domingo, 2 de fevereiro de 2014

So faltou o Rodrigo

Nunca tivemos problemas quanto à uma falta de convidados nas nossas festas. Somos nove moradores na teoria, mas doze na pratica. Entao, uma festinha com os amigos proximos, beira facilmente a centena. Por isso, com o passar dos anos e a popularidade de algumas festas, nos vimos obrigados a desenvolver certas praticas que pudessem proporcionar a loucura geral dos convidados e a tranquilidade dos vizinhos. Falhamos miseravelmente. Pelo menos quanto à segunda parte.

As primeiras festinhas tinham todo um cheiro de inocência. Cada criança trazia sua garrafa de alcool, um tira-gosto (96,5% das escolhas giram em torno de amendoins borrachudos, mas 100% dos amendoins sao devorados antes das 2h da manha) e dois ou três coleguinhas. Eles chegavam, bebiam, vomitavam e iam embora. Tranquilo. Mas as festas foram ficando mais conhecidas e começamos a nos adaptar à nova demanda: de umas três festas pra cah, começamos a disponibilizar barris de cerveja, muros de som, um dormitorio pros guerreiros (esvaziamos um grande quarto da casa e cobrimos o chao de colchoes), uma recepçao, um fumodromo com musica e alguns metros de pizza feitas num forno à lenha. Resultado: na festa do sabado, eramos quase 300. 


Aqui qué a festa?

Em festas assim, as pessoas nunca chegam em pequenos grupos, elas chegam em caravanas. De carro, metrô, jegue, bicicleta. Vi um grupo saindo de um bueiro. Eu, particularmente, sempre peço pros meus convidados trazerem amigos pra que eles nao se sintam deslocados caso eu saia de mim va dançar. Mas tem gente que nao sabe ponderar. Uma convidada, que trouxe metade da festa, foi logo se justificando na entrada: "Me disseram que era pra trazer os amigos". Quando eu vi a quantidade de pessoas que ela trouxe, quis explicar que era pra trazer os amigos mais proximos e nao todas as pessoas que ela ja conheceu na vida. A avoh dela ficou la no sofa, com um Malibu na mao. O professor de fisica do ensino médio foi dançar com a vizinha dela. O evento foi compartilhado no Feici. As pessoas ligavam chamando os amigos. "Traz todo mundo", ouvi um dizer ao telefone. Entao, a cada dez minutos, viamos uma horda ensandecida chegar e se enraizar na nossa sala. Para a ocasiao, veio gente de Marselha, veio gente de Paris. A meia-noite, eramos bastante numerosos e meus colocs ainda nao tinham se decidido se aquilo era algo a se comemorar. Encontrei um antigo coloc, mas no momento em que começamos a conversar, um grupo que pedia passagem o levou para longe e nunca mais tivemos noticias dele.

A festa se concentrava em quatro pontos: o fumodromo, a frente da casa, a sala e o subsolo. Este ultimo era o local mais procurado, ja que sediava o bar e os djs. Desci com dois amigos pra ouvir um pouco de musica, mas logo fomos engolidos pela fumaça que saia da maquina de gelo seco e, em três segundos, eu ja tava pegando na mao de pessoas que eu nao conhecia. Eu nao sabia onde meus amigos estavam. Eu nao sabia onde eu estava. Fiquei vagando sem rumo e trombando nas pessoas que brotavam na minha frente. Elas tinham uma cara tao perdida quanto a minha. Uma menina se jogou em cima de mim, me pegou pela gola e me pediu pra tira-la dali. O problema é que algum coloc de inteligência muito desenvolvida ligou a maquina e a escondeu atras de um sofa pra ninguém tropeçar nela, mas ninguém sabia exatamente em qual tomada ela estava ligada e atras de qual sofa. Taticas de guerra foram prontamente colocadas em pratica e vi um coloc se rastejar em direçao ao ponto mais denso de fumaça e desaparecer nas brumas. Mais uma grande perda. A maquina soh parou de fazer fumaça quando o conteudo se esgotou. Foi nesse momento que nos demos conta de que eramos bem mais numerosos do que pensavamos. Metade da festa foi descoberta e os reencontros foram felizes.

No fumodromo, uma menina fez uma entrada fenomenal usando um casaco de pele, herança da avoh. No instante em que bati os olhos no casaco dela, imaginei todas as cenas catastróficas possíveis e, antecipando o pior, fui preveni-la: "você é muito corajosa de vir a uma festa assim. Você nao tem medo que alguém derrube bebida em cima do seu casaco?" e ela, com ar superior, respondeu que "nao. Eu nao me importo. Eu nao gosto de me vestir de acordo com a ocasião, gosto de ser original... pra fazer esporte, ir às compras ou ir pras festas...". Meu lado cruzeta aflorou e eu tive vontade de jogar minha cerveja naquela merda de casaco e avisar que ser original é chegar nu.

Os problemas de superlotação logo apareceram. A casa tem dois banheiros, um no andar de baixo, outro no andar de cima, mas bloqueamos o acesso às escadas que levam ao primeiro andar (porque também dao acesso aos quartos) com um colchao de espuma. Puro luxo. O resultado é que a fila do banheiro saia da casa, seguia pela calçada e dava três voltas no quarteirao. Monique chegou em mim, carinha desolada: "eu segurei tanto meu xixi na fila que, mesmo agora depois de ter ido ao banheiro, minha bexiga ainda ta doendo". Tive doh. Aquela quantidade de gente tava insuportavel, entao, nao era nem 1h da manha quando decidi ir embora. Mas fui em grande estilo: subi em cima do sofa, dei um mosh na multidao e fui conduzida até a saida.

Voltei no dia seguinte, no final da tarde, rezando pra que a faxina ja tivesse sido feita. Nao tinha. Mas a casa estava inteira. A festa durou até as 9h. A cerveja acabou à 1h da manha (900 copos de cerveja consumidos), entao, os colocs empurraram pros convidados as velhas garrafas de alcool que sobram a cada festa que fazemos, aquelas que os convidados compram à 5 euros e que ninguém quer beber. Pois bem. Beberam. E ainda pagaram por isso.



Um coloc explicou porque odiou tanto a festa. Disse que, enquanto ele dormia, um casal entrou de fininho no quarto, se apoderou da cama do colega de quarto ausente e "copulou". Sim, ele usou essa palavra. Nao, ele nao tem 126 anos. A avoh da menina, que ainda se encontrava no sofa, riu do termo. "Eh trepar, meu filho. Trepar".

Uma convidada tropeçou no colchao enquanto descia as escadas e saiu bolando ladeira abaixo. Abriu o queixo, foi pro hospital às 4h da manha. O bar produziu 600 euros, mas acho que, depois de terem pago dj, caixas de som e cerveja, nao deve ter sobrado muita coisa. Também soube que um vizinho chegou às 8h da manha pedindo clemência. Disse que os vizinhos estavam cansados do barulho, mas que eles tem medo da gente entao, ninguém disse nada, nem quiseram chamar a policia. Olha, tudo bem que meu bairro parece o Bronx (gente fuzilada, carro queimado), mas é tudo exagero. Somos legais. O problema é que minha rua é uma rua de velhos de mente velha, entao preconceito rola solto. Outro dia, uma senhora chegou no emprego de um coloc (que fica no final da rua) e perguntou se as vans que ficam na frente da nossa casa, sao vans de prostitutas. Realizem. Nao sei se ela estava interessada em se candidatar à uma vaga, mas dispersamos os rumores.

Mas a proxima festinha taih: dia 15 de fevereiro, cumbia e cerveja. Vocês estao todos convidados, toda a internet. Tragam os amigos, caso eu saia da festa. Ou de mim.


37 comentários:

Amanda disse...

Adorei! Ri muito, como sempre. Mas.... E o Rodrigo??

Rita disse...

Vi um grupo saindo de um bueiro - hshahaha!! Ah, dona Lu. Bj.

Maíra X disse...

Chorando de rir no trabalho, Luci. Ainda bem que a fila do banheiro aqui é menor.

Próxima vez que for marcar uma viagem a Lyon, vou planejar de acordo com essas festas. E para não ser olhada diferente, tentarei levar algumas centenas de amigos. Holandês não recusa bebida de graça.

Falando em beber, que tal comemorarmos o aniversário da nossa irmã em Bruxelas, no bar com a maior variedade de cervejas do mundo, no fim de semana do niver dela (28/2 a 2/3)? Eu pago as bebidas.

Eliana disse...

Ahhh não...tem que fazer um calendário das datas festivas...vamos organizar hahaha Jura que o subsolo não era por acaso o umbral?!?!? Hilário!!!! Bjs

Helô Righetto disse...

rindo, rindo, rindo!!! primeira coisa q pensei quando comecei a ler: meus deus e o banheiro? eu sim tenho 126 anos

eric disse...

Eu to é morto.
Olha q vou mesmo viu.

Palavras Vagabundas disse...

Onde foi o Rodrigo? Ou foi e você não achou? kkkkkkk
Saudades de seus textos.
bjs
Jussara

Lana disse...

kkkkkk
Ri demais!
Imagino que o tal Rodrigo ainda deve estar procurando o caminho de casa, aliás, o Rodrigo pelo menos conseguiu entrar na festa????

Baka disse...

ahhhhhhhhhh como suas postagens dão saudade... já tava louca pra poder lê-la de novo!!! comédia garantida como sempre! ^^

Mari Müller disse...

O que é coloc?

Ramira Leidy disse...

Que diacho é coloc?

Marissa Rangel-Biddle disse...

Saudades. Me leva! Me aceite como coloc!!!!!!!!!

caso.me.esquecam disse...

haha gente, desculpa. coloc pode ser duas coisas: "colocataire" e "colocation".

colocataire diz respeito às pessoas que alugam ou moram uma mesma casa/apto. por exemplo, eu tenho 12 colocataires porque moro com 12 pessoas.

colocation é a coisa em si, a locaçao do apto por varias pessoas. é meio que parecido com uma republica, a diferença eh que as pessoas nao sao necessariamente estudantes, mas elas curtem uma vida mais... coletiva OU simplesmente nao tem grana pra bancar uma casa sozinha.

eu tou entre os dois :)

Maria disse...

Chorei de rir, muito!

Silvia disse...

Obrigada por alegrar o meu dia :))
Já ri muito!

Fatima Siqueira disse...

Menina!!!!!
Tô o maior tempão desblogada. Descobri: Que saudades de vc! Abraços
Vc me faz feliz e isto não é uma cantada!

Mari Bento disse...

outro dia qdo vc me enviou o convite pra festa, li o e-mail e comentei com uma amiga da faculdade que eu tinha sido convidada para ir a uma festa, mas que nao ia dar pra ir. Dai ela me perguntou onde era essa festa e expliquei, no final das contas ela me disse que tinha ido num churrasco na sua casa nesse ultimo verao! Hahhahahaha!!! O mundo é realmente pequeno.

Anônimo disse...

Hey, Luci... estamos em Abril!
R

Anônimo disse...

O Rodrigo ja compareceu?
R

Maria Clara disse...

todas chora com saudade dos seus posts :(

Anônimo disse...

Buááááá´´aá´... assim , ainda te esqueço !
R.

Anônimo disse...

Poix... cá pra mim o Rodrigo veio no dia seguinte ;-)

Mariana disse...

Alguém tem notícias da Lucy? Sumiu?

Mariana disse...

Alguém tem notícias da Lucy? Sumiu?

Anônimo disse...

Lucyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyy
R

Nicole disse...

Luci, floree!! Volte para nós! Mande notícias do mestrado, da cabeleira, da vida, de ti, sentimos sua falta!

Beijinhos,

Maria Clara disse...

ô lu, volta aih!

Anônimo disse...

Olha, este fim de semana encontrei o (um) Rodrigo em Albufeira, Portugal.
Queres que to mande?
E assim, voltas?
R.

Livia Torquato disse...

querendo apenas chorar com esse sumiço.

Anônimo disse...

Cara, o que dizer de ti, que nem conheço mas já considero pacas!

Pfv, volte
è muito brochante ler o blog inteiro em 2 dias e não ter mais expectativa de novas aventuras :/

Anônimo disse...

Uai, sms jah cabô?!
Volta... =~~~

Anônimo disse...

*mas
Odeio esses teclados modernosos com auto-correção.

Nicole disse...

Luciiiii, come baaaaaaack :(

Paula disse...

Poxa, um ano sem Luci. :-(

Nicole disse...

Pois é, Paula... e a gente aqui, na preocupação... Luci, querida, escreva só pra dizer que tá viva =/
Estamos todos mandando boas energias, esperamos que esteja bem.

Beijinho

Uma, Nenhuma, Cem Mil disse...

E então, depois que a gente se apega, sente falta, dá inúmeras clicadas pra ver se tem postagem nova chega a conclusão que os leitores perderam a importância para a doidivanas Luci. :(

Anônimo disse...

Que alivio! Quase te esquecia...
R.

Talvez

Related Posts with Thumbnails