia nao reconheça um problema simples relacionado à vaginas & cia, decidi avacalhar e dar uma oportunidade pros homens. Foi então que encontrei um novo médico que, em cinco consultas, não me tocou nenhuma vezinha, não tirou pressão, nem fez perguntas sobre meu historico de saúde. Muito pratico!

A primeira vez que precisei desse homem, foi no ano passado por causa de uma tosse. Essa tosse começou de mansinho, como quem nao queria me matar. Era um arranhado delicado que fazia a voz emperrar. Fui ao médico uma vez. "Antialérgico". E mel e xarope. As semanas foram passando. Fui no médico pela segunda vez: "antibiótico". E Mel, xarope, alho. Antibiotico na terceira vez também... E mel, xarope, alho, oleo essencial, exorcismo... E a tosse la, ha quase seis meses! Comemoramos juntas o Natal daquele ano.

Eu ja tinha me acostumado a ela e essa é uma mentira tao grande que fui ver uma naturopata. Se com medicamentos alopaticos o encosto nao saia, resolvi dar uma chance à homeopatia. Mas consultas com médicos homeopatas não são reembolsadas pela seguridade social francesa, então desembolsei 60 eurinhos. Finalmente, com esse novo tratamento, eu pude constatar que eu havia jogado 60 euros no lixo: a tosse persistia. 

No oitavo mês, decidi ver outro médico. Eu tava fazendo uma formação na época e pedi sugestões de médicos pros colegas de classe.

- Conheço um otimo!
- Quero o numero dele então, por favor.
- Ah, mas deixa soh eu te avisar uma coisa...

Na sua opinião, do que Luciana precisava ser avisada acerca desse médico? A pergunta soh admite uma resposta correta:

a) O médico não era discreto
b) O médico não sabia diagnosticar micoses
c) O médico não investigava as doenças
d) O médico dava falsos diagnósticos
e) O médico não curava nem tosse
f) O médico não era reembolsável
g) O médico era negro

- Olha, ele é negro.
- O_o
- Eu digo isso porque tem gente que não gosta, né?

Anos 90
Sem entrar no mérito da questão kakolega, fui no médico-que-tem-gente-que-nao-gosta. Cheguei la, me apresentei e fui desenrolando o pergaminho de cerca de sete metros onde eu tinha registrado meus ultimos percalços de (nao) saúde e li, durante sete horas, 36 minutos e 43 segundos, todas as minhas doenças importantes dos ultimos cinco anos. O caba nem piscava. Dava pra ver que aquele médico estava interessado no meu problema. Ele até me fez perguntas! Doi? Febre? Catarro? Dor de cabeça? Pediu exame de sangue e fez até aqueles exames que eu achei que tivessem ficado nos anos 90: tirou pressão com ajuda do estetoscopio, verificou minha goela com um abaixador de lingua, me fez tossir enquanto me auscultava etc. Eu fiquei assim, uau, um médico!

Então, saímos da sala de exame, voltamos para a sala de consulta e ele tinha um ar grave. Ele juntou as maos, suspirou fundo e me deu o veredicto assim, sem nem ao menos me preparar: "Luciana, você não tem nada". Como assim eu não tenho nada? Eu nunca nunca tive nada, doutor! Não me deixa assim sem doença, tao de repente! "Na verdade, esse é um problema de ordem psicológica". Devolve minha doenç... Ah, problema psicológico! Vejo que estamos chegando a um acordo. "Essa tosse é o que chamamos de 'tosse dos loucos'".

Eh o quê, broder?

La toux des fous que em francês é mais simpático, mas não menos revoltante! E essa revolta não vinha da minha desconfiança em relação a esse diagnostico, ela vinha contra mim mesma que não tinha pensado nisso antes! Quer dizer, eu cheguei a pensar, mas essa garganta coçava tanto que eu cheguei a pensar novamente no ralador de legumes. "Nada", ele disse. Mas não foi com essa analise que ele ganhou meu coração. Foi quando ele disse "você é muito mais ansiosa do que você imagina". Querido, é porque eu sou ansiosa de cagar liquido que eu vou aceitar o que você ta falando. E uma outra coisa que me leva a acreditar nessa teoria é que essa tosse começou logo depois da pericardite. Tudo se explica. Eu não tou doente, somente louca.

Três semanas depois, eu parei de tossir. Eu estava procurando médicos homens, mulheres, sem me dar conta que nada disso importava sem o auxilio dele:


Quero avisar que essa imagem é meramente ilustrativa ja que o médico era negro. 


::

E pra quem é de feici:

.caso.me.esqueçam.



5 comentários:

Luciana Roque disse...

Ah! Que bom você voltou, bem vinda de volta ao meu divertimento kkkkk. Seus textos são tão maravilhosos por serem despretensiosos ou são despretensiosos para serem maravilhosos? Enfim, como diria meu finado avô "sua vida dá um 'rumanse'"

Margareth Travassos disse...

Como sempre, foda!

Maíra disse...

Ri, chorei, me engasguei... até tossi. Só vou parar quando tu postares de novo. Beijos!

Eliana disse...

Luci, você desaparece mas sempre volta com uns lances bombásticos... Sabe, estou desacreditada de médicos... eu acho que nem eles mesmos acreditam neles próprios porque ouvir certos absurdos, olha...é de lascar. Eu tive um pequeno enguiço, um mini mioma. Ok, acontece nas melhores famílias. Mas foi foda eles minimizarem tudo o que eu sabia. Tanto que joguei na cara do médico...então diga, doutor, tudo o que se lê a respeito e os meus sintomas e dores são coisas da minha cabeça? Olha aí na ultrasonografia...não estou delirando...
Agora fod@ mesmo é vc receber a observação de que o médico era negro...Bom, eu NUNCA na minha vida, com a minha idade avançada rs vi um médico negro...nem aqui e nem no Brasil e tô falando de hospital público, porque sou povão... nos faz pensar, não é mesmo.
Espero que você reapareça...mas e a pergunta que não quer calar...e a perereca? rs

raquel medeiros disse...


eu te amo, criatura! escreva mais, vá! <3

Talvez

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