sexta-feira, 10 de maio de 2013

Terror durante voo França-Brasil

Senti a necessidade de retomar o blog quando me dei conta de que eu recomecei a transformar todos os fatos do meu cotidiano em uma historia pro blog. Além do fim do casamento, o Guri entrou no maternal, eu fiz amiguinhos franceses, fiz amiguinhos brasileiros, fui pro Brasil duas vezes, fui pra Inglaterra, Portugal, Espanha, recebi a visita da minha mae aqui, cortei meu cabelo curtinho, pintei meu cabelo de vermelho, de preto - nao ao mesmo tempo -, entrei no mestrado, minha patroa engravidou do terceiro moleque (moleca! ♥), minha patroa anunciou minha demissao, meu irmao se casou e, no entanto, eu nao sei sobre o que escrever. 

Pensei em olhar pra qualquer objeto a minha volta e puxar um post ninja dali, mas depois de ter a visao da minha toalha secando no aquecedor da sala, achei melhor começar do começo. Ou do meio!

Primeira ida pro Brasil do ano passado. Eu, depois de dois anos sem pisar na América, em plena crise sentimental, tendo um tumor alojado na minha barriga, os hormônio tudo doido, chorando a cada pio de passarinho, entrei no aviao com sede de descanso. Depois de mostrar a passagem, dei um deficiente sorriso a aeromoça e fui procurar meu assento.

Ouvi distraidamente o barulho das turbinas trabalhando. A medida em que fui chegando perto da minha poltrona, percebi que o barulho foi ficando cada vez mais forte, quase ensurdecedor. Pela sorte que tenho, imaginei que eu fosse viajar pendurada em uma das turbinas, tipo assim, "janela", soh que do lado de fora. Mas foi pior, meus amigos. O barulho vinha de um bebê. Mas era uma espécie de bebê-gorila, porque o choro nao era coisa de Deus. Nao. Era uma coisa meio gutural, sabe. Tipo "OOONNN OOONNNN" ao invés de um meigo "ueen ueen" sussurado. Claro que vocês ja entenderam tudo e ja imaginaram que o bebê estava pertinho de mim. Pois erraram: o bebê estava no meu assento. Como proceder? Com o bilhete na mao e um sorriso gentil, me inclinei e disse educamente:

- Com licença, senhorrrr... inho?, mas acho que esse é o meu assento.
- OOOOONNN OOOONNN!
- Por fav...
- OOOOONNNN! 

Segurando fortemente a vontade de sentar de uma vez naquela mini-cabeça, lancei um olhar maligno para os pais na esperança de alguma reaçao sensata. Foi quando descobri que nao se tratava de apenas um bebê, mas de dois. Nas quatro cadeiras do meio do aviao, estavam dispostos: (pessoa-sofredora-aleatoria) + (pai) + (mae + bebê 1) + (gorilinha). Olhei pro céu com os olhos semi-cerrados e disse "Deus, se isso é mais uma provaçao, aviso que ja aprendi muito com Godz". Dito isso, como que por magia, a mae removeu imediatamente aquela criança do meu banco e fez uma careta como se estivesse me fazendo um favor dificil. 

Revendo a cena hoje, acredito piamente que o bebê entendeu que aquilo se tratava de uma imensa injustiça porque ele dobrou a intensidade dos gritos. Firme e forte, pensei "se esse bebê estiver pensando que com isso eu vou ceder e procurar outro lugar, ele estah muito enganado". Entao, eu cedi e fui procurar outro lugar. Perguntei ao aeromoço se havia algum outro assento vago e ele, lançando um olhar de profundo desprezo em torno de si, disse "se você encontrar algum, é seu". 

Tive uma ideia genial e lembrei do vaso sanitario, unico assento disponivel no momento. Fui sorrateiramente até la mas, quando abri a porta, dei de cara com o bebê em cima do sanitario. OOOOOOONNNN OOONNNN! Fechei a porta do banheiro e sai correndo, esbarrando nas pessoas, nas malas, até que finalmente encontrei o aeromoço que estava de costas atendendo um passageiro. Toquei seu ombro e, quando ele se virou, vi que era o bebê que fez OOOOOOOONNNN! Sai correndo, tropeçando nos meus proprios pés e, antes que pudesse gritar por socorro, encontrei uma poltrona vazia. Peguei minha mochila e, assim que eu abri o cofre, o que eu vi? Nada. Entao, joguei minha mochila la dentro, sentei na poltrona e decolamos. OOOOOONNNN!

(Esse ultimo "on" nao é nada além da minha tentativa de enganar o cérebro de vocês fazendo-os pensar que o bebê também  estaria dentro do cofre. Nao estava).

Pois bem. Bunda instalada, checo vizinho da direita, direito. Checo o vizinho da esquerda e... checo de novo e choco: era um homem que vestia uma camisa onde havia uma bandeira do Brasil. Olha, minha intuiçao é foda, sabe. Nao tenho intuiçao pra ganhar na loteria, nem pra prever quando o Guri vai desmantelar a irma com um chute, mas pressinto quando algum mala vai puxar conversa comigo. Até pensei em me levantar pra sentar ao lado do baby-gorila. Foi quando senti um leve toque no meu braço.

- Oi! Tudo bom, amiguinha? De onde você vem? :D
- (Do inferno). Da França.

Daih, ele contou, sem que eu perguntasse, que ele morava em Lisboa e que estava indo ao Brasil numa "viagem de negocios" (sempre que eu ouço essa expressao, me veem à cabeça mafiosos com maletas cheias de dolares na mao). Ele tinha as orelhas esfoladas e, apesar da minha grande curiosidade, preferi brincar com os fones de ouvidos oferecidos pela companhia aerea - que estavam com defeito. O problema, é que, por mais que minha natureza de bicho-do-mato preferisse a distância dos seres humanos, resolvi seguir o exemplo de Monique que, umas duas semanas antes, me apareceu com um amiguinho que ela fez no trem Paris-Lyon. Pensei "puxa, que legal! Pessoas 'abertas' tem mais chances de fazer amigos". Entao, decidi fingir que eu era uma pessoa sociavel.

O cara era baixinho, do tipo achatado, careca, extremamente musculoso e se esforçava para "falar bonito". Numa tentativa sofrivel de impressionar, ele usava palavras pomposas para formular uma frase simples. Resultado: nao entendi nada.

- Luciana... Lu! Você como pessoa, você se sente bem na França?
- (Como pessoa, sim, mas meu lado cadela precisa de amigos). Na verdade, sinto falta de ter amigos.

Pegando-na-minha-mao ele disse:

- Pois, Lu, você pode nao ter amigos na França, mas você acaba de fazer um em Lisboa.
- (Quem?)

Meda. Sabe aqueles momentos em que você nao sabe como reagir? Tentei me emocionar, nao consegui. Tentei apenas sorrir, nao consegui. Tudo o que eu fiz foi retirar delicamente minhas maozinhas dali e me virar de volta. Mas ja era tarde demais. Quando as luzes do aviao foram desligadas, coloquei um filme qualquer, os fones e, adivinhem, o cara ficou puxando papo. Gente, eu juro! E Deus, que nesse momento ja estava bem mais perto da gente, estah de prova! Foi horrivel! La, sim, eu senti medo. Mas o pior estava por vir: ele me chamou de bebê. Be-bê!

uén

Nesse momento, voltei a me transformar em Luci e decidi nunca mais ser sociavel novamente na minha vida. Entao, pra nao dar a oportunidade de um desconhecido me chamar de bebê novamente, tive outra ideia brilhante e decidi antecipar meu cochilo. Ele nao ousaria perturbar o sono alheio. O problema é que eu nao durmo em avioes e meu cochilo durou 45 segundos. Quando minhas palpebras tentaram se abrir, ouvi o homem tomando fôlego pra recomeçar a falar entao, rapidamente, fechei os olhos e fiquei imovel. Decidi que quando o aviao pousasse, eu desembarcaria de olhos fechados.

Descemos todos em Salvador para uma escala e o cara, sem que eu perguntasse, disse que tinha um terreno pra vender no Brasil que valia um milhao (ele frisou bem esse detalhe). Mas consegui me livrar do milionario dizendo que iria encontrar um tio meu. O problema é que eu sai da area onde eu deveria ter recuperado minhas bagagens, entao, tive que ficar esperando, junto com outra menina na mesma situaçao, alguém que pudesse nos acompanhar ao tapete que faz as malas circularem.

Enquanto esperavamos, começamos a puxar conversa (sim, quebrei minha promessa). Ela perguntou porque eu estava indo pro Brasil, entao, falei do divorcio e do tumor. Ela olhou pra mim bem séria e perguntou se eu era crente. Antes que eu pudesse sair correndo responder, ela disse:


"Meu deus, é um sonho? Tarô?!" Olhei desconfiada pro lado esperarando o Pé Grande surgir, sei lah!, mas ao invés disso, ouvi uma voz familiar gritando "bebeeeê!". Eh um pesadelo. Meu "amigo" lisbonense voltou das cinzas e eu o apresentei a louca do tarô. Em dois minutos eles estavam discutindo ferozmente sobre... Chiclete com Banana.

Nao me perguntem.



Alias, o que acontece com o vocalista dessa banda? O cara tira o bigode, mas nao tira esse lenço da cabeça. Acho que no dia em que ele o tirar, o topo da cabeça dele cai podre no chao. Mas enfim. Daih que sentamos numa mesa, os três, e o cara explicou à cartomante, que ele iria vender um imovel no Brasil que valia quatro millhoes. Fiquei impressionada com a valorizacao dos imoveis no Brasil e decidi que ia vender a casa dos meus pais assim que eu chegasse nela.

De Chiclete com Banana, passamos para "violência doméstica". Foi quando ouvi a seguinte frase sair da boca do milionario (pessoas de bom coraçao, se vocês estiveram almoçando, nao leiam isso):

- Mas... bom... se é feito dentro de casa, nao tem problema.

Na minha cabeça, eu subi na mesa, dei um bicudo na cara dele e fui pro portao de embarque. Fora da minha cabeça, eu sorri, olhei pro lado e pedi pra menina tirar o tarô pra mim. Eu nao lembro direito o que ela disse, mas eram coisas bem genéricas tipo...

"Você se arrepende de algo!". Olha, eu nem tava arrependida de nada na minha vida, mas pela sugestao, eu comecei a me arrepender de muita coisa, inclusive de ter mudado de lugar no aviao. Entao, disse "sim, é verdade, me arrependo bastante de algo". E ela la, toda feliz.

Esperamos juntos pelo meu voo durante três horas. Três fucking horas! Entrei no segundo aviao com medo dos passageiros, mas... no babies, no friends. A moral? Nunca dê moral. 



20 comentários:

Anônimo disse...

Ri demais!
Viajar sozinhA (sim, feminino) é foda. Seja de avião, ônibus, trem... Já fui obrigada (já que achava difícil fizer não na época) a dividir minha televisãozinha com um vizinho que não parava de falar durante o filme, em um voo de 9 horas :) aprendi a ser direta, às vezes chata, com os holandeses e até acho legal.
Em Intermares, eu até deixava de pegar elevador qdo ouvia q tinha gente dentro hehe
Estou curiosa para ler os novos capítulos no Brasil da novela ;)

Beijos,
Maíra

Tina Lopes disse...

Peraí que vou tentar recobrar o fôlego e depois comento <3

disse...

Ai Luci vc me mata de rir! Ainda bem que hoje é emenda de feriado e tô sozinha no escritorio podendo rir a vontade (e sem muito trabalho como pode-se perceber, das vantagens de não emendar feriado)

Cara, vc tem o dom de atrair gente doida, não é possivel!

Beijos "Bebê"! ;)

monique disse...

DOIDO! Esse foi o post mais engraçado de todos os tempos, de todos os tempos, de todos os tempos, de todos os tempos... (repetição em eco). ri demais! hahahahaha! e olha que já conhecia a história. olha, como o amor é grande, te amava com o cushing, mas prefiro tu assim. por favor, não tenha mais tumores.

Com carinho,
M. da conexão Paris-Lyon

p.s. fiz DOIS amiguinhos! hahaha

Luciana Nepomuceno disse...

Eu gosto de gente. Gosto inclusive de gente meio doida e tal. Mas zero paciência com mala que acha legítimo violência doméstica. E que vôo dureza, hein?

caso.me.esquecam disse...

seguinte... eu encurtei a historia pra que voces nao achassem ela... inverossimil, mas foi foda. o cara ficava passando o braço no meu pescoço ou pousando a mao na minha cintura. e esqueci de dizer que ele era professor de jiu-jitsu (por isso as "orelhas esfoladas"), entao, fico imaginando o quanto pode ser perigoso um monstro desses justificando violencia domestica. foi foda. fiquei tao chocada que nem me dei o trabalho de comecar uma discussao ali. alma perdida.

e como assim o melhor post de todos os tempos? o foda eh que eu fiz esse post ha quase dois meses e nao postei porque achei uma bosta. escrevi o paragrafo final e postei. "melhor post". entao, quando eu nao gosto eh que vai ser engracado, eh isso?

dé: ahhahahaha

ISABELHICES disse...

Eu te acompanho a um tempo, bem caladinha para não virar fã clichê, mas dessa vez não aguentei! Sua ironia é perfeitamente encaixada aos seus dramas cotidianos...Então, até uma viagem porre como essa, vindo de você fica interessante! Lá vai a ladainha:não te conheço, mas acompanho seu blog e o acho muito bom! Parabéns!

Rafaella disse...

olha, com essa historia de mestrado e tudo o mais, passei a odiar tudo que eu escrevo, mas na minha ultima orientação a prof disse que meu texto tava ótimo, ou seja, pensa que vc está numa fase de odiar tudo pq vc está cada vez mais crítica, mas algumas coisas são boas sem que a gente tenha tempo pra pensar muito...

agora a verdade: tô aqui tentando me convencer disso, por isso escrevi pra vc!

mas o post tá ótimo e o nosso jeito de ver as coisas e ser irritada e o caramba não era do cushing não!
nóis é assim e nóis é foda! hahahaha

Beijoooooooo!

p.s. aquele negócio embaixo dos comentários "Prove que você não é um robô" me faz sentir um alienígena, me imagino tentando dançar e ficar toda dura e aí o computador dizer: VOCÊ É UM ROBÔ, REPROVADA!

Iara disse...

Gente. Gente. Que pesadelo. Olha, tarô eu acho bem ok, serve para entreter e eu coloco no gente maluca do bem. Mas homem abusado? Tentando forçar aproximação? Justificando violência doméstica? OLHA.

O post tá ótimo, você é que tá super crítica. :P

::: Luís Venceslau disse...

Em 4 anos tb tive algumas peripécias num trajeto mais mais modesto (CG-JP), mas tb descobri q a técnica do "estou dormindo" é uma boa. Até hj eu não sei oq é pior, se é choro de criança ou adulto roncando, ou ainda celular tocando música escrota e alta..

Amanda disse...

Post há dois meses injustamente encalhado? Sinal de que tem outros na mesma situação, não? Vai liberando aí, Luci, que tudo que vc escreve é bom! Não digo que esse é o melhor post, pois nada supera a Carol sendo derrubada da escada.

Eliana disse...

Luci Luci Luci...mas que viagem mais doida...que troglodita mais espaçoso. Mas vc me fez me lembrar de quando eu tava num busão e me sentou um tio do meu lado que disse que era cantor, ganhei até o cd autografado. Foi tão traumático que eu fugi dele...o nome eu não me lembro...mas era algo de fulano do asfalto hahaha era um tipo Reginaldo Rossi. Tb já sentei ao lado de um japonês que ficou me bulinando no meio da noite. Não tive dúvidas...levantei, fui falar com o motorista que parou o busão e foi lá dar uma chamada no japa. Foi um forfé...daí troquei de lugar e fui sentar perto de um hippie...mas ele dormiu a viagem toda enrolado numa manta e não me incomodou hahahah devia estar em outra dimensão. Na minha ultima ida ao Brasil, sentou do lado um todo amigo que fez como este...e ele também era cheio de querer falar bonito, que cansava! Enfim, é assim que a vida ganha graça hahaha Bjs

Nicole disse...

SENSACIONAL.
Luci is back.

Letícia M. disse...

Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk ri muitoooo!!! Luci (olha a intimidade), você faz meu dia infinitamente mais feliz! Sempre que leio os posts (e me acabo de rir), me sinto tãoooo bemmmm!!! Por favor, não nos abandone!!! Sou sua fã!!!!

Letícia M. disse...

Ahhh... publica tudo que tu tiver guardado e acha q não presta, vaiiiiiii!! Certeza que vamos AMAR!!!!

Glória Damasceno disse...

DOENTINHO, NO MÍNIMO! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
O NÍVEL DE CARÊNCIA DELE É... ANCESTRAL!!!!

BEBÊ DE CU É ****, MEU JOVEM! AAUSHAUHSUAHSUAHUSHAUHSUAHUSHAUHSUAHS

Só acontece com você essas coisas, né?! Impressionante, Chefa. Kakaka

Rita disse...

Gente, que cara mala sem alça, jisuis.

E olha que coisa original e diferente eu vou dizer, prestenção:

que bom que você voltou a escrever.

:-)

Beijos
Rita

Palavras Vagabundas disse...

Vou copiar a Rita: que bom que você voltou a escrever!
Texto ótimo.
bjs
Jussara

G disse...

Tios Sukita sempre me perseguem, posso ficar encolhida num canto, que eles me acham.

Bel disse...

Só vou dizer uma coisa: #EuRi.
E faço coro com a galera que pede pra liberar os posts do rascunho!
Beijo, "bebêeeee"!!!

Talvez

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