quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Eramos quatro. Lascados.

A Lola me pediu pra explicar melhor essa historia de morrer aos quatro anos, que eu cito no meu perfil. Na verdade, eu também gostaria muito de saber mais sobre essa historia. Tudo que eu sei é que minha mãe sofreu muito com seus filhinhos. Eis um pequeno resumo de alguns dos seus pesadelos de mãe.

Somos quatro: Guilherme, eu, Renato e Elis (26, 24, 22, 15 anos).

Guilherme foi o mais cruel (com ele mesmo). Um dia, ele pegou a espada do He-man (adoro essas frases) e gritando "pelos poderes de Greyskull", correu e atravessou a porta de vidro da sala. Ele tinha (em torno de) cinco anos. Ele tinha cinco anos e muito sangue. Minha mãe disse que nunca tinha visto tanto sangue na vida dela. Acredito que a visão que ela teve naquele momento do seu primogênito não foi das melhores. Não sei se pouco antes ou depois disso, o pirralho curioso prendeu a toalha na qual ele estava enrolado numa panela de leite fervente. Resultado: uma cicatriz que toma 2/3 da barriga dele até hoje.

Eu, por outro lado, não dei muito trabalho a minha mãe. A unica reclamação que ela tinha era a de que eu chorava muito. Meus apelidos eram boca da meia-lua e manteiga derretida. Alias, eu os odiava. E alias, as coisas não mudaram muito, continuo chorona. Tudo bem que uma vez eu chorei porque não consegui tirar uma meia do pé (sete anos), mas isso não é motivo pra banalizar o choro de uma criança. Eu acho. Bom, então, eu morri. Minha mãe disse que la estava eu, aos quatro anos de idade, em cima da cama, com o relogio do meu pai no braço, quando comecei a suar. Ela disse que eu suava bicas e que eu comecei a ficar palida e mole. Então ela me colocou debaixo do chuveiro. Não sei exatamente o que ela estava esperando com isso, mas não deu certo. Meus labios ficaram roxos e meu pobre coração parou de bater. Ai ela, ninja, fez massagem cardiaca e eu ressuscitei. Aposto que eu chorei depois disso.

Renato
sim foi o filho-problema. Eh chamado de duas mãos esquerdas até hoje. Pensando nisso agora, vejo que minha familia não é muito criativa pra apelidos. Ele cortou a cabeça umas quinhetas vezes. Ele quebrou os quatro dentes da frente numa queda. Abriu a lingua. Socava os amigos, chutava a professora, foi pra diretoria inumeras vezes, fugiu dos meus pais num passeio. Foi o que mais quebrou objetos em casa, o que mais levou gritos e o que mais apanhou. Tudo se explica.

Elis foi a caçula que recebeu muita atenção. Ou não. Acho que, mesmo que eu morra aos 100 anos de idade, com Alzheimer, eu nunca vou esquecer desse fato: numa tarde dos anos 90, uma pessoa tocou nossa campainha à tarde: era a vizinha e ela estava com Elis nos braços. A gente não entendeu nada, pois ha dois minutos, Elis estava na sala de estar. Então a vizinha disse que viu Elis andando sozinha no meio da rua (Elis tinha menos de dois anos). Essa vizinha morava numa rua perpendicular à nossa e soh viu Elis porque seu portão era cheio de furinhos. Minha mãe pegou Elis nos braços sem palavras. Eu tremia. Quem estava "tomando conta" dela, era eu. Até hoje eu lembro disso e volto a estremecer pensando no que poderia ter acontecido se a vizinha não estivesse no seu terraço e se seu portão não fosse furado, até onde Elis iria?

Coitada da minha mãe...

8 comentários:

mofo disse...

Oi Luciana! Achei teu blog ontem, e li tudinho! Adorei a forma espontânea como escreves, e o pano de fundo lindo que parece ser a França! Também tava curiosa sobre essa tua "morte" durante a infância! hehe
Vou ficar te acompanhando por aqui! :D

Carla Antunes

lola aronovich disse...

Obrigada por responder o meu pedido, Luci! Adorei o relato. Vc escreve muito bem e com grande senso de humor. Mas que coisa, hein? Afinal, vcs descobriram o que vc teve naquela época, pra morrer desse jeito? E isso que vc contou da sua irmã me deu um arrepio. Mais por causa da sua culpa do que pelo que poderia ter acontecido com ela. É um trabalhão cuidar de criança, né? Acho que elas são um pouco gato, no sentido de sumir e se materializar num outro lugar. Me identifiquei com várias outras coisas, como nisso de ter duas mãos esquerdas.
Abração!

Amanda disse...

Ta explicado seu trauma em tomar conta de crianças! Olha, isso aconteceu comigo aqui na França e foi pior, viu? Mas acho que foi ai que me tornei uma boa baba.

Essa historia de morrer aos 4 é estranha mesmo! Eu achava que vc tinha comido camarao... Mas foi assim, do nada? Acho que vc deixou a gente mais curiosas do que antes.

Rita disse...

Tá, mas.... e aí? como é o outro lado? E a tal luz no fim do túnel? Tem túnel? Conta pra nós que nunca morremos antes. ;-)

Beijos
Rita

p.s. Seu pai trabalhou em Esperança? Como, quando com o quê e por quê? Se puder falar, obviamente. É que só o fato de você saber que Esperança existe, já acho engraçado. Seu pai ter trabalhado lá me deixou curiosa. :-)

Drixz disse...

HUahuahua. Essas histórias de infância são o máximo mesmo. Eu era como a Letícia. Não gostava de dar satisfação de onde eu ia. Com três anos minha mãe me pegou saindo de casa só de fralda. Ela começou a me seguir para ver até onde eu ia. Nessa época Brasília era uma cidade calma. Ela disse que eu andei um quarteirão inteiro sem olhar pra trás, mas ela cansou de me seguir e me pegou pela fraldinha e me levou devolta pra casa. :(

Caso me esqueçam disse...

mofo/carla: que leeeegal! me da prazer ver comentarios como o seu, me colocam pra cima. as vezes eu fico meio preguiçosa de escrever. obrigada!

lola: primeiro: de nada. segundo: obrigada! hehehe escrevi um post aprofundando o acontecimento. alias, minha mae escreveu hehehe vou postar amanha. é mas é isso. criança eh terrivel, cada dia que passa, eu me desanimo mais em ter uma (nao o suficiente pra desistir...). achei que falando desse casao da minha irma, eu iria me esquecer dele, me perdoar, mas continua a mesma coisa, o mesmo peso. eu hein... eu tenho que lembrar o quanto ela tah bem hoje pra parar de pensar nisso no momento em que a lembrança me vem a cabeça.

amanda: pois eh! eh muita responsabilidade! prefiro lavar privada milhoes de vezes! mesmo que seja cansativo. cuidar de criança dos outros deve ser chato, você nao pode nem esgana-las...

rita: nao vi luz branca no fim do tunel. no proximo post você vai entender porque hehehe quanto a esperança, meu pai trabalhou la no começo dos anos 80. ele passou num concurso da caixa economica (e trabalha na caixa ate hoje, mas mudou de funçao e de cidade, moramos em joao pessoa). nao sei por quanto tempo ele trabalhou la, mas acho que pouco tempo. minha mae morava em campina grande, eles ja eram casados e tal. na verdade, com ovoce pode ver com esses posts confusos sobre minhas infancia, eu nao sei de muita coisa hehehe

drixz: eu vivia fugindo da empregada quando ela me levava pra passear. eu corria o quarteirao inteiro, mas ela sempre me pegava. ate que um dia ela desistiu de me levar pra passear, porque toda vez que ela soltava minha mao, eu corria. crianças ruins, a vida se vingara de nos? :(

Drixz disse...

Eu espero que não. Apesar de não ter sido muito levada eu era aquela criança que os mais velhos têm pânico pq "tomava o choro". Até hoje não sei o que isso quer dizer, mas eu era uma dessas (até os 3, 4 anos). E se os meus filhos ficarem iguais? :/

Caso me esqueçam disse...

drixz: tomava choro! hahahaha nossa! super viagem no tempo, nao lembrava mais dessa. mas quando isso acontecia comigo, quem se agoniava era eu! a pessoa se intalava no proprio choro, nam!

Talvez

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