sábado, 2 de maio de 2009

Abor


Terceira descoberta: despedida de solteiro é ruim

Repito como uma reza que tenho (tinha) dois bons motivos para não casar: meu pai e minha mãe. Quem cresce numa casa tendo como referência um casal que, definitivamente, não deu certo, não espera nada de uma troca de alianças. E "não dar certo" pra mim não significa divórcio. Significa somente continuar junto diante do caixão do matrimônio. O caso dos meus pais. No entanto, como a vida é safadjinha, ela me colocou diante de uma situação inusitada. Ou muda o estado civil, minha filha, ou passa o resto da vida repetindo "e se..." com um filete de baba caindo no canto da boca. Aprontamos os papéis, mas combinamos que nunca nos trataríamos por "marido" e "mulher", que não haveria troca de aliança e nem contração do sobrenome dele. Piada. E assim, fomos.

Na véspera, o pobre "noivo" teve uma despedida de solteiro. Ia tudo nos conformes: bebida, amigos, comida (eu sei no que vocês estão pensando), amigos, bebida, amigos, amigos e bebida. Ah, e também tinha bebida. Quando terminou a minha festa de despedida que teve tapioca, samba, mulher, mulher, mulher (eu sei no que vocês estão pensando), música e, laaaaaaá no final, bebida, duas convidadas me chamaram pra encontrarmos nossos respectivos em um bar em que estavam. Aceitei.

Fomos de bicicleta, atravessamos os bairros e, por fim, chegamos a um antro, quer dizer, a um bar, que devia ter o triplo da capacidade de pessoas. Encontrei meu futuro esposo ensopado de álcool, com a língua enrolada e com os olhos ligeiramente trocados. "Amor, tu tá aqui!" e veio tropeçando na minha direção. Sustentei desde o princípio! e o levei pra fora. Ele tinha que tomar ar e eu tinha que encher os pulmões de fumaça.

- Abor, eu te amo!
- Eu sei...
- É sério, abor... abooorr! Eu só quero tu... (cuspindo)
- É, meu lindo?
- É!
- Eu sei...

Eu já sabia. Sabia também que eu deveria aproveitar aquelas frases porque ele não costuma dizê-las. Sabia também que ele não lembraria de nada no dia seguinte. E sabia, mais que tudo, que ele me abava e que só queria a mim.

Não ficamos muito tempo, eu sentia, pelo peso da língua dele (durante a fala), que ele não ia durar muito e aqueles 80kg seriam levados no meu lombo. Não imaginava que eu tinha acertado tanto na suposição. Fomos procurar as bicicletas. Questão de matemática: quatro indivíduos, três bicicletas. Disposição um: eu em uma, o australiano morgado não antes citado em outra e Pierre levando Camilo no guidão. Não, não no quadro, como defende o bom e velho sistema brasileiro. Estávamos na França, o sistema era francês: o passageiro ia no guidão, de frente, com as costas repousando no peito do ciclista e as perninhas balançando. É, é meio sexual. Mas enfim, o que importa é que eles não conseguiram andar nem 30cm e caíram juntos por cima de um arbusto. Eu fiz aquela cara "¬¬" e fui acudir. Segunda tentativa: eu numa bicicleta, Camilo na segunda e o australiano morgado sendo levado por Pierre na terceira.

Começamos a pedalar. Camilo ia na minha frente e eu o seguia gritando "esquerda! esquerda, esquerda, menino! agora direita! direita! direita! isso, continue". Saímos da rua esquisita, entramos na rua movimentada, atravessamos a avenida e eu pedi pra ele parar. Ele parou, parou até demais. Parou tanto que desmaiou, sei lá o que foi aquilo. Só sei que ele foi caindo, caindo e meteu a testa no chão e por lá mesmo ficou. Eu tentava levantá-lo, mas não conseguia. Quando finalmente tive sucesso, o vi levantar a cabeça e um fio de sangue escorria da boca dele e tocava a calçada. Carros e pessoa paravam e começavam a falar em francês: "bonjour? a bientôt? salut?" e eu sem entender porra nenhuma xingava em português e me desesperava como boa Luci que sou. "Fudeu, fudeu!"

Finalmente a figura levanta e começa a choramingar. Minutos depois, quando já estávamos andando, Pierre chega bêbado e preocupado. "Oh, putain!". Putain o caralho, porra, me ajuda aqui! Camilo não se sustentava em pé e não estava sendo fácil carregá-lo e equilibrar duas bicicletas ao mesmo tempo. Voltamos a pé pra casa. Vale dizer que foi uma longa caminhada de 45min com direito a neve, embalada pelo choro de Camilo que saía a cada 10min.

Na metade do caminho, a terceira queda: Pierre cai por cima de Camilo e este começa a chorar de novo. Tanto agora, como na hora, eu comecei a rir, que noite ridícula! Na calçada de casa, mais choro. Deixei as bicicletas no prédio e voltei correndo pra ajudar Pierre com Camilo. Pierre disse "dê um beijo nela" e ele me deu um beijo babado e lindo.

- Abor, foda-se!
- Humm...
- Foda-se o mundo!
- Ah... sim, o mundo. Foda-se o mundo!
- Foda-se!

Ele repetiu isso até entrar no elevador. Quando foi sair, a porta do elevador fechou com os dedinhos dele presos na entrada. Pelas marcas roxas instantâneas que ficaram nas unhas, suponho que ali deveria ter uns 50kg de pressão. Mas eu não tenho noção de distância, profundidade ou tempo, então, me ignorem. Ele soltou aquele grito mudo. Segurou os dedos e abriu o bocão. Eu arregalei os olhos vendo tanto sofrimento, mas não podia fazer nada, aquele era o dia dele.

O carregamos pra cama e tiramos a roupa dele. Quando nos demos conta da situação toda, caímos na gargalhada. Lá estava Camilo: semi-desmaiado, nariz esmagado, lábios abertos e dedos espremidos.

3 comentários:

thais behar disse...

geeente, adorei o jeito como você narra as coisas! e confesso que morri de rir AHUEHUAHE

vou ficar acompanhando, sim?! x}

:*
boa viagem ;}

Patricia disse...

te achei no 3meia5
HAHAHAHAHA
amei amei. eu dei risada demais, que meu pai veio ver se estava tudo bem comigo. hahaha
vou te adicionar no meu blogroll
beijos! :P

José Fernando disse...

Puxa, Luci. Que texto!

Talvez

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