sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

De como nascem os traumas

Atualmente, eu moro com duas outras criaturinhas e posso dizer que achava mais facil morar com  dez pessoas que com somente duas. Porque se você nao gostar de uma das dez pessoas, você tem um problema com apenas 10% da casa. A três, se você nao gostar de uma das pessoas, você nao gosta de metade da casa. A nao ser que você também tenha um problema consigo mesmo. Nesse caso, é melhor você livrar a pessoa legal da presença de vocês dois. 

Mas nao era disso que eu queria falar. Queria dizer que, como eu fui a primeira a entrar no apartamento, eu tive que encontrar os fiadores e colocar meu nome em todas as faturas e no contrato do apartamento. Se a vida me decidiu adulta, comecei a agir com adultice e acabei me tornando descascadora de pepino profissional em relaçao aos problemas da casa. Eu arranjo tudo aqui! Pode-se dizer que eu sou o homem da casa.

(queria ter visto a cara dazamiga feminista lendo essa frase)

E, como vocês verao, os problemas daqui sao muitos. Vem comigo, gentchi!

Ha um mês, a internet parou de funcionar e... Alias, esqueçam o que eu disse no paragrafo anterior sobre autonomia na resoluçao de problemas. Eu resolvo tudo, mas eu tenho meus limites: fazer ligacoes telefônicas pra desconhecidos. Pra conhecidos também, mas nesse caso, sao eles que ligam e eu nao tenho muita escolha. Entao, quando a internet parou de funcionar, eu terceirizei a ligaçao para Namorado. Ele é otimo. Ele liga, expoe o problema e a atendente:

- Você ja tentou reiniciar a box?
- Nossa, tou falando com o funcionario do mês?

Nao estava. Claro que reiniciamos a box! Reiniciamos a box e apertamos tanto botao que devemos ter reiniciado a internet de outras casas. Mas num procedimento padrao, a moça fez a gente trocar os cabos, desligar aparelhos e liga-los numa sequencia tao especifica que eu achei que ela tivesse tirando onda da nossa cara. Pensando bem, talvez estivesse mesmo. (...) Nossa, ela nos enganou direitinho. Enfim, pra compensar minha covardia de nao ter falado ao telefone, fui seguindo namorado pela casa como uma sombra e antecipando as necessidades dele, ligando as luzes, tirando movel de lugar, dando os codigos e numero cliente exigidos pela telefonista. Acho que todo esse auxilio silencioso me lembrou muito minha avoh e de quando eu era criança e ia passar as férias na casa dela, em Campina Grande. Na época, ela tinha uma historia de ir no Centro "resolver as coisas". Veja bem, resolver as coisas nao era assinar um tratado de paz mundial, mas comprar um carretel de linha ou amolar um alicate de unha. E eu adorava resolver as coisas com ela. Ela costurava e, de vez em quando, ia atras de uma revista de costura ou de um apetrecho.

- Olha, vovoh, esse carretel é preto e...
- Num é esse preto que eu quero nao, menina.

Aih ela pegava um carretel preto mais preto que o preto absoluto e eu ficava ooohhh vovozinha! Como eu disse, eu gostava de sair com ela, MENOS... menos, meu amigos, quando chovia. Quando chovia era foda. Quando chovia todos os cidadaos campinenses se apinhavam nas calçadas à procura de um abrigo que, vez ou outra, ostentavam as lonas dos camelôs. Mas o pior era quando vovoh abria o guarda-chuva. Minha avoh é muito pequenininha, soh ela e Polegarzinho tem essa altura. Entao, quando ela abria o guarda-chuva, ele ficava exatamente na altura da cara das pessoas, funcionando como uma hélice mortifera, mas ela nem se dava conta. Ela ia andando pela calçada feito um foguete, prestando atençao nas bancas de revista, procurando a "Manequim" do mês e enfiando o guarda-chuva no olho das pessoas. Se virava e VRAAA na cara de um. Mudava de direçao e VRAAAA na cara de outro. Era passando e deixando um rastro de caretas e sangue atras dela. E eu ia atras, morta de vergonha, trabalhando a diplomacia "ai, desculpa, moço! Eita, vov... ai, minha senhora, taquih seu olho. Desculpa, ta? Ah, quê? Ele nao é verde? Meu deus, de quem é esse olho verde? Vovoh, espera, para de se mexer!" e assim ia, até a chuva dar clemência. Bons tempos!

Voltando pra 2017: a atendente nao conseguiu resolver nosso problema com a internet e tivemos que ir até a loja pegar uma chave 4G enquanto a box seria magicamente reparada à distância. "Quando a luz voltar a ficar branca, é porque tah bom". Como isso me pareceu muito razoavel, aceitei. Passado um tempo, tudo estava indo muito bem na minha vida até que o inferno astral começou. Pra quem nao sabe, o inferno astral é um periodo de merda de 30 dias que precede o dia do aniversario da pessoa. Como meu aniversario é em maio e o periodo de merda taih, imagino que estou vivenciando o inferno astral de Jesus Cristo porque ta complicado. Pra falar a verdade, tudo começou a dar ruim ha mais ou menos uma semana, entao, podemos dizer que se trata apenas de um inferninho astral.

Na quarta:
Notei que as nossas caçarolas estavam flutuando num liquido pastoso, fedorento e amarelado que escorria de algum lugar desconhecido da pia. Pesquei as panela e fui consultar o encanador que fica, comodamente, no térreo do nosso prédio. A secretaria disse que ele iria passar somente "amanha", à 10h.

Quinta:
 A 11h30, o encanador da sinal de vida. Foi la em casa e quando eu abri a porta, senti um cheiro tao forte de birita vindo dele que eu tava na duvida se eu dava um high five ou um conselho. Era um velhinho de poucas palavras. E de poucas atitudes também.

- Eh. Ta entupido.
- ...
- Nao vou poder consertar agora.
- Euh... Entao quando?
- Hoje de noite você ta em casa? 
- Tou, mas muito tarde, vocês ja vao estar fechados.
- Nao, a gente nao tem hora pra fechar nao.

Na verdade, tinham. Nao somente tinham hora pra fechar como fecharam.

Sexta:
O senhorzinho também nao passou na sexta.

Sabado:
A mangueira da maquina de lavar roupa também ta com um vazamento.
 
Segunda:
Vou no encanador, falo do primeiro vazamento, falo do segundo vazamento, temo por alguma alcunha, falo que é urgente, o encanador chega horas depois, conserta os dois vazamentos e diz que vai voltar no dia seguinte pra verificar se tudo esta bem.
 
Dia seguinte:
O encanador volta, se certifica que o primeiro vazamento esta estancado (jucah feelings) e vai embora.
 
Dia seguinte do dia seguinte:
Descubro outro vazamento na maquina de lavar. Como sou uma adulta, exclamo em adultês: mas sera o benedito? (Minha alma é velha) Desço pra ver a secretaria e encontro uma foto minha na porta do encanador com duas faixas vermelhas se cruzando em cima dela. Respiro fundo, entro e tento:
 
- Moça. Olha...
- ...
- Eu sei, eu sei. Eh que...
- Nao. 
- Sim. Aconteceu...
- Mas assim?
- Sim. Mas eu nao tenho culp...
- Querida, posso te fazer uma pergunta?
- Nessa altura, er, pode...
- Você ta apaixonada pelo...?
- Eu? Nao!
- Nao?
- Nao!
- Ta bom, ta bom...
- Eu soh queria que ele...
- Sim?
- Viesse e...
- Sim...
- Olha, tenho que ir.

Sai de la correndo, dobrei a esquina, cabelos embaraçados, lagrimas no rosto. Encostei na parede e, arfando com meu caderno apertado contra o peito, fui deslizando devagarzinho e fiquei la, agachada, naquela tarde umida, sem saber exatamente o que eu estava sentindo. Tudo aquilo fazia sentido? Estava eu apaixonada pelo encanador pé de cana? Talvez mrs. Dawson estivesse certa e eu estivesse sabotando o trabalho dele para... para...

Para ver este miseravel aparecer aqui em casa e consertar, pela 4a vez, a porra da maquina de lavar que soh podia ta possuida! O vazamento vinha da outra ponta da mangueira! O pior é que o chao do apartamento é de madeira e ele absorveu toda a agua. O piso ficou preto e todo fofo. Oing! Fechei a torneira e, enquanto esperava o enganador, resolvi diminuir o estrago secando um pouco o chao com o secador de cabelo. Procuro meu secador no banheiro e nao acho. BUFANDO mando uma mensagem pras minhas roomates, QUEM FOI A CARA DE FUINHA QUE PEGOU O CARALHO DO MEU SECADOR?, pensei. "Galera, quem pegou meu secador de cabelo, por favor?".

Enquanto a demoiselle nao se entregava, peguei um secador aleatorio que estava à disposiçao e me mandei pra cozinha. Empurrei a maquina, liguei o secador, direcionei o vapor e, 30 segundos depois, ele estourou na minha mao, POW! Eu dei um grito e um pulo pra cima da geladeira. Eu morro de medo de levar choque! Sabe aquelas brincadeiras que a gente fazia quando era criança, "você prefere morrer eletrocutado ou queim..." Queimado. Prefiro morrer queimado e esturricado. Cara, eu levei um choque dos infernos quando era pequena. Mereci. Desobedeci à minha mae e fui traquinar. Peguei um fio que tava desencapado e enfiei na tomada. Minha mae tinha avisado: "nao é pra pegar nesse fio, ele pode dar choque". Aih ela colocou o fio em cima do guarda-roupa. O que eu fiz? Subi na cômoda, peguei o fio, coloquei na tomada e depois peguei na ponta desencapada. Levei um choque dos bigode queimar. Sai correndo desesperada pra sala. Quando ela entendeu o que tinha acontecido, minha mae, banhada na agua da pedagogia, me disse "VOCÊ MORRE DURA, MENINA!" e foi isso. Nem um abracinho, minha gente. De como nascem os traumas. E dai que o secador inventa de pipocar. Desliguei aquele troço da tomada, fiz o sinal da cruz e ouvi minha roommate saindo do quarto, meu secador na mao.

Desisti daquilo tudo e fui comer. Liguei o forninho e... E ele nao estava funcionando. "Pronto, queimei a casa". Liguei pra namorado soh pra desabafar, mas ele aproveitou pra me aconselhar a nao tocar em nada, explicando que os cabos deviam estar molhados por causa do vazamento. Ta bom.

Fui ler as treta na internet. Uma hora depois, o feed nao atualizava mais. A internet-nao-esta-funcionando-caraleo-de-asa. Nessa altura eu comecei a rir. Rir de nervoso. Peguei o numero-cliente, liguei pra operadora e um cara me atendeu. Ele tinha uma batata quente na boca. Eu soh entendia o começo das frases.

- Bom dia, senhora Aquino.
- Sou eu mesma, mais adulta do que nunca, pode falar. Eu sou o homem da casa.
- Bom dia, senhora, a senhora estah com um xoxxoxoxo chahahduehfuhfufh...
- Eh, acho que sim... A internet parou de funcionar.
- Estaremos mandando um chavezzzzxox oxxoxoxoxhchah ahacjidjfi
- Mas eu ja tenho a chave, é ela que nao ta funcionando mais.
- Eu convido a senhora, madame Aquino para religar a bxxoxoxox xochhchhicichic
- Ta bom, entao. Obrigada.
- Xo.

Desliguei a chave, acionei a rede antiga e voilà! A internet voltou ao normal. Confesso que gostava mais de resolver as coisas com minha avoh.

::

E pra quem é de feici:

.caso.me.esqueçam.



2 comentários:

Gisley Scott disse...

Eu ri tanto, mas tanto, que acho que serei expulsa do hotel em breve e nunca mais poderei me hospedar no Hampton Inn. O marido olhando para mim estilo: pega aloka,população!!!

Super feliz com o seu retorno!!!! Olha tem um povinho infanto juvenil, que só tem idade, mas responsabilidade que é bom, nada.... Parabéns por ser o homi da situação e resolver as coisas. Entendo demais o que é isso. Por aqui eu resolvo as coisas de todo mundo e vi que depois o povo se acostumou. Daí agora deixo o cabaré pegar fogo e fico comendo pipoca, mas como vc é melhor do que eu, continue resolvendo tudinho, viu?

Cheiro nas criança! ( expressão nordestina)

www.vivendolaforanoseua.blogspot.com

Eliana disse...

Olha...eu sou filha de um eletricista...e eu já fui ajudante do meu pai...eu achei que teria vocação...até que bancando a ajudante, juntei dois fios de uma tomada que meu pai montava! Foi tão legal hahaha
O "inferno astral de Jesus Cristo" foi boa...feliz ano novo!

Talvez

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