![]() |
| De novembro à abril: Luci |
Sei que passei dez dias sem postar, mas esse nao é um post para lembra-los de que estou viva. Bem pelo contrario: é um post de despedida, pois estou morrendo, caros leitores. Isso é, se catarro matar. Minha gente, esse frio é muito frio! Como ter saude quando você tem que atravessar a cidade debaixo de -15°? Eu nao estou acostumada a esse tipo de vida. Na Paraiba, a gente soh entende o conceito de gelado por causa do sorvete. Porque minha terra tem palmeiras onde frita o sabia. As aves que aqui gorjeiam também estariam fritas por la.
Tudo começou com uma pequena irritaçao na garganta no domingo. A irritaçao foi se desenvolvendo durante esses dias a tal ponto que, ha cinco minutos, eu tossi uma coisa que, definitivamente, nao pode ser de origem humana. Tinha uma cor que nao é obtida na natureza. Gente, eu estou com medo. Faz três dias que eu nao sinto o cheiro de nada. Minha voz ta linda. Quando eu falo, os patos respondem. Mas as minhas obrigaçoes como babah desconhecem meu estado de saude e o sofrimento é imenso quando tenho que buscar os guris na creche.
Como sou uma garota de sorte, num dos dias mais frios de Lyon, fui à creche e nao consegui armar o carrinho de bebê. Tentei de todas as maneiras, chamei duas crechetes para me ajudar e nenhuma delas conseguiu destravar aquela PORRA de carrinho - que é duplo e parece um tanque de guerra. Resultado: as crianças tiveram que voltar para casa à pé. Mas eu precisava levar o carrinho junto. O percurso creche-casa, em condiçoes normais, dura em torno de 15 min, mas iriamos acompanhar o ritmo de um bebê de um ano e meio. Visualizem.
Peguei o carrinho com uma mao, peguei a guria com uma outra mao e o guri com uma terceira mao (nao me perguntem de onde surgiu essa terceira mao, mas leiam Darwin) e começamos a caminhar. Cinco minutos depois tinhamos avançado 67 cm. Calculei que chegariamos em casa no inverno seguinte. Olhei para o Céu e agradeci por aquele momento maravilhoso. Meia hora depois, chegamos na esquina onde deveriamos atravessar uma rua. Crianças querendo a todo custo soltar minha mao e eu com medo de quebrar ossinhos alheios.
Quando chegamos em casa, eu estava mais suada que pano de cuscuz. Quando a mae dos guris ouviu minha historia, ela disse que eu poderia ter deixado o carrinho na creche. "Eu também poderia ter deixado seus filhos na creche". "Que nada, foi tudo super tranquilo, tao bom! Adorei! Precisamos tentar de novo".
E quando o problema nao é desdobrar o carrinho, é dobra-lo. Eu sei que é vergonhoso que eu, como babah e Homo Sapiens, nao consiga manusear um carrinho de bebê, mas é que, normalmente, o carrinho ja estah armado, entao eu nunca lembro das instruçoes dadas ha tempos pelos pais quando preciso delas. "Para dobrar o carrinho é muito simples, Luciana: primeiro você aperta esse botao, empurra o carrinho pra baixo, puxa essa alavanca, gira o carrinho, joga ele pra cima, bate palma, entoa o hino da Tanzania (em aramaico, nao esqueça), pula três vezes, empurra e, quando você escutar um clack, c'est bon". Véi.
Um belo dia, cheguei no prédio com a gurizada, o carrinho de um soh lugar e as compras. Dou de cara com um elevador quebrado. Agora eu tinha ali a oportunidade de ver quantos invernos seriam necessarios para chegar ao terceiro andar com as crianças. Eu poderia ter dobrado o carrinho e coloca-lo nas costas, como uma mochila, mas claro, nao consegui dobra-lo. Peguei o carrinho com uma mao, os sacos de compras com a outra e vi bravamente a guria subir as escadas, toda lindinha, segurando no corrimao. Enquanto isso, o guri ia na frente dela: dava um passo e voltava três cada vez que a luz, automatica, desligava. Aih a gente subia no escuro até encontrar o proximo interruptor no andar seguinte. "Guri, anda! Soooobee! Segura! Segura no corrimao! Que monstro o quê, menino! Sobe logo!" Essa sou, pura e calma. Entao, me digam, como nao ficar doente?


