segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sobre pão, rosas e pessoas

Camilo anda ha meses insatisfeito com os chefes. Ano passado, quando ele ainda era somente estagiario na empresa, ele ja vinha enfrentando dificuldades com os malas de lah. Um dos socios da empresa chegou a ser meio que expulso dela, pois era uma cretino de marca maior. Mas ainda restaram todos os outros. Eh o louco que grita, é o cara que é cinico, é o outro mal educado e assim por diante. Como eu trabalhei de faxineira na empresa, sei bem do que ele fala. O chefão, um tal de Olivier, aparecia na empresa de vez em quando. Eu, com minha pobre vassoura na mão, nunca escutei uma resposta dele ao meu bom dia. Tipo assim, nunca. Espero que vocês nunca tenham a chance de comprovar isso, mas quando seu trabalho não é bem assim, glamouroso, você corre o risco de desaparecer. Daih, um belo dia, acho que alguém contou pro senhor Olivier que aquela otaria que ele sempre ignorou é a esposa de um dos engenheiros da empresa. Então, ele veio trocar duas frases comigo na hora do almoço. Deve ter sido dificil. Engraçado que esse episodio se passou bem na época em que assisti Pão e Rosas (2000). O filme gira em torno de alguns casos da vida de uma faxineira mexicana que foi morar nos Estados Unidos. Opa! Faxineira? Estrangeira? Rolou uma identificação.

Nesse exato segundo, Camilo tah no Senegal, provavelmente reunido com alguns homens engravatados discutindo sobre projetos de carbono a serem lançados na Africa. Ele me mandou um email ontem, meio aflito, contando o quanto era sufocante estar com os dois chefes. Antes de embarcar, ele ligou pra mim e disse que um dos chefes tava falando sobre a esposa dele: "Bla bla bla... mas é bom mesmo que ela faça a feira, porque eu passo três horas pra achar um produto, fico perdido. Mulher não, mulher é mais cuidadosa". Pois é, meu bom homem, é porque além de estarmos biologicamente preparadas pra gerar um ser humano, nohs mulheres também trazemos conosco o gene da feira.

E Camilo foi totalmente verdadeiro quando me disse, semana passada, que tudo depende das pessoas com as quais nos rodeamos. O trabalho é chato, mas o chefe é legal? Passa. A disciplina na faculdade é interessante, mas o professor é um cretino? Não passa. Não dah, pô. E ontem eu fui pra mais uma entrevista de emprego da qual eu gostei muito. Não soh porque era pra cuidar somente de um bebê, mas também porque o perfil dos pais me agradou muito. "Quero que você ensine coisas ao meu filho, ele é muito curioso. E nada de TV. E nada de passeios no shopping". E, quando a mãe soube que eu morava numa casa, ela perguntou se eu tinha jardim. "Eu tenho um jardim. E a gente vai plantar tomate nele". E ela sorriu. E agorinha, quando esse post ainda soh estava na minha cabeça, minha ex-patroa me ligou e disse que uma mulher havia ligado pra ela ontem perguntando pelas minhas referências, se eu era confiavel. E daih minha patroa disse que sim. E explicou que eu era séria e responsavel e meu sorriso do outro lado foi enorme e o rubor foi violento. Merci! Merci! E ela disse "mas você fez um trabalho excelente, Luciana". E eu nunca tinha comentado aqui o quanto essa mulher foi importante na minha adaptação na França e o quanto me senti bem trabalhando pra ela. E ja faz uma semana que cogito a possibilidade de voltar e trabalhar uma parte da semana como baba e a outra parte como faxineira. Porque quando a gente tah com as pessoas certas, passa.

9 comentários:

Amanda disse...

Ai que emocionante. Tudo que vc disse é a mais pura verdade, concordo 100%. Ainda mais quando a gente ta longe de casa, dos amigos de sempre, as pessoas do nosso dia-a-dia têm um peso ainda maior na vida da gente.

Quando a gente deixa de ser historiadora ou jornalista e passa a ser faxineira, descobrimos pra quem a gente continua visivel e geralmente essas são as pessoas que valem a pena ter por perto.

Ana disse...

Meu, concordo totalmente com vc: as pessoas realmente fazem toda a diferença!
Fazia tempo que não passava aqui, tá tudo diferente, ficou bacana o layout.
Adorei as novas histórias.
Beijos,

Caso me esqueçam disse...

amanda: exato: eh facil respeitar um medico, um advogado. um "dotô". mas aih a gente reconhece as pessoas de verdade que vao alem do "bom dia" educado. trabalhei pras madames que foram ensinadas a dar bom dia a qualquer um, mas preferi aquelas que davam bom dia porque eu era qualquer uma (nao rotulada de faxineira, ou de historiadora, ou de luciana. gente, simplesmente).

simone: que bom que voce comentou! porque assim eu pude conhecer seu blog e adorei ele! e tambem eh sempre bom compatilhar essas historias com pessoas que sabem exatamente o que estamos passando! seja sempre bem-vinda! :)

ana: realmente fazia muito tempo que voce nao vinha por aqui! apareça pra um cha hehehe alias, pra uma cerveja...

Iara disse...

Luci,

Teve um professor da USP que fez uma pesquisa na área de psicologia social vestido como faxineiro, limpando os banheiros da faculdade. E a galera, no geral, não o reconhecia nesta posição. Quer dizer, o uniforme era uma capa de invisibilidade mesmo. A pesquisa saiu até na Folha de São Paulo, foi super comentada.
E entendo completamente o lance do trabalho do Camilo. Lembra do caso do lugar onde eu trabalhei que eu contei há pouco tempo? Era assim. Se tinha gente que não me cumprimentava sendo eu secretária bilíngüe, entendo o francês escroto não cumprimentar estrangeira faxineira. Não que eu ache que uma coisa é "menos" do que outra, mas você entendeu, né? Tem gente que realmente acha que este tipo de "status" o faz cagar mais cheiroso. Mesmo quando as pessoas era legais comigo lá, o sensação era de opressão diária por tanta arrogância.
As pessoas são importantíssimas. Eu sempre dou muito valor a elas.

Gabriel disse...

Luci, primeiramente: É a Glorinha! UASHUAHSUHHS Tô na conta do meu irmão por o seguinte motivo: Hackearam a senha do meu orkut e como a senha do meu orkut é conjugada com a do meu blog, tô sem poder acessar meu bloguinho. Não sei mais o que fazer, Luci. Se você tiver uma ideia do que eu possa fazer, avisa, viu? Não quero perder meu blog e não quero que ngm faça nada com ele. Se passe por mim, por exemplo. ='/
Enqnt ao poste de hoje: Faz bem em pensar como você tá pensando. Na escola, como eu já falei no blog, eu detestava cálculo e tal, mas eu nunca deixei de prestar atenção na aula, ou de estar em sala de aula por causa do meu professor (pessoa) que era muito legal, divertido. Um ser maravilhoso que tornava a aula menos massacrante pra mim pelo menos. E as pessoas se acham no direito de minimizar o outro por 'pensar' que é melhor. Pensam só.

p.s: Minha linda, me exclua do orkut pra não fazerem besteira com você se passando por mim, viu?!='/

::: Luís Venceslau disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
::: Luís Venceslau disse...

Acho q qdo tem gente no meio, td é relativo. Tem gente q nem liga pras pessoas, tem gente q tolera o trabalho pelas pessoas q tem em volta, tem o lance da grana, q faz a gente tolerar muita coisa, enfim, isso é matéria pra muitas cervejas.

Mas se alguém disser q, em média, as mulheres são mais detalhistas, pacientes, determinadas, e com uma capacidade enorme de memória para compras (não necessariamente pra feira) esta pessoa vai ser considerada machista?

Rita disse...

Nossa, você nem sabe o quanto concordo com você. Tudo depende das pessoas... já fiz renúncias imensas por não suportar a ideia de passar anos e anos dividindo muito dos meus dias com pessoas de valores duvidosos.
Estamos em sintonia.

Beijos
Rita

Thayz disse...

eu imagino que as pessoas te tratavam como invisível, deve ser horrivel. eu nao faço isso, mamae e papai me educaram bem bonitinho. eu tenho horro a quem faz isso - minha chefe.
e camilo tá certo, muito certo...

Talvez

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