terça-feira, 21 de setembro de 2010

As exploraçoes começa

O dia de ontem soh nao foi mais estressante porque soh durou 24h. Acordei de madrugada (6:40h) e, cheia de preguiça, fui pro meu primeiro dia de aula na faculdade. Desde que soube que fui aprovada, em julho, ignorei o fato de eu nao saber falar francês direito, fingi que esse seria mais um dos tantos momentos tranquilos da minha vida na França, que tudo daria certo.

Nao deu.

Eu era toda nervosismo. Tomei meu café da manha, tomei meu banho e tentei controlar meus pensamentos pra nao deixar um rastro de cocô de casa até a sala de aula. A unica coisa que me deixava tranquila, era o fato de que eu entendo francês. Mas até isso tiraram de mim!

A primeira aula de ontem foi de Historia Moderna I. As pessoas sacaram seus computadores e cadernos e começaram a escrever loucamente tudo o que o professor dizia. Eu, claro, quis fazer o mesmo: eu escrevia tudo o que eu entendia (ou seja, metade das coisas) mas como nao era rapida o suficiente mesmo pra escrever o que eu entendia, metade das frases que eu entendi ficou pela metade. Tcharam! Sinceramente, achei que eu tivesse arrasando, porque eu tinha quase uma folha completa escrita, mas quando fui lê-la, me deparei com coisas desse tipo:

"A cirurgia progressa. As descobertas e exploraçoes começa. As religioes sao conservadores. Tudo é vontade de Deus. Isso justifica todas as inegalidades sociais, mas no 19o ha o desenvolvimento do pensamento. (...) Os judeus se integram a essa pratica. (...) O pensamento é legal".

Gente.

Isso é anotaçao de quem ja fez faculdade? Traduçoes ao pé da letra, falta de concordância, falta de sentido (os judeus se integram a essa pratica. Que pratica, meu deus?!). O pensamento é legal. Realmente. Mais legal ainda é escrever certo. Mas tudo bem, continuei fingindo que tudo estava correndo bem (até quando o professor fazia piada e eu soh entendia que era piada quando as pessoas riam).

O cara citou o Brasil umas quatro vezes durante a aula. Falou de uma faculdade, dos bandeirantes, do futebol, de Copacabana e depois, que ja tinha dado aula la "em francês". No intervalo, levantei e fui choramingar junto a ele, tirar minhas duvidas e explicar que eu era brasileira e que...

- BRASILEIRA! Ah! Que maravilha! "Ftscdoe glsrpei"? :D
- Eh o que, homi?! Hum rum! (Interpretei essa frase bizarra como sendo "tudo bem?" e confirmei com um sorriso amarelo).
- Ah, mas você fala muito bem!
- Obrigada, professor, mas ta sendo dificil, é justamente sobre isso que eu queria fal...
- Ah, mas você é de onde?
- Joao Pessoa.
- Onde?
- Perto de Recife. Eu g...
- Aaaaaahhh! Que legal!
- Entao, professor, eu gostaria de...
- Ah, entao você mora perto de Olinda!
- Mizera, deixa eu falar.

Minha gente, eu soh queria perguntar onde eu poderia encontrar os textos. Acabei falando sobre o Brasil e sai sem nenhuma resposta! Ele soh disse que eu teria que me juntar com algum grupo pra fazer um trabalho oral (mais uma da série "Frases que nao podem ser retiradas de contexto"). Eh fogo! Eu ODEIO trabalho em grupo. Odeio! De todo o meu coraçao! Ainda mais nessa situaçao, em que vou ter que pedir pra ser aceita em algum grupo, porque, claro, depois de dois anos de curso*, todo mundo ja tem seus amiguinhos e seus grupinhos.

*Pra quem nao entendeu: eu ja sou formada em Historia pela UFPB, entao, por possuir esse diploma, fui diretamente pro terceiro e ultimo ano do curso de Historia na Lyon 2.

Eu ja tinha ha tempos desistido de fazer anotaçoes quando a aula acabou. Proximo round: Iniciaçao à Pesquisa em Historia Moderna, ministrada por um professor com voz de adolescente. Sabe quando os guri de 12 anos começam a trocar a voz E A FALAR assim, meio alTO E MEIO BAixo e totalMENTE TOsco? Pronto. Vi uma aula de Historia em diferentes frequências. Fantastico. La pela metade da aula (depois dele ter passado um trabalho em dupla, pro meu sofrimento), ele nos deu um papel com a reproduçao de um documento, como o da foto, escrito no século XVIII. "Agora, decifrem": era aula de Paleografia. Eu ri, né. Ri porque, vejam bem: eu passo quatro horas tomando no meu cu pelo fato de eu nao entender o que esta sendo dito pelos professores. Daih, chega um cara com um documento ilegivel do século XVIII e diz que eu devo transcrevê-lo. Eu nem sei ler o francês contemporâneo! Mas tudo bem, fingi que sabia tudo e, pra minha surpresa, o documento tinha muito mais sentido que minhas anotaçoes da outra aula.

Novamente, fui choramingar dizendo que eu era estrangeira e que precisava de ajuda. Ele disse que eu falava muito bem francês e o professor de hoje disse o mesmo. Foi aih que notei uma coisa: quando eu chego pra alguém mostrando dificuldade (por causa da lingua), as pessoas automaticamente elogiam meu francês tentando levantar minha moral. Quando eu me apresento como brasileira, sem comentar nada além disso, ninguém se manifesta. Utilizando isso como tatica, ja consegui ser liberada de duas apresentaçoes orais. Hihi (e nao quero saber de quem vai dizer que isso nao é bom pra mim. Se eu soubesse que nao corro o risco de ter um ataque cardiaco durante uma apresentaçao pra 40 pessoas, eu a faria).  

Finalmente, sai meio que em estado de choque da universidade. Fui encontrar Diana: era o ultimo dia dela na França. Resumindo lindamente essa segunda parte do dia: fomos deixa-la na estaçao, segurei o choro e, na volta pra casa, fui andando devagar pra nao balançar demais e explodir em lagrimas (coisa que soh fiz quando cheguei em casa). Agora, acabou. 

18 comentários:

Ana Flavia disse...

Ih! Muita forca nessa hora!

Boa sorté com as proximas aulas.

Bjo

Aline Mariane disse...

ee, estava esperando seu relato!

ah, sem choramingos: se os profes
elogiaram, é porque você fala bem francês mesmo, ué! Minha resposta nesses casos é "Entendo melhor que falo. E escrevo muito pior!".

Tem mais estrangeiros no seu curso? Na minha sala só tem uma romena e ela sim, pobrezinha, fala/entende/escreve pior que eu. Daí todo mundo comenta "você fala melhor que a romena" (deve ser elogio, né?!) e eu virei a tradutora dela nos grupos. Não sei nadica de romeno, mas um estrangeiro entende o outro (ou quase isso!).

Faz bem de anotar em francês. Já falei pra romena que ela não deve traduzir, mas ela insiste que não consegue!

Toda boa sorte do mundo!! Vai com calma que vai!! hihi Bjss!

Amanda disse...

Também estava esperando pelo relato! Nossa, entendo seu desespero. Eu nunca fui de fazer muitas anotações durante a aula (era do tipo que tirava xerox dos colegas) então aqui não foi muito diferente. Olhava pros lados e via a galera escrever freneticamente e eu com minha meia pagina. Em portugues. Mas a verdade é que pra mim não importou muito, ja que eu não tinha prova, so tinha que entregar a dissertação. Errr, boa sorte pra vc.

Das suas anotações, gostei mesmo de inegalidades! Vai se acostumando, as misturas mais bizarras de port/franc vão começar a surgir! Viva o galicismo!

Agora que seu professor sabe que vc é brasileira, cada vez que ele citar o Brasil, vai dar aquela olhadinha pra vc, uma piscadinha de olhos, quer apostar quanto? Eh capaz até de perguntar algum detalhe técnico.

Mas suas aulas parecem interessantes, heim? Queria eu ter que codificar uma carta de séculos passados! E olha, normalmente eles são bem tolerantes com estrangeiros. E se elogiaram o seu francês, é pq é verdade! Vai na fé que tudo da certo! Se precisar de um help, estamos ai!

Beijo!!

Line disse...

Desculpa, mas tive que rir do seu relato, rs. Cada um com seus "pobrema" com a língua, e no final estamos todos ferrados, hahaha. Eu sei, não é engraçado.
Eu tive um professor de história que falava muito baixo, tudo enrolado e ainda por cima só falava segurando a ponta do bigodinho tosco que ele tinha. Ele fazia bolinhas de cabelo no bigode podre. Você pode imaginar a clareza nas explicações dessa pessoa, né?! Mas o cara era um crânio, não dava pra perder as explicações dele.
Dica: nós passamos a gravar as aulas dele, e depois disponibilizávamos pra turma toda, hehehe. Acho que ele nunca ficou sabendo disso, rs.
Que tal gravar as aulas pra poder ouvir em casa depois? Tentando escrever e acompanhar as aulas vc vai acabar fazendo nem uma coisa nem outra!

Boa Sorte!
Beijos!!!

Borboletas nos Olhos disse...

Você sofre, eu me divirto. Parece bem injusto, ainda mais que gosto um bocado de você. Gostei especialmente de "a cirurgia progressa". Lindo, enigmático, rsrrsrs.
Ah, claro que cerveja gelada é beeeemmm melhor que caca, mas estou guardando esse o que me faz feliz com álcool mais pra pertinho do fim de semana. Bjs borboletantes

Caso me esqueçam disse...

minha gente, voces nao entendem. esse "voce fala bem" vem depois da minha segunda frase, nao no fim da conversa. como alguem pode avaliar qualquer coisa assim? se eu falasse bem, eu nao teria frescura de admitir (claro que eu nao ia ficar dizendo isso aqui porque minha mae disse que eh bonito ser humilde :D), mas nao eh isso: eu sei das minhas limitacoes no frances, eu sei que faço muitos erros, e finalmente, sei que eu nao falo bem a lingua. a explicacao pros elogios eh a que eu dei no post ;)

ainda nao sei se tem estrangeiro na minha turma. tem uma canadense, mas francofono nao conta /:

Elvira disse...

Eu acredito que deva ser difícil mesmo.
Você não pode gravar a sua aula? Depois você escuta com calma em casa e tenta transcrever tudo.

Bjs.
Elvira

Caso me esqueçam disse...

ah, esqueci de comentar sobre isso. eu ate pensei em gravar a aula, mas eu me conheço e dificilmente eu iria voltar às gravacoes em casa e escutar as 4h de aula de novo :(

Mariana disse...

gravar a aula é a melhor solução Luci!!! assim vc fica mais tranquila na aula, anota so o que quer e tem tempo até para anotar em francês. Se precisar ouvir a aula de novo antes de uma prova ou trabalho, ta la tudo gravadinho...se não precisar, pelo menos vc vai ter anotações que fazem sentido no caderno!!!

Courage!!! Pode ter certeza de que vai melhorando com o tempo!!!

ps: de maneira geral vc ta gostando da Lyon 2? tô dando uma sondada em programas de doutorado por ae também....

simone disse...

me acabei de dar risada, luci!!! tenho muita solidariedade com a sua pessoa nesse momento hahahahahaha

a primeira aula que eu assisti na frança era de contabilidade. e eu estudo direito. imaginou a merda? eu não entendi nada e juro que la pela metade da aula eu comecei a sentir algo gelado e melequento escorrendo pelo meu pescoço: era meu cérebro derretendo pela nuca. a vontade de chorar so passou quando eu descobri que a outra brasileira, que fazia contabilidade no brasil, também nao tinha entendido la muita coisa... hahahahahaha

mas os franceses são meio enlouquecidos com anotar a materia. desde informações inuteis ao espirro do professor. e a maioria não empresta o caderno não!!!

boa sorte na proxima aula!!! :)

Leleca disse...

tá, eu sei que não é nem de perto a mesma coisa, mas... eu me sentia assim nas aulas de árabe, onde todo mundo era descendente de narigudo e eu lá com minha ascendência portuguesa. eu acho bizarro que algumas coisas que se fazia com facilidade (como falar em público e conversar com pessoas), de repente, dão palpitações e vontade de fugir (como se apresentar na frente da classe). boa sorte aí!

Glória Maria Vieira disse...

ô chefa que puta bosta, viu?! Eu acho que é uma estratégia dos professores pra não "se ocuparem" com mais um trabaklho. O que é uma boba da peste, né?! Eu não creio que você seja miserável no francês não. MUITO PELO CONTRÁRIO, mas deve ser foda mesmo interpretar e anotar num custíssimo espaço de tempo. =\
Uma coisa seria na sua língua, outra é na língua dos "outros".
Mas, fique "pexi", esse primeito impacto não quer dizer nada. Você vai tirar de letra, porque você tem potencial pra isso. Veja eu, chefa, num fiquei doente na primeira semana de faculdade? Pensei até que, talvez, não fosse dar de conta... E olhe só eu hj toda trabalhada! UAHAUHAUHSUHSHUASHHAUSHUAHUSHAUHA

Qualquer coisa, mande tomar no papero que relaxe, viu?! UAHSUHAHSUAHSHAHSUAH

Ou se preferir, grite que eu tento ajudar... #tento mesmo, porque ajudar que é bom... AUHSUAHSUAHSUHASHAUHAS o/

Glória Maria Vieira disse...

Assim que acordei hoje lembrei de contar uma coisa a você, Chefa: Quando eu comecei a fazer meu cursinho básico de francês, eu também fiquei desesperada nas primeiras aulas. Porque ela falava tudo em francês. Sim... eu sei que era aula DE FRANCÊS e não de português, mas é que já nas primeiras aulas falar outra língua que eu sequer sabia como era "eu"? Então eu disse a uma colega minha no dia: Diz a ela que eu não tô entendo é nada! kkkkkkkk Mas é claro que ela não disse e com o passar das aulas eu fui me adaptando e entendendo cada vez mais e melhor.

Não que eu tenha ficado a bam-bam no francês, mas pelo menos não era a aula do primeira dia de aula.

Isso serve pra você!;)

Bel Boucher disse...

Sou da turma da gravação. Quase não volto a elas, mas elas estão aqui, sãs e salvas e qualquer coisa eu posso escutar. Mas não se esqueça de organizá-las assim que você transfere pro computador. Senão fica difícil de achar a aula x, do professor y.

Agora, TODOS falam "ah, você fala bem francês". Ouvi isso, imagine, quando cheguei e ouço até hoje. É insuportável ouvir isso. ainda mais quando você sabe dos seus limites. Talvez eles comparem o seu francês com a segunda língua deles. hehehe.

Mas, enfim, aos poucos (é, infelizmente não é imediato) seu ouvido vai se acostumar.

Courage!

disse...

Pô, no começo é foto mesmo... a gente acha que fala bem, que entende tudo e ai' de repente vc percebe que ta' muito longe ainda! Comigo foi igual. Fiz 5 meses de Aliança Francesa qdo cheguei e entendia TUDO o que a professora falava. Entre amigos franceses(que provavelmente falavam devagar por minha causa) eu entendia quase tudo também, era uma beleza. Até que fui trabalhar numa empresa onde so' tinha francês e todos eram semi-saidos da adolescencia, onde praticamente 90% das palavras eram girias. Cara, que desespero! Durante o trabalho até que beleza, eu ficava no meu computador, mas na hora do almoço era dureza, eu nao entendi nada e as vezes demorava um tempao so' para entender do QUE os caras estavam falando. E quando eu ia tentar participar da conversa, os caras ja' tinham mudado de assunto e la' ia eu novamente tentando decifrar.

Bom, a boa noticia é que vc vai sair da facul entendendo tudo, vai por mim! Mas tem que ter paciencia...

Bon courage!

Caso me esqueçam disse...

mariana: é, tou gostando, viu. o que eu nao gosto sao de coisas bem pessoais. mas os professores sao competentes, as classes sao bem equipadas, eh tudo organizado. e em lyon da pra morar num espaço grande pagando quase nada, tem parquinho lindo pra fofia, hein, hein, hein! ;)

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pois eh, meu povo, decidi, depois da aula de hoje, que eu vou grava-la. pelo menos as aulas da quarta, onde a professora nao fala, ela metralha. foda!

desculpa nao responder a todos os comentarios, tou tentando passar menos tempo no mundo dos blogs agora :(

ah, e glorita: quer dizer entao que a gente vai se falar em frances quando se vir? :D

aaah, e obrigada DEMAIS pelo apoio moral, minha gente! muito legal ler tudo isso! muito! valeu!

:D

Rita disse...

Luciiii, tô comentando tudo atrasado, entrei numa correria sem fim há dois dias... bom, vamos lá.

Well, vou dizer algo revolucionário: vai fundo. Você ainda vai rir junto com a gente de tudo isso. Acredite, a faculdade vai fazer marrrraviilhas pelo seu francês. Tô na torcida, viu?

Quanto à despedida da amiga, faça dos blogs amigos ombros disponíveis, tá? Beijão, fique bem.

Rita

isabela disse...

Adorei seu blog e morri de rir com esse post!
Caí aqui pelo comentário que você fez no blog da Helô (caracteres) mas vi que você conhece a Amanda (petit journal). Ano passado, quando vim morar em Londres, ela me mandou um email porque era leitora do meu blog. Bem querida.
Boa sorte nas suas aulas.

bj

Talvez

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